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O INTERNATO

O INTERNATO

Autor:: Anny Karollayne
Gênero: Romance
Ele não era o garoto que ela tanto idealizou antes de dormir, tampouco era o genro perfeito que seus pais sonhavam para sua garotinha. Ela? Bom, ela não possuía as curvas e formas que ele tanto fantasiou. Eles não combinavam em absolutamente nada, ele era dono de uma personalidade completamente detestável, já ela sempre o irritou com suas manias. Ambos de longe não eram a alma gêmea do outro, vê-los como casal poderia ser considerado um devaneio insano... Um único sentimento, ou melhor, sensação unia essas personalidades completamente opostas. Qual? O êxtase! Quem poderia imaginar que dessa grande desventura nasceria algo tão intenso?

Capítulo 1 01

–Prólogo:

[...]

-Acho que Helena sempre vai ser o meu ponto de equilíbrio. Minha fuga.

-Sua fuga, Gustavo? –Pedro questionou visivelmente irritado. –Do que especificamente?

-Das dores do mundo. –Encarei a paisagem a nossa volta. –Ela é o meu antídoto. –Balancei a cabeça negativamente.

-E você o veneno dela. –Pedro falou inconformado enquanto parava ao meu lado e repete meu gesto. –E quanto as dores dela? –Não o encaro, mas sei que ele me fita. –Quem cuida? –Ele insiste. –Não vê o tamanho da desgraça que está causando á ela? –Respirei fundo e o encarei da maneira mais sincera que conseguia fazer.

-Sou um grande egoísta, o que posso fazer? Ela é a única coisa boa que eu tive durante toda a minha vida. –Balancei a cabeça na tentativa de afastar a imagem da Helena chorando. –Sinto por você, Pedro... Você é meu melhor amigo, meu irmão, depois de tudo receio que isso não seja mais recíproco de sua parte, mas Helena é minha, e nem você, nem ninguém irá mudar isso. –Dito isso, nós encaramos por mais algum tempo. Qualquer sentimento de cumplicidade havia acabado naquele exato momento, era notável.

Um prédio antigo. Esse será meu lar por no mínimo doze meses, ou até que eu ganhe minha "saída por bom comportamento". Volto a encarar o portão agora fechado pelas grossas correntes, um desespero toma conta do meu coração. Eu ainda não acreditava que meus pais tiveram a coragem de me colocar nesse lugar com a desculpa de que seria para o meu bem... Tirar minha liberdade dessa maneira é para o bem? Eu simplesmente não enxergava a situação dessa maneira. Para mim, eles se cansaram de ter uma filha problemática em casa e resolveram me isolar do mundo para que estranhos resolvessem a situação. Apesar já ter a minha maioridade, uma liminar me "convidava" há ficar por doze meses em um internato/reformatório pago, cercado de outros jovens problemáticos de dezessete á vinte e um anos. Enquanto meus amigos curtiam o primeiro ano depois de se formarem em viagens ou intercâmbios, meus pais haviam me colocado nesse purgatório. Eu jamais os perdoaria. Jamais!

Puxei minha mala pelo amplo "corredor" de pedrinhas que levavam até a entrada do internato. Enquanto andava, aproveitei para olhar minha nova moradia, dois prédios que um dia foram pintados de amarelo eram ligados por um ampla passarela com enormes janelas de vidro, o lugar parecia ser absurdamente grande. Todas as janelas do que possivelmente seriam dormitórios eram cercadas por grades grossas, na espessura do meu braço. Em algumas partes da construção, assim como os muros que cercavam o local, eram tomados por plantas trepadeiras. O local cheirava a terra molhada, era também absurdamente gelado, parecia que o sol havia punido o tal lugar e não aparecia há décadas. Subi o pequeno lance de degraus e com certa dificuldade levar minhas coisas comigo, tinha uma porta de maneira grande e antiga que dava acesso ao "purgatório", tentei empurrá-la algumas vezes, mas parecia ser inútil, alem de pesada, parecia estar trancada, inclinei meu corpo para o lado, tentando ver o que se passava por uma daquelas vidraças coloridas que se assemelham aos de igrejas, mas por conta do vidro colorido e de diversas formas, não consegui ver nada com clareza. Suspirei pesadamente e logo criei coragem para bater na porta. Duas batidas foram suficientes, segundos depois uma senhora que aparentava ter seus cinqüenta anos abriu a porta sem fazer esforço algum, sua cara de poucos amigos praticamente denunciavam o quanto era antiga naquele lugar.

-Sou Helena Sart... –Antes que eu pudesse entrar, a velha balançou a cabeça negativamente e foi logo puxando meu braço de maneira nada simpática.

-Você está atrasada, já começamos a explicar as regras! –Ela resmungou visivelmente irritada por meu atraso. Espera! Eu não estava atrasada... Enfiei a mão no bolso de minha jaqueta e segurei meu celular, retirei o mesmo e olhei para o visor que marcava 16:22h. O horário previsto para que eu estivesse aqui era 16:45h. Ergui meu celular na expectativa de mostrá-la que estava errada.

-Não, eu não estou atrasada! –Ergui meu celular na expectativa de mostrá-la que estava errada. Mas fui surpreendida, a velha tomou o celular das minhas mãos e sorriu com naturalidade.

-Regra numero três... –Nesse momento surgiu outra mulher, essa era ruiva e segurava um pequeno cesto. –Nada de celular! –Assisti completamente atônita enquanto ela colocava meu celular nesse cesto.

-O quê? –Murmurei.

-Aqui é um internato. Não uma colônia de férias, acostume-se. –Ela sorriu de maneira cínica. –Seja bem vinda, senhorita Sarthi. –Dito isso ela virou e voltou ao grupo de jovens com quem falava.

Já havia perdido a conta dos minutos em que estávamos parados e exaustos escutando o discurso maçante daquela velha. Toda pergunta de algum dos novos "alunos", tinha como resposta algo desaforado, aquela mulher parecia nos odiar com todas as suas forças, seu olhar a denunciava, nos descriminava a cada suspiro alto que dava.

-Vocês são obrigados a assistirem três horas diárias de aula. –Ela disse sem demonstrar reação alguma, um "colega" de grupo ergueu a mão, parecendo entender a feição de frustração de todos ali. –Pode falar. –Ela disse sem tirar os olhos de sua prancheta.

-Aula? –Ele repetiu como se estivesse ainda não acreditando. –Não sei se você... –Ela o interrompeu.

-Você não. Quero respeito, quero ser chamada de senhora. –Ela falou. Todos olhamos para o menino, que revirou os olhos e fez uma careta totalmente contrariado.

-A senhora... –Ele disse com certa dificuldade, tive que conter o sorriso. Era tão difícil assim usar os bons modos?

-Prossiga. –Ela o encarou sem demonstrar reação alguma.

-Aula? Acredito que a maioria aqui já tenha se formado, outros talvez já começaram a quem sabe fazer alguma faculdade e... –Novamente o garoto foi interrompido.

-Está correto senhor Bortoloti, mas parece que apesar de ter muitos possuírem um currículo tão grande com tão pouco idade, não evoluíram lá fora, tanto é que estão aqui. O senhor estava cursando o que? Medicina? Estou correta? –Ela falou, mas era notável seu sarcasmo. –E olha onde seus pais o colocaram. –Ela caminhou até ele e o encarou friamente. –Seus pais estão pagando mensalmente para fazermos de você um homem de verdade, e de um jeito ou de outro, honraremos a nossa promessa. Sendo assim, aulas irão fazer parte dessa caminhada, desse longo processo. –Ela suspirou pesadamente ainda o encarando. –Espero que tenha compreendido, apesar da pouca idade, sei que é um garoto bem esperto... –Ela sorriu e tornou a voltar ao seu lugar. O garoto ao meu lado fulminava, seus punhos estavam cerrados e ele parecia fazer um esforço imenso para não acertar pelo menos um tapa no rosto daquela mulher arrogante.

-Sem exceções? –Questionei.

-Quero que erga a mão quando for perguntar ou falar algo senhorita Sarthi. –Ela falou. Assenti um pouco receosa por tamanha grosseria, respirei fundo tentando manter a maior calma possível, eu tinha de ter paciência e ser no mínimo educada, caso contrario, meus pais jamais iriam me tirar dali.

-Agora a senhorita pode falar. –Ela falou. Revirei os olhos e prossegui.

-Sem exceções? –Questionei novamente.

-Sem exceções. –Ela confirmou. Apenas assenti não acreditando na tamanha falta de sorte que eu havia encontrado. –Prosseguindo... –Ela observou rapidamente a prancheta em suas mãos. –Prédio A é uma área restrita para os meninos. Prédio B é a área das meninas. Não é permitido que se ambos visitem uma área que nos os pertence, caso essa regra for descumprida, informaremos seus responsáveis e mais dois dias serão adicionados em suas fichas. –Assim que ela terminou essa frase, ouvi o suspiro pesado de meus colegas. –Vocês só vão ter contato nas aulas, nas refeições e na hora do lazer, fora isso, o encontro de vocês é extremamente proibido. –Ela nos encarou. –Espero que todos vocês tenham entendido. Ok? –Murmuramos um "ok" e ela prosseguiu. –Assim como as aulas, o horário da refeição também é obrigatório, por mais que não estejam com fome, é viável que comam pelo menos algo... Não quero ninguém doente por não se alimentar, caso essa regra seja burlada... Mais um dia será adicionado a ficha de vocês. E a respeito das vestimentas de vocês... Podem esquecer as roupas vulgares, enquanto estiverem na presença dos colegas de vocês, quero que se vistam de maneira adequada, calças longas, sem decotes, regatas não são permitidas... É uma vasta lista que terão de ler, no final dessa breve apresentação irão ganhar uma copia de nossas regras, espero verdadeiramente que compreendam todas as regras, não quero ter de tomar medidas drásticas com vocês, mas se for preciso... Tomarei sem pensar duas vezes. Então sejam prudentes e pensem duas vezes antes de fazerem algo errado. –Foram quase uma hora e meia de discurso, ela mostrou rapidamente o lugar, mas o dormitório não fez parte dessa apresentação, ela garantiu que logo iríamos fazer amigos e pegaríamos o "jeito" e a rotina daquele lugar. Duvido! Ficaria muito pouco ali, mostraria para eles que eu era um amor de menina, e que um grande equivoco ocorreu para me colocarem ali.

-Agora as meninas me acompanhem, vou levá-las até os dormitórios... Dentro de vinte minutos, nos encontraremos novamente no refeitório. É o tempo de trocarem de roupa e deixarem as malas nos respectivos quartos. –Ela olhou para seu relógio. –O período de aula já acabou, então estão livres pelo resto da tarde, mas amanhã já serão encaixados em nossa grade de matérias. –Ela deu um sorriso pra lá de falso. –Sejam todos bem vindos... Garanto que seremos bons amigos. –Sua voz era tão fria como aquele lugar. –Acompanhe-me meninas... –Ela começou a caminhar até o outro lado do salão e parou diante de uma enorme porta, haviam outras quatro no mesmo espaço, e todas eram enormes. A mulher tirou um molho de chaves de seu bolso e abriu a porta, empurrando a mesma com certa dificuldade. –Essa porta sempre fica fechada. –Ela explicou. –Vocês só terão acesso a essa saída na hora do lazer, pois a passarela lá de cima dá acesso as salas e aos refeitórios. –Ela nos olhou brevemente. –Sigam-me, meninas! –Dito isso, todas entramos e logo a porta foi novamente trancada.

Capítulo 2 02

Subimos um lance de escadas, e durante o caminho, ela foi nos explicando como tudo funcionava no nosso lado, ou melhor, o lado B.

-Agora só terão quinze minutos, então se apressem... –Ela começou a distribuir as chaves dos dormitórios, para mim ela entregou a chave com o numero vinte gravado em um chaveiro metálico. –Todas terão uma colega de quarto, é outra forma de se adaptarem aos dias aqui. –Ela falou ao ver nossa expressão. –É uma boa lição, digo, um bom aprendizado, pois acredito que todas aqui mesmo tendo ou não irmãs ou irmãos... Nunca dividiram o quarto com outra pessoa. –Olhei para as outras três meninas que estavam ao meu lado, todas estavam desconfortáveis com a situação. A velha arrogante tinha razão, eu nunca tinha divido meu quarto com outra pessoa, e agora dividiria com uma estranha. Cadê a privacidade? Aquilo provavelmente era o caminho para uma grande encrenca. –Não precisam se preocupar, todas se adaptaram muito facilmente, garanto que vão fazer o mesmo. Vão ser praticamente melhores amigas em no mínimo duas semanas, quase irmãs... Não é ótimo? –Era falou com sarcasmo. As duas primeiras meninas foram deixadas no segundo andar, a outra menina e eu seguimos juntas na companhia da mulher até o terceiro andar. –Aí está seu dormitório. Espero encontrá-la no refeitório daqui a sete minutos, caso contrario... Mais um dia será adicionado em sua ficha... Não queremos começar dessa maneira, não é mesmo? –Ela piscou e saiu com a outra menina, deixando-me parada diante a porta de numero 20. Não bati na porta, pois se aquele seria meu dormitório, era tão dona quanto a atual "moradora". Assim que entrei, fui atingida por uma almofada. Estava tão distraída que a almoçada acertou em cheio minha cabeça, com o susto dei alguns passos para trás.

-Cadê a privac... –A menina parou de falar assim que me viu. Na verdade, eram duas meninas, as duas estavam sentadas na cama, pareciam conversar.

-Aí... –Reclamei retomando ao meu lugar.

-Quem é você? –A mesma garota que havia lançado a almofada, questionou enquanto me encarava com curiosidade.

-Nova colega de quarto. –Ergui minha mão e mostrei o chaveiro do dormitório. –Sinto muito, pensei que ninguém estaria aqui... –Menti. –Por isso não bati. –Não queria começar ainda pior, então tentei ser amigável. –Sou Helena. –Ofereci meu melhor sorriso.

-Ganhei uma colega de quarto, estava na hora! –Ela sorriu brandamente.

-Ainda bem, assim me deixa em paz... –A outra menina falou. –Sou a Dóris... Sua vizinha de porta. –Ela levantou e veio até mim. –Seja bem vinda.

-Obrigada... –Respondi de forma sincera.

-Eu sou a Manuela, sua colega de quarto. –Ela disse enquanto também levantava e vinha até mim, ou melhor até nos. Antes que pudéssemos continuar nossa provável conversa, um som extremamente alto e chato ecoou pela escola. –Já é hora de comermos novamente? –Ela perguntou a Dóris.

-É o que parece... –Dóris respondeu enquanto recolhia seu casaco e colocava o mesmo.

A tal Manuela correu até sua cama e se debruçou sobre ela, tirando de baixo da mesma um par de tênis rosa da Nike, se apressando em seguida para calçá-los.

-Vai tocar o segundo, Manu... –A tal Dóris a alertou enquanto eu assistia tudo em segundo plano. –Se apressa. –Ela falou impaciente e dito isso, outro sinal ecoou, Manuela que ainda estava sem um tênis, correu até a porta junto a Dóris.

-Se apressa Helena, no terceiro é castigo! –Ela me aconselhou antes de sair apressada porta a fora, deixando-me sozinha. Droga! Lembrei do que a velha arrogante falou, ela alertou umas três vezes que devíamos trocar de roupa. Desci meu olhar pelo corpo, estava vestida com uma calça jeans de lavagem escura, uma jaqueta jeans preta e uma camisa de uma banda que conheci através de um amigo, acho que só nos dois éramos fãs dessa banda... Balancei a cabeça negativamente enquanto corria até minha mala e começava a jogar roupas para fora, o terceiro sinal tocou, deixando-me ainda mais aflita. Peguei uma blusa qualquer, tinha mangas longas e nem sinal de decote, não me preocupei em ver a estampa ou coisa assim, apenas sai apressada porta a fora e corri pelos corredores ainda desconhecidos. Quarto sinal, eu não conhecia nada ali, mas pelo jeito? Eu estava ferrada! Ao perceber o quão atrasada eu deveria estar, parei de correr e comecei a andar em passos lentos, do que adiantaria se apressar agora? Eu já havia "burlado" as regras. Comecei a me xingar mentalmente enquanto seguia atravessava a enorme passarela. Aquele espaço era amplo e incrivelmente alto, já era possível ver o entardecer, as janelas de vidros permitiam ter uma excelente visão não só da escola, como também dos espaços próximos. Acabei me distraindo com a visão, debrucei meu corpo em uma dessas janelas e fiquei olhando tudo atentamente, as luzes do internato eram ligadas uma a uma, e aos poucos o lugar, ou melhor, "o pátio" do lugar ganhava vida mesmo estando vazio.

-Senhorita? –Ouvi uma voz masculina bem ao meu lado. Resultado? Um galo! Pois com o susto, minha cabeça foi de encontro ao vidro. –Droga! Machucou? –Coloquei uma de minhas mãos na testa e a outra em meu peito, tentando apartar meus batimentos pra lá de acelerados.

-O quê deu em você pra aparecer assim do nada? –Falei irritada enquanto alisava minha testa. –Se eu tivesse algum problema, poderia até ter morrido! –O cara ao meu lado sorri brandamente, como se eu tivesse tido alguma piada. –Do que está rindo? –Digo completamente indignada.

-Pelo jeito é nova... Ainda não tive o prazer de conhecer a dona desse dramalhão todo em minhas aulas. –O tal homem diz.

-Aulas? –Repito. –Você é um dos professores? –Falo meio desconcertada pela forma como eu o tratei. –Espero que isso não interfira em minhas futuras notas, pois você também deverá levar em conta o machucado que me causou, estou até meio tonta... –Finjo enquanto coloco as mãos em minha cabeça, o estranho, que agora havia apresentado-se como professor, começa a sorrir como se estivesse diante de uma comedia.

Capítulo 3 03

-Você é muito engraçada... –Ele fala assim que termina de sorrir. –Espero que esteja realmente fingindo, caso contrario, terei de te levar até a enfermaria e... –O interrompo.

-Eu estou atrasada, digo, bem mais do que atrasada! –Falo alarmada retomando meu pensamento. –Essa ida a enfermaria poderia me salvar do castigo... –Falo como se estivesse pensando alto. –Quero ir a enfermaria, minha cabeça começou a doer horrores, além disso o responsável foi você e... –Ele ergue as mãos em defesa.

-Você está na hora errada e no lugar errado, se não fosse eu, poderia ser uma das diretoras, posso afirmar que esse encontro seria bem pior pra você. –Ele fala agora em um tom mais serio.

-Por favor... –Junto as minhas mãos enquanto me aproximo dele de maneira cautelosa. –Esse é meu primeiro dia, na verdade cheguei há algumas horas, me leva até a enfermaria e explica o que houve... –O estranho me encara de uma forma que eu não conseguia descrever, seus olhos e sua expressão estavam vazios, bem diferente do cara sorridente de minutos atrás. –Por favor... –Peço outra vez.

-Vamos então! –Ele diz apenas isso e se vira, voltando a caminhar pelo corredor em sentido contrario do refeitório, me apresso para acompanhá-lo, seus passos são largos. Caminhamos com certa distancia em silencio até o quarto andar. –Eduarda? –O estranho chama assim que entramos em um pequeno corredor.

-Aqui! –Uma voz feminina surge no ambiente, ele me encara brevemente.

-Trouxe uma paciente pra você. –Ele fala assim que entramos em uma sala incrivelmente clara. –Bateu com a testa em algum lugar, a encontrei escorada na passarela. –Ele fala com naturalidade, o encaro e ele faz o mesmo.

-Ah sim... –A enfermeira fala enquanto se aproxima de mim. –É coisa simples. –Ela fala ao tocar minha testa. –Apenas um band aid e uma aspirina resolve tudo. –Ela sorri pra mim e se afasta, mexe em algumas gavetas e logo retorna. –Esse curativo vai combinar perfeitamente com seu pijama. –Ela fala sorridente.

-O quê? –Falo sem entender. –Pijama? –Ela balança a cabeça positivamente enquanto coloca o band aid em minha testa. Assim que ela termina, desço meu olhar até minha blusa e entendo o seu comentário, estou vestida com a camisa de meu pijama da Liga da Justiça. Me xingo mentalmente enquanto me levanto. –Vou ter que ir para o refeitório com essa camisa? –Pergunto a enfermeira.

-Sim, esse simples acontecimento não necessita de uma dispensa, foi coisa simples, você vai sobreviver. –Dito isso, ela me entrega um copo descartável e uma aspirina. –Saúde! –Ela recolhe o copo assim que termino de beber minha água. –Pode levá-la, Thiago. –Viro em direção do ex estranho, que em poucos minutos já havia se apresentado como professor, e agora eu tinha descoberto seu nome.

-Vamos. –Ele acena com a cabeça.

-Obrigada! –Agradeço a enfermeira antes de sair.

-Se eu fosse você, não tirava esse curativo, é tipo uma prova da sua enorme lesão... –Ele fala com certa ironia, mas carrega nos lábios um sorriso brincalhão.

-Adorei as boas vindas! –Falo e passo a frente dele, desço as escadas sem esperá-lo, e faço o mesmo durante o breve caminho até o refeitório.

Novamente entrei na passarela que dava acesso ao refeitório, mas dessa vez, a mesma não estava vazia, quer dizer, havia algumas pessoas no final dela. Tentei ver quem era, ou melhor, a quantidade de pessoas, mas não tive êxito, então continuei andando e vi que era uma mulher e dois meninos, eles pareciam discutir, ao me aproximar vi que era a mulher que havia pego o meu celular minutos antes. Eles pararam de discutir assim que cheguei perto deles, todos me olharam e ela bufou.

-Mais uma atrasada! –Ela falou num tom de reprovação.

-Desculpe, eu... –Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi a voz do tal Thiago atrás de mim.

-Essa aluna tem uma justificativa, Elisa. –Todos, inclusive eu, olhamos para ele. –Ela estava na enfermaria, e eu a acompanhei. –A tal Elisa me encarou, assim como os dois meninos.

-Tudo bem então. –Ela disse. –Mas vocês dois... Posso apostar meu salário desse mês que não estavam na enfermaria... –Os meninos se entre olharam e o que estava a esquerda de Elisa deu os ombros e olhou pra mim.

-Eu estava dormindo. –O outro menino falou. –O meu colega de quarto não me acordou e deu nisso. –Ele disse com naturalidade. –Adiciona mais um dia na minha ficha e me deixe passar logo, Elisa! –Disse impaciente.

-Peço licença. –O Thiago disse enquanto empurrava a porta do refeitório, as vozes inundaram a passarela, mas logo cessaram quando o mesmo fechou as portas assim que entrou no espaço.

-Eu vou chamar a senhora Sandra. –A Elisa disse, fazendo o mesmo caminho que o tal Thiago, deixando-me na companhia dos dois estranhos. Me afastei um pouco e encarei com mais atenção os dois meninos, ambos me encararam, o da esquerda era alto e magro, mas tinha lá seus encantos, ele tinha uma pequena tatuagem abaixo do olho, mesmo com seu moletom escuro, eu conseguia ver com clareza algumas tatuagens em suas mãos, seus cabelos eram escuros, parte dele caiam sobre sua testa. Seu olhar era intenso, me deixava desconcerta de uma maneira inexplicável.

-Novata. –O da direita comentou sem tirar os olhos de mim. Senti meu rosto queimar, com certeza estava ruborizada por conta do olhar deles sob mim.

-É. –O da esquerda falou com um esboço de sorriso no canto dos lábios, mas não era um sorriso de "boas vindas", era um sorriso meio cínico. E cá entre nós? O deixava ainda mais irresistível. Dito isso, eles viraram frente a frente e começaram a conversar entre si, deixando-me isolada novamente. Ambos trocavam olhares e sorrisos, e eu sabia perfeitamente que o assunto da vez era a "novata" aqui.

-Gustavo e Bernardo... Porquê eu não estou surpresa? –A velha arrogante surgiu na passarela com a tal Elisa atrás dela.

-Você deveria ficar feliz, Sandra... –O garoto loiro falou de maneira ríspida. –Mais um dia, mais dinheiro pra você. Não é assim que funciona? Não é por isso que a cada "imprudência" nos castiga com mais um dia? –A tal "Sandra" sorriu com desdém.

-Não me culpe pelos seus atos, Bernardo. Todos nos aqui sabemos o quanto o Gustavo e você aprontam. –Ela deu os ombros enquanto caminhava até eles. –Se eu não me engano, quatro dias foram adicionados a vocês por conta de visitas noturnas de meninas em seus dormitórios. Estou enganada? –Ela os encarou de forma sínica. Os garotos se entreolharam e trocaram sorrisos cúmplices, deixando a tal mulher visivelmente irritada. –Ainda acham isso engraçado? Isso é uma catástrofe! –Ele alterou seu tom de voz, mas de repente sua atenção mudou de foco quando o tal Gustavo me encarou. Ela fez o mesmo, e mirou seu olhar em mim. –E você senhorita Sarthi... Já no primeiro dia está na companhia de tais pessoas? –Ela balançou a cabeça negativamente, mexi a boca duas vezes, na tentava de me justificar, ou melhor, me inocentar, mas o olhar do garoto de nome Gustavo me deixava desconcertada, insegura, eu mal conseguia me manter equilibrada, pois mesmo sem olhá-lo, sabia perfeitamente que o mesmo me encarava de maneira curiosa e excessiva.

-O professor Thiago a levou a enfermaria, ele justificou o atraso dela, senhora. –Elisa explicou para Sandra, que ainda não havia tirado seus olhos de mim.

-Pois bem. –Ela disse depois de algum tempo em silencio. –Por hoje a senhorita está livre, mas não se acostume... Conhecemos perfeitamente essa tática de ir para a enfermaria quando são obrigados a fazer algo. –Ela se aproximou de mim. –Cuidado, estarei observando-a de perto. –Assenti enquanto a encarava. –E vocês dois. –Ela virou na direção dos meninos. –Mais um dia será adicionado na ficha de cada um. Bom jantar a vocês. –Dito isso, ela caminhou pela ampla passarela, atravessando a mesma e indo só pra Deus sabe onde, Elisa a seguiu, deixando-me sozinha com os dois meninos, que agora me observavam mais atentamente.

-Gostei da camisa. –O garoto loiro disse, mas era notável o sarcasmo em sua voz. –Seja bem vinda ao purgatório. –Ele piscou e passou a frente de nos, empurrando a porta do refeitório e entrando, Gustavo me encarou por breves segundos, antes de seguir o amigo.

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