Casada há três anos com Hugo, meu coração ingénuo alimentava a esperança de que meu amor pudesse derreter o gelo de seu coração, apesar de ele nunca ter superado seu amor de infância, Vanessa. Era um casamento de conveniência, um contrato de três anos para ele consolidar seu império, e para mim, o fardo de ser a "Sra. Gordon". O acordo estava quase no fim.
No entanto, o fundo do poço veio na festa de 30º aniversário de Hugo. Ofereci-lhe uma guitarra portuguesa feita à mão, uma peça de arte cheia de alma, enquanto Vanessa lhe deu um cachecol mal feito. A voz dele ressoou pela sala, declarando o cachecol o único presente com "verdadeiro sentimento". E, sem hesitar, ele esmagou a guitarra no chão. Meu coração partiu-se com ela. A humilhação foi pública, brutal.
No dia seguinte, Hugo exigiu que eu entregasse o colar de esmeraldas da sua mãe a Vanessa. Mal eu o fiz, Vanessa enviou-me um vídeo, esmagando-o com um martelo, com um sorriso cruel. Fui confrontá-la, mas Hugo apareceu, atirou dinheiro aos meus pés e, pior, chantageou-me para que pedisse desculpa a Vanessa, ameaçando a licença da casa de Fados do meu pai.
"Vanessa... peço desculpa," as palavras saíram como veneno. Eu, a mulher abandonada, humilhada e traída, estava a ser forçada a rastejar. Porquê? Por que razão eu, Raegan, aceitei tanta dor?
Tudo desmoronou, mas naquele momento, algo mudou. A dor imensa abriu espaço para uma nova sensação, a das correntes a serem quebradas. Era o fim da ilusão. A partir daquele dia, eu não seria mais um escudo, uma sombra. Eu seria livre.
O meu advogado, Dr. Alves, ajustou os óculos na ponta do nariz e empurrou os papéis pela mesa de mogno polido.
"Dona Raegan, está tudo em ordem. O acordo de divórcio está pronto para ser assinado a qualquer momento. Exatamente como foi estipulado há três anos."
Assenti, a garganta seca. Três anos. Parecia uma vida inteira.
"Obrigada, Dr. Alves."
A minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Saí do escritório dele para o ar húmido de Lisboa, sentindo um alívio estranho misturado com uma tristeza profunda. Era o fim.
Em casa, o silêncio era pesado. Fui direta ao nosso quarto, o quarto que eu tinha decorado com tanto cuidado. Abri a gaveta da mesinha de cabeceira e tirei a nossa certidão de casamento. Olhei para a fotografia. Eu sorria, um sorriso cheio de esperança e amor. Hugo estava ao meu lado, o seu sorriso era educado, distante. Naquela altura, eu acreditava que o meu amor podia derreter qualquer gelo. Que tolice.
Guardei o documento de volta na gaveta. O divórcio seria finalizado dentro de um mês. Um mês para deixar para trás a fantasia e aceitar a realidade.
Hugo chegou a casa tarde, como sempre. O cheiro do seu perfume caro encheu a sala. Eu estava na cozinha, a terminar de preparar o jantar, os pratos alentejanos que ele adorava e que acalmavam o seu estômago sensível.
"Raegan," ele chamou, a voz desprovida de qualquer emoção. "A gala da vindima é no próximo fim de semana, no Douro. Prepara-te. Partimos na sexta-feira."
Continuei a arrumar os pratos na mesa, de costas para ele.
"Eu não vou, Hugo."
Ele parou. Senti o seu olhar nas minhas costas.
"O que é que disseste?"
"Eu não vou. Não faz sentido. Daqui a um mês, já não serei tua mulher."
Ouvi os seus passos a aproximarem-se. Ele agarrou o meu braço, forçando-me a virar.
"Não sejas ridícula. É por causa da Vanessa? Estás com ciúmes porque ela voltou para Portugal?"
O nome dela, Vanessa Perry, o seu amor de infância, a influencer de lifestyle. O nome que pairava sobre o nosso casamento como uma nuvem de tempestade.
Ele continuou, a sua voz fria e cortante. "Não te esqueças do nosso acordo, Raegan. Três anos. Tu davas-me a imagem de um casamento estável para eu consolidar o meu poder na empresa da família, e eu dava-te o estatuto de Sra. Gordon. O tempo está quase a acabar. Não comeces com dramas agora."
Drama. Era assim que ele via a minha dor.
Uma memória dolorosa invadiu-me. O dia em que assinámos o contrato. Eu estava tão apaixonada, acreditando que três anos seriam suficientes para o conquistar. Ele, por outro lado, foi brutalmente honesto. "O meu coração pertence à Vanessa. Este casamento é apenas um negócio."
Eu aceitei, esperando um milagre.
Houve um tempo, há cerca de um ano, em que a Vanessa estava no estrangeiro e terminou um relacionamento. Hugo ficou destroçado. Chegou a casa bêbado, cheirando a whisky e a desespero. Ele agarrou-se a mim, chamando-a.
"Vanessa... não me deixes..."
Naquela noite, ele dormiu comigo. Foi a nossa primeira e única vez. E durante todo o tempo, ele sussurrou o nome dela. Na manhã seguinte, eu escondi a minha dor. Cuidei da sua ressaca, preparei-lhe o pequeno-almoço e fingi que nada tinha acontecido.
Depois disso, algo mudou. Ele começou a depender de mim. Pequenos gestos. Um toque no ombro, um "obrigado" pelo jantar. Ele até me ofereceu um colar de um designer famoso, dizendo que me ficava bem. Uma pequena chama de esperança acendeu-se no meu peito. Talvez, apenas talvez, ele estivesse a começar a ver-me.
Mas essa esperança foi esmagada há dois meses, quando a Vanessa voltou a Portugal. De um dia para o outro, eu voltei a ser invisível. Ele passava dias fora, noites fora. A casa voltou a ser um espaço frio e silencioso, preenchido apenas pela minha presença ignorada.
O meu telemóvel tocou, interrompendo o silêncio tenso. Era um número desconhecido. Atendi. Era a Vanessa. A sua voz estava em pânico.
"Hugo! A minha avó! Ela passou mal, está no hospital!"
Antes que eu pudesse processar, Hugo arrancou o telemóvel da minha mão.
"Vanessa? O que se passa? Onde estás?"
Ele ouviu por um momento, o seu rosto a transformar-se numa máscara de preocupação. Ele correu para a porta, agarrando as chaves do carro. Ao passar por mim, empurrou-me para o lado sem sequer olhar. O meu ombro bateu com força no batente da porta. A dor foi aguda, mas nada comparada com a dor no meu coração ao vê-lo desaparecer pela porta fora, sem uma única palavra para mim.
Uma hora depois, o telemóvel de casa tocou. Era o Hugo. A sua voz era imperativa, sem qualquer vestígio de preocupação por mim.
"Raegan, vem para o Hospital da Luz. Agora."
"O que aconteceu?"
"A avó da Vanessa precisa de um transplante de fígado. Urgente. Eu sou compatível. Vou ser o dador."
Fiquei gelada. Uma cirurgia daquelas era perigosa.
"Hugo, isso é..."
"Não te chamei para pedir a tua opinião," ele cortou-me, a sua voz dura. "Preciso que venhas assinar os formulários de consentimento. Como minha esposa, és a única que o pode fazer. A Vanessa não pode, legalmente não somos nada. Anda depressa."
Ele desligou. A palavra "esposa" soou como um insulto. Eu era apenas uma ferramenta, uma assinatura num pedaço de papel.
No hospital, a sala de espera estava tensa. A Vanessa chorava nos braços da sua amiga, uma performance para todos verem. Hugo já tinha entrado para a cirurgia. Sentei-me, preenchi os papéis que uma enfermeira me entregou e assinei o meu nome na linha pontilhada. Raegan Hayes Gordon. Uma mentira.
Com a minha tarefa cumprida, levantei-me para ir embora. O meu papel naquela farsa tinha terminado.
"Já vais?"
A voz de Vanessa soou atrás de mim, falsamente doce. Virei-me. Ela tinha-se aproximado, os seus olhos vermelhos de tanto chorar, mas com um brilho de triunfo.
"O Hugo ficaria tão desapontado se soubesse que a sua 'esposa' nem sequer esperou para ver se ele saía bem da cirurgia."
"Ele tem-te a ti para isso," respondi, a minha voz vazia.
Ela riu, um som baixo e cruel. "É verdade. Ele sempre me teve a mim. Sabes, Raegan, às vezes tenho pena de ti. Pensas mesmo que algum daqueles momentos significou alguma coisa?"
Franzi a testa, sem perceber.
"Aquele colar que ele te deu," ela continuou, saboreando cada palavra. "O da Cartier. Fui eu que lhe disse que o queria, numa conversa casual. Ele viajou para o Brasil, no meio do Carnaval, só para mo trazer. Mas quando ele chegou, eu já estava com outra pessoa. Rejeitei o colar. Ele deve ter ficado sem saber o que fazer com ele, então deu-to a ti. Um prémio de consolação."
O ar faltou-me nos pulmões. O colar. Aquele que eu guardava como um tesouro, o símbolo da minha esperança.
Ela não parou. "E lembras-te daquela noite, há cerca de um ano? A noite de Fados em Alfama. Tu estavas lá a cantar com os teus amigos. O Hugo soube e foi até lá. Ele não entrou. Ficou do lado de fora, a ver-te pela janela, a rir com outro homem. Ele estava a morrer de ciúmes. Não de ti, sua tola. De mim. Porque ele imaginava que era eu ali com outro."
A sua voz baixou para um sussurro conspirador. "Ele voltou para casa furioso, consumido pelo ciúme. E descarregou tudo em ti. Aposto que foi a vossa noite mais apaixonada, não foi? E tu pensaste que era por ti."
Cada palavra era um golpe. Os momentos que eu tinha guardado, que tinha analisado vezes sem conta à procura de um sinal de afeto, eram todos mentira. Eram apenas o reflexo da dor dele por outra mulher. Eu era um espelho, uma sombra.
Senti as lágrimas a quererem sair, mas engoli-as. Não lhe daria essa satisfação.
"Obrigada por me contares, Vanessa," disse eu, a minha voz surpreendentemente calma. "Esclareceste muitas coisas."
Virei-lhe as costas e saí do hospital, sem olhar para trás. A minha decisão estava tomada. Não havia mais esperança, não havia mais amor. Apenas um vazio imenso.
Fui para casa e comecei a fazer as malas. As minhas roupas, os meus livros, os meus discos de Fado. Cada objeto parecia pertencer a outra pessoa, a uma mulher ingénua que eu já não reconhecia.
Nos dias seguintes, Hugo não ligou. Não mandou uma única mensagem. Fiquei a saber por uma das empregadas que ele tinha saído do hospital e se tinha mudado para um apartamento perto da casa da avó da Vanessa, para poder cuidar dela a tempo inteiro.
Eu era, mais uma vez, uma memória esquecida. E pela primeira vez, em vez de dor, senti uma estranha sensação de paz. A minha resolução de partir tornava-se mais forte a cada hora que passava em silêncio.