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O FILHO DO MAFIOSO MOLOTOV

O FILHO DO MAFIOSO MOLOTOV

Autor:: A.Fagundes
Gênero: Moderno
Sinopse: Procurando um tutor para crianças de quatro anos. Deve estar disposto a se mudar para uma propriedade remota nas montanhas. $ 3.000 / semana em dinheiro. Estou fugindo de assassinos cruéis, com apenas dez dólares sobrando na carteira e um tanque meio vazio no meu carro antigo quando vejo o anúncio. O trabalho parece a resposta às minhas orações, mas há um porém. O pai da criança é o homem mais lindo e perigoso que já conheci. O sombriamente sedutor e podre de rico Nikolai Molotov é um mistério tentador, uma contradição mortalmente atraente. Tornozelos machucados e ternos sob medida, carícias doces e promessas sujas – meu novo empregador me atrai como um ímã, mesmo quando meus instintos me dizem para fugir. Eu deveria tê-la ouvido... porque não sou o único que tem segredos. Meu porto seguro pode ser o covil do diabo e, uma vez que ele tome posse de mim, será tarde demais para fugir.

Capítulo 1 1

Sinopse:

Procurando um tutor para crianças de quatro anos. Deve estar disposto a se mudar para uma propriedade remota nas montanhas. $ 3.000 / semana em dinheiro.

Estou fugindo de assassinos cruéis, com apenas dez dólares sobrando na carteira e um tanque meio vazio no meu carro antigo quando vejo o anúncio. O trabalho parece a resposta às minhas orações, mas há um porém.

O pai da criança é o homem mais lindo e perigoso que já conheci.

O sombriamente sedutor e podre de rico Nikolai Molotov é um mistério tentador, uma contradição mortalmente atraente. Tornozelos machucados e ternos sob medida, carícias doces e promessas sujas – meu novo empregador me atrai como um ímã, mesmo quando meus instintos me dizem para fugir.

Eu deveria tê-la ouvido... porque não sou o único que tem segredos.

Meu porto seguro pode ser o covil do diabo e, uma vez que ele tome posse de mim, será tarde demais para fugir.

Agradecimentos:

Ao meu bom Deus, obrigada pai por este dom!

Ao meu esposo pelo apoio, paciência, e ajuda em todos os sentidos. Te amo meu agroboy.

Aos meus pais que sempre acreditaram e sempre apostaram em mim, dona Rose, Seu Osmar, eu amo vocês.

Ao pessoal que acreditaram em mim, e me ajudaram a fazer Acontecer.

Ketulin Daiane obrigada pela betagem, parceiria e cumplicidade. Te amo.

Adriana Borges você merece o céu, não tenho palavras para expressar a gratidão que eu tenho por ti. Desde dos meados de 2020 juntas estamos e desde então, você sempre acreditou em mim, nunca desistiu. Não é atoa o seu apelido de " Mãe literária ". Para mim e para a Angelinna Fagundes, você é a nossa mãe, é aquela que puxa as orelhas, é aquela que cobra capítulos e muita perfeição. E acima de tudo, não deixou eu desisti. Saiba que quando eu tiver em patamar incrível, tipo: ( dando uma entrevista em um programa muito importante na tv) seu nome será lembrado e citado. Muito obrigada, espero algum dia pôde retribuir tudo isso para ti, te amo minha mãe do coração. E a vocês leitores, que são a base de tudo, obrigada por me acompanhar desde do início, obrigada por cada capítulo lido lá na plataforma do lera, graças a vocês, eu tenho o meu ganha pão. Graças a vocês, eu escrevo mae mais, e obrigada a cada um pela amizade e carinho. Amo vocês.

A todos o meu muito obrigada!

SOBRE A AUTORA:

KEITLIN RAIANE Pseudônimo de ANGELINNA FAGUNDES autora de grandes sucessos ama um bom romance clichê e hot.

A escuridão é Seu playground, o suspense é seu melhor amigo e as reviravoltas são o alimento de seu cérebro. No entanto, ela gosta de pensar que é uma romântica de coração de alguma forma, então não mate suas esperanças ainda.

Seus heróis são anti-heróis e vilões porque ela sempre foi a esquisita que se apaixonou por caras por quem ninguém torce. Seus livros são polvilhados com um toque de mistério, uma dose saudável de angústia, uma pitada de violência e muita paixão intensa.

Keitlin passa seus dias privados em uma comunidade rural (boa Vista) de uma cidade, que fica localizada em São João Do Triunfo – Paraná. Sonhando acordada com a próxima ideia do enredo ou rindo como um gênio do mal quando essas ideias se juntam.

ı

CHLOE

O carro erra POR POUCO na vıTRINI mınha esquerda que explode, estilhaçando vidros para todos os lados.

Eu congelo, tão atordoada que mal sinto o vidro cortando meu braço desprotegido. Então, os gritos começam.

- Tiros! Ligue para o 911! - alguém na rua grita, e a adrenalina inunda minhas veias enquanto meu cérebro faz a conexão entre o som e a explosão de vidro.

Alguém está atirando. Em mim.

Eles me encontraram.

Meus pés reagem antes do resto do meu corpo, impulsionando- me em um salto no momento em que outro bang! chega aos meus ouvidos, e a caixa registradora dentro da loja explode em estilhaços.

A mesma caixa que eu estava bloqueando com meu corpo um segundo atrás.

Sinto o gosto do terror. É acobreado, como sangue. Talvez seja sangue. Talvez eu tenha levado um tiro e esteja morrendo. Mas não, estou correndo. Meu batimento cardíaco está rugindo em meus ouvidos, meus pulmões bombeando com tudo que podem enquanto eu corro pelo quarteirão. Posso sentir a queimação em minhas pernas, então, estou viva.

Por enquanto.

Porque eles me encontraram. De novo.

Eu faço uma curva fechada à direita, correndo por uma rua estreita e, por cima do ombro, vejo dois homens a meio quarteirão

atrás de mim, correndo para me alcançar a toda velocidade.

Meus pulmões já estão gritando por ar, minhas pernas ameaçam ceder, mas eu acelero desesperadamente e corro para um beco antes que eles dobrem a esquina. Uma cerca de arame de 1,5 metro de altura surge na metade do beco, mas eu a pulo em segundos, a adrenalina me cedendo a agilidade e a força de um atleta.

A parte de trás do beco se conecta à outra rua, e um soluço de alívio explode da minha garganta quando eu percebo que é onde estacionei meu carro antes da entrevista.

Corra, Chloe. Você consegue.

Respirando desesperadamente, corro rua abaixo, procurando no meio-fio um Toyota Corolla velho.

Cadê?

Onde deixei o maldito carro?

Estava atrás da van azul ou branca?

Por favor, que ainda esteja lá. Por favor, que ainda esteja lá.

Finalmente, eu o vejo, meio escondido atrás de uma van branca. Remexendo no bolso, tiro as chaves e com as mãos tremendo violentamente, pressiono o botão para destrancar o carro.

Já estou dentro e colocando a chave na ignição quando vejo meus perseguidores emergindo do beco um quarteirão atrás de mim, cada um com uma arma na mão.

Ainda estou tremendo cinco horas depois quando paro em um posto de gasolina, o primeiro que vejo nesta estrada sinuosa na montanha.

Foi por um triz.

Eles estão ficando mais ousados, mais desesperados.

Eles atiraram em mim na porra de uma rua.

Minhas pernas parecem gelatina quando saio do carro, segurando minha garrafa d'água vazia. Preciso de um banheiro, água, comida e gasolina, nesta ordem – e, de preferência, um

veículo novo, pois eles podem ter pego a placa do meu Toyota. Supondo que eles ainda não a tenham.

Não tenho ideia de como eles me encontraram em Boise, Idaho, mas pode ter sido pelo meu carro.

O problema é que o pouco que sei sobre como fugir de criminosos assassinos obstinados vem de livros e filmes, e não tenho ideia do que meus perseguidores realmente podem rastrear. Só por segurança, porém, não estou usando nenhum dos meus cartões de crédito e abandonei meu telefone logo no primeiro dia.

Outro problema é que tenho exatamente trinta e dois dólares e vinte e quatro centavos na carteira. A posição de garçonete para a qual fiz entrevista esta manhã em Boise teria sido um salva-vidas, já que o dono do Café estava aberto a me pagar em dinheiro por baixo dos panos, mas eles me encontraram antes que eu pudesse fazer um único turno.

Alguns centímetros à direita e a bala teria passado pela minha cabeça em vez da vitrine da loja.

Sangue se acumulando no chão da cozinha... Roupão rosa em ladrilho branco... Olhar vidrado e morto...

Minha frequência cardíaca aumenta e meu tremor se intensifica, meus joelhos ameaçam ceder. Apoiada no capô do meu carro, respiro fundo, trêmula, tentando fazer com que a batida louca do meu pulso diminua enquanto empurro as memórias bem no fundo, onde elas não podem apertar minha garganta como um torno.

Não posso pensar no que aconteceu. Se eu fizer isso, vou desmoronar e eles vão vencer.

Eles podem ganhar, de qualquer maneira, porque eu não tenho dinheiro e nenhuma ideia do que estou fazendo.

Uma coisa de cada vez, Chloe. Um pé na frente do outro.

A voz de mamãe chega até mim, calma e firme, e me forço a me afastar do carro. E daí se minha situação passou de desesperadora à crítica?

Ainda estou viva e pretendo continuar assim.

Extraí todos os cacos de vidro do meu braço algumas horas atrás, mas a camiseta que o envolvi para estancar o sangramento ficou com uma aparência ruim, então, pego meu moletom do porta- malas e coloco o capuz para esconder meu rosto de qualquer

câmera de segurança que possa haver dentro do posto de gasolina. Não sei se as pessoas atrás de mim conseguiriam ter acesso a essa filmagem, mas é melhor não arriscar.

Novamente, supondo que eles ainda não estejam rastreando meu carro.

Concentre-se, Chloe. Um passo de cada vez.

Respirando fundo, entro na pequena loja de conveniência anexa ao posto de gasolina e, com um pequeno aceno para a senhora atrás do caixa, vou direto para o banheiro nos fundos. Depois que minhas necessidades mais urgentes são atendidas, lavo as mãos e o rosto, encho minha garrafa de água da torneira e pego minha carteira para contar as notas, só para garantir.

Não, eu não calculei mal ou me enganei. Trinta e dois dólares e vinte e quatro centavos é todo o dinheiro que me resta.

O rosto no espelho do banheiro é o de uma estranha, todo tenso e com as faces encovadas, com olheiras sob olhos castanhos excessivamente grandes. Não tenho comido nem dormido normalmente desde que comecei a fugir, e isso está evidente. Pareço mais velha do que meus vinte e três anos, o último mês tendo me envelhecido em uma década.

Suprimindo o ataque inútil de autopiedade, concentro-me no prático. Etapa um: decidir como será usado o dinheiro que possuo.

A maior prioridade é a gasolina para o carro. Tenho menos de um quarto de tanque, e não há como dizer quando vou encontrar outro posto de gasolina nesta área. Encher todo o tanque vai me custar pelo menos trinta dólares, deixando-me apenas alguns dólares para a comida para saciar o vazio que corrói meu estômago.

Mais importante, da próxima vez que ficar sem gasolina, estou ferrada.

Saindo do banheiro, vou até a caixa registradora e digo à senhora para me dar vinte dólares em gasolina. Eu também pego um cachorro-quente e uma banana, e devoro o cachorro-quente enquanto ela conta lentamente o troco. A banana, guardo no bolso da frente do meu moletom para o café da manhã de amanhã.

- Aqui está, querida - diz ela em uma voz rouca, entregando- me o troco junto com um recibo. Com um sorriso caloroso, ela acrescenta: - Tenha um bom dia, ouviu?

Para meu choque, minha garganta se contrai e as lágrimas pinicam no fundo dos meus olhos, a simples bondade me atingindo completamente.

- Obrigada. Você também - digo em uma voz sufocada, e enfio o troco na minha carteira, corro em direção à saída antes que eu possa alarmar a mulher explodindo em lágrimas.

Estou quase na porta quando um jornal local chama minha atenção. Ele está em uma cesta com o rótulo GRÁTIS, então, eu o pego antes de seguir para o meu carro.

Enquanto o tanque está enchendo, coloco minhas emoções inquietas sob controle e desdobro o jornal, indo direto para a seção de classificados no fim. É uma chance remota, mas talvez alguém por aqui esteja contratando para algum tipo de trabalho, como lavar janelas ou aparar sebes.

Mesmo cinquenta dólares podem aumentar minhas chances de sobrevivência.

A princípio, não vejo nada parecido com o que estou procurando e estou prestes a dobrar o jornal, desapontada, quando um anúncio no final da página chama minha atenção:

Procura-se tutor residente para uma criança de quatro anos. Deve ser bem instruído, bom com crianças e disposto a se mudar para uma propriedade remota nas montanhas. $3K/semana em dinheiro. Para se inscrever, envie seu currículo por e-mail para tutorcandidates459@gmail.com.

Três mil por semana em dinheiro? Que porra é essa? Incapaz de acreditar no que vejo, releio o anúncio.

Não, todas as palavras ainda são as mesmas, o que é insano.

Três mil por semana para um tutor? Em dinheiro?

É uma farsa, tem que ser.

Com o coração acelerado, termino de encher o tanque e entro no carro. Minha mente está a mil. Eu sou a candidata perfeita para essa posição. Não apenas acabei de me formar com especialização em Educação, mas também fui babá e tutora de crianças durante todo o Ensino Médio e a faculdade. E a mudança para uma propriedade remota na montanha? Onde eu assino? Quanto mais remota, melhor.

É como se o anúncio fosse feito apenas para mim.

Espere um minuto. Isso poderia ser uma armadilha?

Não, esse é um pensamento verdadeiramente paranoico. Desde o acidente dessa manhã, tenho dirigido sem rumo com o único objetivo de colocar a maior distância possível entre mim e Boise, enquanto fico fora das principais estradas e rodovias para evitar câmeras de trânsito. Meus perseguidores precisariam de uma bola de cristal para adivinhar que eu acabaria nesta área remota, muito menos que pegaria este jornal local. A única maneira de isso ser uma armadilha é se eles colocaram anúncios semelhantes em todos os jornais do país, bem como em todos os principais sites de empregos, e, mesmo assim, parece um exagero.

Não, é improvável que seja uma armadilha preparada especificamente para mim, mas pode ser algo igualmente sinistro.

Hesito por um momento, então, saio do carro e volto para a loja.

- Com licença, senhora - digo, me aproximando da senhora no caixa. - Você mora nesta área?

- Com certeza, querida. - Um sorriso ilumina seu rosto enrugado. - Nascida e criada em Elkwood Creek.

- Excelente. Nesse caso... - desdobro o jornal e o coloco no balcão - Você sabe alguma coisa sobre isso? - Aponto para o anúncio.

Ela puxa um óculos de leitura e aperta os olhos para o pequeno texto. - Hum. Três mil por semana para um tutor... deve ser ainda mais rico do que dizem.

Minha pulsação salta de excitação. - Você sabe quem colocou esse anúncio?

Ela ergue o olhar, os olhos cansados piscando por trás das lentes grossas do óculos.

- Bem, não posso ter certeza, querida, mas dizem que algum russo rico comprou a velha propriedade de Jamieson, no alto das montanhas, e construiu um lugar totalmente novo lá. Tem contratado rapazes locais para alguns trabalhos aleatórios aqui e ali, sempre pagando em dinheiro. Ninguém disse nada sobre uma criança, então, pode não ser o mesmo, mas eu não consigo pensar em ninguém por aqui com tanto dinheiro, muito menos qualquer coisa perto de uma propriedade.

Puta merda. Isso pode realmente ser real. Um estrangeiro rico – isso explicaria tanto o salário alto demais quanto sua forma de pagamento. O homem – ou, mais provavelmente o casal, já que há uma criança envolvida – pode não saber o preço dos tutores por aqui, ou pode não se importar. Quando você é rico o suficiente, alguns milhares podem não ser mais significativos do que alguns centavos. Para mim, no entanto, o pagamento de uma única semana pode significar a diferença entre a vida e a morte, e se eu ganhasse esse dinheiro por um mês, seria capaz de comprar outro carro usado – e, talvez, até alguns documentos falsos, para que eu possa sair do país e desaparecer para sempre.

Melhor de tudo, se a propriedade for remota o suficiente, pode demorar um pouco antes que meus perseguidores me encontrem lá

– se é que algum dia o farão. Com um salário em dinheiro, não haveria nenhum registro em papel, nada que me ligasse ao casal russo.

Esse trabalho pode ser a resposta a todas as minhas orações... se eu conseguir, claro.

- Há alguma biblioteca pública por aqui? - Pergunto, tentando moderar minha excitação. Eu não quero ter muitas esperanças. Mesmo que meu currículo seja o melhor que eles conseguiriam, o processo de contratação pode levar semanas ou meses, e não é seguro ficar aqui por tanto tempo.

Se eles me encontraram em Boise, vão me encontrar aqui também.

É só uma questão de tempo. A senhora sorri para mim.

- Ora, sim, querida. Basta dirigir cerca de dezesseis quilômetros para o norte e, quando vir os primeiros edifícios, vire à esquerda, passe por dois cruzamentos e estará à sua esquerda, ao lado do escritório do xerife.

- Maravilhoso, obrigada. Você tem uma caneta? - Quando ela me entrega, anoto as instruções na frente do jornal.

Não ter um smartphone com GPS é uma merda.

- Tenha um bom dia - digo à senhora, e quando saio desta vez, sinto uma ponta de esperança.

A minúscula biblioteca fecha às cinco da tarde, então, eu rapidamente monto meu currículo e carta de apresentação em um dos computadores públicos, e envio um e-mail para o endereço indicado no anúncio. Em vez de um número de telefone e endereço de e-mail, coloco apenas meu e-mail no currículo; esperançosamente, isso será suficiente.

Quando termino, a biblioteca está fechando, volto para o meu carro e saio da pequena cidade, virando aleatoriamente em estradas estreitas e sinuosas até encontrar o que estou procurando.

Uma clareira na floresta onde posso estacionar meu Toyota atrás das árvores, fora da vista de quem está passando.

Com o carro situado em segurança, abro o porta-malas e tiro outro suéter da mala que tive a sorte de ter comigo quando minha vida desmoronou. Enrolando o suéter, me estico no banco de trás, coloco o travesseiro improvisado sob a cabeça e fecho os olhos.

Meu último pensamento antes de o sono me arrastar é a esperança de permanecer viva o suficiente para ter notícias sobre o trabalho.

Capítulo 2 2

NIKOLAI

Uma baTIDA NA PORTA M DIsTRAI DO -maıl Qu sTOU L nDO e levanto os olhos do meu laptop enquanto Alina abre a porta e entra graciosamente em meu escritório.

- Temos uma candidata promissora esta noite - diz ela, aproximando-se da minha mesa. - Aqui, dê uma olhada. - Ela me entrega uma pasta grossa.

Eu abro. A foto da carteira de motorista de uma jovem impressionante me encara na primeira página. Seus olhos castanhos são tão grandes que dominam seu pequeno rosto em forma de diamante e, mesmo na impressão granulada, sua pele bronzeada parece brilhar, como se iluminada por dentro por uma vela invisível. Mas é sua boca que chama minha atenção. Pequena, mas perfeitamente carnuda, é uma mistura entre o bico de cupido de uma boneca e algo que se pode encontrar em uma estrela pornô. Ela não está sorrindo na foto; sua expressão é solene, seu cabelo está preso em um rabo de cavalo ou um coque. A próxima página, no entanto, tem uma foto dela rindo, a cabeça jogada para trás e o rosto emoldurado por ondas marrom-douradas que desaparecem abaixo de seus ombros delgados. Ela está linda nessa foto, e tão radiante, que sinto algo dentro de mim ficar perigosamente imóvel e silencioso, mesmo quando meu pulso

acelera com uma resposta masculina primitiva.

Suprimindo a reação bizarra, viro a página de volta e leio as informações na carteira de motorista.

Chloe Emmons tem vinte e três anos, 1,70m e mora em Boston, Massachusetts, o que significa que ela está muito longe de casa.

- Como ela ficou sabendo dessa posição? - Pergunto, olhando para Alina. - Achei que só tínhamos colocado o anúncio nos jornais locais.

Ela move as impressões com as fotos de lado e bate uma unha vermelha brilhante na página abaixo. - Leia a carta de apresentação.

Eu volto minha atenção para a página. Parece que Chloe Emmons está fazendo uma viagem de pós formatura e estava passando por Elkwood Creek quando viu nosso anúncio e decidiu se candidatar ao cargo. A carta de apresentação está bem escrita e formatada de maneira organizada, assim como o currículo que se segue. Posso ver por que Alina achou isso promissor. Embora a jovem tenha acabado de receber seu Bacharelado em Estudos de Educação, do Middlebury College, ela teve mais estágios de ensino e empregos de babá do que os três candidatos anteriores juntos.

O relatório de Konstantin sobre ela é o próximo. Como de costume, a equipe dele fez um mergulho profundo em suas mídias sociais, registros criminais e de trânsito, movimentações bancárias, históricos escolares, registros médicos e tudo mais sobre sua vida que foi informatizado em algum momento. É uma leitura mais longa, então, olho para Alina.

- Alguma bandeira vermelha?

Ela hesita. - Pode ser. A mãe dela faleceu há um mês, suicídio aparente. Desde então, Chloe tem estado basicamente fora da rede: nada de postagens em redes sociais, nada de transações de cartão de crédito, nada de ligações em seu celular.

- Então, ela está tendo problemas para lidar com a situação ou algo está acontecendo.

Alina acena com a cabeça. - Minha aposta é no primeiro; sua mãe era a única família.

Fecho a pasta e afasto-a. - Isso não explica a falta de transações com cartão de crédito. Algo está errado aqui. Mas mesmo que seja o que você pensa, uma mulher emocionalmente perturbada é a última coisa de que precisamos.

Um sorriso sem humor toca os olhos verde-jade de Alina.

- Você tem certeza disso, Kolya? Porque eu sinto que ela pode se encaixar perfeitamente.

E antes que eu possa responder, minha irmã se vira e sai.

Não sei o que me faz pegar a pasta novamente uma hora depois – curiosidade mórbida, provavelmente. Folheando a espessa pilha de papéis, encontro o relatório policial sobre o suicídio da mãe. Aparentemente, Marianna Emmons, garçonete, 40 anos, foi encontrada no chão da cozinha, com os pulsos cortados. Foi um vizinho que ligou; a filha, Chloe, não estava em lugar nenhum – e ela nunca apareceu para identificar ou enterrar o corpo.

Interessante. A linda Chloe poderia ter matado a mãe? É por isso que ela está em sua "viagem aventureira", fora do radar?

De acordo com o boletim de ocorrência, não houve suspeita de crime. Marianna tinha um histórico de depressão e já havia tentado suicídio uma vez, quando tinha dezesseis anos. Mas eu sei como é fácil encenar uma cena de crime se você sabe o que está fazendo.

Só é preciso um pouco de visão e habilidade.

É uma suposição, claro, mas não cheguei onde estou assumindo o melhor sobre as pessoas. Mesmo que Chloe Emmons não seja culpada de matricídio, ela é culpada de alguma coisa. Meus instintos estão me dizendo que há mais em sua história, e meus instintos raramente estão errados.

A garota é um problema. Eu sei disso, sem sombra de dúvida.

Mesmo assim, algo me impede de fechar a pasta. Eu leio o relatório de Konstantin na íntegra e, em seguida, analiso as capturas de tela de sua rede social. Surpreendentemente, não tem muitas selfies; para uma garota tão bonita, Chloe não parece muito focada em sua aparência. Em vez disso, a maioria de suas postagens consiste em vídeos de filhotes de animais e fotos de pontos turísticos, junto com links de blogs e artigos sobre o desenvolvimento infantil e métodos de ensino ideais.

Se não fosse por aquele relatório policial e seu desaparecimento de um mês da rede, Chloe Emmons pareceria ser exatamente o que

afirma: uma recém-formada com uma paixão por lecionar.

Voltando ao início da pasta, estudo a foto dela rindo, tentando entender o que há na garota que me intriga. Seu rosto bonito, com certeza, mas isso é apenas parte. Eu vi – e fodi – mulheres muito mais clássicas do que ela. Mesmo aquela boca de boneca pornográfica não é nada especial no grande esquema das coisas, embora nenhum homem em sã consciência deixaria de sentir aqueles lábios carnudos e macios envolvendo seu pau.

Não, é outra coisa que exerce aquela atração magnética sobre mim, algo a ver com o brilho de seu sorriso. É como avistar um raio de sol rompendo as nuvens em um dia de inverno. Eu quero tocar, sentir seu calor... capturar, para que eu possa ter para mim.

Meu corpo endurece com o pensamento, imagens sombrias e proibidas para menores deslizando pela minha mente. Um homem melhor – um pai melhor – fecharia essa pasta imediatamente, mesmo que apenas por causa da tentação que ela apresenta, mas eu não sou esse homem.

Eu sou um Molotov e nunca fazemos algo tão prosaico quanto a coisa certa.

Tamborilando meus dedos na minha mesa, chego a uma decisão.

Chloe Emmons pode estar muito perturbada para eu permitir que chegue perto do meu filho, mas ainda quero conhecê-la.

Eu quero sentir aquele raio de sol na minha pele.

CHLOE

O PORTÃO D Ferro D maıs D 3 meTROs D alTURA D slıza enquanto eu aguardo; o motor do meu Toyota protesta na inclinação íngreme da estrada de terra que leva até a propriedade. Agarrando o volante com força, atravesso o portão aberto, meu nervosismo se intensificando a cada segundo.

Ainda não consigo acreditar que estou aqui. Eu tinha quase certeza de que não teria nada em minha caixa de entrada quando fui à biblioteca esta manhã. Era muito cedo para esperar uma resposta. No entanto, por precaução, eu queria verificar meu e-mail e, depois, passar algumas horas procurando online por outras possibilidades a uma distância de meio tanque de carro. Mas o e- mail já estava lá quando entrei; havia chegado às dez da noite de ontem.

Eles querem me entrevistar. Hoje, ao meio-dia.

Minhas palmas estão escorregadias de suor; limpo primeiro uma mão, depois a outra na minha calça jeans. Não tenho nada que se assemelhe a uma roupa apropriada para uma entrevista, então, estou usando meu único jeans limpo e uma camiseta lisa de mangas compridas – preciso das mangas para cobrir os arranhões e cortes dos cacos de vidro deixados no meu braço. Felizmente, meus empregadores em potencial não usarão o traje casual contra mim; afinal, estou sendo entrevistada para um cargo de tutor no meio do nada.

Por favor, deixe-me pegar o trabalho. Por favor, deixe-me conseguir.

O elegante portão de ferro pelo qual acabei de passar faz parte de um muro de metal da mesma altura que se estende até a floresta de montanha escarpada de cada lado da estrada. Eu me pergunto se isso significa que o muro segue em torno de toda a propriedade. É difícil imaginar – de acordo com o bibliotecário que me deu as instruções, a propriedade consiste em mais de mil hectares de terreno montanhoso selvagem – mas eu não consigo ver onde o muro termina, então, é possível. E como o portão se abriu sozinho com a minha chegada, deve haver câmeras instaladas também – o que, embora um tanto alarmante, também é reconfortante.

Não tenho ideia de por que essas pessoas precisam de tanta segurança, mas se eu conseguir esse emprego, estarei segura dentro de seu complexo também.

A sinuosa estrada de terra em que estou parece durar para sempre, mas, finalmente, depois de cerca de um quilômetro, a floresta nas laterais começa a se afastar e o terreno fica plano. Devo estar me aproximando do pico da montanha.

Com certeza, quando eu faço a próxima curva, a elegante mansão de dois andares aparece.

Uma maravilha ultramoderna de vidro e aço, deveria se destacar em meio a toda essa natureza indomada, mas, em vez disso, é habilmente integrada ao seu entorno, com uma parte da casa construída em um afloramento rochoso. Quando paro na frente dela, vejo um terraço todo de vidro envolvendo os fundos e percebo que a casa está situada em um penhasco com vista para uma ravina profunda.

A vista dentro deve ser de tirar o fôlego.

Respire fundo, Chloe. Você consegue.

Desligando o carro, eu aliso minhas palmas das mãos suadas no meu jeans, endireito minha camisa, certifico-me de que meu cabelo ainda está arrumado no coque e pego o currículo que imprimi na biblioteca. Eu normalmente entrevisto bem, mas nunca tive tanto em jogo antes. Cada nervo do meu corpo está no limite, meu coração bate tão rápido que me sinto tonta. Claro, eu também poderia estar tonta porque tudo que comi hoje foi uma banana, mas não quero

pensar nisso e no fato de que, se eu não conseguir o emprego, a fome pode ser o menor dos meus problemas.

Com o currículo em mãos, saio do carro. Estou cerca de meia hora adiantada, o que é melhor do que chegar atrasada, mas não o ideal. Eu estava com medo de me perder sem um GPS, então, saí da biblioteca e me dirigi para cá assim que o bibliotecário explicou para onde ir e me deu um mapa local. Eu não me perdi, então, agora, tudo que eu preciso é caminhar até a porta da frente elegante e futurista e tocar a campainha.

Endireitando minha espinha, eu me preparo para fazer exatamente isso quando a porta se abre, revelando um homem alto, de ombros largos, vestido em um jeans escuro e uma camisa de botão branca com as mangas enroladas até os cotovelos.

- Oi - digo, colocando um sorriso brilhante enquanto caminho em direção a ele. - Eu sou Chloe Emmons, estou aqui para uma entrevista para... - Eu paro, minha respiração presa em meus pulmões quando ele sai para a luz e um par de olhos cor de avelã deslumbrantes encontra os meus.

Exceto que avelã é um termo muito genérico para eles. Eu nunca vi olhos assim. Um âmbar rico e escuro misturado com verde floresta, eles são cercados por cílios grossos e negros e brilham com uma ferocidade peculiar, uma intensidade que não pareceria deslocada em um predador da selva. Olhos de tigre, pertencentes a um homem que é o poder e o perigo personificados – um homem tão cruelmente bonito que minha frequência cardíaca já elevada fica supersônica.

Maçãs do rosto altas e largas, nariz afilado, mandíbula forte o suficiente para cortar mármore – a pura simetria dessas características marcantes teria sido suficiente para enfeitar as capas de revistas, mas quando combinadas com aquela boca carnuda e cinicamente curvada, o efeito é absolutamente devastador. Como seus cílios, suas sobrancelhas são grossas e pretas, assim como seu cabelo, que é longo o suficiente para cobrir suas orelhas e tão liso que parece a asa de um corvo.

Fechando a distância entre nós com passos longos e suaves, ele estende a mão em minha direção.

- Nikolai Molotov - diz ele, pronunciando o nome como um nativo da Rússia faria – embora não haja nenhum traço de sotaque em sua voz profunda e grave. - É um prazer conhecê-la.

Capítulo 3 3

CHLOE

EsTUP FaTA, aP rTO sua mão. É GranD ForT , sua P l levemente bronzeada é quente enquanto seus longos dedos envolvem os meus e apertam com um poder cuidadosamente contido. Um arrepio percorre minha espinha com a sensação, meu corpo aquece todo, e preciso de todo o esforço para não tombar em direção a ele enquanto meus joelhos se transformam em gelatina.

Controle-se, Chloe. Este é um potencial empregador. Controle- se, porra.

Com um esforço hercúleo, puxo minha mão e junto o que resta da minha compostura.

- É um prazer conhecê-lo, Sr. Molotov. - Para meu alívio, minha voz sai firme; meu tom, calmo e amigável, como convém a uma pessoa que está sendo entrevistada para um emprego. Dando meio passo para trás, eu sorrio para meu anfitrião. - Desculpe, cheguei um pouco adiantada.

Seus olhos de tigre se mostram mais brilhantes.

- Sem problemas. Estava ansioso para conhecê-la, Chloe. E, por favor, me chame de Nikolai.

- Nikolai - eu repito, meu batimento cardíaco estúpido acelerando ainda mais. Não entendo o que está acontecendo comigo, por que estou tendo essa reação a este homem. Eu nunca perdi a cabeça por causa de um queixo esculpido e um abdômen bem definido, nem mesmo quando era uma adolescente cheia de hormônios. Enquanto minhas amigas estavam apaixonadas por jogadores de futebol e estrelas de cinema, eu saía com garotos

cujas personalidades eu gostava, cujas mentes me atraíam mais do que seus corpos. Para mim, a química sexual sempre foi algo que se desenvolve com o tempo, em vez de estar presente desde o início.

Mas, também, eu nunca conheci um homem que exala tal magnetismo animal cru.

Eu não sabia que homens assim existiam.

Concentre-se, Chloe. Ele provavelmente é casado.

O pensamento é como um respingo de água fria em meu rosto, me trazendo de volta à realidade da minha situação. O que diabos estou fazendo, babando pelo pai de uma criança? Eu preciso desse trabalho para sobreviver. A viagem de 64 quilômetros até aqui consumiu mais de um quarto do tanque de gasolina, e se eu não ganhar algum dinheiro logo, estarei perdida, um alvo fácil para os assassinos que vêm atrás de mim.

O calor dentro de mim esfria com o pensamento, e quando Nikolai diz: - Siga-me - e caminha de volta para a casa, meus nervos estremecem de ansiedade em vez do que quer que tenha acontecido comigo ao vê-lo.

Por dentro, a casa é tão ultramoderna quanto por fora. Ao meu redor estão janelas do chão ao teto com vistas deslumbrantes, decorações dignas de museus de arte moderna e móveis elegantes que parecem ter saído diretamente do showroom de algum designer de interiores. Tudo é feito em tons de cinza e branco, suavizados em alguns lugares por madeira natural e detalhes em pedra. É lindo e mais do que um pouco intimidador, assim como o homem na minha frente, e enquanto ele me leva por uma sala de estar aberta para uma escada em espiral de madeira e vidro nos fundos, não posso deixar de me sentir como um pombo sarnento que foi acidentalmente lançado em uma sala de concertos dourada.

Reprimindo a sensação perturbadora, eu digo: - Você tem uma bela casa. Mora aqui há muito tempo?

- Alguns meses - ele responde enquanto subimos as escadas. Ele olha para mim. - E você? Você disse em sua carta de apresentação que está em uma viagem?

- Isso mesmo. - Sentindo-me em terreno mais firme, explico que me formei em Middlebury College, em junho, e decidi conhecer

o país antes de mergulhar no mundo do trabalho. - Mas é claro que vi seu anúncio - concluo - e parecia perfeito demais para deixar passar, então, aqui estou.

- Sim, de fato - diz ele suavemente quando paramos na frente de uma porta fechada. - Aqui está você.

Minha respiração engata novamente, meu pulso acelerando incontrolavelmente. Há algo enervante na curva sombria e sensual de sua boca, algo quase... perigoso na intensidade de seu olhar. Talvez seja a cor incomum de seus olhos, mas me sinto nitidamente desconfortável quando ele pressiona a palma da mão em um painel discreto na parede e a porta se abre na nossa frente, no estilo de um filme de espionagem.

- Por favor - ele murmura, gesticulando para que eu entre, e eu o faço, dando o meu melhor para ignorar a sensação perturbadora de que estou entrando no covil de um predador.

O covil acabou sendo um grande escritório iluminado pelo sol. Duas das paredes são feitas inteiramente de vidro, revelando vistas das montanhas de tirar o fôlego, enquanto uma elegante mesa em forma de L no meio contém vários monitores de computador. Ao lado está uma pequena mesa redonda com duas cadeiras, e é para onde Nikolai me leva.

Escondendo um suspiro de alívio, eu me sento e coloco meu currículo na mesa na frente dele. Claramente, estou no limite, meus nervos tão à flor da pele depois do ultimo mês que vejo perigo em toda parte. Esta é uma entrevista para um cargo de tutor, nada mais, e preciso me controlar antes de estragar tudo.

Apesar da advertência, meu pulso dispara novamente quando Nikolai se inclina para trás em sua cadeira e me olha com aqueles olhos inquietantemente bonitos. Posso sentir a umidade crescente nas palmas das mãos, e faço tudo o que posso para não limpá-las novamente no meu jeans. Por mais ridículo que seja, sinto-me nua sob aquele olhar, todos os meus segredos e medos expostos.

Pare com isso, Chloe. Ele não sabe nada. Você está sendo entrevistada para ser tutora, nada mais.

- Então - digo alegremente para esconder minha ansiedade

-, posso perguntar sobre a criança que eu estaria dando aulas particulares? É seu filho ou filha?

Seu rosto assume uma expressão indecifrável.

- Meu filho. Miroslav. Nós o chamamos de Slava.

- É um ótimo nome. Ele...

- Fale-me sobre você, Chloe. - Inclinando-se para frente, ele pega meu currículo, mas não olha para ele. Em vez disso, seus olhos estão fixos no meu rosto, fazendo-me sentir como uma borboleta presa ao microscópio. - O que há nessa posição que te intriga?

- Oh, tudo. - Respirando fundo para firmar minha voz, descrevo todos os trabalhos de babá e aulas particulares que fiz ao longo dos anos e, em seguida, repasso meus estágios, incluindo meu último emprego de verão em um acampamento para necessidades especiais, onde trabalhei com crianças de idades variadas. - Foi uma grande experiência - concluo -, ao mesmo tempo desafiadora e gratificante. Minha parte favorita, porém, era ensinar matemática e ler para as crianças mais novas – e é por isso que acho que seria perfeita para esse papel. Ensinar é minha paixão, e eu adoraria a chance de trabalhar com uma criança individualmente, para adaptar o currículo aos seus interesses e habilidades.

Ele coloca o currículo de lado, ainda sem se preocupar em olhar para ele.

- E como você se sente morando em um lugar tão distante da civilização? Onde não há nada além de natureza selvagem por dezenas de quilômetros ao redor e apenas um contato mínimo com o mundo exterior?

- Isso soa... - Como um refúgio. - surpreendente. - Sorrio para ele, minha excitação não fingida. - Sou uma grande fã do ermo e da natureza em geral. Na verdade, minha alma mater – Middlebury College – foi escolhida em parte por causa de sua localização rural. Adoro fazer caminhadas e pescar, e me dou bem num acampamento. Morar aqui seria um sonho que se tornou realidade. - Especialmente dadas todas as medidas de segurança que localizei no caminho, mas não digo isso, é claro.

Eu não posso parecer outra coisa senão uma recém-formada da graduação em busca de aventura.

Ele arqueia as sobrancelhas.

- Você não vai sentir falta dos seus amigos? Ou família?

- Não, eu... - Para meu temor, minha garganta se contrai com uma onda repentina de tristeza. Engolindo, tento novamente. - Eu sou muito independente. Tenho viajado pelo país sozinha no último mês e, além disso, sempre há telefones, aplicativos de videoconferência e rede social.

Ele inclina a cabeça. - Ainda assim, você não postou em seus perfis de rede social no mês passado. Por que isso?

Eu fico olhando para ele, meu coração dispara. Ele olhou minha rede social? Como? Quando? Eu tenho as configurações de privacidade mais altas; ele não deveria ser capaz de ver nada sobre mim além do fato de que existo e uso as redes sociais como uma pessoa normal. Ele me investigou? Invadiu minhas contas de alguma forma?

Quem é esse homem?

- Na verdade, não tenho telefone no momento. - Um filete de suor desce pela minha espinha, mas consigo manter o meu tom. - Eu me livrei dele porque queria ver se conseguiria funcionar nessa viagem sem todos os eletrônicos. Uma espécie de desafio pessoal.

- Entendo. - Seus olhos são mais verdes do que âmbar nesta luz. - Então, como você mantém contato com a família e os amigos?

- Principalmente por e-mail - minto. Não tenho como admitir que não mantive contato com ninguém e não tenho planos de fazer isso. - Tenho visitado bibliotecas públicas e uso os computadores de lá de vez em quando. - Percebendo que meus dedos estão fortemente entrelaçados, eu abro minhas mãos e forço um sorriso em meus lábios. - É bastante libertador não estar amarrada a um telefone, sabe. Conectividade extrema é uma bênção e uma maldição, e estou aproveitando a liberdade de viajar pelo país como as pessoas faziam no passado, com apenas um mapa de papel para me guiar.

- Uma Geração Z ludista. Que refrescante.

Eu coro com a zombaria suave em seu tom. Eu sei como minha explicação soa, mas é a única coisa que posso inventar para justificar minha falta de atividade recente nas redes sociais e, caso ele olhe meu currículo com atenção, a ausência de um número de

telefone celular. Na verdade, é uma boa desculpa para tudo, então, posso muito bem seguir em frente.

- Você está certo. Eu sou um pouco ludista - digo. - É provavelmente por isso que a vida na cidade tem tão pouco apelo para mim, e porque achei seu anúncio de emprego tão intrigante. Viver aqui - eu aponto para as vistas deslumbrantes do lado de fora - e dar aulas particulares para seu filho é o tipo de trabalho que eu sempre quis, e se você me contratar, vou me dedicar completamente a ele.

Um sorriso lento e misterioso curva seus lábios. - Mesmo?

- Sim. - Mantenho seu olhar, mesmo quando minha respiração fica superficial e lufadas de calor percorrem minha pele. Eu realmente não entendo minha reação a este homem, não entendo como posso considerá-lo tão magnético, mesmo quando ele dispara todos os tipos de alarmes em minha mente. Paranoia ou não, meus instintos gritam que ele é perigoso, mas meu dedo coça para estender a mão e traçar as linhas claramente definidas de seus lábios carnudos e de aparência macia. Engolindo em seco, afasto meus pensamentos desse território traiçoeiro e digo com o máximo de seriedade que consigo: - Serei a tutora mais perfeita que você pode imaginar.

Ele me olha sem piscar, o silêncio se estende por vários segundos, e quando sinto que meus nervos vão explodir como um elástico esticado, ele se levanta e diz: - Siga-me.

Ele me leva para fora do escritório e por um longo corredor até chegarmos à outra porta fechada. Esta não deve ter segurança biométrica, pois, apenas bate na porta e, sem esperar resposta, entra.

No interior, outra janela do chão ao teto oferece vistas mais deslumbrantes. No entanto, não há nada elegante e moderno neste quarto. Em vez disso, parece o resultado da explosão de uma fábrica de brinquedos. O caos colorido está em todo lugar que olho, com pilhas de brinquedos, livros infantis e peças de LEGO

espalhadas por todo o chão, e uma cama infantil coberta por um lençol com o tema do Super-Homem no canto. Os travesseiros e cobertores com o tema do Super-Homem da cama estão empilhados em outro canto, e não é até que meu anfitrião diga em um tom de comando: - Slava!- que eu percebo que há um garotinho construindo um castelo de LEGO próximo a essa pilha.

Ao ouvir a voz de seu pai, a cabeça do menino se ergue, revelando um par de enormes olhos verde-âmbar – os mesmos olhos hipnotizantes que o homem ao meu lado possui. Em geral, o menino é Nikolai em miniatura, seu cabelo preto caindo em volta das orelhas em uma cortina lisa e brilhante e seu rosto redondo de criança já mostrando uma sugestão daquelas maçãs do rosto marcantes. Até a boca é a mesma, faltando apenas a curva cínica e sábia dos lábios de seu pai.

- Slava, idi syuda - Nikolai ordena, e o menino se levanta e se aproxima de nós com cautela. Quando ele para na nossa frente, noto que ele está vestindo uma calça jeans e uma camiseta com uma foto do Homem-Aranha na frente.

Olhando para seu filho, Nikolai começa a falar com ele em um russo rápido. Não tenho ideia do que ele está dizendo, mas deve ter algo a ver comigo porque o menino continua olhando para mim, sua expressão ao mesmo tempo curiosa e amedrontada.

Assim que Nikolai termina de falar, eu sorrio para a criança e me ajoelho no chão, então, estamos no mesmo nível.

- Oi, Slava - digo suavemente. - Eu sou Chloe. Prazer em conhecê-lo.

O menino me olha sem expressão.

- Ele não fala inglês - diz Nikolai, com a voz dura. - Alina e eu tentamos ensiná-lo, mas ele sabe que falamos russo e se recusa a aprender conosco. Então, esse seria o seu trabalho: ensinar inglês a ele, junto com qualquer outra coisa que uma criança da idade dele deveria saber.

- Entendo. - Mantenho meu olhar no menino, sorrindo para ele calorosamente, mesmo quando mais alarmes disparam em minha mente. Há algo estranho na maneira como Nikolai fala com e sobre a criança. É como se seu filho fosse um estranho para ele. E se Alina – que presumo ser sua esposa e mãe da criança – sabe inglês

tão bem quanto meu anfitrião, por que Slava não fala pelo menos algumas palavras? Por que ele se recusaria a aprender o idioma com seus pais?

Em geral, por que Nikolai não pega o menino e o abraça? Ou bagunça seu cabelo de maneira divertida?

Onde está a facilidade calorosa com que os pais costumam se comunicar com os filhos?

- Slava - digo baixinho para o menino -, eu sou Chloe. - aponto para mim mesma. - Chloe.

Ele me olha com o olhar fixo de seu pai por vários longos momentos. Em seguida, sua boca se move, moldando as sílabas.

- Klo-ee.

Eu sorrio para ele. - Isso mesmo. Chloe. - Eu bato no meu peito. - E você é Slava. - Eu aponto para ele. - Miroslav, certo?

Ele acena com a cabeça solenemente. - Slava.

- Você gosta de quadrinhos, Slava? - Eu gentilmente toco a imagem em sua camiseta. - Este é o Homem-Aranha, não é?

Seus olhos brilham. - Da, Homem-Aranha. - Ele pronuncia com sotaque russo. - Ti znayesh o nyom?

Eu olho para Nikolai, apenas para encontrá-lo me olhando com uma expressão sombria e indecifrável. Um formigamento de consciência indesejada percorre minha espinha, minha respiração engata com uma sensação repentina de vulnerabilidade. Não é onde eu quero estar de joelhos com este homem.

É como expor minha garganta para um lindo lobo selvagem.

- Meu filho está perguntando se você sabe sobre o Homem- Aranha - diz ele após um momento de tensão. - Presumo que a resposta seja sim.

Com esforço, eu tiro meu olhar dele e me concentro no menino.

- Sim, eu sei sobre o Homem-Aranha - digo, sorrindo. - Eu amava o Homem-Aranha quando tinha sua idade. Também Super- Homem e Batman e Mulher Maravilha e Aquaman.

O rosto da criança se ilumina mais com cada super-herói que eu nomeio, e quando chego ao Aquaman, um sorriso malicioso aparece em seu rosto.

- Aquaman? - Ele franze o narizinho. - Nyet, nye Aquaman.

- Sem Aquaman? - Eu arregalo meus olhos exageradamente.

- Por que não? O que há de errado com o Aquaman?

Isso atrai uma risadinha. - Nye Aquaman.

- Ok, você venceu. Sem Aquaman. - Solto um suspiro triste.

- Pobre Aquaman. Poucas crianças gostam dele.

O menino ri de novo e corre para uma pilha de gibis ao lado da cama. Pegando um, ele o traz de volta e aponta para a foto na frente.

- Super-Homem samiy sil'niy - declara ele.

- Super-Homem é o melhor? - Eu chuto. - Seu favorito?

- Ele disse que é o mais forte - diz Nikolai uniformemente, depois, muda para o russo, sua voz assumindo o mesmo tom de comando.

O rosto do menino cai, e ele abaixa o livro, sua postura abatida.

- Vamos voltar para o meu escritório - diz Nikolai para mim, e sem outra palavra para seu filho, ele se dirige à porta.

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