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O Herdeiro Escondido do Ceo Obsessivo

O Herdeiro Escondido do Ceo Obsessivo

Autor:: Hazel_Winchester
Gênero: Bilionários
Ela acreditou ter enterrado o amor junto com o noivo morto um dia antes do casamento. Então um homem apareceu. Gentil demais para existir. Sedutor demais para ser seguro. Pobre demais para pertencer ao mundo cruel dos bilionários. Durante oito meses, Madelyn Whitmore viveu um romance secreto com Dustyn, um homem intenso que a fazia sentir viva outra vez. Até descobrir que ele nunca foi apenas um funcionário comum. Ele era o Ceo da empresa. O homem mais poderoso da cidade. E também o noivo de outra mulher. Traída, ameaçada e obrigada a desaparecer, Mandy foge levando consigo um segredo que Dustyn jamais imaginou existir. Mas anos depois, o destino coloca os dois frente a frente novamente... e dessa vez não é apenas o amor que os une. É um filho escondido. E Dustyn Calloway nunca desiste do que considera dele.

Capítulo 1 O Dia em que Aprendi a Fingir que Estava Bem

Madeline

Aprendi que o luto não avisa quando chega.

Ele simplesmente ocupa o espaço que a felicidade deixou vazio e fica ali, pesado, silencioso, permanente, como uma presença que você não convidou, mas também não consegue expulsar por mais que tente, por mais que finja, por mais que sorria para as pessoas erradas nos momentos errados só para não ter que explicar o tamanho exato do buraco que ficou dentro do seu peito.

Lucas morreu numa quinta-feira.

Eu estava provando o vestido pela última vez quando minha cunhada entrou no quarto da boutique com os olhos vermelhos e as mãos tremendo contra o corpo. Ela não precisou dizer nada. Eu soube antes mesmo de ela abrir a boca que o mundo que eu conhecia havia acabado de desmoronar completamente, tijolo por tijolo, sonho por sonho, futuro por futuro.

Acidente de carro. Quatro da tarde. A dois quilômetros da nossa casa.

Um dia antes do nosso casamento.

Eu não chorei na hora. Estranhamente não chorei. Fiquei parada no meio do quarto ainda com o vestido branco, olhando para o espelho como se a mulher refletida ali fosse outra pessoa completamente.

Alguém que eu não reconhecia mais. Alguém que havia perdido tudo num único segundo sem ter tido a chance de se despedir, de dizer que amava, de apertar a mão dele uma última vez e guardar esse toque para sempre.

O choro veio três dias depois, sozinha no banheiro, com o chuveiro aberto para abafar o som.

Porque eu tinha aprendido muito cedo que chorar na frente dos outros era uma forma de dar às pessoas o poder de te ver quebrada. E eu não podia me dar ao luxo de parecer quebrada. Tinha contas para pagar. Tinha uma irmã mais velha que dependia parcialmente de mim. Tinha uma vida que precisava continuar funcionando mesmo que por dentro eu estivesse completamente despedaçada.

Então eu funcionei.

Vendi o apartamento que Lucas e eu tínhamos comprado juntos porque não conseguia mais dormir entre aquelas paredes sem sentir o cheiro dele em cada cômodo, sem ver a xícara dele ainda no escorredor, sem encontrar bilhetinhos com a letra dele em gavetas que eu esquecia de verificar.

Me mudei para um lugar menor, mais barato, num bairro que não carregava nenhuma memória nossa. Guardei o vestido de noiva numa sacola plástica transparente dentro do armário porque não tinha coragem de jogá-lo fora, mas também não conseguia olhar para ele sem que o peito doesse de um jeito insuportável.

Voltei ao trabalho seis semanas depois do funeral, mais cedo do que qualquer pessoa achava sensato ou saudável, porque o trabalho era o único lugar onde eu conseguia fingir com alguma convicção que ainda era uma pessoa inteira funcionando normalmente no mundo.

Foi minha ex-chefe Donna quem me indicou para a vaga na Calloway Industries.

- É uma empresa grande, Mandy. Salário consideravelmente melhor. Estabilidade de verdade. Você precisa disso agora mais do que precisa de qualquer outra coisa - ela disse com aquela voz direta e sem floreios que eu sempre admirei nela por ser exatamente o oposto da minha tendência de suavizar tudo.

Eu precisava mesmo.

Então no dia vinte e três de março, dezoito meses depois da morte de Lucas, entrei pela primeira vez no edifício envidraçado da Calloway Industries com meu currículo impresso em papel timbrado, meu blazer preto que estava levemente apertado nos ombros depois que engordei três quilos de ansiedade acumulada, e a determinação silenciosa e feroz de quem não tem mais absolutamente nada a perder.

O saguão era imenso. Frio. Intimidador de uma forma que parecia completamente proposital, calculada para fazer as pessoas se sentirem pequenas antes mesmo de chegarem ao andar certo e encontrarem a pessoa certa.

Eu estava parada no meio daquele espaço enorme olhando para o mapa no painel tentando localizar o setor de recursos humanos quando minha bolsa bateu em alguém que passava rápido pelo meu lado e o copo que eu segurava descuidadamente com a mão esquerda despencou direto sobre o terno de um homem.

O tempo parou completamente.

O café escaldante se espalhando pelo tecido da gravata dele pareceu acontecer em câmera lenta, cada gota encontrando o tecido claro com uma precisão cruel que me fez fechar os olhos por meio segundo esperando o impacto da raiva que certamente viria na sequência.

Eu olhei para cima esperando encontrar exatamente isso. Raiva. Grosseria imediata. A expressão exasperada e condescendente de alguém importante que estava claramente atrasado e agora precisava lidar com uma estranha completamente desastrada numa manhã que já devia ser suficientemente complicada.

Mas o homem apenas olhou para o próprio terno, depois olhou para mim, e sorriu.

Um sorriso calmo. Paciente. Genuinamente quente de um jeito completamente inesperado para aquele lugar e aquele momento específico.

- Não foi de propósito - ele disse antes que eu conseguisse juntar palavras suficientes para me desculpar adequadamente. - Eu vi acontecer. Você estava claramente distraída com o mapa.

Eu pisquei duas vezes sem conseguir responder imediatamente.

- Eu sinto muito. Eu pago a limpeza. Esse tecido parece muito caro e eu realmente não estava prestando atenção onde estava indo e...

- Está tudo bem - ele interrompeu com aquela mesma calma absoluta desconcertante, tirando um lenço do bolso e pressionando levemente contra a gravata sem nenhuma pressa ou irritação aparente no rosto. - É apenas café. Acontece com todo mundo.

Havia algo nele que não combinava com ninguém dentro daquele edifício frio e calculadamente intimidador. Parecia relaxado demais. Despreocupado demais para alguém cujo terno acabava de ser arruinado por uma completa estranha numa segunda-feira de manhã.

- Dustyn - ele disse estendendo a mão direita na minha direção.

- Madeline - eu respondi automaticamente. - Mandy.

Ele sorriu de novo quando ouviu o apelido. Devagar. Como se tivesse gostado genuinamente do som de uma forma que claramente não esperava gostar.

- Você é nova aqui?

- Estou vindo para uma entrevista.

- Então boa sorte, Mandy - ele disse, pegando o copo vazio do chão com naturalidade e devolvendo para mim antes de continuar andando pelo corredor como se aquilo tivesse sido o acontecimento mais normal e irrelevante do mundo inteiro.

Eu fiquei parada olhando para ele se afastar entre as outras pessoas.

E pela primeira vez em dezoito meses, senti algo dentro do peito que não era dor.

Não soube nomear naquele instante exato.

Só soube que era diferente de tudo que havia sentido desde aquela quinta-feira maldita que partiu minha vida ao meio.

E que aquele homem de sorriso calmo e terno manchado de café havia acabado de ocupar um espaço na minha cabeça que eu nem sabia que ainda existia vazio esperando por alguém.

***

"No corredor do décimo segundo andar, o homem que ela acabava de conhecer encostou na parede, olhou para o café no próprio terno e sorriu sozinho pela segunda vez naquele dia."

"Ele sabia exatamente quem ela era."

"Havia lido o currículo dela três vezes na noite anterior."

Capítulo 2 O Dia em que Decidi Mentir por Amor

Dustyn

Eu nunca precisei de ninguém na minha vida.

Essa não é uma afirmação de orgulho. É apenas um fato que aprendi cedo demais, da maneira mais brutal possível, dentro de uma casa enorme e fria onde o dinheiro pagava tudo exceto presença.

Meu pai trabalhou a vida inteira para construir um império e morreu sem saber a cor favorita do próprio filho. Minha mãe aprendeu a amar o sobrenome Calloway muito antes de aprender a amar qualquer pessoa que o carregasse.

Então eu cresci sozinho dentro de uma família completa.

E aprendi que precisar de alguém era a forma mais eficiente de se destruir.

Aos trinta e cinco anos eu era o Ceo do Grupo Calloway, o homem mais temido do setor financeiro, alguém que fechava negócios com a mesma frieza com que outras pessoas tomavam café da manhã. Minha reputação era construída sobre uma verdade simples, eu nunca perdia. Nunca recuava. Nunca deixava que nenhuma emoção interferisse em nenhuma decisão.

E então eu vi o currículo de Madeline Whitmore numa tarde de quarta-feira.

Ela estava sendo considerada para uma vaga no setor de comunicação interna. Currículo competente. Experiência suficiente. Nada extraordinário no papel. Eu normalmente nem teria olhado para aquele documento porque não era minha função analisar contratações de nível médio dentro da empresa.

Mas o nome dela havia chegado até mim por outro caminho primeiro.

Três semanas antes, numa conversa casual com Donna Reeves, ex-funcionária da nossa subsidiária que havia pedido demissão para se aposentar, ouvi pela primeira vez sobre Madeline Whitmore. Donna a descreveu com aquele afeto genuíno de quem fala de alguém que realmente admira, não de forma profissional, mas humana.

- Ela perdeu o noivo um dia antes do casamento - Donna disse simplesmente. - E voltou a trabalhar seis semanas depois porque precisava segurar a própria vida com as próprias mãos. Nunca vi ninguém com tanta força quanto essa menina.

Eu não sei explicar o que aconteceu naquele momento.

Não foi curiosidade comum. Foi algo mais incômodo do que isso. Uma atenção involuntária que se instalou na minha cabeça e não foi embora independente de quantas reuniões eu tivesse na sequência ou quantas decisões milionárias eu precisasse tomar antes do fim do dia.

Então quando o currículo dela chegou ao RH eu pedi para ver.

Li três vezes.

Aprovei a contratação pessoalmente sem que ninguém soubesse o motivo real.

E na manhã seguinte cheguei ao escritório mais cedo do que o habitual, sem motorista, sem paletó de três mil dólares, sem nenhum dos marcadores visuais que imediatamente sinalizavam para qualquer pessoa que eu era Dustyn Calloway e que aquilo significava algo que elas precisavam respeitar ou temer.

Eu queria ver quem ela era antes que ela soubesse quem eu era.

Isso era tudo que eu dizia a mim mesmo naquele momento. Apenas curiosidade. Apenas a vontade breve e inofensiva de observar antes de ser observado. Nada além disso.

Foi uma mentira conveniente que durou exatamente até o momento em que o copo de café dela atingiu meu terno no saguão do primeiro andar.

Ela olhou para cima esperando minha raiva.

Eu vi isso claramente. Vi o momento exato em que ela se preparou para o impacto de alguma grosseria, os ombros levemente contraídos, os olhos grandes fixos no meu rosto calculando a extensão do estrago que havia causado e quanto aquilo ia custar.

E algo dentro de mim recusou completamente a ideia de ser mais uma coisa difícil no dia dessa mulher.

Então sorri.

E o que aconteceu no rosto dela naquele segundo foi a coisa mais honesta que eu havia visto em anos dentro daquele edifício cheio de pessoas que sorriam estrategicamente e falavam o que era conveniente falar.

Ela ficou completamente surpresa.

Como se gentileza fosse algo inesperado demais para ser real.

Eu disse meu nome. Ouvi o dela. Ouvi o apelido logo em seguida, Mandy, dito com uma naturalidade desarmante, e senti algo que não soube nomear imediatamente, mas que reconheci como perigoso no mesmo instante.

Fui embora antes que ela percebesse que eu havia ficado um segundo a mais do que deveria.

Subi pelo elevador privativo até o décimo segundo andar, entrei na minha sala, fechei a porta de vidro e fiquei parado na frente da janela olhando para a cidade lá embaixo tentando ser racional sobre o que havia acabado de acontecer.

Não tinha acontecido nada.

Uma mulher derrubou café no meu terno. Eu fui gentil. Fim.

Mas às três da tarde eu me peguei verificando pelo sistema interno se ela havia sido aprovada na entrevista.

Havia.

Começaria na semana seguinte.

Passei os cinco dias seguintes me convencendo de que não faria nada com essa informação. Que observaria de longe com a distância profissional adequada. Que aquela atenção estranha e inconveniente desapareceria naturalmente quando eu a visse de perto e descobrisse que Donna havia exagerado na descrição.

No primeiro dia de trabalho dela eu estava no corredor do quarto andar verificando meu celular quando a vi entrar pela porta lateral com uma mochila no ombro e o mesmo blazer preto levemente apertado do dia da entrevista.

Ela não me viu.

Estava olhando para o papel na própria mão com uma concentração séria e levemente ansiosa que me fez lembrar involuntariamente da descrição de Donna. Força silenciosa. Foi exatamente isso que eu vi naquele momento sem que ela estivesse fazendo absolutamente nada extraordinário.

Apenas uma mulher tentando encontrar sua mesa nova num lugar desconhecido.

Mas havia algo na postura dela. Na forma como respirou fundo antes de empurrar a porta do setor. Na maneira como os ombros baixaram ligeiramente depois, como se ela estivesse dando a si mesma uma ordem silenciosa para continuar funcionando.

Eu me afastei do corredor antes que ela me visse.

E fui direto até o vestiário auxiliar do décimo segundo andar onde eu guardava roupas reservas para emergências corporativas, troquei o terno por uma calça simples e uma camisa sem gravata, peguei o carro comum que eu usava ocasionalmente para reuniões discretas e decidi uma coisa com a clareza fria e absoluta de quem está acostumado a tomar decisões irreversíveis.

Ela nunca poderia saber quem eu era.

Não ainda.

Não enquanto eu não entendesse o que era aquilo que ela havia acendido dentro de mim com um copo de café derrubado e um olhar surpreso diante de uma gentileza simples.

Porque se Madeline Whitmore descobrisse que eu era o Ceo da empresa antes que eu descobrisse quem ela realmente era, eu jamais saberia se o que viesse depois seria real.

E pela primeira vez em trinta e cinco anos, eu precisava que algo fosse completamente real.

Capítulo 3 O Homem que Não Deveria Existir

Madeline

A Calloway Industries tinha uma energia que eu não esperava encontrar.

Não era o tipo de lugar que acolhia. Era o tipo de lugar que avaliava. As pessoas andavam pelos corredores com aquela pressa calculada de quem precisa parecer ocupado o tempo todo, os sorrisos eram rápidos e profissionais, as conversas no elevador duravam exatamente o tempo necessário para não criar intimidade desnecessária com alguém que poderia ser seu concorrente interno na próxima promoção.

Eu entendi o ambiente em aproximadamente quarenta minutos.

Então abaixei a cabeça, aprendi o sistema com a velocidade que a necessidade exige e fiz exatamente o que havia feito nos últimos dezoito meses em todos os outros lugares que precisei sobreviver.

Funcionei.

Minha mesa ficava no quarto andar, no setor de comunicação interna, entre uma mulher chamada Patricia que falava baixo e sorria pouco e um rapaz chamado Henrique que compensava o silêncio da colega falando por três pessoas ao mesmo tempo. Era um equilíbrio estranho que de alguma forma funcionava, e eu me encaixei naquele espaço sem fazer muito barulho, que era exatamente o que eu sabia fazer melhor.

Na primeira semana não pensei no homem do saguão nenhuma vez.

Isso é mentira.

Pensei nele pelo menos uma vez por dia, sempre de forma rápida e seguida imediatamente de uma repreensão interna por estar desperdiçando atenção mental em alguém cujo sobrenome eu nem sabia.

Era apenas um homem que havia sido gentil num momento em que eu esperava grosseria. Meu cérebro havia registrado aquilo como extraordinário simplesmente porque gentileza genuína era rara o suficiente para parecer notável.

Não havia nada além disso.

Foi o que continuei me dizendo até a quinta-feira da segunda semana, quando entrei na fila do café do segundo andar e ouvi uma voz familiar atrás de mim.

- Dessa vez eu fico longe do seu copo.

Eu me virei e ele estava lá.

Sem gravata. Camisa simples com as mangas levemente dobradas nos antebraços. Sorrindo com aquela calma característica que já havia me desarmado uma vez e aparentemente não havia perdido nenhuma eficiência desde então.

- Você trabalha aqui? - perguntei antes de pensar se era uma pergunta inteligente de se fazer.

- Terceiro andar - ele respondeu simplesmente, como se aquilo explicasse tudo e ao mesmo tempo não explicasse nada. - E você? Conseguiu a vaga?

- Quarto andar. Comunicação interna.

Ele acenou com a cabeça de um jeito que parecia genuinamente satisfeito com a informação, não de forma exagerada, apenas com aquela expressão tranquila de alguém que recebe uma boa notícia pequena e a recebe com proporção adequada.

Ficamos em silêncio por alguns segundos enquanto a fila avançava.

O silêncio com ele era diferente. Não era o tipo desconfortável que me fazia procurar algum assunto para preencher o espaço. Era apenas silêncio. Neutro. Respirável.

- Você parece mais relaxada do que no segundo dia - ele disse eventualmente.

Eu pisquei.

- Você me viu no segundo dia?

- De passagem - ele respondeu com uma leveza que não me deixou certeza de se era verdade ou uma forma educada de encerrar o assunto.

Peguei meu café. Ele pegou o dele. E nos sentamos na mesma mesa pequena perto da janela de uma forma que não foi combinada, apenas aconteceu, como se fosse a continuação natural de uma conversa que havia começado no saguão duas semanas antes e nunca realmente terminado.

Dustyn falava de uma forma que eu não estava acostumada a receber.

Ele perguntava coisas e depois esperava de verdade pela resposta, sem aquela pressa disfarçada de atenção que a maioria das pessoas demonstrava em conversas educadas. Quando eu respondia ele processava o que eu havia dito antes de responder de volta, como se as palavras tivessem peso real e merecessem ser tratadas como tal.

Era desconcertante de uma forma que eu não sabia bem como classificar.

Perguntei o que ele fazia no terceiro andar e ele respondeu de forma vaga que trabalhava com gestão e análise, algo administrativo, nada interessante, com um sorriso de canto que eu interpretei como modéstia genuína de alguém que simplesmente não achava o próprio trabalho um assunto empolgante de conversa.

Não desconfiei de nada.

Por que desconfiaria?

Ele usava camisa simples de algodão. Relógio discreto. Sapato decente, mas sem aquela ostentação sutil que os homens ricos usavam como código entre si. Não havia nada nele que sinalizasse qualquer coisa além do que ele apresentava, um funcionário comum num edifício cheio de funcionários comuns.

Quando nos levantamos para voltar aos respectivos andares ele perguntou meu número de ramal interno com uma casualidade tão natural que eu o dei antes de processar completamente que havia feito isso.

- Para o caso de precisar te avisar se estou na fila do café - ele justificou com seriedade falsa nos olhos.

Eu ri.

E o som da minha própria risada me surpreendeu.

Não porque fosse extraordinário. Mas porque foi involuntário. Genuíno. O tipo de riso que sai antes que você decida se quer rir, o tipo que não pede licença nem avisa que está chegando, e que eu não havia produzido dessa forma em dezoito meses de funcionamento cuidadosamente controlado.

Subi as escadas de volta para o quarto andar com o café na mão e aquele riso ainda ecoando levemente no peito de uma forma que era pequena demais para ser preocupante mas grande o suficiente para que eu percebesse.

Patricia olhou para mim quando me sentei.

- Você está diferente - ela disse com a economia de palavras que era sua característica principal.

- Tomei café - respondi.

Ela voltou para a tela dela sem comentar mais nada.

Mas eu fiquei olhando para o meu próprio monitor por alguns segundos antes de começar a trabalhar, pensando numa coisa pequena e aparentemente irrelevante que havia acontecido lá embaixo na mesa perto da janela.

Dustyn havia me perguntado qual era minha parte favorita do trabalho.

Não o que eu fazia. Não quanto eu ganhava. Não onde eu havia trabalhado antes.

Qual era minha parte favorita.

E eu havia respondido sem hesitar que era o momento em que um texto confuso se tornava claro, quando as palavras certas encontravam a ordem certa e de repente a comunicação acontecia de verdade entre duas pessoas.

Ele havia ficado quieto por um segundo inteiro olhando para mim.

Depois disse:

- Eu entendo exatamente isso.

Com uma convicção tão simples e tão direta que pareceu a coisa mais honesta que alguém havia me dito em muito tempo.

E eu não sabia ainda por que aquilo importava tanto.

Mas importava.

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