A escuridão se tornou uma rotina para o Dr. Elias, um arqueólogo renomado, forçado a um jogo de sobrevivência brutal onde apenas os mais impiedosos resistiam à carnificina do labirinto.
Mas a falsa liberdade chegou com um novo pesadelo: um templo flutuante e a aterrorizante descoberta de que ele e os outros sobreviventes haviam sido numerados, meros cobaias para uma entidade sedenta.
Testemunhando o horror de companheiros sendo absorvidos por uma criatura grotesca por não terem a "oferenda" certa, Elias sentiu o veneno da impotência queimar em suas veias, um rato em um experimento sádico.
Ele se perguntou: como pôde um homem de ciência, tão versado nos segredos do passado, ser reduzido a isso? Que monstro sádico estava por trás desse jogo doentio, transformando a humanidade em farrapos?
Mas a canção de ninar sinistra, que ecoava como um lembrete constante de seu tormento, também se tornou uma chave. Elias, o arqueólogo, se recusou a ser apenas uma vítima; ele desvendará os segredos mais sombrios desse inferno, não apenas para sobreviver, mas para derrubar o mestre do jogo.
A escuridão se dissipou com a mesma violência com que havia chegado, não como o amanhecer, mas como uma lâmpada defeituosa que pisca e finalmente se acende.
Dr. Elias sentiu o chão duro e frio sob suas costas antes mesmo de abrir os olhos. O cheiro era diferente, não mais o odor de terra úmida e sangue coagulado do labirinto, mas um aroma limpo, quase estéril, misturado com algo antigo, como poeira de um livro que não é aberto há séculos.
Ele se sentou devagar, o corpo inteiro protestando. Cada músculo doía.
O lugar era um salão amplo e vazio, feito de uma pedra polida que brilhava com uma luz interna fraca. Não havia janelas, nem portas visíveis. Apenas o chão, as paredes e um teto que se perdia na penumbra.
Ele estava sozinho.
Por um instante, um alívio percorreu seu corpo, mas foi logo substituído por uma onda de náusea. As imagens do primeiro desafio voltaram sem pedir permissão.
O labirinto.
O grito de um homem quando foi empurrado contra uma armadilha de espinhos por seu próprio companheiro. O som úmido de uma pedra esmagando o crânio de uma mulher que implorava por ajuda. Traição. Violência. A regra era simples: sobreviva.
Elias fechou os olhos com força, tentando apagar as cenas de sua mente. Ele sobreviveu, sim, mas o custo foi ver o pior da humanidade. Ele se lembrou de ter usado seu conhecimento de padrões arquitetônicos antigos para encontrar a saída, evitando o confronto direto sempre que possível. Mesmo assim, a carnificina o encontrou. Ele ainda sentia o calor do sangue de outra pessoa em seu rosto.
"Belo show, Doutor."
A voz era uma lembrança, uma das poucas pessoas com quem ele trocou mais do que um olhar assustado. Um guia local, Miguel. Ele também sobreviveu? E a jovem estudante, Clara? Ele a viu por último correndo em uma direção diferente na bifurcação final.
Seus pensamentos foram interrompidos por um som.
Primeiro, era baixo, quase imperceptível. Uma melodia infantil, uma canção de ninar cantada por uma voz desafinada e distante. Era uma melodia simples, mas a forma como ecoava no salão vazio a tornava sinistra.
"A lua no céu, espelho d'água, boneca de pano, costura a chaga."
A voz era fria, sem emoção.
Logo depois da cantiga, um som mecânico e metálico soou por todo o ambiente, como um alto-falante antigo sendo ligado.
"Parabéns aos sobreviventes da primeira rodada."
A voz era neutra, desprovida de qualquer inflexão humana. Era a mesma voz que os recebeu no labirinto.
"A segunda rodada começará em breve."
Elias se levantou, cambaleando. Seu olhar varreu o salão vazio.
"Quem é você? O que é este lugar?" ele gritou para o vazio.
Apenas o eco de sua própria voz respondeu.
"As regras da segunda rodada serão explicadas quando todos os participantes chegarem."
A voz mecânica continuou, ignorando sua pergunta.
"A participação não é opcional. A recusa em participar resultará em eliminação imediata."
Eliminação. Elias sabia o que essa palavra significava naquele jogo. Significava morte. Rápida e sem cerimônia.
Ele cerrou os punhos. A impotência era um veneno queimando em suas veias. Ele, um renomado arqueólogo que dedicou a vida a decifrar os segredos do passado, agora era um rato em um experimento sádico.
De repente, sentiu uma picada no pulso esquerdo. Ele olhou para baixo e viu um número brilhando em sua pele com uma luz azulada: '007' . No labirinto, eles não tinham números. Isso era novo.
Uma identidade. Um número de prisioneiro.
A raiva borbulhou dentro dele, quente e amarga. Quem quer que estivesse por trás disso, quem quer que fosse o mestre desse jogo doentio, estava se divertindo. Estava organizando o caos, numerando suas cobaias.
"Filho da puta," Elias sussurrou para o teto escuro. "Seja lá quem você for, você vai se arrepender disso."
Ele sabia que era uma ameaça vazia, um grito no vácuo, mas precisava dizê-la. Precisava se agarrar àquela centelha de desafio para não ser consumido pelo desespero que o rondava. A canção de ninar sinistra voltou a ecoar, mais baixa agora, um lembrete constante de que o pesadelo estava longe de terminar.
O chão sob os pés de Elias tremeu suavemente. A luz no salão intensificou-se por um segundo e, quando voltou ao normal, ele não estava mais no mesmo lugar.
A transição foi instantânea e desorientadora.
Ele agora se encontrava em um espaço aberto, sob um céu noturno que parecia artificialmente perto. Estava em uma espécie de templo ou pagode, uma estrutura flutuante de vários andares feita de madeira escura e pedra cinza. Abaixo dele, a uma distância vertiginosa, havia um lago vasto e escuro, cuja superfície era tão lisa e imóvel quanto um espelho de obsidiana. O ar era frio e úmido.
A arquitetura era uma mistura bizarra de estilos, com entalhes astecas decorando vigas que pareciam ter saído de um templo japonês. Era lindo e, ao mesmo tempo, profundamente perturbador.
Antes que ele pudesse processar completamente o novo ambiente, outros começaram a chegar.
Não foi uma chegada ordenada. As pessoas simplesmente apareciam no ar, a um ou dois metros do chão, e caíam de forma desajeitada. Um homem de terno, que parecia um executivo, materializou-se no meio de um grito e aterrissou de cara no chão de madeira. Uma mulher com roupas de ginástica caiu de bunda, com os olhos arregalados de pânico. Outro, um jovem com o cabelo pintado de verde, apareceu de cabeça para baixo e caiu de ombros, gemendo de dor.
Eram cerca de vinte pessoas, todas em vários estados de choque e confusão.
Elias observou-os atentamente e notou uma diferença crucial em relação ao labirinto. Lá, a maioria das pessoas parecia drogada, agindo por puro instinto de sobrevivência, com os olhos vidrados. Aqui, não. O pânico nos olhos deles era lúcido. A confusão era real. Eles estavam conscientes. Eles se lembravam.
Isso tornava tudo muito mais perigoso. Pessoas conscientes podiam planejar, podiam formar alianças, mas também podiam trair com muito mais eficiência.
"Elias!"
Uma voz familiar o fez virar.
Clara, a estudante de história, correu em sua direção. Seu rosto estava pálido e havia um corte em sua testa, mas seus olhos, apesar do medo, brilhavam com a mesma inteligência perspicaz que ele notara antes.
"Você está bem?" ela perguntou, a voz trêmula.
"Estou inteiro," ele respondeu, sentindo um alívio genuíno por vê-la. "E você?"
"Sobrevivi. Por pouco."
Logo atrás dela, mancando um pouco, vinha Miguel. O guia local tinha um rasgo na manga da camisa e um olhar cansado, mas seu aperto de mão foi firme quando cumprimentou Elias.
"Doutor. Que bom ver uma cara conhecida nesse inferno."
"Digo o mesmo, Miguel," Elias respondeu. "Juntos de novo, pelo visto."
O pequeno grupo de três se formou instintivamente, um oásis de familiaridade em meio ao caos de estranhos.
"Vocês notaram?" Clara disse em voz baixa, apontando com o queixo para o pulso. O número '013' brilhava em sua pele. Miguel mostrou o seu: '011' .
"Eles nos numeraram," disse Elias, mostrando seu '007' . "Acho que o jogo acabou de ficar mais organizado. E isso não é um bom sinal."
"O que você acha que significa? A ordem?" Miguel perguntou, franzindo a testa.
"Não sei. Ordem de chegada? Nível de periculosidade? Ou talvez seja completamente aleatório, só para nos deixar paranoicos," Elias ponderou, seu cérebro de arqueólogo já trabalhando, buscando padrões.
Ele se afastou um pouco do grupo para ter uma visão melhor do templo flutuante. A estrutura tinha vários andares, conectados por escadas externas de madeira. O andar em que estavam parecia ser um pátio principal. Acima e abaixo, ele podia ver outros níveis. O design era aberto, com grandes varandas e janelas sem vidro, expondo-os ao céu noturno e ao lago escuro abaixo.
Era um lugar projetado para observação, ou talvez, para ser um palco.
E então, o som retornou.
Distante, carregado pela brisa fria que subia do lago, a mesma canção de ninar.
"A lua no céu, espelho d'água..."
A voz era ainda mais clara agora, e parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Era uma melodia que prometia não descanso, mas um terror iminente.
Vários dos outros "jogadores" também ouviram. O murmúrio de pânico aumentou.
Elias, Clara e Miguel se entreolharam. Não precisavam dizer nada. O primeiro desafio havia sido um teste de sobrevivência individual e brutal. Este, eles sentiam, seria algo diferente. Algo que exigiria mais do que apenas correr e se esconder.