O corredor do hospital cheirava a desinfetante e a medo.
Meu pai estava a morrer, e eu precisava do meu marido, Leo, para assinar os papéis da cirurgia que o poderia salvar.
Liguei-lhe incessantemente, implorando que viesse, mas a sua voz irritada afirmou: "Não posso ir agora. A Clara torceu o tornozelo. Ela precisa de mim. Tu consegues resolver isso, Sofia."
Enquanto o monitor cardíaco do meu pai se tornava uma linha reta, Leo apareceu, horas depois, com um café e uma preocupação encenada.
Ele justificava-se com a "sensibilidade" da Clara, a "fraternidade" que os unia, e como ela era "frágil".
A sua mãe, Inês, juntou-se ao coro, acusando-me de egoísmo. A própria Clara ligou, com a sua voz chorosa, revelando a farsa.
Meu pai morreu sozinho, enquanto o meu marido consolava outra mulher por um tornozelo torcido.
Como podiam esperar que eu aceitasse este abandono monstruoso?
Que homem veria o seu dever para com a esposa e o sogro como igual à "obrigação" para com uma "irmã" que vive de vitimização?
A ironia e a raiva foram o catalisador.
Olhei para o fundo dos olhos vazios do Leo, naquele dia de luto, e disse: "Quero o divórcio."
Sabia que a batalha seria árdua, mas eu estava pronta.
Era o momento de me escolher a mim mesma e lutar pela minha liberdade e paz, custasse o que custasse.
O corredor do hospital cheirava a desinfetante e a medo. As luzes brancas e frias do teto refletiam no chão polido, pareciam infinitas.
O meu pai estava a morrer do outro lado daquela porta de vidro fosco.
"Senhora Alves, precisamos de uma decisão," disse o médico, com uma voz cansada. "A cirurgia de emergência é de alto risco, mas é a única opção que resta."
A minha mão tremia enquanto eu segurava o telemóvel.
"Só preciso da assinatura do meu marido. Ele já devia estar a chegar."
O médico olhou para o relógio na parede, a sua expressão não mudou.
"Não temos muito tempo."
Ele voltou para dentro da Unidade de Cuidados Intensivos, deixando-me sozinha com o som dos meus próprios batimentos cardíacos.
Disquei o número do Leo pela décima vez. Chamou, chamou, e foi para o correio de voz. De novo.
"Leo, por amor de Deus, atende. É o pai. Os médicos precisam de ti."
Deixei a mensagem, a minha voz a falhar.
Sentei-me no banco de plástico duro, o frio a atravessar a minha roupa. Olhei para as minhas mãos, para a aliança de casamento no meu dedo. Parecia um objeto estranho.
O telemóvel vibrou na minha mão. Era ele. Atendi no primeiro toque.
"Sofia? O que se passa? Estás a ligar sem parar, assustaste a Clara."
A sua voz era irritada, impaciente. Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Clara.
"Leo, é o pai. Ele está mal. Os médicos precisam de ti aqui para assinar os papéis da cirurgia. Agora."
Houve uma pausa. Ouvi o Leo a suspirar.
"Sofia, não posso ir agora. A Clara caiu das escadas, torceu o tornozelo. Estou a levá-la ao hospital."
O meu sangue gelou.
"Caiu das escadas? Leo, o meu pai está a morrer! Que hospital? Eu vou ter contigo!"
"Não," ele disse, a sua voz firme. "Fica aí. Os médicos que esperem. A Clara está em pânico, não a posso deixar sozinha. Ela não tem mais ninguém."
Ela não tem mais ninguém. E eu? E o meu pai?
"Leo, por favor," implorei, o meu orgulho a desfazer-se. "É uma questão de minutos."
"Tu consegues tratar disso, Sofia. És forte. Assina tu os papéis. Ligo-te mais tarde."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
Olhei para o telemóvel, incrédula. Olhei para a porta da UCI.
O médico saiu novamente. Desta vez, o seu rosto era sombrio. Ele não precisou de dizer nada.
Atrás dele, o monitor cardíaco que eu conseguia vislumbrar pelo vidro mostrava uma linha reta e emitia um som agudo e contínuo.
O meu mundo ficou em silêncio.
O meu telemóvel apitou com uma nova mensagem. Era do Leo.
"A Clara só partiu um osso do pé. Que susto. Já estamos a ser atendidos. Beijo."
Não respondi. Deixei o telemóvel cair no meu colo. O meu pai tinha-se ido. Sozinho.
O Leo apareceu duas horas depois. Trazia um copo de café na mão e uma expressão de preocupação ensaiada.
"Querida, desculpa a demora. Foi uma confusão nas urgências. Como está o teu pai?"
Levantei os olhos do chão. O meu rosto estava seco, sem lágrimas. Eu sentia-me oca por dentro.
"Ele morreu, Leo."
A palavra soou estranha na minha boca.
O Leo deixou cair o copo de café. O líquido quente espalhou-se pelo chão branco, uma mancha castanha a alastrar.
"O quê? Como assim? Mas... os médicos não iam operar?"
"Precisavam da tua assinatura," disse eu, com uma calma que me assustou. "Tu disseste para esperarem."
Ele passou as mãos pelo cabelo, o seu rosto pálido.
"Sofia, eu não sabia... Eu pensei que tínhamos tempo. A Clara estava com tantas dores, ela estava a chorar..."
"A Clara." Repeti o nome dela. Não era uma pergunta. Era uma constatação.
"Sim, a Clara. Tu sabes como ela é sensível. O médico disse que a fratura era feia. Ela ficou tão assustada, a tremer..."
Enquanto ele falava, o seu telemóvel começou a tocar. O nome "Clara" brilhava no ecrã.
Ele hesitou, olhando para mim, depois para o telemóvel. Atendeu.
"Clara? Sim, ainda estou aqui. O quê? Não, claro que não me esqueci das tuas muletas. Levo-as quando for para aí."
A sua voz era suave, tranquilizadora. A mesma voz que ele nunca usava comigo.
Ele desligou e olhou para mim, a sua expressão a mudar para uma de justificação.
"Ela precisa de ajuda para chegar a casa. A mãe dela está fora da cidade."
Eu levantei-me. As minhas pernas pareciam pertencer a outra pessoa.
"Vai," disse eu. "A Clara precisa de ti."
Ele franziu a testa, confuso com o meu tom. "Sofia, não fales assim. Eu estou aqui contigo agora."
"Não, não estás," respondi. "Tu estavas com ela. Quando o meu pai morreu, tu estavas a segurar a mão dela por causa de um osso partido no pé."
"Isso não é justo!" ele elevou a voz. "Foi um acidente! Eu não podia adivinhar!"
"Não precisavas de adivinhar, Leo. Eu disse-te. Eu implorei."
Olhei diretamente para os olhos dele. Vi um homem que eu não conhecia. Ou talvez, um homem que eu nunca quis conhecer.
"Quero o divórcio."