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O Doce Aroma da Sedução

O Doce Aroma da Sedução

Autor:: M.valene
Gênero: Romance
Francisca herdou muito jovem um dos maiores quartéis da máfia italiana. Aceitou um casamento por contrato com o experiente Anthony para tocar os negócios da família. Entretanto, uma traição fará com que ela siga o seu próprio destino e construa novas alianças ao mesmo tempo que pretende cumprir a promessa de assassinar o herdeiro da família inimiga: o famoso estilista e CEO Adam Arnault. Porém, mesmo para uma mafiosa experiente, essa missão não será tão simples quanto parece ser...

Capítulo 1 Prólogo

Sicília, Itália

As folhas caem das árvores determinadas pelo outono, sem possibilidade de escolha quanto ao seu destino. São leis que comandam a ordem natural das coisas e com as relações humanas não é muito diferente. Há situações que só nos resta seguir o rumo, sem escolha, porque o que está em jogo, é o que importa e nada mais.

- Estás certa que podes confiar nessa mulher? - questiona a criada apreensiva.

- Seria tolice, Selina. Ela é uma gananciosa e ela pode mudar de lado a qualquer momento, dependendo de quem pagar mais. - ainda os meus olhos estão acompanhando o cair das folhas, e assim como a árvore, eu perdi imenso com a chegada das estações. Primeiro a minha mãe e depois o meu pai.

A Lorena estava certa. O perigo está sempre à espreita e uma hora ou outra, chegará a sua vez na roleta da morte. Não sou mais a menina inocente que não enxergava o preto e o branco da realidade. Eu sou uma das maiores líderes da máfia e não nego que conseguir continuar o trabalho de gerações estava sendo satisfatório até saber que agora uma vida depende da minha...

- Eu preciso dar outro rumo na minha vida. Fugirei daqui uma semana! Eu não quero que o meu filho cresça aqui. - é a minha decisão e não há nada que me fará mudá-la.

- Conquistaste tanto, Francisca! Nenhuma mulher tinha chegado tão longe.- ela insiste.

- Mas nem tanto poder conseguiu trazer a minha família de volta. E não quero que levem de novo alguém importante...- passo as minhas mãos pela minha enorme barriga e me dá um arrepio pensar que há qualquer momento uma criança nasceria de mim.

Me sinto um pouco jovem comparadas às minhas antigas expectativas sobre o meu futuro. Porém, se eu considerar quanto eu amadureci para sobreviver nesses últimos anos, dar amor a um ser tão indefeso não pode ser tão difícil assim.

- E o Anthony? - ele me lembra do meu maior obstáculo.

- Ele se deixou cegar pelo poder. Ele nunca vai saber quando parar.

- Ele vai atrás de si, Francisca. Onde quer que vás! És a rainha dele, ele sabe que os negócios não serão os mesmos sem ti! - ela diz o óbvio que todos sabem, inclusive o próprio Anthony.

É tudo sobre negócios e não amor. E o único que eu sinto que poderá me dar, acaba de chutar a minha barriga.

Será por você, meu filho...

- Então o melhor é eliminar todos os rastros que ele poderá ter para me seguir. - o meu tom se torna ríspido, revestido de ameaça.

- O que queres dizer com isso, senhora?

-Que vou começar por ti, traidora! - tiro a arma do bolso do meu casaco e disparo um tiro no seu peito. O seu corpo vai ao chão com os seus olhos com sinal de vida e a sua boca tenta murmurar algo.

- Poupa as suas palavras para o juízo final que te espera. Sua espiã ridícula! - encaro a moribunda cessando os seus últimos suspiros.

Entretanto, o barulho faz com que os dois seguranças abram a porta do quarto. São os meus próximos alvos com dois tiros certeiros nas suas cabeças e mais dois corpos vão ao chão. Uma morte mais rápida dessa vez.

Não tenho muito tempo. Pego a minha pequena mala pronta com as coisas mais essenciais, os corredores são imensos, mas eu cresci nessa mansão. Conheço as passagens secretas que a minha inocência acreditou serem para brincar de esconde, esconde. E que o meu pai nunca seria os homens que matam e reúne grupos de homens seja por medo ou uma frágil lealdade.

A frente dos meus olhos a ilusão da minha irmã Lorena ainda criança está correndo, me encorajando a continuar a sua procura rumo a saída que daria a entrada dos vinhedos. O ar perfumado à chuva é o primeiro sinal da minha liberdade que está ameaçada pelos outros homens à esquerda. O único caminho é pelos vinhedos, um esforço físico extravagante para a minha condição limitada. Porém, não há escolha. Sigo o rumo como uma folha sendo levada pelo vento do outono. Há muitas gotas de suor pelo meu rosto, mas não se comparam ao líquido que escapa por entre as minhas pernas.

A bolsa estorou!

- Calma bebê, falta pouco. - O carro da Amélia está no ponto combinado. E ensaio uns passos mais lento enquanto tento fazer sinais para que ela me veja do retrovisor. E acaba por resultar, porque a porta do carro se abre bruscamente e ela corre ao meu encontro.

- Francisca! - ela oferece o seu ombro para eu me apoiar.

- O meu filho vai nascer! - é um misto de alegria e receio. Nada garante que a qualquer momento os homens poderão se dar conta que eu fugi. - Vamos sair daqui, por favor!

- Venha, eu já tenho uma parteira à nossa espera. - ela tenta me acalmar apesar que o ser dentro de mim não aceita delongas.

Entramos no carro e tudo vai ficando para trás, no passado.

Porém, ele nunca nos deixa. Ele só arruma um novo rosto para se apresentar como o presente e acertar as contas usando o futuro que nunca é aquele que sonhamos...

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- Força! - grita a parteira.

Mas é tão difícil. É como se os ossos se quebrassem e desejassem sair junto com o bebê.

- Falta pouco! Força! - ela grita mais uma vez.

Não há uma mão para eu agarrar, a Amélia permanece distante, encarando-me com um olhar que não sei decifrar. A minha visão é tão turva que tudo vai escurecendo aos poucos.

- Não fecha os olhos, senhora, por favor! - ela implora.

Contudo, é um pedido que não depende da minha força de vontade. Mas eu entrego toda a força que possa existir dentro de mim e tenho a sensação de ouvir um choro até tudo escurecer.

✧♛✧

Uma hora depois

- Amélia? Onde estou? - tanto minha visão como as minhas memórias estão voltando aos poucos. - Meu filho, onde está o meu filho?

- Era uma menina! - ela responde.

- Era? - permaneço confusa.

- Oui, alguém levou a menina! Eu não estava e a senhora foi agredida. Coitada!

- Eu vou procurar por minha filha! - quero me levantar, mas as minhas pernas não me obedecem.

- Não Francisca, precisas descansar. Nunca vais conseguir encontrá-la nesse estado. - ela me detém.

- Só pode ser o Anthony! Ele descobriu que eu ia fugir antes e não daqui a uma semana como fiz aquela ordinária crer. - começo a juntar as peças.

- Eu também não duvido que seja ele, mas não podes contra ele sozinha. Precisas estar à mesma altura. Vamos continuar com a nossa parceira, criar um novo negócio que seja só nosso. Eu tenho os contatos e tens a tua experiência. Prometeste me ajudar e eu fiz a minha parte. Ter dado errado não foi a minha culpa.

- Eu sei...- limpo as minhas lágrimas. - Onde estão os documentos?

Ela abre a sua bolsa e retira um passaporte.

- Chloé?

- Nome francês! - ela comenta.

- Gosto...- também, não é como se eu tivesse outra opção. - Então eu serei a Chloé, a sua nova sócia e juntas montaremos o maior quartel que Paris já viu ...

Capítulo 2 Recomeço

Paris, alguns meses depois

Eu sempre acreditei que passear pelas ruas de Paris fosse uma espécie de mágica indiscutível pelos corações mais endurecidos pelas mágoas passadas e que a cada passo um olhar se cruzaria com o seu, te fazendo lembrar dos melhores sentimentos que poderiam existir nas suas memórias, não importava o quão distante poderiam estar, ainda sim, renasceriam, então te fariam crer num recomeço de felicidade. Porém, eu continuo caminhando por mais de duas horas e todos estão apressados e fechados nos seus mundos. Sou a única a olhar para fora, porque olhar para dentro significa que já faz quase um ano que ela foi tirada de mim. E nem a luz da Torre Eiffel com todo seu esplendor consegue me devolver a esperança, aquela que todos dizem sentir ao vê-la brilhar. Pode ser que o meu coração não saiba contemplar tanta paz, barrada pelo meu sangue, onde corre a herança da ira, do poder e da vingança...

- Um café, s'il vous plaît! - peço, ao encontrar numa pequena esplanada o lugar perfeito para um repouso. E pela expressão de naturalidade que ela cumpre o meu pedido, posso sorrir satisfeita com a minha pronúncia conseguida.

Os últimos meses foram dedicados a aperfeiçoar o idioma. Ficar dependente da Amélia não é uma opção. Não haverá avanços sobre as pistas da minha filha, não enquanto eu não der para ela o poder que ela tanto deseja.

Coitada, eu devo alertá-la que a morte é o preço a se pagar?

- Não... Que seja uma surpresa da sua querida Chloé...- brinco comigo mesma, olhando ainda para o documento falso que ela me arrumara. Mas, logo os meus pensamentos cedem lugar a questionamentos mais sérios. - O que gostarias de vestir, Chloé? Ou ser... - bato os dedos sobre a mesa impacientemente assim como a minha mente e não tarda que os meus olhos vão ao encontro de um grupo de jovens, em que provavelmente o mais velho teria 23 anos.

O café chega, mas não há tempo para bebê-lo.

- Merci!

Deixo uma nota sobre a mesa e vou seguindo os seus rastros. São distraídos o suficiente para não se tocarem do som do meu salto. Eles riem alto e fumam, acompanhados de conversas vulgares que aos meus olhos são a chave da porta proibida que finalmente se abre da minha gaiola dourada. Os melhores professores particulares, as melhores viagens, as melhores roupas não passavam de um investimento para construir uma caricatura minha que um dia serviria aos negócios, que conseguiria sempre dobrar os mais teimosos dos homens, porém, que se perderia facilmente numa conversa entre os os seus pares, porque me foi negadas a liberdade de sentar num banco de uma praça num dia qualquer entre amigos, sem o receio de uma bala inimiga ser a minha próxima companhia.

O centro comercial é o nosso ponto de chegada e não tarda para que os rapazes se sintam perdidos das meninas, que avançam rapidamente pelas vitrines, os obrigando a desistir dessa corrida e optar por uma distração mais atrativa enquanto elas vão às compras. Me sinto velha ao ver a loja escolhida. Embora tenhamos a mesma idade, nunca em sonhos me imaginaria usando t-shirts com estampas sobre filmes e séries que não tenho tempo para assistir ou tênis que seriam mais confortáveis para caminhar e correr. Não que fosse necessário, havia sempre carros à minha disposição e os meus passos são naturalmente calmos, até mesmo para entregar a morte aos inimigos. Entretanto, isso era a Francisca. A Chloé cresceria do zero e junto uma possibilidade de vivenciar tudo o que me fora negado até agora...

- A senhora deseja alguma coisa?

- Eu vou levar essas peças aqui e aqueles sapatos ali e qualquer coisa que elas decidam levar a mais. É para uma irmã mais nova, porém, não entendo muito sobre essa moda...- comento com um sorriso gentil que uma velhinha esboçaria depois de criticar os novos tempos.

- Entendo, alta moda Itália, não é? - ela murmura após seus olhos analisarem as minhas roupas e os meus sapatos.

- É...- cruzo os meus braços instintivamente, como se isso pudesse esconder a minha identidade. Se um dia duvidei que a roupa falasse tanto sobre quem somos, neste instante tenho a plena certeza.

- Trabalhei numa loja de alta costura antes de vir trabalhar aqui. Ela é bem famosa, se chama Ar...- eu a interrompi.

- Pardon! Não se importa de arrumá-los para mim? Eu estou com um pouco de pressa... - As minhas " bússolas" já se escapuliram da loja e eu não posso perder de vista as minhas amigas imaginárias.

Ela assentiu e os seus movimentos ágeis em guardar cada peça e sapato com perfeição de fato confirmava a sua versão de ter tido um destino melhor como vendedora.

O que ela teria aprontado?

Também não é relevante para mim neste momento, apesar de cintilar no meu coração uma sensação de que o que diria a seguir, seria algo familiar para mim.

O próximo destino foi um salão de beleza, decidido por elas em conjunto com a justificação de que ter um corte de cabelo atualizado é tão importante quanto usar a última coisa que foi fotografada no corpo de um pop star.

Quase todas escolheram luzes e penteados radicais que seriam perfeitos para Chloé se ainda eu não precisasse em certos momentos frequentar ambientes em que a discrição é a palavra de ordem. Então, optei por continuar com meus fios médios e escuros, embora a cabeleireira sugeriu dar um toque de castanho de outono assim como os meus olhos à algumas mechas. Mas neguei. O escuro combinava com o ondulado que por sua vez conjugava em perfeita harmonia com a minha pele esculpida a chocolate e os meus lábios levemente rosados. E depois de uma chapinha, prendi tudo num coque desajeitado, deixando uns fios soltos propositadamente para dar um ar de jovem fodida pela vida.

O meu tempo de recreio chegou ao fim e despeço-me em silêncio das minhas "ajudantes" que prosseguem com as fofocas sem se darem conta de quem entra ou sai do espaço e muito menos que foram seguidas durante todo esse tempo. E nesta hora compreendo porque sendo uma Calderone jamais eu seria uma mulher comum...

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- Francisca?! Eu pensei que errei de quarto...- a voz da Amélia não conseguiu esconder a surpresa ao me ver de t-shirt e jeans, deitada sobre a cama, comendo brigadeiro enquanto assisto um série na TV.

- Gostas?! - A provoco, torcendo em silêncio que o meu novo visual fosse motivo suficiente para que ela tivesse uma pequena instabilidade quanto a frágil certeza de que eu não sou a sua refém como aparento ser por todos esses meses.

- Confesso que estou surpresa...- ela fecha a porta e coloca o cartão chave que lhe dei sobre o aparador da entrada.

Os seus braços se cruzam à frente do seu corpo e os seus olhos claros se intensificam como duas tochas de fogo prontas para me queimar.

- Eu sei que já passaste muito tempo nesse quarto de hotel, sem notícias da sua filha e não posso imaginar o quanto frustrante pode ser. Mas, era o melhor a se fazer até tudo se acalmar e ser seguro levar em diante os nossos planos...

Eu começo a rir no " seguro" e levo uns segundos para me recompor.

- Amélia, Amélia...- Levanto-me da cama para encará-la melhor e como começou a ser habitual, os seu fios loiros estão perfeitamente alinhados, possivelmente depois de terem passado por um dos melhores salões de Paris, quase a transformando num elemento decorativo desse quarto de luxo do hotel onde se predomina tons de dourado. - Nesse ramo, nada é seguro. Esse tempo foi apenas para eu gerir as minhas emoções e preparar-me para o meu novo papel...

- Só tenta não levá-lo muito a sério. Eu preciso da Francisca para os negócios...- ela adverte.

- Fala por experiência própria? - deixo escapar as minhas suspeitas.

- O que queres dizer com isso? - ela faz de conta que não sabe do que se trata.

Vou ao encontro de uma sacola escondida atrás de uma poltrona e revelo um vestido de cetim, cor de vinho. Embora o tecido não tenha o mesmo caimento da seda por ser uma réplica comprada numa loja barata, ainda tem uma caída mais leve, escorregadia e com brilho sutil.

- Foi exatamente esse vestido que usavas na noite que eu te conheci. É muito engraçado, porque durante todos esses meses, começaste a usar roupas melhores. Das duas umas, querida Amélia: ou tens mais dinheiro do que finges não ter para me explorar e assim conseguir mais e mais; ou, conseguiste umas amizades bem interessantes após a sua chegada na Sicília e o seu retorno a Paris.

- Nem uma coisa, nem outra! - ela desfaz o nó dos seus braços e vai até o mini bar a procura de algo para beber, evitando que eu a encarasse.

- Lembras da noite que nos conhecemos? O seu marido sabia que eu sou uma das maiores organizadoras de eventos de Paris. Porém, eu também sei que ele como outros homens de negócios, me convidam para trabalhar na expectativa de conseguir informações sobre concorrentes ou inimigos. Então, tentei parecer o mais simples que eu consegui para ser credível a minha ingenuidade sobre o que ele pudesse tentar tirar de mim...- ela faz uma pausa, tenho dúvidas se é para se servir de um whisky ou elaborar melhor a sua próxima desculpa. - E quanto aos meus novos vestidos, estou saindo com um empresário e estou tentando lhe impressionar. Ele é um tanto perfeccionista... Mas alguma pergunta?

- Não, desfruta do seu drink, querida Amélia. Eu vou até o banheiro.- deixo o vestido sobre a cama e viro-me a esquerda ainda sentindo o peso do seu olhar sobre as minhas costas até a minha silhueta desaparecer. Passo pelos infinitos corredores destinados a guardar roupas, sapatos e acessórios. Enquanto para mim, só se trata de um espaço necessário e estratégico para eu ganhar tempo para fugir, esconder ou atirar. Porém, nesse momento serve para eu me distrair e dar voz a minha intuição. Algo me diz que ela está mentindo e minhas lembranças sobre a noite que nos conhecemos também se alinham com essa ideia...

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Sicília, Itália, dois anos atrás

As famílias sempre se reúnem à volta da mesa. Até as mais incomuns como era a nossa. Elementos pertencentes a máfia conectados não por laços de sangue, mas pela lealdade e no fundo por um profundo desejo de sermos nós os senhores do destino. Entretanto, nessa noite, teríamos uma convidada e por alguma razão, eu deveria ser a última a saber...

- Quem é essa mulher que convidaste para o jantar? - os meus olhos acompanham o reflexo do Anthony através do espelho ao mesmo tempo que eu faço os últimos retoques da minha maquiagem.

- Eu nunca consigo esconder nada de ti, nem mesmo uma surpresa...- o que era para ser uma desculpa amigável, sai da boca dele com uma leve pitada de orgulho ferido.

O Anthony não era nada mais que um filho de um dos nossos vinicultores que viu a sua sorte virar quando o seu pai faleceu e o meu achou por certo abraçá-lo para lhe ensinar os ofícios do negócio. Como a maioria, conseguia se manter discreto, mantendo a regra do silêncio ao se ocupar com um trabalho comum, afastando as suspeitas sobre as nossas reais funções na nossa pacata região.

Ter estado ao lado do meu pai durante anos, lhe deu crédito suficientemente para que fosse eleito ao cargo de Chefe da família pelo voto de todos os membros. Entretanto, nunca pareceu ser o suficiente, despertando em mim a vaga impressão de que, a sua necessidade de se autoafirmar ainda lhe faria tomar decisões que quebrariam para sempre a nossa frágil paz...

- Um homem de honra tem a obrigação de dizer a verdade, é a regra, Anthony... - os seus olhos se viram encurralados pelos meus através do espelho, por alguns instantes.

- Tens razão, madonna...- uma resposta muito pacífica para as minhas expectativas. Porém, quando o vi levantar e caminhar até mim, a certeza de uma reviravolta ficou mais próxima.

- Mas aprendi com o seu pai que as regras são feitas para serem quebradas. Por exemplo...- ele fingiu pensar enquanto as suas mãos alcançaram os meus ombros e esfregaram contra a minha pele como se fosse uma bola de cristal que iria revelar as respostas que ele tanto desejava, então continuou:

- Quando a sua irmã fugiu e ele não se moveu o suficiente para reparar o enorme estrago que foi para sua honra. Ou, quando ele jamais tocou nos nomes dos grandes inimigos do passado e justo quando ele está prestes a morrer, sussurrou : Paris, Paris...

Engoli em seco apesar de disfarçar com um sorriso simpático desenhado no meu reflexo.

O meu papá não mentiu quando jurava não saber para onde a minha irmã Lorena fugiu. Não é que não houvesse meios para descobrir, mas, fazê-lo significaria ter que lidar provavelmente com o fato de um membro da família ter escolhido uma forma de justiça tão diferente da nossa. E isso não removeria o meu pai somente do cargo de chefe como da organização.

- Então madonna, aprenda que os homens de honra podem não dizer a verdade quando estão em conflito uns com os outros, quando querem enganar ou quando os chefes desejam guardar algum segredo... - ele finalizou com um sorriso sarcástico e qualquer um poderia supor que as suas palavras não passavam de uma brincadeira qualquer.

A verdade é que ele não poderia comparar as perdas da minha família com o seu desejo de passar por cima do próprio bem estar do grupo apenas para se demonstrar digno do cargo que ele ocupa. Ele não entendia que, era extremamente cumprir as regras que o faria admirável e somente casos extremos se compreenderia um rompimento. Entretanto, a vaidade é uma fraqueza que assombra até os melhores homens.

Por sorte, eu fui a única a testemunhar o último desejo do meu papá. Seria uma loucura arriscar a segurança da organização somente para matar um homem rodeado de holofotes que provavelmente se voltariam para nós.

- Vais foder com ela para teres o que desejas? - escapou da minha boca intencionalmente como uma ferruada surpresa de uma abelha, o que fez com que as suas grandes mãos calejadas pelos anos de trabalho árduo da sua juventude afastassem repentinamente da minha pele delicada, agarrando os seus fios negros que negavam a se alinharem mesmo com gel. Fios espessos que combinavam perfeitamente com a sua barba e os seus olhos escuros como dois botões de uma jaqueta qualquer. Era um homem atraente e bonito, porém, não seria a minha escolha se eu tivesse direito a uma.

- Eu nunca trairia a pessoa com quem eu divido a minha cama, Francisca...- ele dá a sua palavra.

- Acabaste de dizer que não importa a honra...- virei o meu corpo para que os meus olhos confrontarem os seus sem ilusões de óptica entre nós.

- Tudo o que eu faço é para ter a sua admiração, o seu amor...- ele se justifica.

Amor, a segunda fraqueza, meus senhores, quem sabe a mais perigosa.

- A lealdade já nos basta, Anthony! Temos um trato, são só negócios, sexo e um casamento de conveniência.

- Não gostas de mim? - ele dá um passo na minha direção e eu sei que é o momento que eu devo sumir. O seu sentimentalismo no controle consegue ser mais devastador do que o seu egocentrismo.

- Entenda que nem eu gosto do que eu me tornei. Te espero na sala junto dos convidados.- confesso com frieza, me afastando em seguida.

Fechei a porta, passei pelos corredores e ao descer a escadaria principal, deparei-me com a enorme sala recheada de homens, alguns acompanhados e outros nem por isso. Não esperei que o meu vestido com um belíssimo decote em V despertasse um olhar ou suspiro. Porque as esposas dos aliados não devem nem ser olhadas, assim como as suas filhas e irmãs. Então, foi a única mulher solteira da noite a roubar a cena, quer que fosse pela curiosidade sobre a sua identidade ou pela sua beleza e atributos perfeitamente ajustados por um vestido mais econômico comparado ao meu.

- Amélia, é o seu nome...- cochichou discretamente o Luigi ao me entregar uma taça de vinho. - É uma organizadora famosa de eventos na elite parisiense.

O Anthony não é idiota. Ele sabia que para pertencerem ao círculo do meu pai, seja pela lealdade ou pela inimizade, o poder e a influência eram fortes pistas a se seguir. E eu não suportei imaginar o momento que ele descobrisse a verdadeira razão que alimentou a rivalidade entre os Arnault e os Calderone.

Ele seria tomado pela loucura...

- Prazer, Amélia! - ela se adiantou e nem sequer me dei conta da sua aproximação. Os meus pensamentos roubaram a minha atenção por uns severos segundos.

- Prazer, Francisca! - fiz sinal ao garçom para que ele trouxesse também uma taça para ela.

O seu olhar estava perdido. Eu não arriscaria dizer que ela soubesse algo de concreto sobre todos que estavam no jantar. Mas, eu não a subestimei, afinal de contas, se o Anthony via nela um caminho, eu deveria fazer o mesmo. Se fosse uma boa ou má aposta, só com o tempo eu viria a descobrir....

Capítulo 3 Fantasmas do passado

Paris, presente

O meu táxi para em frente a fachada principal de uma luxuosa mansão muito bem resguardada por um número considerável de guardas e cachorros que se mantém em alerta no mínimo sinal de cheiro ou movimento desconhecido.

Não ouso descer do carro ou me aproximar como fazem os convidados que vão chegando sem parar. Pelo menos a noite iria render e não tardaria para eu descobrir o que me faria lucrar com a Elite parisiense. Porque, no fundo, a máfia não passa de negócios temperados com um pouco de fogo e sangue.

Mas, por agora, só resta aguardar o meu "sinal" para entrar em campo. E ele apareceu num belíssimo vestido de seda de cor esmeralda e sapatos do mais puro couro. Amélia consegue surpreender cada vez mais nos seus looks, possivelmente, presentes do homem que ela diz ter um affair. E se ela conseguisse fazê-lo ficar perdidamente apaixonada por ela, esse homem conseguiria tranquilamente comprar a Paris inteira para a Amélia. Então, por que ela ainda prefere caminhos ocultos para ter mais dinheiro?

Eu sei que a vida pessoal dela é um detalhe trivial perto da missão que me espera, mas a minha intuição continua piscando por algum motivo que a minha mente pretende desvendar...

- Pardon pela demora! - ela disse ao se sentar confortavelmente no banco ao meu lado. E nem foi tanto assim comparada com o tempo que ela gastou tentando arrumar um jeito de não amassar o seu caríssimo tecido.

- Tudo bem, onde estamos? - ignorei as formalidades e passei para a ação, não esperando que ela respondesse o que o meu GPS conseguiria dizer.

- Residência de um dos advogados mais prestigiados de Paris, Jean Laurent.

- Laurent? - eu fui pega de surpresa.

- Sim, residência da família Laurent que foi herdada pelo Jean Laurent. Foram sempre uma família de advogados dedicados a negócios, porém, com o assassinato dos seus pais, Jean seguiu a área criminalística. Não teve muita sorte, a sua noiva também foi morta provavelmente por vingança de algum criminoso que ele ajudou a colocar na cadeia. Desde então, ele vive sozinho e conta com a companhia de alguns amigos e essas informações se tornaram assuntos proibidos até serem esquecidos...- ela explicou.

- Compreendo...- murmurei.

"Laurent"

Esse sobrenome ecoou pela minha mente como uma memória sussurrada por uma lembrança de um passado distante. Não é possível que a vida fosse feita de tantas coincidências e que esses fossem os Laurent que o meu papá...

- Francisca? - a Amélia chama.

- Sim? - voltei a colocar os pés no chão.

- Não podemos ser vistas juntas, então eu não preciso dizer que terás que dar o seu jeito para entrar. Eu não posso me comprometer, não nesse momento. Até logo, querida! - ela me despachou, saindo do carro apressadamente e nem sequer olhou para trás.

Noutra ocasião, eu lhe mandaria ir a merda. Me trazer até aqui e não mover uma única pedra, era o mesmo de eu estar sozinha nessa batalha. Entretanto, deixou de ser só sobre o nosso trato ou de apreciar os meus possíveis clientes, mas também de descobrir se esse Laurent foi o mesmo que eu vi ser entregue para a morte anos atrás...

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Sicília, dez anos atrás

Charuto cubano e o melhor vinho da adega eram avisos claros que meu pai receberia visitas importantes e não os habituais que eu e a Lorena apelidamos de imóveis da casa, uma das nossas inúmeras brincadeiras que com o passar do tempo foram sendo esquecidas. Ter perdido a nossa mãe tão prematuramente nos uniu, mas pela mesma razão, a distância ganhava cada vez mais espaço. Ela era cinco anos mais velha, embora as minhas pernas compridas me dessem alguma vantagem e facilmente eu aparentava ser somente três anos mais nova. Duas amigas, comentavam os desconhecidos sóbrios. E para os bêbados, quase gêmeas. A verdade é que em nada parecíamos. Eu herdei a aparência da minha mãe que era colombiana, enquanto a sua genética preferiu uma tonalidade de pêssego, olhos e cabelos castanhos escuros do meu pai italiano. A única coisa em comum eram as nossas manchas de nascença desenhadas nas nossas costas, que cultivávamos o sonho de sermos as únicas no mundo a tê-las.

- Papá vai receber algum convidado especial! - confidenciei com entusiasmo.

Eu não aguentava ver os mesmos rostos e quem sabe viria um rapaz que pudéssemos conhecer e ser o nosso amigo. Para mim, a adolescência batia na porta e com ela, uma imensa vontade de explorar para além da nossa imensa propriedade. Por outro lado, eu a temia, porque, ela ao chegar para a Lorena, algo mágico do nosso mundo se perdeu. Quase sempre não lhe restava tempo para aventurarmos pelos corredores e passagens secretas. Vivia com o nosso pai no escritório ou com os homens de confiança dele, para trabalhos que ela preferia guardar segredo. A sua expressão se tornou dura e era necessária muita maquiagem para dar um pouco de vida ao que morria aos poucos dentro dela.

- Eu sei...- foi o único comentário da minha irmã, logo a criada entrou com um vestido novo.

- Teremos uma festa? - quis eu saber com toda a minha inocência.

Mas as duas me ignoraram e a criada rapidamente concentrou em arrumar os fios rebeldes dela.

- Se ele for bonito que nem o pai, não será um sacrifício o conhecer. - comentou a Anitta, a criada, querendo fazer frente a má vontade da Lorena.

Ele?

- Esse homem esteve aqui, anos atrás, com a mulher, mas nunca trouxe o filho. - a Anitta insiste no diálogo.

De quem estariam conversando? Sem mais detalhes era impossível para eu adivinhar. Óbvio que eu não pertencia a essa conversa e que eu deveria me retirar. Assim fiz, mas, a curiosidade falou mais alto e as minhas orelhas colaram a porta pronto para escutar o que tanto elas segredavam.

- Isso não faz sentido, Anita. - finalmente protestou a Lorena.

- O seu pai prometeu a sua mãe fazer bons casamentos para vocês. E a família Arnault é uma aliada do seu pai, casando a menina com o herdeiro deles, não serão somente parceiros, mas uma família. Eu não preciso dizer o quanto isso é importante...

Casar?

Os meus olhos arregalaram sendo preciso a ajuda da minha mão para fechar a minha boca.

- Ele é velho?- quis a Lorena saber.

- Não, é da sua idade ou talvez dois anos mais velho. - respondeu a criada.

- Deve ter sonhos como eu...- depois do protesto, veio o lamento da minha irmã.

- É tolice, menina. A vocês restam objetivos e negócios! - corrigiu a Anitta com a sua firmeza de sempre.

Fez um silêncio e corri com o receio de ser pega a ouvir a conversa. Entretanto, eu fui vencida pela ideia de poder me esconder atrás de um dos longos cortinados do escritório para descobrir mais. Porém, mal eu sabia que seria a minha vez de ser expulsa do meu próprio paraíso...

✧♛✧

O meu corpo ficou enrolando entre os longos e pesados cortinados que se mantinham firmes contra o sol e a maresia, mantendo as mobílias de madeira poupadas de um possível desgaste. Se elas pudessem falar, contariam as piores histórias e os melhores segredos que acompanharam a minha família por gerações. Eram as melhores testemunhas e companhias do meu pai, ofereciam sempre o silêncio e jamais julgamentos, por mais barbaro que fosse as ações dele.

Os convidados foram os primeiros a chegar. Um homem loiro de olhos azuis acompanhado de um moreno. Se tivessem a mesma idade, eu não saberia dizer. O primeiro tinha o ar sereno e o charme do papà, já o outro, era tão sério como uma porta. O loiro era o chefe da família Arnault e amigo de longa data da minha. A meu ver, ele não era um mafioso convicto, apenas um homem que se perdeu nos jogos e viu-se mergulhado num mar de dívidas. O meu pai ajudou a pagá-las e a salvar a empresa da família dele, e com isso, o senhor Arnault lhe devia favores, que era o mesmo dele ter vendido a sua alma ao diaabo. O moreno era só o seu acompanhante, um homem das leis. Uma péssima escolha para se trazer num lar onde se é amante do crime.

- Eu não tenho palavras para expressar o quão grato estou de teres vindo, Laurent. - disse o senhor Arnault.

Laurent, tentei imitar a pronúncia. No nosso mundo de negócios, os homens tratam entre si, usando só o sobrenome e é importante dizê-lo com firmeza.

- Ainda não acho uma boa ideia. Esse tipo de pessoas são imprevisíveis. Onde que estavas com a cabeça? - ralhou o senhor Laurent.

- Eu era jovem demais para medir as consequências dos meus actos. Pareceu ser a última saída. Eu não esperava um dia construir uma família, ter filhos! E muito menos ser assombrado pelo medo de perder a todos.

- Eu sei! Mas sabes como funciona a palavra e a honra para esse homem?

O senhor Arnault não teve coragem de dizer uma única palavra e o senhor Laurent compreendeu que os dois estavam na toca do leão.

- Mondieu... - foi o que o senhor Laurent conseguiu pronunciar.

- O Adam, meu filho, nunca iria aceitar. Ele é melhor que eu quando se trata de carácter. Ele não se perde facilmente, tem determinação e jeito para os negócios. Provavelmente a empresa irá crescer nas suas mãos. Eu o enviei para estudar com o Jean exatamente para ele não estar aqui.

- És um mafioso, meu amigo. - conclui o senhor Laurent.

Pobre Laurent, ele iria ver o que era um de verdade.

- Se facilitar um mafioso me torna um, sim, eu sou e eu não quero isso para o Adam! Eu não quero essa aliança!

- O que não queres?

O meu pai chegou e os dois homens foram pegos de surpresa. Foram convidados a se sentarem e a Anitta apareceu para servi-los. Depois ela se retirou com a mesma leveza que ela entrou.

- Scusa, não lhe dei as devidas condolências pelo falecimento da senhora Arnault. A família é algo importante, certamente a nossa maior riqueza. Podemos tirar tudo de um homem, mas talvez seja a família que doa mais.

O papá nunca superou a morte da minha mãe, mesmo depois de tantos anos. Era um homem indestrutível, porém, o seu calcanhar de aquiles éramos nós, a sua família. A minha mãe foi a primeira a colher os frutos amargos do poder e, por isso, o pai construiu à nossa volta uma fortaleza, na maior parte das vezes sufocante.

- As flores e os vinhos foram bem recebidos, meu amigo. Eu agradeço.

Todos assentiram e tomaram um gole das suas bebidas.

- Onde está o seu filho, Arnault? Ele não veio? - quis saber o meu pai.

Os dois homens se entreolharam e o senhor Arnault tremeu os lábios tentando encontrar as palavras certas. E meu pai, por sua vez, se acomodou melhor na sua poltrona de couro, com a plena certeza de que, independentemente do que ele iria dizer, tudo deveria sair conforme a sua vontade.

- É sobre isso que eu gostaria de conversar...- ele deu mais um gole da sua bebida e o senhor Laurent bateu contra as suas costas, num gesto de coragem.

- O meu filho, ele não servirá para isso. Ele mal consegue ver sangue. Casar e ser um futuro líder da máfia ao lado da sua primeira filha, está fora de questão.

- Nada que ele não possa aprender. Ele tem seu o sangue e não és nenhum Santo, Arnault.

A tranquilidade do meu pai, para mim, era assustadora.

- Eu sei, mas, eu prometi à minha mulher que eu seria um homem melhor. Eu posso pagar em dinheiro todas as dívidas, inclusive essa...

O meu pai sorriu e finalizou a sua bebida num gole só. Então eu soube ser o momento dele confessar algo importante.

- O dinheiro não pode pagar a palavra de um homem de honra. Eu também prometi a minha mulher casar as minhas filhas com homens de boas famílias e construir alianças fortes que garantiriam a segurança delas. Por que a sua promessa seria mais importante do que a minha, meu amigo?

- Não é que seja, Calderone. É que não faz sentido envolver os nossos filhos num acordo que fizemos tão jovens...

- Ele está certo, papá!

É a vez da Lorena entrar e se existia alguma calma no meu pai, ela começou a evaporar.

- Eu não quero me casar com o filho dele. Eu quero ingressar para o exército!

Duas informações muito difíceis de digerir para um homem que não aceita um não como resposta. E para piorar, o Luigi, um secreto homem de confiança do meu pai vinha atrás. Embora ele o fosse, ainda sim, havia uma testemunha da sua desonra, um mal que deveria ser cortado pela raiz.

Com um simples olhar do meu pai, ele sacou a arma e apontou para a Lorena. E pela primeira vez, eu entendia como funcionava o nosso mundo real e que todas as minhas lembranças não passavam de um conto de fadas que eu e ela criamos para escondermos do monstro da verdade.

- S'il vous plaît! Vamos terminar isso como cavalheiros. - O senhor Laurent tentou diminuir a tensão entre todos. Mas, o nosso sentido de cavalheiro certamente era diferente do seu.

- Esse homem faz-te não ser digna do seu filho e concordas?

- Esse homem está sendo somente justo, papá. Por que é tão difícil para si, fazer o mesmo? - as lágrimas já escorriam pelo rosto da minha irmã e eu estava completamente assustada tanto quanto ela.

- Porque a minha palavra é só uma e não irei quebrá-la quando a dei pela única pessoa que me amou na vida. - gritou o meu pai.

- Ela se foi, o senhor tem a nós. Não machuque as últimas pessoas que te adoram, papá.

Os meus olhos encheram de lágrimas, mas não os do nosso pai. A honra tenderia a pesar mais do que o amor e eu precisei fazer alguma coisa.

- Papá, eu me caso com ele! - me joguei no meio da sala para o espanto de todos. Entretanto, não demorou muito para que todos ignorassem a presença de uma adolescente de doze anos que eu era.

- Não queres casar, tudo bem. Prove que és uma Calderone, mate esses homens que fizeram pouco da sua família. Então dar-te-ei a tua liberdade, sairás da minha casa e nunca mais voltarás.

Ele colocou uma arma sobre a mesa e confesso que se o medo tivesse um cheiro, ele venceria o da madeira do escritório. Em vez disso, o medo congelou o senhor Arnault e Laurent, os transformando em dois alvos a abater.

- E se eu não atirar? - perguntou a Lorena ainda trémula.

E não foi preciso palavras, só o som de um clique da arma nas mãos do Luigi apontado para a cabeça dela foram suficientes.

- Atire, Lorena Tatiane Calderone! - ordenou o meu pai. Porque a segunda opção seria dolorosa para ele.

A Lorena avançou e pegou a arma. Ela piscou algumas vezes, porém, não tinha nada a ser feito. A sua pontaria era perfeita e não foi necessário mais do que dois tiros, cada bala destinada a um dos homens. Eu vi os seus corpos caírem e não havia nada no mundo que pudesse desfazer essa cena na minha mente.

- Muito bem!- elogiou o meu pai sem emoção alguma. - Luigi, certifica se o Senhor Laurent não veio acompanhado da sua esposa. Se for o caso, termine o serviço. Não é boa opção deixar pistas.

Ele concordou e deixou o escritório como um raio. A Lorena foi a próxima e meu pai não tentou impedi-la. Ele dera a sua palavra. E ninguém precisou dizer em voz alta que tudo o que aconteceu nessa sala seria para sempre um segredo.

- Francisca! - o meu pai chamou-me e tremi.

- Hoje em diante, eu só posso contar contigo. Eu não espero que estejas pronta, eu espero que saibas contornar sempre os obstáculos, como agora.

Eu não sabia bem o significado dessas palavras, mas eu os aceitei para mim com a devoção de uma cria abandonada no meio da selva.

- Sim, papá...

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