Olho mais uma vez minhas anotações na agenda.
- Ele saiu!
Betina diz ao meu lado e meus olhos desviam da agenda, para a frente do prédio onde fica a empresa mais poderosa de Seattle.
- Ele vive cercado de seguranças?
- Sim!
Respondo sem desviar minha atenção. Não posso perder nada da vida do quinto homem mais rico do mundo.
- São oito homens na segurança intensa e mais vinte divididos entre empresa e casa. Fora os seguranças básicos da empresa e casa.
- Meu Deus!
Betina diz espantada.
- Por que ele?
Paul Banks entra no carro e seus seguranças se espalham entre o carro onde entrou e mais dois. Uma na frente e outro atrás.
- Porque é o golpe perfeito.
- Renata, você nunca fez isso antes. É seu primeiro golpe e quer logo o mais foda de todos?
- Vai ser o único e último. Vou tirar tudo do poderoso Banks e desaparecer. Ninguém nunca mais vai me ver e vou viver do dinheiro dele.
- Renata, primeiro tenta um golpe simples. Você pode acabar se ferrando muito nesse.
- Não! Eu quero o Paul Banks.
O carro com o meu alvo começa a se mover e ligo meu carro. Sei o caminho que vai fazer. Ele faz sempre o mesmo percurso as sextas, após o trabalho. O velho safado tem uma amante e se encontra sempre com ela as sextas. Soraia Willians vive de uma bela pensão dada por ele em uma cobertura perto daqui. Não preciso seguir o carro tão perto, já que sei seu destino.
- Quanto tempo faz que estuda os passos dele?
- Seis meses.
- Onde ele vai agora?
- Casa da amante.
- E você acha mesmo que ele vai te querer, tendo uma mulher e uma amante?
- Paul Banks é ambicioso. Ele sempre quer mais.
- Como vai fazer para se aproximar?
- Tenho um plano. Amanhã a noite é a festa de comemoração de vinte anos de sua empresa.
- Você vai na festa?
- Sim! Consegui um convite.
- Vai se aproximar dele?
- Não!
Paro o carro perto do prédio da amante dele e o vejo sair do carro usando chapéu e óculos para não ser reconhecido. Dois seguranças se unem a ele e os outros seguem com os carros para o estacionamento subsolo.
- Qual o plano?
- Sei toda a rotina dele. Na festa o farei me notar e me desejar, mas não darei bola. Ele tem que me desejar e vir atrás após a festa. Se isso acontecer, terei certeza que meu plano começou a dar certo.
- Espero que nada aconteça de errado.
- Não vai! Tenho tudo muito bem planejado. Inclusive possíveis caminhos paralelos se o plano principal der errado.
- Então só me resta te desejar boa sorte e fazer a parte que me cabe.
- Não esqueça de nada do que te pedi.
- Não esquecerei.
*************
Desço do meu carro luxuoso, em frente ao grande evento da empresa do Sr. Banks. Tem fotógrafos para todos os lados. Arrumo meu vestido e tento de todas as formas parecer divina e sexy. Posso notar a curiosidade dos fotógrafos ao me verem. Carro luxuoso e mulher sexy são sempre motivo de curiosidade. Vejo na entrada do evento seis seguranças de média confiança do Sr. Banks. Ele já deve estar no evento com sua esposa Aurora. Talvez seja interessante me tornar amiga dela. Pelo que sei, ela nem sonha que Soraia existe. Subo a pequena escada que dá acesso à entrada e sou fotografada de todos os lados. Paro em frente a porta e entrego meu convite. A mulher de terninho preto e um batom extremamente vermelho sorri ao me ver.
- Srta. Montreal!
Odiei o sobrenome que Betina me arranjou. Vivian Montreal é um péssimo nome, mas terei que atender por ele por um bom tempo. Renata Schneider não existirá para Paul Banks. Assim poderei fugir sem problemas.
- Pode entrar!
- Obrigada!
Dou um pequeno sorriso e sigo para dentro, sem parecer nervosa, mesmo tremendo por dentro. Preciso me manter segura ou tudo vai dar merda. Um garçom passa por mim e sorri de forma sensual.
- Champagne?
- Obrigada!
Pego uma taça e a seguro delicadamente, percorrendo com meus olhos a festa. Muitos homens ricos com suas mulheres troféus. Incluindo o meu alvo. Aurora parece infeliz ao lado de Banks, enquanto ele sorri para seus amigos escrotos, puxa sacos. Desvio meus olhos quando um dos seguranças me olha. Ando pela festa e paro em um balcão, deixando minha taça pela metade de bebida. Não posso beber e perder o foco. Pego um canapé e sem olhar fixamente, percebo que Aurora se afastou para ir ao banheiro. Hora de me tornar amiga dela. Finjo que mexo em minha bolsa e me direciono ao banheiro. Passo por um segurança exclusivo dela e entro no banheiro. Paro de andar ao vê-la chorando em frente ao espelho. Nossos olhos se cruzam no espelho.
- Me desculpe! Quer que eu...
Aponto para a porta e ela nega com a cabeça.
- Tudo bem! Limpa delicadamente algumas lágrimas, com uma elegância única.
- Só não estou em um dia bom.
Tiro de minha bolsa um lenço e me aproximo, entregando a ela.
- Sou Vivian!
- Acho que sabe quem eu sou!
Sorri com uma tristeza da alma.
- Não sei! Sou nova em Seattle.
Seu sorriso agora é de humor.
- Jura que não me conhece?
- Juro.
Se vira para mim e estende a mão.
- Aurora!
- Muito prazer.
Não me disse seu sobrenome e imagino que seja para evitar ser mais uma mulher lambendo a esposa do poderoso Banks.
- A festa não te agrada?
Ela começa a rir.
- Não! Pode parecer uma festa maravilhosa, mas as pessoas lá dentro são podres.
- Problema de ego?
- Muito!
- Quer fugir daqui? Podemos conversar em um restaurante, bar, onde desejar.
- Seria meu sonho, mas não posso.
Abre sua bolsa e tira de dentro um cartão.
- Me ligue amanhã, Vivian! Vamos marcar algo e quem sabe não seja uma amiga que realmente preciso.
- Se puder ser sua amiga, seria maravilhoso. Digamos que estou sozinha em Seattle.
- Me ligue para marcarmos algo. Agora preciso ir!
Revira os olhos e nós duas rimos.
- Tente se divertir.
Diz antes de sair.
- Você também!
Quando me encontro sozinha no banheiro, tenho vontade de dançar de tanta felicidade. Aurora pode ser minha ligação com o Banks. Tenho pena da coitada por ser casada com aquilo. Mas meu plano continua. Uma bela aproximação eu diria. Agora só preciso que Banks me veja. Saio do banheiro e volto a andar pela festa. Arranco olhares de muitos homens, mas não de quem eu desejo arrancar. Decido seguir para a varanda em busca de ar e pensar em um plano extra. Me apoio na grade de ferro e observo Seattle.
- Com licença!
Viro apenas minha cabeça e vejo o segurança mais importante de Banks. O seu homem de confiança. Fábio Belini é um homem solitário, com treinamento militar e severamente cuidadoso. Nada passa por ele, quando o assunto é Paul Banks. Vem se aproximando e volto a olhar Seattle.
- O Sr. Banks quer que se junte a ele e sua mulher no jantar.
Isso! Meu plano deu certo! Aurora deve ter falado de mim e isso me rendeu um convite.
- Diga ao Sr. Banks que agradeço o convite, mas não me juntarei a ele no jantar.
Fábio se apoia no ferro da grade.
- Srta. Montreal, imagino que tenha entendido errado. Não foi um convite...
Me viro e ficamos frente a frente. Ele já procurou saber sobre mim com seus amigos da polícia. Ele é rápido.
- Não me lembro de ter me apresentado? Como sabe quem sou?
- Eu sei de tudo.
Começo a rir.
- Já que sabe de tudo, deve saber que não recebo ordens. Repasse isso ao seu chefe.
Pisco e quando vou me afastar, ele segura meu braço.
- Vivian Montreal, 28 anos, solteira, sem conta bancária, sem emprego fixo, sem familiares vivos e com endereço provisório há duas quadras daqui.
- Uau!
Digo fingindo estar impressionada.
- Está tão interessado em mim que em pouco tempo, conseguiu minha ficha toda?
- Você não faz o meu tipo.
Puxo meu braço de seu aperto e sei que levantou tudo isso porque seu chefe está interessado.
- Que bom!
Desço meus olhos por seu corpo e volto a subir para seu rosto. Ele é alto, forte, cabelo castanho cortado de forma perfeita, barba rala, lábios medianos, nariz fino e olhos que ainda não decifrei a cor.
- Você também não faz meu tipo.
- Homem rico é o seu tipo?
Pergunta debochado.
- Inteligente seria o meu tipo.
Estreita os olhos para mim e vejo um pequeno sorriso no canto de sua boca.
- Agora preciso ir! Boa sorte com seu chefe ao lhe dizer que não conseguiu nada comigo.
Vou andando em direção a porta da varanda.
- Tudo que o Sr. Banks quer, ele tem!
Grita e isso era exatamente o que eu queria ouvir. Que comecem os jogos.
DOIS DIAS DEPOIS
Saio do banho e coloco meu pijama. Minha mente não parou um minuto se quer, desde que sai daquela festa há dois dias atrás. Não cheguei perto de Banks, mas me aproximei de Aurora. Talvez tenha que mudar a direção do plano para alcançar o que quero. Me tornar primeiro amiga de quem possui todo o dinheiro pode ser mais fácil, afinal ele já tem Soraia como amante. Se bem que nada o impede de ter duas amantes e me colocar como sua conquista.
Isso pode ser interessante. Me daria mais tempo para conseguir acessos e senhas. Esse homem não se ligaria a mim o tempo, tendo que se dividir entre mulher, trabalho e duas amantes. Encaro a cafeteira que começa a fazer o café, com minha mente ainda trabalhando. O interfone toca e fico o encarando. Ninguém sabe que moro aqui. A ideia era apenas Banks saber desse endereço.
Abro um pequeno sorriso, pois sei muito bem quem veio me ver. Parece que não aguentou esperar minha próxima aparição. Peguei o bilionário de jeito. Encaro meu pijama confortável e não acho que seja uma boa opção para recebê-lo. Deixo o interfone tocando e corro para o quarto. Tiro meu pijama e coloco apenas meu roupão. O interfone parou de tocar e espero que não tenha desistido. Corro para a cozinha e espero tocar novamente, o que não acontece. Respiro fundo, talvez tenha sido o apartamento por engano, não era o meu a ser interfonado. Coloco café em minha xícara e antes que consiga tomar um gole do meu café, minha campainha toca.
Abro um enorme sorriso, pois não era engano. Sr. Banks deve ter subornado o porteiro para subir. Arrumo meu cabelo, ainda molhado do banho e abro um pouco o roupão. Agora temos batidas na porta e imagino que esteja impaciente. Caminho até a porta e a destranco. Giro a maçaneta e a porta se abre. Não vejo quem esperava, mas ainda há esperança. Encaro Fábio seu homem de confiança, com um enorme sorriso.
- Deseja algo?
- Eu não, mas meu chefe sim.
Passa por mim, empurrando meu ombro e entra em meu apartamento. Contenho o sorriso que quer crescer em meu rosto. Homens são tão previsíveis. Banks não veio pessoalmente, pois é um homem bem conhecido. Mas mandou seu faz tudo me cercar. Isso pode ser interessante. Fecho a porta e me viro para ele.
- Não lembro de lhe convidar para entrar!
Digo cruzando meus braços e encostando na porta. Fábio observa todo o meu apartamento.
- Mora sozinha?
Não lhe respondo e recebo um olhar intenso. Ergo minha sobrancelha, demonstrando que não recuo com sua cara de mau.
- Responde!
- Não tinha nada na ficha que levantou sobre mim?
- Sua ficha é simples e pequena demais para o meu gosto.
- Sou uma boa garota.
Dou de ombros com um enorme sorriso.
- Acho que isso está te deixando louco.
Vem andando em minha direção e me mantenho firme. Sei que vai me intimidar. Diferente da minha ficha seca e falsa, que Betina deixou visível no sistema da polícia, tenho a ficha completa de Fábio Belini. Um homem extremamente grosseiro, focado em seu trabalho e perito em torturar e arrancar informações das pessoas. Tinha o apelido de anjo da morte no exército, porque seus inimigos temiam morrer em suas mãos.
- Não adianta esconder seu rastro e seu cheiro.
- Cheiro?
Pergunto rindo.
- Sim!
Para na minha frente, com o corpo colado ao meu.
- Sinto cheiro de gente safada.
- Consegue sentir o cheiro da minha ovulação e quando estou sexualmente ativa? Estou impressionada.
Segura o sorriso que quer crescer em seus lábios.
- Não é esse tipo de safadeza.
- Que tipo seria?
- Safada do tipo de gente que se aproxima dos outros por dinheiro, por interesse.
Seus olhos analisam meu rosto.
- Sinto seu cheiro de longe.
Viro meu rosto e tombo minha cabeça.
- Tem certeza que é esse o cheiro que sente. Devia cheirar mais de perto.
Provoco e sou surpreendida por seu nariz percorrendo meu pescoço, sentindo meu cheiro. Meu corpo arrepia todo e contenho o gemido que fica preso em minha garganta. Seu nariz para perto do meu ouvido.
- Cheiro de quem não presta.
Sussurra em meu ouvido e sua boca toca a pele do meu pescoço, queimando meu corpo. Ele sabe ser sensual e mexer com o corpo de uma mulher. O anjo da morte está sendo anjo sedutor comigo. Seu plano é me quebrar com seu joguinho de sedução.
- Engraçado!
Toco seu peito e deslizo minha mão para dentro de seu terno, de forma sensual. Minha boca também está perto de seu ouvido.
- Jurava que tinha o doce cheiro de maçã.
Suspiro soltando ar quente na pele de seu pescoço, sabendo que seu corpo arrepia. Seguro firme o tecido de sua camisa.
- Acho que vou voltar a loja onde comprei meu creme e dizer que erraram no cheiro do creme. Cheiro de quem não presta não é o meu favorito.
Assopro em seu pescoço e o escuto suspirar.
- Prefiro cheiro de sexo ou foda alucinante.
O empurro para longe de mim e ficamos nos olhando.
- Como pode dizer que sou safada, se quem me cerca é você? Não estou atrás do seu chefe. Não quero encrenca.
Minto, pois o que mais desejo é me atolar em encrenca e causar um rombo na vida de Paul Banks.
- Você se faz de difícil e sabe muito bem o que isso causa em homens que possuem tudo.
- Avise seu chefe que ele não pode ter tudo.
Seguro a maçaneta e faço cara de decepção. Uma falsa e debochada cara de decepção.
- Eu não sou uma qualquer, interesseira e o que mais imaginam que sou. Boa sorte em procurar alguém que queira o dinheiro do seu chefe.
Viro de costas para ele e abro a porta.
- Agora se me der licença, tenho que voltar a procurar emprego pois não sou sustentada por homens ricos.
Abro a porta e o espero passar para fecha-la. Escuto seus passos atrás de mim e ao invés de passar pelo meu corpo, para atrás dele.
- Você é muito dissimulada.
- Você é um saco. Avise seu chefe que não estou disponível para ser amante.
- Vamos ver quanto tempo vai continuar dizendo isso.
O infeliz continua com o corpo colado ao meu.
- Acho que seu nome é falso. Vivian... não me parece ser seu nome.
Meu corpo congela.
- Para mim é tão falso, quanto seu cabelo loiro.
Enfia sua mão por baixo do meu cabelo molhado e o segura firme, virando meu rosto para encara-lo. Sua boca está perto da minha e nossos olhares conectados. Ele tem um rosto másculo, que o torna muito imponente.
- Ainda descobrirei quem é.
- Começo a achar que sou sua obsessão e não de seu chefe. Será que está apaixonado por mim?
- Já lhe disse que não faz meu tipo.
Dou uma lambida em seus lábios e vejo seus olhos escurecerem.
- Acho que é mentira.
Sussurro e minha língua agora percorre meus lábios, como se tivesse misturando teu sabor ao meu.
- Nunca minto!
Meus olhos descem para sua ereção enfiada em meu corpo.
- Alguém aqui está mentindo.
Afasta-se muito rápido, soltando-me. Arruma sua postura e parece perdido. Acho que não percebeu que estava excitado por mim. Isso é muito interessante. Será que consigo encantar a ele também? Ter Banks, sua mulher e seu homem de confiança na palma da minha da mão, seria muito bom. Perfeito eu diria. Mas como seduzir Banks e Fábio, sem que ambos desconfiem? Isso não seria um bom plano. Preciso repensar sobre isso.
- Sr. Banks deseja que o encontre nesse local amanhã ás 20h.
Tira do bolso um papel e direciona para mim. Não o pego e ele fica irritado. Anda a passos firmes até mim e abrindo grosseiramente o decote de meu roupão, enfia o papel entre meus seios, tentando não olha-los. Sai do meu apartamento e some pelo corredor, me deixando com um sorriso de satisfação enorme no rosto. Isso está saindo melhor do que o planejado.
Retiro do meu roupão o pedaço de papel. Abro e vejo o endereço de um restaurante muito caro no centro da cidade. Sr. Banks reservou uma sala privativa pelo que entendi. Pede para informar a sala número quatro ao chegar. Uma ideia louca, mas muito interessante me passa pela cabeça. Provavelmente o Sr. Banks não estará na sala quando eu chegar. Um de seus homens me conduzirá e depois ele aparece. Deve ficar no bar esperando para ver se realmente eu apareço. Talvez Fábio esteja me esperando nessa sala privativa para o seu chefe. Ando até minha bolsa e pego minha carteira.
Esse jantar pode ser muito mais interessante se tivermos mais uma pessoa nele. Pego o cartão que Aurora Banks me entregou no banheiro com seu telefone.
Acho interessante unir marido e mulher em meu plano e de brinde ganhar o segurança nessa trama. Preciso repensar o plano. Aparentemente posso usar três pessoas para alcançar o que quero. Se for inteligente, todos me darão o que desejo. Pego meu celular e ligo para Aurora, encarando o endereço no papel em minha mão. Chama algumas vezes e cai na caixa postal. Decido não deixar recado. Apenas meu número como chamada perdida é o suficiente para deixa-la curiosa. Se deixar recado, pode não querer me retornar a ligação. Vou deixa-la curiosa para saber quem ligou. Ando até minha xícara de café e antes que possa alcança-la, meu telefone começa a tocar. A Sra. Banks retorna bem rápido e isso é bom. Ela é curiosa! Vamos ver se está mesmo doida para saber quem ligou. Vou deixar cair na caixa postal. Ela vai ouvir que sou eu e se me retornar, é porque quer falar comigo. Preciso pensar em um motivo para ter ligado. Ando até o celular e ele para de tocar. Encaro a tela e espero.
- Liga! Vamos Aurora!
A tela volta a piscar e o som de chamada ecoa pela cozinha, me fazendo sorrir. Respiro fundo e pego o celular. Aperto em atender e antes de dizer qualquer coisa, fungo alto como se estivesse chorando. Vamos fazer um drama de pessoa sozinha e carente, precisando de uma amiga.
- Alô!
Digo com a voz chorosa, como se estive em uma crise de choro.
- É a Aurora! Acho que me ligou.
- Me desculpe, Aurora! Acho que foi um momento de desespero.
Finjo chorar e tento não rir.
- O que houve? Parece que chora.
- Não estou em um dia bom! A verdade é que não ando tendo dias bons.
- Oh, querida! O que houve?
- Não quero te encher com meus problemas. Realmente me desculpe te ligar. Estava nervosa e prestes a sair de casa para andar um pouco e achei seu cartão. Tive a ideia idiota de te ligar. Me desculpe!
Ando até a varanda do meu apartamento. O som do vento e dos carros podem ajudar a causar um drama maior.
- Não peça desculpa! Sei como é se sentir perdida, sem saber o que fazer.
- Me sinto tão sozinha nessa cidade. Um lugar cheio de gente e eu...
Solto um suspiro como se estivesse sofrendo.
- Estou tão sozinha!
- Te entendo! Onde está agora?
- Andando pelas ruas.
- Evite andar sozinha pelas ruas, Vivian. Não é seguro a essa hora e você não está bem.
- Precisava de ar ou faria uma loucura.
- Não diga isso!
- Minha vida anda um caos.
Minto descaradamente e quero rir da minha cara de pau.
- Quer conversar?
- Não quero alugar você. Imagino que esteja com o seu marido e estou te roubando dele.
Agora é ela quem respira fundo. Sei que Banks não está com ela. Deve estar indo para a casa da Soraia agora.
- Estou sozinha! Banks está em uma reunião e volta tarde.
- Ele é um homem importante. Imagino que tenha muitas reuniões.
- Sim!
Sua confirmação tem um ar de irritação. Ou ela sabe das amantes ou se irrita realmente com as reuniões falsas que ele diz ter. Será que ela é tão burra para acreditar nisso? Se me tornar amiga de Aurora, terei que fazê-la saber de Soraia para que exija do Banks que termine com ela. Depois me torno amante dele e melhor amiga de Aurora. Um plano perfeito. Poderia ter Fábio como meu amante. Isso seria perfeito demais. Todos em minhas mãos.
- Vivian!
Aurora me chama após meu silêncio.
- Estou aqui!
- Ficou calada.
- Estava pensando que talvez se sinta sozinha como eu, pois seu marido vive em reuniões. Mas você tem amigos e vários compromissos como a Sra. Banks.
- Não! Não tenho amigos e esses compromissos são chatos.
- Estava pensando se aceitaria jantar comigo amanhã.
- Não sei o que Banks planejou para amanhã. Normalmente as quintas jantamos juntos.
Quero rir, pois nesta quinta ele quer jantar comigo e não com ela.
- Entendo! Podemos ver outro dia.
- Vou verificar os planos do meu marido e lhe mando mensagem sobre amanhã.
- Ficarei no aguardo! Seria muito bom ter uma amiga.
- Parece que somos carentes de boas amizades.
- Sim!
Nós duas rimos, mas uma pessoa aqui ri com falsidade. No caso essa pessoa sou eu.
- Assim que tiver resposta sobre meu dia amanhã, lhe retornarei com uma mensagem.
- Ótimo!
- Tem algum lugar em mente para irmos?
- Quando me der a confirmação, lhe envio o local. É um restaurante maravilhoso.
- Ótimo! Preciso desligar. Banks acabou de chegar.
- Boa noite, Aurora!
- Boa noite, Vivian!
Desligo o telefone e quero gritar de felicidade. Tudo está saindo melhor do que planejado. Betina ficaria chocada de como fui além do que queria. É uma pena ter que me afastar dela para não termos problemas. Não posso ser vinculada a ninguém, muito menos a uma policial. Olho o movimento na rua e um carro me chama atenção. Mesma marca, cor e modelo que os seguranças de Banks usam para escolta-lo. Olha só! Banks ou Fábio, até mesmo ambos deixaram homens me vigiando. Interessante! Parece que virei obsessão de um deles. Espero que dos dois. Melhor entrar e repensar meu plano. Não quero falhar em nada e amanhã será o começo do meu golpe, se Aurora me responder que irá me encontrar.
**********
São sete horas da manhã e nem bem abro meus olhos e já vejo uma mensagem em meu celular. A mensagem veio a meia noite. Aurora deve ter esperado Banks dormir para me responder. Clico na mensagem.
De: Aurora
Para: Vivian
Olá Vivian! Confirmando nosso jantar amanhã. Aguardo endereço. AURORA
Clico em responder, sem conseguir parar de sorrir. Isso está sendo fácil demais. Estou ansiosa para ver a cara de Fábio e Banks quando Aurora surgir. Envio o endereço e parece que meu dia começou bem. Muito bem eu diria.
*********
Termino de me arrumar e antes de sair do meu apartamento, vou para a varanda e vejo que o carro ainda está parado em frente ao meu prédio. Sai de tarde para fingir fazer algumas coisas e o carro me seguiu. Além de um homem estranho ser minha sombra dentro dos locais fechados que andei. Não vou poder bobear um segundo se quer ou serei descoberta. Vejo que o taxi que pedi para em frente ao prédio e em segundos meu interfone toca para anunciar que chegou. Corro para dentro e atendo o interfone. Aviso que estou descendo e assim que desligo, vejo se está tudo certo com meu vestido preto básico, mas muito colado ao meu corpo, me deixando comportada para a Sra. Banks e sedutora para o Sr. Banks. Imagino que prestará bastante atenção em minhas curvas e serei uma bela atração para seus olhos. É hora do golpe!
***********
Saio do táxi e vejo que o carro que me vigia nos seguia. Já deve ter avisado que cheguei no restaurante. Sigo para dentro e nem passo pela porta, já vejo Fábio com um enorme sorriso debochado no rosto. Até seu sorriso debochado é sexy. Ele é um homem deliciosamente lindo.
- Vivian! Parece que senti seu cheiro de verdade.
Sussurra ao parar na minha frente.
- Cheiro de mulher interesseira, safada!
Sussurra novamente só para mim.
- Não sei do que está falando.
- Sabia que viria se encontrar com o Sr. Banks.
- Não vim me encontrar com ele. Joguei fora o bilhete antes de ler o que tinha.
- O que veio fazer aqui?
- Vivian!
A voz de Aurora surge atrás de mim.
- Vim jantar com uma amiga.
Os olhos arregalados de Fábio olhando Aurora, me faz feliz demais. Deus! Como essa sensação é maravilhosa. Me viro e abro um enorme sorriso para Aurora, que também tem os olhos arregalados. Prazer me define agora.
- Aurora!
Ando até ela e a cumprimento.
- Banks...
Sussurra em meu ouvido quando a abraço.
- Meu marido está aqui!
- O que?
Finjo espanto e a solto do meu abraço. Me viro e fico ao seu lado. Estamos de frente para o Banks e o Fábio.
- O que faz aqui, Aurora?