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O Jardim e o Girassol

O Jardim e o Girassol

Autor:: Barbara
Gênero: Romance
"Eu vou trancar a faculdade", Lucas jogou as palavras no ar como se fossem nada, enquanto eu arrumava meus livros para o vestibular, a um mês de distância. Ele, um gênio da engenharia na melhor universidade, meu namorado e meu futuro, acabava de me dar a notícia mais surreal da minha vida. E por quê? Para "ajudar" Sofia, a caloura deslumbrante que ele jurava ter "potencial incrível" e que, subitamente, consumia todo o seu tempo livre. Eu o amava, apoiei cada passo dele, mas vê-lo descartar anos de esforço por essa distração me sufocava, e ele ainda me chamava de "âncora" por não entender sua "grandeza". A dor se misturou com bile na garganta quando ele afirmou que um semestre não faria diferença para um "gênio" como ele, e então, com uma calma que me surpreendeu, eu disse "tudo bem" e saí daquele apartamento que já não era mais meu. Corri sem rumo, as lágrimas embaçando minha visão, até que um grito e o som de freios me jogaram no chão, um acidente que me apresentou a Pedro, um estranho gentil que, ao contrário de Lucas, parecia realmente se importar. Foi então que a notificação do Instagram chegou: "Projeto Futuro. Tudo por você, meu girassol. 🌻 @SofiaAlves". Meu girassol. E eu, que dei a ele meu jardim inteiro, era apenas uma âncora descartável. Eu não era nem um obstáculo, era uma piada. Mas uma nova chama se acendeu, não de raiva, mas de determinação: o jogo estava virando.

Introdução

"Eu vou trancar a faculdade", Lucas jogou as palavras no ar como se fossem nada, enquanto eu arrumava meus livros para o vestibular, a um mês de distância.

Ele, um gênio da engenharia na melhor universidade, meu namorado e meu futuro, acabava de me dar a notícia mais surreal da minha vida.

E por quê? Para "ajudar" Sofia, a caloura deslumbrante que ele jurava ter "potencial incrível" e que, subitamente, consumia todo o seu tempo livre.

Eu o amava, apoiei cada passo dele, mas vê-lo descartar anos de esforço por essa distração me sufocava, e ele ainda me chamava de "âncora" por não entender sua "grandeza".

A dor se misturou com bile na garganta quando ele afirmou que um semestre não faria diferença para um "gênio" como ele, e então, com uma calma que me surpreendeu, eu disse "tudo bem" e saí daquele apartamento que já não era mais meu.

Corri sem rumo, as lágrimas embaçando minha visão, até que um grito e o som de freios me jogaram no chão, um acidente que me apresentou a Pedro, um estranho gentil que, ao contrário de Lucas, parecia realmente se importar.

Foi então que a notificação do Instagram chegou: "Projeto Futuro. Tudo por você, meu girassol. 🌻 @SofiaAlves".

Meu girassol. E eu, que dei a ele meu jardim inteiro, era apenas uma âncora descartável.

Eu não era nem um obstáculo, era uma piada.

Mas uma nova chama se acendeu, não de raiva, mas de determinação: o jogo estava virando.

Capítulo 1

"Eu vou trancar a faculdade."

A voz de Lucas ecoou pela pequena sala do nosso apartamento, tão casualmente como se ele estivesse anunciando que ia comprar pão.

Eu parei de arrumar meus livros para o vestibular, que seria em exatamente um mês, e o encarei, tentando processar a informação.

"O quê? Você não pode estar falando sério, Lucas."

Ele deu de ombros, jogando a mochila no sofá com um baque surdo.

"Estou falando sério, Manuela. Eu preciso de um tempo."

O ar ficou pesado, denso com palavras não ditas. Lucas era o gênio da nossa turma, o cara que gabaritava todas as provas de exatas sem nem parecer se esforçar. Ele já estava no segundo ano de Engenharia na melhor universidade do estado, um caminho que eu sonhava em trilhar ao lado dele.

"Um tempo pra quê? A um mês do meu vestibular? Você prometeu que ia me ajudar na reta final."

"E eu vou," ele disse, se aproximando. Sua mão tocou meu ombro, mas o gesto não tinha o calor de antes. "Só que de um jeito diferente. A Sofia precisa de muito mais ajuda que você, ela está começando do zero."

Sofia.

O nome dela pairou entre nós como uma nuvem de fumaça. Uma caloura do cursinho, bonita, popular, e que, nos últimos meses, parecia ocupar todos os pensamentos e o tempo livre de Lucas.

"A Sofia tem os professores do cursinho, Lucas. Eu tenho você. Ou pelo menos, eu achava que tinha."

Ele suspirou, um som de pura impaciência.

"Você não entende, Manu. Isso é importante. Ajudá-la é um desafio, vai me manter afiado."

Eu engoli em seco, sentindo um nó se formar na minha garganta. Eu o amava. Amava sua inteligência, seu foco, até mesmo sua arrogância ocasional. Eu tinha apoiado cada passo dele, comemorado cada vitória como se fosse minha. E agora, ele estava jogando tudo fora por uma garota que mal conhecia.

"E a sua faculdade? Seu futuro?", eu perguntei, a voz fraca.

"Eu sou um gênio, lembra? Posso voltar quando quiser e passar em qualquer prova. Um semestre não vai fazer diferença," ele disse, com uma confiança que beirava o delírio.

Uma parte de mim queria gritar, chorar, implorar. Mas outra parte, uma parte que eu mal conhecia, estava exausta. Exausta de competir por sua atenção, de me sentir em segundo plano.

Então, com uma calma que me surpreendeu, eu respirei fundo.

"Tudo bem."

Lucas me olhou, os olhos semicerrados. A surpresa em seu rosto era evidente.

"Tudo bem? Como assim, 'tudo bem'?"

"Se é isso que você quer, Lucas, tudo bem. Tranque a faculdade. Ajude a Sofia. Faça o que você acha que é certo."

Minha própria voz soava distante aos meus ouvidos. Por dentro, eu estava desmoronando, mas por fora, eu mantinha uma fachada de serenidade. Eu não ia dar a ele o drama que ele talvez esperasse.

Ele riu, um som seco e sem humor.

"Ah, entendi. Você está sendo sarcástica. Acha que eu não consigo? Acha que eu vou falhar e voltar rastejando?"

"Eu não disse nada disso," respondi, minha voz firme.

"Mas é o que você está pensando! Sempre me podando, sempre com essa sua insegurança. Você não consegue ver a grandeza, Manuela! Você é uma âncora!"

Cada palavra era um golpe. Âncora. Obstáculo. Eu, que passei noites em claro preparando seus lanches de estudo, que organizei sua vida para que ele pudesse focar apenas em ser brilhante.

A raiva e a dor subiram pela minha garganta como bile. Eu não conseguia mais ficar ali.

Virei as costas e saí do apartamento, batendo a porta atrás de mim.

Eu não sabia para onde estava indo, apenas corria. As lágrimas finalmente vieram, quentes e furiosas, borrando minha visão. Eu corri pelas ruas do bairro, o ar frio da noite cortando meu rosto, sem rumo, apenas querendo fugir daquela dor.

Numa esquina, sem olhar, atravessei a rua correndo.

Um grito, o som de freios cantando no asfalto.

Senti um impacto no meu ombro que me jogou para o lado, e caí na calçada, ralando os joelhos.

"Você tá bem? Moça?"

Uma voz masculina, preocupada, me tirou do meu torpor. Olhei para cima e vi um rapaz saindo de uma bicicleta caída no chão. Ele mancava um pouco e segurava o braço.

"Meu Deus, eu te machuquei?", perguntei, o pânico substituindo a dor do meu coração.

"Eu? Eu que quase te atropelei," ele disse, forçando um sorriso enquanto se aproximava. "Você saiu correndo do nada. Mas e você, se machucou?"

Só então eu olhei para ele direito. Ele era alto, tinha cabelos escuros e um olhar gentil. Havia um corte em sua mão, de onde o sangue começava a escorrer. Ele deve ter se apoiado nela ao cair.

"Sua mão...", murmurei, apontando.

Ele olhou para a própria mão como se só agora notasse o ferimento.

"Ah, não foi nada. Só um arranhão."

"Não, foi minha culpa. Eu... eu não estava prestando atenção." A culpa se misturou ao turbilhão de emoções dentro de mim. "Deixa eu te ajudar. Tem uma farmácia aqui perto."

Ele hesitou por um momento, depois assentiu.

"Ok. Meu nome é Pedro, a propósito."

"Manuela."

Enquanto caminhávamos em silêncio até a farmácia, meu celular vibrou no bolso. Era uma notificação do Instagram. Meu dedo tremeu ao abrir o aplicativo.

Era um post de Lucas.

A foto era uma pilha de livros de preparação para o vestibular, caríssimos, que eu sabia que ele não tinha dinheiro para comprar. E em cima da pilha, um único girassol. A legenda dizia: "Projeto Futuro. Tudo por você, meu girassol. 🌻 @SofiaAlves".

Sofia amava girassóis.

O ar sumiu dos meus pulmões. Não era apenas sobre ajudar. Era um projeto. Um futuro. Um futuro que ele estava construindo publicamente, me apagando da equação como se eu nunca tivesse existido.

Meu girassol.

E eu, que sempre dei a ele todo o meu jardim, era apenas a âncora.

Capítulo 2

"Eu não acredito que ele fez isso."

A voz de Clara, minha melhor amiga, estava cheia de uma indignação que eu mesma não conseguia mais sentir. Eu estava apenas... vazia.

Estávamos sentadas em um banco do campus da faculdade, alguns dias depois do confronto. Eu tinha contado a ela tudo, desde a decisão de Lucas de trancar o curso até a postagem no Instagram.

"Ele sempre foi arrogante, Manu, mas isso? Isso é outro nível de canalhice," ela continuou, gesticulando com as mãos. "Trancar a própria faculdade pra dar aulinha particular pra uma caloura? Quem em sã consciência faz isso?"

"Um gênio que acha que pode tudo," respondi, minha voz monótona.

"Ele não é um gênio, ele é um idiota. E essa Sofia... que garota é essa?"

Fechei os olhos, e a imagem dela veio à mente. Sofia entrou no nosso cursinho alguns meses atrás. Tinha vindo de outra cidade, com um sorriso fácil e uma ambição que queimava nos olhos. Ela rapidamente se tornou o centro das atenções, e Lucas, que nunca se interessou por ninguém além de seus livros e, supostamente, de mim, ficou fascinado.

No começo, era inocente.

"Manu, a Sofia não entendeu a matéria de física quântica, posso explicar pra ela rapidinho depois da aula?"

Eu, a namorada compreensiva e solidária, dizia que sim.

"Claro, amor. Conhecimento foi feito para ser compartilhado."

Depois, os pedidos ficaram mais frequentes.

"Manu, vou levar a Sofia na biblioteca, ela não sabe onde ficam os melhores livros de cálculo."

"Manu, vou ficar até mais tarde no cursinho pra ajudar a Sofia com a redação dela."

"Manu, a Sofia tá muito ansiosa com os simulados, vou comprar um lanche pra ela."

Aos poucos, "nós" virou "eu e Sofia". Nossas noites de estudo se tornaram as noites de estudo dele com ela. Nossas conversas sobre o futuro foram substituídas pelas conversas dele sobre o "potencial incrível" de Sofia.

Eu tentei falar com ele, várias vezes.

"Lucas, eu sinto sua falta. Sinto falta de estudarmos juntos."

"A gente estuda, Manu. Só estou otimizando meu tempo. Ajudar ela me ajuda a revisar."

Ele era mestre em racionalizar seu egoísmo, em transformar sua negligência em um ato de nobreza intelectual.

No dia em que ele decidiu trancar a faculdade, ele nem estava em casa quando eu cheguei. Havia apenas um bilhete amassado na mesa da cozinha: "Fui resolver a papelada da faculdade e depois encontrar a Sofia. A gente se fala."

Ele nem teve a decência de me dizer pessoalmente que estava me abandonando.

Quando ele finalmente me ligou, horas depois, eu esperava um pedido de desculpas, uma explicação, qualquer coisa.

Mas a primeira coisa que ele disse foi:

"Manu, escuta, eu tô aqui com a Sofia e ela precisa daquela sua apostila de história da arte. Você pode tirar uma foto de todas as páginas e me mandar? Pra ontem."

Eu fiquei em silêncio, o celular pressionado contra a orelha, ouvindo a risada dela ao fundo. Ele não ligou para saber como eu estava. Ele ligou porque precisava de algo. Eu era uma ferramenta. Um arquivo de consulta.

"Você ainda está aí, Manuela? É urgente."

A voz dele, impaciente, me trouxe de volta à realidade. A neblina de tristeza e choque começou a se dissipar, dando lugar a uma fúria gelada.

"Não," eu disse, a palavra saindo firme e clara.

"Não o quê? Não vai mandar?"

"Não."

Eu desliguei.

Desliguei o telefone na cara de Lucas pela primeira vez em três anos de namoro.

Meu coração batia descontrolado. Fui até a geladeira, peguei uma garrafa de água e bebi tudo de uma vez, a água gelada descendo pela minha garganta, mas não conseguindo apagar o fogo que subia pelo meu peito.

Meu celular começou a vibrar incessantemente na mesa.

Uma mensagem. Duas. Dez. Vinte.

Peguei o aparelho, os dedos tremendo.

Lucas: Manuela, qual é o seu problema?

Lucas: Eu preciso disso AGORA. A Sofia tem um simulado amanhã.

Lucas: Para de ser infantil.

Lucas: É só tirar umas fotos, não vai cair seu braço.

Lucas: Você sabe o quanto isso é importante pra mim.

Lucas: Você está fazendo isso pra me atingir? Porque não está funcionando.

Lucas: MANUELA.

Lucas: RESPONDE.

Lucas: Se você não mandar em cinco minutos, esquece. Eu dou um jeito. Mas não espere mais nada de mim.

A última mensagem foi a gota d'água. "Não espere mais nada de mim." Como se ele ainda tivesse algo para me oferecer além de migalhas de atenção e pedidos egoístas.

Abri sua página de contato. A foto dele sorrindo para mim, tirada em nosso último aniversário juntos, pareceu uma zombaria.

Meus dedos se moveram com uma determinação recém-descoberta.

Bloquear.

Apagar contato.

"Sim".

O nome dele desapareceu da minha lista. O chat sumiu. Por um momento, senti um pânico avassalador, a sensação de cortar uma corda que me prendia a algo familiar, mesmo que doloroso.

Mas logo em seguida, uma onda de alívio me inundou.

Pela primeira vez em meses, eu senti que podia respirar.

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