Eu era a noiva substituta, a filha bastarda secreta forçada a se casar com o bilionário Heitor Dantas quando minha meia-irmã perfeita fugiu.
Minha vida era um inferno silencioso de sua crueldade e controle doentio. Então, minha irmã, Alice, voltou.
Em uma festa, ela nos empurrou para dentro da baía. Enquanto eu lutava desesperadamente por ar, vi Heitor mergulhar e salvá-la, me deixando para morrer afogada.
Quando descobri que estava grávida, ele me arrastou para um hospital para "se livrar do obstáculo". O procedimento quase me matou.
Então, Alice me incriminou por roubo, e Heitor mandou me açoitar até eu sangrar no piso de mármore.
Ele me disse que minha vida pertencia a ele, que eu era um brinquedo que ele podia quebrar e consertar como quisesse. Eu não passava de uma substituta barata para a mulher que ele realmente queria.
Então, quando sequestradores o forçaram a escolher entre salvar Alice ou a mim, ele me sacrificou sem hesitar. Enquanto me arrastavam, eu o vi confortando-a, de costas para mim. Essa era a minha chance. Eu me libertei e mergulhei no oceano enquanto uma bala roçava minha pele. Era hora de todos acreditarem que eu estava morta.
Capítulo 1
O velho relógio de pêndulo no corredor badalou meia-noite. Cada badalada era uma martelada contra o silêncio da mansão. Deslizei para fora do quarto principal, meus pés silenciosos no carpete felpudo. Heitor estava fora, um raro momento de liberdade para mim.
Entrei sorrateiramente na biblioteca, o cheiro de couro antigo e seu perfume importado caro pairando no ar. Minha mão tremia enquanto eu pegava o celular pré-pago de trás de uma fileira de livros de Direito que ele nunca lia.
Disquei o número de memória.
Atendeu no primeiro toque.
"Léo", sussurrei, minha voz tensa.
"Clara. Você está bem?" A voz dele era calma, uma âncora firme em meu medo turbulento. Era uma voz que eu conhecia a vida inteira, desde que éramos apenas duas crianças assustadas no orfanato.
"Eu não aguento mais", disse eu, as palavras saindo apressadas. "Ele... está piorando. Eu preciso sair daqui."
Houve uma pausa do outro lado. Eu podia imaginá-lo, sentado em seu escritório impecável, o rosto sério. Léo, que construiu um império de segurança de elite do nada, exatamente como prometera que faria quando éramos crianças.
"O plano está pronto", disse ele, seu tom firme. "Mas é extremo, Clara. Você sabe disso, certo? Forjar sua própria morte... não tem volta."
"Eu sei." Minha garganta estava seca. "Eu não quero voltar. Não há nada para o que voltar."
Para me livrar de Heitor Dantas, eu pagaria qualquer preço. Para escapar desta jaula dourada, eu a queimaria até o chão comigo dentro.
"A festa de gala é em duas semanas", disse Léo. "Essa é a nossa janela. Terei tudo preparado. Apenas aguente firme até lá."
"Duas semanas", repeti. Parecia uma vida inteira.
"Eu estarei lá", ele prometeu. "Vou tirar você daí."
Desligamos. Por um segundo, uma onda de alívio me invadiu. Esperança era uma coisa perigosa nesta casa, mas eu me permiti senti-la.
Guardei cuidadosamente o celular de volta em seu esconderijo, meus dedos roçando a lombada gasta de um livro. Minha fuga. Meu futuro.
Virei-me para sair, e meu coração parou.
Heitor estava encostado no batente da porta, me observando. Ele usava um terno preto perfeitamente talhado, a gravata afrouxada. Devia ter acabado de chegar em casa.
Eu não tinha ideia de há quanto tempo ele estava ali.
"Com quem você estava falando?", ele perguntou. Sua voz era suave, quase gentil, o que era sempre mais aterrorizante do que quando ele gritava.
Meu sangue gelou. Minha mente disparou, procurando uma mentira. Meu coração martelava contra minhas costelas, tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
"Apenas um velho amigo", disse eu, tentando manter a voz firme. "Do orfanato."
"Um amigo?" Ele se desencostou do batente e caminhou lentamente em minha direção. Seus olhos, da cor de aço frio, examinaram meu rosto, procurando a verdade. "Você é uma péssima mentirosa, Clara."
Tentei recuar, mas minhas pernas não se moviam. Eu estava congelada.
"Eu não te dou tudo o que você precisa?", ele continuou, sua voz baixando ainda mais. "Por que você precisaria falar com qualquer outra pessoa?"
"Me desculpe", sussurrei, meu olhar fixo no chão. Era a única resposta que parecia apaziguá-lo, mesmo que por um momento.
Ele parou na minha frente, tão perto que eu podia sentir o calor emanando de seu corpo. Ele levantou uma mão e ergueu meu queixo, forçando-me a encontrar seus olhos.
"Deixe-me ver", ele murmurou.
Ele passou o polegar sobre um hematoma fraco na minha bochecha, uma pequena marca escura que ele havia deixado ali duas noites atrás. Seu toque era leve, quase uma carícia.
"Ainda dói?", ele perguntou. A pergunta era uma forma distorcida de cuidado, um lembrete de que ele era a fonte da minha dor e o único que podia fingir aliviá-la.
Recusei-me a responder, meu maxilar travado. Dar-lhe essa satisfação só pioraria as coisas.
Ele suspirou, seus dedos apertando meu maxilar. Ele me pressionou contra a estante, as lombadas duras dos livros cravando em minhas costas. "Eu te fiz uma pergunta."
A pressão era imensa. A dor no meu maxilar explodiu. Eu não podia lutar contra ele, não fisicamente. Eu aprendi isso há muito tempo.
Uma lágrima escapou do meu olho e deslizou pela minha têmpora. "Sim", engasguei.
"Bom." Um pequeno sorriso satisfeito tocou seus lábios. Ele se inclinou, sua boca ao lado do meu ouvido. "Nunca mais minta para mim. E não pense por um segundo que pode me deixar. Você me pertence, Clara. Você é minha esposa."
Ele sabia. Devia ter ouvido alguma coisa. O pânico era uma coisa viva dentro de mim, arranhando minha garganta.
Ele se afastou, seus olhos escuros e possessivos. Ele me olhou de cima a baixo, um olhar lento e avaliador que fez minha pele arrepiar.
"Agora, vá para a cama", ele ordenou. "Alice chega em casa amanhã. Espero que você se comporte da melhor maneira possível."
Alice. Minha meia-irmã. A filha perfeita e amada da dinastia Medeiros. A mulher com quem ele deveria se casar.
A mulher que fui forçada a substituir.
A memória me atingiu com a força de um golpe físico. O dia em que homens de terno preto vieram ao meu pequeno apartamento e me disseram que eu não era apenas Clara, uma órfã e uma artista esforçada. Eu era Clara Medeiros, a filha ilegítima de um dos homens mais poderosos do país.
Eu tinha sido um segredo, uma vergonha a ser escondida. Até que precisaram de mim.
Alice, a filha de ouro, havia fugido, recusando-se a seguir com o casamento arranjado com o bilionário de tecnologia Heitor Dantas. Um casamento que deveria selar uma fusão corporativa multibilionária.
Então eles vieram atrás de mim. A peça de reposição. A substituta.
Meu pai, um homem que eu nunca conheci, olhou para mim com olhos frios e calculistas. "Você vai se casar com ele no lugar dela", ele disse. Não era um pedido. Era uma ordem. "É o mínimo que você pode fazer por esta família."
Por um momento fugaz, eu tive esperança. Esperança de uma família, de um lugar para pertencer.
Essa esperança morreu no momento em que conheci Heitor Dantas. Ele olhou para mim com tanto desprezo, tanto nojo indisfarçável. Eu não era o prêmio que lhe fora prometido. Eu era uma imitação barata, e ele me faria pagar por isso todos os dias.
Eu me lembro do dia do meu casamento. Não foi uma celebração. Foi uma transação.
Quando Heitor levantou o véu, seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo. O choque foi rapidamente substituído por uma fúria fria e latente.
"Quem é você?", ele sibilou, sua voz baixa para que apenas eu pudesse ouvir. "Você não é a Alice."
Esse foi o começo da minha punição. Ele me via como um lembrete constante do engano dos Medeiros. Minha existência em sua casa era uma humilhação que ele tinha que suportar, e ele se certificou de que eu a suportasse com ele.
Uma noite, bêbado e com raiva, ele entrou no meu quarto. Cheirava a uísque e fúria. Na escuridão, ele deve ter me confundido com ela. Ele sussurrou o nome de Alice enquanto se forçava sobre mim, seu toque brutal e impiedoso.
Quando terminou, ele acendeu a luz. Ele olhou para mim, seus olhos clareando. Por um momento, vi algo piscar em suas profundezas – confusão, talvez até um pingo de arrependimento. Mas desapareceu tão rápido quanto veio, substituído por sua máscara fria de sempre.
Depois disso, as regras se tornaram mais rígidas. Eu deveria ser uma boneca perfeita e silenciosa. Tinha que me vestir como ele queria, falar quando me dirigissem a palavra e sorrir para as câmeras. Uma prisioneira em um palácio.
A dor no meu maxilar era uma pontada surda quando acordei na manhã seguinte. Era uma dor familiar.
Na mesa de cabeceira havia um copo de água e dois analgésicos. Ao lado deles, um bilhete na caligrafia afiada e precisa de Heitor.
'Use o vestido azul. Esteja no andar de baixo às nove. Não me decepcione.'
Engoli os comprimidos, o amargor cobrindo minha língua. Fiz o que me foi mandado. Eu sempre fazia.
O vestido azul era uma linda e sufocante bainha de seda. Uma empregada me ajudou com o zíper, seus olhos evitando cuidadosamente os meus. Todas elas sabiam. Elas viam os hematomas. Elas ouviam as discussões. Mas eram leais ao homem que assinava seus cheques.
A festa de gala beneficente foi realizada em um local luxuoso à beira da água. A mão de Heitor era um peso na base das minhas costas, me guiando pela multidão. Ele sorria para os fotógrafos, seu braço possessivamente em volta da minha cintura. Uma imagem perfeita de um casamento feliz. Era tudo uma mentira.
Então, ela chegou.
Alice Medeiros.
Ela fez uma entrada, é claro. Vestida com um deslumbrante vestido prateado, ela capturou todos os olhares na sala. Ela era linda, radiante, e sabia disso.
Ela caminhou direto para Heitor, um sorriso deslumbrante no rosto. "Heitor, querido. Eu voltei."
Ele enrijeceu ao meu lado, mas seu rosto público não vacilou. "Alice. Que surpresa."
Sua mão, ainda nas minhas costas, apertou seu aperto. Não era um gesto de conforto. Era um aviso. Fique na linha.
Os olhos de Alice se voltaram para mim, um flash de desprezo em suas profundezas azuis. "E a Clara. Ainda brincando de casinha, pelo visto."
Ela se inclinou e beijou a bochecha de Heitor, um gesto deliberadamente íntimo. Eu fiquei ali, um fantasma em sua reunião.
Então eu notei. Ela estava usando um vestido prateado, quase idêntico em estilo ao meu azul. Uma escolha cruel e deliberada. Uma mensagem para mim e para todos os outros que assistiam: eu sou a original. Você é apenas a cópia.
Heitor nos levou a uma mesa, sua atenção agora completamente em Alice. Ele estava rindo de algo que ela disse, uma risada genuína que eu não ouvia há meses.
Antes de sair para falar com um sócio, ele se inclinou sobre mim. Seus lábios roçaram meu ouvido. "Não se mova desta mesa", ele sussurrou. Então ele beijou minha bochecha, uma exibição pública e fria de posse que fez os olhos de Alice se estreitarem.
No momento em que ele se foi, a fachada doce de Alice caiu. "Você acha que isso significa alguma coisa?", ela zombou. "Ele está apenas marcando seu território. Um cachorro mijando em um hidrante."
Ela pegou sua taça de champanhe. "Você parece patética nesse vestido. Uma imitação barata."
Com um movimento do pulso, ela "acidentalmente" derramou seu champanhe todo em mim. O líquido gelado encharcou a seda, grudando na minha pele.
Antes que eu pudesse reagir, ela tropeçou para trás, me puxando com ela. Seu grito de falsa surpresa foi abafado pelo barulho da água quando nós duas caímos por cima do corrimão e na água escura da baía.
O caos explodiu. As pessoas gritaram. O frio tirou o ar dos meus pulmões. Lutei para me manter à tona, o vestido pesado me puxando para baixo.
Eu vi Heitor na beira do deque. Seus olhos encontraram os meus por um segundo. Não houve hesitação.
Ele mergulhou, mas não nadou em minha direção. Ele nadou em direção a Alice.
Ele a puxou para seus braços, embalando-a como se fosse feita de vidro. Ele ignorou meus suspiros desesperados por ar, ignorou meus braços se debatendo. Ele havia feito sua escolha.
Eu estava afundando. O mundo era um borrão de água escura e sons abafados. Ele estava me abandonando. Deixando-me para morrer.
Justo quando minha visão começou a escurecer, braços fortes me envolveram, me puxando para a superfície. Era um dos funcionários do evento. Ele me arrastou para o deque, onde eu fiquei tossindo e tremendo, um monte patético e encharcado.
Do outro lado do deque, Heitor estava envolvendo seu próprio paletó nos ombros de Alice, murmurando palavras suaves de conforto. Ele nem sequer olhou na minha direção. Ele apenas levou Alice embora, me deixando para trás sem um segundo pensamento.
Fui levada para casa e trancada na adega. O ar era frio e úmido, a escuridão absoluta. Era meu castigo por envergonhá-lo. Por ofuscar a verdadeira estrela do show.
Horas depois, a porta pesada rangeu ao abrir. Heitor estava silhuetado na porta.
"Você sabe o que fez de errado?", ele perguntou, sua voz ecoando no pequeno espaço.
Fiquei em silêncio, encolhida no chão de pedra fria.
Errado? Meu único erro foi acreditar, por um segundo insano, que ele poderia me escolher. Que eu poderia importar de alguma forma.
Eu estava errada por existir. Errada por ser uma Medeiros. Errada por ser sua esposa.
Mas logo, eu estaria livre. O pensamento era uma pequena brasa quente na escuridão gelada. Apenas mais duas semanas. Então eu estaria livre.
Eles me deixaram sair do porão depois de dois dias. Eu estava fraca, com febre por causa do frio.
Eu flutuei em uma névoa de doença. Em meu estado semiconsciente, às vezes sentia uma mão fria na minha testa, uma voz murmurando meu nome. Pensei que poderia ser Heitor, um vislumbre de seu estranho e possessivo "cuidado".
Quando a febre finalmente cedeu, me senti forte o suficiente para sair da cama. Desci as escadas, minhas pernas instáveis.
O som de risadas me atraiu para a sala de estar.
Heitor estava lá, sentado no sofá. Alice estava aninhada ao lado dele, a cabeça em seu ombro. Ele acariciava suavemente o cabelo dela, da mesma forma que às vezes me tocava no meio da noite, quando pensava que eu estava dormindo.
Uma memória emergiu. Um dos raros e confusamente gentis momentos. Ele estava traçando a linha do meu maxilar, seu toque leve como uma pluma. "Tão macia", ele murmurou, sua voz grossa de sono.
Vê-lo fazer o mesmo por Alice, tão abertamente, tão ternamente, foi como um soco no estômago.
Nunca era eu que ele estava tocando. Era sempre ela. Eu era apenas uma substituta, um corpo quente para preencher seu espaço até que ela decidisse retornar. A percepção se instalou em meu peito, pesada e fria como uma pedra.
Alice me viu pairando na porta. "Clara! Venha, junte-se a nós", ela chamou, sua voz doentiamente doce.
Eu queria virar e correr. Queria me esconder no meu quarto até Léo vir me buscar.
"Clara." A voz de Heitor era uma ordem. "Sente-se."
Eu obedeci, meu corpo se movendo por instinto. Sentei-me na poltrona em frente a eles, sentindo-me como uma espectadora em meu próprio funeral.
Heitor pegou um pequeno bolo da mesa de centro. "Você não comeu. Coma um pouco disso." Ele estendeu para mim.
Era um bolo de chocolate rico, do tipo que ele sabia que eu odiava. O cheiro me revirou o estômago. Uma onda de náusea me invadiu.
"Não estou com fome", disse eu, minha voz mal um sussurro.
"Eu não estava perguntando." Seus olhos eram duros. "Coma."
Peguei o bolo, minha mão tremendo. Forcei uma pequena mordida na boca. A doçura enjoativa era avassaladora. Meu estômago se revoltou.
Levantei-me de um salto, cobrindo a boca, e corri para o banheiro mais próximo, onde vomitei violentamente.
Quando saí cambaleando, minha cabeça girando, desmaiei. A última coisa que vi foi o rosto de Heitor, sua expressão indecifrável, antes que o mundo ficasse preto.
Acordei com o cheiro estéril de um hospital. A luz era muito forte.
Um médico falava em voz baixa do outro lado de uma cortina. "Os exames são conclusivos. A Sra. Dantas está grávida."
Grávida. A palavra ecoou na sala silenciosa.
"Ela está com cerca de seis semanas", continuou o médico. "Mas sua saúde está muito debilitada. Desnutrida, anêmica... ela precisa de repouso absoluto. Outro choque como o que ela teve pode ser perigoso tanto para ela quanto para o feto."
A cortina foi puxada para o lado. Heitor estava lá, seu rosto uma máscara de pedra. Alice estava ao seu lado, suas feições perfeitas torcidas em uma expressão feia de choque e ciúme.
Heitor olhou para o médico, sua voz desprovida de qualquer emoção. "Livre-se disso."
O médico pareceu surpreso. "Sr. Dantas, devo desaconselhar. Dada a condição frágil de sua esposa, um procedimento de interrupção acarreta riscos significativos."
"Estou ciente dos riscos", disse Heitor, sua voz fria como gelo. "E eu tomei minha decisão. Ela é minha esposa. A escolha é minha."
Eu estava acordada. Ouvi cada palavra. Minha mão instintivamente foi para o meu estômago. Um bebê. Nosso bebê. Um pequeno e impossível lampejo de vida dentro de mim.
E ele ia apagá-lo sem um segundo pensamento.
Eu não tinha voz. Nem direitos. Eu era apenas um recipiente, e meu conteúdo era um inconveniente para seus planos com Alice.
"Preparem para o procedimento", Heitor ordenou ao médico, seu tom não deixando espaço para discussão.
Ele se virou e seus olhos encontraram os meus. Eu estava deitada na cama, indefesa, uma lágrima traçando um caminho pela sujeira na minha bochecha.
Ele caminhou até a minha cabeceira. Por um momento, vi aquele lampejo de algo novamente em seus olhos. Era arrependimento? Pena?
Então ele se inclinou, sua voz um sussurro baixo apenas para meus ouvidos. "Isso é para o melhor, Clara. Um obstáculo que não precisamos."
Era apenas uma ilusão. Qualquer suavidade era um produto da minha imaginação desesperada. Não havia humanidade neste homem.
Eles me levaram em direção à sala de cirurgia. Quando as portas se abriram, olhei para trás para ele uma última vez. Ele ficou lá, me observando, sua expressão uma máscara fria e indecifrável.
O procedimento foi um pesadelo. Eu estava acordada, a anestesia não pegando totalmente. Dor, aguda e ofuscante, me rasgou por dentro.
Então, algo deu errado. Ouvi a voz em pânico de uma enfermeira.
"Doutor, ela está com hemorragia! Estamos perdendo ela!"