O som monótono do monitor cardíaco foi a trilha sonora da minha vida por três longos anos, enquanto eu, Pedro, um jogador de futebol no auge da minha carreira, desistia de tudo para cuidar da Sofia, o amor da minha vida, em coma após um acidente.
Meu mundo desabou quando, ao ver os olhos dela se abrirem, fui recebido por um tapa violento e a voz dela, fria e cruel: "Três anos fingindo ser um vegetal para roubar o seu talento. Você não tem ideia de como foi entediante."
Ela revelou que o coma era uma farsa para tomar meu "sistema", o poder sobrenatural que me conectava ao futebol, mas que me punia com dor excruciante a cada traição dela – uma dor que explodiu no meu peito naquele instante.
A humilhação foi completa ao ver Lucas, meu rival, emergir do quarto para beijá-la na minha frente, confirmando que tudo era um plano deles, incluindo as constantes traições que me castigavam.
De joelhos, na mais profunda agonia e traição, a voz fria do sistema surgiu na minha mente, não como uma maldição, mas como uma salvação: a transferência era possível, e eu, o tolo, finalmente tinha um plano.
O som monótono do monitor cardíaco era a trilha sonora da minha vida há três anos. Três anos sentado ao lado da cama de hospital, segurando a mão de Sofia, a mulher que eu acreditava ser o amor da minha vida.
Ela estava em coma desde um acidente de carro. Os médicos disseram que as chances eram mínimas, mas eu nunca desisti. Abandonei minha carreira promissora no futebol no auge, ignorei contratos milionários e me dediquei a cuidar dela.
Eu lia para ela, contava sobre meu dia, sobre como sentia falta do seu sorriso. Eu acreditava que ela podia me ouvir. Acreditava que nosso amor era forte o suficiente para trazê-la de volta.
Hoje, algo mudou.
Os dedos dela se mexeram na minha mão.
Meu coração disparou.
"Sofia?", chamei, a voz trêmula de esperança.
Os olhos dela se abriram lentamente. Focaram em mim. Um alívio imenso percorreu meu corpo, tão forte que me deixou tonto. Ela estava de volta.
"Sofia, você acordou! Eu sabia!", eu disse, chorando de felicidade.
Inclinei-me para beijar sua testa, mas fui recebido por um tapa forte no rosto.
O estalo ecoou no silêncio do quarto.
Eu cambaleei para trás, a mão na minha bochecha ardendo, o choque congelando cada músculo do meu corpo.
"O quê...?"
Sofia se sentou na cama com uma agilidade que alguém em coma por três anos não deveria ter. Não havia fraqueza em seus movimentos, apenas uma força fria e calculada. O olhar dela, antes cheio de amor, agora era puro desprezo.
"Finalmente", ela disse, a voz rouca, mas firme. "Três anos. Três anos fingindo ser um vegetal para roubar o seu talento. Você não tem ideia de como foi entediante."
As palavras dela me atingiram como socos.
Fingindo?
Roubar meu talento?
"Do que você está falando, Sofia? Você estava em coma..."
Ela riu, um som cruel que não pertencia ao rosto que eu tanto amava.
"Coma? Ah, Pedro. Sempre tão ingênuo. O acidente foi real, mas a recuperação foi rápida. O coma foi a minha obra-prima. Uma chance de ouro para pegar o que é seu por direito."
Ela se referia ao meu segredo. A "entidade", o sistema que me foi dado. Um poder que me conectava ao futebol de uma forma sobrenatural. Cada gol que eu marcava, eu era recompensado. Mas a condição era cruel: a lealdade de Sofia. Cada falha de amor, cada traição dela, me trazia uma punição física excruciante. Eu contei a ela, em um momento de fraqueza e confiança absoluta, acreditando que nosso amor era a minha maior fortaleza.
Naquele momento, enquanto a verdade me esmagava, uma dor lancinante explodiu no meu peito.
Era a punição.
"Argh!"
Caí de joelhos, agarrando meu peito. Era como se mil agulhas estivessem perfurando meu coração ao mesmo tempo. O ar não entrava nos meus pulmões. Meu corpo inteiro começou a convulsionar.
Sofia me observava do alto da cama, com uma curiosidade clínica, sem um pingo de compaixão.
"Então é isso que acontece", ela murmurou para si mesma. "Interessante. A punição pela traição. Você está sentindo agora, não é? A dor de eu nunca ter te amado."
A porta do quarto se abriu.
Lucas entrou. Meu rival de infância, o jogador que sempre viveu à minha sombra, consumido pela inveja. Ele caminhou até a cama e beijou Sofia longamente, bem na minha frente.
"Parece que o nosso pequeno gênio do futebol não está se sentindo muito bem", disse Lucas, com um sorriso vitorioso.
Ele estava nisso também. Os dois. Tudo foi um plano.
"Você...", consegui sussurrar, a dor me roubando a voz.
"Nós", corrigiu Sofia, passando os braços pelo pescoço de Lucas. "Planejamos tudo. O acidente foi um imprevisto, mas um imprevisto útil. Deu-nos a desculpa perfeita. Enquanto você, o tolo apaixonado, abandonava tudo para cuidar de mim, nós preparávamos o terreno para tomar o seu sistema."
A dor se intensificou, uma nova onda me atingindo. Lembrei-me das noites em claro, das minhas mãos calejadas de tanto massagear os pés dela para evitar atrofia. Lembrei-me de vender meu carro, minhas medalhas, tudo para pagar pelo melhor tratamento. Lembrei-me de sussurrar "eu te amo" para o seu corpo imóvel, acreditando que ela era meu tudo.
Cada memória era agora uma faca envenenada.
"Por quê?", gritei, mais para mim mesmo do que para eles.
Lucas se agachou na minha frente, seu rosto a centímetros do meu. O cheiro de seu perfume caro me enjoava.
"Por quê? Porque você não merece, Pedro. Você nasceu com tudo. O talento, a fama, o amor. Enquanto eu tive que lutar por cada migalha. Agora, é a minha vez. E a vez da Sofia."
Eu estava quebrado. Física e emocionalmente. Deitado no chão frio do hospital, eu via o amor da minha vida nos braços do meu maior inimigo, ambos rindo da minha desgraça. Meu corpo era uma prisão de dor, e minha alma, um vazio de traição.
Não havia mais nada. Eles tinham levado tudo.
Mas em meio à agonia, um pensamento surgiu. O sistema. A entidade que me punia também me obedecia. Se ela podia ser tirada de mim, talvez... talvez eu pudesse me livrar dela.
Eu precisava sair dali. Precisava me libertar dessa dor, desse amor, dessa vida. E precisava garantir que eles pagassem.
Com o último pingo de força que me restava, olhei para eles. O ódio começou a queimar mais forte que a dor.
Eles iriam se arrepender.
A dor pulsava em cada fibra do meu ser, mas a raiva era um fogo que me mantinha consciente. Eu estava no chão, um trapo humano, enquanto Sofia e Lucas comemoravam a vitória deles.
"O sistema vai ser meu", disse Lucas, os olhos brilhando de cobiça. "Vou ser o maior jogador que o mundo já viu."
"Nós seremos", corrigiu Sofia, beijando-o novamente. "Juntos, seremos imbatíveis."
Eles falavam sobre o meu poder como se fosse um troféu a ser conquistado. Para eles, era apenas uma ferramenta para a glória. Eles não faziam ideia do inferno que era ser o hospedeiro.
Com a mente turva de dor, concentrei-me em um único pensamento. Uma pergunta desesperada para a entidade que vivia dentro de mim.
Sistema, é possível transferir o vínculo?
Uma voz mecânica e sem emoção respondeu dentro da minha cabeça, clara como cristal em meio ao caos da minha dor.
`[Confirmação de solicitação. A transferência de hospedeiro é possível. Requer consentimento do hospedeiro atual e aceitação voluntária dos novos hospedeiros.]`
Uma fagulha de esperança.
Eu consinto. Eu quero transferir o sistema para eles. Para os dois.
`[Processando solicitação. Novos hospedeiros detectados: Sofia e Lucas. Ambos demonstram forte desejo pelo sistema. A transferência pode ser iniciada.]`
Sofia e Lucas pararam de se beijar, olhando para mim com desprezo. Eles não ouviam a voz, mas pareciam sentir uma mudança no ar.
"O que ele está fazendo?", perguntou Lucas, desconfiado.
"Provavelmente rezando", zombou Sofia. "Não adianta, Pedro. Seu tempo acabou."
Então, a voz do sistema soou, não apenas na minha cabeça, mas em voz alta no quarto. Fria, impessoal, divina.
`[Atenção, Sofia. Atenção, Lucas. Vocês foram selecionados como novos hospedeiros para o Sistema de Conquista do Futebol.]`
Os dois congelaram. Seus rostos passaram de arrogância para choque puro.
"O quê? Como?", gaguejou Lucas.
Sofia, sempre mais rápida, entendeu. Um sorriso malicioso se espalhou por seus lábios.
"Ele está desistindo. O idiota está nos dando o sistema!"
`[O sistema vincula o sucesso no futebol ao amor e à lealdade de um parceiro escolhido. O hospedeiro deve escolher um 'Objeto de Conquista'. Cada gol marcado traz recompensas. Cada ato de traição do Objeto de Conquista resulta em punição física severa para o hospedeiro.]`
Lucas olhou para Sofia, a ambição superando qualquer resquício de cautela.
"Isso é perfeito! Eu serei o hospedeiro, e você, meu amor, será meu Objeto de Conquista. Nós nunca vamos trair um ao outro."
Sofia franziu a testa.
"Por que você deveria ser o único hospedeiro? Eu também quero o poder. Eu planejei isso por três anos!"
`[O sistema pode ser dividido entre dois hospedeiros. Hospedeiro 1: Lucas. Hospedeiro 2: Sofia. Ambos devem selecionar um Objeto de Conquista. Para maximizar as recompensas e minimizar as punições, recomenda-se que cada hospedeiro escolha o outro como seu objeto.]`
A ganância em seus olhos era palpável. Eles nem hesitaram.
"Eu aceito!", disse Lucas imediatamente. "Eu escolho a Sofia como meu Objeto de Conquista."
"Eu também aceito!", disse Sofia, sorrindo para Lucas. "Eu escolho o Lucas como meu Objeto de Conquista. Nós seremos o casal mais poderoso do mundo do futebol."
Eles se beijaram, selando o pacto. Um pacto que eles pensavam ser o início de sua glória, mas que eu sabia ser o início de sua condenação. Eles não entendiam a natureza da punição. Não entendiam o que era sentir seu corpo ser dilacerado porque a pessoa que você ama sorriu para outra pessoa. Eles, em sua ambição desmedida, estavam se acorrentando a uma eternidade de dor mútua.
`[Confirmação recebida. A transferência será iniciada. Tempo estimado para a conclusão: 24 horas. Durante este período, as punições do hospedeiro original, Pedro, serão suspensas. A condição física do hospedeiro original será temporariamente restaurada para facilitar a transição.]`
No instante em que a voz terminou, a dor excruciante que me atormentava desapareceu.
Simplesmente sumiu.
Eu respirei fundo, o ar enchendo meus pulmões pela primeira vez em minutos. A força voltou aos meus membros. Meus músculos, antes contraídos em agonia, relaxaram.
Levantei-me lentamente, meu corpo ainda dolorido, mas livre.
Sofia e Lucas me olharam, surpresos com minha recuperação repentina.
"Olha só", disse Lucas, com uma risada forçada. "O sistema já está funcionando. Ele se curou!"
"Claro que sim, amor", disse Sofia, abraçando-o. "É o nosso poder agora. Ele não é mais nada. Apenas um ex-jogador fracassado."
Eles estavam errados. O sistema não os estava curando. Estava me libertando. Deu-me 24 horas. 24 horas para me despedir, para acertar minhas contas.
E para ver o começo do fim deles.
Olhei para o casal feliz e ambicioso à minha frente. Eles não viam o monstro que haviam acabado de convidar para suas vidas. Mas eu via. E pela primeira vez em três anos, um sorriso genuíno tocou meus lábios. Um sorriso frio, cheio de promessas.
O jogo estava apenas começando. E desta vez, eu não era mais um jogador. Eu era o espectador. E mal podia esperar para assistir.