NARRAÇÃO RENATA
A correria começa e apenas me sento em uma das poltronas. Betina grita em meu ouvido sem parar e minha cabeça parece que vai explodir.
- Apertem os cintos para a decolagem.
- Esquece a porra do cinto e sobe essa merda!
Grita para a aeromoça e o jatinho começa a andar.
- Que porra você fez? Fábio vai te procurar até no inferno. Você tem noção da merda que fez deixando ele vivo? Você...
- Cala a porra da sua boca!
Grito e ergo minha cabeça.
- Calar a boca? Acha mesmo que vou fazer isso? Ele me viu!
Viu meu rosto e vai me procurar.
- Se ele te procurar entrega onde estou.
- Acha que vai ser simples assim? Acha que só dizendo onde está ele vira as costas e some?
- Acho! Ele quer a mim, a minha cabeça. Então passa a porra dos seus planos pra ele e deixe ir atrás de mim.
- Você conseguiu foder o plano no final dele.
Se joga na poltrona a minha frente.
- Estamos com o dinheiro e indo embora de Seattle. Não vejo nada fodido aqui.
- Por que você não matou o Fábio?
- Sério?
Digo irônica e Betina espera por uma resposta.
- Não sou uma assassina, sou uma golpista.
- Uma golpista treinada para eliminar pessoas que possam ser um perigo no golpe e depois dele.
- O fato de ser treinada, não significa que sou assassina. É questão de sobrevivência e não de se livrar de pessoas. Fábio não era uma ameaça de morte.
- Agora é!
Me jogo no encosto da poltrona e pela janela vejo que já estamos voando entre as nuvens.
- Eu sei porque não o matou.
Olho pra Betina que não parece querer me deixar em paz.
- Você se apaixonou de verdade. Se envolveu tão profundamente com Fábio, que aposto que imaginou como seria se ele te perdoasse e sumisse com você.
Fecho meus olhos e a imagem dele me pedindo em casamento martela em minha cabeça.
- Você achou mesmo que teria um futuro com ele? Que te perdoaria por tê-lo usado e quase o matado? Acha mesmo?
Grita comigo e abro meus olhos.
- Que merda você pensou, Renata?
- Eu não pensei! Pela primeira vez em um golpe, deixei meu coração me guiar. Não precisava matar o Fábio para finalizar o golpe. Só precisava dele fora do meu caminho e consegui.
Betina fica me olhando.
- Mas agora ele vem atrás de você.
- Foi por essa razão que me tornei golpista. Sabe disso! Para que pessoas venham atrás de mim.
- Um golpista desaparece para o mundo após o golpe. Você está fazendo o oposto. Está deixando um rastro e isso pode ser perigoso.
- Você sabe os meus motivos.
Levanta de sua poltrona e pega uma mala.
- Aqui estão seus passaportes falsos, mude seu cabelo conforme as fotos que alterei.
Abro a mala e pego o primeiro passaporte. Abro e bufo.
- Ruiva?
- O kit de pintura está no banheiro do jatinho. Você será Geórgia e ficará na Nova Zelândia por quinze dias.
Puxo os passaportes seguintes.
- Depois irá para Argentina, ainda ruiva e se chamará Penélope.
Reviro os olhos, porque me odiei ruiva no golpe em São Francisco.
- Seu terceiro país será Turquia e cortará curto o cabelo.
- Não vou cortar meu cabelo.
- Use peruca então. o importante é sumir.
- Natalina? Sério?
Betina está sorrindo e sei que fez para me irritar.
- Um lindo nome.
O quarto passaporte me leva para Rússia.
- Adelina?
- Nomes lindos.
Serei um camaleão por seis meses, conforme os passaportes. Percebo que nenhum deles me leva a Tailândia.
- Por que esses países?
- Porque sim! Nem pense em mudar o que fiz.
Me olha furiosa.
- Certo!
Me explica sobre o dinheiro e as contas que vamos usar para que eu possa me manter nesses lugares. Me orienta sobre como vamos nos comunicar para não rastrearem nada.
- Renata Schneider está morta há três anos. Se lembre disso!
- Me lembro todos os dias, quando entrei para o mundo dos golpistas.
- Ótimo!
Na minha frente rasga uma ficha.
- Há uma hora seu corpo foi encontrado em um carro. Há uma hora Vivian foi dada como morta.
Vejo os papeis picados em sua mão.
- Ela não existe mais.
Pela primeira vez sinto tristeza em matar um personagem criado para um golpe. Vivian com toda a certeza do mundo marcou a minha vida, meu coração.
- Preciso de um outro golpe.
- Renata, não começa!
- Não vou aguentar sumir por seis meses assim, sem fazer nada.
- Não fode com tudo.
- Então vai você quicar entre países a cada quinze dias.
- Melhor isso que ter uma bala estourando sua cabeça ou seu peito. Isso é para te manter viva. Banks e Fábio não vão aceitar sua morte. Na hora vai saber que é mentira. Ele te viu fugindo.
- Para de se preocupar com o Fábio, foca no Banks.
- Você acha mesmo que os dois não vão se unir pra pegar você?
- Não acho que isso vai acontecer. Banks culpará o Fábio por tudo e provavelmente o mandará embora. Se acontecer de virem atrás de mim, será cada um por si. Então apenas fique de olho no Banks, deixa o Fábio em paz.
- Quer dizer que devo deixa-lo vir atrás de você?
Não respondo e olho para a janela. Será que ele viria atrás de mim? Será que me mataria?
- Não crie a ilusão de que ele te perdoaria. Fábio não é o tipo de homem que perdoa algo assim.
- Apenas cuide do Banks e o mantenha longe de mim.
*******************
CINQUENTA E NOVE DIAS DEPOIS DO GOLPE
Entro no aeroporto, pronta para mais um destino. Mantive meu cabelo castanho natural, estou cansada de mudar minha aparência. Segundo Betina, Banks está rodando e rodando como peru tonto, sem saber como me caçar. Não me entregou a polícia, porque o dinheiro roubado era ilícito. Teria que explicar as contas fantasmas e isso significaria assumir que roubava sócios e outras empresas. Sem dinheiro não tem como pagar bandidos para me caçar. Ninguém aceitou ajuda-lo, por ser um escroto. Então está tentando não perder a empresa e voltar a ganhar dinheiro. Aurora, Jorge, Sawyer e Marcela estão morando na Inglaterra, em paz. Betina está cuidando deles de longe. A única pessoa que não faço ideia de como está é Fábio. Betina não me passa nada e isso vem me matando por dentro.
- Senhora!
A atendente da companhia aérea me chama. Segundo o roteiro da Betina, devo partir para Rússia.
- Qual o destino?
Olho para os destinos com partidas próximas. Avião para Rússia sai em duas horas. Meus olhos seguem para outro país.
"- Você imaginou sua vida de outra forma?
Pergunto e ele não responde.
- Alguma vez desejou fazer, não fazer, viajar, sei lá.
- Se eu pudesse escolher, largaria tudo para rodar o mundo viajando.
- Para onde iria?
- Começaria na Tailândia.
- Sério?
- Sim! Levaria você comigo na viagem. Seriamos dois loucos transando loucamente pelo mundo.
Ele está me incluindo em seus planos. Isso não pode ser só jogo dele para me pegar. Ele deve estar tão confuso quanto eu nisso tudo.
- Vamos fazer um acordo?
Ergue a cabeça e me olha.
- Daqui dois meses estaremos na Tailândia."
A lembrança do barco, em um dos nossos momentos juntos surge em minha mente.
- Qual o destino?
A atendente pergunta novamente e recolho meus documentos.
- Tailândia!
Betina pode ter rasgado minha ficha e ter me colocado como morta, mas os documentos ainda existem e espero que consiga usa-los. Pego os documentos em nome de Vivian e dou a atendente. Ela olha a foto loira e sorri.
- Ficou melhor morena!
- Obrigada!
Consigo a passagem e pago com dinheiro.
- Embarque em quarenta e cinco minutos.
- Obrigada!
Pego a passagem e meus documentos de volta e sigo para o portão de embarque. Meu celular treme e retiro do bolso, tentando não derrubar nada do que seguro. É um email da Betina.
De: Betina
Para: Adelina
Gostaria de saber porque Adelina não está embarcando para Rússia. E o mais importante é como Vivian morta há seis meses está viajando pra Tailândia?
Não respondo e volto o celular para o bolso. Só espero não estar fazendo merda.
********************
DOIS DIAS DEPOIS
Faz dois dias que estou hospedada em um hotel na ilha Ko Samui na Tailândia. Nada dele aparecer e acho que ou desistiu de me procurar, ou não se lembrou do que conversamos. Saio da varanda do quarto do hotel onde estou hospedada e volto para a minha cama. Já são quase três da manhã e minhas esperanças de que Fábio venha me procurar já morreram. Talvez seja hora de voltar para o meu roteiro. Me agarro ao travesseiro e fecho meus olhos, deixando o sono me levar.
*******************
A claridade é intensa em meus olhos. Abro com calma, tentando me acostumar com a luz forte. Um vulto perto da minha cama me faz abrir os olhos de uma vez e me sento na cama, assustada.
- Fábio!
Ele está parado em pé, de frente pra mim e me aponta uma arma. Queria poder decifrar o que se passa em seu olhar, mas ele parece vazio.
- Eu...
Paro de falar quando destrava a arma e fecho meus olhos.
NARRAÇÃO RENATA
- Antes de atirar, apenas me escute.
Abro meus olhos e ele se mantém na mesma posição, pronto para me matar.
- Aurora, Jorge, Sawyer e Marcela estão bem e seguros. Dei a parte que cabia a Aurora para que pudessem sumir dos olhos do Banks.
Vem andando até mim e coloca a arma na minha cabeça. Ergo meus olhos para olha-lo.
- Meu nome é Renata Schneider.
Sinto meu coração acelerar e minhas mãos ficarem frias.
- Me desculpa te usar, mas eu precisava.
Seguro a vontade de chorar e seus olhos continuam sem qualquer emoção.
- Por que você precisava me usar?
Pergunta com a voz carregada de rancor.
- Porque esse golpe era importante demais pra mim.
- Por que?
Enfia mais a arma na minha cabeça.
- Por que foder o Banks era tão importante?
Desvio meus olhos do dele e encaro minhas mãos sobre minhas pernas.
- Sou filha de Alberto Schneider, o maior golpista que o mundo já viu.
Conto com as lágrimas já descendo pelo meu rosto. Se vou morrer nas mãos de Fábio, que ele pelo menos saiba quem está matando.
- Há vinte anos meu pai entrou em um golpe enorme, que quase o levou a morte. Assim que o finalizou, desapareceu no mundo para salvar a mim e a minha mãe. Ele precisou nos abandonar para que ninguém nos usasse contra ele.
Seco minhas lágrimas e tento erguer meus olhos, mas ainda não consigo olha-lo.
- Cresci ouvindo da minha mãe as historias do meu pai pelo mundo, dando seus golpes. E meu maior sonho, a coisa mais importante na minha vida era voltar a vê-lo.
Respiro fundo e tento conter minha emoção.
- Entrei para o mundo dos golpistas. Treinei para enfrentar qualquer coisa. Dei golpes pequenos, mas ele nunca apareceu, talvez nunca tenha chegado aos seus ouvidos que sua filha seguia seus passos.
Encolho minhas pernas e as abraço, tendo ainda uma arma apontada em minha cabeça.
- Para que ele pudesse saber de mim. Pra que ele talvez viesse me procurar, eu precisava de um golpe grande. Precisava do Banks.
Finalmente consigo encarar seus olhos.
- Sou uma filha, desesperada para encontrar seu pai. Sou uma filha que entrou para esse mundo, porque é o único jeito de ficar perto daquele que por anos ela vem chorando uma saudade que sufoca, querendo um abraço que não lembra mais como é. Nada é mais importante pra mim, do que abraçar novamente meu pai e encontrar meu lugar.
Fábio abaixa a arma e solta um longo suspiro. Enfia a arma no bolso e tira um celular, apertando o botão. Ele estava me gravando? Sai de perto da cama e vai em direção a porta do quarto. É isso? Ele só queria uma confissão? Destranca a porta e tenho medo que tenha policiais prontos para me prender. Abre a porta e sai da frente, dando passagem a alguém. Não acredito! Pulo da cama e corro em direção ao meu pai.
- Pai!
Grito e me jogo em seus braços, finalmente sentindo o seu abraço.
- Que merda você está fazendo da sua vida, Renata!
Diz com a voz cheia de preocupação.
- Estou tentando ver o meu pai! O homem que por anos fez uma falta enorme dentro do meu coração, do meu abraço.
- Pedi tanto pra sua mãe te deixar longe desse mundo.
- Esse mundo está em nosso sangue.
Me afasta de seu abraço e segura meu rosto em suas mãos. Abre um enorme sorriso e seus olhos estão marejados.
- Você cresceu tanto! Quase não cabe mais no abraço desse velho.
- Isso significa que agora você cabe no meu.
Beija minha testa e respira fundo.
- Quando Fábio me disse que você estava entrando na vida do Banks para dar um golpe nele, quase tive um ataque cardíaco.
Solta meu rosto e me olha fingindo estar bravo.
- Você quase acabou com meus planos ali.
Olho para Fábio, que esta de braços cruzados nos observando, encostado na parede. Ainda sem qualquer expressão em seu rosto.
- Então Fábio é um golpista?
- Sim!
- Ele sempre soube quem eu era?
- Sim! Me avisou na hora e minha primeira ordem foi que te protegesse do Banks. Aquele homem podia te matar.
Tudo que vivi ao lado do Fábio nesses últimos dias repassa em minha cabeça.
- Então ele sabia que eu estava lá para dar o golpe?
Olho para ele que se mantém vazio.
- Sim! Você entrou no meio de uma operação de resgate.
- Operação de resgate?
- Fábio estava tentando tirar Jorge, Marcela e Aurora das mãos do Banks.
- Espera! Não estou conseguindo entender nada.
- Há vinte e quatro anos atrás me uni a quatro amigos para dar o golpe em um jovem que acabava de assumir a empresa da família.
Me leva para sentar na cama e vejo Fábio ir para a varanda, nos deixando a sós.
- Jorge, Aurora, Ricardo e Lucia.
- O que?
- Sim! Lúcia se passava por empregada e fingia ser mulher do Jorge. Aurora era a mulher focada em seduzir o Banks e Ricardo assim como eu, seria o apoio fora do golpe.
- O que aconteceu?
- Lucia se apaixonou por Banks e ele por ela, que estava disposta a largar o golpe, tudo, para ficar com ele.
- Lucia engravidou da Marcela.
Digo em um sussurro e papai senta ao meu lado.
- Banks estava disposto a assumir Lúcia, mas ele descobriu que ela era golpista.
- Como?
- Não sabemos quem, mas naquele momento o golpe se tornou nosso pior pesadelo. Ele ficou furioso e atacou Lúcia que estava no ultimo mês de gestação. Tudo foi muito rápido e se não fosse Jorge e Aurora, Marcela teria morrido ainda na barriga da mãe. Os médicos conseguiram fazer o parto, mas não salvaram Lúcia, que morreu dias depois.
- Ninguém denunciou esse homem?
- Banks já tinha o poder de Seattle nas mãos. Conseguiu colocar a morte de Lúcia como decorrência de uma hemorragia.
- O que aconteceu depois?
- Jorge registrou Marcela como dele e de Lucia, estava pronto para sumir, quando Banks o ameaçou. Ele sabia que Marcela era dele, não queria assumir, mas queria por perto. A ameaça causou desespero em Jorge que ficou, com medo de que algo acontecesse ao bebê.
- Então Jorge estava preso no golpe há anos?
- Sim! Aurora era apaixonada por ele e entrou na merda toda. Seduziu o Banks, casou com ele e aceitou a vida horrível, para ficar ao lado do homem que amava e cuidar da Marcela.
- Meu Deus! Esse é o golpe mais longo que já ouvi falar.
- Quando Ricardo faleceu, Fábio assumiu seu lugar ao meu lado nos golpes. Não podia mais aceitar ver meus amigos ali naquele inferno e coloquei meu homem de confiança lá dentro, para acabar de vez com esse golpe, com o Banks.
- Quando eu entrei, apareci na vida do Banks, vocês já tinham algum plano?
- Fábio já sabia do cofre, o que precisava para abrir, estava apenas pensando em como fazer e depois sumir, levando todos e deixando aquele merda sem nada.
- As câmeras na casa do Fábio serviam para ele vigiar o Banks.
- Sim!
- Agora tudo faz sentido. Aurora e Fábio me deram informações para o golpe.
- Sim! Eles sabiam o que você queria, te conduziram para tudo e deixaram você resolver o golpe de uma vez por todas. E devo dizer que foi incrível o que fez.
Abro um pequeno sorriso.
- Estou orgulhoso de você, apesar de quase ter me matado de medo.
Beija minha cabeça e se levanta da cama.
- Mais orgulho eu fiquei, quando soube que se importou com Aurora, Jorge e Marcela. Você foi incrível ao cuidar deles.
- Não podia virar as costas e fugir com tudo, vendo o quanto eles eram infelizes ali.
- Esse seu coração bom herdou da sua mãe.
Sorri e anda em direção à porta.
- Pra onde vai?
- Voltar para o meu mundo fantasma.
- Achei que ficaríamos juntos!
- E vamos!
Passa pela porta e me olha.
- Partimos em meia hora!
Pisca pra mim e fecha a porta. Meus olhos vão para a varanda e vejo as costas do Fábio. Me levanto e caminho até ele. Assim que passo as portas da varanda, o vento quente bate em meu corpo e sigo para o seu lado. Encaramos a bela visão a nossa frente.
- Então você sempre soube quem eu era.
- Sim!
- Me torturava pedindo uma confissão, fez toda aquela cena para me enganar.
- Seu pai me pediu para testa-la. Queria saber se suportava pressão e mantinha o segredo.
Me viro, dando as costas para a paisagem e fico olhando para o meu quarto.
- Então tudo o que aconteceu foi um plano seu e do meu pai para me proteger, me testar e me ajudar no golpe.
Seu braço encosta no meu e sinto o desespero de sentir seu toque, seu corpo no meu.
- Sim!
Sua boca está perto do meu ouvido. Viro o rosto e sua boca fica perto da minha.
- Foi tudo uma mentira?
Pergunto com a voz baixa e meus olhos estão fixos em seus lábios.
- Foi uma mentira pra você, Renata?
DOIS MESES E ALGUNS DIAS ANTES
NARRAÇÃO FÁBIO
Banks já começa a me irritar com suas saídas para visitar mulheres. Parece que Soraia inventou um encontro a mais, uma nova mulher nessa relação podre. Acho engraçado o Banks não desconfiar nessa golpista iniciante e sem preparo. É divertido vê-la tendo que se deitar com ele para conseguir pelo menos ter acesso ao seu mundo. O que a pobre coitada não faz ideia é que Vivian já está bem adiantada quanto a roubar o cretino. Meu celular toca e me afasto do Banks para atender.
- Pronto!
- Sou eu!
Merda! A voz do Alberto me faz gelar por dentro. Ele só liga quando vem à ordem final.
- Está na hora de finalizar o plano.
Ordena e me afasto ainda mais do Banks.
- As câmeras que colocou no escritório me mostraram Renata tendo acesso a quase tudo.
- Ela descobriu a senha do painel?
- Sim! Pelo que vi pelas câmeras, falta apenas a digital.
Tento não sorrir, porque eu sabia que conseguiria. A mente daquela safada é incrivelmente perfeita.
- O que você quer que eu faça?
- Quero que teste Renata!
- O que?
- Sei que a mente dela é brilhante, mas precisamos testa-la sobre pressão.
- Isso significa?!?!?
- Ela sabe que desconfia dela. Dê um jeito de ir para algum lugar isolado com a minha filha e a faça pensar que vai mata-la. Quero saber como ela trabalha com o medo, com o perigo, com a adrenalina. Nesse lugar isolado, faça achar que o Banks sumirá por um tempo, dando o desespero de finalizar rápido o golpe dela.
- E se ela no desespero me matar?
- Você me disse em um dos relatórios que a "Vivian" não é o tipo de golpista assassina.
- Mas as coisas mudam quando encontra-se em perigo.
- Fábio, sei que pode fazer isso. Sei que pode lidar com a minha filha em um lugar isolado.
- Certo!
Desligo e volto para perto do Banks.
- Senhor!
Me olha irritado por atrapalhar seu momento de putaria.
- Acabei de se informado que uma tia muito próxima faleceu. Gostaria de permissão para me afastar por dois dias, para acompanhar velório e enterro.
- Tudo bem! Mas não me deixe aquele idiota do Rafael, quero o Cleber!
- Sim senhor!
- Pode ir!
Me viro sem dizer mais nada e deixo o coitado do Banks para trás, sabendo que será a ultima vez que nos veremos antes da Vivian roubar tudo. Assim eu espero. Quero que ela realmente finalize tudo, passe nos testes do pai e que no fim, queira me levar com ela, dizendo quem realmente é. Vou usar o barco do Banks. Tenho uma pequena esperança de que ela me diga quem é e me peça para ir junto.
*********************
Ligo para Vivian e nada dela atender. Isso é estranho! Ligo para Jorge que atende no segundo toque.
- Sabe onde Vivian está?
- Me deixou no apartamento dela com a Aurora. Imagino que tenha ido mexer no escritório do Banks.
- Ela descobriu a senha do cofre.
- Caralho! Sério?!?
- Sim!
- Nós tentamos de tudo e não acredito que ela conseguiu tão fácil assim.
- Te falei que era incrível.
- Fábio!
- Eu sei! Não me envolver com alguém que não se importa com meus sentimentos.
- Sabe que ela está te usando.
Dentro de mim existe um pequeno fio de esperança de que ela tenha se apaixonado. Assim como eu me apaixonei por ela.
- Vou viajar com ela e espero que fiquem atentos. A qualquer momento ela vai finalizar o golpe e não podemos deixa-la sumir.
- Certo!
- Vou para o apartamento dela.
- Certo! Daqui a pouco voltamos para a mansão.
O safado está aproveitando pra ficar com Aurora.
****************
Arrumo todas as coisas para a viagem e fico em frente ao prédio, esperando por Vivian. Quase uma hora depois ela surge caminhando pensativa na calçada. Certo! O plano é que ela ache que estou abalado pelo estupro mentiroso que me contou e que quero cura-la disso. Ela não faz ideia de que sei tudo sobre sua vida e que de fato tentaram toca-la, mas os três caras tiveram os punhos quebrados, e um os joelhos deslocados. Ela é deliciosamente furiosa e agressiva quando está em perigo e preciso me lembrar disso.
- Vivian!
Chamo por ela e caminho rápido, parecendo preocupado. Me olha a tempo de me ver abraça-la.
- Você está bem?
- Sim!
Abraça-la sempre me causa uma euforia estranha. Ela se encaixa de verdade em meu abraço e isso me diz que tem coisas em sua mente a perturbando.
- Por que não me atendeu ou respondeu minhas mensagens?
- Precisava pensar um pouco, ficar sozinha.
Não posso deixar que pense e tente recuar no meu plano de nos levar pra longe. Seguro sua mão e a arrasto pro carro.
- Fábio!
Ignoro seu chamado e a coloco no banco do passageiro.
- Tirei dois dias de folga. Vamos passar um tempo sozinhos, longe de todos.
Quando olha para trás e vê a mala, posso ouvir sua mente trabalhando em algo que a mantenha aqui para finalizar o golpe.
- Vou fazer você esquecer todos os seus traumas.
Fecho a porta do carro e dou a volta, entrando do lado do motorista.
- Espera!
Grita e espero por sua desculpa para não ir comigo pra longe.
- Não acho uma boa ideia! Não serei uma boa companhia pra você. Vamos deixar esse momento para depois, quando estiver melhor.
- Não! Temos que ter esse momento longe de todos agora.
Digo e mantenho meus olhos focados em Vivian, tentando deixar claro que vai além de traumas aqui e que algo precisa acontecer. Pela forma como me olha, sabe que as coisas serão intensas. Minha garota é extremamente rápida nas dicas.
- Fábio, realmente não gostaria de fazer uma viagem agora.
- Quero ter um momento com a minha mulher ciumenta e cheia de traumas.
Puxo sua mão e a beijo de forma sedutora, sabendo que afeto uma parte deliciosa de seu corpo agora.
- Não será nada divertido ter um momento com essa mulher. Acha que o surto de ciúmes e o choro de lembranças do passado vieram do nada?
Ela ainda vai manter a falsa ciumenta e tudo mais? Aquela cena foi engraçada de assistir.
- Alguém aqui está pronta para o drama menstrual. Vai querer viajar com uma vagina sem controle e pronta pra surtar a qualquer momento?
Um falso ciclo menstrual... ela quer evitar até sexo comigo? Alguma coisa aconteceu com Vivian enquanto ficou longe de mim.
- Acho que posso domar essa vagina e a dona dela toda. Temos outras áreas de lazer.
Vamos jogar com o que temos de ligação extrema. Sexo!
- Já te mostrei que não tenho problemas em explorar seu corpo todo.
- Fábio, estou sensível e não com tesão. É capaz de chorar com a boca no seu pau, enquanto faço um boquete. Só porque ele é lindo e gostoso de chupar.
Adoro seu humor sujo e depravado.
- Seria meu primeiro boquete com lágrimas de felicidade.
- Para! É sério!
Vamos acalma-la um pouco. Me viro e acaricio seu rosto.
- Trepar, foder, te comer, fazer amor, o que seja, com você é maravilhoso.
Beijo seus lábios com carinho, louco para beija-la de verdade. Mas isso só vai acontecer quando me contar que é golpista e que me quer ao seu lado. Quando me pedir para fugir com ela do Banks. Seus lábios acolhem os meus com perfeição.
- Mas agora eu só quero cuidar de você. Isso significa que se vamos ficar sozinhos, sem sexo, tudo bem!
- Seu chefe não vai brigar? Você é o braço direito dele.
- Ele tem o esquerdo pra quando o direito sumir. Não tiro férias, mereço dois dias longe de tudo com a minha mulher.
Pisco passando confiança, mas ainda assim me impede de ligar o carro.
- O que foi?
- Pegou minhas coisas, mas tenho certeza que não pegou o principal para mim.
- O principal pra você sou eu.
Revira os olhos com humor.
- Preciso de coisas para esse período e sei que não pegou. Vou no meu apartamento rapidinho pra pegar.
- Vou com você!
- Não!
Grita e sei que ela vai pegar alguma coisa estocada em seu apartamento. Ela vai se preparar para uma possível tentativa minha de mata-la. Esperta, mas isso também me deixa preocupado.
- Se subir não vamos sair de lá tão cedo. Sabe muito bem que fodemos o tempo todo. Então fique aqui ou não viajaremos.
Não vou impedi-la de subir, mas isso não significa que vou ficar aqui.
- Seja rápida!
- Sim senhor!
Enquanto ela parece acelerada em fugir de mim, saio do carro e me encosto nele, vendo-a entrar no elevador. Darei cinco minutos antes de ir atrás.
********************
Entro no apartamento e o primeiro local que vou é o fundo falso do armário do quarto de visitas. Nesse fundo ela tem algumas coisas, entre elas uma arma. Entro no quarto, abro o armário e puxo o fundo falso. Ela pegou a arma e os medicamentos que imagino que façam algo especifico. Só queria saber pra que eles servem. Sei que possuem formas e cores diferentes, mas não sei o que fazem. Vou para frente do banheiro e a espero sair. Abre a porta e se assusta ao me ver. Em suas mãos tem uma bolsinha.
- Achei que me esperaria no carro.
- Achei que talvez precisasse de ajuda.
Me mostra superficialmente o que tem dentro, mas sei que tem a arma e os remédios.
- Estava repondo pra não precisar de nada.
- Peguei seu remédio para dor, deixei na sua mala.
- Obrigada!
Vem me beijar no rosto, como se não carregasse nas mãos formas de me matar.
- Vamos que estou ansioso pra nossa viagem a sós.
*******************
Conversamos sobre tudo, incluindo Aurora e Jorge. Ela parece se importar com os dois e isso é muito legal. Pena que quer foder todo mundo ao roubar o Banks, sumir e nos deixar aqui com a fera muita irritada e sem dinheiro. Será que se soubesse sobre eles, sobre como estão sofrendo na mão do Banks a anos, os ajudaria de alguma forma? Vivian não me parece uma golpista sem coração. Acredito que se soubesse de tudo, ajudaria a libertar os dois e Marcela. Entramos na estrada que dá acesso a praia Alki Beach.
- Praia?
Pergunta surpresa e sei que ficará ainda mais surpresa e assustada quando souber o que pretendo fazer. Estaciono o carro nas vagas de proprietários de barcos na marina.
- Vamos!
Saio do carro e pego nossas coisas, enquanto Vivian desce do carro. Será que depois de tudo isso vou me acostumar a chama-la de Renata? Parece que Vivian me marcou demais e me livrar dela não vai ser fácil. Nada que gemer Renata três vezes em nosso encontro safado após o golpe, não resolva. Tento não rir e seguro sua mão, nos conduzindo até o barco.
- Vamos fazer um passeio de barco agora?
- Vamos ficar dois dias no mar, longe de todos.
- Sr. Belini!
César diz se aproximando.
- Bom vê-lo novamente.
- Bom estar de volta, César.
- Já preparei a embarcação.
- Certo! Lembre-se de não avisar ninguém que estou aqui. É uma viagem fantasma de dois dias.
Sinto um aperto na minha mão e sei que entendeu o recado. Nós dois, nossas armas e nosso jogo de mentira.
- Certo!
- É seguro?
Pergunta parecendo doce e frágil. Amo cada falsa interpretação que faz e me admira o fato de ser tão boa atriz.
- Sim! Estará segura comigo.
- Vamos ter alguém pra guiar o barco?
- Apenas nós dois.
Sussurro de forma ameaçadora e sinto seu corpo ficar tenso. Vamos começar o jogo de pressão que Alberto pediu.
- Sabe nadar?
Pergunto e paro em frente ao barco.
- Usando o barco do seu chefe?
- Banks tem medo de água e não faço ideia do porque comprar um barco. Talvez para dizer que tem um com seu nome, no meio de tantos outros homens de poder.
Uma informação importante caso ela precise tortura-lo. Imaginei muitas vezes leva-lo para o mar e arrancar a maldita senha a força e depois mata-lo. Não antes de arrancar sua mão para usar a digital.
- Mas nunca se quer entrou nesse aqui. Uso sempre que preciso, pra fugir do mundo.
- Hum!
Subimos a escada para o barco.
- Ainda não me respondeu se sabe nadar.
- Não sei! Tenho pânico por não tocar o chão. Piscina sem problemas, mas quando nado em locais que não toco o chão, tenho pânico.
Acabo de pegar mais uma mentira. Quando descobri quem era a Renata, recebi sua ficha completa e sei que suporta nadar por muito tempo. Seu nado é uma de suas qualidades e esse drama é desnecessário ou seria uma forma de se manter fora da água e sobreviver a mim em uma luta no mar.
- Não se preocupe! Estarei aqui caso caia no mar acidentalmente.
Digo tentando soar como ameaça, iniciando a tortura mental. Só espero que eu sobreviva a essa tortura também. Desde que descobri Renata, venho lutando para me manter distante. A missão dada por seu pai era apenas protegê-la e não me envolver assim. Tentei! Lutei para me manter longe, mas a safada sabia como me manter perto. Sua jogada do acidente me fez perceber que não teria como lutar. E hoje só espero que nossa história, o que vivemos seja suficiente para que ela queira me levar, me queira com ela.