Por cinco anos, eu dediquei minha alma à minha carreira e ao meu amante secreto, meu chefe Heitor. Mas, pela quinta vez, ele deu a promoção pela qual eu sangrei para minha rival incompetente, Kátia.
Meu mundo desabou quando ouvi ele admitir friamente que todo o nosso relacionamento era apenas uma "estratégia de baixo custo" para me manter motivada sem o salário de diretora.
A humilhação não parou por aí. Ele me forçou fisicamente a me curvar mais diante de Kátia, machucando novamente minhas costas. Quando finalmente pedi demissão, sua vingança foi rápida: uma transferência para uma unidade remota e notoriamente perigosa.
Naquela noite, fui brutalmente atacada. Minha ligação de emergência desesperada para Heitor caiu direto na caixa postal. Uma notificação mais tarde revelou o porquê: ele estava no palco da festa da empresa, cantando um dueto de amor com Kátia enquanto eu lutava pela minha vida.
O homem que eu amava me deixou para morrer.
Depois que cortei todos os laços e finalmente comecei a me curar, ele apareceu na porta dos meus pais, implorando por perdão.
Desta vez, eu não iria simplesmente virar as costas. Eu o faria encarar cada mentira que ele já contou.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Alice Evangelista
O e-mail caiu na minha caixa de entrada como um peso de chumbo, esmagando a última lasca de esperança que me restava. "Diretora de Estratégia Digital – Kátia Chaves." Pela quinta vez. Cinco vezes eu derramei minha alma nesta empresa, neste cargo, apenas para ser preterida por alguém menos competente, menos merecedora. Meus dedos tremiam enquanto eu relia o nome, as palavras se embaralhando através de uma névoa quente e repentina em meus olhos.
A frustração tinha um gosto de cinzas na minha boca.
Meu celular vibrou. Era uma ligação da minha mãe. Eu quase ignorei. Ultimamente, suas ligações eram apenas lembretes de tudo que eu não estava fazendo certo – não estava casada, não estava estabelecida, ainda correndo atrás de uma carreira que claramente não corria atrás de mim. Mas hoje, algo mudou. Um cansaço se instalou fundo nos meus ossos, um tipo de rendição que eu não sentia antes. Eu atendi.
"Querida, ainda sem notícias da promoção?" Sua voz era suave, tingida com aquela preocupação maternal familiar. "Sabe, se São Paulo não está dando certo, Curitiba sempre terá um lugar para você. E talvez seja hora de pensar em se estabelecer, sabe? Um bom arquiteto, uma família..."
Normalmente, eu me irritaria. Lançaria uma defesa feroz das minhas escolhas, da minha ambição. Mas hoje, a luta havia se esvaído de mim.
"Talvez, mãe," sussurrei, as palavras surpreendendo até a mim mesma. "Talvez você esteja certa."
Um instante de silêncio chocado do outro lado. Minha mãe sabia que isso não era típico de mim. Desliguei antes que ela pudesse investigar, a admissão inesperada pairando no ar entre nós.
Eu precisava falar com o Heitor. Ele era o único que realmente entendia, ou assim eu pensava. Meu chefe, meu amante secreto por cinco anos, o vice-presidente que sempre me prometeu o mundo, só que ainda não. Compus uma mensagem, meus polegares pairando sobre o teclado. "Podemos conversar? Urgente."
Então, um movimento no reflexo da janela do meu escritório chamou minha atenção. A porta de Heitor, geralmente fechada, estava entreaberta. E eu ouvi vozes. A voz dele. E outra, mais grave, masculina. Gustavo Almeida, seu colega.
Inclinei-me para mais perto, meu coração batendo um ritmo nervoso contra minhas costelas.
"Então, a Alice foi preterida de novo," disse Gustavo, seu tom solidário. "Pesado, cara. Ela está de olho nesse cargo de diretora há anos. E depois de tudo que ela fez por você, pela empresa..."
Um pavor gelado começou a se infiltrar em minhas veias. Isso era sobre mim.
A risada de Heitor, um som seco e desdenhoso que arrancou camadas da minha realidade cuidadosamente construída. "É uma estratégia, Gustavo. Uma de baixo custo."
Minha respiração falhou. Minha mão voou para a minha boca, abafando um soluço.
"Estratégia?" Gustavo parecia confuso.
"Manter um talento de ponta sem o salário pesado de diretora," Heitor explicou, sua voz desprovida de emoção. "Ela é boa. Boa pra caramba. E é leal. Cinco anos, Gustavo. Cinco anos de almoços secretos, 'sessões de estratégia' tarde da noite, o ocasional toque de mão 'acidental'." Ele riu de novo, um som que revirou minhas entranhas. "Ela acha que é amor. Ela acha que eu a amo."
O mundo inclinou. Minha visão embaçou, não com lágrimas, mas com uma raiva súbita e ofuscante. Cada toque, cada promessa sussurrada, cada momento compartilhado – tudo era uma mentira. Uma transação calculada.
"Eu usei os sentimentos dela por mim lindamente," ele continuou, completamente alheio à minha presença. "A mantive motivada, a mantive trabalhando o dobro pela metade da recompensa. É brilhante, na verdade."
Meu estômago se revirou. A bile subiu pela minha garganta. Ele até mencionou o toque de mão "acidental", os detalhes íntimos que ele havia compartilhado comigo, transformando-os em armas contra a minha própria existência.
Um soluço gutural me escapou, pequeno e cru. O som foi engolido pelo carpete grosso do meu escritório, um grito fútil de uma alma estilhaçada. A pilha cuidadosamente organizada de materiais da promoção para "Diretora de Estratégia Digital" na minha mesa – a descrição do cargo, as responsabilidades, a faixa salarial que eu havia memorizado – de repente parecia grotesca. Eu os agarrei, minhas mãos tremendo tão violentamente que os papéis se rasgaram em meu aperto. Rasgando, rasgando, desfazendo-os em confete, espalhando a frágil evidência da minha ambição desperdiçada pelo chão.
Eu estava farta. Não da promoção. Não da empresa. Mas de São Paulo. Desta vida. Dele.
Minha mente voltou no tempo. Sete anos. Sete anos de noites em claro, férias puladas, dando tudo a esta firma, tudo a ele. Para quê? Para ser uma "estratégia de baixo custo"? Um peão em seu jogo impiedoso?
A voz de Kátia Chaves, animadinha e venenosa, cortou meu torpor. Ela devia ter acabado de entrar no escritório de Heitor. "Parece que alguém ainda está de chororô pela minha promoção, Heitor. Honestamente, algumas pessoas simplesmente não sabem perder com classe, não é?"
Ouvi o murmúrio apaziguador de Heitor. Então Kátia novamente, sua voz escorrendo falsa pena. "Quero dizer, não é minha culpa que a Alice simplesmente não tem estofo para ser diretora, não é? Talento reconhece talento, afinal."
As palavras eram como punhais, mas não mais perfuravam meu coração. Elas apenas ricochetearam em um escudo de gelo recém-formado. Eu finalmente o vi como ele era. Um aproveitador. Um manipulador. Ele sempre interpretou o papel do mentor solidário, do amante compreensivo, sussurrando sobre "justiça" e "meritocracia" quando eu levantava preocupações sobre minha trajetória de carreira.
"Sua hora vai chegar, Alice," ele dizia, seus olhos tão sinceros, sua mão apertando a minha gentilmente sob a mesa de conferência. "Eu só preciso resolver alguns obstáculos políticos. Somos uma equipe, lembra? Você e eu."
Uma equipe. Que piada. Eu tinha sido a soldada devotada, ele o general sacrificando suas tropas para glória pessoal. Todos aqueles anos, todas aquelas conquistas – dobrar fluxos de receita, otimizar processos, lançar campanhas de sucesso que agora eram creditadas a outros – passaram diante dos meus olhos. Prêmios, reconhecimento da indústria, depoimentos de clientes... nada disso importava para ele. Nada de mim importava.
Lembrei-me de inúmeras noites passadas trabalhando duro enquanto ele "fazia networking" com clientes, muitas vezes com o pai de Kátia. Lembrei-me das brigas internas com Kátia, sua sabotagem mesquinha, e seu descarte casual delas. "Apenas a ignore, Alice. Foque no seu trabalho. Ele fala por si só."
Meu trabalho falava por si só. Gritava meu talento, minha dedicação, meu esforço puro e absoluto. Mas ele não tinha ouvido. Ele só tinha visto minha utilidade.
Uma calma gelada se instalou sobre mim, substituindo o choque inicial. A exaustão, a ansiedade roedora que tinha sido uma companheira constante por anos, de repente pareceu avassaladora. Meu corpo doía, um protesto silencioso contra o fardo emocional que eu vinha carregando.
Então, meu celular vibrou novamente. Uma mensagem de Heitor. "Ei, está livre hoje à noite? Sinto muito pela promoção. Vamos conversar. Jantar? Na minha casa?"
Uma pequena e traiçoeira centelha de esperança piscou dentro de mim, rapidamente extinta pelo inferno rugidor de sua traição. Ele achava que ainda podia me enrolar. Ele achava que eu ainda era sua para manipular.
Ele estava enganado.
Ponto de Vista: Alice Evangelista
A lasca de esperança, nascida da mensagem de Heitor, parecia uma piada cruel agora. Meus pés se arrastavam no carpete felpudo enquanto eu me aproximava de seu escritório, o som dos soluços teatrais de Kátia ficando mais alto a cada passo. Parei do lado de fora da porta entreaberta, minha mão pairando sobre o metal frio.
"É tão injusto, Heitor!" Kátia choramingava, sua voz grossa com lágrimas falsas. "Todo mundo está me olhando como se eu não merecesse. Como se a Alice fosse muito melhor que eu!"
"Shh, shh, está tudo bem, querida," Heitor acalmava, sua voz um murmúrio baixo e reconfortante. "Não dê ouvidos a eles. Você conquistou isso. Você sabe disso. E eu sei disso."
Meu estômago se contraiu. Imaginei-o acariciando o cabelo dela, o braço em volta dela. As mesmas palavras calmantes, o mesmo toque gentil que ele usara em mim inúmeras vezes depois de uma reunião de diretoria particularmente brutal, ou quando eu estava estressada com um projeto. "Você é incrível, Alice. Não deixe ninguém te dizer o contrário."
Quantas vezes eu chorei para ele, exausta e desmoralizada depois de ser minada por um colega homem ou dispensada por um cliente? E quantas vezes ele apenas ouviu, assentiu e ofereceu platitudes vazias? Nenhuma vez ele realmente me defendeu. Nenhuma vez ele se levantou por mim. Ele apenas me deixou carregar o peso, depois ofereceu uma mentira açucarada para me manter na linha.
A percepção me atingiu com a força de um maremoto. Ele nunca se importou de verdade. Nunca. Nem com meus sentimentos, nem com minhas lutas, nem com minha dor. Eu era apenas um recurso a ser gerenciado, um problema a ser resolvido com o mínimo de esforço.
Um vazio oco e ecoante floresceu em meu peito. Empurrei a porta, o som ecoando anormalmente alto na sala subitamente silenciosa. O braço de Heitor, que claramente estava em volta dos ombros de Kátia, caiu instantaneamente. Kátia, com o rosto manchado, mas os olhos instantaneamente calculistas, fungou dramaticamente.
O olhar de Heitor endureceu, um lampejo de irritação cruzando suas belas feições. "Alice. O que você quer?" Seu tom era frio, acusador.
Ele estava irritado por eu ter interrompido sua pequena performance.
"Eu... eu só estava passando para ver como estavam," gaguejei, minha voz mal um sussurro, a luta subitamente desaparecida de mim.
"Passando para ver? Ou você está aqui para reclamar da promoção bem merecida da Kátia?" ele retrucou, seus olhos faiscando. "Porque, francamente, Alice, seu ciúme está se tornando antiprofissional. Kátia trabalhou duro – mais duro do que você imagina – e ela merece isso."
Meu queixo caiu. Mais duro do que eu imagino? Ele estava ativamente me manipulando, me acusando de algo que eu nem sentia mais, não depois de ouvir sua verdadeira avaliação do nosso "relacionamento".
"Eu não estava-" comecei, mas ele me cortou.
"Não, quer saber? Esquece. Kátia está chateada. E, francamente, sua atitude não está ajudando. Acho que você deve a ela um pedido de desculpas." Seus olhos me desafiaram a desafiá-lo.
Minha mente repassou todas as vezes que defendi suas decisões questionáveis, todas as vezes que racionalizei seu comportamento, convencendo-me de que ele era apenas "ambicioso" ou "sob pressão". Que patético. Como eu fui completamente cega.
O gosto ácido de autoaversão encheu minha boca. Eu não tinha mais luta. Nem palavras. Apenas um cansaço profundo e doloroso.
Respirei fundo, pressionando a sensação quente e amarga na minha garganta. Era isso. A humilhação final. A última lasca da minha dignidade seria arrancada aqui, neste escritório, na frente do homem que me amou – ou fingiu amar – e da mulher que agora colhia os frutos de seu engano.
Virei-me para Kátia, sentindo um estranho distanciamento, como se me observasse de longe. "Kátia," comecei, minha voz plana, desprovida de toda emoção. "Eu peço desculpas. Eu... peço desculpas se minha presença lhe causou algum desconforto."
Então eu me curvei, um movimento brusco, quase robótico. Parecia que minha espinha era feita de vidro, ameaçando se estilhaçar. Mantive a reverência, esperando por algum reconhecimento, algum sinal de alívio de Kátia. O silêncio se estendeu, espesso e sufocante.
Então, uma dor súbita e lancinante atravessou minha lombar. A mão de Heitor, firme e inflexível, pressionou a base das minhas costas, empurrando-me para baixo, forçando-me a uma reverência mais profunda e subserviente.
"Mais respeito, Alice," ele murmurou em meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele. "Mostre a ela que você está falando sério. Ela é sua diretora agora."
A dor explodiu. Não era apenas a pressão aguda; era a memória chocante. Anos atrás, durante um evento de cliente, um ex-funcionário descontente invadiu, brandindo uma garrafa quebrada. Heitor estava bem na minha frente. Eu instintivamente o empurrei para fora do caminho, recebendo o impacto contra uma pesada mesa de mármore. Minha lombar gritou. Ele se desculpou profusamente, cuidou de mim até eu me recuperar e prometeu sempre me proteger. "Você salvou minha vida, Alice. Eu nunca vou esquecer."
Ele havia esquecido. Ou talvez, ele nunca se importou de verdade.
Agora, aquela velha lesão ardia com vingança, fogo se espalhando pelos meus músculos. Minhas pernas ameaçaram ceder.
"Oh, Alice, querida, você está bem?" A voz de Kátia, enjoativamente doce, me puxou de volta. Ela deu um passo mais perto, seus olhos brilhando com satisfação maliciosa. "Você parece um pouco... tensa."
A mão de Heitor permaneceu colada nas minhas costas por mais um segundo agonizante, então ele me soltou abruptamente. Eu balancei, agarrando meu lado, minha visão nadando. Seus olhos encontraram os meus, uma estranha mistura de algo parecido com preocupação, mas principalmente, um vazio arrepiante.
Engoli um grito de dor, endireitei-me lentamente e, sem outra palavra, virei-me e saí do escritório. Cada passo era uma agonia, física e emocional. Eu podia sentir o olhar de Heitor nas minhas costas, mas não me virei.
Consegui chegar à minha baia, desabando na minha cadeira. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes, mas silenciosas. Não eram por Heitor. Eram pela mulher ingênua e esperançosa que eu tinha sido, a mulher que acreditava no amor e na lealdade, a mulher que sacrificou tudo por nada.
Estava realmente acabado.
Meus dedos, ainda trêmulos, digitaram duas palavras: "Gustavo Almeida." Imprimi o documento, caminhei até sua baia e, sem palavras, entreguei-lhe minha carta de demissão.
Ponto de Vista: Alice Evangelista
Gustavo olhou para a carta de demissão em minha mão, seu rosto geralmente gentil gravado com incredulidade. Seus olhos, normalmente suaves, estavam arregalados de choque.
"Alice? O que é isso? Você está falando sério?" Ele examinou o documento, depois olhou para mim, a testa franzida de preocupação. "Você não pode simplesmente pedir demissão. Não depois de tudo que você investiu neste lugar. Você é inestimável aqui, Alice. Todo mundo sabe disso."
Suas palavras, destinadas a me tranquilizar, pareciam distantes, como ecos de uma vida que eu já estava deixando para trás. Inestimável? Para quem? Certamente não para Heitor, que acabara de me forçar a rastejar para seu novo projeto de estimação.
"Estou falando sério, Gustavo," eu disse, minha voz plana. Meu olhar se desviou dele, através da janela, em direção ao distante horizonte de São Paulo. Parecia alienígena, desapegado.
"Mas... por que agora? É por causa da promoção? Eu sei que é difícil, mas às vezes essas coisas levam tempo. Heitor te valoriza, Alice. Ele realmente valoriza. Ele só é... complicado." Gustavo estava tentando encontrar desculpas para ele, assim como eu fiz por tanto tempo.
Heitor te valoriza. A frase era uma pílula amarga. Lembrei-me de suas promessas, de suas garantias sussurradas durante nossos encontros secretos ao longo dos anos. "Só mais um pouco, Alice. Então poderemos ser abertos sobre nós. Então tudo vai mudar." Palavras vazias. Todas elas.
E agora, aqui estava eu, com quase 30 anos, sem nada para mostrar por meus anos de devoção, a não ser um coração partido, uma carreira comprometida e uma dor constante na lombar. A voz da minha mãe da manhã anterior ecoou na minha cabeça: "Um bom arquiteto, uma família..." A ideia, antes um anátema, agora parecia um bálsamo calmante.
Gustavo suspirou, um som pesado que parecia carregar o peso de sua própria impotência dentro desta máquina corporativa. Ele conhecia os jogos de Heitor, mas era impotente para detê-los. Ele pegou uma caneta, sua mão tremendo levemente enquanto assinava o formulário.
"Escuta, Alice," ele disse, sua voz baixando para um sussurro, "vou processar isso imediatamente. Mas tente manter a discrição. Heitor... ele não vai gostar disso. Apenas cumpra suas duas semanas em silêncio. Evite-o se puder."
Uma leveza estranha e vertiginosa me invadiu. Estava feito. As correntes foram quebradas. Pela primeira vez em anos, senti um sopro de liberdade pura e absoluta.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Heitor. "Alice, você está bem? Parecia um pouco estranha mais cedo. Talvez devêssemos remarcar o jantar para hoje à noite? Só nós dois."
Um vislumbre de sua manipulação usual. Ele provavelmente pensou que eu ainda estava magoada com a promoção e estava estendendo a mão para me enrolar novamente. Mas o feitiço estava quebrado. Eu via através de sua atuação com uma clareza arrepiante.
Eu digitei de volta: "Agradeço a oferta, Heitor, mas estou bem. E não, obrigada. Tenho outros planos." As palavras pareciam poderosas, uma fronteira definitiva traçada na areia.
Mais tarde naquela tarde, enquanto eu estava empacotando alguns itens pessoais da minha mesa, Kátia se aproximou, um sorriso triunfante brincando em seus lábios. "Adivinha, Alice? Heitor acabou de me dizer que vai dar um jantar de comemoração pela minha promoção hoje à noite. Você deveria vir! Vai ser divertido." Seus olhos brilhavam com alegria maliciosa. Ela queria torcer a faca, exibir sua vitória.
"Ah, acho que não, Kátia," eu disse, minha voz calma, de costas para ela enquanto eu organizava arquivos antigos. "Eu tenho planos."
"Besteira!" A voz de Heitor trovejou atrás de mim. Ele devia estar ouvindo. "É uma comemoração da equipe, Alice. Você faz parte da equipe. Você tem que estar lá." Seu tom não deixava espaço para discussão. Era uma ordem, não um convite.
Um gosto amargo encheu minha boca. Ele não estava tentando me incluir; ele estava afirmando seu controle, garantindo que eu murchasse sob o triunfo de Kátia. A ironia de tudo isso. Ele nunca celebrou minhas conquistas, nunca se lembrou do meu aniversário sem um lembrete. Lembrei-me do meu aniversário de 27 anos, dois anos atrás. Eu tinha dado uma dica sutil, esperando por algo, qualquer coisa. Ele estava muito ocupado em uma viagem de negócios "crítica" com o pai de Kátia. Ele enviou uma mensagem de texto seca no dia seguinte: "Feliz aniversário atrasado. Espero que tenha tido um bom dia."
Agora, porque Kátia exigia, ele estava me forçando a suportar sua celebração. Meus sentimentos eram, como sempre, irrelevantes. Assim como ele me negou o direito de lamentar a promoção, ele estava me negando o direito a uma saída silenciosa e digna. Ele ainda estava tentando ditar meu estado emocional, controlar minhas reações.
Olhei para Gustavo, que observava a troca com uma expressão de dor. Ele balançou a cabeça sutilmente, um apelo silencioso para que eu evitasse mais conflitos. Expirei lentamente. Este era meu último ato de conformidade.
"Tudo bem," eu disse, minha voz mal audível. "Eu estarei lá."
Eu trataria isso como uma despedida. Um adeus final e amargo à empresa, a eles e à garota tola que eu costumava ser.
O jantar foi um borrão de sorrisos forçados e taças tilintando. Heitor e Kátia eram o centro das atenções, rindo, brindando, suas cabeças próximas. Pareciam o casal de poder corporativo perfeito. E eu fiquei na periferia, observando, uma estranha sensação de calma se instalando sobre mim. Eu finalmente vi a verdade. Este era o mundo dele. Este era o tipo de mulher dele. Ambiciosa, implacável e totalmente desprovida de empatia genuína. Eu não pertencia aqui. Eu nunca pertenci.
Alguns colegas mais jovens, alheios às correntes subterrâneas, se inclinaram. "Uau, Heitor e Kátia realmente são uma dupla de poder, não são?" um deles sussurrou, os olhos brilhando. "Eles ficam tão bem juntos."
Senti uma estranha sensação de distanciamento. As palavras não me feriram. Elas simplesmente se registraram como um fato. "Ficam mesmo," concordei, surpreendendo-me com a facilidade da minha voz. "Eles realmente ficam."
Minha concordância casual os fez parar, um lampejo de confusão cruzando seus rostos. Então Kátia, corada de vinho e triunfo, encontrou meu olhar. Seu sorriso se alargou, um brilho predatório em seus olhos. "Então, Alice," ela chilreou, sua voz um pouco alta demais, "alguma novidade interessante na sua vida amorosa? Ou você ainda está esperando um príncipe encantado?"