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O DUQUE DE BLACKMOOR

O DUQUE DE BLACKMOOR

Autor:: Andrea rodrigues
Gênero: Romance
O Duque de BlackMoor aprendeu a viver entre sombras desde o dia em que sua esposa morre em um trágico acidente. Frio, poderoso e cercado por rumores, ele transformou o coração em um lugar onde ninguém entra. Helena perde tudo em uma única noite e se vê sozinha diante de um túmulo, sem futuro e sem escolhas. É quando um estranho nobre cruza seu caminho e a leva para BlackMoor - um lugar onde o silêncio pesa tanto quanto os segredos. Entre culpas não ditas, gestos contidos e uma atração que jamais deveria existir, Helena percebe que algumas verdades podem destruir mais do que a perda. E quando o passado retorna para cobrar seu preço, ela precisa decidir se o amor é capaz de sobreviver àquilo que nunca deveria ser revelado. Um romance intenso sobre mistério, desejo e as consequências de amar alguém envolto em sombras.

Capítulo 1 O LUTO, A DESPEDIDA DO CHANCELER

A notícia não viera com gritos. Chegara baixa, respeitosa, como se até a tragédia soubesse que precisava se curvar diante do nome que ele carregara em vida. O chanceler estava morto. Encontrado sozinho, em um quarto fechado, com cartas rasgadas sobre a escrivaninha e uma decisão irrevogável gravada no próprio destino.

Não surpotou sustentar o peso das próprias escolhas. Ninguém sabia ao certo por quanto tempo ocultou da esposa sobre o lhe atormentava, mas certamente tornou-se assunto entre os mais importantes de Saint German.

Por trás da postura firme e das decisões calculadas, havia um homem em ruínas, consumido por um silêncio que ninguém soube ouvir a tempo. Sua ausência não foi anunciada por palavras, mas pelo vazio que deixou - um vazio que ecoou nos corredores do poder e nas memórias daqueles que acreditaram conhecê-lo.

O que restou foi a sensação amarga de que algumas dores se escondem tão bem que só se revelam quando já não há retorno.

Ela soube antes do amanhecer, quando o céu ainda hesitava entre a noite e o dia. Não chorou de imediato. Sentou-se à beira da cama, as mãos entrelaçadas no colo, sentindo o peso de um mundo que desabava em silêncio. O homem que fora seu marido - respeitado, elegante, influente - escondia por trás dos discursos impecáveis um vício antigo: as apostas, os jogos de risco, as promessas feitas à sorte como quem implora por redenção.

E perdera tudo.

Cada moeda. Cada propriedade. Cada favor político conquistado ao longo dos anos, os títulos como Chanceler, exatamente tudo. Exceto o filho que fora gerado no ventre de Helena. E justamente naquele dia, seria o dia em que ela lhe daria a notícia, após os exames feitos na Capital. Talvez se tivesse dito a tempo, quem sabe ele não tomaria a decisão que havia tomado, pensei Helena.

As dívidas haviam crescido como uma sombra, avançando até não restar saída. Ele escolhera a morte como quem fecha uma porta com cuidado, acreditando poupar o nome... e talvez poupá-la. Preferiu aguentar as consequências sozinho ao seu modo, porém foi Helena que teve que juntar os destroços deixados e buscar forças para seguir adiante....sozinha.

No dia do funeral, vestia-se de preto da cabeça aos pés. O vestido era simples, mas impecável. O chapéu antigo escondia parte do rosto, e os longos cabelos ruivos escapavam discretamente, desafiando o luto com sua cor viva, como cascatas douradas que desviam pelo seu rosto.

Homens de cartola, mulheres envoltas em tecidos caros e julgamentos silenciosos. Representantes de uma sociedade à qual ela nunca pertencera de verdade. Eles sabiam. Sempre souberam. A jovem ruiva vinda de uma origem modesta, escolhida por um homem poderoso contra as convenções, nunca fora plenamente aceita. Não vinha de famílias importantes, no entanto nunca deixou se abater pelos olhares tortos das elegantes senhoras daquela sociedade.

Agora, sem ele, tornara-se apenas uma lembrança inconveniente.

Ainda assim, respeitavam-na.

Não por ela - mas pelo chanceler que fora seu marido. Pelo nome que ainda ecoava entre os túmulos, forte o bastante para conter o desprezo, ao menos por algumas horas.

Ela permaneceu silenciosa, quieta durante toda a cerimônia. Não se apoiou em ninguém. Não vacilou quando o caixão desceu à terra. Cada gesto seu era observado, medido, comentado em murmúrios contidos. Esperavam vê-la quebrar-se, desesperar-se. Esperavam um sinal de fraqueza que confirmasse o que sempre pensaram, ou simplesmente para rirem de sua desgraça, viúva e falida.

Mas Helena não lhes deu esse prazer.

Somente quando o último discurso terminou e as pessoas começaram a se dispersar, a verdade se acomodou por inteiro em seu peito: não havia herança, não havia proteção, não havia futuro garantido. Nem ao menos pode retirar suas jóias, valores, nada. Apenas a roupa que vestia seu corpo no funeral.

A chuva começou a cair.

Fria, constante, como se o céu também soubesse que não havia mais nada a ser dito.

Ela permaneceu diante do túmulo, sozinha, enquanto os passos se afastavam. Sentia-se desolada, sim - mas algo dentro dela se mantinha firme. Talvez orgulho. Talvez instinto de sobrevivência.

Ou talvez a certeza silenciosa de que aquele não era o fim, agora mais do que nunca precisaria ser forte por aquela criança.

Mas ela não estava só, alguém, à distância, observava.

E quando o céu desabou em tempestade, o peso do seu espírito abatido cedeu com a roupa encharcada.

Ela não reagia. Sabia que decisões teriam que serem tomadas mas permanecía ali sobre seu túmulo como se esperasse despertar e que tudo aquilo fosse um pesadelo, um sonho ruim ao qual ela acabava de despertar.

O luto a esvaziara de tal forma que o mundo parecia distante, irrelevante. O corpo permanecia de pé, mas a alma... a alma já havia sido enterrada, junto ao Chanceler Eduard.

Os joelhos enfraqueceram, e ela se deixou cair sobre a terra encharcada, sem força para resistir, sem vontade de se levantar. Como quem se rende à sua própria dor, sem resistência.

Então, ele se aproximou.

Não disse seu nome. Não ofereceu palavras vazias. Apenas estendeu-lhe a mão.

Helena ergueu o rosto lentamente. Os olhos estavam molhados - não se sabia dizer se pela chuva ou pelas lágrimas que já não fazia questão de conter. Por um instante, pensou recusar. Mas não havia mais forças dentro dela.

Ele a ajudou a se levantar com um cuidado silencioso, quase solene, como se compreendesse a fragilidade daquele momento sem precisar ouvi-la confessar. Em silêncio, conduziu-a até a carruagem que aguardava à distância, as lanternas tremulando sob a tempestade.

Ela não perguntou quem ele era.

Não perguntou para onde iriam.

Seguiu-o como quem já não pertence a lugar algum. Tão pouco ele fez questão de se apresentar naquele lugar apenas a conduziu para que se sentasse

Sentada na carruagem, sentia o balanço do caminho enquanto a chuva batia contra as janelas. Estava presente apenas em forma. O corpo seguia, obediente. Mas a alma permanecia distante, perdida em algum ponto entre o túmulo recém-fechado e tudo o que deixara de existir.

Seu abatimento era eminente, talvez não fosse mesmo momento de explicações ou qualquer diálogo, momento apenas de silenciar enquanto iam atravessando os bosques escuros e tristes, como aquele dia em sua vida. Na carruagem a viúva do Chanceler Eduard, e um homem envolto em seus silêncio e seus próprios segredos um dos quais, Helena não imagina estar.

A sensação de nunca mais ver Eduard, era indiscretivel. Nunca mais o seu sorriso, nunca mais as tardes de chá e risos junto à biblioteca, agora apenas restarab solidário e incertezas.

Capítulo 2 O DUQUE DE BLACKMOOR

Haviam viajado por horas, e quando a carruagem finalmente reduziu o passo, Helena já não sentia o próprio corpo. O cansaço lhe pesava nos ombros, ardia nos olhos e se infiltrava na alma. A chuva cessara há algum tempo, mas o frio persistia, entranhado nas roupas ainda úmidas e nos pensamentos que se acumulavam, densos e silenciosos.

À sua frente, ergueu-se a residência do duque.

Não era um castelo de torres elegantes e contos românticos, tampouco um palácio destinado a festas e celebrações. Tratava-se de um antigo solar de pedra, vasto e imponente, construído para resistir ao tempo e aos homens. Suas linhas eram sólidas, quase austeras, como se cada parede tivesse sido erguida para proteger segredos e silêncios. O edifício principal se estendia horizontalmente, com alas largas e janelas altas, poucas delas iluminadas, lançando feixes amarelados que mal conseguiam vencer a escuridão da noite.

Muros altos cercavam a propriedade, cobertos aqui e ali por heras antigas, e os portões de ferro trabalhado rangiam levemente ao se abrirem, como se o próprio lugar reagisse à presença de estranhos. O ar era frio e carregado de um leve odor de terra molhada e pedra antiga. Não havia música, nem vozes - apenas o som distante do vento e o estalar ocasional de uma tocha.

O lugar impunha respeito. E, ainda que Helena não soubesse explicar por quê, também despertava um temor discreto, quase reverente.

Ele desceu primeiro da carruagem.

O duque era um homem mais velho, mas de uma beleza rara - madura, contida, severa. Alto, mantinha a postura ereta de alguém acostumado a comandar sem precisar elevar a voz. Os traços firmes do rosto pareciam esculpidos pelo tempo, não pela vaidade. Os cabelos escuros já eram tocados pelo cinza nas têmporas, e os olhos profundos, quase negros, carregavam uma sombra que Helena não soube decifrar.

Não era um olhar cruel, tampouco hostil. Era distante. O olhar de alguém que aprendera, ao longo dos anos, a esconder sentimentos atrás do silêncio - como se o próprio solar fosse um reflexo de quem o habitava.

Assim que atravessaram o grande portal, foram recebidos por alguns criados que aguardavam em silêncio respeitoso. Inclinaram levemente a cabeça em saudação, os rostos atentos, como se cada movimento fosse cuidadosamente ensaiado. O calor do interior contrastava com o frio da noite, trazendo consigo o aroma de lenha queimada e cera derretida.

O salão principal se revelou amplo e solene. O piso de pedra polida refletia a luz suave dos candelabros fixados nas paredes, e uma lareira majestosa ardia ao fundo, lançando sombras dançantes sobre tapeçarias antigas que narravam batalhas e brasões esquecidos pelo tempo. O teto alto, sustentado por vigas de madeira escura, dava ao ambiente uma sensação de grandiosidade silenciosa, mais próxima da contemplação do que da ostentação.

O duque retirou o sobretudo com um gesto contido e passou o olhar pelo salão. Não precisou elevar a voz.

- Senhora Madeleine - disse, firme, porém calmo.

A governanta aproximou-se de imediato. Era uma mulher de postura impecável, cabelos presos com rigor e olhar atento, daqueles que nada deixam escapar. Curvou-se respeitosamente.

- Providencie para que a senhorita Helena seja conduzida a um quarto aquecido. Que lhe tragam roupas secas, algo confortável - fez uma breve pausa, lançando um olhar discreto para Helena, avaliando-lhe o estado - e que o jantar lhe seja servido em seus aposentos.

Madeleine assentiu prontamente.

- Sim, Vossa Graça.

O duque continuou, com a mesma serenidade que tornava suas ordens incontestáveis:

- Ela é uma convidada. Espero que seja tratada como tal. Cuidem para que nada lhe falte.

- Será feito - respondeu a governanta, com convicção.

Nesse momento, o mordomo aproximou-se do duque, murmurando algo em voz baixa. Sem mais palavras, ele fez um leve gesto afirmativo e seguiu ao lado do homem, seus passos ecoando pelo corredor principal até desaparecerem na penumbra, deixando para trás apenas o crepitar da lareira... e a estranha sensação de que aquele lugar, apesar de austero, começava a se mover em torno de Helena.

No quarto, a governanta ajudou-a em silêncio, com gestos cuidadosos e experientes. Desfez os fechos do vestido ainda úmido, trouxe uma camisola limpa e macia, e tratou de reacender o fogo da lareira até que o ambiente se tornasse acolhedor. Pouco depois, uma criada retornou com uma sopa quente, cujo vapor suave subiu como um convite ao descanso. Helena sorveu as primeiras colheradas lentamente, sentindo o calor espalhar-se pelo corpo cansado.

Depois daquele dia terrível, aquele simples gesto de cuidado lhe pareceu um abrigo. Um raro instante de amparo em meio ao caos.

O quarto era amplo, porém delicado. Havia ali sinais claros do uso feminino: uma escova de cabelos repousava sobre a penteadeira, frascos de perfume quase vazios alinhavam-se com cuidado, e uma colcha clara cobria a cama, contrastando com a austeridade do restante do solar. Não parecia um aposento de hóspedes qualquer. Havia intimidade demais naquele espaço.

Na parede, um quadro chamou sua atenção.

Retratava uma mulher de rara beleza, olhar sereno e profundo, olhos amendoados que pareciam acompanhar quem os fitasse. Os traços eram suaves, mas havia força naquele semblante - uma presença que atravessava o tempo e a tela. Helena sentiu um leve aperto no peito.

Quem seria ela?

Seria aquele, de fato, o seu quarto?

Antes que pudesse formular tais perguntas em voz alta, a governanta aproximou-se novamente.

- Estarei à disposição, senhorita, caso precise de algo - disse com gentileza contida, antes de se retirar e fechar a porta com discrição.

Sozinha, envolta pelo silêncio e pelo calor da lareira, Helena deixou o corpo ceder. Deitou-se ainda com pensamentos dispersos, mas o cansaço venceu qualquer tentativa de entendimento. Ali, entre lençóis desconhecidos e mistérios não ditos, adormeceu profundamente - exausta demais para pensar, exausta demais para sofrer.

Enquanto o sono a envolvia, Helena respirou fundo, como se, pela primeira vez em muito tempo, pudesse descansar sem medo. Aquele lugar estranho, de paredes antigas e histórias ocultas, oferecia-lhe algo que há dias lhe fora negado: silêncio. Não o silêncio da solidão, mas o da pausa necessária para não desmoronar.

Capítulo 3 NOITE SEM RESPOSTAS.

Helena foi avisada naquela tarde de que jantaria com o duque.

A informação não veio acompanhada de explicações, apenas da naturalidade com que uma das governantas a transmitiu, como se fosse algo esperado desde o momento em que Helena cruzara os portões de Blackmoor. Ainda assim, sentiu o peso da notícia pousar-lhe sobre os ombros. Mas provavelmente saberia melhor sobre quem era o Duque de BlackMoor.

- O duque solicitou sua presença à mesa esta noite - disse a senhora Ellison, com a voz baixa e respeitosa. - Pediu também que escolhesse o vestido que desejar no armário.

Helena ergueu os olhos, surpresa.

- Qualquer um?

A governanta assentiu com um leve sorriso contido.

- Exatamente como disse.

Enquanto Helena passa os olhos sobre os vestidos no armário, ela pergunta sobre de quem era o quarto de era da mulher do quadro na parede.

- Quem é ela? - perguntou Helena, voltando-se para a governanta. - Esta era... a esposa do duque?

A senhora Ellison assentiu, com respeito.

- Lady Montford. A duquesa de Blackmoor. Faleceu no último inverno.

Helena hesitou antes de fazer a última pergunta.

- Este era o quarto dela?

A governanta demorou um instante a responder.

- Sim. O duque pediu que fosse preparado para recebê-la. Poucas coisas foram alteradas desde então.

Helena voltou o olhar para o retrato. Compreendeu, naquele momento, que Blackmoor não guardava apenas silêncio, mas memórias. E que ocupar aquele espaço não era um gesto casual - era uma escolha carregada de significado, ainda que ninguém se dispusesse a explicá-lo.

Sozinha no quarto, Helena caminhou até o amplo armário que até então lhe parecera quase intimidante.

Vestidos de tecidos nobres, cortes impecáveis, cores profundas. Não eram roupas pensadas para impressionar, mas para representar algo maior do que vaidade: posição, sobriedade, tradição.

Escolheu um vestido simples, de tom azul escuro, discreto e elegante. Não queria parecer uma convidada deslumbrada, tampouco alguém deslocada. Havia algo naquele jantar que exigia respeito - ainda que ela não soubesse exatamente o porquê.

Quando desceu, a sala de jantar estava iluminada pela lareira e por poucas velas. Raphael já se encontrava à mesa. Levantou-se ao vê-la entrar, num gesto contido, quase cerimonial.

- Senhora Helena - disse, com a voz grave e tranquila. - Espero que a casa não a esteja tratando mal.

- A casa é silenciosa - respondeu ela, após um breve instante. - Mas não hostil.

Um leve brilho passou pelos olhos do duque. Ele indicou o lugar à sua frente, aguardando que ela se sentasse antes de fazê-lo.

O jantar transcorreu em silêncio respeitoso. Não desconfortável, mas atento. Raphael observava mais do que falava. Helena percebeu que cada gesto dele era medido, como se até o simples movimento dos talheres obedecesse a uma disciplina invisível.

Foi ela quem quebrou o silêncio.

- Posso fazer uma pergunta, duque?

Ele pousou os talheres lentamente.

- Claro.

Helena sustentou o olhar.

- Posso perguntar algo mais pessoal, duque?

Raphael ergueu o olhar, atento.

- Se desejar.

- O senhor... era amigo do meu marido?

Por um instante, o duque não respondeu. Não por hesitação, mas por respeito à pergunta. Pousou os talheres com cuidado antes de falar.

- Eu o conhecia - disse. - E o respeitava dentro dos limites que ele mesmo impunha.

Helena franziu levemente a testa.

- Então foi por isso que me trouxe para Blackmoor?

Raphael sustentou o olhar dela, firme, sem dureza.

- Não apenas por isso.

Houve uma breve pausa, e então ele continuou, com a voz mais baixa:

- O chanceler não pensou nas consequências de suas escolhas. Ao agir como agiu, deixou uma esposa sem proteção, sem recursos... sem respostas.

As palavras não carregavam julgamento, mas constatação.

- Não creio que tenha sido sua intenção - completou. - Mas a ausência também é uma decisão. E decisões têm custos.

Helena sentiu o peso daquelas palavras mais do que qualquer acusação. Raphael não falava como alguém que condenava, mas como alguém acostumado a lidar com perdas.

- Blackmoor não costuma acolher estranhos - concluiu ele. - Mas não considerei justo que arcasse sozinha com o que não causou.

Não era uma explicação. Era uma constatação.

Helena percebeu que não obteria mais do que aquilo naquela noite. Ainda assim, sentiu que havia ultrapassado um limite invisível, como se aquele jantar fosse menos um convite e mais um início.

Quando se levantaram, Raphael inclinou levemente a cabeça.

- Boa noite, senhora Helena.

- Boa noite, duque.

Ao deixar a sala, Helena teve a clara sensação de que Blackmoor não era apenas um lugar de passagem. E que Raphael Alastair Montford carregava mais perguntas do que estava disposto a revelar.

Sozinha no quarto, Helena fechou a porta com cuidado.

A conversa à mesa ecoava mais do que deveria - não pelas respostas que recebera, mas pelas que lhe foram negadas.

O duque falara como alguém que não improvisa. Como um homem acostumado a decidir antes de explicar.

Pela primeira vez desde que chegara a Blackmoor, Helena compreendeu que sua presença ali não era fruto do acaso.

E que, gostasse ou não, algo já havia sido colocado em movimento.

A ausência do marido ainda lhe parecia recente demais para ser aceita, pesada demais para ser explicada. Havia noites em que o silêncio a sufocava mais do que qualquer palavra dita à mesa. Pensou em tudo o que perdera - não apenas o homem, mas a vida que julgara segura.

Levantou-se e aproximou-se da janela. Por um instante, teve a nítida sensação de não estar completamente só. Um movimento sutil no jardim, uma sombra mal definida entre as árvores. Helena conteve a respiração, tentando distinguir formas, mas nada se revelou com clareza. Apenas a certeza incômoda de que algo - ou alguém - observava.

Afastou-se, fechando as cortinas com cuidado. Talvez fosse apenas o cansaço, talvez o luto distorcendo seus sentidos. Ainda assim, ao deitar-se, compreendeu que Blackmoor não era apenas um refúgio concedido por compaixão.

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