Eu sempre odiei festas, principalmente as da alta sociedade, mas minha melhor amiga me forçou a ir, dizendo que eu precisava "ver gente".
No meio do tédio de um evento de ricos entediados, meus olhos encontraram os dele: Lucas, um homem misterioso e claramente sem dinheiro, mas com uma beleza que me hipnotizou.
Decidida a me divertir, o levei para morar comigo em um apartamento que, tecnicamente, era meu, dando início ao que eu acreditava ser o meu controle perfeito.
No auge da minha "normalidade" e do meu joguinho, recebi a pior notícia: eu não era filha do meu pai, fui deserdada e perdi tudo - meu nome, meu dinheiro, minha casa.
Eu desabei, sentindo-me a maior tola do mundo por ter acreditado em uma vida que não existia, e por ter me apegado a um homem que eu pensava poder controlar.
Então, Lucas, o "programador pobre", revela que comprou o apartamento e, em um piscar de olhos, inverte os papéis, tornando-se meu senhorio e ditando novas "regras de aluguel".
Humilhada publicamente e sentindo-me mais perdida do que nunca, eu o acusei de ser um "gigolô de luxo", baseada em um extrato bancário ilícito, e, em um acesso de raiva, decido fugir.
Mas a rua se torna um pesadelo quando Ricardo e seus capangas me atacam.
No momento de maior desespero, Lucas surge como um raio, despachando os agressores com uma violência chocante e revelando sua verdadeira identidade: Lucas Monteiro Valente, herdeiro do Grupo Valente, o império tecnológico do Brasil.
De repente, entendi tudo: sua busca por uma vida normal, sua aversão ao dinheiro, e como eu, uma herdeira "desprezível", fui a única que o enxergou de verdade.
Eu estava quebrada, mas ele, o poderoso chefão disfarçado, foi meu porto seguro.
Será que essa nova verdade, e o amor que floresceu entre nós, seria suficiente para curar as feridas de um passado cheio de mentiras e recomeçar do zero?
Eu odeio festas. Especialmente festas de gente rica e metida a besta. Mas minha melhor amiga, a Bia, insistiu que eu viesse, dizendo que eu precisava "ver gente" e parar de me esconder no meu apartamento minúsculo. O que ela não sabe é que eu amo meu apartamento minúsculo justamente por ser um esconderijo, um refúgio da minha vida real, a vida de Helena Sampaio, herdeira de um império que eu não pedi e que, na maioria das vezes, desprezo.
Aqui, na universidade, eu sou apenas a Helena. Uma garota normal, com roupas de segunda mão e que conta moedas para o almoço. E eu amo essa normalidade.
"Helena, você está me ouvindo?"
A voz irritante de Ricardo me tira dos meus pensamentos. Ele é o típico riquinho da faculdade, carro do ano, roupas de marca e um cérebro do tamanho de uma ervilha. Ele me persegue há meses.
"Não, Ricardo. E, sinceramente, não faço questão."
Ele sorri, um sorriso que ele deve ter treinado no espelho, achando que é charmoso.
"Sempre tão arisca. Sabe, Helena, eu poderia mudar sua vida. Esse seu vestido parece... cansado. Eu poderia te comprar um novo. Vários, na verdade."
Eu olho para o meu vestido florido, que comprei por vinte reais num brechó. Ele está longe de ser novo, mas eu gosto dele.
"E por que eu iria querer isso?"
"Toda mulher quer", ele diz, como se fosse a verdade universal. "Você se faz de difícil, mas eu sei que no fundo você adoraria andar no meu carro, jantar nos lugares que eu frequento."
Eu dou uma risada curta, sem humor.
"Ricardo, a única coisa que eu adoraria no momento é que você fosse para bem longe de mim. Sua companhia é mais cansativa que o meu vestido."
Viro as costas para ele, deixando-o com sua cara de idiota, e vou em direção ao bar improvisado no canto do salão. Preciso de uma bebida. Enquanto espero, meus olhos passeiam pelo lugar, e é aí que eu o vejo.
Ele está encostado numa parede, longe da multidão, como se também não pertencesse àquele lugar. Alto, com ombros largos que se destacam mesmo sob uma camisa simples e escura. O cabelo preto está meio bagunçado, e a expressão dele é de tédio puro. Ele segura um copo de plástico, e o jeito que seus dedos longos o envolvem me causa um arrepio estranho.
Mas o que me chama a atenção é o contraste. Ele é, de longe, o homem mais bonito da festa, mas suas roupas gritam "não tenho dinheiro". A calça jeans é gasta, os tênis estão visivelmente velhos. Ele parece um deus grego que foi assaltado e deixado apenas com a roupa do corpo. Uma combinação fascinante de beleza e pobreza. E, para completar, ele exala uma arrogância que não combina em nada com sua aparência "humilde".
Eu fico hipnotizada.
Esqueço o Ricardo, a festa, a bebida. Meu novo projeto de vida está a dez metros de distância. Decido que preciso dele. Sem pensar duas vezes, pego meu copo e caminho na direção dele, com a confiança que o dinheiro me deu, mas que eu aprendi a usar de outras formas.
"Você parece tão entediado quanto eu", digo, parando na sua frente.
Ele levanta os olhos, e por um segundo fico sem ar. São de um azul profundo, quase cinza, e me analisam de cima a baixo com uma lentidão calculada. Um sorrisinho de canto aparece em seus lábios.
"E você parece o tipo de garota que causa problemas."
A voz dele é grave, rouca. Gosto disso.
"Talvez eu seja. E você? Qual o seu tipo?"
"O tipo que fica longe de problemas."
"Que pena", eu digo, me aproximando um pouco mais. "Porque eu acho que nós dois juntos seríamos um problema delicioso."
Ele ri, uma risada baixa que vibra no peito.
"Você é bem direta, não é?"
"A vida é curta demais para rodeios. Meu nome é Helena. E o seu?"
Ele hesita por um momento, como se estivesse decidindo se vale a pena me dar essa informação.
"Lucas."
"Lucas", eu repito, testando o nome na minha língua. "Então, Lucas, o que um cara como você faz num lugar como este?"
"Um amigo me arrastou pra cá. Arrependimento profundo."
"Eu também. Mas agora acho que a noite pode melhorar."
Eu o encaro diretamente, sem desviar o olhar. Ele sustenta o meu, e a tensão entre nós é quase palpável. Eu observo os detalhes dele. A camisa, apesar de simples, é de um tecido bom, mas tem um pequeno remendo quase invisível perto da gola. O relógio no pulso dele é um modelo barato, digital, daqueles que se compra em qualquer camelô. Ele é claramente um cara que se esforça para manter as aparências, um vaidoso que não tem como bancar a própria vaidade. Perfeito.
Ele é o meu tipo de desafio. Um homem lindo, orgulhoso e, aparentemente, quebrado. Vou me divertir muito "consertando" ele. Ou melhor, fazendo ele se acostumar com as coisas boas da vida. As minhas coisas.
"Então, o que você sugere para melhorar a noite?", ele pergunta, o tom de voz com um toque de desafio.
Um plano começa a se formar na minha cabeça. Um plano ousado, divertido e que me coloca totalmente no controle.
"Eu sugiro que a gente saia daqui. Agora."
Ele ergue uma sobrancelha.
"E pra onde a gente iria?"
"Para um lugar mais interessante", eu digo, com um sorriso que promete tudo e não entrega nada. "Confia em mim."
Ele me olha por mais um instante, uma batalha silenciosa acontecendo naqueles olhos azuis. Por fim, ele dá de ombros.
"Certo. Por que não? Pior do que está não fica."
Eu sorrio, vitoriosa. O primeiro passo foi dado. Lucas ainda não sabe, mas ele acabou de entrar no meu jogo. E eu sempre venço.
Dois dias depois, meu plano entra em ação. Descobri, através de uma "coincidência" muito bem planejada com a ajuda da Bia, que Lucas estava procurando um lugar para morar. O apartamento onde ele estava teve um problema de encanamento e ele precisava sair com urgência. A sorte, ou melhor, a minha habilidade de manipulação, sorriu para mim.
Eu sou dona de um prédio pequeno e charmoso num bairro bom, um dos meus primeiros investimentos "secretos". Um dos apartamentos ficou vago na semana passada. É perfeito. Pequeno o suficiente para não levantar suspeitas, mas confortável o bastante para ser uma bela atualização na vida dele.
Eu ligo para ele, usando um número diferente, fingindo ser a corretora de imóveis.
"Alô, Lucas? Meu nome é Sônia. Uma amiga em comum, a Bia, me disse que você está procurando um apartamento. Tenho uma ótima oportunidade, acabou de vagar."
Ele soa desconfiado do outro lado da linha.
"Apartamento? Onde?"
"No bairro Vila Madalena. Um lugar ótimo, aluguel super em conta. O proprietário está mais interessado em ter um bom inquilino do que em ganhar dinheiro."
Isso era tecnicamente verdade. O proprietário, eu, estava muito interessada em um inquilino específico.
"Parece bom demais pra ser verdade", ele diz.
"Venha ver. Sem compromisso. Hoje à tarde, às três?"
Ele concorda, ainda hesitante. Às três em ponto, eu estou no apartamento, esperando. Não como Helena Sampaio, a dona do prédio, mas como Helena, a colega de faculdade que "por acaso" está ajudando a "corretora" a mostrar o imóvel.
A campainha toca. Eu respiro fundo e abro a porta com meu melhor sorriso de "que coincidência!".
"Lucas! O que você está fazendo aqui?"
Ele me olha, surpreso, e depois uma ponta de desconfiança cruza seu rosto.
"Helena? Eu vim ver um apartamento. A corretora, Sônia..."
"Ah, a Sônia! Ela é uma... conhecida da minha família. Pedi pra ela me avisar quando algo bom aparecesse. Eu também estou procurando um lugar", minto descaradamente. "Parece que somos concorrentes."
Ele relaxa um pouco. A mentira parece ter colado.
"Que mundo pequeno."
"Pequeno mesmo. Entra aí."
Ele entra e olha ao redor. O apartamento é um estúdio, mas bem dividido, com uma varanda com vista para as árvores. Está mobiliado com peças simples, mas de bom gosto.
"É... legal", ele admite, parecendo impressionado.
"Legal? É perfeito! E o aluguel é uma barganha. Sabe, eu tive uma ideia. Já que nós dois queremos, por que não dividimos? Reduziria ainda mais os custos."
Ele me encara, os olhos azuis se estreitando.
"Dividir o apartamento? Com você?"
"Por que não? Somos adultos. E eu não mordo. A menos que você peça."
Um fantasma de sorriso brinca nos lábios dele.
"Você não perde uma oportunidade, não é?"
"Nunca. Então, o que me diz? Topa ser meu colega de quarto?"
Ele pensa por um longo momento. Eu vejo o cálculo em seu rosto. A oportunidade de morar num lugar bom por um preço baixo era tentadora demais para um cara como ele.
"Certo. Mas com regras. Nada de festa, nada de bagunça."
"Combinado", eu digo, estendendo a mão. "Temos um acordo, colega de quarto."
Ele aperta minha mão. A pele dele é quente e firme. A corrente elétrica que passa entre nós é inegável.
Uma semana depois, estamos morando juntos. A "corretora Sônia" convenientemente desapareceu, e eu cuidei de toda a "burocracia". Na prática, eu só transferi dinheiro de uma conta minha para outra.
Na primeira noite como "colegas de quarto", eu decido testar os limites. Ele está na pequena cozinha, preparando algo para comer. Eu chego por trás, vestindo apenas uma camiseta grande e velha que mal cobre minhas coxas.
"O que você está fazendo?", pergunto, minha voz um sussurro perto de seu ouvido.
Ele se enrijece.
"Jantar."
"Sabe, Lucas, como seu colega de quarto e, tecnicamente, quem te colocou aqui, eu acho que tenho direito a algumas regalias."
Ele se vira lentamente para me encarar. Seus olhos descem pelo meu corpo, demorando-se nas minhas pernas expostas, e depois sobem de volta para o meu rosto.
"Que tipo de regalias?"
"Regras de vestimenta", eu digo, com a maior naturalidade do mundo. "Eu acho que você ficaria muito bem de bermuda. E sem camisa. Principalmente sem camisa. Faz calor neste apartamento, você não acha?"
Ele me olha, uma mistura de incredulidade e diversão no rosto.
"Você está me dizendo como eu devo me vestir na minha própria casa?"
"Nossa casa", eu corrijo. "E sim, estou. É uma sugestão para o bem-estar geral dos moradores. Ou seja, o meu."
Ele ri, balançando a cabeça.
"Você é inacreditável."
"Eu sei. Então, vamos ver esses músculos ou vou ter que continuar imaginando?"
Para minha surpresa, ele não discute. Ele lentamente puxa a camisa para fora da calça e a tira por cima da cabeça. E meu queixo quase cai. Eu esperava que ele fosse em forma, mas não esperava aquilo. O peito e o abdômen dele são perfeitamente definidos, cada músculo no lugar certo, a pele bronzeada como se ele passasse os dias na praia e não trancado em algum trabalho qualquer.
Eu engulo em seco, meus olhos percorrendo cada centímetro daquele torso.
"É... Acho que a regra é boa", consigo dizer, minha voz um pouco trêmula.
Ele dá um passo na minha direção, diminuindo o espaço entre nós.
"Satisfeita?"
"Ainda não", eu sussurro, levantando a mão e tocando levemente o peito dele com a ponta dos dedos. A pele dele é quente, firme. Ele não se move, apenas me observa, a respiração um pouco mais pesada. "Acho que preciso... inspecionar a qualidade."
Minha mão desliza pelo abdômen dele, sentindo os músculos se contraírem sob o meu toque. Eu estou jogando com fogo, e sei disso. A atração é uma força quase violenta entre nós.
"Cuidado, Helena", ele diz, a voz baixa e perigosa. "Você pode começar algo que não sabe como terminar."
Eu sorrio, olhando nos olhos dele.
"Quem disse que eu não sei?"
Eu me inclino para a frente, mas antes que eu possa fazer qualquer coisa, a mão dele segura meu pulso. O aperto é firme, mas não machuca.
"Regra número dois", ele diz, seus olhos azuis fixos nos meus. "Sem toques não autorizados."
Ele solta meu pulso lentamente.
"E regra número três: se você vai me provocar, esteja preparada para as consequências."
Ele se vira de volta para o fogão, me deixando ali, parada, com o coração batendo descontroladamente. Ele não era tão fácil de manipular quanto eu pensei. Ele tinha seus próprios limites, seu próprio jogo.
Eu sorrio para mim mesma. Isso era ainda melhor. O desafio era maior, e a recompensa, eu tinha certeza, seria muito mais doce. Ele acha que pode ditar as regras? Mal sabe ele que eu sou a dona do tabuleiro, das peças e do jogo inteiro. E eu estava apenas começando a me divertir.