Ana Meireles
Abro os olhos e suspiro ainda não acreditando que ele está ao meu lado. Nicolas e eu passamos a noite editando alguns trabalhos, ele me pediu ajuda e nem acreditei quando ele chegou ao meu apartamento com aquela garrafa de vinho.
Tenho uma queda por ele faz tempo, para ser bem mais específica, desde que entrei para o jornal. Na época, ele e Laura namoravam então não tive a mínima chance. Quando eles romperam, a cerca de quatro meses, por causa de uma traição, Nicolas estava muito ocupado com outras mulheres mais interessantes que eu. Por isso, nunca criei expectativas. Porém, a cada dia meu amor platônico aumentava, afinal trabalhamos juntos, passamos várias horas todos os dias ao lado um do outro, e se tratando de um homem tão charmoso como ele, fica difícil não ter nenhum tipo de interesse, ele é alto e forte, prática vários esportes como hobby e se sobressai em quase todas as modalidades, sua pele negra e sedutora tem um contrate incrível com seus olhos verdes, além de cabelos levemente encaracolados, além de ser muito atencioso e simpático. Quanto a mim, não sou do tipo atrativa, já que não sou muito vaidosa, estou precisando urgente de um corte de cabelo, pois estão grandes demais, poderia aproveitar e dar uma boa hidratada, meus fios estão parecendo um arame farpado de tão secos. Meus óculos também não ajudam muito, descrevem o quanto nerd eu sempre fui, além de tímida ao extremo, o que atrapalha qualquer tipo socialização nos ambientes que frequento. Talvez seja consequência de certos traumas do passado. Depois de tudo que passei, me relacionar com pessoas, sempre foi um desafio, principalmente no que diz respeito sexo. A ideia de ser tocada, antes me apavorava, pois, além de tudo o que aconteceu comigo, minhas experiências na adolescência não foram das melhores. Minha primeira vez consensual foi com uma paquera da escola, eu tinha uma paixonite dessas de adolescente, foi terrível, os hormônios do garoto e sua inexperiência não contribuíram em nada, tornando mais um momento traumatizante, eu era jovem, acreditava que me recuperaria logo. Mas não me recuperei, me tranquei em meu mundo de livros e fórmulas. Quando entrei na faculdade, me apaixonei por um irmão de uma amiga, José era tão nerd quanto eu, e no momento em que senti que estava pronta ele me mostrou que eu poderia sim experimentar o sexo sem medo, foi muito fofo e carinhoso, aos poucos relaxei, não foi tão ruim quanto eu esperava. Entretanto nosso caso não deu certo, ele acabou ganhando uma bolsa fora do país, definitivamente nunca tive sorte em relacionamentos.
Com Nicolas, também foi bom, entretanto foi preciso muita paciência de sua parte, ele não forçou a barra e mesmo não sabendo do meu problema, ele se comportou gentilmente. Talvez tudo fosse resultado de anos de terapia, ou por que eu gosto muito dele, havia uma atração física entre nós, não sei se é amor ou apenas uma paixão desenfreada. Minha amiga, Liliane, inclusive a única que eu tenho, insiste em dizer que estou obcecada e que talvez eu devesse dizer a minha terapeuta sobre esse meu novo lado obsessivo/compulsivo.
Suspiro e continuo analisando a figura deitada ao meu lado na cama, coberto parcialmente por meu lençol de estampas azuis, e seus cachos negros meio atrapalhados que o deixaram bem a vontade. Noto que ele está acordando, fico apreensiva quando resmunga algo. Um temor me invade. Como será que ele vai reagir? Vai dizer que tudo foi um erro e vai me pedir desculpas?
Droga!
Me preparo mentalmente para concordar com ele, assim não ficarei tão arrasada.
"Tudo bem, Nicolas eu sei que isso foi um erro..."
Meus pensamentos são interrompidos com um delicioso toque em meus lábios.
- Bom dia, Ana Jully.
Nicolas é o único ser humano na terra que me chama de Ana Jully e não me deixa irritada. Odeio meu segundo nome, brigo horrores com minha mãe, não entendo por que escolheu me chamar assim, Ana Júlia seria muito mais simples. Jully! Isso parece nome de garota de programa, daqueles anúncios de jornais: Jully, tão meiga quanto assanhada, sexy, seios fartos, bunda grande, faço tudo o que o cliente desejar, se prepare, você vai se cansar. A Jully acaba com você na cama. Tive uma irmã gêmea que também se chamava Ana, porém, Ana Louyse. Não sei qual a dificuldade minha mãe teve em colocar apenas Luisa, seria muito mais fácil. Mas ela nunca explicou sobre nosso nome, na verdade ela nunca fala sobre suas escolhas e decisões. Entretanto não quero falar da Louyse, nem sobre meu relacionamento com minha mãe, estas são outras partes da minha história, da qual não gosto de mencionar.
- Ana...- escuto ele falar com voz rouca. Certamente agora vai dizer que se arrependeu - ontem à noite, foi incrível!
Fico surpresa com seu elogio, afinal minha experiência no assunto nunca foram das melhores. E certamente ele estava ignorando meus tremores de insegurança, feito uma adolescente virgem.
- Então...- fico sem saber o que dizer.
Mas Nicolas continua:
- Sim, e quero mais, não apenas uma noite... Ana, sempre fui louco por você.
Fico perplexa com sua declaração.
Sempre notei algumas trocas de olhares entre nós, mas pensava que fosse fruto da minha imaginação.
Ele me toca e me arrepio toda.
- Se depender de mim, vamos repetir isso, muitas vezes... Ana.
Fala se jogando por cima de mim, e segurando meus braços enquanto me beija. Nem consigo me mexer começando a ficar tensa, mesmo o desejando.
- Nicolas... - isso é muito bom, entretanto estou dura feito uma pedra, preciso tentar relaxar. Falo a primeira coisa que me vem a mente. - Você vai ficar para o café?
Ele fica sério, e se afasta.
- Claro. - então ele se deita esticando os braços para pegar celular no bolso de sua calça jogada na cômoda ao lado. De repente Nicolas parece simplesmente não estar mais aqui, fica atento a tela do celular parando apenas por um instante me chamando: - Jully, eu gosto do café sem açúcar por favor.
Mesmo confusa com sua mudança repentina, me levanto afim de ir até a cafeteria buscar algo, afinal não preparo nenhum tipo de refeição em casa, e nem ao menos tenho uma cafeteira.
Ana Meireles
Depois daquele dia em meu apartamento, as coisas ficaram um pouco mais sérias. Mesmo, Liliane insistido em me dizer que encontros apenas a noite e em meu apartamento, sem assumir publicamente, não se trata de um relacionamento.
Passamos no Café Mix, o nosso preferido, e ela está tentando de todas as formas acabar com a minha alegria, hoje Nicolas retorna da Turquia. Ele foi promovido para cobrir algumas reportagens internacionais. Fiquei muito feliz por ele, era um de seus maiores desejos. Na verdade, nosso chefe George já havia me proposto, mas não aceitei. Detesto viajar e passo muito mal em aviões, além do mais, gosto mesmo é de ficar por aqui quietinha atrás do meu notebook. Outro motivo por que Lili sempre briga comigo, disse que eu perdi a grande oportunidade da minha vida insiste que eu a dei para Nicolas de bandeja o ajudando com o trabalho.
- Para com esse sorrisinho bobo, Ana! - Ouço Lili resmungar e quanto leio pela milésima vez a mensagem de texto que Nicolas me enviou antes de viajar, na semana passada.
- Eu não estou sorrindo feito boba - falo fazendo beicinho.
Ela para, olha para o meu rosto com uma expressão brava. Seus pequenos olhos de traços orientais ficam menores que o normal.
- Você as vezes parece uma adolescente, Ana Jully! - fala se incomodando com minha alegria.
Não lhe respondo, pois, o atendente nos entrega dois cafés. Antes ele lança aquele olhar pra minha amiga. Sempre que passamos aqui o jovem rapaz a olha dessa forma.
Pegamos nossos pedidos e minha amiga ignora o sorriso do rapaz, como em todas as vezes, não sei como o pobre coitado não desiste.
- Por que ao invés de cuidar da minha vida amorosa, você não pede o contato desse rapaz? Ele é louco por você - falo me preparando para ser metralhada por ela.
Ela me olha ainda mais irritada que antes e sai a passos largos, a sigo segurando minha bebida com cuidado para não derramar.
Ouço ela resmungar:
- Eu não sou como certas pessoas, que se iludem facilmente com sexo oposto. Certamente ele faz isso para todas as garotas que passam por aqui!
Bufo. Não consigo acreditar que ela falou isso.
Já estamos do lado de fora, uma brisa fria toca meu rosto, sei que é o inverno se aproximando.
- Você sabe o quanto está enganada. Não é porque o Bruno foi um imbecil com você, significa que todos os homens da terra não prestam, sabia?
Ela para bruscamente e quase nos esbarramos, Lili se vira para mim e me enfrenta.
- E não é porque você está vivendo um romance de mentira que possa me fazer acreditar que vale a pena um relacionamento de verdade!
Agora as coisas começam a esquentar.
- Pro seu governo, meu relacionamento não é uma mentira. Nicolas é um fofo, e antes de viajar me presenteou com uma pulseira ....
Dessa vez Lili bufa me interrompendo e repetindo o que eu já havia dito mil vezes:
- Já sei... E você vai dizer que olhou no google e descobriu que a pulseira custou quase 2 mil. Afinal quem daria um presente assim pra alguém com quem não quer nada sério! E blá, blá, blá...
Odeio quando Lili usa minhas palavras contra mim. Odeio mais ainda quando fala nesse tom como se eu fosse uma idiota.
Ela nota toda minha raiva e para no mesmo instante. Vejo a expressão provocativa dela se amenizar.
- Ana... Eu sou sua amiga. Preciso te abrir os olhos. Nicolas não passa de um mulherengo e aproveitador. Ele te usou pra conseguir essa promoção. - A voz de minha amiga se amansa, e acho que eu prefiro quando ela está brava e falando pelos cotovelos.
Meus olhos se enchem de água sempre que ela diz isso.
Eu não acredito que Nicolas tenha me usado. Sei que me mandou uma única mensagem antes de viajar, certamente está muito ocupado com o trabalho.
Percebo que minha amiga continua:
- Você não entende que eu não quero te ver sofrer, Ana. - Lili se aproxima e me toca delicadamente. - Ontem, ele postou uma foto na sua despedida da viagem, ele estava na Capadócia, com a Laura.
Fico perplexa ouvindo suas palavras, buscando alguma justificativa plausível, certamente existe alguma.
- Ela... Deve ter sido encaixada para esse trabalho de última hora...
Sinto minha amiga me puxar pelo braço, desta vez com ignorância me forçando a ouvir.
- Ele estava de joelho entregando um anel pra ela, ao pôr do sol, com aqueles malditos balões no fundo, com a hashtag #DeVoltaENoivos.
Fico gélida, não consigo me mover com a cena dos dois em minha mente naquele cenário perfeito firmando um compromisso, como ele pode fazer isso comigo?
Não tenho redes sociais, detesto expor minha vida e detesto mais ainda tirar fotos. Nunca compreendi como as pessoas conseguem viver disso. Mas em alguns momentos como esse em que odeio está tão desatualizada.
Outra brisa fria nos invade, meu corpo se arrepia inteiro. Me arrependo por não ter trazido uma blusa mais grossa.
- Ana! - escuto a voz de Lili e acho que já é a milésima vez que ela me chama.
Estou em choque. Desta vez são as imagens de nós dois juntos, eu e Nicolas, que me invadem. Não é possível que eu tenha me enganado tanto.
As lágrimas descem sem que eu as segure.
- Você... Tem certeza...? - pergunto praticamente anestesiada. - Ou você só está querendo me deixar com raiva dele? - Infelizmente Lili não responde, apenas abaixa a cabeça. E isso me dói, sei que ela está falando a verdade. - Droga!
Ela se preocupa com meu estado.
- Ana, você está pálida. Acho melhor ir pra casa...
- Não! - grito me recompondo e respirando fundo. - Vou pra redação, preciso trabalhar, tenho muita coisa pra fazer, mas na sequência as lágrimas me invadem. De repente me lembro que é segunda, e toda segunda preciso passar no escritório pra entregar alguns relatórios pra George. - Droga! Droga! Hoje é dia de passar no escritório.
Levando em consideração que precisarei dirigir mais uma hora e encarar o trânsito da cidade, isso tudo é uma merda. Não sei se tenho cabeça pra ir até lá.
- Não vai. A gente dá um jeito. Liga pro Sr. George, diz que está passando mal e não tem como dirigir até lá. Fica por aqui mesmo.
- Não ... - falo fungando.
Minha amiga me toca e vê o quanto estou gelada.
- Você não está bem! Ah, mas não vou te deixar dirigir assim, neste estado.
Quando percebo, Lili já está ligando para o escritório. Não consigo reagir, acho que ela tem razão. O melhor seria ir pra casa, mas não posso, preciso pelo menos adiantar o trabalho de hoje. Seria melhor do que ficar sozinha em casa choramingando.
Observo ela desligar o aparelho.
- PRONTO! Você não vai precisar ir, pode enviar por e-mail e continuar seu trabalho daqui mesmo.
Olho para o copo em minhas mãos, o café já não tem mais graça, carrego com um péssimo ânimo. Minha amiga me ajuda a atravessar a rua, e juntas entramos no imenso prédio. Subimos no elevador praticamente mudas. Meu desejo é de desaparecer da face da terra. Entramos na recepção, não consigo se quer dar um bom dia a ninguém. Percebo que sou observada por intensos olhares por onde passo. Não entendo, isso tudo por causa de um bom dia que eu não dei? Quando viro o corredor percebo um movimento estranho, parece que todas as mulheres resolveram se reunir ali, ouço gritinhos e pulinhos de alegria. Sinto Lili me apertar forte, quando percebemos do que se trata.
Vejo a imagem de Laura vestida lindamente com um vestido social bem justo exibindo seu lindo anel de noivado. Todas as mulheres vibram enquanto ela conta com detalhes sobre o pedido perfeito que recebeu de Nicolas.
Várias bolhas explodem dentro de mim, a dor rasga meu peito e preciso ser forte para não demonstrar o quanto sinto inveja. Inveja por ela ser tão bonita e sexy quanto eu jamais fui, por ela estar noiva do homem que eu acreditava ter algum tipo de relacionamento, mas havia me enganado.
De repente vejo ele, Nicolas, o maldito está saindo do escritório de Richard, nosso editor chefe.
- Parabéns, Nicolas. Já estava passando da hora. - Escuto Richard dando felicitações a Nicolas.
No primeiro instante ele não me vê. Está sorrindo feito um imbecil que é.
Ele se aproxima de Laura e envolve sua cintura com as mãos. Todos os aplaudem e vejo ele tocar os lábios dela com os seus.
Lili me aperta.
- Vamos sair daqui. - Lili me puxa tentando me tirar dali.
Permaneço paralisada no mesmo lugar.
Quando os aplausos cessam, Nicolas passeia os olhos ao redor e de repente me vê. Acho que ele não esperava, certamente acreditou que eu estivesse no escritório, como em toda segunda. Seu sorriso se desfaz aos poucos, ele fica de todas as cores possíveis.
Richard fala algo com ele, mas ele está vidrado em mim e parece não notar.
- Meu amor, Richard está lhe perguntando. - ouço Laura lhe chamar. As mãos dela com todas as unhas pintadas de vermelho estão em seu rosto de forma carinhosa.
Ele finalmente abandona o nosso contato visual.
- Sim, meu bem - fala olhando pra ela.
Nesse momento percebo como ele sabe fingir bem, fica como se nada tivesse acontecido entre a gente.
- Richard perguntou se já temos uma data para o casamento.
Ele entrelaça seus dedos entre os dela respondendo ao carinho.
- Bom, uma coisa de cada vez...- fala rindo.
Ele me olha de canto, e é o suficiente para me deixar nervosa e o café vai das minhas mãos e se derrama todo em minha calça verde, um modelo completamente sem graça. Neste instante sou o foco de todos, vários olhares me encaram, sinto como se estivesse nua.
- Merda! - xingo baixinho. Sorte que nem está tão quente.
Lili tenta ajudar, me limpando com um guardanapo, mas só consegue me deixar mais nervosa.
- Éeee... Parabéns...ao casal - Lili diz com voz esganiçada e um sorriso falso para todos tentando amenizar o clima.
O silêncio ainda permanece no ar e acho que também preciso fazer algo para quebrá-lo.
- Pa-rabéns... Nico-las e... Laura!
Ele veste seu melhor personagens e agradece. Sua noiva me ignora como se eu fosse bastante insignificante.
O foco se volta ao casal. Aproveito para me virar de costas e sair pelo mesmo lugar que entrei.
Caminho depressa em direção ao elevador e felizmente ele se fecha antes que Lili entre. Sorrio sem graça desejando que ela entenda que eu preciso ficar sozinha. Como são 22 andares pra descer, tenho cerca de cinco minutos para descarregar toda minha raiva. Retiro meus óculos embaçados pelas lágrimas e os seco com a barra da minha camisa enquanto uma crise de ansiedade insiste em me invadir. Respiro fundo tentando me aquietar antes que eu perca o fôlego, quando a porta se abre, saio ignorando minha aparência que certamente está horrível. Sinto um vento gelado tocar minha pele, sinto falta do meu casaco, neste momento descubro que essa será uma semana tensa, em plena segunda feira, começou o inverno e descubro que fui enganada, acredito que não pode ficar pior.
Ana
Dirijo por duas horas, inicialmente não sei pra onde ir, e mesmo sabendo que é uma grande loucura, decido ir pra minha cidade, para casa de minha mãe. Dona Márcia, não é a melhor pessoa pra me ajudar nesse momento, mas... não tenho mais ninguém e afinal ela é minha mãe, e acredito que é isso que mães fazem, cuidam dos filhos.
São quase duas da tarde, vejo um carro velho e estranho estacionado no portão.
Dona Márcia vai ficar assustada ao me ver, não avisei que viria, eu deveria estar no trabalho, porém estava muito indisposta para ficar na redação devido as circunstâncias. Dou uma olhada no espelho do meio do carro e vejo minha imagem deplorável. Olhos inchados, rosto vermelho, perfeito para as críticas dela.
Desço e sigo em direção a porta, tudo continua da mesma forma, o jardim, cheio de flores e vários pés de frutas pelo quintal. Me recordo das vezes em que eu e Louyse corríamos por ali. Às vezes Beto, o filho da vizinha brincava com a gente, antes deles se mudarem. Beto foi meu primeiro namoradinho de infância. Sorrio ao me lembrar disso. Ele sempre fingia confundir a gente, beijava as duas, hora a mim e hora Louyse, pois éramos idênticas, noto que eu já tinha uma queda por canalhas desde pequena.
Respiro fundo tentando esquecer a dor que aperta meu coração.
Bato na porta. Há uma demora para atender, até que...
- Ana Jully!?- Me irrito por ouvir o nome que odeio, pela segunda vez no mesmo dia.
Bufo.
- Mamãe - respondo em tom desanimado.
Ela parece assustada, claro, não me esperava por aqui.
- Ana Jully, o que você está fazendo aqui?
Começo a achar minha mãe estranha, sempre a vejo de mau humor, apresada em desligar o telefone quando nos falamos, coisas desse tipo, mas neste momento, ela está... nervosa... como se temesse algo.
- Oi pra você também, mamãe, senti saudades! - digo cheia de ironia.
Vou entrando mesmo sem que ela me convide, e noto como seu nervosismo só aumenta.
Dou uma analisada de forma discreta e vejo na sala um colchão com dois travesseiros e duas taças de vinho no chão junto a uma garrafa vazia. Certamente a noite anterior foi bem divertida e nada solitária.
- Minha filha, eu não te esperava. Você não deveria estar no trabalho? - Ela respira fundo - Ana Jully não vai me dizer que foi despedida? - Começa com seu tom acusatório, agora sim é a Márcia de sempre.
Respondo:
- Não, mamãe, eu não fui demitida - bufo. - Só não estou muito bem hoje.
Ela me analisa da cabeça aos pés com cara de entojo.
- Na verdade, bem você nunca esteve! Olha essas roupas ridículas, nem parece que trabalha num jornal tão famoso.
Levando em consideração que todas as vezes que ela me vê, fala as mesmas coisas sobre minhas roupas, eu não me importo, a ignoro.
Ouço ela continuar:
- E olha esse cabelo, tá horrível. Sem falar nessas olheiras. Você estava chorando, Ana Jully?
Nesse momento, ouço uma voz que é capaz de fazer estremecer até o último fio do meu cabelo, de pânico.
- Marcinha, não achei a chave philips...- Quando me vê, o maldito se cala no mesmo instante.
Todos no recinto ficamos paralisados. Minha mãe fica completamente sem graça. Agora eu compreendo o motivo de todo seu nervosismo.
Mesmo assim minha mãe se recompõe e finge não se importar com a minha opinião.
- Está na gaveta à direita.
O pior é que o maldito ainda tenta falar comigo.
- Ooi, Jullynha.
Sinto ânsia de vômito, percebo que hoje não é o meu dia.
Imagens da minha infância invadem minha mente, porém dessa vez são imagens dolorosas, de uma criança completamente apavorada, escondida debaixo da cama ou na garagem.
Não o respondo. Na verdade, lhe ignoro. Falo diretamente com minha mãe.
- O que, ele está fazendo aqui? - pergunto sem esconder minha indignação.
Semicerro os dentes e as lágrimas descem. Lágrimas de ódio por esse homem, lágrimas de mágoa por Nicolas. Há um turbilhão de emoção dentro de mim.
O pior de tudo é que minha mãe parece não se importar. Como sempre.
- Ana, eu não te devo explicações, você não mora mais aqui.
Sua voz é tão fria quanto sempre foi.
- Você aceitou um cara que te bateu e que estava preso por estupro de uma de suas amigas? Ah, não me deve explicações ou não existem explicações?
O imbecil se manifesta e eu desejo mais do que tudo dar um soco na cara dele.
- Jullynha não foi assim...
Felizmente minha mãe lhe interrompe.
- Nos deixe a sós, Zeca.
Ela parece estar com tanta raiva quanto eu, porém nossa raiva é por motivos opostos.
- A gente é apenas amigos. O Zeca está me ajudando com o aquecedor que estragou, o inverno começa hoje.
- Mãe, eu não sou idiota! Esse imbecil estava preso, ele estuprou sua amiga e mesmo assim vai fingir que nada aconteceu?
Ela tem a resposta na ponta da língua:
- Foi consensual, Ana. Você sabe o quanto a Mônica é assanhada. Eles beberam muito naquela noite e ela se insinuou pra ele. Quando Zeca se arrependeu e disse que me contaria sobre eles, ela o ameaçou, por isso denunciou ele...
Não suporto suas explicações insanas.
- Chega! Mamãe! Essa história é nojenta sabia? - argumento aos gritos. - E você ainda acredita nele. Então ele passou esses anos preso injustamente?
Ela bufa impaciente.
- Não, Ana. Zeca tinha um mandado de prisão em aberto por causa de alguns problemas que ele teve com drogas, mas isso foi há anos atrás.
Aquela história ficava cada vez mais suja e a revolta cresce dentro de mim.
Enxugo minhas lágrimas ao ver que minha mãe vai defender ele de todas as formas.
Nunca tive coragem de contar o que esse monstro fez comigo, acho que no fundo tenho medo que ela não acredite, e que faça como sempre faz, inventa desculpas para colocá-lo como inocente e as vítimas como culpadas.
Imediatamente me arrependo de ter vindo até aqui.
Minha mãe nota que não quero continuar com esse diálogo, e certamente está contente, por isso começa a fingir que se preocupa comigo.
- Por que você dirigiu duas horas, para vir aqui, minha filha? O que está acontecendo com você?
Me viro em direção a porta em silêncio.
- Acho melhor voltar pra cidade.
Minha mãe me segue enquanto saio pra fora. Consigo ver Zeca perto da garagem.
- É algum problema amoroso, minha filha? - ela pergunta mesmo sem que eu olhe para trás.
Márcia parece revoltada com meu desprezo. E para não ficar por baixo dá o último grito como o golpe final.
- Eu só quero te ajudar, Jully, o que ele te fez? Afinal você sempre teve dedo podre para escolher homens.
Nesse momento eu paro, respiro fundo e lhe dou a última resposta.
- Pelo menos, temos algo em comum não é mesmo, mamãe? - resmungo olhando para o embuste na garagem.
Os dois me encaram feito dois paspalhos, entro no meu carro e saio dali o mais rápido possível.
Continuo dirigindo de volta para casa aos prantos.
Estou completamente sem chão com tudo o que está acontecendo. Rever aquele homem me deixou ainda pior.
Mas isso não é tudo, me sinto uma idiota por ter sido enganada por Nicolas.
Aos poucos as coisas fazem sentido pra mim, me recordo sobre o quanto ele me enrolou sobre seu término, sua viagem pra Turquia com ela, e sobre todas as vezes que me ignorou ao telefone.
Por falar nisso, ouço o meu tocar. Dou uma olhadinha e... advinha?
É o canalha!
Penso mil vezes se atendo ou não. Um lado diz que não devo, mas o outro anseia em falar poucas e boas para esse canalha. Então encosto o carro e atendo.
Ligação on
- Ana! - ele fala meu nome bastante aflito. No primeiro instante não consigo responder. Ouço ele novamente: - Ana, me responde por favor!
Respiro fundo e de repente me travo, não consigo dizer tudo o que está engasgado.
- Oi... Nicolas - é tudo que consigo dizer.
- Ana, Céus, estou tentando falar com você faz tempo. Onde você está? Te procurei na redação, fui na sua casa...
De repente sinto uma coragem me invadir e lhe interrompo:
- O que você quer? - pergunto secamente.
- Precisamos conversar, tenho que te explicar as coisas.
Não sei o que acontece comigo nesse momento, mas tenho uma ideia maluca. Não quero parecer uma mulher ingênua que foi enganada por um homem experiente e canalha. Pelo menos vai me restar um pouco de dignidade.
- Não. Você não tem que me explicar nada, Nicolas. Não tínhamos nada oficial. A propósito, eu também conheci uma pessoa.
Percebo ele engasgar do outro lado.
- Como assim, você conheceu alguém. Quem?
Parece insano, mas sinto um pouco de ciúmes em sua voz, e isso estimula ainda mais minhas provocações.
- Conheci no Tinder. Depois que você viajou resolvi conhecer ele pessoalmente e rolou uma química incrível entre nós.
Ele não responde no mesmo instante. Apenas fala meu nome:
- Ana...
- Tudo bem, Nicolas, a gente nunca levou a sério o que rolava entre nós. Mas agora acabou! Afinal você vai se casar, né?
Me esforço para continuar minha interpretação, mas na verdade estou destruída por dentro.
- Não, Ana, não é assim. Isso é mentira. Você só quer se vingar.
Tenho vontade de rir, mas me seguro. Ele é mais babaca do que eu esperava.
- Não preciso mentir pra você. Agora ao contrário de mim...
Ele me interrompe:
- E como ele se chama?
Fico muda, o desespero é tão grande que todos os nomes masculinos desaparecem da minha mente. Pego uma revista no porta luvas e procuro o primeiro nome que aparece escrito.
- Mateo! Ele se chama Mateo.
Ouço em sua voz uma mistura de riso com raiva. Ele bufa.
- Isso só pode ser brincadeira. Olha, Ana, ainda não acredito em você. Quero te ver pra gente conversar.
Grito imediatamente:
- Não! Não posso, pois, vou me encontrar com Mateo, hoje e... amanhã também.
Eu não quero ver ele, me recuso acreditar em qualquer palavra que saia de sua boca. Meu maior medo é de que ele consiga me enganar novamente.
Escuto sua risadinha sarcástica do outro lado. Acho que ele realmente não acredita em minha história.
- Hoje, às seis passo na sua casa. Desculpe por você ter descoberto tudo daquela forma, não esperava que você estivesse na redação.
E queria que eu descobrisse como? Pelas redes sociais? Ah, não, ele sabe que não tenho. Idiota!
Penso.
- Claro que fiquei surpresa, mas está tudo bem. Estava precisando te contar sobre Mateo, então estamos quites.
Acho que no fundo deixei ele na dúvida sobre a existência do tal Mateo.
- Você insiste nesse cara! - Sua voz sai num tom rude.
- Olha, Nicolas, preciso ir. Depois a gente se fala, na redação.
Me sinto contente ao me lembrar que ele agora não trabalha mais ao meu lado, foi promovido as reportagens de campo. Estou livre de ficar ao seu lado depois de tudo.
- Ana...
Desligo bruscamente em sua cara.
Ligação off
Fico por um bom tempo olhando para o nada sentindo o imenso vazio aumentar a cada instante dentro de mim. Pensei que toda minha mentira me fizesse sentir melhor ou menos idiota. Mas eu me enganei, a dor continua aqui, e as lágrimas também, por isso não as seguro.