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O Defunto Morreu

O Defunto Morreu

Autor:: TONY SALES
Gênero: Aventura
É uma narrativa muito interessante: um homem morre subitamente entalado. De uma forma sobrenatural, assiste o seu próprio velório. Durante algumas horas de velório, muitas revelações são feitas, e o que ele pensava de ter uma vida sobre seu domínio, se torna uma grande confusão. Sua esposa depois que fica sabendo de algumas coisas que ele tinha feito, supostamente pela ira, tenta mata-lo outra vez. A morte lhe revela muitas surpresas.

Capítulo 1 A MORTE É UMA SURPRESA

Por causa da minha vida sem tempo, era muito raro eu estar reunido com minha família. Em um desses dias raros, resolvi jantar com minha esposa e com meus filhos. Madalena, minha esposa, mulher prendada em todos os sentidos, preparou um jantar especial, sabendo que eu estaria com eles. Fez a minha comida predileta, preparou uma peixada, o meu filho caçula era uns dos mais animados com a presença do pai que era sempre ausente sem percepção.

Mas o inesperado aconteceu, estava eu saboreando a peixada, quando me entalei com uma espinha de peixe, foi muita tosse, falta de ar, bateram nas minhas costas com a mão aberta, me fizeram comer farinha, mas nada da espinha descer ou sair, mas a situação piorou, tudo isso culminou. Não sei dizer se foi um enfarto ou sufocamento, não consigo acreditar, mas nesse exato momento estou assistindo meu próprio velório, as minhas crianças, não sei dizer se estavam penalizadas por meu passar, ou simplesmente comovidas pelos acontecimentos, por estar vendo o sofrimento de Madalena.

Madalena, mãe dos meus seis garotos e das minhas moças, que eram duas, a mais velha tinha apenas dezessete anos, a mais nova tinha quinze anos.

Minha amada esposa, seu estado de desconsolação era lastimável, fiquei extremamente comovido por tanto sofrimento, eu mesmo não sabia que ela me devotava tanto amor, para mim foi surpreendente.

Eu aqui, impassível e inconsolado, por não consegui consolar a minha querida esposa e os meus filhos. Estou profundamente abatido e sem entendimento. - Como pode, eu estar assistindo meu próprio velório? Nunca acreditei em vida após a morte!

Em meu psicológico, se ainda existe, tenho plena certeza que tudo que está acontecendo não deve fazer parte da realidade, e tudo isso é um sonho e acordarei daqui mais uns minutos, mas mesmo nesse sonho, o desistir não deve me influenciar de nenhuma forma.

O mais engraçado é que eu consegui persistir, talvez fosse uma luta irrelevante, cheguei junto do próprio corpo, sensação estranha, me ver dentro de um caixão esperando apenas o momento de colocar a tampa e seguir rumo ao cemitério, fiquei alguns instantes me olhando, e tomei a iniciativa de tentar levantar meu corpo, uma tentativa em vão, não conseguia tocá-lo, pelo menos tentei transformar aquela minha cara sisuda, pegando em minha própria face lutando para deixar uma face com um pouco de contentamento, mas, outra tentativa em vão.

Cheguei à conclusão que meu corpo não se conformou com a morte, e por isso a face sisuda e sem aceitação da morte, eu me pergunto: - Pode alguém se conformar com a morte? - Na verdade, acho que nem aqueles que tiram a própria vida se conformam com a morte.

Mas, eu não me entregarei, jamais aceitarei a morte, a minha morte de uma forma tão banal, eu era muito novo, com uma vida inteira pela frente, não deixaria de existir facilmente, não me entregarei!

Nunca em minha vida fui moribundo ou convalesci na cama de um hospital, nem ao menos uma dor de cabeça eu sentia, jamais fui um paciente com alguma enfermidade nas mãos de algum médico, uma coisa que nunca entendia muito bem: Um doente sendo chamado de paciente! Para mim isso mais parecia uma ironia do destino ou dos homens, porque pelo o que presenciei em minha vida, foram doentes geralmente impacientes.

Sempre fui um homem batalhador, consegui me estabilizar financeiramente muito bem, dono de várias posses e uma conta bancária ótima, jamais deixei faltar o sustento da minha família, meu lema de vida era: desistir jamais por fadiga ou cansaço, tudo pode ser superado nessa vida, até mesmo as derrotas servem de base para o recomeço, quando não há mais esperança, é porque a morte fez parte.

Irônico é que a minha pessoa, talvez inexistente agora, está começando a acreditar que isso não é um sonho, se for verdade a esperança já era, mas ainda vou persistir, perseverar, mesmo que a esperança esteja por um triz. Esperança é trilhar as sendas da sua própria história sem o medo de ser atropelado pelos sintomas da vida que às vezes são assintomáticos fazendo o destino duvidar.

Parei um instante para olhar aquele corpo no caixão, apesar da face sisuda, existia uma perfeição naquele rosto sem nenhuma mancha ou mácula, eu me imaginei um ator de filmes de faroeste, face rude, pose de galã. A maquiagem geralmente esconde os defeitos, transformando todos os traços de inconformidade.

Voltando ao assunto, dentre as pessoas que estavam ali, existia uma pessoa em especial, meu melhor amigo, além de sócio nos negócios, mas a minha cara de espanto era muita, ele se aproveitando de um momento frágil da minha digníssima esposa, enquanto a consolava, umas das suas mãos bobas estavam de uma forma disfarçada sobre as coxas da minha Madalena, eu fiquei irado, meu melhor amigo se aproveitando de um momento de infortúnio, eu imediatamente saí do meu lugar de observação, desci até eles, tentei lhe dar um soco naquela cara safada que já conhecia há muito tempo, mas as minhas mãos passavam por ele como se fosse vento, minha cólera era muito grande, que cheguei a pensar no céu, não por causa da pretensão e alegria de provavelmente fazer parte do paraíso, mas por sentir raiva que não teria direito a estar desfrutando de um céu. Minha suma vontade era estrangular aquele cara de pau, mata-lo.

Fiquei horrorizado com o meu próprio cachorro, precisamente indignado, um ser que eu mesmo o alimentava, para falar a verdade, ele era o único ser naquela casa que eu dava atenção, mas naquele momento humilhante, ele estava sendo ingrato, vendo Raul, meu melhor amigo passando as mãos nas pernas de Madalena, eu gritava em vão: - Morde a mão dele, Tupã! - Madalena, tão inocente que não percebia a intenção daquele pilantra, e para completar a minha cólera, o miserável cão infiel estava lambendo as mãos do Raul, agora eu vejo que só temos valor na vida enquanto estamos vivos, mesmo que esse valor seja irrisório, mas, o mais importante é estar vivo para se fazer notado.

O pior de tudo isso era que o miserável cão infiel parecia estar me vendo, bem que eu ouvia as pessoas dizerem enquanto eu estava vivo, que os cães conseguem ver os mortos, e ele estava me vendo, não cessava o latir, me olhando fixamente com muita ferocidade, eu fui salvo por um estranho ponderado que pegou a guia e o prendeu, retirou ele do recinto, infiel cão, sempre o alimentava com bananas, algo que ele gostava muito.

Mas a decepção era maior com o outro amigo infiel, meu corpo ainda estava quente, ele já pretendia esquentar o corpo da minha Madalena, por um momento ele se vigiou e viu que alguns ali no velório já percebem as suas pretensões com relação a Madalena, e retirou a mão da perna dela, mas eu fiquei boquiaberto ao perceber que Madalena não havia gostado da desistência dele no uso das mãos , ela parecia estar gostando daquelas mãos bobas, que para mim, eram idiotas, eu conhecia perfeitamente essa mulher e sabia do que ela gostava, não foi à toa que tivemos oito filhos, meu corpo rígido, morto, ainda não se decomponha, ela já estava maquinando travessuras com Raul, em sua mente, que eu com toda certeza sabia ser muito fértil para fazer mil e umas travessuras, estranhas peripécias!

Se os mortos sentem agonia, agora eu sentia uma angústia tão grande misturada com decepção, eu estava vendo tanto sofrimento na face de Madalena minutos atrás, mas agora vejo outra coisa, imaginei que ela guardaria um luto de pelo menos um ano, mas vi sua mente aflorando numa puberdade adolescente, desabrochando como flores ao amanhecer.

Pensei, raciocinei, imaginei o futuro sem a minha presença naquela casa, mas percebi que não era percebido, talvez antes da minha própria fatalidade, algo já estivesse acontecendo entre Raul e Madalena, desconfianças de um homem morto, supostamente traído.

Depois do súbito sucumbir da minha existência, a minha audição ficou poderosa, pois geralmente eu me fingia de surdo enquanto eu vivia, eu só conseguia ouvir o que me era conveniente, o mais impressionante era que eu não aceitava críticas, mas me encontrava fazendo críticas a mim mesmo.

Comecei a ouvir sussurros casuais aos meus conhecimentos de andante pela vida, eram sussurros prazerosos, eu duvidei por uns instantes, mesmo em meios aos sussurros consegui reconhecer em fração de segundo a voz da minha filha de dezessete anos, resolvi investigar, ainda não conhecia a lei que regia os que já morreram, nem ao menos se me era permitido ver cenas como essas, mas como se tratava da minha filhinha mais velha, eu não pensei duas vezes, fui observar, a minha vergonha foi extrema. Jamais imaginei presenciar uma situação assim, ainda bem que eu me encontrava supostamente morto, pois eu ainda acreditava que tudo isso era um sonho.

A decepção tomou conta do meu ser, já não sabia o que era a minha pessoa, talvez fosse eu espectro de uma sombra. Morte paupérrima!

Quase chorei, não conseguia acreditar no que eu estava vendo, o mais interessante era que eu sentia as lágrimas inconscientes, elas não eram comtempladas por mim, e nem se manifestavam, triste sina de um morto, não era permitido lacrimejar, eu me perguntei: -Eu agora estava isento de emoções?

A minha filha, a garotinha que mimei, estava igual uma onça, tenho até vergonha de mencionar o que ela estava fazendo, mas acho que foi a melhor maneira que ela achou para ser consolada diante do meu óbito, ainda me espantei mais quando vi quem era o ser que proporcionava tantos sussurros e reações que não ouso mencionar, sempre pensei que ele era apenas o melhor amigo dela, mas agora estava vendo que era algo a mais. Eu era cego ou ausente? Não tenho coragem para responder, mas talvez fosse um covarde fugindo das responsabilidades afetivas com meus filhos.

Fiquei pensando no quanto eu mesmo me iludia, achando que era tudo perfeito, eu achava que aquela criaturinha meiga quando criança, ainda era um ser puro, e agora eu descobri uma fera, mas eu ponderei, talvez ali fosse um momento de desabafo sem palavras, uma forma de tirar as frustrações, pensei no quanto ela me amava, mas também achava que ela estava se lamentando de uma forma errada, mas talvez, mais uma vez estivesse me iludindo, que aquilo tudo fosse um mero momento de satisfação pessoal.

Cheguei à conclusão de que realmente não me era permitido ver tais cenas, que me fizeram corar de vergonha, se realmente me era possível ter tais reações.

Senti a necessidade de saber como estava minha outra filha. Não havia percebido a presença dela na sala onde estava acontecendo o velório, eu implorei na consciência inconsciente para que não esbarrasse em mais nenhuma decepção, eu tinha oito filhos com Madalena, seis garotos, e duas garotas lindas, não foi decepção, mas senti apatia diante da minha morte por parte da minha garota de quinze anos, parecia que não estava nem aí para o que estava acontecendo lá na sala, insensivelmente estava usando as mídias sociais para bater papos com suas amiguinhas e amiguinhos, em nenhum momento eu escutei ela dizer: - Meu pai faleceu! - Cheguei a pensar que ela não falava de mim, porque realmente eu não tinha morrido e era apenas um sonho.

Miserável ser humano que fui, e se algum dia fui humano, pois estou vendo que somente causava estranheza afetiva, sinto agora como um tapa na cara, que falta nenhuma farei, na morte eu sentia o gosto amargo do desprezo. Despida e crua realidade de saber que eu não era amado em vida e nem em morte!

O que se manifestava em mim agora na morte, nunca tive tempo para apreciar em vida, estava apreendendo estranhamente uma lição dolorosa. Sempre fui esforçado e quem pensa que não precisa de esforço para sobreviver na vida, vive de ilusões.

Incertezas me eram colocadas diante da minha suposta morte, eu estava extremamente ofendido com minha própria morte, cruel, sem aviso prévio, supostamente arrogante, chega assim, sem diálogo de rompante, rouba a existência dando gargalhadas de escarnio.

Era tão fácil sentir ódio em vida, mas sempre foi o amor que dava sentido a ela, nos perdemos nas migalhas da incompreensão e arrumamos tempo para odiar, posso agora fazer comparações entre as duas existências, a morte e a vida, às vezes não percebo diferenças, as duas são cruéis, só que uma delas usa mais sutilezas do que a outra, resta saber qual delas!?

Tantas vezes eu me calei diante das ofensas por pura comodidade e não por sabedoria, mas agora nesse exato momento a sabedoria grita a mim para ser usada, e eu duvidava se ela era a própria ofensa, agora eu já não sabia diferenciar se o silenciar era sabedoria ou covardia.

Os camaradas botões, que eu conversava as minhas inquietações, não tinham reposta em vidas, imaginem em morte! Eles eram ouvintes que não opinavam, conselheiros silenciosos esses meus botões, já não sabia se vagava por aquele pequeno espaço solitário, não sabia também se aquele espaço seria vasto ou limitado, não sentia mais a firmeza do chão, somente a oscilação do espaço ócio, meu ser se tornara intocável, minha pele era aquela que estava dentro do caixão, tudo estava se desfazendo, e eu passei a vida toda construindo, até que enfim um momento de alegria me surgiram aos olhos, minha lucidez apareceu por meros minutos, uma alegria instantânea senti, aquela voz que eu reconheci imediatamente ainda sem titubear, o meu filhinho mais novo dizendo: - Meu pai morreu?

Mas onde estavam os outros cincos?

Fiquei sensivelmente penalizado pelo meu garotinho que às vezes até errava o nome, para ninguém perceber só chamava ele de caçulinha, me deparo com a incerteza de qual seria o nome dele mesmo?

O sofrimento dele era por ter perdido o pai que não teve tempo de ser pai, e o meu sofrimento, era por não saber se eu realmente tinha cumprido o meu papel de pai um dia,

Me faço mais uma pergunta que eu mesmo não tenho habilidade para responder: - O que é ser um pai de verdade?

Enquanto meu caçulinha estava ali a choramingar aquele corpo no caixão, procurando entender o que era realmente a morte, acho que ele pensava que eu só estava dormindo e logo levantaria dali, mas resolvi então dar uma volta para saber onde estavam os outros garotos, encontrei eles no jardim bem afastado da residência jogando bola como se nada tivesse acontecendo lá dentro, eles se divertiam muito, e para minha surpresa, apareceu o caçulinha para se juntar a eles na brincadeira. Definitivamente eu era um estranho na minha própria casa!

Será que eu era tão ausente que o amor à minha pessoa tinha sido me negado e eu só estava percebendo agora? Tentei chorar mais uma vez, porque minha vontade era gritar, extravasar essa angústia que nem eu mesmo conhecia em mim, nunca tive tempo na vida para tais sofrimentos, não precisava lamentar por nada.

Mas, em morte, o que seriam lágrimas de alívio, se tornam em uma indiferente mão me sufocando retendo minha respiração, que eu imaginava ainda possuir; ilusão desenfreada de um morto desvairado! A natureza escuta o meu apelo, o vento tenta me acariciar, mas agora a insensibilidade tomou conta da minha existência, me sinto o único morador daquele espaço sem explicação, que ninguém consegue ver ou presenciar, nem ao menos sei falar se eu verdadeiramente existo.

Pensando bem, a insensibilidade já era parte do meu ser quando eu era vivo, só que eu vivia num mundo tão ilusório que não conseguia me condenar, achava que tudo era correto, os erros eram vistos como prognósticos de certezas, não havia quem conseguisse me corrigir, um ser orgulhoso e prepotente que jamais aceitou a correção de seres que supostamente eram vistos, por mim, como inferiores.

Capítulo 2 SEGREDOS REVELADOS

Lá fora um carro estaciona, tento reconhecer de quem seria aquele possante, mas não consigo, vejo alguém saindo amparado por um senhor que parecia ser irmão do meu falecido pai, era uma mulher se movendo lentamente, uma criatura frágil, talvez pela emoção dos acontecimentos, ela não está conseguindo se locomover sem ajuda daquele senhor que agora nitidamente percebo que é realmente meu tio, ainda não havia se aproximado do meu caixão e o pranto já ecoava, com lágrimas transbordando em sua face; meu corpo frio gelado como a própria lápide que seria meu túmulo, eu era filho único daquela mulher

agora frágil, mas na minha vida sempre me espelhei nessa mulher que não desistia facilmente de nada, uma mulher guerreira e vencedora, me deu a educação necessária à minha vida, me preparou para ser um homem bem sucedido, nisso ela teve todos os méritos, eu não teria como reclamar da minha vida financeira, tudo que tocava, se transformava em ouro, talvez um rei Midas melhorado, sem a maldição do próprio toque, a estabilidade me proporcionou tudo de bom e do melhor à minha família.

Minha querida mãezinha se aproxima do caixão, sinto suas lágrimas caírem no meu rosto enrijecido pelo o sucumbir da vida, um choro que me cortava o coração, mas então num certo momento, ela inclina a cabeça, até pensei que fosse beijar a minha face, mas sua boca foi até ao meu ouvido, e algumas palavras foram sussurradas e ouvi:

- Meu filho tantas vezes eu tentei te falar, mas não consegui a coragem necessária!

Ela respira fundo, eu tive medo, uma revelação que não foi em vida, ela não conseguiu dizer, mas agora não teria tanta importância, eu estava morto e não fazia muita diferença a revelação, assim eu acho que ela estava pensando, o improvável estava acontecendo, nunca na minha vida consegui imaginar alguém que estava morto, sentindo medo, ela se inclinou novamente, agora mais aliviada das lágrimas, quase não havia mais choro, e dispara a revelação atordoante ao meu ouvido, eu escutei, ninguém mais naquela sala conseguiu ouvir:

- Meu filhinho, que Deus tenha seu pai em um bom lugar, e se você merecer estará junto a ele também, se você o encontrar, dê um abraço nele por mim!

Ela tinha tanta certeza que eu estaria ouvindo, que falava como se eu estivesse respondendo e aceitando de boa toda essa situação.

Era isso? Eu nunca acreditei nessas baboseiras! Por que deveria acreditar agora? Pensando bem, acho que deveria agora usar o benefício da dúvida, olha o meu estado, morto no caixão, e eu aqui ouvindo minha mãe falar comigo! O que seria isso então?

Um dia quem sabe estaremos os três lá nesse lugar bom, minha mãe continua sussurrando:

- Eu sei que não merecia seu pai, ele era um homem muito bom!

Agora a dúvida pairava em meus pensamentos como fogo incessante: - Minha adorável mãe estava dizendo que não tinha merecimento a esse lugar bom, junto ao meu pai?

Acho também que ela sabia algo a meu respeito que fazia ela duvidar se eu iria para o tal céu, pensando bem, acho que é melhor ficar por aqui, o céu deve ser muito monótono, lotado de carolas, jamais conseguiria viver em um lugar assim! Minha mãe continua sussurrando.

- Filho, eu sinto muito te falar, mas seu pai que te criou muito bem não era seu verdadeiro pai!

- Como assim, eu fui adotado, uma vida de engano?

- Meu filho, eu te peço perdão pelo que revelarei agora, mas você era filho do seu tio, irmão do seu pai!

- O quê? - Acho que até minha cara dentro do caixão fez uma cara de espanto, quase morri outra vez com essa revelação, ainda pior, aquela mulher que era minha mãe, que eu achava ser uma mulher ilibada, agora descobrindo que ela pulava a cerca. Logo com meu tio, aquele cara de fuinha!

O que de pior poderia me acontecer além da morte?

Senti meu coração dentro do caixão disparar no meu corpo, eu senti a sensação de uma taquicardia, ele parou novamente, e o defunto morreu!

- Como assim, eu não sou filho do meu querido pai?

O drama continua, minha cabeça parece pesar, a minha mortalidade estava querendo saltar do caixão e dar umas repreendas nessa velha puladora de cerca, mas pensando bem, acho que foi meu tio quem pulou a cerca, o drama era aceitação, depois de morto descobri que meu pai era meu tio, e o meu tio era meu pai, uma enorme confusão na minha cabeça inexistente, mas persistente em querer continuar pensando, minha mãe não desiste da prosa ruim, tenho até medo do que virá a mais, toda revelação tem pormenores, é disso que eu tenho medo, talvez ela me queira detalhar acontecimentos, eu não estou preparado para encarar essa realidade.

Às vezes no ímpeto da impulsividade cometemos erros irreparáveis, eu acho que foi nesse momento que minha mãezinha escorregou, pelo menos é o que eu penso.

Mas os meus ouvidos não escaparam aos detalhes:

Capítulo 3 DESLIZE

- Você meu filho foi um deslize do acaso, que se tornou fato nove meses depois, Eustáquio que era seu tio, agora seu pai, me encantou e eu cedi sem medo, me apaixonei, e o amei, mas seu pai nunca desconfiou

Primeira vez que ouço a palavra cedi nesses termos, ela deveria me poupar desses detalhes sórdidos, o que é pior, ainda diz que eu fui um deslize, eu nem me lembrava do nome dele, agora sei que ele é meu verdadeiro pai, se chama Eustáquio, estou me sentindo profundamente mal, pensando em minha breve vida, meu verdadeiro nome não era Gaspar, era simplesmente deslize, ainda bem que me encontro morto, pois se estivesse vivo, enfartaria agora sem salvação!

Olhei diretamente para o velho safado cara de fuinha, amigo da onça, pegou a mulher do próprio irmão e ainda fez um filho para ele criar, agora eu tinha que aceitar a realidade nua e crua que me devorava as entranhas, como se devora uma sopa lentamente por ela estar quente, mas eu estava gelado e rígido!

Percebi outra coisa, que o deslize não fora somente uma única vez, o ímpeto da impulsividade se tornou rotineiro, ele, o cara de fuinha, parecia grude que não descolava dela, o pior de tudo é que me achava parecido com meu pai, mas sempre me identifiquei com esse velho safado, agora entendo tudo isso, sem questionar meu caráter.

Imaginem o vexame que eu presenciaria em poucos minutos, me lembrei, não estou mais vivo, mas eles passaram esse vexame, meu suposto pai se debruça sobre o meu caixão, abraçando meu corpo gelado, foi algo surpreendente até para minha mãe que não esperava essa atitude, meu suposto pai gritava chorando, agarrado ao meu paletó de madeira, tem gente que passa a vida toda sem saber o gosto de usar um paletó, um terno completo, e no estágio final da vida tem o desprazer de usar um de madeira, ele fala chorando alto:

- Meu filho me perdoa por não ter sido o seu pai!

- Que vergonha eu senti pela minha mãe!

O cara de fuinha revelando um segredo guardado por minha mãe como um tesouro precioso, por uma vida toda, todos ali na sala ficaram estarrecidos com aquela atitude do meu suposto pai, alguém pergunta:

- Eustáquio bebeu?

Minha mãe não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha que estava sentindo, ela, era vista por todos como uma mulher recatada, dona de um caráter ilibado, e sempre preservou essa postura, era incapaz de cometer infidelidade era dessa forma que ela era vista.

Me lembrei de certas ocorrências na minha infância, às vezes ela me levava para igreja, era o martírio da minha infantilidade. Suplício incondicional de uma vida mal começada!

Isso acontecia uma vez por semana, íamos como ela chamava, à casa de Deus. Chegávamos na igreja, ela entrava para um lugar reservado que mais se parecia com um caixote de madeira, o qual ela chamava de confessionário, ela me dava ordens para eu ficar rezando, eu fingia que rezava, nunca aprendi nem o pai nosso, ela passava uma hora conversando com o padre, e eu esperando sentado naqueles bancos duro de madeira, às vezes eu me cansava e deitava no chão, depois que ela saía de lá ainda passava mais uma hora rezando, eu achava que era a penalidade pela falta cometida.

Eu notava que o padre saía dali balançando a cabeça negativamente, ele sabia do tamanho do pecado da minha mãe, creio que eram muitos, porque ela rezava uma novena depois, eu sofria com a espera.

Se a minha vontade fosse aceita, e as pessoas pudessem me ouvir, eu pediria para que meu corpo fosse retirado dali e sepultado imediatamente, afinal de contas nenhum velório merece tanta revelação, minha morte sendo motivo de chacota, pudera eu fugir dali para bem longe, estou morrendo de vergonha de mim mesmo, tentando entender tudo isso por atacado, acredito e me chamo eu mesmo de deslize, possivelmente toda a minha vida eu tenha sido um deslize e meu apelido poderia ser, baba de quiabo, mas de nada adiantou ser escorregadio. Famigerada espinha de peixe que me fez sucumbir!

Azar ou casualidades do acaso?

Não tenho muitas certezas agora como eu tinha em vida, mas o destino me pregou uma enorme pegadinha, e me foi resolvido enxergar a realidade depois de morto. Olhos abertos diante da morte. Mazelas de um velório!

Penso se é possível acontecer tudo isso com todas as pessoas que padecem diante dessa devoradora de vidas? A minha esperança agora é que não haja tanto sofrimento por causa dessa famigerada víbora que me devorou, arrebatou o viver, em vida, nunca me dei ao luxo de uma simples depressão, que para alguns é avassaladora, mas por incrível que pareça, estou angustiado com tanta revelação inesperada, a tristeza está me consumindo, minha vontade é deixar de existir mesmo estando em estado mortal, se eu pudesse tomar um antidepressivo, tomaria agora sem nenhuma objeção.

Minha mãe, uma mulher dentro dos padrões normais de uma sociedade que mais parece devorar as pessoas do que adequar aos parâmetros de felicidade, a aparência mesmo que seja superficial, aparente vida social, é essencial para sobrevivência, vejam o caso da minha mãe, a vida toda vivendo uma vida dupla, mas manteve a pose de uma mulher sem questionamentos, agora eu entendo o porquê de o padre Bonifácio sempre se retirava do confessionário balançando a cabeça negativamente.

Imagino o quanto foi difícil para assumir o caso dela com meu tio, o pior de tudo que o fruto desse caso era eu, o deslize, a mesma postura decisiva que usava para se mostrar uma mulher sem questionamentos duvidoso, agora ela usou publicamente, e ainda teve a coragem de falar:

- Dane-se todo mundo, eu amo o Eustáquio desde de sempre!

Ela o abraça sem se importar com mais nada e diz:

- Meu amor, tenha calma!

Ao ouvir tais palavras, era como se eu estivesse morrendo outra vez, minha mãe, mulher corajosa, destemida, acaba de matar um defunto com as palavras que jamais um dia em minha vida, pensei que ouviria. Eu me sentia naquele momento como se todos ali estivessem debochando da minha cara e dizendo: - O nome dele é deslize!

As escolhas que deliberamos em toda a nossa vida, é um equilíbrio inevitável entre causa e efeito, simplesmente acontece. Vejo a inevitável causa das escolhas que nem sempre atinge somente quem a faz, eu sou um resultado que poderia ser evitado, mas sou filho do acaso, e pela primeira vez dou graças por não estar mais vivo.

Vejo agora na minha morte o retrato da ilusão, da covardia, e descubro que para falar a verdade precisamos ser corajosos, mas nem sempre a verdade é bem recebida, tem gente que prefere ser iludido. O efeito da mensagem para quem não quer ouvir, é nulo. Era exatamente o que eu preferia ser naquele momento, preferia ser um surdo analfabeto.

Mas como se veda a audição de um morto?

Tudo gritava ao meu entendimento como se fossem pancadas arrebentando meu ego, tirando de mim todas as certezas.

Será que vivi justamente, será que a vida não me foi fugaz ou furtiva? Eu era feliz?

Por causa da minha vida totalmente devotada ao ser materialista, eu me sentia totalmente feliz, pois sempre conseguia realizar meus objetivos sem me questionar os métodos que eu usava, às vezes até exclusos. E agora, do que me serviu tudo isso?

O cérebro sempre será o lógico do nosso ser, às vezes até atormenta a imaginação. Eu era diferente ou igual a todos? Os diferentes são rejeitados por aqueles que não os compreendem.

Viver como eu vivi, baseando-me em mentiras sem conseguir raciocinar o quanto a verdade atormentava mentira, mas não conseguia perceber nem por um segundo, e agora percebo quem foi a minha adorável mãezinha.

Vivendo uma mentira sem retroceder, baseando-se nas razões do amor! Uma suposta verdade sem lógica

Pergunta que não quer silenciar a essa morte cruel e amarga:

- Em que consiste os propósitos da vida que de uma forma traiçoeira a morte surrupia?

Uma senhora sútil chamada experiência responde:

- A concentração no próprio ego jamais elucidará os propósitos de uma vida.

O algoz da minha vida fugaz, foi a morte!

É inusitada essa minha forma de pensar, o que era somente matemática em vida, agora em morte me encontro fazendo coisas que nunca fiz, filosofando com experiência, mas o tempo que me fora ofertado para viver, não foi usado com sabedoria, faltou o afeto, eu neguei!

Ouço o meu caçulinha dizer:

- Meu pai já era!

Minhas lágrimas congeladas insistem em derreter, com tanta realidade nua e crua para audição de um morto que convalesce com a verdade, vejo que fui um fracassado relacional.

O que faço para persistir diante de tantos fracassos?

O desistir nunca deve ser visto como opção se os frutos forem promissores, o improvável deve ser posicionado como alternativa, um momento de alegria do meu ser foi revelando-me, a disposição, me foi realçada como pigmentos de otimismo, que não me seja ópio de lubricidades, pode até ser que me venham conquistas reais de vida plena.

Mas o que um morto pode conquistar?

A obscuridade mesmo sendo vista de uma forma negativa, poderá influenciar, dependerá do ponto de vista de cada ser!

Jamais poderemos ter controle sobre os efeitos das ações, sejam elas realizadas com esmero zelo ou relaxadamente, os efeitos serão inevitáveis.

Me lembrei que meu caráter sempre fora colocado em prova, mesmo diante de reações adversas, eu perseverava.

Lembrei do meu filho caçulinha dizendo que o pai dele já era, eu duvido se eu já fui, e mais uma vez eu pergunto a mim mesmo, não existe mais quem me responda nesse espaço solitário sem sentido: - Será que algum dia já fui alguma coisa, já consegui me sentir vivo de verdade, ou o meu objetivo em vida foi em vão, somente pensava em ter e nunca ser?

O silêncio do meu vazio respondeu ironicamente: - O meu refletir foi a descoberta do eu, sem resposta, o próprio silêncio era a resposta. Imponderação do ser!

Quem mais prevalece na crueldade, a vida ou a morte?

A vida toda vivi com um amigo íntimo chamado orgulho, e só agora, diante desse desalento chamado morte foi que consegui evidenciar o que vem a ser de verdade o orgulho: - Ele consegue isolar o ser dentro de um casulo recheado de ilusões deixando próprio ego viciado em egoísmo, predominar!

Pobre criatura é minha mãezinha, sempre teve tudo que desejou do meu tio que era o seu marido, o pai que me criou, mas encontrou a felicidade de verdade em meu tio.

A fidelidade nunca esteve atrelada ao que realmente possuímos, simplesmente está vinculada ao que somos.

Olhei em volta do meu caixão, o velório estava cheio, muitos ali com cara de pesar, a maioria eu não conhecia, mas falavam de mim como se me conhecessem há muito tempo, ousaram até comentar:

- Ele era um homem tão bom!

- Que Deus o tenha em um bom lugar!

- Ele estará num lugar melhor!

Demagogias dos seres, sempre questionei esses tipos consolo aos defuntos, é muito interessante falarem sempre as mesmas palavras, clichê montado remotamente sem raciocínios lógicos, a referência à morte como um bom lugar, ou um lugar melhor, com relação ao defunto, poderia ser a pior pessoa da face da terra, mas quando morre fica sendo a melhor de todas. Se morrer é ir para um lugar melhor, então por que ninguém quer morrer? Percebo que ninguém no velório trocaria de lugar comigo!

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