O Atlântico estava negro como tinta derramada sob o céu sem lua. O cruzeiro Mediterraneo Reale cortava as águas com a arrogância de quem acreditava ser intocável, lustre de cristal nos salões, champanhe francês a trezentos dólares a garrafa, e um silêncio de luxo que só dinheiro sujo conseguia comprar. No convés superior, Alessandro Vitale apoiava os cotovelos no parapeito de aço e observava o horizonte como se pudesse enxergar os inimigos que ainda não tinham aparecido.
Aos trinta e quatro anos, ele já era o Don da Famiglia Vitale, o braço mais temido da Camorra napolitana. Não herdara o trono. Conquistara-o. Aos dezenove, viu o pai ser executado numa emboscada em Posillipo; aos vinte e um, retaliou matando pessoalmente os três homens responsáveis e mandando as cabeças de volta numa caixa de vinhos. Aos vinte e cinco, eliminou o tio que tentou tomar o controle durante a sua ausência na Sicília. Aos trinta, consolidou o porto de Nápoles, as rotas de cocaína do Norte da África e metade dos cassinos ilegais da costa amalfitana. Quem o enfrentava sumia. Quem o traía era encontrado com a língua cortada e os olhos abertos. Alessandro não sorria em público, não perdoava e tão pouco se apaixonava. Paixões desviavam o foco e o sangue que corria nas veias dele era frio demais para isso.
Naquela noite, porém, algo estava errado. O instinto que o mantivera vivo por quinze anos de guerra sussurrava atrás da orelha. Ele vestia um terno preto sob medida, a camisa branca aberta no colarinho, o coldre escondido sob a jaqueta. O uísque no copo permanecia intocado. Os olhos cinza-escuros, da cor de chumbo molhado, varriam o convés com precisão cirúrgica. Dois de seus homens estavam no salão principal. Outros três circulavam pelos corredores. Ainda assim, o ar cheirava a pólvora antes mesmo do primeiro tiro.
O primeiro estampido veio da proa.
O segundo estilhaçou o vidro do bar ao lado dele.
Alessandro girou no mesmo instante em que a terceira bala rasgou o ar. A dor explodiu no ombro direito como se um ferro em brasa tivesse sido cravado na carne. O impacto o jogou para trás. O copo de cristal voou, estilhaçando-se no chão. Gritos ecoaram. Mulheres em vestidos de seda corriam. Homens empurravam-se. O luxo do cruzeiro transformou-se em caos em menos de três segundos.
Ele tentou sacar a Beretta, mas o braço direito não respondeu. O sangue já escorria quente pela manga, grudando o tecido na pele. De repente o som seco de outro tiro. Este passou tão perto da cabeça que ele sentiu o vento quente da bala. Alessandro cambaleou, a visão turvando por um instante. Foi quando mãos firmes, pequenas, mas desesperadas, agarraram a lapela do terno dele e o puxaram com força bruta.
Isabella Rossi não pensou. Só agiu.
Ela estava atrás do balcão do bar do convés, escondida atrás do nome falso de Elena Bianchi, um passaporte veneziano comprado por cinco mil euros e um vestido preto simples que escondia o corpo que o pai tentava vender em casamento. Tinha fugido de Nápoles três semanas antes, embarcado no cruzeiro em Gênova com a intenção de sumir em Nova York. Agora, o homem mais perigoso que ela já vira de longe, o mesmo homem cujo nome o pai pronunciava com ódio venenoso, desabava contra ela com um buraco de bala no ombro.
Isabella o arrastou para trás do balcão de mármore preto no mesmo segundo em que mais tiros estouraram acima deles. O corpo dele era pesado, sólido, feito de músculo e violência acumulada. Ela caiu de costas no chão frio do bar, e Alessandro caiu sobre ela. O impacto tirou-lhe o ar. O cheiro dele invadiu as narinas dela de uma só vez: uísque caro, suor limpo e algo metálico que só depois reconheceu como sangue.
- Fica quieto - sussurrou ela, a voz rouca de adrenalina.
As mãos dela pressionaram o ombro ferido com toda a força que tinha. O tecido da camisa branca já estava encharcado. O sangue escorria entre os dedos dela, quente, pegajoso e vivo.
Alessandro grunhiu, com os dentes cerrados. Os olhos cinzentos encontraram os dela por um segundo, castanhos escuros, assustados e determinados. Ele não reconheceu o rosto. Não precisava. Naquele momento, só importava sobreviver.
Mais tiros. Estilhaços de madeira e cristal choveram sobre o balcão. Alguém gritou em italiano, a voz estridente de puro pânico:
- Sparano! È un attentato! Abbassatevi!
(Atirem! É um atentado! Abaixem-se!)
Outro grito veio logo em seguida, em inglês:
- Shots fired! Get down! He's hit!
(Tiros! Abaixem-se! Ele foi atingido!)
Passos pesados se aproximavam. Homens gritavam ordens em duas línguas, as vozes se atropelavam:
- Proteggete il Don!
(Protejam o Don!)
- Cover him! Move!
(Cubram ele! Mexam-se!)
- Don Vitale! Don Vitale, dove siete?!
(Don Vitale! Don Vitale, onde está?!)*
- He's bleeding out!
(Ele está sangrando até a morte!)
Alessandro reconheceu a voz de um de seus capos cortando o caos:
- Don Vitale! Restate a terra! Stiamo arrivando!
(Don Vitale! Fique no chão! Estamos chegando!)
Ele tentou responder, mas a garganta só produziu um som rouco. Isabella apertou mais a ferida, o corpo dela inteiro tensionado sob o dele. O vestido preto dela estava manchado. O sangue dele já tinha atravessado o tecido fino e agora escorria entre os seios dela, quente, insistente, traçando caminhos escarlates na pele exposta pelo decote.
Alessandro sentia a consciência oscilar nas bordas. Anos de guerra o tinham ensinado a reconhecer o momento em que o corpo começava a desligar. Ele forçou os olhos a permanecerem abertos, fixos no rosto da mulher desconhecida que o estava salvando. Cabelo escuro preso de qualquer jeito, pele pálida sob as luzes de emergência que agora piscavam no convés, lábios apertados de concentração. Havia algo nela, uma teimosia feroz, que o fez pensar, no meio da dor, que ela não era uma passageira comum.
Fora do balcão, os tiros diminuíram. Os gritos continuavam, mas agora mais distantes, misturados ao barulho de corridas e ordens em italiano e inglês. Alessandro sentiu o peso do próprio corpo afundar. A dor no ombro latejava em ondas. A visão escurecia nas bordas. A última coisa que registrou antes da consciência falhar foi o cheiro dela, algo doce e limpo sob o metal do sangue, e a forma como o coração dela batia rápido demais contra o peito dele.
O peso do corpo dele caiu completamente sobre ela; o sangue quente escorreu entre os seios dela, manchando a pele e o tecido, enquanto os gritos e os tiros ainda ecoavam no Atlântico negro. Ao fundo, mais tiros, mas o que o poderoso Alessandro Vitale não sabia é que o verdadeiro inimigo estava diante dele usando seda e sem possuir arma de fogo o dominaria para sempre.
A dor trouxe Alessandro de volta antes que a escuridão pudesse engoli-lo por completo. Um latejar quente e insistente no ombro direito. O cheiro metálico do próprio sangue. O peso de um corpo pequeno e tenso sob o dele. E uma voz baixa, firme, quase irritada, murmurando palavrões em italiano enquanto mãos apertavam um tecido contra a ferida.
Ele abriu os olhos com esforço. A visão ainda oscilava, mas conseguiu focar no rosto da mulher que o segurava. Cabelo castanho-escuro, quase preto, preso de qualquer maneira num coque desfeito que agora soltava mechas grudadas na testa suada. Olhos castanhos profundos, da cor de café forte, arregalados pela adrenalina, mas sem o pânico histérico que ele esperava de uma civil. Lábios cheios, apertados numa linha de concentração. Pele clara, agora manchada de vermelho, onde o sangue dele escorreu pelo decote do vestido preto. Havia uma pequena cicatriz fina logo abaixo da clavícula esquerda, quase invisível. E um anel antigo, de ouro desgastado, no dedo anelar da mão direita, o tipo de joia que famílias antigas passavam de geração em geração. Aquela mulher não era uma passageira comum. Aquilo era óbvio para um homem com visão de lince feito ele.
- Você... - a voz dele saiu rouca, quebrada. - Quem é você?
Ela não respondeu de imediato. Continuou pressionando o ombro ferido com um pedaço de toalha que arrancou de algum lugar atrás do balcão. O convés ainda fervilhava lá fora. Gritos distantes. Passos. O eco de ordens em italiano e inglês. Mas, atrás daquele balcão de mármore, o mundo parecia ter encolhido para o espaço entre os dois corpos.
- Elena - disse ela finalmente, sem olhar nos olhos dele. - Elena Bianchi.
Alessandro franziu a testa. A dor latejava, mas a mente dele, treinada por anos de traições e emboscadas, já trabalhava. Elena Bianchi é um nome neutro demais. Ela tinha um sotaque napolitano escondido sob uma camada forçada de neutralidade. E aquele anel, ele já vira joias parecidas em dedos de famílias rivais.
- È una bugia! Tutto di te è una bugia - grunhiu ele.
(Mentira! Tudo em você é uma mentira.)
Ela ergueu o olhar de súbito. Os olhos castanhos encontraram os dele sem recuar.
- Acredite no que quiser. Agora pare de se mexer antes que você desmaie de novo e eu tenha que carregar o seu corpo pesado sozinha.
Havia fogo nela. Não o fogo histérico de alguém em choque. Era algo mais antigo e cansado. Alessandro reconheceu aquele tipo de resistência. Era a mesma que ele viu nos olhos de homens que já tinham perdido demais e ainda assim se recusavam a quebrar.
Isabella Rossi, porque era esse o nome verdadeiro que ela escondia, apertou mais a toalha contra a ferida, ignorando o modo como os dedos dele tentavam se fechar em torno do pulso dela. O sangue já não escorria com a mesma força, mas a camisa branca de Alessandro estava arruinada, colada à pele. O terno preto, tão impecável minutos antes, agora parecia o uniforme de um homem que acabara de sair de uma guerra.
Ela sabia exatamente quem ele era.
Alessandro Vitale. O Don da Famiglia Vitale. O homem cujo nome o pai dela pronunciava como se fosse uma praga. O mesmo homem que, segundo os boatos nos corredores da mansão Rossi, tinha mandado matar dois primos distantes da família dela três anos antes por causa de uma rota de contrabando em Bari. Isabella cresceu ouvindo histórias sobre ele. O monstro de Nápoles. O viúvo sem coração. O homem que construiu um império sobre ossos. E agora esse monstro sangrava nos braços dela.
A trajetória que a trouxe até aquele convés começara meses antes, numa sala de jantar iluminada por lustres de cristal. O pai, Lorenzo Rossi, Don da família rival, anunciara o noivado dela com o filho de um aliado siciliano como se estivesse assinado um contrato de exportação. Isabella tinha vinte e seis anos. Formada em história da arte. Falava quatro línguas. Sonhava em sumir num apartamento pequeno em algum lugar onde ninguém soubesse o sobrenome Rossi. Em vez disso, o pai colocou um anel de noivado na mesa e disse, com a calma de quem ordenava uma execução:
- Você se casa em três meses. Ou eu quebro as pernas do único amigo que te resta e te entrego assim mesmo.
Ela não chorou na frente dele. Esperou a noite. Roubou um passaporte falso de um dos homens de confiança do pai, um documento veneziano em nome de Elena Bianchi, tirou todo o dinheiro que conseguira esconder ao longo dos anos e embarcou no primeiro cruzeiro que saía de Gênova com destino a Nova York. A intenção era simples: desaparecer, recomeçar e nunca mais ouvir o nome Rossi.
Agora, o homem que o pai mais odiava no mundo estava deitado sobre ela, sangrando, e ela não conseguia simplesmente deixá-lo morrer.
- Precisa de pontos - murmurou Isabella, mais para si mesma do que para ele. - E antibiótico. E alguém que não seja eu.
Alessandro soltou uma risada rouca que virou um espasmo de dor.
- Meus homens estão lá fora.
- Seus homens estão atirando em todo mundo que se mexe - retrucou ela. - E eu não pretendo levar um tiro tentando chamar alguém.
Ela olhou em volta e percebeu que atrás do balcão havia prateleiras viradas, garrafas quebradas e um pequeno kit de primeiros socorros de emergência que o bar mantinha para cortes de coquetel. Com mãos firmes, apesar do tremor que tentava subir pelos braços, Isabella rasgou mais um pedaço de toalha limpa, abriu uma garrafa de uísque caro que ainda estava intacta e regou a ferida.
Alessandro xingou em italiano, o corpo inteiro se contraindo.
- Cazzo! Brucia da morire!
(Porra! Arde pra caralho!)
- Aguenta - disse ela, sem pena. - Tenho certeza que você já sobreviveu a coisas piores.
Ele a encarou de novo. Os olhos cinzentos, nublados pela dor e pelo álcool que ainda circulava no sangue, estudavam cada detalhe do rosto dela. A curva da boca, a cicatriz fina e o anel antigo que circulava em suas lembranças.
- Você não é Elena Bianchi - afirmou ele, a voz baixa, perigosa mesmo ferido. - Quem é você de verdade?
Isabella sentiu o coração disparar. Por um segundo, quase contou. Quase disse o sobrenome que faria ele a matar ali mesmo, ou pior: usá-la como isca contra o pai. Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto.
- Eu sou a mulher que está te impedindo de sangrar até a morte neste convés - respondeu ela, segurando o olhar dele. - Por enquanto, isso deveria ser o bastante.
Alessandro ficou em silêncio. A dor e o uísque que ela acabara de derramar na ferida (e o pouco que ainda restava no sistema dele) lutavam contra a desconfiança. Ele era um homem que desconfiava de todo mundo, mas o corpo traía a mente. O ombro latejava, a cabeça pesava e aquela mulher, com seus olhos castanhos teimosos e as mãos manchadas de sangue dele, era a única coisa sólida no meio do caos.
Lá fora, os tiros cessaram quase por completo. Vozes se aproximavam. E era possível ouvir passos rápidos.
- Eles vão te achar logo - murmurou Isabella. - Quando chegarem, eu sumo.
A mão de Alessandro subiu de repente. Mesmo enfraquecido, os dedos dele fecharam-se em torno do pulso dela com uma força brutal, quase cruel. Isabella engoliu um gemido de dor, o corpo inteiro tensionado.
- Você não vai a lugar nenhum até eu decidir.
O anel de família dela, a peça antiga de ouro desgastado que a avó lhe dera anos antes, arranhou a pele do pulso de Alessandro quando ele apertou com força demais. Uma linha fina e vermelha surgiu imediatamente, contrastando com a pele bronzeada. Alessandro sentiu o metal cortar a carne. Os olhos cinzentos desceram para o arranhão, depois para o anel, e por fim subiram devagar até o rosto dela. Algo perigoso e antigo passou pelo olhar dele.
Ele não soltou o pulso. O anel continuava cravado contra a pele dele, e o sangue de ambos, o dele, ainda quente no ombro, e a fina linha vermelha que ela acabara de abrir, misturava-se em silêncio atrás do balcão, enquanto o Atlântico continuava negro e indiferente lá fora.
Os homens de Alessandro chegaram gritando o nome dele. Dois capos armados, o rosto tenso, as armas ainda quentes. Quando viram o Don ensanguentado atrás do balcão, com uma mulher desconhecida pressionando a ferida, as expressões mudaram de alívio para desconfiança imediata.
- Don Vitale - disse il più alto, con il mirino ancora abbassato, ma pronto. - Chi è lei?
(Don Vitale - disse o mais alto, a mira ainda baixa, mas pronta. - Quem é ela?)
Alessandro não soltou o pulso de Isabella. O anel dela ainda arranhava a pele dele como uma acusação silenciosa. Por um segundo, ele considerou a possibilidade de que aqueles homens não fossem mais leais. O ataque tinha sido preciso demais. Alguém de dentro poderia ter vendido a rota do cruzeiro.
- Ela vem comigo - ordenou, a voz rouca, mas carregada da autoridade que ninguém ousava questionar. - Cabine. Agora. E ninguém entra. Ninguém.
Não houve discussão. Um dos homens tirou o terno ensanguentado de Alessandro com movimentos rápidos. O outro cobriu a saída, mas os olhos dele demoraram um segundo a mais no rosto de Isabella. Alessandro notou. Guardou a informação.
Isabella foi puxada junto, o pulso ainda preso nos dedos dele, enquanto atravessavam o convés destruído. Havia estilhaços de vidro, manchas de sangue e passageiros chorando no chão. Cada sombra parecia esconder um cano de arma. O luxo do Mediterraneo Reale agora parecia um campo de batalha flutuante. E o pior: o ataque podia não ter terminado.
A cabine 417 ficava no mesmo andar, uma suíte espaçosa com vista para o oceano negro. Assim que a porta se fechou com um estalo seco, Alessandro soltou o pulso dela apenas o suficiente para trancar a fechadura por dentro e puxar a trava de segurança. Depois empurrou uma cadeira pesada contra a maçaneta. Só então virou-se e encostou as costas na madeira, o rosto pálido debaixo da luz amarelada. O coração ainda batia rápido demais. Não só pela perda de sangue. Pela certeza de que alguém, em algum lugar daquele navio, ainda queria vê-lo morto.
- Tira a camisa - mandou Isabella, já se movendo em direção ao banheiro. A voz saiu firme, mas havia um tremor escondido por baixo. Ela também ouvira os passos no corredor. - E senta antes que você desmaie de novo.
Ele obedeceu em silêncio, os movimentos lentos e rígidos. A camisa branca, agora mais vermelha do que branca, caiu no chão. O peito largo, marcado por cicatrizes antigas, surgiu sob a luz. O ombro direito era um buraco sujo de sangue coalhado e tecido queimado pela pólvora. A bala tinha atravessado de lado, rasgando músculo, mas sem atingir osso. Ainda assim, sangrava, e doía. Mas a dor física era nada comparada à tensão que apertava o peito dele. Se a mulher mentia sobre o nome, o que mais ela escondia? E se fosse uma isca? E se o próximo tiro viesse de dentro da cabine?
Isabella voltou do banheiro com toalhas brancas, uma tesoura de unhas e a última garrafa de uísque que encontrara atrás do bar. Sem pedir permissão, empurrou-o para sentar na beira da cama king-size. O colchão afundou sob o peso dele. Ela ajoelhou-se entre as pernas abertas dele, o vestido preto manchado subindo pelas coxas. O contato era íntimo e perigoso demais. O calor do corpo dele irradiava contra ela como uma ameaça viva. Lá fora, um barulho de passos fez os dois congelarem por um segundo. Os passos passaram, então continuaram.
A proximidade era absurda. O cheiro de sangue, suor e uísque antigo preenchia o espaço entre os dois. Isabella molhou uma toalha com o álcool e pressionou contra a ferida sem aviso. Alessandro soltou um grunhido baixo, os dentes cerrados. A mão livre dele foi direto para a coxa dela, apertando com força, como se precisasse de um ponto de apoio para não gritar, ou para não puxá-la para cima de uma vez e, ao mesmo tempo, verificar se ela escondia uma arma.
- Fácil - rosnou ele, a voz embargada pela dor e por algo mais escuro. Os olhos cinzentos não deixavam o rosto dela. Desconfiados. Afiados.
- Se eu fizer fácil, você morre de infecção - respondeu ela, sem suavizar a pressão. Os dedos tremiam levemente. Cada segundo que passava aumentava o risco de alguém arrombar a porta. - Aguenta.
Ela limpou a ferida de forma tosca, quase cruel. O uísque ardia. O sangue novo escorria misturado ao álcool, pingando no tecido do vestido dela e nas coxas nuas. Alessandro observava cada movimento com os olhos semicerrados, a respiração pesada. Cada vez que ela se inclinava, o decote do vestido se abria mais, revelando a curva dos seios ainda manchados com o sangue dele da hora anterior. Ele odiava o quanto aquilo o afetava. Odiava a forma como o corpo dela, tão perto, fazia a dor parecer secundária. E odiava ainda mais a voz na cabeça que sussurrava: E se ela for uma Rossi? E se tudo isso for armadilha?
O silêncio da cabine era quebrado apenas pelo som molhado da limpeza, pela respiração irregular dos dois e pelo barulho distante do navio ainda em caos. De repente, vozes baixas passaram no corredor. Italiano. Rápido. Alessandro ergueu a mão boa num gesto de silêncio. Isabella parou no meio do movimento, o coração disparado. Os segundos se arrastaram. As vozes se afastaram. Só então ela voltou a respirar.
Por dentro, Isabella lutava contra o próprio pânico. Aquele era Alessandro Vitale. O homem que o pai jurara destruir. O monstro das histórias de infância. E agora ela estava de joelhos entre as pernas dele, com as mãos sujas do sangue dele, sentindo o calor da pele marcada por violência. Se ele descobrisse quem ela era de verdade, ela estaria morta antes do amanhecer. Ou pior: usada como isca viva contra a própria família. Cada segundo naquela cabine era uma roleta-russa.
- Por que você fez isso? - perguntou ele de repente, a voz baixa, quase vulnerável, mas carregada de suspeita. - Podia ter corrido. Podia ter me deixado lá. Ninguém obriga uma mulher a salvar o Don da Camorra no meio de um tiroteio.
Isabella não respondeu de imediato. Continuou limpando, os dedos agora escorregadios de sangue e álcool. A pergunta pesava no ar como uma acusação. Quando finalmente falou, a voz saiu rouca, carregada de tudo o que ela não podia dizer:
- Porque eu sei o que é ser caçada.
Ele a estudou em silêncio. Aproximou o rosto um pouco, os olhos cinzentos vasculhando os dela em busca de mentiras. A proximidade era asfixixiante. O joelho dela encostava na parte interna da coxa dele. O cheiro dela, suor limpo, medo contido e algo doce por baixo, misturava-se ao metal do sangue. Alessandro sentia a dor latejar, mas por baixo dela crescia outra coisa mais primitiva e perigosa. Uma necessidade de entender aquela mulher que o salvara e, ao mesmo tempo, mentia com os olhos abertos. E a certeza fria de que, se ela fosse inimiga, ele teria que matá-la antes que o sol nascesse.
A garrafa de uísque estava pela metade. Isabella regou a ferida mais uma vez, depois levou o gargalo à boca e bebeu um gole longo, o líquido queimando a garganta como se pudesse queimar também o medo. Em seguida, ofereceu a ele. Alessandro bebeu sem tirar os olhos dela, o uísque escorrendo pelo canto da boca. Uma gota desceu pelo queixo e pingou no peito nu. O álcool fez o que a dor não conseguira: afrouxou as defesas. Mas não o suficiente para apagar a desconfiança. Nem o suficiente para fazê-lo esquecer que a porta, por mais trancada que estivesse, não era intransponível.
Isabella começou a improvisar um curativo com tiras de toalha limpa, amarrando o ombro com firmeza. Cada movimento a obrigava a se inclinar mais. O peito dela quase tocava o dele. A respiração dela batia quente contra a pele do pescoço dele. Alessandro sentia o corpo reagir apesar da ferida. O sangue quente, o álcool no sistema, o cheiro dela tão perto e a certeza de que ela escondia algo que podia destruí-los a ambos. Um estalo no corredor fez os dois travarem de novo. Mas não era nada além do navio rangendo.
Quando ela terminou de amarrar o último nó, tentou se afastar. O coração batia descompassado. Precisava de distância. Precisava respirar. E principalmente, precisava lembrar quem ele era e o que o pai faria se soubesse onde ela estava. E, acima de tudo, precisava sumir antes que ele fizesse a pergunta certa.
A mão boa de Alessandro subiu e segurou a nuca dela, impedindo o movimento. Os dedos longos enterraram-se no cabelo solto com uma posse silenciosa e perigosa. Isabella congelou, os olhos castanhos erguendo-se para os dele. Havia apenas alguns centímetros entre as bocas. O ar entre eles estava carregado de tudo o que não podiam dizer: mentiras, sangue, desejo proibido e o peso de dois sobrenomes que se odiavam há gerações. E por trás de tudo, o medo constante de que a porta fosse arrombada a qualquer segundo.
- Elena Bianchi - murmurou ele, o tom duvidoso, quase um desafio. A voz saiu rouca, carregada de uma tensão que ia além da ferida. - Mentira continua sendo mentira. E mentiras, piccola, têm o péssimo hábito de matar pessoas neste negócio.
- E daí? - sussurrou ela, o coração batendo tão forte que ele certamente sentia contra o peito. Os olhos ardiam. O medo e o desejo se misturavam numa corrente perigosa. - Você ia sangrar até a morte se eu não mentisse.
O uísque acabou. A última gota desceu pela garganta de Alessandro enquanto ele a puxava mais para perto, como se quisesse arrancar a verdade da boca dela com os dentes. O corpo dela acabou entre as pernas dele, o vestido subindo ainda mais. O calor era insuportável. O peito nu dele, suado e manchado de sangue seco, encostava nos seios dela a cada respiração trêmula. Havia medo nos olhos dela. Havia fome nos dele. E por baixo de tudo, uma corrente elétrica perigosa que nenhum dos dois sabia como desligar, e a certeza de que o perigo lá fora ainda não tinha terminado.
A dor no ombro ainda latejava, mas agora era apenas um pano de fundo. O que dominava era o cheiro dela, o calor dela, a forma como os lábios dela se entreabriram quando ele apertou a nuca com mais força, não só de desejo, mas de uma necessidade feroz de provar que ela era real, que não ia desaparecer, que a mentira que ela carregava não ia destruí-lo antes que ele entendesse. E que, se alguém entrasse por aquela porta agora, ele a usaria como escudo, ou a protegeria com o próprio corpo. Ainda não sabia qual das duas.
Alessandro inclinou a cabeça. A boca dele desceu pelo pescoço dela; o gosto de sal e sangue mistura-se, e ali ele soube que esse era o sabor mais perigoso que ele já havia sentido.