Parte 1...
Ayla Santana
A gente aprende cedo que, em Nova Karam, nada vem fácil. Mas eu aprendi um pouco antes dos outros.
Aprendi quando perdi meus pais. Aprendi quando minha tia ficou doente. E aprendi, principalmente, quando percebi que, se eu não segurasse a barra, ninguém mais faria isso por mim, nem por Narin.
Era isso o tempo todo na minha cabeça naquela manhã cinzenta, enquanto corria para não perder o ônibus.
- Ayla, espera! - Narin gritava atrás de mim, tropeçando nos próprios cadarços. - Eu não alcanço você!
Olhei pra trás e ri sem querer. Era impossível ficar brava com ela.
- Corre, menina! – chamei com a mão. - O motorista não vai ter dó de nós hoje, não.
Narin veio toda atrapalhada, a mochila pulando nas costas, o rabo de cavalo meio torto.
- Eu tentei arrumar a tia antes de sair - ela disse, ofegante, quando finalmente me alcançou - Mas ela não quis levantar da cama. Disse que estava vendo meu pai pela janela.
Suspirei fundo. O coração deu aquela apertada que eu já conhecia bem.
- Ela está piorando - murmurei. - A gente precisa conversar com a médica de novo.
- Eu sei - Narin baixou o olhar. - Mas ainda acho que ela viu alguma coisa. Ela estava muito firme...
- Narim... - toquei o ombro dela. - A tia vê coisas. Sempre vê. Isso não quer dizer que é real.
- Eu sei - ela respondeu baixinho. - Mas dói igual.
Dói mesmo. Dói muito mais em mim do que eu deixo ela perceber. Porque a tia Salma foi tudo pra nós depois que o mundo virou pó.
Ela nos criou, alimentou, amou... Até que a doença começou a levar pedacinhos dela embora. E eu tive que segurar tudo com as mãos trêmulas de quem não estava pronta, mas não tinha escolha. Quando se tem que fazer, não se discute. Só faz.
Quando o ônibus parou, entramos espremidas entre gente suada, gente cansada e gente que, como nós, fingia que estava tudo bem. Nova Karam às vezes parecia feita só disso: gente fingindo. Narin me cutucou.
- Você vai sair tarde hoje?
- Provavelmente sim.
- Quer que eu faça janta?
- Não. Eu faço quando chegar.
- Ayla... Para. Você está exausta.
- E você tem prova amanhã - rebati. - Eu faço. Sem discussão. Você estuda.
Ela fez aquela cara de irmã mais nova irritada, mas que por dentro sabe que eu estou certa.
- Você é chata - murmurou.
- E você é lenta. Agora desce, que é o seu ponto.
Ela saiu do ônibus fazendo careta, e eu fiquei observando pela janela até ela desaparecer atrás dos prédios antigos do bairro universitário.
Aquele pedacinho de chão era o que ela tinha conquistado com esforço, e eu faria qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, para que ela não perdesse aquilo.
Depois que o ônibus voltou a andar, apoiei a cabeça no vidro e soltei o ar devagar. Eu tinha dormido quatro horas.
Trabalhado em dois turnos no bar. E ainda precisava ir para o emprego principal, o laboratório onde eu recebia quase nada para fazer quase tudo.
Mas reclamo? Não. Eu só ia e fazia. Sempre fiz. Porque alguém tinha que manter nossa casa de pé.
E esse alguém era eu.
***** *****
Cheguei ao laboratório quinze minutos atrasada. De novo. Fazer o quê?
- Ayla, corre! - gritou Lídia, minha colega, acenando com luvas cirúrgicas. - A supervisora já rodou o setor. Se você não passar por ela agora, ela vai te engolir viva.
- Ótimo - murmurei. - Era tudo o que eu precisava.
Corri pelo corredor estreito e gelado, prendi o cabelo com um elástico improvisado e peguei o avental branco meio amassado. Quando virei a esquina, dei de cara com a supervisora.
- Santana. - ela me encarou por cima dos óculos, como se eu fosse um inseto. - Eu contei. De novo.
- Eu sei, eu sei - respondi, sem tentar inventar desculpa. - O ônibus...
- O ônibus sempre atrasa para você, né?
- Sempre - concordei, porque era verdade.
Ela bufou e empurrou uma prancheta nas minhas mãos.
- Já que chegou, comece pelo setor três. Está tudo atrasado.
- Sim, senhora.
Eu virei para entrar na sala quando ouvi Lídia sussurrar:
- Ela te odeia, Ayla.
- Não odeia - respondi baixinho. - Ela só gosta de sentir que tem poder. Eu já entendi o jogo dela.
- E você vai continuar deixando?
- Eu não preciso brigar por coisas pequenas. Tenho brigas maiores lá fora.
Lídia suspirou.
- Você é muito calma pra quem carrega o mundo nas costas.
Sorri de lado.
- Se eu não fosse calma, eu já tinha quebrado alguma coisa por aqui. – girei os olhos.
Ela riu.
- Verdade.
Enquanto colocava as luvas, pensei em quantas brigas eu já tinha engolido na vida. Quantas humilhações.
Quantas noites de sono trocadas por turnos duplos.
Tudo para que minha família tivesse uma chance mínima de continuar inteira.
***** *****
Quando o turno acabou, já era noite.
Eu voltei para casa caminhando, porque o último ônibus tinha passado e eu não tinha dinheiro pra chamar carro.
Nova Karam à noite era outra cidade.
As luzes douradas refletiam nas poças de chuva, criando caminhos que pareciam feitos de ouro falso.
Os prédios altos lançavam sombras monstruosas nos becos, e o cheiro de especiarias vinha das ruelas onde gente vendia de tudo. Frutas, lembranças, falsificações, segredos.
Eu morava no bairro mais simples da zona sul, onde tudo parecia meio improvisado, meio quebrado, mas era o que tínhamos.
Quando abri a porta do apartamento, ouvi a voz da tia Salma imediatamente.
- Ayla! Vi seu pai hoje! Ele bateu na janela e disse que vai entrar!
Narin apareceu da cozinha com a expressão cansada.
- Ela está assim desde as seis da tarde.
- Eu estou vendo ele, Ayla! - a tia insistiu, sentada na poltrona, mãos trêmulas. - Ele disse que precisa falar com você!
Ajoelhei na frente dela.
- Tia... Eu sei que parece real. Mas não é. - peguei suas mãos entre as minhas. - Ele não está aqui. Está só na sua lembrança.
Os olhos dela encheram de lágrimas.
- Mas eu queria tanto que fosse verdade...
Meu peito apertou.
- Eu sei, tia. Eu também.
Ela me puxou para um abraço fraco e quente, e eu fiquei ali, segurando o choro para não desabar.
Quando a soltei, fui até a cozinha.
Narin estava cortando legumes, mas do jeito errado, perigoso.
- Ei! - falei gentilmente. - Me dá isso. Você tem prova amanhã.
- Ayla... Você está trabalhando demais. Você não vai aguentar. É muito estresse.
- Eu aguento. Sempre aguentei.
- Mas a que preço?
Parei. Respirei.
- O único preço que eu não posso pagar é ver você perder o que conquistou. Ou ver a tia piorar porque eu não estou aqui. Todo o resto... Eu dou um jeito.
Narin me olhou como se eu fosse uma espécie de muralha. Eu não era. Eu só estava cansada demais para cair.
- Às vezes acho que você é feita de ferro - disse ela.
- Não sou, não - respondi, rindo um pouco. - Mas finjo bem.
Ela largou a faca e me abraçou de repente.
- Eu te amo, Ayla.
- Eu também te amo, chatinha.
Quando finalmente sentamos para comer, percebi que a comida estava salgada demais, mas engoli sem reclamar.
Era nossa rotina. Nossa tentativa de vida normal.
Depois do jantar, enquanto Narin estudava e a tia dormia, fui lavar a louça. Água quente nas mãos, vapor no rosto, e um silêncio pesado na mente.
Às vezes, nesses minutos sozinha, eu imaginava como seria uma vida sem medo. Sem correr atrás de contas.
Sem me preocupar se a tia teria um surto enquanto eu estivesse fora. Sem carregar tudo o tempo todo.
Mas esse tipo de pensamento é perigoso.
Dói mais do que ajuda. Então eu deixava ir.
Quando terminei tudo, me sentei no sofá e peguei meu caderno velho de anotações. Ali eu escrevia as metas impossíveis que fingia acreditar.
"Pagar dívida do hospital... Conseguir emprego melhor... "Fazer Narin se formar em paz...
Cuidar da tia."
Listei tudo de novo. Substituí uma ou outra meta.
E, enquanto fazia isso, ouvi Narin me chamar do corredor:
- Ayla?
- Oi.
- Amanhã vou passar no mercado antes de voltar. Falta café.
- Não precisa, eu compro no caminho.
- Ayla... Você precisa parar de resolver tudo.
Sorri sem olhar para ela.
- É o que eu faço.
Ela suspirou, mas deixou pra lá. De certa forma, ela sabe que eu tenho que fazer, senão as coisas pioram.
Parte 2...
Ayla
Quando o relógio marcou quase meia-noite, me deitei na cama estreita e deixei o corpo afundar no colchão velho.
Eu estava cansada.
Exausta de um jeito que parecia vir dos ossos. A casa estava em silêncio. Narin estudava no quarto e minha tia dormia depois de um dia difícil. Eu estava quase apagando quando ouvi passos leves no corredor.
- Ayla? - Narin chamou baixinho.
- O que foi? - perguntei, sentando na cama.
Ela entrou devagar, segurando um envelope amassado.
- Chegou isso hoje. Estava na caixa de correio. Quase esqueci de te entregar.
Peguei o envelope e virei de um lado para o outro. Era do hospital. Meu estômago apertou.
- Você não abriu?
- Não. - ela balançou a cabeça. - Mas eu sei o que é. A conta da tia. A nova.
Respirei fundo antes de rasgar o envelope.
E, quando tirei a folha, senti o ar sumir dos meus pulmões.
- Quanto deu? - Narin perguntou, ansiosa. - Ayla?
Eu tentei falar, mas a voz não saiu.
Mostrei o valor para ela. Bem mais alto do que pensei. Os olhos dela se encheram de lágrimas.
- A gente... A gente não tem isso.
E não tinha mesmo. Nem trabalhando duas vidas seguidas.
- Ayla... O que vamos fazer? É muito dinheiro.
Eu olhei para a folha na minha mão.
Para a porta do quarto da tia. Para o futuro que parecia sempre fugir da gente.
- Amanhã - disse finalmente - Eu vou atrás de algo. Algum extra. Qualquer coisa que pague um pouco mais. Vai surgir alguma coisa.
- Mais? Você já trabalha demais...
- Não importa. - forcei um sorriso. - Eu dou um jeito. Eu sempre dou, não é?
Narin me abraçou forte, quase desesperada.
- Eu queria te ajudar mais - ela sussurrou.
- Você já ajuda sendo quem é - respondi, beijando o topo da cabeça dela. - Vai dormir. Amanhã você tem aula cedo.
Quando ela saiu, fiquei só eu e o silêncio. Eu e aquela conta absurda. Eu e a velha sensação de que, para sobreviver, eu sempre precisava correr mais um pouco.
E, enquanto guardava o envelope na gaveta, um detalhe preso ao rodapé da folha chamou minha atenção:
"Vencimento: amanhã."
Amanhã. Meu Deus! Como se eu pudesse simplesmente tirar dinheiro do concreto da parede.
Foi aí que meu celular vibrou na mesa. Uma mensagem do dono do bar onde eu fazia limpeza noturna:
"Ayla, uma das garotas vai faltar. Preciso que venha amanhã depois do seu turno. Pagamento é em dinheiro."
Meu coração bateu mais rápido. Era exaustivo.
Era perigoso voltar tão tarde para casa. Era exatamente o tipo de trabalho que eu prometi não pegar mais, porque vira e mexe dava algum problema.
Mas... Eu olhei para o envelope de novo. Eu não tinha escolha. Peguei o celular e respondi:
"Eu vou se me pagar em dobro." – enviei.
"Dobro?"
"Sim, pela urgência". – respondi.
Ainda bem que não demorou e ele disse que tudo bem. Fechei os olhos e virei de lado.
***** *****
Narin
Eu estava na cozinha, abanando o rosto da tia Farida com um caderno velho para tentar aliviar sua febre, quando ela começou a tossir daquele jeito seco, áspero, que fazia o peito dela chiar.
- Tia... Respira devagar, por favor... - pedi, inclinando o copo de água. - Toma mais um pouco.
Ela tentou beber, mas a tosse pegou de novo. A água escorreu pelo canto da boca.
- Está doendo, meu amor... - disse com a voz rasgada. - Parece que tem fogo no meu peito.
Meu coração apertou. Eu detestava sentir que não podia ajudar. Detestava ainda mais a casa vazia sem a Ayla, parecia que tudo ficava maior, mais escuro.
Ayla estava trabalhando no turno da madrugada outra vez. Desde que ela arrumou aquele emprego no restaurante, e mais os bicos de limpeza, quase nunca pegava nesses horários, porque é perigoso tão tarde. E, quando pegava, era só por necessidade maior, parecia sempre exausta demais para respirar.
A tosse da tia veio mais forte, dobrando ela para frente.
- Ok, chega. - fiquei de pé. - Eu vou ligar pra Ayla agora.
Peguei o celular e disquei antes que ela pudesse protestar. A ligação caiu com o barulho do bar no fundo.
- Narin? - Ayla atendeu com a voz cansada. - O que houve?
- A tia está piorando. A tosse está mais forte. Não adianta só chá e vapor... Acho que ela precisa daquele xarope que o Dr. Murat passou.
- Mas nós temos em casa.
- Tinha. Acabou ontem. Eu falei, lembra?
Silêncio. O tipo de silêncio que Ayla fazia quando estava tentando acertar o problema.
- Ok, então chama a farmácia. Pede pra entregar aí.
- A entrega dá quase o preço do remédio, Ayla...
- Narin, não sai de casa à noite. Você sabe como...
- A farmácia é a três quadras daqui. - revidei, tentando parecer mais segura do que estava. - Eu vou e volto rápido.
- Narin... Não inventa. – a voz dela ficou séria. - Você sabe muito bem que essa cidade não é...
- Eu vou de tênis, vou pelo caminho iluminado. - interrompi. - Não precisa ficar preocupada. Só não quero gastar dinheiro à toa. A gente está se virando com migalhas.
Do outro lado, Ayla respirou fundo. Eu conhecia essa respiração. Era o momento exato em que ela decidia parar de brigar porque não dava tempo.
- Tá. - ela cedeu. - Mas me liga quando chegar na porta da farmácia. E quando sair. E quando entrar em casa. Você me entende?
Eu sorri um pouco, apesar da tensão.
- Sim, irmãzinha-mãe.
- Estou falando sério.
- Eu sei. Eu te amo. Vou ser rápida.
- Eu também. Se cuida.
Desligamos. Peguei minha mochila, enfiei o dinheiro dentro e olhei para a tia. Ela estava recostada no sofá, respirando devagar, os olhos meio pesados.
- Eu já volto, tia. Prometo. Cinco minutos.
Ela levantou o olhar, com aquele sorriso fraco.
- Vai com Deus, minha filha.
***** *****
O ar estava úmido, carregando um cheiro de chuva que talvez viesse mais tarde. Os postes de luz estalavam, iluminando as calçadas estreitas do bairro onde morávamos.
Passou um grupo de jovens rindo alto do outro lado da rua. Um carro preto arrancou com velocidade numa via transversal. Uma senhora fechava a barraca de verduras, guardando tudo com movimentos apressados.
Eu caminhava rápido, o suor nas mãos apesar do frio leve. Nova Karam não era o tipo de cidade onde você andava distraída. Tinha muito brilho, muito concreto, muitos prédios novos... E entre eles, sombras suficientes para ninguém se meter onde não devia.
Três quadras. Só isso. Quando cheguei à porta da farmácia, cumpri a promessa. Liguei para a Ayla.
- Já cheguei.
- Compra duas unidades, se tiver promoção. - ela pediu. - E anda logo.
Comprei o xarope, mais uns comprimidos de pastilha, e coloquei na sacola. Saí da farmácia sentindo uma tensão que eu não sabia explicar. Talvez fosse só o medo de deixar a tia sozinha. Liguei de novo.
- Já estou voltando.
- Vai pela rua do colégio, não pela avenida.
- Tá.
Guardei o celular e comecei o caminho de volta. Eu virei a última rua antes de chegar em casa. Foi aí que eu ouvi.
- PARA DE GEMER, CARALHO!
A voz masculina ecoou forte, carregada de crueldade. Meu corpo inteiro congelou.
Meu primeiro impulso foi olhar para trás. Meu segundo impulso foi continuar andando fingindo que não ouvi nada. Mas a curiosidade ou o medo ou os dois juntos me puxaram um passo adiante, bem devagar.
A rua estava meio escura, mas eu reconheci os reflexos das luzes de um carro preto estacionado do lado do galpão abandonado. E então ouvi outra voz.
Fraca. Ofegante. Chorando.
- Por favor... Eu já falei tudo... Por favor... Não faz isso...
Me aproximei só mais um pouco e fiquei atrás de uma caminhonete estacionada. Meu coração batia tão forte que eu ouvi a própria circulação nos ouvidos.
Eu olhei e vi a cena.
Um homem estava ajoelhado no chão, com as mãos presas atrás das costas. O rosto dele estava inchado, sangrando. Parecia um advogado ou alguém importante, terno caro, relógio brilhando na calçada.
Diante dele havia três homens. Dois seguravam armas. E o terceiro...
O terceiro parecia comandar tudo sem precisar levantar a voz. Alto, ombros largos, terno escuro impecável, o cabelo puxado para trás.
Um rosto frio. Tão frio que parecia feito de pedra. Ele não gritava. Falava baixo, mas com controle.
- Você teve a chance de falar antes. - disse o homem do terno escuro. - Agora já não importa mais.
O que parecia um advogado começou a chorar, rastejando, as palavras embolando.
- Emir, por favor... Emir... Eu imploro... Eu tenho uma filha... Uma filha pequena...
Parte 3...
Narin Santana
Meu estômago virou.
- LEVANTA, PORRA! – um dos homens bateu na cabeça do que estava ajoelhado.
Meu corpo inteiro tremeu de medo. Olhei em volta, observando por onde eu poderia sair. Só tinha um carro preto do outro lado, parado com a porta aberta.
O homem ajoelhado chorava.
- Eu juro... Juro que não entreguei nada... Por favor... Eu tenho família...
O homem elegante inclinou a cabeça como se estivesse cansado.
- Eu não repito ordens duas vezes.
Ele levantou a mão. Só isso. Um gesto.
E o homem armado do lado direito engatilhou a arma. Eu coloquei a mão na boca para não soltar um grito. Devia ter me afastado sem fazer barulho, mas meu pé escorregou na calçada molhada.
O homem elegante virou o rosto na mesma hora. Os olhos dele percorreram a rua. As sombras, os carros, os cantos escuros.
E pararam exatamente onde eu estava. Meu coração parou junto.
- Tem alguém ali. - ele disse, com uma calma tão perigosa que minhas pernas quase cederam.
- Quer que eu veja? - perguntou um dos armados.
- Não. - respondeu o líder, sem desviar o olhar da minha direção. - Eu mesmo vejo.
Ele começou a caminhar até mim. Me escondi atrás da caminhonete, com as mãos tremendo tanto que quase deixei a sacola da farmácia cair.
Peguei meu celular. Minhas mãos mal respondiam e liguei para Ayla que graças a Deus atendeu logo.
- Ayla... - sussurrei, quase sem voz. - Ayla...
- Narin? Que voz é essa?
- Eu... Eu vi... Eu... - tentei falar, mas o ar travou no peito. - Tem um homem aqui... Ayla, ele tá aqui... Ele tá vindo...
- O quê? - ela quase gritou. - Narin, escuta! Sai daí agora! Onde você está? Me deixou nervosa...
- Eu não posso... Ele... Ele olhou pra mim... Ele tá vindo pra cá...
- Narin, pelo amor de Deus, eu estou nervosa. Me fala onde você está?
- Eu tô... - minha voz falhou quando ele virou a cabeça como se tivesse ouvido meu sussurro. - Ayla, ele tá vindo direto pra mim...
- Narin, corre! - ela implorou. - Corre agora!
Não deu tempo.
A bota dele raspou no chão, perto, muito perto. Quando olhei por cima da carroceria, ele já estava do outro lado, me enxergando como se eu tivesse chamado seu nome.
- Achei. - ele disse, baixo, frio.
Soltei um soluço. O celular quase caiu da minha mão.
Ele deu a volta completa na caminhonete, com passos pesados, firmes, e antes que eu pudesse reagir, sua mão fechou no meu braço com força suficiente pra arrancar meu ar.
- O que você tá fazendo aqui? - ele rosnou.
- Eu... Eu só... Eu tava passando... - minha voz vinha picotada, presa no susto. - Por favor...
Ele estendeu a outra mão, aberta.
- Celular.
- Por favor... Eu não vi nada... - murmurei, desesperada, tremendo. - Eu só quero ir embora.
- Celular. - repetiu, mais baixo ainda, como se o ar ficasse mais denso com cada palavra.
Minha mão vacilou. Tentei esconder o aparelho atrás do corpo por puro instinto, mas ele puxou meu pulso com brutalidade, arrancando o celular dos meus dedos. Um gemido escapou quando a dor subiu pelo braço.
- Quem é? - ele perguntou, ouvindo a voz da minha irmã que ainda chamava meu nome do outro lado. - Quem tá aí?
Engoli o choro, tentando respirar, mas as lágrimas já escorriam sem controle.
- É... M-minha irmã...
Ele levou o telefone ao ouvido sem tirar os olhos de mim. Quando ouvi sua voz, mais dura do que qualquer coisa que eu já tinha escutado, minhas pernas ficaram completamente fracas.
***** *****
Emir Navarro
A voz do outro lado veio trêmula, desesperada.
- Narin? Narin, fala comigo! Você tá me ouvindo? O que tá acontecendo? Eu tô ficando louca aqui!
A garota diante de mim chorava tanto que mal respirava. Tentei puxá-la mais perto pra ela parar de se mexer, mas só fez soluçar mais.
- Sua irmã não pode atender agora. - falei no telefone, seco. Silêncio. Depois um arquejo agudo.
- Q-quem... Quem é você? Onde está minha irmã? Me diz agora! O que você fez com ela?
- Ela viu o que não devia. - respondi. A garota tentou puxar o braço, e eu o apertei até ela parar. - E vai pagar por isso.
A mulher do outro lado perdeu o fôlego.
- Não! Não! Por favor! - ela implorou. - Ela não tem nada a ver com isso! Ela só tava passando! Eu juro! Eu imploro, não faz nada com a minha irmã!
- Não tenho tempo pra drama. - apertei a mandíbula. - Você quer ela viva? – nem sei porque perguntei isso. Tinha algo na voz do outro lado.
- Pelo amor de Deus, sim! Me diz onde você tá, eu vou agora, eu vou correndo, eu faço qualquer coisa!
Olhei pros homens, que já observavam, esperando ordens. O corpo no chão ainda quente atrás deles.
- Você tem dez minutos pra aparecer.
- Dez?! Eu tô do outro lado da cidade! Eu tô trabalhando! Eu não consigo em dez minutos! Eu... Por favor, por favor, não toca na minha irmã! Eu tô implorando!
A garota diante de mim chorou mais, ouvindo tudo. Suspirei, impaciente.
- Vou ser generoso. Meia hora. - disse. - Terceiro posto do cais. Se você não aparecer... Sua irmã vai fazer um nado noturno.
Houve um barulho do outro lado, como se a mulher tivesse perdido as forças.
- N-não... Por favor...
Não ouvi mais nada. Desliguei. Peguei a garota pelo braço de novo.
- Leva. - ordenei aos homens, empurrando ela pra frente.
Ela tropeçou, quase caiu, mas eles a seguraram sem cuidado nenhum.
- Mas chefe... - um deles começou.
- Eu disse leva. - repeti, gelado.
Eles puxaram a garota sem gentileza, arrastando seus passos enquanto ela soluçava, tentando falar, sem conseguir formar uma frase sequer.
Um dos homens abriu a porta da caminhonete. Ela tentou se segurar na lataria, em puro desespero.
- Não, não, por favor... - ela implorou.
Não adiantou. Eles a empurraram pra dentro, a porta bateu, e eu só dei um passo pro lado, limpando o sangue da mão na roupa de um deles.
- Em meia hora no cais. – falei olhando para a garota. - Se a irmã dela falhar... Resolve do jeito de sempre.
Os homens assentiram.
Eu subi no carro da frente, bati a porta e dei o sinal pra partir. A garota ainda chorava lá atrás, o som abafado, mas alto o suficiente pra acompanhar o motor ligando.
Autora Ninha Cardoso.
Começamos mais uma aventura. Espero que goste e que fique comigo. Comente, engaje. Me ajude a trazer mais novidades.