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O Diário das Sombras

O Diário das Sombras

Autor:: Poio
Gênero: Outras
Amara sempre encontrou refúgio nas histórias que criava. Em um mundo onde se sentia invisível, imaginar era sua forma de existir. Mas tudo muda no dia em que, em um mercado de rua esquecido pelo tempo, ela compra um diário antigo de capa escura, um objeto que parecia chamá-la. No começo, é apenas curiosidade. Palavras escritas por diversão. Pequenas histórias.Até que elas começam a acontecer.O que antes era imaginação ganha forma no mundo real. Coincidências estranhas. Sons onde não deveria haver nada. Presenças que não podem ser explicadas. E então, sem perceber o limite que cruzou, Amara cria algo que não consegue apagar:Uma sombra.Silenciosa. Observadora. Crescente.À medida que tenta controlar o que trouxe à existência, Amara descobre que o diário não é apenas um objeto mágico, ele responde, modifica, exige equilíbrio. Cada palavra tem peso. Cada história tem consequências. E quanto mais ela escreve, mais a linha entre realidade e ficção desaparece. Mas o pior ainda está por vir.O diário já teve outros donos.E nem todos sobreviveram às histórias que começaram.Agora, enquanto a sombra se torna mais forte e o mundo ao seu redor começa a ser afetado, Amara precisa enfrentar uma verdade assustadora.Algumas histórias não querem ser controladas, elas querem continuar.E talvez... ela já tenha escrito mais do que deveria.

Capítulo 1 Primeiro capítulo

O céu estava cinza naquela tarde, como se as nuvens estivessem pesadas demais para continuar flutuando e o vento soprava devagar pelas ruas estreitas da cidade, levantando poeira e fazendo as placas antigas das lojas rangerem.

Amara caminhava devagar pela calçada irregular como o habitual, segurando a mochila contra o peito. Ela havia saído da escola há quase uma hora, mas não tinha pressa de chegar em casa.

Na verdade, ela raramente tinha.

Sua mãe trabalhava até tarde e a casa costumava ficar silenciosa demais. Por isso, muitas vezes Amara preferia dar voltas pela cidade antes de voltar para casa.

Mas naquele dia algo chamou sua atenção, o mercado de rua.

Ele sempre estava ali, numa pequena praça cercada por árvores antigas, mas naquele dia parecia um pouco diferente.

Talvez fosse o vento.

Talvez fosse o silêncio estranho que pairava entre as barracas.

Ou talvez fosse apenas o destino.

As barracas estavam alinhadas como pequenos mundos improvisados. Algumas vendiam frutas, outras roupas antigas, discos, brinquedos quebrados e livros com capas gastas.

Amara adorava livros antigos.

Eles sempre pareciam esconder segredos.

Ela caminhou entre as barracas observando os objetos.

Um rádio antigo.

Relógios que já não funcionavam.

Um par de óculos sem lente.

Fotografias de pessoas que ninguém mais lembrava.

Era como um lugar onde as coisas esquecidas iam parar.

Quando estava quase saindo do mercado, algo chamou sua atenção.

Uma barraca pequena, quase escondida entre duas maiores.

E nela... livros.

Muitos livros.

Alguns estavam empilhados, outros espalhados sobre uma mesa de madeira escura.

Atrás da mesa estava uma senhora idosa, sentada calmamente numa cadeira.

Seu rosto era marcado por rugas profundas, e seus olhos pareciam observar tudo com uma calma estranha.

Amara se aproximou.

- Boa tarde - disse ela.

A senhora ergueu os olhos lentamente.

- Boa tarde, menina.

Sua voz era suave, mas havia algo misterioso nela.

Amara começou a olhar os livros.

Alguns eram romances antigos.

Outros pareciam diários.

Havia até um livro de capa azul com páginas quase soltas.

Ela pegou um deles, folheou rapidamente e colocou de volta.

Então algo chamou sua atenção.

No canto da mesa, parcialmente escondido sob outros livros, havia um diário diferente.

A capa era de couro escuro, quase preto.

Parecia muito antigo.

Amara estendeu a mão e o pegou.

O couro estava frio, mesmo com o calor da tarde.

Estranho.

Ela passou os dedos pela capa.

Não havia título.

Nenhuma palavra.

Apenas um pequeno símbolo gravado no centro - um círculo com linhas estranhas ao redor.

- Esse diário... - disse Amara - é antigo.

A senhora observou o livro por alguns segundos.

- Sim.

- Posso ver?

A mulher assentiu lentamente.

Amara abriu o diário.

As páginas estavam vazias.

Totalmente vazias.

Mas algo parecia diferente.

O papel era grosso, amarelado pelo tempo, e tinha um leve cheiro de poeira e tinta antiga.

Ela virou mais algumas páginas.

Ainda em branco.

- Ninguém escreveu nele? - perguntou Amara.

A senhora sorriu.

Um sorriso pequeno e misterioso.

- Ainda não.

Amara franziu a testa.

- Quanto custa?

- Para você? - disse a senhora - quase nada.

Aquilo era estranho.

- Quanto?

- Dez meticais.

Amara piscou.

Aquilo era ridiculamente barato para um livro tão antigo.

- Tem certeza?

A senhora inclinou a cabeça levemente.

- Tenho.

Amara abriu a mochila, pegou algumas moedas e colocou sobre a mesa.

A senhora empurrou o diário em direção a ela.

- Cuide bem dele.

Amara colocou o livro dentro da mochila.

- Obrigada.

Ela começou a se afastar, mas antes de sair do mercado ouviu a senhora falar novamente.

- Menina.

Amara virou-se.

- Sim?

A senhora a observava com aquele olhar profundo.

- Cuidado com o que você escreve.

Amara riu, achando graça daquilo.

- É só um diário.

A senhora não riu.

Amara deu de ombros e continuou andando.

O vento parecia mais frio agora.

Enquanto caminhava para casa, ela pensava no que escreveria.

Talvez começasse um novo conto.

Ela adorava inventar histórias.

E aquele diário parecia perfeito para isso.

Quando chegou em casa, o sol já estava quase desaparecendo atrás das árvores.

A casa estava silenciosa, como sempre.

Ela largou a mochila no sofá e foi direto para o quarto.

Seu quarto era simples.

Uma cama.

Uma escrivaninha.

Alguns livros empilhados.

E uma janela grande que dava para a rua.

Amara tirou o diário da mochila.

Colocou-o sobre a mesa.

Ele parecia ainda mais antigo agora.

Ela abriu a primeira página.

Totalmente em branco.

Amara pegou uma caneta.

Ela ficou olhando a página por alguns segundos.

Então começou a escrever.

"Era uma noite silenciosa quando um gato preto apareceu na janela de uma garota."

Ela parou.

Sorriu.

Era uma história simples.

Nada especial.

Mas um bom começo.

Ela continuou.

"O gato tinha olhos brilhantes e parecia observar tudo ao redor, como se soubesse um segredo."

Amara fechou o diário.

- Continuo amanhã - murmurou já cansada.

Ela colocou o livro sobre a mesa e se jogou na cama.

Alguns minutos depois, adormeceu.

A noite caiu sobre a cidade.

O vento começou a soprar mais forte.

As árvores se moveram lentamente do lado de fora da casa.

E então...

toc.

Um pequeno som na janela.

Toc.

Toc.

Algo arranhava o vidro.

Amara abriu os olhos lentamente.

Ela sentou na cama.

O som continuava.

Arranhando.

Devagar.

Ela olhou para a janela.

E seu coração quase parou.

Um gato preto estava sentado no parapeito.

Seus olhos brilhavam na escuridão.

Observando-a.

Exatamente como na história que ela havia escrito.

O gato inclinou a cabeça lentamente.

Como se estivesse reconhecendo-a.

Amara ficou completamente imóvel.

Um arrepio percorreu sua espinha.

Porque naquele momento uma pergunta assustadora surgiu em sua mente.

E se...

o diário não fosse apenas um diário?

Lentamente, o gato levantou uma pata.

E arranhou o vidro novamente.

Toc.

Toc.

Toc.

E dentro do quarto, sobre a mesa...

o diário estava aberto.

Numa página que Amara não lembrava de ter escrito.

E novas palavras começavam a aparecer sozinhas no papel.

"A história acabou de começar."

Capítulo 2 Segundo Capítulo

Amara ficou imóvel na cama.

O quarto estava quase totalmente escuro, iluminado apenas pela luz fraca da lua que atravessava a janela. O gato preto continuava ali, sentado do lado de fora, com os olhos brilhando como duas pequenas chamas.

Toc.

Toc.

Ele arranhou o vidro novamente.

O som ecoou no silêncio da casa.

Amara sentiu o coração bater mais rápido.

- Isso... isso não é possível - sussurrou para si mesma.

Ela lembrava perfeitamente do que tinha escrito no diário. Era apenas uma pequena história, um começo simples para um conto que talvez continuasse outro dia.

Mas o gato.

Ele estava exatamente como na história.

Preto.

Olhos brilhantes.

Sentado na janela.

Observando.

Amara respirou fundo e se levantou devagar da cama. Seus pés tocaram o chão frio enquanto ela caminhava lentamente até a janela.

O gato não se moveu.

Ele apenas a observava.

De perto, Amara percebeu que seus olhos eram amarelos, intensos, quase luminosos.

- Você... é só um gato - murmurou ela.

Mas no fundo, alguma coisa dizia que aquilo não era tão simples.

Ela abriu um pouco a janela.

O gato inclinou a cabeça, como se estivesse esperando permissão.

Amara hesitou por alguns segundos.

Então abriu mais.

Imediatamente o gato saltou para dentro do quarto com um movimento ágil e silencioso.

Ele caiu no chão sem fazer barulho algum.

Amara deu um pequeno passo para trás.

O gato caminhou calmamente pelo quarto, olhando ao redor como se estivesse explorando um território novo.

Depois parou.

Virou-se para ela.

E soltou um miado baixo.

- Ok... isso está ficando estranho - disse Amara, passando a mão pelo cabelo.

O gato caminhou até a escrivaninha.

E pulou sobre ela.

Foi então que Amara percebeu algo que fez seu estômago se contrair.

O diário.

Ele estava aberto.

Ela tinha certeza absoluta de que o havia fechado antes de dormir.

Mesmo assim, ali estava ele.

Aberto.

Amara se aproximou devagar.

O gato sentou ao lado do livro, enrolando o rabo ao redor do próprio corpo.

Parecia... proteger o diário.

Ou talvez guardá-lo.

Amara olhou para a página.

Seu coração disparou.

Havia novas palavras escritas ali.

Palavras que ela não lembrava de ter escrito.

A caligrafia era estranhamente parecida com a dela... mas ao mesmo tempo parecia diferente.

Mais irregular.

Mais viva.

Ela leu lentamente:

"O gato encontrou o caminho até o quarto da garota.

Ele não era apenas um visitante.

Ele era o primeiro sinal de que as histórias estavam despertando."

Amara sentiu um frio subir pela coluna.

- Eu... não escrevi isso.

O gato levantou os olhos para ela.

Miou novamente.

- Você viu alguém entrar aqui? - perguntou ela, nervosa.

Claro que aquilo era ridículo.

Era um gato.

Ele não podia responder.

Mesmo assim, por um segundo, Amara teve a estranha sensação de que ele entendia tudo.

Ela tocou a página do diário.

A tinta ainda parecia fresca.

Como se tivesse sido escrita há poucos segundos.

- Isso não faz sentido - murmurou.

Ela pegou a caneta que estava sobre a mesa.

Ficou olhando para o papel.

Se aquilo realmente estivesse acontecendo...

Então talvez...

Talvez ela pudesse testar.

Amara respirou fundo e escreveu uma nova frase.

"O gato se aproximou da garota e se deitou ao lado dela."

Ela parou.

Esperou.

Nada aconteceu.

Amara riu nervosamente.

- Viu? Eu sabia que era só coincidência.

Mas naquele mesmo instante o gato pulou da mesa.

Ele caminhou lentamente até a cama.

Saltou para cima do colchão.

E se deitou exatamente ao lado do travesseiro.

Amara ficou completamente paralisada.

- Não... - sussurrou.

Seu coração batia tão forte que parecia ecoar no quarto.

Ela voltou correndo para a mesa.

Olhou novamente para o diário.

As palavras que ela tinha escrito ainda estavam ali.

Mas havia algo novo.

Uma frase aparecia lentamente abaixo.

Letra por letra.

Como se uma mão invisível estivesse escrevendo.

Amara observava sem conseguir respirar.

As palavras se formaram devagar:

"Agora ela começa a entender."

Amara deu um passo para trás.

- Quem está escrevendo isso?

Silêncio.

Apenas o vento lá fora.

Ela virou as páginas rapidamente.

Todas estavam vazias.

Exceto a primeira.

E aquela.

De repente o gato miou alto.

Amara olhou para ele.

Ele estava olhando para a janela.

Fixamente.

O vento lá fora parecia ter ficado mais forte.

As árvores se agitavam.

Sombras se moviam na rua.

Amara voltou os olhos para o diário.

Outra frase estava surgindo.

Mais devagar.

Mais irregular.

Como se fosse mais difícil de escrever.

"Mas ela ainda não sabe..."

A tinta parou.

Amara engoliu seco.

- Não sabe o quê?

Por alguns segundos nada aconteceu.

Então as últimas palavras apareceram.

"...que algumas histórias não podem ser apagadas."

Um arrepio percorreu o corpo inteiro de Amara.

Ela fechou o diário rapidamente.

O gato pulou da cama e voltou para a mesa.

Sentou ao lado do livro.

Observando.

Como se estivesse esperando.

Amara sentou na cadeira lentamente.

Seu cérebro tentava encontrar uma explicação lógica.

Talvez alguém estivesse pregando uma peça nela.

Talvez ela estivesse sonhando.

Ou talvez...

Talvez o aviso da velha do mercado fosse sério.

"Cuidado com o que você escreve."

Amara olhou para o diário fechado.

E pela primeira vez sentiu medo daquele objeto.

Ela respirou fundo.

- Amanhã eu vou voltar ao mercado.

O gato piscou lentamente.

Como se aprovasse a ideia.

Amara se levantou e apagou a luz do quarto.

Mas demorou muito tempo para conseguir dormir.

Porque toda vez que fechava os olhos...

ela tinha a sensação de que algo observava o quarto.

Não apenas o gato.

Mas algo maior.

Algo escondido nas sombras.

***

Amara virou-se na cama pela décima vez.

O sono simplesmente não vinha.

O quarto estava mergulhado na escuridão, mas seus olhos já tinham se acostumado com a pouca luz que entrava pela janela. As sombras dos móveis se alongavam pelas paredes, criando formas estranhas que pareciam se mover sempre que ela piscava.

O gato continuava sobre a escrivaninha.

Sentado.

Imóvel.

Observando o diário.

Aquilo era o que mais a incomodava.

Não era normal um gato ficar tão quieto por tanto tempo. Nem mesmo quando dormiam eles ficavam assim, tão atentos, tão... vigilantes.

- Você é estranho, sabia? - murmurou Amara, virando o rosto em direção à mesa.

O gato moveu apenas as orelhas.

Como se tivesse ouvido perfeitamente.

Amara soltou um suspiro e puxou o cobertor até o queixo.

Ela tentava convencer a si mesma de que tudo tinha uma explicação lógica.

Talvez ela tivesse escrito aquelas frases sem perceber.

Talvez estivesse sonâmbula.

Ou talvez alguém tivesse entrado no quarto enquanto ela dormia.

Mas nenhuma dessas ideias parecia realmente convencer seu cérebro.

Seu olhar acabou voltando para o diário.

Mesmo fechado, ele parecia... diferente.

Como se houvesse algo vivo dentro dele.

Algo esperando.

Algo respirando lentamente entre aquelas páginas antigas.

Amara balançou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento absurdo.

- É só um livro - disse baixinho.

Mas naquele mesmo instante o gato levantou-se.

Amara franziu a testa.

Ele caminhou lentamente sobre a mesa.

Depois... tocou o diário com a pata.

Tap.

O som foi suave, mas no silêncio do quarto pareceu muito mais alto.

Amara sentou-se na cama imediatamente.

- Ei... não mexe nisso.

O gato não a olhou.

Ele apenas continuou encarando o livro.

Tap.

Mais uma vez.

A pata bateu suavemente sobre a capa.

Amara ficou olhando, sem saber exatamente o que fazer.

Então algo aconteceu.

Muito devagar... o diário se abriu.

Sozinho.

A capa levantou-se lentamente, como se uma mão invisível estivesse folheando o livro.

As páginas começaram a virar.

Frrrrrr...

O som seco do papel antigo ecoou pelo quarto.

Amara sentiu o coração acelerar novamente.

- Não... não... não...

Ela se levantou da cama.

Deu alguns passos hesitantes até a mesa.

As páginas continuavam virando.

Uma.

Outra.

Outra.

Até parar.

Exatamente na página onde ela tinha escrito antes.

Mas agora havia algo diferente.

A tinta nas palavras parecia mais escura.

Mais profunda.

Como se estivesse se espalhando lentamente pelo papel.

Amara aproximou o rosto.

Então viu.

Uma nova frase estava surgindo.

Devagar.

Letra por letra.

Como antes.

Mas desta vez a caligrafia parecia mais irregular.

Mais... agressiva.

Ela observou, sem conseguir se mover.

As palavras apareceram:

"A garota acredita que controla a história."

Amara engoliu seco.

A frase continuou.

"Mas a história também começa a observar a garota."

Um calafrio percorreu seu corpo inteiro.

Ela olhou rapidamente ao redor do quarto.

Nada.

Apenas o vento do lado de fora.

E o gato.

Sentado ao lado do diário.

Observando tudo.

Outra linha começou a aparecer no papel.

Mais lenta.

Mais pesada.

Como se exigisse esforço.

"E nas sombras..."

A tinta parou por um segundo.

Depois continuou.

"...algo começa a despertar."

Amara fechou o diário com força.

BAM.

Seu peito subia e descia rapidamente.

- Chega.

O gato miou baixo.

Amara apoiou as mãos na mesa, tentando se acalmar.

Ela não sabia o que estava acontecendo.

Mas tinha certeza de uma coisa agora.

O diário não era normal.

E aquela noite...

era apenas o começo de algo muito maior.

Do lado de fora da casa, o vento soprou mais forte.

As árvores balançaram.

E por um breve instante, uma sombra estranha pareceu atravessar a rua.

Alta.

Disforme.

Como se tivesse sido desenhada pela própria escuridão.

Mas Amara não viu.

Ela estava ocupada demais olhando para o diário.

Sem perceber que em algum lugar dentro das páginas daquele livro antigo...

Uma nova história começava a nascer.

Capítulo 3 Terceiro capítulo

O sol da manhã entrou lentamente pela janela do quarto de Amara, iluminando a escrivaninha onde o diário descansava.

A luz tocava a capa escura como se tentasse revelar algum segredo escondido ali.

Amara acordou devagar.

Por alguns segundos ela ficou olhando para o teto, tentando lembrar do que havia acontecido na noite anterior.

Então lembrou.

O gato.

As palavras que apareceram sozinhas.

O diário abrindo.

Seu coração acelerou imediatamente.

Ela sentou-se na cama e olhou para a mesa.

O gato ainda estava ali.

Enrolado ao lado do diário, dormindo tranquilamente.

- Você ainda está aqui... - murmurou Amara.

O gato abriu um olho lentamente, como se tivesse entendido.

Ele espreguiçou-se e levantou a cabeça.

- Ok... então isso não foi um sonho.

Amara levantou-se e caminhou até a escrivaninha.

O diário estava fechado.

Ela colocou a mão sobre a capa.

Ainda estava fria.

Exatamente como no dia anterior.

O gato observava cada movimento dela.

- Se isso for algum tipo de brincadeira... eu vou descobrir - disse ela, sentando-se na cadeira.

Ela abriu o diário.

As páginas estavam exatamente como tinham ficado na noite anterior.

A história do gato.

As frases que apareceram sozinhas.

"A garota acredita que controla a história."

"Mas a história também começa a observar a garota."

"E nas sombras... algo começa a despertar."

Amara sentiu um arrepio ao reler aquilo.

Ela pegou a caneta.

Ficou olhando para a página por alguns segundos.

- Vamos testar uma coisa - disse ela.

O gato inclinou levemente a cabeça.

Amara respirou fundo.

Se o diário realmente tivesse algum tipo de poder...

então ela poderia provar.

Ela começou a escrever:

"Na cozinha da casa, uma maçã vermelha caiu da mesa e rolou pelo chão."

Ela parou.

O quarto ficou em silêncio.

Nada aconteceu.

Amara franziu a testa.

- Claro... era bom demais para ser verdade.

Mas então...

TUM.

Um barulho veio da cozinha.

Amara congelou.

- Não.

Outro som.

Algo rolando no chão.

Devagar.

Ela levantou-se da cadeira lentamente.

Seu coração começou a bater mais forte.

- Isso... isso é coincidência.

Ela caminhou até a porta do quarto.

Abriu devagar.

O corredor estava vazio.

Silencioso.

Ela seguiu até a cozinha.

E parou imediatamente.

No chão...

uma maçã vermelha estava parada no meio do piso.

Como se tivesse acabado de rolar.

Amara sentiu o estômago gelar.

Ela olhou para a mesa.

O prato de frutas estava lá.

Mas uma maçã claramente faltava.

- Isso não pode estar acontecendo...

Ela pegou a maçã.

Estava fria.

Real.

Pesada.

Amara voltou correndo para o quarto.

O gato ainda estava sobre a mesa.

E o diário... estava aberto novamente.

Amara aproximou-se lentamente.

Uma nova frase estava sendo escrita na página.

A tinta aparecia devagar.

Como se uma mão invisível estivesse escrevendo.

"A garota começa a entender."

Amara segurou a borda da mesa com força.

- Quem está fazendo isso?

Silêncio.

A frase continuou.

"Cada palavra cria um eco no mundo."

Ela sentiu um arrepio subir pelo corpo.

- Então... é verdade.

Ela olhou para a caneta.

Se aquilo realmente funcionava...

então ela poderia escrever qualquer coisa.

Qualquer coisa.

Mas algo a fez hesitar.

O aviso da velha no mercado voltou à sua mente.

"Cuidado com o que você escreve."

Amara fechou o diário devagar.

- Eu preciso saber mais sobre você.

O gato miou baixo.

Como se concordasse.

Amara pegou o celular e sentou na cama.

Começou a pesquisar:

"diários mágicos"

"objetos amaldiçoados"

"livros que realizam desejos"

Nada.

Apenas histórias fictícias e lendas.

Nada que explicasse aquilo.

Ela largou o celular.

- Isso é inútil.

O gato pulou da mesa e caminhou até ela.

Subiu na cama e sentou-se ao seu lado.

Amara suspirou.

- Pelo menos você parece gostar de mim.

O gato piscou lentamente.

Amara olhou novamente para o diário.

Algo a puxava de volta.

Uma curiosidade impossível de ignorar.

Ela levantou-se e voltou até a mesa.

- Só mais um teste.

Ela abriu o diário.

Pegou a caneta.

Pensou por alguns segundos.

Então escreveu:

"Um vento frio atravessou o quarto."

Ela parou.

Esperou.

Nada.

- Viu? Nem tudo funciona.

Mas naquele instante a janela bateu.

CLACK.

Uma rajada de vento entrou no quarto.

Forte.

Gelada.

As folhas do diário se agitaram violentamente.

O gato arrepiou o pelo.

Amara ficou olhando, chocada.

- Ok... isso definitivamente funciona.

Ela começou a andar de um lado para o outro no quarto.

Seu cérebro girava com possibilidades.

Se aquilo era real...

ela poderia escrever qualquer coisa.

Dinheiro.

Sucesso.

Aventuras.

Ela poderia literalmente controlar a realidade.

Mas então algo estranho aconteceu.

Quando ela olhou novamente para o diário...

uma nova frase estava surgindo.

Mais lenta que antes.

Como se fosse difícil escrever.

"Mas cada história precisa de um equilíbrio."

Amara aproximou-se.

A frase continuou.

"Se algo nasce... algo também desperta."

Seu coração apertou.

- O que isso significa?

A tinta parou por alguns segundos.

Então as últimas palavras apareceram.

Mais escuras.

Mais pesadas.

"E algumas histórias não criam apenas coisas boas."

Amara ficou completamente imóvel.

O quarto parecia mais silencioso agora.

Até o vento havia parado.

Ela olhou para o gato.

- Você acha que isso pode ser perigoso?

O gato não respondeu.

Mas seus olhos estavam fixos no diário.

Amara respirou fundo.

- Eu preciso descobrir quem criou você.

Ela pegou a mochila.

Colocou o diário dentro.

- Hoje depois da escola eu vou voltar ao mercado.

O gato levantou-se imediatamente.

Como se soubesse para onde ela iria.

Amara franziu a testa.

- Você não pode vir comigo.

O gato apenas a encarou.

Ela suspirou.

- Ok... veremos.

Amara saiu do quarto para se arrumar para a escola.

Mas antes de fechar a porta ela olhou novamente para a mesa vazia.

Algo dentro dela dizia que aquela decisão mudaria tudo.

Porque naquele momento, em algum lugar dentro das páginas do diário...

uma nova frase começou a aparecer lentamente.

Sem que Amara visse.

A tinta escura formava palavras silenciosas.

"A garota decidiu voltar ao mercado."

A frase continuou.

"Mas ela não sabe..."

A tinta tremeu levemente.

Como se algo estivesse interferindo.

Então as últimas palavras surgiram.

Mais irregulares.

Mais profundas.

"...que alguém também está esperando por ela."

E pela primeira vez...

uma pequena mancha de tinta se espalhou pela página.

Formando algo parecido com uma sombra.

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