Acordei de um coma de cinco anos. E a primeira coisa que encontrei foi meu atestado de óbito. Assinado pelo meu próprio marido.
Dante Moretti, o Dom de São Paulo, me olhava como se eu fosse um milagre, mas segurava a mão de outra mulher.
Sofia Bianchi usava meus diamantes, morava na minha casa e estava ao lado do homem para quem eu construí um império.
Mas a verdadeira traição não foi a amante. Foi meu filho.
Quando estendi a mão para o Leo, meu bebê, ele recuou apavorado e escondeu o rosto no vestido de Sofia.
"Vai embora!", ele gritou.
"Mamãe Sofia disse que você é um monstro! Um fantasma!"
Sofia sorriu para mim, um sorriso de pura vitória, cruel e cortante. Ela não apenas roubou meu marido; ela reescreveu as memórias do meu filho para me transformar na vilã.
Para proteger a aliança entre as famílias, Dante me forçou a ficar em silêncio.
Quando Sofia, mais tarde, bateu no meu carro no autódromo para terminar o serviço, Dante passou por mim, sangrando, para consolar a unha quebrada dela.
Quando ela fingiu uma doença fatal, ele me arrastou da minha cama de recuperação. Me forçou a doar meu sangue raro para salvá-la.
"Faça isso pela família, Elena", ele disse, vendo minha vida escorrer pelas minhas veias para encher as da mulher que nos destruiu.
Naquela noite, eu não apenas fui embora. Eu me apaguei.
Deixei minha aliança na beira de um penhasco e deixei o mundo acreditar que Elena Moretti finalmente havia se afogado.
Seis meses depois, Dante estava na plateia de uma cúpula global de tecnologia em Zurique, desesperado para encontrar sua esposa morta.
Eu subi ao palco em um terno branco, olhando diretamente nos olhos dele.
"Meu nome é Catarina Alves", anunciei.
E me preparei para queimar o mundo dele até as cinzas.
Capítulo 1
A tinta no meu atestado de óbito tinha cinco anos, seca e arquivada, assinada pelo homem que agora segurava minha mão e chorava falando de milagres.
Eu estava deitada na cama branca e estéril do Sanatório Moretti, meus músculos atrofiados e minha mente correndo para alcançar uma realidade que seguiu em frente sem mim.
Dante Moretti sentou-se ao meu lado.
Ele era o Dom das famílias de São Paulo agora. Ninguém precisou me dizer; eu via pelo corte de seu terno italiano sob medida e pelo jeito que os seguranças do lado de fora da porta de vidro ficavam, com as mãos cruzadas na frente do corpo, com medo até de respirar alto demais.
"Elena, meu amor", ele sussurrou, pressionando a testa contra os nós dos meus dedos. "Você voltou para nós."
Nós.
Olhei para além dele.
Meus pais, Carlo e Maria, estavam no canto. Eles não pareciam pessoas testemunhando uma ressurreição. Pareciam pessoas que tinham acabado de ser pegas roubando a prata da coleta da igreja.
"Onde está o Leo?", perguntei. Minha voz era como cascalho se moendo numa betoneira.
Dante enrijeceu. "Ele está na mansão. Está seguro."
Tentei me sentar. As máquinas apitaram em protesto.
"Eu quero ver meu filho."
"Você precisa descansar", disse Dante, sua mão pesada no meu ombro. Era uma ordem, não uma sugestão. "Existem complicações, Elena. O mundo pensa que você morreu naquele rio. Para sua segurança, tivemos que... tomar providências."
Eu não entendi o que "providências" significava até uma semana depois.
Eu já estava forte o suficiente para andar até a janela. Me sentia uma prisioneira numa jaula de vidro. Eu precisava de dinheiro. Precisava acessar a carteira de criptomoedas que eu havia construído para a família, os bilhões de reais em moeda lavada que tornavam o império Moretti intocável.
Peguei o tablet de uma enfermeira quando ela não estava olhando.
Entrei na minha conta bancária.
ERRO. Usuário Falecido. Conta Encerrada.
Tentei meu RG.
Status: Falecida. Data do Óbito: 12 de maio, cinco anos atrás.
Senti um suor frio escorrer pela minha nuca. Não era apenas uma história de fachada. Era um apagamento legal.
Marchei até o escritório do administrador da clínica. Ele era um homem pequeno que cheirava a antisséptico e medo. Exigi o arquivo.
Ele me entregou com as mãos trêmulas.
Lá estava. Um atestado de óbito. Causa da morte: Afogamento.
Assinado por Dante Moretti. Testemunhado por Carlo e Maria Rossi.
Eles haviam enterrado um caixão vazio enquanto eu estava em coma no andar de cima.
Eu não gritei. A antiga Elena teria gritado. A Arquiteta – a mulher que escrevia códigos que confundiam a Polícia Federal – apenas ficou fria.
Exigi ir para casa.
Dante tentou me enrolar no telefone. "Fique aí, Elena. É complicado."
Ameacei sair pela porta da frente e parar uma viatura da polícia.
Ele mandou um carro.
O caminho até a mansão Moretti em Alphaville foi um borrão de asfalto cinza. Meu coração martelava contra minhas costelas, não de amor, mas de uma suspeita aterrorizante que começava a criar raízes no meu estômago.
Os portões de ferro se abriram. Paramos na entrada.
A porta da frente se abriu.
Dante saiu. Ele parecia majestoso, poderoso, o Rei de São Paulo.
Então ela saiu.
Sofia Bianchi.
Ela usava meus brincos de diamante. Usava um vestido de seda que parecia suspeitosamente com um que eu havia comprado em Milão. Ela ficou ao lado de Dante, a mão possessivamente apoiada no antebraço dele.
E então, um menino pequeno saiu correndo de trás das pernas dela.
Leo. Meu bebê. Ele estava tão grande agora. Tinha os cachos escuros de Dante e os meus olhos.
Abri a porta do carro e saí tropeçando. Minhas pernas ainda estavam fracas.
"Leo!", gritei.
Ele parou. Olhou para mim com confusão, depois com medo. Olhou para Sofia.
"Mamãe?", ele perguntou, puxando o vestido de Sofia. "Quem é essa mulher-espantalho?"
Mamãe.
A palavra me atingiu com mais força do que o caminhão que bateu no meu carro cinco anos atrás.
Sofia afagou o cabelo de Leo. "Vá para dentro, meu bem."
Ela olhou para mim. Seu sorriso era afiado, como a borda de uma folha de papel nova. "Bem-vinda de volta, Elena. A gente não esperava que você fosse acordar."
Dante caminhou em minha direção, as mãos levantadas em um gesto apaziguador. "Elena, por favor. Foi um casamento político. Os Bianchi estavam prestes a declarar guerra. Eu tive que garantir a aliança. Tive que salvar a família."
Olhei para meus pais, que haviam seguido no segundo carro. Eles não conseguiam me encarar.
"Vocês me venderam", sussurrei.
"Nós te protegemos", meu pai murmurou.
Olhei de volta para Dante. Ele era o homem por quem eu havia levado um tiro. O homem para quem eu havia construído um império.
Ele ainda usava sua aliança de casamento. Mas ao lado de Sofia, parecia um homem tentando impedir que dois mundos colidissem.
Meu celular vibrou no bolso. Era o celular descartável que eu havia pego da estação das enfermeiras.
Número Desconhecido.
Atendi, mantendo os olhos em Dante.
"Olá, Elena", disse uma voz grave e distorcida. "Ou devo dizer... Catarina?"
"Quem é?"
"Luca Salvatore. O Lobo."
Eu congelei. Ele era o Dom rival. O homem que matava sem piscar.
"Tenho um jato esperando no Campo de Marte", disse ele. "Você é um fantasma, Elena. Fantasmas não pertencem à terra dos vivos. Venha trabalhar para mim. Eu lhe darei um novo nome. Eu lhe darei a vingança que você é fraca demais para ter agora."
Olhei para meu filho, que me observava da janela, a mão pressionada contra o vidro.
Olhei para Dante, que estava estendendo a mão para mim.
Desliguei o telefone.
Ainda não, pensei. Eu não vou embora até queimar esta casa até o chão.
Concordei em encontrar Luca, mas seria nos meus termos.
Eu disse a Dante que precisava de espaço. Disse que não conseguia dormir na casa onde outra mulher criava meu filho. Então ele me instalou na cobertura do Hotel Moretti, na Avenida Paulista.
Era uma gaiola dourada, luxuosa e sufocante.
Saí pela entrada de serviço à meia-noite.
Luca Salvatore estava esperando em um SUV preto a três quarteirões de distância, escondido nas sombras de um beco. Ele não parecia um salvador. Parecia uma arma. Tinha uma cicatriz atravessando a sobrancelha, e seus olhos eram desprovidos de calor.
"Aqui", disse ele, me entregando um envelope pardo.
Eu o abri. Um passaporte. Uma carteira de motorista. CPF. Tudo em nome de Catarina Alves.
"Por quê?", perguntei.
"Porque você é a melhor lavadora de dinheiro que esta cidade já viu", disse ele, a voz baixa e áspera. "E porque Dante é um tolo que jogou fora um diamante para pegar um caco de vidro."
Peguei o envelope. Não agradeci. No nosso mundo, gratidão era uma dívida, e eu já estava no vermelho.
Voltei para o hotel antes do amanhecer.
Dante estava me esperando na sala de estar da suíte. Ele andava de um lado para o outro, um copo de uísque na mão, o líquido âmbar balançando contra as paredes do copo.
"Onde você estava?", ele exigiu.
"Andando", eu disse, mantendo a voz firme. "Tentando lembrar quem eu sou."
Ele se abrandou instantaneamente. Pousou o copo e veio até mim. Cheirava a colônia cara e ao perfume fraco e enjoativo de Sofia.
"Senti sua falta, Elena. Todos os dias."
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixa de veludo. Abriu-a.
Dentro havia um enorme diamante amarelo em forma de coração. Era cafona. Era chamativo. Era tudo que eu odiava.
"Para você", disse ele. "Para substituir os anos que perdemos."
Estendi a mão. Ele deslizou o anel no meu dedo.
Não parou. Deslizou direto pela junta do meu dedo e girou frouxamente na base.
Era grande demais.
Eu tenho dedos finos. Dedos de pianista, Dante costumava dizer. Sofia tem mãos de camponesa, grossas e fortes.
Dante congelou. Ele tentou ajustá-lo, o rosto ficando vermelho.
"Deve ser... você perdeu peso", ele gaguejou. "Por causa do coma."
Puxei minha mão de volta. O anel caiu no tapete com um baque surdo.
"Foi ajustado para ela, não foi?", perguntei, minha voz fria. "Você comprou isso para ela, ela não gostou, então você deu para o fantasma."
"Elena, não, não é isso-"
Eu o cortei. "Se as famílias entrarem em guerra hoje, Dante, agora mesmo... quem você salva? Eu? Ou a mãe do herdeiro?"
Ele abriu a boca para responder.
Seu telefone tocou.
O toque era específico. Era o que ele usava para assuntos de alta prioridade da família.
Ele olhou para a tela. Seus olhos se moveram para mim, depois de volta para o telefone.
"Preciso atender", disse ele. "É urgente."
"É ela, não é?"
"É assunto de família, Elena. Volto já."
Ele saiu para a varanda, fechando a porta de vidro. Observei-o atender a chamada. Vi sua postura relaxar. Vi-o sorrir.
Ele não estava negociando uma guerra. Estava acalmando um ataque de birra.
Olhei para o anel no tapete. Brilhava sob as luzes do lustre, um milhão de reais de carbono comprimido que não significava absolutamente nada.
Eu o peguei.
Fui até a lixeira da pequena cozinha.
Joguei-o dentro. Ele bateu contra uma lata de refrigerante vazia com um som final e oco.
"Eu não sou um prêmio de consolação, Dante", sussurrei para a sala vazia.
Fui para o quarto e arrumei as poucas roupas que tinha. Coloquei os documentos de Catarina Alves no forro da minha bolsa.
Quando Dante voltou, ele parecia aliviado.
"Desculpe, amor", disse ele. "Apenas um pequeno problema com uma remessa. Agora, sobre o anel..."
Apontei para a lixeira.
"Não serviu", eu disse. "Assim como eu não sirvo mais aqui."
A Gala de Aniversário dos Moretti era mais do que uma festa; era o evento social da temporada do submundo. Era onde tréguas eram brindadas com champanhe vintage e assassinatos eram ordenados com um aceno sutil.
Dante insistiu que eu fosse. Ele queria mostrar ao mundo que a família Moretti estava inteira. Queria exibir seu milagre.
Eu usei um vestido preto. Era de seda, com as costas nuas, e parecia alta-costura de luto feita para uma passarela.
Entramos no salão de baile, e o silêncio foi instantâneo. Trezentos predadores pararam de comer para encarar a mulher que havia saído de uma cova.
Dante segurou meu braço com força, seu aperto possessivo.
Meus pais estavam na mesa principal. Eles sorriram nervosamente, erguendo suas taças em uma saudação vazia. Estavam sentados ao lado dos Bianchi.
Então, as portas se abriram novamente.
Sofia entrou.
Ela usava vermelho. Vermelho-sangue. Uma declaração.
Ela segurava a mão de Leo.
A multidão se abriu para ela como o Mar Vermelho. Ela caminhou com o queixo erguido, a rainha usurpadora vindo reivindicar seu território.
Ela caminhou diretamente até nós.
"Dante", ela ronronou, beijando sua bochecha. "E Elena. Você parece... cansada."
Ela se virou para Leo. "Olha, Leo. Diga olá para a moça."
Leo olhou para mim. Ele usava um smoking em miniatura e parecia tanto com o pai.
Eu me ajoelhei. Estendi uma mão. "Leo, sou eu. Sou a mamãe."
Leo recuou. Ele enterrou o rosto na saia vermelha de Sofia.
"Não!", ele gritou. Sua voz ecoou no salão silencioso. "Você é o monstro! Mamãe disse que você é um fantasma! Vai embora!"
A sala ofegou.
Senti como se tivessem me estripado. Olhei para Dante. Faça alguma coisa, implorei em silêncio. Diga a ele.
Dante olhou para a multidão. Vi seus olhos se moverem para os soldados Bianchi observando, medindo a trêmula aliança política.
"Leo está confuso", disse Dante em voz alta, dirigindo-se à sala. "Já faz muito tempo."
Ele não corrigiu o menino. Ele não afastou Sofia.
Minha mãe correu até nós. Ela colocou o braço em volta de Sofia. "Oh, ele está apenas cansado, coitadinho. Sofia é uma mãe tão boa para ele."
A traição foi total. Meu próprio sangue havia escolhido o lado vencedor.
Sofia sorriu para mim. Era um sorriso de pura vitória.
"Você deveria ir descansar, Elena", ela sussurrou, baixo o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir. "Os mortos não deveriam assombrar os vivos. Assusta as crianças."
Ela tirou uma pequena caixa de sua bolsa e a pressionou em minha mão. "Um presente de boas-vindas."
Eu abri. Era uma passagem de avião só de ida para a Suíça.
Eu me levantei. A dor no meu peito se cristalizou em algo afiado e frio. Gelo.
Dante tentou pegar minha mão novamente. Ele ergueu uma taça. "À família", anunciou.
"À família", a sala ecoou.
Olhei para a vela piscando na mesa.
Inclinei-me perto de Dante.
"Aproveite seu brinde", sussurrei. "Porque eu vou queimar todos eles."
O sorriso de Sofia vacilou. Ela agarrou o peito, soltando um suspiro dramático. "Oh! Estou me sentindo fraca!"
Dante imediatamente soltou meu braço. "Sofia!"
Ele a segurou enquanto ela desmaiava, um desmaio perfeito e ensaiado.
"Peguem o carro!", ele gritou para seus homens.
Ele a pegou nos braços, embalando-a como se fosse um vidro precioso. Ele correu em direção à saída, com Leo correndo atrás dele, chorando por sua mamãe.
Eu fiquei sozinha no centro do salão de baile.
Trezentas pessoas assistiram o Dom levar sua amante embora e deixar sua esposa de pé nos destroços.
Virei-me para um garçom que passava com uma bandeja de champanhe.
Peguei uma taça.
Bebi de um só gole.
Então espatifei a taça no chão.