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O Gato Dele, Minha Mãe Morta

O Gato Dele, Minha Mãe Morta

Autor:: Viola
Gênero: Moderno
Meu marido era o único neurocirurgião de plantão capaz de salvar minha mãe de um AVC, mas ele desligou o telefone na minha cara. Ele disse que estava ocupado demais procurando a gata da ex-namorada no meio de uma tempestade e que eu deveria parar com meus "dramas". Enquanto ele posava de herói para ela, minha mãe morreu sozinha, esperando por um socorro que ele negou. Quando exigi o divórcio no dia seguinte, ele riu e levou a ex e a gata ao cartório para me humilhar. Ao ver a certidão de óbito, ele me acusou de falsificação e, num acesso de raiva, me empurrou contra uma mesa de vidro. Foi quando senti o sangue quente escorrer pelas minhas pernas. Ali, no chão frio, perdi o bebê que eu carregava em segredo, o último fio de esperança do nosso casamento. Só quando a médica confirmou a morte da minha mãe e o aborto é que Gabriel desabou, ajoelhando-se e implorando perdão. Mas já era tarde demais. Olhei para ele sem derramar uma única lágrima, peguei minha dignidade de volta e saí pela porta, deixando-o sozinho com a culpa que o assombraria para sempre.

Capítulo 1

Meu marido era o único neurocirurgião de plantão capaz de salvar minha mãe de um AVC, mas ele desligou o telefone na minha cara.

Ele disse que estava ocupado demais procurando a gata da ex-namorada no meio de uma tempestade e que eu deveria parar com meus "dramas".

Enquanto ele posava de herói para ela, minha mãe morreu sozinha, esperando por um socorro que ele negou.

Quando exigi o divórcio no dia seguinte, ele riu e levou a ex e a gata ao cartório para me humilhar.

Ao ver a certidão de óbito, ele me acusou de falsificação e, num acesso de raiva, me empurrou contra uma mesa de vidro.

Foi quando senti o sangue quente escorrer pelas minhas pernas.

Ali, no chão frio, perdi o bebê que eu carregava em segredo, o último fio de esperança do nosso casamento.

Só quando a médica confirmou a morte da minha mãe e o aborto é que Gabriel desabou, ajoelhando-se e implorando perdão.

Mas já era tarde demais.

Olhei para ele sem derramar uma única lágrima, peguei minha dignidade de volta e saí pela porta, deixando-o sozinho com a culpa que o assombraria para sempre.

Capítulo 1

Manuela Ruas POV:

Enviei a mensagem. As palavras dançaram na tela, frias e definitivas. "Eu quero o divórcio."

Meu dedo pairou sobre o botão de enviar por um instante, mas não hesitei. Não havia mais nada para salvar. O ar no apartamento parecia pesado, denso, sufocando-me com memórias que eu queria apagar.

Meu celular vibrou imediatamente. Gabriel.

Eu sabia que ele ligaria. Ele sempre ligava quando eu tentava impor um limite. Era a única forma de conseguir a atenção dele.

Peguei o telefone. Meu coração batia tão forte que podia ouvi-lo em meus ouvidos.

"O que é isso, Manuela?" A voz dele era de irritação, não de preocupação. "Outro drama seu? Não pode ser. Você está tentando competir com uma gata agora?"

Eu fechei os olhos. As lágrimas que eu pensei terem secado voltaram a queimar.

"Gabriel..." Minha voz era um sussurro, rouca de tanto chorar.

"Não, Manuela. Eu não tenho tempo para isso. Yara perdeu a Luna. É uma tempestade lá fora! A gata está lá fora, sozinha e assustada! Você sabe o quanto a Luna é importante para ela."

Cada palavra dele era um golpe. Como um martelo batendo na mesma ferida, de novo e de novo.

"Minha mãe está morrendo, Gabriel."

Houve uma pausa do outro lado da linha. Uma fração de segundo de silêncio que me deu uma faísca de esperança. Talvez, apenas talvez, ele tivesse processado o que eu disse.

Mas então, ele riu. Um riso seco, sem humor, que me congelou até os ossos.

"Morrendo? Manuela, por favor. Eu acabei de falar com o médico dela. Ela está estável. Não tente usar a saúde da sua mãe para me manipular de novo. É baixo, até para você."

Eu não conseguia respirar. A bile subia pela minha garganta.

"Não estou manipulando você! Ela teve um AVC hemorrágico! Os médicos disseram que você é o único neurocirurgião de plantão que pode salvá-la!"

"AVC?" Ele disse a palavra como se fosse uma piada. "Manuela, eu estou no meio de uma emergência real aqui. Uma gata assustada. Você não entende? É uma vida!"

Minhas mãos tremiam incontrolavelmente. A imagem do rosto pálido da minha mãe, a forma como ela se agarrou à minha mão antes de desmaiar, tudo voltou com força brutal.

"Gabriel, por favor! Por favor, venha! É a minha mãe! A mãe que você prometeu cuidar quando me casei com você!"

"Não é hora para chantagem emocional, Manuela. Você sempre faz isso. Sempre um drama. Eu estou ocupado salvando uma vida que realmente precisa de mim. Não a sua mãe, que está perfeitamente bem, ou a sua sanidade, que parece estar em frangalhos."

A cada palavra, eu sentia um pedaço de mim se quebrar. Ele tinha razão. Eu o havia chantageado, sim. Mas não por mim. Por ela. Por minha mãe, Dona Cila, a única família que me restava no mundo.

Lembrei-me do dia do nosso primeiro aniversário de casamento, poucas horas antes. O jantar que eu havia preparado, as velas, a música suave. Eu tinha esperança. Tinha a inocência de acreditar que, talvez, ele pudesse começar a me ver.

Ele sequer tocou na comida. O telefone dele tocou, era Yara. A gata dela, Luna, havia fugido durante uma tempestade repentina.

Ele se levantou da mesa como se fosse um chamado de emergência médica.

"Eu preciso ir, Manuela. A Luna está assustada. Yara precisa de mim."

Eu tentei argumentar. "Mas Gabriel, é o nosso aniversário. Eu preparei tudo..."

Ele sequer me ouviu. Seus olhos já estavam longe, focados na sua "primeira paixão", como ele a chamava.

Quando ele saiu, a tempestade lá fora parecia espelhar a que se formava dentro de mim.

Foi quando o telefone tocou de novo. O número do hospital.

Minha mãe.

E agora, aqui estava ele, zombando da minha dor, da minha súplica.

"Não me ligue mais, Manuela", ele disse, a voz ficando mais dura. "Estou quase encontrando a Luna. Sua mãe está em boas mãos. Pare de fazer drama. Eu ligo quando terminar aqui."

Então, ele desligou.

Eu fiquei ali, com o telefone na mão, ouvindo o som da chamada encerrada. O eco do seu último 'clique' era o som da minha esperança morrendo.

Eu continuei ligando. Dez vezes. Vinte vezes. Trinta.

Ele não atendeu.

O hospital ligou novamente. Os médicos tentaram, mas sem o especialista, as chances eram mínimas.

Dona Cila não resistiu.

Eu desabei no chão frio do meu quarto, o lugar onde eu o esperava todos os dias, o lugar onde eu sonhava com um amor que nunca viria. Minha mãe se foi. A única pessoa que me amava incondicionalmente, a razão pela qual eu havia aceitado me casar com Gabriel, se foi.

Meu mundo virou pó.

Peguei meu celular novamente. A mensagem que eu havia enviado para ele no início da noite - "Eu quero o divórcio" - parecia uma piada cruel agora.

Não era mais um desejo. Era uma necessidade. Uma única verdade que restava na minha vida estilhaçada.

Não era mais raiva, nem dor. Era um vazio frio, um buraco negro onde meu coração costumava estar.

Flávia, minha melhor amiga, chegou correndo. Ela me encontrou encolhida no chão, com os olhos vermelhos e inchados, o corpo tremendo em espasmos silenciosos.

Ela não disse uma palavra. Apenas me abraçou, um abraço apertado que me fez sentir um fio de calor na escuridão.

Ela pegou meu celular. Seus olhos se arregalaram ao ver as chamadas perdidas e a última mensagem de Gabriel.

Ela ligou para ele. Sua voz, geralmente tão forte, falhou ao dar a notícia.

"A Dona Cila... ela morreu."

Ouvi Gabriel do outro lado, ainda indiferente. "Morte? Manuela não está mais com essas piadas, Flávia. Ela está chateada porque eu fui ajudar a Yara com a gata."

Flávia respirou fundo. Sua voz se tornou um aço frio. "Não é piada, Gabriel. Sua sogra, Dona Cila Lins, faleceu há duas horas. Deu a Deus por falta de socorro. Um socorro que você, o único de plantão, negou a ela."

Houve um silêncio pesado. Um silêncio que me fez tremer.

Então, Flávia me entregou o celular. Ela estava pálida. Seus olhos mareados encontravam os meus.

"Olha isso, Manuela", ela disse, a voz embargada.

Eu olhei para a tela. Era o Instagram de Yara. Uma foto dela, sorrindo, na praia, com Luna nos braços.

A legenda dizia: "Meu papai Gabriel encontrou a Luna! Que alívio! Meu herói!"

Minha visão embaçou. O mundo inteiro pareceu girar.

Gabriel estava lá, rindo na praia com Yara e a gata, enquanto minha mãe morria sozinha no hospital.

Ele escolheu a gata.

Ele escolheu a ex-namorada.

Ele me acusou de drama e mentiras.

E minha mãe, a única pessoa que valia a pena na minha vida, se foi por causa da sua negligência.

A dor era tão intensa, tão aguda, que eu senti como se um raio tivesse me atingido. Meu corpo parou de tremer. Minhas lágrimas secaram.

Eu não chorei mais. Não havia mais lágrimas. Apenas um frio cortante que se instalou dentro de mim. O tipo de frio que te transforma em pedra.

Eu não iria perdoá-lo. Nunca. Essa era a minha verdade agora.

Capítulo 2

Manuela Ruas POV:

Gabriel gritou no telefone. "Mentira! Ela está mentindo! Eu já disse que a Dona Cila estava estável! Manuela está te usando, Flávia! Não caia no jogo dela!"

A voz de Flávia estava tão tensa que parecia que ia quebrar. "Não é um jogo, Gabriel. É a verdade. Sua sogra morreu."

"Parem com essa palhaçada! Eu volto quando a Luna estiver segura. E quando eu voltar, Manuela, você vai me ouvir!" Ele sibilou, e a ligação foi cortada abruptamente.

Flávia soltou um suspiro de raiva, os olhos fixos no telefone. Ela me devolveu o aparelho, as mãos tremendo.

Eu mal conseguia ver a tela, mas as imagens daquela praia, daquele sorriso de Yara, estavam gravadas a fogo na minha mente. Aquele sol brilhante, as ondas, a felicidade de Gabriel – tudo em contraste com a escuridão do meu quarto de hospital, com o bip agonizante da máquina da minha mãe.

A ironia cruel da vida me sufocou. Ele, o homem a quem eu me vendi para salvar minha mãe, negou a ela a chance de viver. Em vez disso, ele estava brincando de "herói" para sua ex, resgatando um animal de estimação.

Aquele casamento. Foi uma tragédia desde o início.

Lembrei-me do dia em que Gabriel entrou no quarto da minha mãe, não como meu ex-marido, mas como o neurocirurgião brilhante e arrogante que ele era. Dona Cila precisava urgentemente de uma cirurgia cardíaca complexa, e os custos eram astronomicamente altos. Eu trabalhava em dois empregos, mas não era o suficiente.

Eu estava desesperada. Fui aos bancos, implorei, vendi tudo o que tinha. Nada era o bastante.

Foi então que Gabriel, o médico da minha mãe na época, fez uma proposta. Uma proposta que mudaria minha vida.

"Eu posso pagar o tratamento dela, Manuela", ele disse, seus olhos frios e calculistas. "Mas em troca, você vai se casar comigo."

Lembro-me de como minha boca se abriu. Casar? Eu mal o conhecia. Ele era o filho rico do dono do hospital, um homem de sucesso que exalava poder e indiferença.

"Por que?" Eu perguntei, a voz fraca.

Ele deu de ombros. "Conveniência. Meus pais querem que eu me case. E você, você é... apresentável. Discreta. Não vai me dar problemas. E o mais importante, você precisa de mim."

Eu hesitei. Casamento era algo sagrado para mim, uma união de amor. Mas minha mãe... minha mãe estava morrendo.

Eu aceitei. Aceitei ser um contrato, uma peça em seu jogo de aparências.

O irônico é que eu me apaixonei por ele.

Nos meses seguintes, enquanto minha mãe se recuperava, eu comecei a vê-lo de outra maneira. Em seus raros momentos de gentileza, quando ele me trazia um café, quando ele perguntava sobre o dia da minha mãe, uma pequena chama se acendeu em mim. Uma chama de esperança tola e ingênua.

Eu acreditei que, com o tempo, ele poderia me amar também. Que ele veria a mulher por trás do contrato.

Flávia, minha melhor amiga, casada com Edgar, irmão de Gabriel, era a única que sabia de tudo. Ela sonhava que nos tornaríamos uma família de verdade.

Eu também sonhava. Sonhava que ele esqueceria Yara, a ex que ainda assombrava seus pensamentos. Sonhava que ele me escolheria. Mas ele nunca o fez.

Eu me agarrei a ele, a essa falsa esperança, por gratidão. Por pensar que o devia por ter salvo minha mãe.

Agora, minha mãe se foi. E a gratidão se transformou em veneno.

Flávia estava ao meu lado, segurando minhas mãos. "Ele não merece uma única lágrima sua, Manu."

Mas as lágrimas continuavam a cair. Não só por ele, mas por minha mãe. Por minha vida desfeita.

Flávia me apertou em um abraço. "Eu estou aqui, sempre. Você não está sozinha."

O telefone dela tocou. Edgar.

Ela olhou para o nome na tela, a boca se curvando em um sorriso amargo.

"Pensei que ele estaria ocupado demais com a mais nova conquista", ela murmurou.

Flávia se casou com Edgar por arranjo familiar. Eles eram de famílias ricas, um casamento de negócios. Ele era um mulherengo assumido, sempre com uma nova modelo ou atriz a tiracolo.

Ela costumava defender ele. Dizia que ele era apenas... "jovial". Que no fundo ele a amava.

Até que as fotos vazaram. Edgar e uma atriz famosa, em um iate nas Maldivas. Não havia como negar.

Ela atendeu o telefone, a voz fria. "O que você quer, Edgar?"

Eu ouvi a voz dele, do outro lado, irritada. "Flávia, pare com isso. É apenas um mal-entendido. Aquela mulher me seguiu."

"Ah, sim", Flávia zombou. "E te seguiu até o quarto do hotel, e até a cama, e até as Maldivas. Que coincidência, não é?"

"Você está querendo brigar?" Ele perguntou, a voz subindo.

"Brigar?" Flávia riu, um riso sem alegria. "Não. Eu quero o divórcio. E pode me poupar do seu discurso manso sobre como você sentirá minha falta. Não sentirei a sua."

Houve um choque do outro lado. Ele não esperava isso.

"Divórcio? Flávia, não seja ridícula. Você está sendo dramática."

"Dramática?" A voz de Flávia era um trovão. "Eu não sou dramática, Edgar. Eu sou uma mulher que finalmente enxergou a verdade. Você e seu irmão são dois canalhas. E eu estou farta."

Ele xingou. "Você vai se arrepender disso. Eu vou te deixar sem nada."

"Tente", ela respondeu, a voz cheia de ódio. "Eu não preciso do seu dinheiro. E eu não preciso de você."

Ela desligou o telefone, os dedos tremendo. As lágrimas que ela segurava vieram com força.

"Eles são iguais, Manu", ela soluçou, me abraçando. "Dois vermes. Egoístas e cruéis."

Eu a abracei de volta, sentindo sua dor como se fosse a minha. Ela lutou tanto por ele, justificou suas infidelidades, suportou seu desprezo.

"Eu te amo, Flávia. E nós vamos sair dessa juntas."

Ela levantou a cabeça, os olhos vermelhos, mas com uma nova faísca. "Vamos. Vamos nos divorciar desses monstros. E vamos recomeçar. Você e eu."

Eu assenti. Era a única saída.

Depois do enterro da minha mãe, com o coração ainda em pedaços, enviei a mensagem de novo para Gabriel.

"Eu quero o divórcio. Assinaremos os papéis amanhã."

A resposta veio em segundos.

"Entendi. Pensei que você tivesse parado com seus joguinhos. Se é isso que você quer, eu aceito. Mas não venha choramingar depois que se arrepender."

Eu não respondi. Não havia mais nada para dizer.

Capítulo 3

Manuela Ruas POV:

Eu já havia ameaçado Gabriel com o divórcio várias vezes antes. Sempre que ele me humilhava, me ignorava, ou me trocava por Yara, eu explodia em raiva e desespero. Mas ele sempre sabia como me calar, me fazendo sentir culpada, manipulando minhas emoções com a desculpa da "gratidão" pela minha mãe. Eu sempre cedia, sempre pedia desculpas. Ele provavelmente pensou que desta vez seria igual.

Mas não seria.

Minha resposta para ele foi curta e direta. "Não me arrependo. Te vejo no cartório amanhã."

Ele respondeu com um emoji de polegar para cima. Frio e indiferente como sempre.

Eu não li mais nada. Queimei todas as pontes.

No dia seguinte, Flávia e eu chegamos ao cartório cedo. Nossos olhos estavam vermelhos de noites mal dormidas, mas havia uma determinação férrea em nossos rostos.

Nós esperamos. E esperamos.

Então, eles apareceram. Gabriel, com seu terno impecável, e Yara, parecendo uma flor frágil, agarrada ao seu braço. E, claro, a gata Luna, aconchegada nos braços de Yara, como um troféu macabro.

Yara era a ex-namorada da faculdade de Gabriel, a "primeira paixão" que ele nunca superou. Ela usava sua fragilidade e seus animais de estimação como armas para mantê-lo sob seu controle.

Eu apertei a mão de Flávia. Ver Luna, a gata que custara a vida da minha mãe, me fez sentir uma onda de náusea.

Gabriel sequer me olhou. Ele passou por mim como se eu fosse invisível, os olhos fixos na mesa do cartório.

"Nós podemos começar?", ele perguntou ao funcionário, a voz fria.

Eu dei um passo à frente. "Não, não podemos. Flávia também vai se divorciar. Estamos esperando o marido dela."

Gabriel franziu a testa, virando-se para mim com um olhar de raiva. "O que diabos você está fazendo, Manuela? Tentando transformar isso em um circo? Você quer destruir tudo?"

Flávia interveio, a voz calma, mas com um brilho perigoso nos olhos. "Não é ela, Gabriel. Sou eu. E sim, eu quero destruir tudo o que me aprisionava. Você e seu irmão são dois parasitas. E eu estou farta."

Yara, como sempre, interveio com sua voz melosa e fingida. "Oh, Manuela, Flávia, não vamos ser precipitadas. Tenho certeza que Gabriel não quer isso. Não é, querido? Ele se importa com você, Manuela. Ele só está um pouco..."

Eu a interrompi, a voz tão fria quanto a dele. "Por que você está falando por ele, Yara? Ele não tem voz própria?"

Yara recuou, os olhos marejados, fazendo beicinho para Gabriel. Ele se virou para mim, a raiva queimando em seus olhos.

"Como você se atreve a tratar Yara assim? Ela está apenas tentando ajudar!"

"Ajudar? Ela está aqui para esfregar na minha cara que você a escolheu, não é? E depois de tudo o que aconteceu, você ainda a defende?"

Yara agiu como se estivesse chocada. "Manuela! Eu não sabia que você era tão... Rancorosa. Ainda mais depois do que você disse sobre sua mãe. É feio desejar mal às pessoas."

"Desejar mal?" Eu ri, uma risada vazia. "Minha mãe morreu, Yara. Morreu porque o seu 'herói' estava ocupado buscando a sua gata. E você está aqui, com essa gata, fingindo preocupação?"

Gabriel me olhou com nojo. "Você é uma ingrata, Manuela. Minha família te deu tudo. E você ainda ousa falar assim da sua mãe?"

Minha mão tremeu quando eu tirei um envelope do meu bolso. Nele, estava a declaração de óbito da minha mãe.

"Ela morreu, Gabriel", eu disse, a voz embargada. "Ela morreu no mesmo hospital em que você estava de plantão. Morreu porque você se recusou a atendê-la. Morreu porque você achou que eu estava fazendo drama. Morreu porque você preferiu salvar a gata dela do que a minha mãe!"

Ele pegou o papel, deu uma olhada rápida, e um sorriso irônico apareceu em seus lábios. "Isso é uma piada, não é? Você falsificou isso para me chocar? Para me manipular de novo?"

"Manipular?" Eu balançava a cabeça, o corpo tremendo. "Você é inacreditável. Você é um monstro. Você é um covarde que não consegue encarar a verdade!"

"Eu estou decepcionado com você, Manuela", ele disse, a voz baixa e perigosa. "Pensei que você fosse melhor. Mas vejo que sempre foi uma atriz. Você não quer o divórcio, quer apenas atenção."

"Eu quero o divórcio!", eu gritei, perdendo o controle. "Eu quero me livrar de você! Você é um peso morto! Você é a razão da minha dor!"

"Tudo bem, então!" Ele jogou os papéis na mesa. "Você quer se livrar de mim? Ótimo! Eu assino! Mas você vai se arrepender de cada palavra que disse!"

Eu fechei os olhos por um momento, sentindo um cansaço profundo. Aquele homem não valia a pena. Ele não valia mais nada.

Quando abri os olhos, olhei para ele com um desprezo que eu nunca pensei ser capaz de sentir. "Você é um idiota, Gabriel. Um completo e absoluto idiota."

O rosto dele ficou vermelho. Ele nunca havia sido chamado de tal coisa. Eu o havia atingido onde mais doía: seu orgulho.

Ele deu um passo à frente, a mão levantada. Eu recuei.

Yara, vendo que a situação estava fugindo do controle, usou seu último trunfo. Luna, a gata, que estava nos braços dela, de repente pulou em minha direção.

Eu instintivamente a empurrei. Eu não queria machucar a gata, mas eu não queria aquele animal perto de mim.

Yara, com uma teatralidade digna de Oscar, caiu no chão, gritando. "Minha Luna! Você a machucou!"

Gabriel viu vermelho. "Manuela! Você ousou machucar a Luna?"

Ele veio para cima de mim, a mão estendida. Ele tentou agarrar meu braço, talvez para me chacoalhar, para me forçar a pedir desculpas.

Eu me esquivei, mas ele estava muito perto. Em seu movimento desajeitado, ele me empurrou.

Eu perdi o equilíbrio. Minhas costas atingiram a borda afiada da mesa de vidro do cartório. Uma dor aguda e lancinante explodiu em meu abdômen.

Um grito escapou da minha garganta. Minhas mãos foram direto para a minha barriga, tentando proteger algo que eu ainda não havia revelado a ninguém.

Eu caí no chão. Uma poça escura começou a se espalhar sob mim.

"Minha barriga...", eu sussurrei, a voz tremendo. "Dói... minha barriga..."

Flávia correu até mim, os olhos arregalados de horror. Ela viu o sangue. Ela viu o meu pânico.

"Manu! O que aconteceu?" Ela me segurou, tentando estancar o sangramento.

Ela olhou para Gabriel, que estava paralisado. "Seu monstro! Olha o que você fez! Você a empurrou! Ela está grávida, seu desgraçado! Você a empurrou!"

Gabriel congelou. O sangue escorreu do meu corpo, manchando o chão de branco do cartório.

Seus olhos se arregalaram, fixos na poça vermelha, no meu rosto pálido.

Ele não sabia. Ninguém sabia. Eu queria contar a ele no nosso aniversário. Queria dar a ele a chance de mudar.

Agora, eu tinha perdido tudo. Minha mãe. Meu filho. E a última centelha de esperança que eu tinha guardado para um futuro melhor.

Gabriel ficou ali, como uma estátua, o rosto branco como papel, os lábios tremendo.

Ele não conseguia falar. A realidade o atingiu com a força de um raio.

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