{Inglaterra, 1442}
Era uma vez, em um reino distante da Inglaterra, uma família parcialmente feliz. Havia uma mãe e esposa, seu nome era Judith, seu casamento era estável, seu marido, George Capman, um homem de posses, grande fazendeiro da região. Sua casa era bela e imensa, ela era uma senhora que causava inveja, não só pelas posses de seu marido e pela sua condição de vida ostentava, a coisa que mais despertava a inveja das outras damas da coorte eram seus belíssimos filhos.
Eram quatro ao todo, três meninas e um menino, a beleza deles encantava a todos, assim como o porte elegante e a educação. Marcel era o mais velho, o filho homem que todo pai sonhava em ter, era elegante, estudado, se formou em diplomacia e tinha uma posição social invejável aos seus 25 anos. Era alto, seus cabelos castanhos formavam ondulações delicadas e charmosas, sua pele era clara e seus olhos mais azuis que o céu mais limpo, tinha lábios bem marcados, um rosto de traços bonitos e um queixo quadrado. Treinava muito e sempre se interessou pelas terras do pai e pelo plantio, o que lhe conferia um corpo que arrancava suspiros, sua personalidade também contribuía, era um homem misterioso e de poucos sorrisos, muito protetor para com suas irmãs e frequentador dos eventos da coorte. Por ser solteiro, as moças mais jovens sonhavam em ser desposadas por ele, afinal, corria pelo reino o boato de que ele era um amante incrível.
Marcel tinha uma relação extremamente próxima às suas irmãs, era muito vigilante e protetor, principalmente com uma delas, a segunda filha, Charlotte, a senhorita mais cortejada de todo o reino. Charlotte era uma jovem de riso fácil, temperamento extremamente gentil e submisso, desde nova, sua mãe a educou perfeitamente bem, era extremamente prendada e sonhava em se casar por amor. Mas não eram somente esses seus encantos, somente isso não iria lhe conferir tamanho status. Sua beleza era formidável, faltavam adjetivos para descrevê-la. Seus lábios eram perfeitamente bem desenhados, naturalmente rosados e pequenos, seu rosto era como o de um anjo, a pele era clara, sem mancha alguma e seus olhos eram de um azul tão intenso e profundo que encantava a qualquer um, tinha 19 anos. Era pequena, porém, seu corpo tinha curvas belas e acentuadas, seus cabelos eram longos, chegavam ao seu quadril e tinham um tom avermelhado que contrastava com sua pele, trazendo a ela uma chama que iluminava seu rosto.
A relação entre as irmãs era permeada por uma constante rivalidade. Brista, a terceira filha, tinha 17 anos e vivia em constante tensão com Charlotte. Ela era bela, tinha lindos cabelos loiros que desciam lisos por seus ombros, chegando ao meio de suas costas, sua estatura era alta e seu corpo esguio, tinha um porte elegante e olhos esverdeados que chamavam a atenção daqueles que os vissem. Seus lábios, rosados e carnudos, eram desejados por muitos cavaleiros, no entanto, não tanto quanto os de Charlotte. Viver a sombra de sua irmã mais velha a tornou uma jovem competitiva e irritadiça, sentia inveja daquilo que Charlotte tinha, de todas as atenções, mesmo que ela também as recebesse. Apesar de mostrar a todos uma passividade invejável, era ardilosa e sempre tentava tomar as atenções para si. Havia sido apresentada a coorte há um ano, mas ainda não podia se casar, afinal, sua irmã mais velha ainda não o havia feito.
Por fim, havia Chelsea, a última filha do casal. Era a mais nova, tinha 14 anos e ainda não havia sido apresentada a coorte, mas sonhava com aquele dia desde seus 13 anos, desejava ter tantos pretendentes quanto suas irmãs, encontrar um casamento vantajoso, quem sabe um nobre, aquela era sua expectativa. Se parecia muito com Brista, porém com um pouco menos de altura e corpo, afinal, sua idade lhe conferia ares infantis, já que ainda estava chegando a adolescência. Era apaixonada por literatura e vivia sonhando acordada com seu príncipe encantado.
Juntos, os quatro eram os orgulhos de sua mãe e o colírio para a sociedade inglesa, que cochichava sobre eles o tempo inteiro. Viviam em expectativa, afinal, Charlotte havia sido apresentada a coorte há quase três anos, mas ainda não havia se casado, mesmo com todos os pedidos. Aquilo enfurecia sua mãe, que irritava-se com a recusa da filha a pedidos vantajosos, até mesmo o príncipe já a havia proposto o casamento.
Mas, protegida pela vontade do pai e pelo cuidado do irmão, Charlotte tinha a opção de se casar com quem desejasse, e já tinha seu escolhido há muito tempo, somente aguardavam o momento certo, que não tardou a chegar. Willian Griffin vivia na fazenda vizinha, seu pai, Honoro Griffin, sempre foi um grande amigo de George e, quando jovens, prometeram que uniriam suas famílias quando tivessem filhos. A promessa se manteve e, mesmo com as reclamações da esposa, o destino foi benevolente, ou não, com o jovem casal, entrelaçando seus corações, de certo modo.
Charlotte sentia seu coração acelerar, suas pernas tremiam e seu rosto se aquecia sempre que Willian estava por perto, desde seus 14 anos, nutria uma singela e doce paixão por ele, que logo tornou-se um amor profundo e carinhoso. Willian, por sua vez, admirava todos os dias a beleza da filha mais velha dos Capman, apesar de pouco se aproximar devido a inimizade que nutria por Marcel, o filho mais velho. No entanto, essa inimizade não o impediu de cortejar Charlotte, nem de conquistar para si a mulher mais bela do condado e de todo o reino. Gabava-se todos os dias para os demais homens com quem convivia sobre como Charlotte o amava, gritava aos quatro ventos que ela seria sua esposa e o dia não tardou a chegar, quando ela completou 19 anos, o noivado foi concretizado.
Um noivado de amor.
Ao menos de uma das partes.
O casamento seria o evento do ano, sem sombras de dúvidas. O dia estava ensolarado e a fazenda perfeitamente organizada, o salão de festas estava muito bem decorado e a capela, que ficava no campo, estava tão bonita que qualquer um que entrasse ali acreditaria que se tratava do casamento de um nobre da região. Enquanto o noivo aguardava na capela junto aos demais convidados, na casa, Charlotte se preparava para o que acreditava ser o dia mais feliz de sua vida.
- Está muito linda, minha filha - Judith falou, apoiando as finas mãos nos ombros de sua filha enquanto olhava o reflexo da mais jovem no espelho. - Não há na Inglaterra moça mais bela que você.
Os olhos da mulher viajaram pelo reflexo do espelho, à sua frente, Charlotte sorria como uma verdadeira princesa. Seu vestido tinha um tom perolado com belos detalhes em dourado. Seus cabelos avermelhados estavam soltos e, em sua cabeça, uma belíssima tiara segurava o delicado véu, estava perfeita. Suas mãos estavam enluvadas e seguravam firmemente o buquê, revelando seu nervosismo.
- Mamãe está certa, irmã, você está belíssima! - Chelsea falou, aparecendo no espelho e acariciando a saia do vestido de sua irmã. - Espero que eu possa me casar por amor, como você!
Judith revirou os olhos levemente, mas nada disse. Apesar de considerar o amor um detalhe pífio em um matrimônio, não podia negar que, de fato, sua filha mais velha era sortuda. Estava se casando com um belo e rico homem que, certamente, faria de tudo por ela. Nunca passaria dificuldades e seria a senhora de um grande e belo lar, logo teria filhos e cumpriria seu papel.
Diferente de Chelsea, Brista estava olhando de longe a arrumação da irmã mais velha. Seus olhos encaravam boa parte dos preparativos com certo desgosto, afinal, Willian não havia roubado o coração somente da moça mais velha dos Capman, Brista também nutria sentimentos por ele, mas sabia que jamais conseguiria superar a irmã no coração do fazendeiro e aquilo a fazia sentir raiva de Charlotte.
- Lembre-se do que conversamos sobre o que acontecerá depois da cerimônia - Judith falou para sua filha, a olhando seriamente. - Você precisa ser gentil, mesmo que não goste inicialmente, seu marido certamente está aguardando muito tempo por isso, siga o que ele disser e o agrade.
O tom incisivo da mãe deixava claro que aquele era um evento ainda mais importante que a cerimônia, mas Charlotte não se preocupava com isso, ela amava Willian, o que poderia dar errado na noite em que consumariam seu amor? Absolutamente nada, ao menos era no que ela acreditava.
- Mamãe, o que acontece depois da cerimônia? - Chelsea perguntou, olhando para as duas mulheres e recebendo um olhar irritado de sua mãe.
- Isso é assunto para as moças noivas, não para meninas que ainda não foram apresentadas a coorte, Chel - Charlotte respondeu docemente. - Sua vez vai chegar, quem sabe você não pega o buquê? Se esforce bastante!
A mais nova sorriu alegremente, saindo do quarto e seguindo para o andar de baixo, onde Marcel aguardava sua irmã junto ao pai. Diferente do comum, ele havia feito questão de levá-la até o altar, seu pai, George, não viu problema nisso, afinal, sabia como o filho mais velho era apegada a Charlotte, seria uma honra grande para o rapaz.
No entanto, diferente do que o pai pensava, Marcel não pretendia cumprir seu papel pela honra do evento. Pelo contrário, queria ser ele a deixar Charlotte nas mãos de Willian somente para deixar claro que, se algo acontecesse, ele também a tiraria, exatamente como a deixou ir. Não gostava do noivo da irmã, mas não pretendia impedi-la, afinal, o sorriso de Charlotte era o que iluminava seus dias, a amava tanto que jamais faria algo para deixá-la triste. Quando ouviu os passos vindos da escada, ele se ergueu, olhando para o local e encontrando sua irmã acompanhada por sua mãe. Para ele, Charlotte parecia um belo anjo, seus olhos brilhavam e ela estava magnífica.
Um sorriso iluminou o rosto da ruiva e ela desceu com um pouco mais de pressa, recebendo um abraço apertado do pai e parando ao lado do irmão, erguendo a destra para ele, que a segurou com delicadeza antes de deixar um beijo delicado na testa da garota.
- Estou feliz que você é quem me levará ao altar, irmão - sussurrou, com voz embargada. - Tive medo que não aprovasse meu casamento e...
- Não deixe essas bobagens encherem sua cabecinha - Marcel falou, rindo levemente enquanto começava a caminhar com ela para fora, onde a carruagem os levaria até a capela. - Eu sempre vou estar ao seu lado, mesmo que não esteja tão satisfeito com esse casamento. Você é mais importante, assim como sua felicidade, Lottie.
Charlotte sorriu, soltando o braço do rapaz para poder entrar na carruagem. Enquanto ajeitava-se no banco, percebeu a segunda carruagem partir, levando o resto da família na frente. O caminho até a capela era curto e não demorava mais que alguns minutos, mas sua mãe havia insistido em alugar luxuosas carruagens para que a chegada da noiva fosse triunfante, afinal, era o casamento da moça mais bela do condado e abriria as portas para vantajosos enlaces com as outras duas que ficaram.
Quando a carruagem parou na porta da capela, Marcel encarou o lado de fora sentindo o peito se apertar, tinha um péssimo pressentimento, mas o que podia fazer? Não podia estragar o dia perfeito da pessoa mais importante de sua vida, por isso, quando abriu a porta, colocou seu melhor sorriso, mesmo que todos os seus instintos o dissessem para que ele a levasse para longe, então, começaram a caminhar.
Quando ergueu os olhos para frente, Charlotte o viu. Willian estava belíssimo, vestia um terno elegante e bem cortado, seus cabelos loiros estavam bem alinhados para trás e ele tinha um grande sorriso que encolhia seus olhos de um azul acinzentado, como um céu em dia de chuva. A quem diga que aquela cor era sem vida e fria, mas, para Charlotte, os dias de chuva eram os mais belos, assim como os olhos do seu grande amor.
Marceu andava lentamente, tentando adiar o inadiável, então, quando chegaram ao altar, ele entregou a delicada mão de Charlotte para Willian, o olhando nos olhos com uma silenciosa ameaça, sem importar-se que todos percebessem a tensão que pairava entre eles. Willian retribuiu o olhar com um ar de triunfo e certa soberba, para ele, era um dia inesquecível, não somente por estar se casando com aquela que todos desejavam desposar, mas também por fazer Marcel engolir o próprio orgulho enquanto entregava a ele sua doce e adorada irmã.
Sem dúvidas, era o melhor dia de sua vida.
Nenhum detalhe foi poupado na cerimônia, ela foi feita com toda a pompa e requinte que os fazendeiros poderiam pagar, o que significava muita! Quando finalmente os votos foram proclamados e a irmã mais nova de Charlotte levou as alianças, ela sentiu o coração a ponto de explodir de felicidade. Willian retirou sua luva plantando um beijo em sua mão e colocando o anel delicadamente, estendendo sua mão para que ela fizesse o mesmo, então, ergueu o véu que ocultava seu belo rosto durante toda a cerimônia.
- Enfim, você é somente minha, meu amor! - Sussurrou, puxando-a delicadamente para si. - Para sempre!
Dito isto, seus lábios se tocaram, selando o voto que foi dito diante de todos os presentes. Para Charlotte, que sentiu as bochechas queimarem por ser beijada na frente de todos, aquele era o início do seu conto de fadas.
Mal sabia ela que aquele era, na verdade, o início da sua ruína.
***
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ATENÇÃO: Esse capítulo pode conter gatinhos com relação a violência doméstica, psicológica e sexual.
Dois anos depois...
- Mamãe... Eu não aguento mais isso! - a voz de Charlotte não passava de um sussurro enquanto, ainda em sua cama, ela encarava a mãe com lágrimas nos olhos. - Me ajude...
- Só Deus pode te ajudar, filha - Judith estava impaciente -, precisa se esforçar mais! Não consegue vingar nenhuma gravidez, também não consegue fazer com que seu marido seja só seu, sequer cuida bem do seu lar! Charlotte, não tem do que reclamar, isso tudo é culpa sua, você não cuida do seu casamento!
As palavras de sua mãe atingiram seu coração diretamente, a fazendo ofegar em desespero. Nenhuma dor física era tão grande quanto a dor da perda que sentia, seu contos de fadas havia se tornado um grande pesadelo e ela estava fadada a isso até sua morte.
Seu corpo estava dolorido, seus olhos ardiam e ela sentia certo inchaço no lado esquerdo do rosto, resquícios do que havia acontecido há dois dias, sequelas do ataque de fúria que seu marido teve ao descobrir que ela havia perdido mais um bebê. Ao longe, chegando sussurrados e lentos aos ouvidos das duas damas, os gemidos de Willian e uma desconhecida tornavam o ambiente ainda mais repulsivo. Enquanto Charlotte se recuperava das agressões e da violência, ele estava no quarto do casal, com outra mulher.
- Papai nunca fez isso com você! - ela elevou um pouco o tom, apoiando o corpo nos cotovelos, erguendo-se levemente com um gemido de dor. - Por que não me ajuda? Por que me abandonou aqui?
O pedido era sofrido, choroso, mas em nada amoleceu o coração de Judith. A imagem da filha tão descuidada lhe causava sofrimento, mas também raiva e repulsa, Charlotte tinha os belos olhos vermelhos e inchados, sua pele estava seca e opaca, seus cabelos ruivos desgrenhados, estava decadente na visão da mãe. Ela deu à luz a uma mulher seca e aquilo podia arruinar suas outras filhas, quem se casaria com Chelsea e Brista se soubesse do fracasso que era o casamento de Charlotte? Para onde iria a reputação das outras duas meninas que tinha? Ela não podia arriscar.
O lapso de rebeldia fez a mais velha erguer a destra, acertando um tapa no rosto da filha, a fazendo voltar a si e à sua mansidão, mesmo em meio ao sofrimento. Charlotte sentiu o rosto arder enquanto chorava, bem baixo, encolhida entre os brancos lençóis, abraçando seu próprio corpo, desejando o fim de todo aquele pesadelo.
Os primeiros meses foram tão doces que, ao lembrar-se deles, ela tinha a certeza de que Willian era um ótimo ator, ou extremamente desequilibrado. Ele a tratava como uma rainha, ela era a luz que iluminava os dias escuros e nublados que ele tinha, ao menos até encontrá-lo bêbado pela primeira vez. Naquele dia, ela percebeu que o homem com quem casou tinha um lado que jamais desejou ter conhecido.
Depois daquele dia, tudo mudou, Willian mudou. Não havia mais respeito entre eles e, quando ela perdeu o primeiro filho, tudo continuou a piorar, seu casamento entrou em decadência e, enquanto ela esforçava-se para manter o matrimônio, seu marido fazia tudo o que tinha vontade, fosse com ela, ou com outras.
Com o passar do tempo, Willian não se contentou somente com as humilhações verbais, quando os demais homens de seu convívio começaram a culpá-lo por Charlotte não gerar um filho, acusando sua virilidade ou denotando a falta dela, ele se revoltou ainda mais. Seu maior prazer atualmente era fazer de Charlotte a pior das mulheres, aquela que não tinha valor algum, mas que ainda pertencia a ele.
Não a deixava sair ou receber visitas, quando perguntavam por ela, usava um tom ameno e amável para dizer o quão triste ela ficou com a perda e como preferiu se isolar em casa, manipulando todos ao redor para que acreditassem que Charlotte se mantinha reclusa por vontade própria.
Apesar das falas amorosas sobre sua esposa, todos sabiam que ele se deitava com toda e qualquer mulher que lhe desse uma brecha, as más línguas também diziam que ele as levava para sua própria casa, uma e outra comentou que já havia estado até no quarto do casal, no leito que deveria ser sagrado, na presença da pobre esposa, que se manteve calada durante todo o ato que se desenrolava em sua frente.
Mas, para todos da sociedade, não passava de boatos e Judith fazia questão de abafar todos eles, afinal, tinha que manter a reputação das filhas invictas, pois logo Brista se casaria e corria a notícia de que um belo e rico duque estava em busca de uma esposa. Desse modo, era importante manter Charlotte e seu casamento sob controle e, por isso, Judith estava ali.
- Pare de chorar como uma criança e conquiste seu marido! Faça qualquer coisa! - ela frisou, segurando o rosto da filha com certa brusquidão. - Conserte o que você estragou, a culpa é sua.
***
Quando abriu os olhos, sua mãe já havia partido.
As visitas de Judith sempre pioravam tudo para a ruiva, que já não sabia a quem recorrer, não tinha quem a protegesse. Como falaria com seu pai se sua mãe nunca levava seus recados e seu marido não permitia que ela sequer colocasse o rosto no jardim? Fugir não estava em seus planos, afinal, se não chegasse até sua casa, as consequências seriam muito piores e Willian tinha criados por toda parte que estavam autorizados a fazer qualquer coisa para contê-la.
Não tinha o que fazer, para ela, não havia opções.
O único a quem poderia recorrer estava muito distante, na capital. Marcel havia viajado e só retornaria depois de muitos meses, mas Charlotte não sabia se conseguiria resistir tanto tempo. Estava quebrada e não se referia ao seu corpo, mas sim a sua alma, era uma mulher amargurada, pressionada pelo medo e pelo terror que vinha diretamente daquele que jurou amá-la por toda a vida.
Sabia que a noite já ia longe, pois todos os empregados já haviam se recolhido e a casa estava completamente escura. Caminhou na ponta dos pés, porém, não conseguiu escapar dos olhos nebulosos de Willian, que caíram sobre ela assim que pisou os pés na sala. Ele estava sentado no sofá, tinha uma taça nas mãos e, estranhamente, estava sozinho.
A beleza dele era inegável, tinha um peitoral muito bem definido, músculos fortes e firmes, seu rosto era tão bonito que, em outro momento, poderia fazer Charlotte suspirar pelos cantos, apaixonada, sua pele era quase dourada, lábios grossos e perfeitamente desenhados. Estava com os cabelos soltos caindo por seu rosto, dando a ele um ar misterioso e, para qualquer mulher que o olhasse naquele momento com uma taça de vinho na mão, sensual.
Mas a casca bonita somente ocultava o monstro que habitava dentro dela.
A única coisa que Charlotte sentia era nojo.
- Achei que não sairia do seu quarto hoje, Charlotte - ele falou, levando a taça aos lábios em seguida. - Está me evitando? Decidiu deixar de cumprir mais uma de suas obrigações?
A ruiva não respondeu, somente juntou as mãos uma na outra, olhando para seus próprios pés, silenciada. Qualquer resposta mal dada, qualquer olhar que demonstrasse o mínimo de mágoa ou irritação, tudo era um bom motivo para Willian mostrar sua verdadeira face para ela. Porém, levando em conta tudo o que ouviu durante a tarde e parte da noite, acreditava que o humor dele não estaria tão cítrico ou raivoso.
- Não me sentia muito bem, só isso - respondeu ela sem se mover sentindo o coração acelerado. - Não queria incomodá-lo, meu marido.
Willian estreitou os olhos, encarando sua esposa fixamente por alguns instantes antes de se erguer, caminhando até ela e deslizando a destra por seu rosto devagar. Sempre admirou a beleza de Charlotte, aquele foi o principal motivo que o levou ao matrimônio, porém, o fardo de não ter herdeiros legítimos estava sendo pesado demais.
Por que continuar casado com alguém que não podia lhe gerar a única coisa que um homem de respeito precisa ter?
Não valia a pena.
Porém, não podia abrir mão dela, seu orgulho o impedia, preferia vê-la morta do que casando-se novamente, afinal, sabia que isso não demoraria a acontecer se ela fosse devolvida. Mesmo infertil, sua beleza ainda poderia laçar qualquer pretendente da coorte que ela desejasse, por mais que ela não soubesse disso.
E Willian se esforçava para que ela jamais tomasse consciência desse fato.
- Vamos para nosso quarto - falou, vendo-a encolher levemente os ombros. - E não me faça precisar insistir, meu amor! Ainda precisa me dar o que eu quero, e não vamos parar de tentar.
Seu tom era ameaçador e seu toque, outrora delicado, desceu lentamente pelo pescoço da ruiva, chegando ao tecido fino de sua camisola, o puxando de uma só vez, expondo os seios da mulher, enquanto sorria levemente.
Charlotte encolheu os ombros, sentindo as lágrimas chegarem aos seus olhos, mas não se opôs. Sentiu os dedos de Willian em seu braço então ele a puxou sem delicadeza alguma, seguindo em direção as escadas, as quais ela subiu silenciosamente, como um cordeiro.
Não demoraram a chegar ao elegante quarto, ela viu a cama ainda bagunçada, sentiu o cheiro de um perfume que não era o seu espalhado por toda parte. Em alguns locais, havia até algumas peças de roupas que não eram suas, resquícios de mais uma traição, de mais uma humilhação. Sentia-se ainda mais suja ao deitar naquela cama, seu estômago se revirava ao sentir os lábios do seu marido tocando sua pele enquanto falava as maiores obscenidades, sussurrando-as em seu ouvido, degradando-a ainda mais.
Ali, nada era além de um corpo, uma casca vazia que esperava seu fim, ou algum socorro milagroso que, depois de tanto tempo, ela sequer tinha certeza de que viria.
Então somente fechou os olhos, ouvindo as palavras de sua mãe ecoarem em sua mente:
"Conserte o que você estragou, a culpa é sua."
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Marcel viu, ao longe, o começo das terras de seu pai.
Estava feliz por retornar para casa, principalmente por saber que, logo, logo, a região seria o berço de um encontro de nobres e isso traria muito prestigio, principalmente porque um mais novo duque de Gloucester estaria hospedado em sua casa, aquilo o animava muito.
Sabia que o Duque de Gloucester tinha muitas posses além de ser muito bem quisto pelo rei, que lhe dera tal título por ter sido um exímio líder de guerra. A família real era pequena, não haviam muitos nobres que de fato, estivessem aptos para governar caso o príncipe viesse a falecer, por isso, e, diante a instrução dos Adsumus, o rei o nomeou, afinal, era um homem de respeito.
Quando a carruagem passou pelo umbral de entrada, não demorou mais que alguns minutos para estar em frente a casa principal. Sua família não sabia da sua chegada que, certamente, pegaria todos de surpresa, mas aquilo não o incomodava. Adoraria ver suas irmãs e encontrar seus pais.
- Marcel? - a voz de Chelsea chegou aos seus ouvidos assim que pisou os pés para fora da carruagem.
Ele ergueu os olhos, o tempo havia feito muito bem a sua pequena irmã, que já não era tão pequena assim. Dois anos tornaram Chelsea uma bela jovem e, certamente, aquilo lhe taria muitas preocupações. Porém, seu sorriso desmanchou completamente a postura séria que Marcel tentava manter, então, ele somente abriu os braços, recebendo-a com todo carinho que podia.
- Olá, pequena! - falou, deixando um beijo entre os cabelos loiros. - Também estava com saudades.
- Mamãe não disse que você estava vindo, teria colocado um vestido mais bonito e arrumado meus cabelos! - ralhou a mais jovem, unindo as sobrancelhas claras enquanto olhava para o irmão.
Chelsea sempre foi muito ligada a aparência física, Marcel sabia o quanto ela odiava que a vissem mal arrumada, mas chegar de surpresa havia lhe dado a oportunidade de observá-la brincar com os cães, mostrando que ainda era a mesma garotinha levada que ele ajudou a criar, mesmo que não demonstrasse isso tanto quanto ele gostaria. Seus cabelos loiros estavam presos em duas tranças laterais desgrenhadas, seu vestido, que ficava acima dos tornozelos, estava um pouco velho e manchado de terra.
- Está linda! Não se preocupe com isso, e eu trouxe presentes, arrume-se com eles - ele tentou melhorar o humor da garota puxando uma mala mediana e mostrando para ela. - Vamos, tenho presentes para você e para nossas irmãs!
- Presentes! Trouxe para mim um vestido da capital? - ela perguntou, animadamente, entrelaçando seu braço ao do irmão. - Brista está tocando piano, ela vai se apresentar no próximo baile, já Charlotte... - A loira se calou por alguns instantes, sua voz, normalmente aguda e muito animada, se tornou um tanto quanto triste. - Não a vejo desde o casamento com Willian, mamãe diz que a vida de esposa dela é muito ocupada e...
- Não a vê desde o casamento? - Marcel a interrompeu, deixando a mala no chão da sala de estar. - Como assim não foi visitá-la? Brista também não? Já faz dois anos!
O coração do rapaz parou por um momento. Vez ou outra, culpava-se por estar tão longe de suas irmãs e, por dois longos anos, não vê-las pessoalmente. Agora, ali ouvindo sua irmã dizer que não via Charlotte há dois anos, sentiu um peso se instalar sob seus ombros.
Será que negligenciou sua irmã por dois anos?
- Mamãe não nos deixa ir, mas ela sempre vai - Chelsea parecia completamente insatisfeita enquanto falava. - Disse que Charlotte não tem tempo para nós, que precisa dar atenção para seu marido, aquele fazendeiro de... - Chelsea se deteve, unindo as sobrancelhas e percebendo que falaria algo que não era próprio para uma dama.
Momentaneamente, Marcel decidiu não questionar mais, certamente, teria tempo para falar sobre isso com a mãe e ele mesmo iria visitar a irmã. Por dentro, irritava-se com o fato de Judith não levar as duas mais novas para visitar Charlotte em sua companhia, sua irmã ficou isolada por todo esse tempo?
Aquilo não lhe parecia nada bom.
Quando entrou na casa, observando o organizado hall de entrada, ouviu a voz de Judith, sua mãe. Nunca teve um bom relacionamento com ela, normalmente, Judith era controladora demais para com suas irmãs e, apesar das garotas acharem que aquilo era normal, Marcel não concordava com as atitudes da mãe, que manipulava tudo para arranjar para as meninas propostas vantajosas. Teve medo de voltar de viagem e encontrar até a própria Chelsea, que tinha somente 16 anos, casada.
- Chelsea! O que eu disse sobre receber visitas como um animal selvagem? Olhe seus cabelos! - a voz de Judith soou por toda a casa, o grito foi alto o bastante para fazer a mais nova encolher os ombros.
Marcel suspirou ao notar a irmã murchar, vendo toda a animação e euforia ir por água abaixo. Odiava aquilo, odiava a forma como sua mãe as obrigava a manter a compostura até nos momentos mais íntimos. Sabia que a educação das moças era importante, mas sentia que suas irmãs eram cobradas demais e aquilo o machucava.
- Não ligue para isso, vá chamar Brista, quero vê-la! - falou, abaixando-se para deixar um beijo na testa da irmã e vendo-a correr para o corredor, sumindo de vista.
Nesse mesmo instante, chegando à sala de estar, Marcel viu sua mãe de pé na escada. Judith nunca mudava, seu porte elegante e altivo estava ainda mais presente, assim como o olhar de julgamento, afinal, ele estava fora há dois anos e aquilo a irritava profundamente, além disso, a vida boemia que levara se espalhou até ali e chegou aos ouvidos de sua mãe.
- Resolveu lembrar que tem uma família, Marcel? - ela perguntou, com uma expressão fechada.
- Achei que era melhor voltar antes que casasse Brista e Chelsea com algum velho fazendeiro - alfinetou o rapaz, fazendo a mulher unir as sobrancelhas. - Também senti sua falta, mamãe.
O rapaz se aproximou, estendendo as mãos para ela e segurando os finos dedos de sua mãe com carinho, apesar de discordar de suas atitudes, a amava intensamente, assim como a suas irmãs. Judith apertou as mãos do filho delicadamente e desceu os degraus restantes, o abraçando e dando alguns beijinhos em seu rosto.
- Está ainda mais bonito, meu rapaz! - falou, levemente emocionada.
- Obrigada, mamãe - ele agradeceu, afastando-se dela e tirando o casaco, entregando-o à mulher. - Onde está meu pai?
- No campo, sabe como ele é - respondeu ela, em tom de reclamação, dobrando o casaco. - Não sabia que vinha, seu quarto nem está organizado!
Judith estava nervosa.
Não havia se preparado para a volta de Marcel, aquilo mudava um pouco seus planos. Seu filho mais velho sempre fora bastante protetor e a situação de Charlotte estava se sustentando até aquele dia justamente pela distancia que Marcel se encontrava. Não sabia como iria contornar a curiosidade do filho e sabia que ele odiava Willian com todas as suas forças. Além disso, tinha certeza que Chelsea havia dito alguma coisa, afinal, os olhos azuis e tempestuosos não negavam a curiosidade e a desconfiança, que estava estampada no rosto do rapaz.
- Eu achei melhor vir sem avisar, gosto de chegar de surpresa - ele comentou, erguendo os olhos para a mãe com desconfiança, estreitando as íris claras. - Como está Charlotte? Me disse que tudo estava bem e que ela vinha frequentemente a casa, mas Chelsea me disse que não a vê desde o casamento. Já faz dois anos, mamãe.
O tom de Marcel era tranquilo, falava como quem dizia as notícias matinais e tediosas da coorte, mas Judith sabia que ele só usava aquele tom quando estava ciente de que havia algo de errado.
- Ela está ocupada com a vida de casada - justificou a mulher. - Tem sua própria casa e família agora.
A forma como ela falava soou evasiva aos ouvidos de Marcel, que se silenciou, tinha seus próprios meios de descobrir o que estava acontecendo. Judith mentia muito bem, mas ele aprendeu a ler todos os comportamentos da mãe, dessa forma, ele era tão bom quanto ela em mentir e fingir quando queria.
- Amanhã irei vê-la, quem sabe até levarei as meninas comigo, mas falamos sobre isso depois e... - Marcel estava prestes a falar que provavelmente passaria a tarde com Charlotte quando sua cintura foi envolvida pelos braços delicados e afoitos de Brista.
Diferente de Chelsea, Brista havia mudado muito. Seus cabelos estavam muito maiores, desciam como cascatas até abaixo da cintura, alguns fios tomavam uma tonalidade mais escura que outros, era encantador. Sua pele também estava mais bronzeada, assumindo um tom mais vivido e luminoso que combinava perfeitamente com a vivacidade de Brista e a impetuosidade que ela carregava.
- Marcel! Estou tão feliz que voltou! Soube do duque? - ela disparou as perguntas rapidamente enquanto o soltava.
- Também estou feliz em vê-la! - respondeu o mais velho, tocando as madeixas loiras. - Sim, inclusive, ele virá passar a temporada em nossa casa!
- O QUE? - perguntaram as três mulheres em uníssono.
Então, toda a sala se tornou uma confusão de vozes e Marcel se viu num longo interrogatório sobre o visitante que chegaria dali a alguns meses.
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Quando a noite já ia longe e a lua estava alta no céu, Judith se levantou de sua cama silenciosamente, vestindo o hobby de seda perolado e ajeitando a touca nos cabelos. Saiu silenciosamente, ouvindo os roncos de seu marido e revirando os olhos, resmungando como ele roncava feito um porco no meio da noite enquanto deixava seus aposentos, não sem antes pegar o saco pequeno de moedas que guardava em sua gaveta de roupas íntimas.
Caminhou silenciosamente até o escritório do marido, pegando papel e caneta, escrevendo um breve bilhete, dobrando-o e pondo num envelope. Judith não demorou a deixar o escritório e seguir em direção as escadas, ouvindo o ranger da madeira e amaldiçoando o linóleo velho enquanto caminhava, não podia chamar atenção de ninguém.
Seguiu para os fundos da casa, chegando à porta que levava até os jardins traseiros e ao pequeno casebre, onde sabia que os trabalhadores solteiros ficavam jogando até tarde da noite. Sem vergonha ou timidez alguma ela se aproximou, recebendo um olhar de surpresa dos dois capatazes que jogavam xadrez e bebiam cerveja.
- Preciso que um de vocês leve isso até a fazenda dos Griffin - anunciou, com uma postura firme. - Meu marido e meu filho não devem saber, esse é o pagamento! Entreguem ao fazendeiro Willian, esposo da minha filha.
Ela jogou um saco de moedas de ouro sob o tabuleiro, bagunçando todas as peças. Os homens pegaram o saco e um deles o abriu, sorrindo ao ver a quantidade generosa de moedas. Então, ambos se levantaram e, aproximando-se, um deles pegou a carta de sua mão e disse:
- Com todo prazer, minha senhora.
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Pessoal, espero que gostem desse novo capítulo! Os capítulos serão postados a medida que escrevo, então deixem seus comentários, eles me motivam muito, me contem o que estão achando! Me sigam no insta para acompanhar minha rotina de escrita e informações exclusivas sobre minhas histórias, interajam comigo por lá! @evy_da_dreame