Eu sempre achei que prédios altos demais pareciam ameaças veladas.
Como se dissessem, silenciosamente:
"Aqui em cima é o topo. Poucos chegam, menos ainda sobrevivem."
E naquele dia, parada na calçada, eu tinha certeza de que o prédio da Vasconcellos Holding estava rindo de mim.
Vinte e cinco andares de vidro e aço.
Logotipo dourado.
Porta giratória que parecia engolir gente.
E eu ali na frente, com meu currículo amassando na pasta, a mão suando e a única pergunta ecoando na minha cabeça:
O que eu estou fazendo aqui?
Respirei fundo.
- Você precisa desse emprego, Hellen - sussurrei para mim mesma. - Entra logo antes que desista.
Entrei.
O ar frio do saguão me cortou a pele, como se o prédio tivesse seu próprio clima. O mármore brilhava a ponto de refletir meu rosto tenso. Recepcionistas impecáveis, ternos caros, saltos que batiam no piso com segurança demais.
Eu me senti deslocada na mesma hora.
- Bom dia - disse para a moça da recepção, tentando parecer confiante. - Eu... sou a nova secretária do senhor Gustavo Vasconcellos.
Ela me analisou de cima a baixo. Não com desprezo, mas com curiosidade. Como se estivesse testando se eu servia para aquele mundo.
- Nome?
- Hellen... Hellen Morgan.
Ela digitou algo, assentiu e sorriu - um sorriso profissional, treinado.
- Sim, seu cadastro já está aqui. Pode subir, vigésimo quinto andar. A assistente executiva vai recebê-la.
Vigésimo quinto.
O topo.
Ótimo. Se fosse pra cair, pelo menos seria de bem alto.
O elevador subiu rápido demais. Meus ouvidos chegaram antes da minha coragem. A cada andar que passava, eu me lembrava do pouco que sabia sobre ele.
Gustavo Blackwell .
Frio.
Temido.
Implacável.
CEO mais jovem a dominar o mercado em tão pouco tempo.
Matérias de revista falavam sobre números, fusões, poder.
As fofocas... falavam de outras coisas.
"Ele não sorri."
"Demitiria alguém no meio do corredor sem piscar."
"Nunca mistura trabalho com prazer... mas quando mistura, não volta atrás."
O elevador apitou. Vigésimo quinto.
As portas se abriram e, por um segundo, eu quase apertei "térreo" de novo.
O andar da presidência era diferente do resto da empresa. Mais silencioso. Mais amplo. Menos gente circulando. Vidros, salas envidraçadas, mesas bem alinhadas. Tudo parecia caro. Tudo parecia organizado demais.
Uma mulher alta, de coque perfeito e roupa social impecável se aproximou de mim com uma prancheta na mão.
- Você deve ser a Hellen. - A voz dela era firme, mas não hostil.
- Sou sim.
- Eu sou a Camilla, assistente executiva do senhor Blackwell . Trabalho diretamente com ele há cinco anos. - Ela me examinou com atenção. - A partir de hoje, você será a secretária dele. Isso significa que vai ver coisas que os outros funcionários não veem. Erros aqui em cima não existem, entendido?
Engoli seco.
- Entendido.
Ela fez um sinal com a cabeça, satisfeita.
- Ótimo. Vou te mostrar sua mesa.
Caminhamos por um corredor que levava a um espaço menor, mas ainda luxuoso. Minha mesa ficava exatamente em frente à porta do escritório principal.
A porta de Gustavo Blackwell .
Minha barriga revirou.
Camila apontou para a mesa.
- Aqui você vai atender ligações, organizar a agenda, controlar acesso à sala dele e filtrar tudo o que chega até o senhor Blackwell . Ninguém entra sem passar por você. Se ele disser "não quero ser incomodado", nem Deus entra.
Dei um sorriso nervoso.
- E eu... já posso conhecê-lo? - me odeiei por soar tão ansiosa.
Camila fez algo parecido com um sorriso curto.
- Ele sabe que você entrou hoje. Mas não pediu para chamar você ainda. - Ela olhou para o relógio. - E um aviso: pontualidade é tudo. O senhor Blackwell odeia atrasos, odeia desculpas e odeia improviso.
"Perfeito. Igualzinho ao tipo de gente com quem nunca deu certo na minha vida."
Assenti.
- Eu entendo.
- Ótimo. Comece organizando essa agenda. - Ela colocou um tablet e alguns documentos sobre minha mesa. - E lembre-se: você pode não estar sendo vista... mas sempre está sendo observada. Principalmente aqui.
Era para ser apenas um comentário profissional. Mas algo na forma como ela disse "observada" me deu um arrepio estranho.
Passei a primeira hora olhando a agenda lotada dele. Reuniões, jantares, conferências, viagens. A vida de Gustavo parecia uma sequência interminável de compromissos. Nada de horário livre. Nada de descanso.
Nem uma linha que dissesse "respirar".
- Mr. Blackwell vive mais aqui do que em casa - ouvi uma voz masculina atrás de mim.
Me virei.
Um homem de sorriso fácil, barba bem feita e gravata frouxa encostava na divisória ao lado da minha mesa.
- Você deve ser a nova.
- Sou - respondi, um pouco desconfiada. - Hellen.
- Lucas. Diretor financeiro. - Ele estendeu a mão. - E antes que pergunte: não, eu não sou como ele.
- Como... O senhor Blackwell?
Ele riu.
- Frio, intimidador e alérgico a sorrisos. - Deu de ombros. - Mas é um gênio. E é por isso que essa empresa é o que é.
- Dizem que ele é... difícil.
- Dizem pouco. - Lucas piscou. - Não se assuste. Se você chegou até aqui, é porque aguenta mais do que parece.
Eu arqueei a sobrancelha.
- Isso é um elogio ou um aviso?
- Os dois. - Ele ia saindo, mas parou e virou o rosto de novo. - Ah, e outra coisa, Hellen...
- Sim?
- Aqui em cima, nem todo mundo fica feliz quando alguém novo entra. - Ele apontou com o queixo para o corredor. - Se começar a notar olhares estranhos, cochichos ou coisa assim... não leve para o pessoal. Ou... leve. Depende.
- Isso é muito tranquilizador, obrigada - murmurei, com uma ironia que o fez rir.
- Bem-vinda ao topo - disse, antes de ir embora.
Fiquei sozinha de novo.
Mas, pela primeira vez, tive a sensação incômoda de que não estava só.
E então, eu ouvi.
- Camilla. - A voz veio de dentro da sala à minha frente. Grave. Firme. Com um tipo de autoridade que parecia uma ordem mesmo quando era apenas uma chamada.
Meu coração disparou.
A porta dele se abriu. E, por um instante, o mundo realmente parou.
Ele era ainda mais impressionante do que nas fotos.
Alto. Ombros largos. Terno escuro sob medida. Relógio caro no pulso. A barba bem feita marcando o maxilar. Os olhos... ah, os olhos.
Escuros. Profundos. Avaliadores.
Olhos de quem estava acostumado a mandar - e a ser obedecido.
Os olhos de Gustavo Blackwell pousaram em mim.
E minha respiração esqueceu como funcionava.
- Essa é a nova secretária? - ele perguntou, sem desviar o olhar.
Camilla se aproximou.
- Sim, senhor. Essa é a Hellen Morgan.
Ele não veio até mim. Não sorriu. Não estendeu a mão.
Apenas me analisou. Como se estivesse decidindo se eu servia ou não.
- Já leu meu contrato de confidencialidade, senhorita Morgan?
- Sim - menti. Eu só tinha assinado, na verdade.
- Ótimo. - Ele cruzou os braços. - Tudo o que entra e sai dessa sala passa por você. Ligações, nomes, documentos. Se algo vazar daqui, eu não vou atrás da imprensa, nem da concorrência. Vou atrás de quem deixou escapar.
Engoli em seco.
- Não vou decepcionar, senhor.
Um canto da boca dele quase se moveu. Quase.
- Veremos. - Ele se virou para voltar à sala, mas parou na porta. - Ah, e Hellen...
Meu nome na boca dele causou um efeito estranho em mim.
- Sim?
- Eu detesto atrasos. - Seus olhos desceram até o relógio no meu pulso. - Hoje você chegou três minutos antes do horário. Continue assim. Um minuto de atraso, e você está demitida.
Ele entrou. A porta se fechou.
Eu só então percebi que estava prendendo o ar.
O restante da manhã foi uma mistura de caos e adrenalina. Telefonemas, recados, confirmações de reunião. Gustavo não saiu da sala, mas sua presença parecia ocupar o andar inteiro.
Era como trabalhar na porta da jaula de um animal selvagem. Você não o vê o tempo todo, mas sabe que ele está ali. E, em qualquer momento, ele pode sair.
No início da tarde, Camilla me chamou para levar alguns documentos para ele.
Minhas mãos suavam quando bati na porta.
- Entre.
Entrei.
A sala dele era grande, mas não excessiva. Tons escuros, mesa ampla, uma parede inteira de vidro mostrando a cidade lá embaixo. Ele estava em pé, de costas para mim, olhando pela janela.
- Os relatórios, senhor - falei, me aproximando.
Ele se virou devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo.
- Deixe aqui. - Apontou para a mesa, os olhos deslizando pelo meu rosto por um segundo a mais do que o necessário.
Senti meu estômago revirar. Um tipo de tensão elétrica. A sensação de que eu estava onde não deveria estar - e, ao mesmo tempo, exatamente onde queria.
Coloquei os papéis sobre a mesa.
Quando me virei para ir embora, ele falou de novo:
- E, Hellen...
Parei.
- Sim?
- Evite conversas desnecessárias com diretores no horário de trabalho. Algumas pessoas confundem cordialidade com intimidade.
Demorei um segundo para entender.
Lucas.
Ele tinha visto Lucas conversando comigo.
- Não vai se repetir, senhor - respondi, a voz um pouco mais firme do que eu esperava.
Por um instante, algo brilhou nos olhos dele. Como se tivesse gostado da minha resposta.
- Pode sair.
Saí, o coração aos pulos.
"Ele é possessivo até com o ar que as pessoas respiram", pensei, voltando à minha mesa.
Foi então que vi.
Um papel pequeno, dobrado, em cima do teclado.
Eu tinha certeza de que, quando levantei para ir à sala dele, não havia nada ali.
Olhei em volta.
O corredor estava vazio.
Peguei o papel, com o coração estranhamente acelerado, e o abri.
A mensagem era curta.
Letras maiúsculas, traçadas com força.
VOCÊ NÃO DEVERIA ESTAR AQUI.
ALGUMAS PESSOAS DESAPARECEM NESSE ANDAR.
Um arrepio gelado percorreu minha coluna.
Por um segundo, achei que fosse alguma piada idiota de corredor. Mas havia algo naquelas letras... algo sombrio.
Dobrei o papel rápido e o guardei na gaveta, tentando engolir o medo.
Mas era tarde demais.
Porque, a partir daquele momento, eu soube:
Alguma coisa naquela empresa não era apenas sobre negócios.
E, sem querer, eu tinha acabado de entrar no lugar mais perigoso da minha vida.
Entre o lobo...
E quem queria me ver sangrar.
Se alguém me contasse, alguns meses atrás, que eu trabalharia na cobertura de uma das maiores empresas do país, eu teria rido. Ou chorado. Ou os dois.
Mas agora eu estava ali.
No vigésimo quinto andar da Blackwell .
Na porta do escritório do homem que a imprensa chamava de gênio... e os funcionários chamavam de monstro quando achavam que ninguém estava ouvindo.
Gustavo Blackwell .
Meu chefe.
Meu CEO.
Meu... problema em potencial.
Meu primeiro dia ainda nem tinha acabado, e eu já sentia que estava no meio de uma arena.
O andar da presidência era silencioso demais.
Não o silêncio confortável de biblioteca.
Mas um silêncio pesado, tenso, como se todo mundo ali tivesse medo de respirar mais alto e ser notado.
Camilla, a assistente executiva, tinha me explicado tudo com poucas palavras e muita objetividade.
Minha mesa ficava exatamente em frente à porta dele.
Eu era a guarda da caverna do dragão.
- Respira, Hellen - murmurei para mim mesma, ajeitando a blusa social. - Não é como se ele fosse te devorar logo no primeiro dia.
Uma parte minha não tinha tanta certeza.
O dia começou com uma avalanche de coisas novas.
Senha de sistema.
Agenda lotada.
Telefonemas de gente importante que falava como se o mundo fosse cair se não falasse com "o senhor Vasconcellos" em cinco segundos.
E então teve ele.
Quando a porta do elevador abriu e ele surgiu pela primeira vez naquele andar naquela manhã, o ambiente inteiro mudou.
Eu percebi isso antes mesmo de vê-lo.
O ar ficou mais pesado.
As vozes, mais baixas.
Os passos, mais rápidos.
Aí ele apareceu.
Terno escuro.
Gravata impecável.
Relógio que provavelmente valia mais que tudo o que eu tinha no armário.
E olhos... Deus.
Olhos escuros, atentos, difíceis de ler.
Olhos de predador.
Ele passou pelo corredor sem olhar para ninguém.
Até olhar para mim.
Por um segundo - que pareceu uma eternidade - os olhos dele prenderam os meus.
Eu senti o estômago revirar, o coração saltar, as mãos suarem.
"Não pisca", eu mandei mentalmente para mim mesma.
Pisquei.
Perfeito.
Ele parou ao lado da minha mesa, sem diminuir a própria imponência nem um pouco.
- Miss Morgan? - a voz dele era tão firme que parecia um comando.
- S-sim, senhor.
"Ótimo, Hellen, gagueja logo na primeira palavra."
- A partir de hoje, tudo que chega a mim passa primeiro por você - ele disse, sem rodeios. - Ligações, reuniões, recados, pessoas. Se eu disser "não quero ser incomodado", não importa quem esteja lá fora. Não entra.
Assenti.
- Entendido.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se me avaliasse por dentro.
- Detesto atrasos, detesto desculpas e detesto erros repetidos - completou. - Aprenda rápido.
Deu as costas e entrou na sala, deixando a porta se fechar sozinha.
Eu fiquei alguns segundos parada, encarando o nada.
- Senhor simpático, ele - murmurou uma voz ao meu lado.
Virei.
Lucas, o diretor financeiro, estava encostado na divisória outra vez, com um sorriso divertido.
- Não sei se "simpático" é a palavra - respondi.
- É o que temos. - Ele deu de ombros. - E acredite, isso que você viu hoje foi a versão leve.
- Existe uma versão pior?
- Pergunta pra quem já foi demitido por um olhar dele. - Lucas inclinou a cabeça. - Mas não se assusta. Se ele ainda não mandou você embora, quer dizer que você passou na primeira triagem.
- Primeira triagem?
- O olhar. - Ele gesticulou com o copo de café na mão. - Se ele olha e não gosta, manda trocar. Já vi isso acontecer com duas secretárias antes de você.
Meu estômago virou de novo.
- Ótimo saber - resmunguei.
Lucas riu.
- Vai por mim, se ele não gostasse de você, você estava lá embaixo na recepção.
Ele ia sair, mas voltou um pouco.
- Só um porém, Hellen...
- Ainda tem mais?
- Tem. - Ele apontou discretamente para a porta da sala do CEO. - Ele odeia quando você se aproxima demais de gente que ele não aprovou.
- Gente... como você?
- Exato. - Ele sorriu. - Bem-vinda à selva.
No meio da tarde, Camilla colocou uma pasta sobre minha mesa.
- Mr. Blackwell quer esses relatórios o quanto antes.
- Eu levo.
Peguei a pasta, respirei fundo e bati de leve na porta.
- Entre - a voz dele ecoou lá de dentro.
Entrei.
A sala dele era ampla, mas não exagerada.
Tons escuros, cortinas abertas, janela enorme que dava vista para a cidade inteira.
Ele estava em pé, de costas, encarando os prédios como se controlasse cada um deles.
- Os relatórios, senhor - falei, me aproximando.
Ele se virou devagar, os olhos descendo até a pasta em minhas mãos, depois subindo de volta para o meu rosto.
- Deixe na mesa.
Coloquei a pasta. Me preparei para sair. Senti o olhar dele me seguindo.
- E, Miss Morgan... - ele disse, antes que eu alcançasse a porta.
Parei.
- Sim?
- Evite conversas paralelas durante o expediente. - Um brilho frio cruzou os olhos dele. - Principalmente com diretores que gostam de falar mais do que fazem.
Lucas.
- Não vai se repetir - respondi, tentando manter a voz firme.
Por dentro, uma parte minha armava os punhos.
Ele me segurou com o olhar por mais dois segundos.
Pareceu... testar minha reação.
Depois virou para a mesa, me dispensando sem dizer mais nada.
Saí da sala com o coração acelerado.
"Ele é controlado até nos sermões", pensei.
Mas, ao contrário do que eu deveria sentir, não era só irritação queimando em mim.
Tinha outra coisa.
Algo perigoso.
Algo que eu não queria admitir tão cedo.
Quando me sentei, algo me chamou atenção.
Um papel.
Dobrado, sobre o teclado.
Franzi a testa.
Eu tinha deixado minha mesa organizada. Nada estava ali antes.
Peguei o papel, as mãos um pouco geladas sem motivo aparente.
Abri.
As letras eram maiúsculas, fortes.
Como se tivessem sido escritas com raiva ou pressa.
VOCÊ NÃO DEVERIA ESTAR AQUI.
NEM TODO MUNDO QUE TRABALHA NESSE ANDAR CONSEGUE SAIR.
Meu coração pulou uma batida.
Olhei para os lados, quase esperando ver alguém rindo escondido, esperando a minha reação.
Nada.
O corredor estava quieto.
Camilla digitava alguma coisa em sua sala.
A impressora mais distante zumbia.
Mas ninguém parecia prestar atenção em mim.
Um arrepio frio subiu pela minha nuca.
"Uma piada", tentei me convencer.
"Provavelmente alguém sem ter o que fazer."
Mas tinha algo naquela frase que me atingiu de um jeito estranho.
Nem todo mundo que trabalha nesse andar consegue sair.
Dobrei o papel com rapidez e o enfiei na primeira gaveta, fechando com mais força do que precisava.
- Tudo bem... - respirei fundo. - Não é com você. Não entrar nessa paranoia, Hellen.
Mas eu já tinha entrado.
A partir daquele momento, minha atenção mudou.
Comecei a reparar nas coisas.
Nos olhares.
Nos silêncios.
No fim do expediente, o vigésimo quinto andar ficou ainda mais silencioso.
Funcionários começaram a descer.
As luzes do andar não apagavam, mas as sombras ficavam mais compridas.
Camilla guardava as coisas dela.
- Pode ir para casa, Hellen - ela disse, sem levantar muito o rosto. - Primeiro dia puxado, imagino.
- E o senhor Blackwell? - perguntei, encarando a porta que continuava fechada.
- Ele vai continuar. Ele quase sempre continua. - Ela prendeu um papel na prancheta. - Só vá embora quando eu disser. Hoje, pode ir.
Assenti, peguei minha bolsa e apertei o botão do elevador.
Quando as portas abriram e eu entrei, olhei uma última vez para o corredor.
Tive a sensação estranha de que alguém me observava.
Mas não vi ninguém.
No metrô, a cidade parecia outra.
Gente suada, cansada, barulhenta.
O oposto absoluto da frieza controlada daquele andar.
Tentei não pensar na mensagem anônima.
Tentei não pensar no olhar do meu chefe.
Tentei não pensar em nada disso.
Só que minha cabeça insistia em voltar para lá.
Voltar para ele.
Para o jeito como ele me olhou como se eu fosse um arquivo importante a ser classificado.
Para a forma como sua presença preenchia cada centímetro daquele andar.
E, no meio desse turbilhão, uma pergunta insistente batia na minha mente:
Por que alguém acharia que eu não deveria estar lá?
O que, exatamente, acontecia naquele andar da empresa...
Que eu ainda não sabia?
Quando cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e fui direto para o quarto.
Me olhei no espelho.
A mesma Hellen de sempre.
Cabelos presos de qualquer jeito.
Olheiras leves.
Uniforme social que parecia mais elegante na foto do anúncio do emprego do que no meu corpo real.
- Não faz essa cara - murmurei para o reflexo. - Você sobreviveu ao primeiro dia.
Sobreviveu.
A palavra ecoou diferente depois da mensagem.
Abri a bolsa, peguei o caderno velho onde costumo anotar tudo o que não posso falar em voz alta.
E escrevi.
"Primeiro dia na Blackwell .
Chefe: intimidador.
Andar: silencioso demais.
Advogado: fala mais do que deveria.
Mensagem anônima: alguém me quer longe.
Motivo: desconhecido."
Fechei o caderno.
Fui dormir tarde, revirando na cabeça o olhar escuro de Gustavo... e as letras frias naquela folha de papel.
Se eu soubesse...
Naquela noite, eu ainda não fazia ideia.
De que eu não tinha apenas entrado em uma empresa.
Eu tinha entrado no centro de uma guerra silenciosa.
E, querendo ou não, eu já estava no alvo.
O vigésimo quinto andar nunca esteve tão silencioso.
E eu conheço cada silêncio daquele lugar.
Silêncio de concentração.
Silêncio de medo.
Silêncio de alerta.
Mas hoje o silêncio era outro.
Era silêncio de mudança.
E a mudança tinha nome: Hellen Morgan.
Não costumo me importar com quem trabalha para mim.
Pessoas entram e saem.
Competentes ficam.
Inúteis eu mesmo faço questão de remover.
Mas no minuto em que a vi naquele corredor - postura tensa, olhos grandes, respiração curta - algo em mim... despertou.
Não deveria.
Eu não permito que nada que não esteja sob meu controle me atinja.
Mas ela atingiu.
Não por beleza - embora tivesse isso em excesso.
Não por fraqueza - porque seus olhos diziam o contrário.
E sim porque ela fez algo que ninguém faz naquele andar:
Ela me olhou como um homem, não como um monstro.
Nem com bajulação.
Nem com medo exagerado.
Mas com... atenção.
Como se tentasse entender quem eu sou.
Como se ousasse ver o que ninguém vê.
Isso é perigoso.
Muito perigoso.
Passei o dia inteiro observando-a sem que percebesse.
Ela se move com delicadeza, mas há firmeza em cada gesto.
Ela digita rápido.
Anota tudo.
Não reclama.
Não gagueja depois da primeira frase.
E, pela primeira vez em meses, o 25º andar não parece um deserto emocional.
Voltar de viagem e encontrá-la foi... inesperado.
Sabia que uma nova secretária teria sido contratada.
Camila escolhe bem, mas não esperava algo que... me afetasse.
O que irrita.
Eu não gosto de ser afetado por nada.
Muito menos por alguém que trabalha para mim.
Lucas apareceu na mesa dela logo cedo.
Claro que apareceu.
Ele fareja novidade como um cão fareja perigo.
E ele falou demais. Eu vi pelas câmeras.
Ele sempre fala demais.
É inteligente, mas imprudente.
E, se existe uma coisa que me tira do sério mais rápido que incompetência...
é imprudência perto do que é meu.
E embora ela não seja minha - ainda - havia algo naquela cena que me atravessou.
Aproximei-me dela no corredor minutos depois.
Ela tremia.
E fingiu que não.
Interessante.
Muito interessante.
Quando entrei na minha sala, tentei me concentrar nos relatórios.
Falhei.
Ao invés disso, percebi uma coisa que vinha me incomodando há semanas:
Alguém andava mexendo onde não devia.
Arquivos alterados.
Reuniões remarcadas sem minha aprovação.
Pequenos erros que não deveriam acontecer em uma empresa como a minha.
E agora, com Hellen ali, eu conseguia enxergar com clareza:
Era interno.
O inimigo estava dentro do meu império.
E a chegada dela, de alguma forma, só aumentou a sensação de alerta.
Como se ela estivesse abrindo as cortinas sem perceber.
Como se estivesse no caminho de algo... que não sabe que existe.
Camilla bateu na porta.
- Mr. Blackwell , a nova secretária está trazendo os relatórios.
Eu me virei, esperando ver qualquer coisa.
Menos aquilo.
Ela entrou devagar, segurando a pasta com firmeza, os olhos tentando manter contato, mas desviando no último segundo.
Tímida.
Educada.
Insegura - por fora.
Mas havia um fogo contido ali dentro.
Um fogo que eu senti daqui.
- Deixe sobre a mesa - ordenei, tentando não demonstrar que estava... analisando demais.
Ela se aproximou.
Perfume suave.
Movimentos medidos.
E então, o momento que meu controle não precisava, mas meu instinto queria:
Ela virou para sair.
E eu falei seu nome.
- Hellen.
Ela parou.
Seu corpo reagiu antes da mente.
Eu notei.
- Evite conversas desnecessárias com diretores durante o expediente - falei, olhando diretamente para ela.
Os olhos dela ficaram levemente arregalados.
Quase indignados.
Eu gostei.
- Não vai se repetir, senhor - respondeu, firme.
Mais firme do que eu esperava.
Ótimo.
Eu acompanhei sua saída com o olhar.
E sorri.
Um sorriso que não deveria ter surgido.
No fim do expediente, revisei as câmeras.
Faço isso todos os dias.
Hoje, mais do que nunca.
E o que vi me incomodou.
Quando Elem estava concentrada na mesa dela, alguém passou atrás.
Uma sombra rápida demais.
Um rosto inclinado demais.
Um movimento que parecia... vigilância.
Eu aumentei o zoom.
A imagem ficou granulada.
Incompleta.
Mas a sensação me acertou em cheio:
Ela foi marcada.
E não por mim.
Alguém aqui dentro a observava.
Alguém que não deveria.
E então, alguns minutos depois, vi algo ainda pior:
Um papel sendo colocado sobre a mesa dela.
Anônimo.
A mão era rápida, mas eu reconheço mãos.
Eu reconheço todos naquele andar.
E aquela... não era uma mão comum.
Aquela mão tinha história.
Uma história que eu acreditava ter enterrado.
Fechei o laptop antes que quebrasse alguma coisa.
Quando saí do escritório mais tarde, o 25º andar estava vazio.
Mas o silêncio não era normal.
Era pesado.
Como se houvesse alguém escondido ali.
Alguém que não devia estar.
Apertei o botão do elevador, meu reflexo no espelho escuro da parede fitando de volta com expressão séria.
Algo estava errado.
Muito errado.
Quando o elevador abriu, fiquei alguns segundos olhando para o corredor vazio.
E a imagem dela veio à minha mente.
Sozinha.
Recebendo uma ameaça que não deveria ter recebido.
Entrando numa guerra que não é dela.
Não, isso não vai continuar assim.
Eu cuido do que é meu.
E mesmo que ela não pertença a mim - ainda - ela está sob meu teto.
Sob meu nome.
Sob minha responsabilidade.
E quem mexe com isso... mexe comigo.
No estacionamento, entrei no carro e fechei a porta com força maior que o necessário.
Chicago estava fria naquela noite.
O vento batia contra os espelhos do prédio, arrastando folhas e lembrando a todos que, naquela cidade, o mundo pode mudar em um piscar de olhos.
Dirigi pelos túneis iluminados sob o Chicago River, ligando rotas internas que só os moradores antigos usam.
Mas minha cabeça estava longe.
Estava nela.
No olhar assustado.
No jeito determinado de trabalhar.
Na forma como ocupava aquele escritório com uma delicadeza que não existia ali antes.
No papel em sua mesa.
E na certeza que eu tinha agora:
O inimigo não estava só dentro da empresa.
O inimigo estava perto demais.
Peguei o celular.
Liguei para Lucas.
Ele atendeu na segunda chamada.
- Chefe?
- Amanhã - falei sem rodeios - quero acesso completo aos logs internos do sistema. Tudo. Desde o último trimestre.
Lucas ficou em silêncio por um instante.
- Entendi. Alguma coisa aconteceu?
- Ainda não - respondi. - Mas vai acontecer se eu não agir agora.
- Vou resolver.
Desliguei.
A cidade continuava passando pela janela, luzes e sombras misturando-se como uma pintura viva.
E então, em voz baixa, admiti o que ainda não deveria admitir:
- Hellen ... você não faz ideia do que caiu na minha mesa.
Mas independente do que aconteça...
ninguém toca em você.
Nem o inimigo.
Nem o destino.
Nem você mesma.
Eu vou garantir isso.
Custe o que custar.