"Ela é a filha do inimigo... mas carrega nos olhos cegos a única luz capaz de me desarmar. E isso me enfurece mais do que qualquer arma apontada para minha cabeça." - Fernando Torrenegro
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Medellín - Colômbia
Dias Atuais
Durante os meus trinta e sete anos nunca odiei tanto algo quanto o maldito sobrenome Castilho. Um nome poderoso, forte, mas que no fundo, só me causa escárnio e repúdio.
Por culpa do maldito patriarca dos Castilho cresci sozinho, na escuridão e distante de qualquer coisa que remete a família.
Hoje não consigo ter bons sentimentos por ninguém, me tornei um monstro como muitos me definem, e no fundo devo ser isso mesmo, até porque, sinto um vazio dentro de mim que nunca será preenchido. O vazio causado pela ausência dos meus pais, que foram brutalmente arrancados dos meus braços por culpa da ganância e falta de escrúpulos do bastardo Hernán Castilho.
Mas o momento da minha vingança está próximo. E a dor que aquele desgraçado vai sentir será mil vezes pior e mais profunda do que a sentida por uma criança de dez anos de idade ao ver seus pais brutalmente assassinados diante de seus olhos indefesos e ingênuos. Ali, naquele momento, diante dos corpos sem vida dos meus pais o maldito Castilho destruiu a minha inocência e o último resquício de humanidade que existia dentro de mim. Hoje me tornei o Don Fernando Torrenegro, um homem poderoso, respeitado e temido por toda a máfia, mas que no fundo se sente um solitário amargurado e vazio.
O nome Castilho me causa asco, nojo e cada vez que ouço sinto gosto de sangue tamanha a minha furia. Engulo seco na tentativa de tirar esse gosto horrível da minha boca, mas tudo o que consigo é intensifica-lo, aumentando o meu ódio.
Eu era apenas uma criança, com a idade de ter sonhos. Mas muito cedo eu fui obrigado a conviver com pólvora, e aprender que os Castilho eram animais nocivos que precisavam ser exterminados. Ao invés de lápis, carrinhos, eu aprendi a manusear armas, a desarmar bombas, e a fazer vendetta com sangue. E principalmente, que a justiça tinha que ser feita com as próprias mãos.
Quando fecho os olhos ainda consigo rever a cena de décadas atrás, o corpo do meu pai caído no chão com metade do rosto aberto na garagem do galpão em Valparaíso, totalmente irreconhecível. Sangue quente escorrendo pelos trilhos de óleo e os olhos fixos no teto como se ainda tentasse entender por quê. Eu não tive tempo de luto, porque poucos dias depois, naquela mesma semana, minha mãe caiu com o rosto no prato do jantar após levar um único tiro na cabeça. Fatal... limpo... e que serviu como a única pá que faltava para enterrar o homem que existia em mim.
Eu sequer chorei. Só memorizei cada detalhe daquela cena, e confirmei quem eram os meus inimigos. Até porque, já não existia sentimentos dentro de mim. Ali, sem perceber, já haviam decretado o meu destino. E ele não seria nada bonito e muito menos monumental. Mas seria justo, e era isso que me importava.
Na minha memória aguçada memorizei tudo. Os corpos, o som do disparo e o maldito silêncio que surgiu logo depois. E sobretudo o nome por trás de toda a minha desgraça: Hernán Castilho.
Ele achou que podia matar os Torrenegro como se fossemos barata. Achou que podia apagar nossa linhagem e riscar o próprio nome com ouro. Subestimou o que eu carregava nas veias. Eu era um menino quando fugi. Um fantasma entre os becos de Caracas e Medellín, com ódio nos olhos e uma faca no bolso.
Hoje, sou a porra do pesadelo que ele plantou e esqueceu de colher. E que está mais pronto do que nunca para fazer justiça ou vingança, cada pessoa interpreta da maneira que quiser. O importante é que farei o sobrenome Torrenegro ser lembrado, e principalmente, a alma dos meus pais descansarem em paz.
Aprendi que o dinheiro e o poder compram tudo. Hoje tenho rotas completas, homens de elite à minha disposição, armas e silêncio. Tenho os 'porcos'(policiais), os tribunais e até os malditos repórteres nos meus bolsos. Se eu estalar os dedos, alguém morre em menos de uma hora - e ninguém pergunta por quê.
Mas do que adianta tudo isso se não tenho paz?
Paz... Uma palavra pequena, mas que pelo visto nunca saberei o verdadeiro significado. Até porque, paz é uma invenção dos fracos. E eu não sou fraco e nunca serei. A dor me moudou e hoje sou forte o suficiente para ir até o fim e cumprir com o meu objetivo e com o juramento que fiz no túmulo de meus pais... Justiça. E neste mundo sujo, justiça é olho por olho, dente por dente, carne por carne e sangue sobre sangue.
Mas a morte de Hernán Castilho, aquele "Hijueputa", seria fácil e rápido demais. Sem sofrimento é algo inútil pra mim. Eu quero que ele apodreça em vida, que mastigue a própria ruína até não restar dente na boca e que implore pelo seu fim, mas que ele nunca chegue.
Por isso, escolhi Luna. A filha dele.
Luna é uma jovem cega e que servirá perfeitamente para a minha vingança.
Poesia cruel do destino, não?
A filha que não enxerga. A flor que cresceu entre espinhos podres e que é frágil aos olhos do mundo. Mas eu sei - ela é a chave. O símbolo. A última coisa pura que aquele verme ainda protege.
E eu vou esmagá-la, mas com calma, lentamente, assim como o maldito pai dela fez com a minha alma.
Batidas na porta me fazem voltar a si.
- Senhor Torrenegro. - Mateo, meu homem de confiança, entra com o envelope da corte civil. - O juiz assinou. Está feito. A certidão sai amanhã nos jornais.
- Perfeito. - dou o último gole no meu Whisky e assino sem ler.
Foda-se!
Tudo foi arquitetado com antecedência e os votos foram escritos por uma assessora. Se trata de uma cerimônia simbólica roteirizada, sem nenhuma emoção ou vacilo. É só estratégia e ponto final.
Eu não quero amor, toque ou qualquer tipo de sentimentalismo. Eu quero apenas o poder, e assim destruir definitivamente o causador de todo o meu ódio.
Largo a caneta e ao olhar através da janela de vidro espelhado o horizonte de Medellín me chama a atenção. A cidade parece respirar tranquilamente, diferente de mim, que apenas existo, mas eu vejo o submundo por trás das luzes, a selva real - onde só sobrevive quem mata.
E amanhã, quando Luna Castilho vestir branco - o vestido que escolhi, o véu que mandei bordar e os sapatos de cristal que paguei - e caminhar na minha direção com passos guiados porque não enxerga... será o começo do fim.
O meu golpe final.
Finalmente terei a minha "venganza".
Já imaginei esse momento. Fantasiei, até. O tecido marcando o corpo e os lábios tremendo sem saber o que vem. Ela não vai me ver, mas vai me sentir, e saber, sem dúvida, que está diante do homem que destruiu tudo o que ela conheceu.
Eu sou o predador.
Ela é o cordeiro no altar dos meus mortos.
Mas tem algo que ainda me fere. Algo que me atormenta à noite. Algo que me enoja, porque não deveria existir.
Foi a voz dela.
Suave, sem medo e sem súplica. Apenas... verdade.
- Por quê?
Ela perguntou com calma ao sentir o anel de noivado deslizando no seu dedo anelar direito. Como se já soubesse a resposta, mas quisesse ouvir da minha boca. E eu... calei. Não porque não sabia. Mas porque sabia demais.
Com essa recordação jogo o corpo na poltrona do escritório, um couro frio, mas não tão gélido quanto a lembrança do perfume dela que me assalta como uma maldição - jasmim e mel. Simples, inocente e inaceitável.
Ela usava um vestido azul quando nos vimos. Simples, de algodão. As mãos pousadas no colo, como se estivesse à espera de um julgamento. Disseram que foi educada e que confiava no pai.
Coitada. Pelo que parece ela não sabe quem é o pai, e muito menos tudo o que ele era capaz de fazer unicamente pela ganância. A confiança é a arma dos tolos. E Luna... ainda é tola. Mas ela vai aprender. Vai sentir o mundo com os dedos, com o olfato e com a pele. Vai aprender o que é viver com o medo sussurrando no ouvido. E talvez - talvez - aprenda a me reconhecer antes de ser tarde demais.
Porque eu não sou herói. Estou longe disso e não faço a menor questão de ser. Eu sou o monstro que ela nunca teve chance de evitar.
Meu telefone vibra e me trás de volta.
Era Mateo: "A garota chegou à casa de campo e está instalada."
Levanto.
Amanhã é o casamento civil. Depois, o teatro para os jornais. E finalmente... a noite. Onde ela vai deixar de ser Castilho. E vai se tornar minha. A Minha noiva e a moeda de vingança.
Com a sua beleza e inocência poderia ser a minha ruína - se eu deixasse. Mas ainda não é o momento disso. Preciso ser cauteloso e frio até conseguir o que desejo. E quem sabe depois posso usufruir o que será meu por direito.
Mas, agora é hora de descer, vê-la de novo e de lembrar a mim mesmo que não existe espaço para fraqueza.
Luna Castilho pode viver num mundo sem luz, mas vai aprender a ver com os sentidos, e quando sentir o que habita em mim - o ódio, o luto e a fome de vingança - talvez, bem no fim ou não, descubra que o monstro que a rodeia... já começou a sangrar por ela.
"Ele pensa que por eu não enxergar, serei fácil de conduzir. Mas no escuro onde ele tenta me prender... eu caminho de olhos fechados. E sei exatamente onde fincar a lâmina." - Luna Castilho
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Me chamo Luna Castilho, tenho vinte e um anos, e sou deficiente visual desde que nasci. Mas isso não me incomoda ou entristece, na verdade, eu me acostumei a enxergar o mundo de outras maneiras e isso me encanta. O que me enoja é a maneira como sou vista nesta casa: como uma mera mercadoria. Luxuosa. Mas, isso não muda o fato de eu me sentir como um objeto descartável.
Por que falo isso?
Simplesmente, porque dias atrás disseram que eu me casaria com um homem poderoso, mas não perguntaram se eu queria e sequer me deram tempo de raciocinar. Por certo supõem erroneamente que deficiência visual afeta os neurônios e o raciocínio. E como era de costume, só me jogaram a sentença como quem arremessa um animal ao matadouro.
- Seu pai quer isso, menina Luna.
Foi tudo o que eu ouvi e como uma filha obediente devo obedecer. Pois quando o meu pai quer alguma coisa... o mundo inteiro obedece sem pestanejar. Inclusive eu.
Não porque sou submissa. Mas porque sei escolher as batalhas que valem o sangue. E essa... essa exigia mais do que gritos. Exigia silêncio, observação, estratégia e perspicácia. Exigia que eu vestisse a pele da presa enquanto afiava, por dentro, os dentes da predadora.
Sou cega desde que me entendo por gente. Cresci no escuro. Literalmente. Mas o escuro me ensinou o que a luz nunca ofereceria: A escutar o mundo quando ele tenta mentir. A sentir o medo nas pausas entre as frases e a reconhecer o perigo pelo cheiro, o desejo pelo calor da pele e a mentira pelo som da respiração.
Me chamaram de frágil a vida inteira, e afirmaram que eu era feita de vidro. Mas ninguém vê o que há por dentro do vidro... E o que há aqui... é aço forjado na dor. Sou mais forte do que muitos imaginam, mas poucos conseguem enxergar além do que os olhos podem ver. Para isso precisamos ter sentimentos puros, sinceros, e principalmente, alma. E isso é algo que eu não senti com a presença do meu futuro esposo naquele encontro onde usava meu vestido preferido de cetim da cor do céu que enxergo em minha imaginação.
A minha vida inteira fui cercada por mistérios, segredos e mentiras. Conheço o mundo através do toque e do cheiro, e o meu pai... fede a medo. Um medo úmido, azedo e antigo, que ele tenta esconder com colônia cara e discursos de honra. Mas nada disso funciona comigo.
Quando me disseram que eu me casaria com Fernando Torrenegro, o nome não me causou surpresa. Eu já ouvira aquele nome sussurrado por entre portas, cuspido com medo pelos empregados e evitado por aliados. Torrenegro era uma sombra que ninguém queria nomear. Eu só não esperava que a sombra tivesse forma, peso, calor e que me tocaria de uma maneira inexplicável.
- Ele é perigoso, senhorita - sussurrou uma das criadas, enquanto me penteava o cabelo. - Mas muito bonito, e com um olhar frio. Parece carregar o inferno dentro daqueles olhos sombrios.
Perigoso, bonito e sombrio. Como o mar antes do naufrágio e uma arma apontada com calma.
Esse homem havia se tornado um enigma que eu estava com muita vontade de decifrar.
Na véspera do casamento, me deixaram trancada num quarto da casa de campo. A porta rangeu quando se fechou, mas eu já estava habituada a isso. O som do trinco. O motor do carro se afastando. A ausência das vozes. E então... o silêncio.
Mas o silêncio, para mim, nunca é vazio.
Ele respira, mas às vezes pesa. E naquela noite, ele era denso e quente, como se as paredes transpirassem uma presença contida.
E eu sabia, eu sentia... Ele estava ali.
Podia não ver, mas o ar denunciava. Sem falar no cheiro - um misto de couro, álcool, pólvora e algo amadeirado - grudava no fundo da garganta. Era como se o espaço tivesse sido invadido não por um corpo... mas por uma decisão.
- Está me observando? - perguntei, virando o rosto na direção certa.
Não havia medo na minha pergunta. Só a certeza de que não estava sozinha. Minha curiosidade é sempre mais forte que meu pavor, e isso, por diversas vezes, me causou muitos problemas.
O silêncio entre nós se estendeu como uma corda esticada.
Então, para a minha surpresa, a resposta veio.
- Você sempre fala com o vazio?
A voz me fez estremecer. Era baixa, rouca e arrastada, mas intensa, e me faz paralisar. Ela não entrava pelos ouvidos... me atravessava. Senti meu estômago girar. Não por medo, mas por reconhecimento.
Fernando Torrenegro. O homem que meu pai temia e que agora seria o meu marido, meu algoz ou meu espelho.
- Só quando o vazio tem cheiro de pólvora - finalmente respondi.
Ele riu. Mas não foi um riso de verdade, foi só o som de alguém que cansou de rir há muito tempo.
- Você é esperta.
Senti o ar mudar com a proximidade dele.
- Isso pode ser perigoso.
Ele continuou dando passos em minha direção e o calor da sua presença aumentava. Eu podia sentir a tensão vibrando entre nós como eletricidade estática. Eu não tremi, mas meu corpo inteiro estava em alerta como nunca havia acontecido. Até porque eu cresci sendo observada e subestimada. Aprendi a ser pedra por fora e faca por dentro. E não seria a presença imponente de um homem que mudaria as coisas.
- Por que está se casando comigo? - a pergunta saiu afiada.
Novamente o silêncio entre nós. Mas não era um silêncio vazio, e sim, carregado de memórias que ele não queria dividir.
Então veio a resposta.
- Porque o mundo é feito de dívidas. E você... é a moeda de um acerto antigo.
Senti as palavras como estilhaços sob a pele. Mas permaneci firme.
Não sou o tipo de mulher que chora por verdades ditas sem anestesia. Eu prefiro elas assim mesmo... Cruas, afiadas e mortais.
Sem cerimônia ele tocou o meu queixo e dessa vez eu estremeci. Seu toque foi leve demais, era como se ele estivesse me testando e querendo saber se eu quebrava em sua mão. Mas há coisas que não se quebram. Elas cortam de volta. E eu, era uma delas.
- Não sou seu inimigo - disse ele, com a voz rouca como lenha queimando lentamente.
Mas também não disse que era meu aliado.
E isso... isso dizia tudo.
Ele se afastou e tudo pareceu vazio.
Quando ele saiu, o quarto ficou impregnado dele. O cheiro, a presença e o som invisível da sua ausência. Era como se ele ainda estivesse ali, parado diante da porta, me vigiando sem ser visto. Fernando Torrenegro mexe comigo, mas ainda não consegui distinguir até que ponto.
Horas depois eu deitei na cama, mas não dormi. Fiquei ouvindo o som do meu próprio coração. Ele batia com força. Não de medo, mas de raiva. De uma vontade absurda de sobreviver, de lutar e de vencer a mim mesma e os meus pensamentos.
Cada batida dizia o nome dele.
...Fernando.
...Fernando.
...Fernando.
Como se meu corpo já estivesse se preparando para o impacto.
- Amanhã serei sua esposa. Uma esposa cega, mas não tola - murmuro para mim mesma.
Ele pensa que vai me conduzir como uma marionete muda e uma peça de xadrez sacrificável, mas não sabe que eu sou o tabuleiro, e que às vezes, a rainha mais silenciosa é a que dá o xeque-mate. Eu não fui criada para ser flor em vitrine, e ser moldada. Me tornei quem sou no escuro, na pressão e na mentira. Se Fernando Torrenegro pretende me usar como isca para alcançar seus objetivos obscuros, que tome cuidado. Porque até o peixe mais dócil tem espinhos. E às vezes... o anzol se parte antes da linha.
Ainda não sei quem ele é de verdade, mas sinto que há um monstro em sua pele. E algo ainda mais perigoso por baixo dela: Um homem que sangra, hesita e já foi ferido - talvez do mesmo jeito que eu ou pior. Mas isso não muda nada. Não vou me distrair com rachaduras e mem com sombras de humanidade. Até porque a minha sobrevivência depende de manter os olhos fechados - e todos os outros sentidos bem abertos.
Se ele pensa que sou um peão cego, vai descobrir que estou jogando outro jogo que ele não conhece. Porque nesse... quem domina o escuro, reina. E aprendi que às vezes... é no escuro que a caça vira caçadora.
Eu sou Luna Castilho, e jamais me submeterei aos caprichos de um homem sem lutar, sejam eles por quais motivos forem, mesmo que esse homem seja o meu marido e mexa comigo mais do que deveria.
"Casei com ela para destruir seu pai, mas é ela quem está dilacerando o que restou da minha alma - e nem precisou me tocar para isso." - Fernando Torrenegro
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O tempo passou rápido... muito mais rápido do que eu imaginava. O momento de cumprir o meu juramento estava próximo, em algumas horas conseguirei arrancar do meu peito toda dor que carrego durante longos vinte e sete anos. Quase três décadas aguardo esse momento de fazer o maldito Hernán Castilho pagar pelas suas atrocidades, e enfim, esse dia chegou.
Estou de pé próximo ao pequeno altar criado para toda essa encenação, usando um terno preto, como de costume, e louco para que toda essa história tenha um fim. De repente a porta principal é aberta, e Luna surge vestida de branco. Mas não era o branco dos contos de fadas, de pureza ou redenção. Era o branco do silêncio antes da explosão. Uma cor estéril, limpa demais, esperando ser manchada com tudo o que carrego: sangue, promessas falsas e intenções torpes.
Luna Castilho caminhava como se não tocasse o chão, guiada por uma mulher que não me interessa e cujo nome não me importa. Meus olhos - e mais do que os olhos, meu instinto - estavam cravados nela. No modo como se movia com a cabeça erguida e como cada passo era dado com uma firmeza que não pertencia a uma noiva cega sendo entregue ao seu carrasco.
Ela não se arrastava, não tremia, e muito menos era um cordeiro. Luna era uma lâmina afiada disfarçada de uma flor delicada.
O salão da casa de campo havia sido transformado num teatro para a imprensa decorada com flores claras, tapeçarias antigas e relíquias do velho mundo. Além de câmeras escondidas e sorrisos falsos. Políticos curiosos e jornalistas famintos aguardando a união simbólica entre os dois grandes nomes de Medellin: Castilho e Torrenegro.
Mas eu não via nada disso. Quando Luna surgiu diante dos meus olhos, eu só senti a explosão e a inquietação que ela causava em mim. Eu só sentia ela. Um calor sob a pele e um arrepio que se arrastava na espinha. Luna era silêncio. Mas não um silêncio submisso. Era o tipo de silêncio que grita.
Ela parou diante de mim e parecia enxergar a minha alma. Seu rosto estava voltado para frente, e era como se me encarasse. Mas os olhos... tão serenos. Tão vazios. Luna tem olhos de quem não teme o abismo, porque já aprendeu a habitá-lo.
E ali, bem ali, eu soube: essa mulher vai me destruir.
A cerimônia foi iniciada. O juiz civil falou frases curtas, burocráticas e cheias de palavras sem alma. Tudo como eu havia planejado. Minutos depois assinei o livro e Luna fez o mesmo. A mão dela era firme e determinada, como se estivesse assinando um tratado de guerra e não a sentença do seu destino.
- Pode beijar a noiva - disse o juiz.
Eu podia não fazê-lo. Podia manter a encenação até o fim, sem tocar em nada, mas eu a beijei. Porque era parte do jogo, todos estavam vendo e eu precisava provar a eles - e a mim - que estava no controle.
Segurei seu rosto com uma das mãos. A pele dela era quente, macia e viva demais. Isso não estava nos meus planos. Luna tinha uma beleza única, daquelas que não precisava fazer esforço para conquistar, era natural, simples e ao mesmo tempo fatal.
Tentei não pensar, até porque se eu seguisse os meus instintos acabaria cometendo um erro, e erros para um homem como eu são inaceitáveis. Então mecanicamente inclinei-me e encostei meus lábios nos dela. O beijo foi rápido e frio. Mas não consegui ser indiferente como imaginava, quando toquei os lábios de Luna algo estalou dentro de mim. Como se o contato tivesse aberto uma rachadura no que eu pensava estar selado.
A boca dela tinha gosto de fúria contida. De uma mulher que sabia o que estava fazendo. E isso... me incomodou.
- Agora você é minha - sussurrei em seu ouvido.
Ela não se moveu, não tremeu e tão pouco hesitou.
Apenas respondeu:
- Desde quando fui algo que se possui?
Engoli seco.
Não porque a frase dela me feriu, mas porque me expôs. Ela viu através da máscara. Mesmo sem olhos.
Durante o brinde, os flashes das câmeras estouravam como tiros. Os sorrisos falsos me cercavam como hienas em volta de um cadáver. Eu fingia. Apertava mãos. Repetia palavras ocas. Cumpria o protocolo.
Mas tudo o que eu queria era o silêncio.
Queria tirá-la dali. Queria saber se o desafio era real... ou só um verniz bem polido.
Quando, finalmente, nos recolhemos, a noite já havia engolido tudo. Fechei a porta atrás de nós e ordenei que ninguém nos incomodasse. A sala reservada para a noite de núpcias era simples, bonita e teatral. Mas tudo me parecia pequeno demais com ela dentro.
Luna estava sentada à beira da cama. O vestido ainda estava impecável, o seu corpo estava firme, as suas mãos sobre o colo e o queixo erguido como se pudesse me ver.
E então, ela falou antes de mim:
- Você vai me despir como parte da punição ou da cerimônia?
Parei.
A pergunta cortou o ar. Não porque era ofensiva, mas porque era precisa. Como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo: Me desafiando.
Cheguei mais perto. Mas não a toquei. Seu perfume de rosas invadiu a minha respiração, e me fez oscilar por alguns instantes.
Ela não era uma boneca nas mãos do lobo, e sim, uma bomba relógio. E eu já ouvia a contagem regressiva dentro dela.
- Não vou te tocar hoje - disse.
Minha voz saiu mais baixa e mais rouca do que imaginei. Talvez porque, no fundo, uma parte de mim não conseguisse cumprir o que prometi a mim mesmo.
- Ainda não.
Ela soltou um suspiro. Curto. Quase inaudível.
Seria um suspiro de alívio ou frustração? Naquele momento eu não consegui decifrar.
Ela apenas respondeu:
- Obrigada!
Obrigada!
Como se me concedesse algum mérito por não violar uma mulher que eu havia comprado como parte de uma guerra pessoal.
Eu virei as costas. O quarto parecia encolher. A presença dela enchia cada centímetro de ar. Eu me sentia sufocado, e algo dentro de mim gritava para que eu saísse imediatamente daquele cômodo, ou algo inesperado poderia acontecer.
Então sem pronunciar nenhuma palavra eu saí e encostei o meu corpo na parede do corredor.
Meu peito doía.
O coração batia como um tambor de guerra, mas não era raiva ou desejo, era uma confusão que me irritava profundamente. Porque eu não sou um homem que sente... Sou um homem que manda, que toma e que destrói.
E ela... Ela estava desmontando tudo com meia dúzia de frases e um silêncio que me esmagava.
Fechei os olhos por alguns instantes e respirei fundo, mas o perfume dela ainda estava nas minhas narinas. E por algum motivo maldito, aquilo me acalmava e me provocava ao mesmo tempo.
Voltei ao quarto uma hora depois. Ela dormia. Ou fingia. Não falei nada. Não me aproximei. Fiquei parado ali, no escuro, observando o vulto dela sob os lençóis.
E pela primeira vez em muito tempo, eu me fiz uma pergunta que nunca imaginei:
E se eu não conseguir destruí-la?
Porque Luna Castilho... Ela não é uma peça no meu jogo, e sim, o tabuleiro inteiro. E talvez, só talvez, ela seja a única capaz de me fazer perder.
Mas isso não importa. A guerra já começou.
Ela é minha esposa agora. Minha moeda e minha arma. E se eu tiver que me queimar para vencer, que seja. Porque no fim, só um de nós pode sair inteiro. E eu nunca fui metade de nada e tão pouco dominado por uma mulher.
Seguirei com meus planos e os meus objetivos serão alcançados custe o que custar.