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O Filho da Noite que eu não esqueci

O Filho da Noite que eu não esqueci

Autor: wellst
Gênero: Romance
Meu nome é Helena Duarte. Durante vinte e quatro anos, acreditei que ser adotada significava dever minha vida às pessoas que me acolheram.Estava errada.Naquela casa, nunca fui uma filha. Era apenas a menina que precisava agradecer por existir, mesmo quando as palavras vinham acompanhadas de humilhações, castigos e portas trancadas.Na noite em que finalmente fugi, não tinha dinheiro suficiente, lugar para dormir ou alguém para quem telefonar. Só tinha uma pequena mala, um casaco emprestado e um colar que pertencera à minha mãe biológica.Foi naquela noite que conheci um desconhecido.Um homem de olhos escuros, voz firme e uma tristeza que ele escondia muito bem. Não sabia seu sobrenome, sua profissão ou por que parecia tão solitário quanto eu. Não deveria ter confiado nele. Muito menos passado a noite em seus braços.Mas passei.E fui embora antes do amanhecer, deixando para trás a única lembrança que tinha da minha origem: meu colar.Quatro anos depois, voltei àquela cidade com um menino de três anos pela mão.Meu filho.Eu acreditava que aquela noite havia sido apenas uma lembrança bonita de uma vida que não existia mais.Até reconhecer, no noticiário, o rosto do homem que nunca consegui esquecer.Ele estava usando meu colar.E, aparentemente, havia passado os últimos quatro anos procurando pela mulher que desapareceu de sua vida.O problema é que agora eu não estava mais sozinha.E meu filho tinha os mesmos olhos dele.
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Capítulo 1 A CASA ONDE NUNCA FUI FILHA

Elena A primeira coisa que aprendi naquela casa foi que algumas pessoas conseguem transformar a palavra família em uma ameaça.

A segunda foi que, quando ninguém escolhe ficar ao seu lado, você precisa aprender a sobreviver sozinha. Eu tinha vinte anos quando entendi as duas coisas.

- Helena!

Fechei os olhos por um instante ao ouvir minha mãe adotiva gritar do andar de baixo.

Minha mãe.

Era estranho como aquela palavra ainda parecia tão natural na minha cabeça, apesar de tudo.

- Já vou!

- respondi, prendendo os cabelos em um coque desajeitado.

Olhei para o relógio sobre a escrivaninha.

Sete e quarenta da manhã. Eu deveria estar no trabalho havia dez minutos, mas ainda precisava terminar de passar as camisas de Augusto, preparar o café de Cecília e organizar a cozinha.

Naquela casa, minhas obrigações nunca terminavam.

Desci as escadas carregando uma pilha de roupas.

Cecília estava sentada à mesa, impecavelmente arrumada, mexendo no celular enquanto tomava café.

Augusto, meu pai adotivo, lia o jornal. Minha irmã, Isabela, examinava as unhas recém-feitas.

Nenhum deles me cumprimentou.

- Finalmente

- Cecília comentou, sem levantar os olhos.

- Você demorou.

- Estava terminando as roupas do Augusto.

- Não pedi explicações.

Pedi que fizesse seu trabalho.

Deixei as camisas sobre uma cadeira.

- Preciso sair. Estou atrasada. Isabela soltou uma risadinha.

- Atrasada para aquele emprego miserável? Ignorei.

Trabalhava em uma pequena livraria no centro da cidade.

Não recebia muito, mas era o único lugar onde conseguia passar algumas horas sem ouvir que minha existência era um favor concedido.

- Helena, sente-se

- Augusto ordenou. Olhei para ele.

- Tenho que ir.

- Você vai sentar quando eu mandar. Respirei fundo e puxei a cadeira.

Cecília finalmente levantou os olhos.

- Recebemos uma ligação ontem. Meu estômago se contraiu.

- De quem?

- Da instituição onde você foi adotada. Fiquei imóvel. Não era comum mencionarem meu passado. Na verdade, Cecília parecia sentir prazer em lembrar que eu não havia nascido naquela família.

- Por quê?

- Estão atualizando alguns documentos. Parece que ainda existe uma pendência relacionada à sua adoção. Assenti lentamente.

- Posso resolver isso depois do trabalho. - Você sempre tem alguma desculpa. Isabela apoiou o queixo na mão.

- Talvez estejam querendo devolver a Helena. Vai que encontram uma família melhor. Ela riu. Eu não. Augusto dobrou o jornal.

- Chega, Isabela. Por um segundo, pensei que ele fosse defendê-la. Mas seu olhar voltou imediatamente para mim.

- Você deveria ser mais grata, Helena. Sua mãe e eu poderíamos ter escolhido qualquer criança. Ali estava. A frase que sempre aparecia quando eu ousava esquecer meu lugar.

Poderiam ter escolhido qualquer criança.

Como se eu precisasse passar o resto da vida compensando a decisão deles.

- Eu sei - murmurei.

- Não parece. Levantei-me antes que alguém pudesse continuar.

Na saída, ouvi Cecília comentar alguma coisa sobre minha ingratidão.

Não voltei para responder. A livraria cheirava a café e papel antigo. Era meu lugar favorito no mundo.

Não porque fosse particularmente bonito, mas porque os livros nunca me perguntavam por que eu não era parecida com meus pais.

Nunca exigiam gratidão. Nunca faziam questão de lembrar que eu tinha sido encontrada em um abrigo, com poucas informações sobre minha origem.

Ali, eu podia ser qualquer pessoa.

- Você está com uma cara péssima. Levantei os olhos. Marina, minha colega de trabalho, estava atrás do balcão segurando dois copos de café.

- Bom dia para você também. Ela colocou um deles na minha frente.

- Briga em casa? Dei de ombros.

- O de sempre. Marina conhecia algumas coisas sobre minha situação, embora eu nunca tivesse contado tudo. Tinha medo de transformar minha própria história em algo que as pessoas sentissem pena de ouvir.

- Você sabe que pode ficar na minha casa, não sabe? Sorri discretamente.

- Sei. - Estou falando sério.

- Eu também. Ela não insistiu. Durante o restante do expediente, tentei me concentrar nas tarefas. Organizei as prateleiras, atendi clientes e conferi alguns pedidos.

Por algumas horas, quase consegui esquecer o que tinha acontecido naquela manhã. Quase. Quando cheguei em casa, encontrei duas malas no corredor. Uma delas era minha. Parei no primeiro degrau. - O que está acontecendo? Cecília apareceu na sala segurando uma pasta.

- Estamos reorganizando algumas coisas. Olhei para as malas.

- Minhas coisas? - Você está ficando adulta, Helena. Já passou da hora de aprender a se virar. Demorei alguns segundos para compreender.

- Você está me expulsando? Ela suspirou, como se eu tivesse acabado de fazer uma pergunta particularmente inconveniente. - Não dramatize.

- Cecília... - Não me chame assim. Engoli em seco.

- Mãe, por favor. Seu rosto endureceu.

- Você não é minha filha de verdade, Helena. Nunca foi. E acho que já está na hora de parar de fingir que somos obrigados a sustentar você para sempre. A frase atravessou meu peito com uma precisão cruel. Eu sabia que era adotada. Sempre soube.

Mas existe uma diferença enorme entre conhecer a própria história e ouvir alguém usar sua origem como justificativa para descartá-la. Olhei para Augusto, que estava no escritório.

- Você concorda com isso? Ele não respondeu imediatamente.

Depois, simplesmente fechou a porta.

Foi naquele momento que alguma coisa dentro de mim se partiu.

Não chorei. Não implorei. Apenas subi as escadas. Meu quarto parecia menor naquela noite.

Abri o armário e comecei a colocar minhas roupas na mala. Não tinha muitas coisas.

Algumas peças, dois livros, fotografias antigas e uma pequena caixa de madeira que mantinha escondida no fundo da gaveta. Dentro dela estava meu único objeto de valor sentimental.

Um colar de prata. O pingente tinha o formato de uma pequena estrela, com uma pedra azul no centro. Fora encontrado junto comigo quando ainda era bebê.

Era a única lembrança que minha mãe biológica havia deixado. Passei o polegar sobre a superfície fria.

- Pelo menos você não me abandonou por escolha própria - sussurrei. Não sabia se falava com o colar ou comigo mesma. Às nove e meia, minha mala estava pronta.

Peguei o dinheiro que havia guardado durante meses e conferi o saldo da minha conta. Não era suficiente para começar uma vida confortável, mas talvez fosse suficiente para desaparecer por alguns dias.

Antes de sair, olhei uma última vez para o quarto.

Não sentiria falta da cama, das paredes ou dos móveis. Sentiria falta da ideia de ter uma família. Era uma diferença que eu estava começando a compreender.

Desci as escadas devagar. A casa estava silenciosa. Na porta, coloquei o casaco, ajustei a alça da bolsa e segurei a mala.

Não havia ninguém para me acompanhar. Ninguém para perguntar onde eu iria dormir.

Ninguém para desejar boa sorte. Abri a porta. E fui embora. A chuva começou antes de eu chegar ao centro.

Meu celular estava com pouca bateria, o último ônibus já havia passado e Marina não atendia às ligações.

Parei debaixo da cobertura de um hotel. Era um estabelecimento luxuoso, com portas de vidro, iluminação dourada e funcionários vestidos formalmente.

Definitivamente não era um lugar onde alguém como eu deveria entrar. Mas estava frio. E eu não tinha para onde ir. Enquanto procurava algum lugar para sentar, ouvi uma voz atrás de mim.

- Você pretende passar a noite aqui? Virei-me. O homem era alto. Usava um sobretudo escuro sobre uma camisa social e segurava um telefone junto ao ouvido. Os cabelos escuros estavam ligeiramente bagunçados, como se tivesse passado as mãos por eles inúmeras vezes.

Seus olhos encontraram os meus. Não havia curiosidade exagerada neles. Apenas uma atenção silenciosa.

- Estou esperando a chuva passar

- menti. Ele olhou para minha mala. Depois para meus sapatos encharcados.

- Claro. Desviei o rosto. - Não preciso de ajuda.

- Não perguntei se precisava. A resposta me fez encará-lo novamente. Ele desligou o telefone e guardou-o no bolso.

- Há um café aberto no saguão. Você pode esperar lá.

- Não tenho dinheiro para esse tipo de lugar. O homem pareceu surpreso.

- É um café, não um restaurante cinco estrelas. Pela primeira vez naquela noite, quase sorri.

- Mesmo assim. Ele ficou alguns segundos em silêncio.

- Meu nome é Dante. Não respondi imediatamente.

- Helena.

- Prazer, Helena. Ele não tentou tocar em mim, não perguntou por que eu estava sozinha e tampouco exigiu explicações.

Apenas abriu a porta do hotel. E, por algum motivo que eu ainda não conseguia explicar, decidi entrar. Não sabia que aquela escolha mudaria minha vida.

Muito menos que, anos depois, eu reconheceria aquele mesmo homem antes mesmo de ouvir seu nome.

Naquela noite, Dante Montenegro era apenas um desconhecido que me ofereceu um lugar seco para esperar a chuva passar.

E eu ainda não sabia que algumas noites não terminam quando o sol nasce.

Capítulo 2 DUAS ALMAS PERDIDAS

Helena - A chuva parecia não ter intenção de parar. Eu continuava perto da entrada do hotel, segurando a alça da minha mala com tanta força que meus dedos começavam a doer. O homem ao meu lado observava a rua através das portas de vidro. Havia algo particularmente estranho naquela situação: eu estava em um hotel onde provavelmente não conseguiria pagar nem uma diária, acompanhada por um desconhecido que parecia pertencer àquele lugar. Dante. Ainda estava tentando me acostumar com seu nome. - Você está esperando alguém? - perguntou. - Estou tentando encontrar alguém.

- Não é exatamente a mesma coisa. Olhei para ele. - Você sempre faz tantas perguntas? - Só quando alguém parece prestes a desmaiar de frio na minha frente. Revirei os olhos, embora um sorriso ameaçasse escapar. - Estou bem. Ele olhou novamente para meus sapatos molhados. - Claro. Dante retirou o sobretudo e o estendeu na minha direção. - Pegue. - Não precisa. - Helena. Foi a primeira vez que ouvi meu nome naquela voz grave, sem pressa ou irritação. - Você está tremendo. Hesitei antes de aceitar. O casaco ainda estava aquecido pelo corpo dele e tinha um perfume amadeirado, discreto, que não consegui identificar. Vesti-o, percebendo imediatamente que as mangas ficavam compridas demais. - Obrigada. - De nada. Ele olhou para o balcão da recepção e depois voltou a atenção para mim. - Venha. Precisamos conversar sobre onde você vai passar a noite. Meu estômago se apertou. - Eu não tenho dinheiro para um quarto. - Eu não perguntei se tinha. - Dante... - Tenho um quarto disponível. Você pode ficar nele até conseguir resolver sua situação. Fiquei imóvel. - Por quê? Ele pareceu não compreender a pergunta. - Porque você precisa de um lugar para dormir. - Você nem me conhece. - E você não me conhece. Ainda assim, está conversando comigo. Abaixei os olhos. Não era tão simples. Passei boa parte da minha vida ouvindo que favores nunca eram gratuitos. Que toda gentileza escondia uma cobrança e que, se alguém oferecesse alguma coisa, eu deveria descobrir imediatamente o que desejava receber em troca. - Não quero ficar devendo nada a você - falei. Dante sustentou meu olhar. - Então não fique. O quarto ficava em um dos andares superiores. Quando o elevador abriu as portas, acompanhei Dante por um corredor silencioso, iluminado por pequenas luminárias douradas. Ele abriu a porta de uma suíte ampla. Havia uma sala de estar, uma cama enorme e janelas que ocupavam quase toda a parede, revelando a cidade coberta pela chuva. Parei na entrada. - Isso é uma suíte? - É. - Você disse quarto. - Continua sendo um quarto. Olhei para ele, desconfiada. Dante soltou uma risada discreta. - Não precisa ficar assustada. Você pode usar o quarto. Eu tenho outro lugar para ficar. Aquilo me tranquilizou um pouco. Ele deixou o cartão de acesso sobre a bancada e apontou para uma porta lateral. - O banheiro fica ali. Vou pedir algumas roupas limpas e algo para você comer. - Não precisa fazer tudo isso. - Helena, você está hospedada em um hotel. É literalmente o que fazemos. Dessa vez, ri. Foi involuntário. E ele pareceu satisfeito por ter conseguido arrancar aquela reação de mim. Antes de sair, Dante parou junto à porta. - Vou deixar você descansar. Se precisar de alguma coisa, basta ligar para a recepção. - Obrigada por não fazer perguntas. Ele colocou uma das mãos no bolso. - Você me conta quando quiser. A porta se fechou. Fiquei sozinha. Pela primeira vez naquela noite, não precisava me preocupar com o lugar onde dormiria. Sentei na beirada da cama e olhei para o teto. Não tinha família, casa ou dinheiro suficiente para começar novamente. Mas tinha um teto sobre a cabeça e algumas horas para pensar. Naquele momento, era o bastante. Pouco depois, uma funcionária trouxe uma sacola com roupas confortáveis, toalhas e alguns produtos de higiene. Também havia uma bandeja com comida. Tomei um banho demorado, vesti uma camiseta larga e um short que estavam na sacola e finalmente consegui respirar sem sentir o cheiro de chuva nas roupas. Quando saí do banheiro, encontrei Dante na sala. Ele havia trocado a camisa social por uma camiseta preta. Os cabelos estavam ligeiramente úmidos, e uma das mãos segurava um copo de água. - Melhorou? - Muito. - Ótimo. Apontei para a bandeja. - Você pediu tudo isso? - Não. Pedi apenas o jantar. O restante veio com a suíte. Sentei no sofá. - Você trabalha aqui? Ele pareceu surpreso. - Por quê? - Parece conhecer todo mundo. - Digamos que tenho alguns privilégios. Não perguntei mais. Comemos enquanto conversávamos sobre coisas banais. Descobri que ele gostava de café sem açúcar, não tinha muita paciência para filmes longos e trabalhava com administração. Ele descobriu que eu gostava de romances, detestava café frio e tinha o hábito de ler o final dos livros antes de começar. - Isso deveria ser considerado um crime - comentou. - É uma estratégia. - Uma estratégia para estragar a história? - Para saber se vale a pena sofrer. Ele ficou me observando. - E você acha que sempre consegue evitar o sofrimento sabendo o final? A pergunta me fez perder o sorriso. - Não. Dante não insistiu. Talvez fosse por isso que comecei a me sentir confortável perto dele. Já passava da meia-noite quando a conversa ficou mais pessoal. Estávamos sentados na sala, com a cidade iluminada atrás das janelas. Eu segurava uma xícara de chá enquanto ele permanecia na poltrona à minha frente. - Você não precisa voltar para aquela casa? - perguntou. Neguei. - Não tenho mais casa. - Sinto muito. Dei de ombros, tentando parecer indiferente. - Acho que algumas pessoas simplesmente não nasceram para ter uma família. Dante colocou o copo sobre a mesa. - Não acredito nisso. - Você teve uma família boa? Ele demorou alguns segundos. - Tive uma família. Não significa que tenha sido simples. Olhei para ele com curiosidade. Pela primeira vez, percebi que havia alguma coisa por trás daquela postura controlada. Uma espécie de distância que ele mantinha mesmo quando estava perto de alguém. - Você também está fugindo de alguma coisa? - perguntei. Ele sorriu sem humor. - Talvez. Ficamos em silêncio. Depois, Dante se levantou e caminhou até a janela. - Helena, quero que saiba que não espero nada de você por ter oferecido esse quarto. - Eu sei. - Sabe mesmo? Assenti. Ele se aproximou novamente. - Ótimo. Nossos olhares se encontraram. Havia uma diferença de idade entre nós, e eu percebia isso na maneira como ele se comportava. Dante parecia ter uma vida muito mais organizada, enquanto eu ainda estava tentando descobrir como sobreviver ao dia seguinte. Mesmo assim, naquele instante, não me senti inferior a ele. - Você é sempre tão sério? - perguntei. - Não. - Então acho que ainda não vi seu melhor lado. Ele sorriu. - Talvez precise de mais tempo. Meu coração acelerou. Não era exatamente o tipo de situação em que eu deveria me envolver. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não estava pensando no que alguém esperava de mim. Estava pensando no que eu queria. E queria beijá-lo. Dante percebeu minha hesitação. - Posso? - perguntou, aproximando-se devagar. Olhei para seus olhos antes de responder. - Pode. O beijo começou com cuidado, quase como se ambos estivéssemos tentando entender o que aconteceria depois. Não havia promessas, declarações ou planos. Apenas duas pessoas que haviam encontrado uma companhia inesperada em uma noite particularmente difícil. Quando nos afastamos, Dante encostou a testa na minha. - Tem certeza? Sorri discretamente. - Tenho. Ele me beijou novamente. E, pela primeira vez naquela noite, não pensei na casa que havia deixado para trás. O segundo beijo foi mais profundo. A mão de Dante subiu até meu rosto, o polegar deslizando pela minha bochecha enquanto a outra mão descia pela minha cintura, puxando-me para mais perto. Eu sentei no sofá e ele se ajoelhou entre minhas pernas, ainda me beijando com aquela calma deliberada que parecia dizer que tínhamos a noite inteira. Quando se afastou um pouco, a respiração dele estava mais pesada. - Me avisa se quiser parar. - Não quero parar. Ele sorriu de canto, quase imperceptível, e me beijou de novo. Dessa vez as mãos dele entraram por baixo da camiseta larga que eu usava. Os dedos quentes deslizaram pela minha pele, subindo lentamente até encontrar meus seios. Eu soltei o ar contra a boca dele quando os polegares roçaram os mamilos, já endurecidos. Dante tirou a camiseta por cima da minha cabeça com cuidado. Fiquei sentada ali, nua da cintura para cima, e ele ficou olhando por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse memorizando. - Você é linda - murmurou, antes de baixar a cabeça e fechar a boca em um dos seios. O calor da língua dele me fez arquear as costas. Ele chupou devagar, alternando entre os dois, enquanto uma das mãos descia pelo meu estômago e entrava pelo cós do short. Os dedos dele encontraram a umidade entre minhas pernas e ele soltou um som baixo, quase um gemido, contra minha pele. - Já está tão molhada... Dois dedos deslizaram entre meus lábios, espalhando a umidade, e depois um deles entrou em mim. Eu agarrei o ombro dele, a respiração falhando. Ele começou a me foder com o dedo em um ritmo lento e profundo, o polegar fazendo círculos no clitóris. Quando adicionou o segundo dedo, minhas coxas tremeram. - Dante... - Shhh. Deixa eu cuidar de você. Ele me deitou no sofá, tirou o short e a calcinha de uma vez e abriu minhas pernas. Antes que eu pudesse me envergonhar, a boca dele desceu. A língua quente passou por toda a extensão da minha buceta, lenta, lambendo, sugando o clitóris com precisão. Eu soltei um gemido alto demais para o silêncio do quarto. As mãos dele seguravam minhas coxas abertas enquanto ele me comia com uma concentração quase devota. Quando o orgasmo veio, foi intenso e silencioso. Meu corpo tremeu sob a boca dele e eu enterrei os dedos nos cabelos escuros, segurando-o ali até a onda passar. Dante subiu pelo meu corpo, beijando a barriga, o peito, o pescoço. Eu o puxei para um beijo e senti o próprio gosto na boca dele. Minhas mãos desceram até a calça e eu abri o botão, puxando o zíper. A ereção dele pesava contra a cueca. Quando a tirei, o pau grosso e quente se apoiou contra a minha barriga. Eu o envolvi com a mão, sentindo a umidade na cabeça, e ele soltou um gemido rouco. - Quero você dentro de mim. Ele me olhou nos olhos. - Tem certeza absoluta? - Sim. Dante se levantou só o suficiente para tirar a própria camiseta e a calça. Ficamos nus um diante do outro. Ele me carregou até a cama, deitou-me no meio do colchão e se posicionou entre minhas pernas. A cabeça do pau dele roçou minha entrada, espalhando a umidade. Ele entrou devagar, centímetro por centímetro, me dando tempo para me adaptar ao tamanho. Quando estava completamente dentro, ambos ficamos parados por um segundo, respirando. - Meu Deus... - ele murmurou contra meu pescoço. Começou a se mover. Primeiro devagar, profundo, quase saindo todo antes de voltar a enterrar. Cada estocada me fazia soltar o ar. Eu envolvi as pernas na cintura dele, pedindo mais, e ele obedeceu. O ritmo aumentou. O som molhado dos nossos corpos se encontrando encheu o quarto junto com a respiração ofegante. Dante me virou de lado, levantou uma das minhas pernas e entrou de novo, mais fundo nessa posição. Uma das mãos dele desceu e começou a esfregar meu clitóris enquanto me fodia. O segundo orgasmo veio mais rápido, me apertando em volta do pau dele. Ele soltou um xingamento baixo e aumentou a força das estocadas, me fudendo com mais urgência agora. Quando sentiu que eu estava no limite de novo, me colocou de quatro. As mãos grandes seguraram minha cintura e ele entrou de uma vez, gemendo alto. Nessa posição ele ia mais fundo, batendo no ponto que me fazia ver estrelas. Eu enterrei o rosto no travesseiro para abafar os gemidos. Dante se curvou sobre mim, uma mão pegando meu seio, a outra descendo de novo para o clitóris. - Vem de novo pra mim - ordenou baixo, a voz rouca perto do meu ouvido. E eu vim. O corpo inteiro contraiu. Ele segurou meu quadril com força e gozou poucos segundos depois, enterrado fundo, o pau pulsando dentro de mim enquanto soltava gemidos curtos e profundos. Ficamos assim por um tempo, ele ainda dentro de mim, a respiração descompassada. Depois ele se retirou com cuidado, deitou ao meu lado e me puxou contra o peito. Os dedos dele desenhavam círculos preguiçosos nas minhas costas. Não falamos nada por vários minutos. Só a chuva lá fora e o coração dele batendo sob minha orelha. Mais tarde, ainda de madrugada, ele me beijou de novo. Dessa vez foi mais lento, mais preguiçoso. Me montou, me fez cavalgar nele enquanto segurava meus quadris, me olhando o tempo todo. Quando gozamos juntos pela segunda vez, eu desabei sobre o peito dele, exausta e satisfeita. Dormimos enroscados. Acordei com a claridade atravessando as cortinas. Por alguns segundos, não reconheci o lugar. Depois, senti o colchão macio, o perfume amadeirado e a presença de alguém deitado ao meu lado. Virei o rosto. Dante dormia de costas, com um braço sobre o travesseiro. Sem a expressão séria da noite anterior, parecia mais jovem. Fiquei observando seu rosto por alguns instantes. A noite havia acontecido de verdade. E, embora eu não soubesse o que pensar sobre aquilo, não me arrependia. Levantei cuidadosamente, procurando minhas roupas. Não queria acordá-lo. Encontrei meu vestido próximo à poltrona e comecei a me vestir. Depois, procurei minha bolsa e o celular. Havia uma mensagem de Marina perguntando se eu estava bem. Respondi rapidamente que sim e que explicaria tudo quando a encontrasse. Olhei para a cama mais uma vez. Dante ainda dormia. Pensei em acordá-lo, mas não sabia o que dizer. Não queria transformar aquela noite em uma promessa, nem fingir que poderíamos construir alguma coisa a partir de poucas horas. Eu precisava resolver minha vida. Aproximei-me da mesa de cabeceira para pegar meu carregador e deixei a bolsa cair. Algumas coisas se espalharam pelo chão. Recolhi tudo rapidamente, sem perceber que meu colar havia ficado próximo à cama. Era o único objeto que eu possuía da minha mãe biológica. Mas, naquele momento, minha cabeça estava ocupada demais. Peguei a mala, coloquei os sapatos e saí. Antes de fechar a porta, olhei uma última vez para o homem adormecido. - Obrigada, Dante - sussurrei. E fui embora. Mais tarde, Dante acordou. Estendeu a mão para o outro lado da cama e encontrou apenas o lençol vazio. Abriu os olhos. - Helena? Nenhuma resposta. Sentou-se lentamente, observando o quarto. Ela havia ido embora. Por alguns segundos, permaneceu imóvel. Depois, levantou-se e procurou o celular. Não tinha o número dela. Não sabia seu sobrenome. Não sabia onde trabalhava exatamente, nem onde poderia encontrá-la. Sabia apenas seu primeiro nome e algumas pequenas coisas que ela havia contado durante a noite. Dante soltou o ar, frustrado. Foi quando percebeu um pequeno objeto próximo à mesa de cabeceira. Abaixou-se e o recolheu. Um colar de prata, com um pingente em formato de estrela e uma pedra azul no centro. Ele o observou por alguns instantes. - Helena... Guardou o colar na gaveta. Não fazia ideia de que aquele pequeno objeto seria a única pista que teria para reencontrá-la. Muito menos que, quatro anos depois, aquela mulher voltaria à sua vida trazendo consigo uma criança que tinha seus olhos. E que, quando descobrisse a verdade, já seria tarde demais para fingir que aquela noite não havia mudado tudo.

Capítulo 3 O QUE EU DEIXEI PARA TRÁS

Helena - Dizem que ir embora é a parte mais difícil. Não é verdade. A parte mais difícil é acordar no dia seguinte e perceber que você realmente não tem para onde voltar. Fazia seis dias desde que deixei a casa dos meus pais adotivos. Seis dias desde que conheci Dante. E seis dias desde que acordei naquela suíte, recolhi minhas coisas e desapareci antes que ele pudesse abrir os olhos. Eu ainda pensava nele. Não o tempo inteiro, é claro.

Tinha coisas mais importantes para resolver, como encontrar um lugar para morar, conseguir dinheiro e descobrir como construir uma vida sem depender de ninguém. Mas, às vezes, quando estava sozinha, lembrava da maneira como ele pronunciava meu nome. Era ridículo. Eu mal conhecia aquele homem. - Você está me ouvindo? Piscar algumas vezes foi suficiente para perceber que Marina estava me encarando havia algum tempo. - Estou. - Então o que eu acabei de perguntar? Olhei para ela. Estávamos sentadas à mesa da cozinha, dividindo uma torrada e duas xícaras de café. Marina havia insistido para que eu passasse alguns dias em sua casa até conseguir encontrar um lugar próprio. - Não sei. Ela cruzou os braços. - Você está apaixonada? Quase engasguei com o café. - O quê? - Está apaixonada. É a única explicação para essa cara de quem está vivendo dentro de um clipe romântico. - Marina! Ela começou a rir. - Está bem, está bem. Não precisa ficar vermelha. - Não estou vermelha. - Está praticamente da cor do seu café. Revirei os olhos. Eu não pretendia contar sobre Dante. Não porque tivesse vergonha, mas porque nem eu mesma sabia o que aquela noite significava. Foi uma escolha impulsiva. Uma noite inesperada. Uma lembrança que provavelmente deveria permanecer exatamente onde estava. - Só conheci uma pessoa - admiti. Marina ergueu as sobrancelhas. - Uma pessoa? - Um homem. - Ah! - Não começa. - Eu nem falei nada! - Seu rosto falou. Ela apoiou o queixo na mão. - E ele é bonito? Fiquei alguns segundos em silêncio. Então sorri. - Infelizmente. Marina soltou uma gargalhada. - Quero conhecer esse homem. - Não vai acontecer. - Por quê? Olhei para minha xícara. - Porque provavelmente nunca mais vou vê-lo. E, naquele momento, eu realmente acreditava nisso. Conseguir um emprego não foi tão simples quanto imaginei. A livraria onde trabalhava ficava perto da antiga casa, e eu não queria correr o risco de encontrar Cecília ou Isabela por lá. Por isso, decidi procurar oportunidades em outros bairros. Passei duas manhãs entregando currículos, preenchendo formulários e ouvindo que entrariam em contato. Na terceira tentativa, consegui uma entrevista em uma pequena cafeteria. O proprietário era um senhor chamado Roberto, que procurava alguém para trabalhar no atendimento e ajudar na organização do estabelecimento. A entrevista durou menos de quinze minutos. - Você tem experiência? - Já trabalhei em uma livraria. Também tenho facilidade para lidar com clientes. Ele examinou meu currículo. - Pode começar amanhã? Demorei um segundo para responder. - Posso. - Ótimo. O horário é das oito às cinco. O salário não é maravilhoso, mas pagamos corretamente e oferecemos almoço. Quase sorri de alívio. - Está perfeito. Saí dali segurando meu currículo com as duas mãos. Era apenas um emprego em uma cafeteria pequena, mas significava alguma coisa. Eu estava começando a construir minha própria vida. E ninguém poderia tirar aquilo de mim. Naquela mesma tarde, enquanto organizava minhas poucas roupas no quarto de hóspedes, encontrei a caixa de madeira que havia levado comigo. Abri a tampa. Dentro estavam algumas fotografias antigas, documentos da adoção e uma pequena pulseira de identificação que me acompanhava desde o abrigo. Fiquei olhando para os documentos por um tempo. Havia poucas informações sobre minha origem. Minha mãe biológica não tinha deixado um endereço, um sobrenome completo ou qualquer coisa que me permitisse procurá-la. A única lembrança realmente importante era o colar. Ou, pelo menos, costumava ser. Levei a mão ao pescoço. Parei. Olhei novamente. O colar não estava ali. Revirei a caixa, os bolsos da bolsa e todas as gavetas onde poderia tê-lo guardado. Nada. Meu coração começou a acelerar. - Não, não, não... Abri a mala novamente. Tirei as roupas, examinei os bolsos e até procurei dentro dos sapatos. Não estava. Sentei no chão, sentindo os olhos arderem. O colar. Eu havia perdido o único objeto que tinha da minha mãe biológica. Fechei os olhos e tentei me lembrar da última vez que o havia visto. A suíte. A mesa de cabeceira. Dante. Meu estômago se contraiu. O colar provavelmente estava naquele hotel. E, se alguém o tivesse encontrado, talvez estivesse com ele. Pensei em ligar para a recepção, mas não sabia exatamente o que dizer. Não queria fornecer informações pessoais, muito menos explicar que havia passado a noite com um desconhecido e ido embora sem me despedir. Além disso, não tinha certeza se conseguiria falar com Dante. Acabei desistindo. Talvez alguém tivesse encontrado o objeto e guardado nos achados e perdidos. Talvez eu conseguisse recuperá-lo algum dia. Mas, naquele momento, precisava continuar. Guardei os documentos e fechei a caixa. Não podia permitir que uma lembrança do passado impedisse minha vida de seguir em frente. O primeiro dia na cafeteria foi cansativo. Passei horas em pé, atendendo clientes, preparando pedidos e aprendendo a utilizar a máquina de café. Roberto era exigente, mas educado. Não gritava quando eu cometia erros e explicava novamente quando alguma coisa não saía como deveria. Aquilo parecia tão simples que quase me emocionei. No fim do expediente, Marina apareceu para me buscar. - Então, funcionária do mês, como foi? - Acho que meus pés vão pedir demissão antes de mim. Ela riu. - Você vai se acostumar. - Espero. Caminhamos até o carro. - Ah, esqueci de contar. Minha prima vai viajar no próximo mês e está alugando o apartamento dela por um preço bem baixo. Olhei para Marina. - Sério? - Sim. É pequeno, mas tem um quarto, cozinha e banheiro. Fica perto daqui. Meu rosto se iluminou. - Você acha que ela aceitaria alugar para mim? - Já perguntei. Ela disse que sim. Parei de andar e abracei minha amiga. - Marina... - Não precisa agradecer. - Preciso, sim. Ela apertou meus ombros. - Só promete que não vai desistir de você mesma. Engoli em seco. - Prometo. Duas semanas se passaram. Aos poucos, comecei a encontrar algum equilíbrio. Trabalhava durante o dia, ajudava Marina com as despesas da casa e economizava cada centavo que conseguia. O apartamento da prima dela ficaria disponível em breve, e eu estava animada com a possibilidade de finalmente ter um espaço só meu. Também parei de olhar para o celular esperando alguma mensagem. Dante não tinha meu número. Não sabia onde eu morava. E provavelmente nem se lembrava de mim com a mesma intensidade com que eu me lembrava dele. Ou era o que eu dizia a mim mesma. Naquela sexta-feira, quando cheguei em casa, encontrei Marina preparando o jantar. - Você está pálida. Deixei a bolsa sobre a cadeira. - Estou cansada. - Está comendo direito? - Estou. Ela me observou por alguns segundos. - Tem certeza? Assenti e fui até a cozinha. Mas, quando senti o cheiro da comida, meu estômago se revirou. Levei a mão à boca e corri para o banheiro. Marina veio atrás de mim. - Helena? Ajoelhei diante do vaso sanitário, esperando a náusea passar. - Acho que comi alguma coisa estragada. Ela segurou meus cabelos. - Você está assim desde quando? - Não sei. Hoje foi pior. Quando finalmente consegui levantar, lavei o rosto e encarei meu reflexo. Estava realmente pálida. - Você precisa descansar. - Amanhã estou de folga. Marina ficou em silêncio por um instante. Depois perguntou: - Sua menstruação veio este mês? A pergunta pareceu completamente deslocada. Franzi a testa. - O quê? - Sua menstruação, Helena. Fiquei olhando para ela. Tentei lembrar. O mês anterior havia sido complicado. Eu estava trabalhando, procurando lugar para morar e tentando resolver os problemas com minha família. Minha cabeça estava cheia demais para prestar atenção no calendário. - Acho que não. Marina arregalou os olhos. - Como assim, acha? Senti um desconforto estranho no estômago. - Não sei exatamente quando deveria vir. Ela não disse nada por alguns segundos. Então respirou fundo. - Helena, você precisa fazer um teste. Meu coração pareceu parar. Eu sabia o que ela estava insinuando. Sabia exatamente o que aquela possibilidade significava. Mas não queria pensar nisso. Não naquela noite. - Não pode ser. Marina segurou minha mão. - Eu não estou dizendo que é. Só acho melhor descobrir. Afastei-me um pouco. - Foi uma vez, Marina. Ela não respondeu. Uma vez. Uma única noite. Uma decisão que, naquele momento, parecia distante demais para ter consequências. Sentei na beirada da banheira e apoiei as mãos sobre os joelhos. Lembrei de Dante. Do rosto dele quando sorria. Do quarto iluminado pelas luzes da cidade. E da manhã em que fui embora sem sequer acordá-lo. - Eu não posso estar grávida - murmurei. Marina se ajoelhou diante de mim. - Primeiro vamos descobrir. Depois pensamos no resto. Assenti, embora minhas mãos estivessem tremendo. Naquela noite, quase não consegui dormir. Fiquei olhando para o teto, tentando calcular datas, lembrar detalhes e encontrar alguma explicação que não envolvesse a possibilidade de uma gravidez. Mas havia uma lembrança que insistia em voltar. Aquela noite no hotel. E o homem que eu havia deixado para trás. Na manhã seguinte, Marina apareceu na porta do quarto segurando uma pequena sacola de farmácia. Olhei para ela. Depois para a sacola. - Você comprou? Ela assentiu. - Dois testes. Para não ficar nenhuma dúvida. Meu coração disparou. Levantei devagar. Peguei a sacola de suas mãos e fui até o banheiro. Fechei a porta. O silêncio parecia ensurdecedor. Retirei a caixa da sacola, li as instruções e respirei fundo. Eu nunca havia sentido tanto medo de duas pequenas linhas. Coloquei o teste sobre a pia. Esperei. Um minuto. Dois. Três. Quando finalmente olhei, senti minhas pernas perderem a força. Duas linhas. Fiquei imóvel. Não chorei imediatamente. Não gritei. Não consegui sequer respirar direito. Apenas olhei para aquele pequeno objeto, tentando convencer meu cérebro de que estava interpretando tudo errado. Mas não estava. Eu estava grávida. E o pai era um homem cujo sobrenome eu nem sequer conhecia.

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