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O Homem Que Abandonou Seu Amor

O Homem Que Abandonou Seu Amor

Autor:: Xiao Wang Qin Qin
Gênero: Romance
Por dez anos, eu achei que Caio Torres era meu salvador. Ele me tirou da minha cidadezinha no interior de Minas e me trouxe para o brilho de São Paulo, onde me tornei sua noiva dedicada e uma modelo de mãos de sucesso. Então, uma sessão de manicure surpresa, marcada por Caio no salão de sua ex-namorada, Karina, deixou minhas mãos em frangalhos, destruindo minha carreira dias antes de um contrato milionário. Quando minha agente ameaçou processar Karina, a fúria de Caio explodiu. Ele me acusou de estar arruinando o negócio dela. Dias depois, ele me levou para o meio de um parque nacional, me arrancou do carro, jogou minha bolsa no chão e foi embora, me deixando abandonada, grávida e sem sinal de celular. Depois de dois dias de terror e desidratação, voltei para casa e encontrei Caio rindo com os amigos, contando sobre como me abandonou, me chamando de "tapa-buraco" e zombando da minha carreira, revelando sua verdadeira e cruel natureza. Eu não conseguia entender como o homem que eu amava, o pai do meu filho, podia me ver como um objeto descartável, especialmente depois que minha própria família me renegou, me deixando completamente sozinha e sem ter para onde ir. Sem nada a perder, tomei uma decisão: eu cortaria todos os laços com Caio, começando pelo bebê, e retomaria minha vida, custe o que custar.

Capítulo 1

Por dez anos, eu achei que Caio Torres era meu salvador. Ele me tirou da minha cidadezinha no interior de Minas e me trouxe para o brilho de São Paulo, onde me tornei sua noiva dedicada e uma modelo de mãos de sucesso.

Então, uma sessão de manicure surpresa, marcada por Caio no salão de sua ex-namorada, Karina, deixou minhas mãos em frangalhos, destruindo minha carreira dias antes de um contrato milionário.

Quando minha agente ameaçou processar Karina, a fúria de Caio explodiu. Ele me acusou de estar arruinando o negócio dela. Dias depois, ele me levou para o meio de um parque nacional, me arrancou do carro, jogou minha bolsa no chão e foi embora, me deixando abandonada, grávida e sem sinal de celular.

Depois de dois dias de terror e desidratação, voltei para casa e encontrei Caio rindo com os amigos, contando sobre como me abandonou, me chamando de "tapa-buraco" e zombando da minha carreira, revelando sua verdadeira e cruel natureza.

Eu não conseguia entender como o homem que eu amava, o pai do meu filho, podia me ver como um objeto descartável, especialmente depois que minha própria família me renegou, me deixando completamente sozinha e sem ter para onde ir.

Sem nada a perder, tomei uma decisão: eu cortaria todos os laços com Caio, começando pelo bebê, e retomaria minha vida, custe o que custar.

Capítulo 1

Por dez anos, eu pensei que Caio Torres era meu salvador. Foi ele quem me tirou da minha cidade pequena e conservadora no interior de Minas e me trouxe para o brilho de São Paulo. Por dez anos, eu fui a sua Clara, amorosa e dedicada. A parceira perfeita para uma estrela de tecnologia em ascensão.

Ele era sempre tão atencioso. Lembrava das minhas flores favoritas, do jeito que eu gostava do meu café, do tom exato de esmalte que deixava minhas mãos perfeitas para uma sessão de fotos. Minhas mãos eram minha vida, minha carreira. Como modelo de mãos, eram elas que pagavam por nosso lindo apartamento, mesmo que a startup dele fosse o assunto do momento.

Uma tarde, ele me surpreendeu.

"Marquei uma manicure pra você num lugar novo, amor. Dizem que é o melhor da cidade. Exclusivo."

Eu sorri, grata como sempre.

"Você não precisava fazer isso."

"Só o melhor para você", ele disse, beijando minha testa.

O salão era chique, todo em mármore branco e design minimalista. Uma mulher com um corte chanel impecável e um sorriso cirurgicamente doce nos cumprimentou.

"Caio! Quanto tempo."

"Karina", ele disse, a voz um pouco tensa. "Essa é minha noiva, Clara."

Karina Matos. Sua namorada do colégio. A que "escapou". Ele a mencionava, mas sempre como um capítulo encerrado. Seus olhos me avaliaram, um brilho frio passando por eles antes que o sorriso doce voltasse.

"Claro. Clara. Suas mãos são lendárias", ela disse, me conduzindo a uma cadeira. "Deixa que eu cuido de você pessoalmente."

Ela trabalhou com precisão, suas próprias unhas eram punhais vermelhos perfeitos. Mas o produto químico que ela usou nas minhas cutículas parecia errado. Queimava. Uma dor aguda, cortante.

"Isso deveria arder tanto?", perguntei, tentando puxar minha mão.

"É só um tratamento novo de vitaminas, querida. Está fazendo sua mágica", ela disse, com um aperto firme.

Quando saí, minhas mãos estavam vermelhas e em carne viva. Na manhã seguinte, estavam um desastre. A pele estava descascando, inflamada, completamente arruinada. Um contrato de um milhão de reais para uma campanha de diamantes seria fotografado em três dias. Já era. Minha carreira inteira estava em chamas.

Minha agência ficou furiosa. Eles tinham me avisado sobre o salão da Karina. Boatos de práticas duvidosas e cortes de custos circulavam há meses. Eu os ignorei porque Caio insistiu. Quando minha agente ligou para o salão e ameaçou uma ação legal, colocando-os na lista negra da indústria, a reação de Caio não foi de compaixão. Foi de fúria.

"Você está arruinando o negócio dela!", ele gritou, o rosto contorcido em uma máscara feia que eu nunca tinha visto. "Porque você não aguentou uma ardidinha?"

No dia seguinte, ele disse que íamos dar uma volta de carro para esfriar a cabeça. Ele dirigiu por horas, em direção às montanhas, até estarmos no meio de um parque nacional. Ele parou o carro em um mirante deserto.

"Desce", ele disse.

"O quê?"

"Desce do carro, Clara." Sua voz era fria, vazia de qualquer calor. Ele me puxou para fora, jogou minha bolsa no chão, voltou para o carro e foi embora.

Fui deixada ali. Grávida, com as mãos arruinadas, sem sinal de celular e ninguém por quilômetros.

Levei dois dias para sair daquele parque a pé. Dois dias de terror, fome e desidratação. Um guarda florestal me encontrou desmaiada na beira da estrada. Quando finalmente cheguei ao nosso apartamento, exausta e quebrada, ouvi vozes da sala de estar. Caio e seus amigos.

Parei no corredor, escondida pelas sombras, e escutei.

"Você realmente deixou ela lá? No meio do mato?", um de seus amigos, Marcos, perguntou, rindo.

"Ela precisava aprender uma lição", a voz de Caio era casual, leve. "Ela e a agência dela iam acabar com a Karina. Não posso permitir isso."

"Mas ela está grávida, cara. E se acontecesse alguma coisa?"

Caio riu. Um som baixo e cruel. "O que vai acontecer? Ela é forte. Uma boa garota do interior, certo? Além do mais, a gravidez é a única coisa que a torna útil agora."

Meu sangue gelou.

Outro amigo, Léo, interveio. "Útil como? As mãos dela estão acabadas."

"Ela é um tapa-buraco, seu idiota", disse Caio. "Ela está grávida e a família dela a odeia. Para onde ela vai? Ela não tem nada sem mim. Está presa. Vai aprender a ser grata de novo."

Todos eles riram.

"Ela estava se achando demais, falando da 'carreira' dela", Caio zombou. "Uma modelo de mãos. Por favor."

"Você viu ela quando voltou?", perguntou Marcos. "Parecia um bicho atropelado. Toda enlameada e com o cabelo bagunçado."

"Bem feito pra ela", disse Caio. "Um pequeno castigo por cruzar o caminho da Karina."

Eu fiquei ali, tremendo tanto que meus dentes batiam. O homem que eu amava, a quem eu dei dez anos da minha vida, o pai do meu filho, me via como uma coisa. Um objeto a ser controlado e descartado.

Eu pensei que talvez ele estivesse apenas com raiva. Que ele se sentiria culpado. Que ele pediria desculpas. Aquele último pingo de esperança morreu ali mesmo no corredor.

"Você não tem medo que ela te deixe?", perguntou Léo.

A risada de Caio foi arrogante, cheia de confiança. "Me deixar? A Clara me ama mais do que a si mesma. Ela beija o chão que eu piso. Ela vai chorar, vai implorar meu perdão, e então vai voltar a ser a noiva perfeita e obediente. Ela não tem para onde ir."

Cada palavra era um prego no caixão do amor que eu pensei que tínhamos. Um sorriso amargo surgiu em meus lábios. Ele estava certo sobre uma coisa. Eu não tinha para onde ir.

Entrei sorrateiramente no quarto e encontrei meu celular. Disquei o número da minha mãe. Minhas mãos tremiam enquanto eu ouvia chamar.

"Alô?", a voz dela era ríspida, impaciente.

"Mãe, é a Clara. Eu... eu preciso de ajuda."

"Clara? O que foi agora? Está pedindo dinheiro de novo? Seu pai e eu já terminamos com isso. Você fez sua escolha quando fugiu para São Paulo com aquele homem."

"Mãe, por favor, estou com problemas."

"Nós jogamos fora aquela caixinha com suas coisas do seu quarto semana passada", ela disse, a voz como gelo. "Não há nada para você aqui. Não ligue mais."

A linha ficou muda.

Eu estava verdadeiramente sozinha. Caio me encontrou quando eu tinha dezoito anos, uma garota desesperada para escapar de uma família que a via como um fracasso por não querer se casar com um fazendeiro local. Ele parecia um príncipe, meu salvador. Agora eu via a verdade. Ele não me salvou. Ele apenas encontrou uma garota sem rede de apoio, alguém fácil de moldar, alguém que se parecia o suficiente com a Karina para ser uma substituta temporária.

A chuva começou a bater na janela. Sem pensar, tirei os sapatos, saí do apartamento e entrei na tempestade. Andei descalça pelas ruas da cidade, o asfalto frio um choque para o meu corpo. Não parei até estar em frente a uma clínica.

Lá dentro, a luz era forte demais. Fui até o balcão.

"Preciso marcar um aborto."

A enfermeira me olhou, sua expressão gentil, mas profissional. Ela me levou para uma pequena sala. Um médico entrou e olhou o prontuário que a enfermeira havia começado.

"Senhorita Mendes", disse o médico gentilmente. "Você está desnutrida e severamente desidratada. Seu corpo passou por um estresse significativo. Um aborto agora acarreta riscos."

"Que tipo de riscos?", minha voz era um sussurro rouco.

"Pode afetar sua capacidade de ter filhos no futuro. Pode ser permanente."

Meu rosto parecia uma máscara de pedra. Eu assenti.

"Eu entendo."

"Você tem certeza disso?"

"Eu não posso trazer uma criança a este mundo", sussurrei. "Não posso ser responsável por uma vida quando não consigo nem proteger a minha."

Ela marcou o procedimento para algumas semanas depois, me dando tempo para recuperar minhas forças.

Arrastei-me de volta para o apartamento. Caio e seus amigos ainda estavam lá, bebendo. Ele me viu parada na porta, encharcada e pálida.

"Olha só o que a tempestade trouxe", ele disse com um sorriso de canto.

Seus amigos riram.

Pela primeira vez, eu o vi claramente. O parceiro charmoso e carinhoso era uma atuação. Este homem cruel e narcisista era o verdadeiro Caio Torres.

Eu não disse nada. Passei por ele, entrei em nosso quarto e fechei a porta.

O apartamento ainda estava decorado para nossa festa de noivado. Serpentinas e balões pendiam do teto, zombando de mim. O casamento era em um mês. Um grande evento que ele havia planejado, um espetáculo público para exibir sua vida perfeita com sua noiva perfeita e grávida. Uma noiva que ele acabara de deixar para morrer em uma floresta.

Liguei meu celular. Dezenas de mensagens. Uma da minha agente dizia que eles conseguiram negociar uma multa menor pela quebra de contrato, mas ainda me custaria tudo o que eu tinha. Eu estava arruinada.

Naquela noite, ele deslizou para a cama ao meu lado. Ele envolveu seus braços em minha cintura, seu toque fazendo minha pele se arrepiar.

"Você está bem, amor?", ele sussurrou contra meu cabelo. "Como está o nosso bebezinho?"

Capítulo 2

"Estamos bem", eu disse, minha voz fria.

Ele se mexeu, sentindo a mudança.

"Ainda está brava comigo?"

Virei-me para encará-lo no escuro.

"Você me ama, Caio?"

"Claro que amo", ele disse, sem um pingo de hesitação. A mentira vinha com tanta facilidade.

Nesse momento, o celular dele vibrou na mesa de cabeceira. Ele pegou. Eu podia ouvir os soluços suaves de uma mulher pelo alto-falante. Karina.

"Caio, não me deixa", ela chorava. "Por favor, não se case. Eu não consigo viver sem você."

Seu corpo inteiro ficou tenso.

"Karina, calma. Eu não vou te deixar."

"Mas o casamento..."

"Já estou indo aí", ele disse, a voz urgente e suave. Ele desligou e olhou para mim, um lampejo de irritação em seu rosto.

"Não começa, Clara", ele avisou. "Ela só está passando por um momento difícil."

"Então você vai até ela? Agora?"

"Eu volto logo", ele disse, já saindo da cama. "Nós ainda vamos nos casar. Apenas seja uma boa menina e cuide de si mesma. E do bebê." Ele parou na porta, como se de repente percebesse que talvez tivesse forçado a barra. "Eu vou te compensar. Eu prometo."

Então ele se foi.

Mesmo depois de tudo, mesmo depois de me deixar no meio do mato, ele ainda a escolheu. Eu era apenas a incubadora conveniente, a mulher que deveria esperar pacientemente nos bastidores.

Levantei-me da cama e fui até a caixa de fotos antigas no armário. Vasculhei-as. A última foto só de nós dois era de três anos atrás. Tudo desde então, todos os feriados, todas as festas, Karina estava lá, pairando na beirada da foto, um fantasma em nossas vidas.

Abri meu notebook. Karina tinha acabado de postar no Instagram. Uma foto de uma linda casinha de passarinho de madeira, feita à mão. A legenda dizia: "Ele ainda se lembra que eu amo sabiás-laranjeira. Algumas coisas nunca mudam. #almasgêmeas"

Caio tinha feito aquilo para ela. Ele nunca tinha feito nada para mim. Ele me comprava coisas, coisas caras, mas nunca me deu seu tempo, seu esforço. Eu era sempre a que tinha que ser compreensiva, a que não podia exigir nada.

Não era que ele gostasse de uma mulher "compreensiva". Ele simplesmente não gostava de mim.

Com uma onda de fúria fria, peguei as fotos de nós dois e as rasguei em pedaços. A borda afiada de uma foto brilhante cortou meu dedo. Observei uma gota de sangue brotar na minha pele. Não era nada comparado ao dano que ele havia causado à minha vida.

Na manhã seguinte, tirei todas as decorações de noivado. O silêncio no apartamento foi um alívio.

Por volta do meio-dia, a fechadura da porta da frente girou. Não era o Caio. Era a Karina.

"Oi, Clara", ela disse, seu sorriso doce como veneno. "O Caio está preocupado com você. Ele me pediu para vir te fazer companhia."

Eu não fiquei surpresa. Era bem a cara deles armar essa pequena performance.

"Não é necessário", eu disse, minha voz vazia.

Sua postura mudou num piscar de olhos. A doçura desapareceu.

"Ah, eu acho que é", ela disse, se aproximando. "Precisamos conversar." Ela me olhou de cima a baixo, seus olhos demorando em minha barriga. "Sabe, você realmente se descuidou. Não é à toa que ele se cansa de você."

Eu suspeitava que Caio chegaria em breve, pronto para bancar o herói.

Karina estendeu a mão, suas unhas perfeitamente cuidadas cutucando minha barriga.

"A parasita aí dentro está bem?"

Eu recuei, minhas mãos instintivamente se movendo para me proteger.

Era tudo o que ela precisava. Ela soltou um grito agudo e se jogou para trás, batendo a cabeça de propósito na quina afiada da mesa de centro.

Um corte se abriu em sua testa, e o sangue começou a escorrer por seu rosto perfeito.

A porta da frente se abriu com um estrondo. Caio entrou correndo, os olhos arregalados de pânico. Ele nem olhou para mim. Correu direto para Karina, aninhando-a em seus braços.

"O que aconteceu? Você está bem?"

Karina soluçava, agarrando-se a ele.

"Não é culpa dela, Caio. Ela só está emotiva por causa da gravidez. Eu não deveria ter vindo."

Suas lágrimas se misturaram com o sangue, criando uma imagem dramática e trágica. Ela era uma atriz magistral.

Caio se virou para mim, o rosto uma tempestade de fúria.

"Qual é o seu problema, Clara? Primeiro a minha carreira, agora isso? Você não consegue deixá-la em paz por um segundo?"

Ele agiu como se eu tivesse cometido um crime imperdoável.

Karina continuou com sua atuação.

"Caio, não a culpe. Foi um acidente. Eu estou bem, de verdade."

Ele olhou do rosto ensanguentado dela para o meu, estoico.

"Bem? Ela te machucou! Como ousa se comparar a ela? Você não é digna nem de engraxar os sapatos dela."

Capítulo 3

Eu não disse nada. Apenas fiquei ali, assistindo à sua performance.

A antiga Clara estaria histérica, implorando por seu perdão, desesperada para se explicar. Mas a antiga Clara se foi. Ela morreu em algum lugar naquela mata. Eu soube então que nunca mais suplicaria por seu amor.

Caio pareceu confuso com meu silêncio.

"Você não vai dizer nada? Pedir desculpas?"

"Já acabou?", perguntei, com a voz cansada.

"O quê?"

"Estou cansada", eu disse. "Vou para o meu quarto."

Virei-me e fui embora, deixando-o gaguejando na sala de estar com sua preciosa Karina. Eu não sentia a necessidade de explicar. Não me importava com o que ele pensava.

Naquela noite, ele entrou no quarto e deitou-se ao meu lado. Ele me abraçou, seu corpo quente contra minhas costas. Eu não me mexi.

"Estou cansado, Clara", ele sussurrou, a voz cheia de uma exaustão falsa. "Apenas seja boazinha. Pare de brigar com a Karina. O casamento é na semana que vem. Eu te darei tudo o que você quiser. Apenas se comporte."

Ele enterrou o rosto no meu cabelo e passou a mão pela minha barriga.

"Ok?"

"Ok", sussurrei de volta.

Fechei os olhos e decidi. Eu abriria mão de tudo que me ligava a ele. Começando pelo bebê.

No dia seguinte, ele insistiu que fôssemos todos a uma festa juntos. Um encontro com seus amigos mais próximos.

"Vai ser mais confortável para você no banco de trás, querida", ele disse, abrindo a porta traseira do carro para mim enquanto Karina deslizava para o banco do passageiro da frente.

Fechei os olhos e os ouvi conversar durante todo o caminho. Falaram sobre piadas internas antigas, memórias do colégio, um mundo do qual eu nunca fiz parte. Eu era apenas uma espectadora da história de amor perfeita deles.

A festa foi em uma sala privativa de um restaurante caro. Era toda a sua turma. Todos cumprimentaram Karina com abraços calorosos e me trataram com uma distância educada.

"Olha só o casal feliz!", disse Marcos, piscando para Caio e Karina. "E a... outra."

Karina corou lindamente.

"Não seja bobo. Caio e eu somos apenas amigos. Clara é a noiva dele." Ela disse isso de um jeito que soava como uma piada, como se ela fosse o prato principal e eu, o acompanhamento que ninguém pediu.

Caio franziu a testa levemente, um sinal silencioso para seus amigos pegarem mais leve, mas não me defendeu. Ele apenas puxou uma cadeira para mim, um gesto superficial, antes de fazer o mesmo por Karina, bem ao seu lado.

Quando o garçom veio servir o vinho, Caio o interrompeu antes que chegasse a Karina.

"Para ela não. Faz o rosto dela ficar vermelho." Ele sabia desse detalhe minúsculo e íntimo sobre ela. Meu copo já estava cheio. Ele nem tinha notado.

Eu sorri um sorriso fraco e cansado.

Alguém sugeriu um jogo. Verdade ou consequência com uma garrafa. A garrafa girou, parando, é claro, em Karina.

Marcos gritou.

"Consequência! Eu te desafio a jogar o jogo do biscoito com alguém nesta sala!"

Karina fingiu timidez, seus olhos percorrendo o ambiente antes de pousarem em Caio.

"Caio, você me ajuda? É só um jogo."

Ele olhou para mim. Meu rosto era uma máscara em branco. Não lhe dei a satisfação de uma reação. Não vendo protesto, ele deu de ombros.

"Claro, por que não?"

Eles colocaram o biscoito coberto de chocolate entre os lábios. A sala explodiu em aplausos enquanto eles mordiscavam cada vez mais perto. Seus rostos estavam a centímetros de distância.

Coloquei a mão na minha barriga lisa, um gesto que agora parecia vazio. Todos naquela sala haviam esquecido que eu estava ali, que eu era sua noiva, que eu estava carregando seu filho.

As orelhas de Caio ficaram vermelhas. Eu só tinha visto isso acontecer quando ele estava genuinamente nervoso, genuinamente afetado.

"Eu lembro quando vocês dois foram eleitos o Casal Mais Bonito no último ano do colégio", Léo disse, arrastando as palavras, feliz. "Todos nós pensamos que vocês iam se casar."

"É, e lembra daquela vez que o Caio dirigiu a noite toda para te levar sopa quando você estava com gripe?", acrescentou Marcos.

Caio lançou-lhes um olhar de advertência.

"Gente, calem a boca." Ele estendeu a mão e pegou a minha. A dele estava quente, a minha estava gelada. "Eles só estão bêbados e falando besteira. Não liga pra eles."

"Eu não ligo", eu disse, meu sorriso parecendo frágil em meu rosto.

Ele assentiu, satisfeito. Ele realmente acreditava que eu era tão estúpida. Que eu ainda era a mesma garota que engoliria qualquer mentira que ele me contasse.

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