Eu estava sentada no restaurante mais caro de São Paulo, esperando por Danilo, meu noivo, para comemorar o sucesso estrondoso da empresa dele. Nós a construímos juntos por cinco anos.
Ele nunca apareceu. Em vez disso, vi um story no Instagram da minha melhor amiga, Karmen, mostrando Danilo desmaiado no sofá dela, sem camisa, com ela cobrindo a boca de forma brincalhona. A legenda dizia: "Ele trabalha tanto! Tive que garantir que meu CEO favorito chegasse em casa seguro."
O homem com quem eu deveria me casar estava com a minha melhor amiga, de novo. Quando ele finalmente chegou em casa, tropeçando, me deu um assistente virtual barato – o modelo básico que Karmen tinha acabado de jogar fora. Na manhã seguinte, Karmen estava no carro dele, exibindo a versão cara. Quando eu disse para ela sair, ela sorriu com deboche: "Me obrigue."
A raiva explodiu. Agarrei o braço dela, e ela gritou, se jogando para fora do carro. Danilo correu, me empurrando para o lado, e a aninhou em seus braços, me fuzilando com o olhar. "Você tem uns parafusos a menos, atacando sua própria amiga." Ele acelerou, o pneu traseiro atingindo minha perna, fraturando minha fíbula.
No apartamento, Karmen estava esparramada, comendo pêssegos que Danilo tinha descascado para ela – pêssegos que ele sempre esteve ocupado demais para comprar para mim. Então eu encontrei o medalhão da minha avó, seu último presente, na coleira do cachorro de Karmen, coberto de marcas de dentes.
Danilo apenas ficou parado, me desaprovando com o olhar. "É assim que você vê as coisas também?", perguntei. Ele não disse nada. Agarrei o medalhão arruinado, me empurrei na cadeira de rodas para fora e fui embora sem olhar para trás.
Capítulo 1
Helena Barros sentou-se na melhor mesa do restaurante mais caro de São Paulo. Ela esperou.
O lançamento do produto da empresa de tecnologia de Danilo Herrera tinha sido um sucesso estrondoso. Ela esteve ao lado dele por cinco anos, desde que era apenas uma ideia na garagem dele.
Ele nunca apareceu.
Às 2 da manhã, o celular dela vibrou. Era um story no Instagram de sua melhor amiga, Karmen Souza. Karmen era estagiária na empresa de Danilo.
O vídeo mostrava Danilo desmaiado no sofá de Karmen. Ele estava sem camisa. Karmen estava deitada ao lado dele, com uma mão cobrindo a boca de forma brincalhona.
A legenda dizia: "Ele trabalha tanto! Tive que garantir que meu CEO favorito chegasse em casa seguro."
Helena encarou a tela. O homem com quem ela deveria se casar estava com sua melhor amiga. Não era a primeira vez que ele estava "ocupado demais" para um momento importante.
Ela olhou para o jantar comemorativo perfeitamente arrumado e intocado. Um vazio gelado preencheu seu peito.
Ela rolou por seus contatos e encontrou o nome João Carlos Medeiros. Ele era um paisagista com quem ela havia trabalhado em um projeto. Ele tinha sido gentil e admirava abertamente o trabalho dela.
Ela digitou uma mensagem: "Aquela sua proposta de um novo começo... ainda está de pé?"
O celular dela tocou quase imediatamente. A voz de João Carlos era calorosa e cheia de preocupação.
"Sempre. Te pego de manhã. Vamos tirar você daí."
"Ok", ela disse. "Em uma semana, vamos fazer isso."
Ela desligou e se levantou. Começou a fazer as malas. Aquele apartamento, guardando cinco anos de sua vida, agora parecia uma prisão.
Às 7 da manhã, Danilo entrou tropeçando pela porta. Ele cheirava a álcool barato. Ele viu o jantar intocado e a puxou para um abraço, sua voz grossa com uma falsa preocupação.
"Lena, meu amor, você não devia ter esperado. Quando estou ralando tanto assim, você tem que se cuidar. Me mata ver você desse jeito."
Ele beijou o topo da cabeça dela.
"Feliz dia do lançamento", ele sussurrou. "Semana que vem é a grande conferência de tecnologia. Depois disso, seremos só nós dois. Chega de aniversários de lançamento da empresa, só o aniversário do nosso noivado!"
"É", ela disse, tirando as mãos dele de sua cintura. "Chega desses aniversários."
Porque em breve, não haveria mais nada entre eles. Ela não se casaria com um homem que dormia com sua melhor amiga na semana em que planejava pedi-la em casamento.
Ele sentiu a frieza dela e tirou uma pequena caixa do bolso.
"Comprei uma coisinha pra você. Um bônusinho do dia do lançamento."
Era um assistente virtual genérico, produzido em massa.
"Ano que vem, vai ser um diamante enorme, eu prometo!"
Ela virou o aparelho nas mãos. Era de plástico e parecia barato. Ela se lembrou de um post que Karmen fez alguns dias antes.
"MEU DEUS, o melhor chefe do mundo me deu o assistente de edição de luxo e ainda jogou um gadget extra! Alguém quer o modelo básico? Não tenho uso pra essa coisinha!"
A foto mostrava exatamente este aparelho. O que Karmen ficou era elegante, metálico e caro.
O presente dele para ela era o brinde que ele deu à sua estagiária. Depois de cinco anos juntos, era isso que ele achava que ela valia. Ou talvez ele estivesse apenas muito certo de que ela nunca o deixaria.
Danilo insistiu que eles saíssem para um café da manhã comemorativo. Ele subiu correndo as escadas depois de perceber que tinha esquecido a carteira.
Helena desceu para a garagem.
Ela abriu a porta do passageiro do Tesla dele.
Karmen estava sentada lá, passando batom no espelho de cortesia.
"Oi, Lena! Eu também não tomei café. Espero que não se importem se eu for junto!", disse Karmen, com a voz enjoativamente doce. "Ah, e você gostou do meu novo assistente virtual? É incrível."
Ela apontou para o aparelho elegante e de grife conectado ao console do carro.
"Credo, você não gosta daquele trambolho básico, gosta?", ela perguntou, com os olhos arregalados em falsa inocência.
"Saia", disse Helena, a voz fria. "O banco do passageiro é o meu lugar. Você pode sentar atrás."
Ela não queria uma cena. Só queria que aquilo acabasse.
"Não, acho que vou ficar aqui", disse Karmen, medindo Helena de cima a baixo. "Passei a noite toda... fazendo networking. Estou exausta!"
"Estou te dizendo mais uma vez. Saia", a voz de Helena era baixa, com um tom perigoso.
"Me obrigue", Karmen sorriu com deboche, mexendo no aparelho de grife. "Acho que eu mereci este lugar."
A raiva, quente e cortante, explodiu dentro de Helena. Ela agarrou o braço de Karmen para puxá-la do carro.
"Ai! Lena, você está me machucando!", Karmen gritou de repente, olhando por cima do ombro de Helena. "Ok, ok, desculpa, eu vou sair!"
Então Karmen se jogou de lado, caindo do carro no chão de concreto. O assistente virtual que ela segurava caiu ao seu lado.
"Helena, qual é o seu problema? Ela é sua amiga!", gritou Danilo. Ele empurrou Helena para o lado e pegou Karmen nos braços.
Karmen tinha um arranhão minúsculo na mão. Ela enterrou o rosto no peito de Danilo e começou a soluçar.
"Danilo, a culpa é minha", ela choramingou. "Eu não devia ter tentado vir com vocês. Eu só queria comemorar com meu chefe..."
Danilo fuzilou Helena com o olhar. "Ela só queria tomar café da manhã com a gente. Você tem uns parafusos a menos, atacando sua própria amiga."
Ele virou as costas para Helena.
"Você claramente não está com fome se tem toda essa energia para agredir as pessoas. Fique em casa e esfrie a cabeça."
Ele colocou Karmen gentilmente no banco do passageiro, depois entrou no lado do motorista sem um segundo olhar para Helena. Ele engatou a marcha e acelerou.
O pneu traseiro atingiu a perna dela enquanto ele cantava pneu para sair da vaga.
Um estalo medonho ecoou na garagem. Ela desabou, o som do seu próprio osso fraturando se misturando com o guincho dos pneus.
Ele fez de propósito.
Enquanto o Tesla desaparecia, uma dor lancinante subiu por sua perna. Este era o homem que ela amou por cinco anos. Ele a deixaria quebrada no chão de uma garagem por causa de uma mentira.
Ela pegou o celular e chamou um Uber para levá-la ao pronto-socorro.
O raio-X confirmou: uma fratura fina na fíbula. Ela precisaria de gesso e muletas.
Uma risada, sem humor e seca, escapou de seus lábios. Isso era bom. Agora não haveria dúvidas. Nenhum momento de fraqueza.
"Helena? Você está bem?"
João Carlos Medeiros entrou correndo na emergência, a testa úmida de suor. Ele viu o gesso dela, e seus olhos escureceram com uma mistura de raiva e preocupação.
"Helena, me desculpe por não estar lá."
Ele a levantou gentilmente nos braços e a levou para o carro dele. Ele a colocou cuidadosamente no banco do passageiro e afivelou o cinto de segurança. O rosto dele estava perto, sua preocupação real e palpável. Era um tipo de intimidade que ela e Danilo nunca haviam compartilhado.
"Para onde?", ele perguntou suavemente.
"Me leve de volta para o apartamento", ela disse, olhando pela janela. "Tenho algumas coisas que preciso pegar."
Uma vida com João Carlos talvez não fosse tão ruim. Ele nunca a culpou. Ele nunca levantou a voz.
Na garagem, João Carlos se ofereceu para ajudá-la a subir.
"Espere aqui", ela insistiu. "Não vai demorar."
Ela manobrou a cadeira de rodas para fora do carro dele e rolou para dentro do elevador.
Quando abriu a porta do apartamento, Danilo e Karmen estavam lá. Karmen estava esparramada no sofá, usando uma das máscaras faciais de seda caras de Helena. Danilo estava na cozinha, descascando cuidadosamente um pêssego para ela.
"Karmen, meu bem, descasquei seu pêssego branco favorito", disse Danilo ao sair da cozinha com um pratinho. Ele congelou quando viu Helena.
Seus olhos foram do rosto dela para o gesso grosso em sua perna.
"O que você fez agora?", a voz dele estava cheia de irritação. "A conferência de tecnologia é na semana que vem. Você está tentando me envergonhar, aparecendo de cadeira de rodas?"
"Ah, Helena", Karmen riu do sofá. "Você não vai ser a noiva de cadeira de rodas, vai? Que brega."
Karmen estendeu o prato de pêssegos que Danilo acabara de lhe dar. "Danilo ficou na fila uma eternidade para conseguir esses pêssegos orgânicos da feira. Você devia comer um."
Helena encarou os pêssegos. Ela havia implorado a Danilo por semanas para ir àquela feira com ela. Ele sempre dizia que estava ocupado demais com o trabalho.
"Não, obrigada", disse Helena, a voz vazia. "Não quero nada que você tenha tocado."
Ela virou a cadeira de rodas em direção ao quarto para pegar suas coisas.
"Ah-", Karmen gritou como se tivesse sido esbarrada. O prato de pêssegos caiu no chão. "Helena, eu sei que você não gosta de mim, mas não precisava derrubar as frutas que o Danilo se esforçou tanto para conseguir!"
Enquanto Karmen se ajoelhava para pegar os cacos do prato, ela "acidentalmente" cortou o dedo em um caco.
"Karmen, não toque nisso", Danilo correu até ela. Ele a levantou e a levou para o sofá, cuidando do pequeno corte como se fosse uma ferida mortal.
Ele fuzilou Helena com o olhar. "Ela é uma convidada em nossa casa, Helena. Estou tão decepcionado com você."
"Fico feliz que você esteja feliz", ela respondeu, rolando para dentro do quarto.
Ela estava lá por uma única coisa: o medalhão vintage de sua avó.
Sua avó o havia dado a ela em seu aniversário de dezesseis anos, pouco antes de morrer. "Nossa Helena já é uma moça", ela dissera, com a voz fraca. "A vovó não pode ficar com você para sempre. Quando estiver com medo, segure isto com força e saiba que estou sempre com você."
Ela o usou até a corrente quase quebrar, então o guardou em segurança na caixa de joias em sua cômoda.
Hoje, ela pegaria o medalhão e iria embora para sempre.
Mas não estava lá. Ela procurou na gaveta, depois na seguinte, seus movimentos frenéticos. Ela sabia que o tinha deixado bem ali.
Ela rolou de volta para a sala de estar, as mãos tremendo de fúria. Quando estava prestes a perguntar a Danilo se ele o tinha visto, a campainha tocou.