O cheiro de café requentado e perfume barato nunca me incomodou, mas naquela manhã, o silêncio era tão pesado que sufocava.
Minhas quatro colegas de quarto – Ana, Bruna, Carla e Diana, as garotas da moda que viviam de risadas e me ridicularizavam – jaziam imóveis na sala, pálidas, com lábios azulados.
O pânico me dominou, e me vi discando o número da emergência, sentindo o frio subir pela espinha enquanto gaguejava as palavras.
Fui a única de pé, sem um arranhão, e a polícia, liderada pelo incrédulo Inspetor Ricardo, imediatamente me transformou na principal suspeita.
Minhas memórias fragmentadas da noite anterior, o bilhete em minha caligrafia que eu não lembro de ter escrito, a gravação de Carla pedindo minha ajuda... tudo se virava contra mim.
Mas a coisa mais estranha de tudo foi quando Ricardo me disse: "Ana já estava morta quando vocês saíram para o jantar de formatura."
Como poderia ser? Eu a vi, eu falei com ela! Minha realidade começou a desmoronar.
Ainda mais perturbador foi uma mensagem enigmática em meu celular: "Eles não podiam mais te machucar. Agora estamos seguras."
A psicóloga Dra. Helena então revelou a assustadora verdade: eu tinha Transtorno Dissociativo de Identidade, e a "outra Sofia" – minha protetora – havia silenciado as vozes que me atormentavam por anos.
A câmera escondida na sala confirmou: fui eu, ou uma parte de mim, quem as envenenou, observando friamente enquanto morriam.
Agora, confinada em uma instituição psiquiátrica, vivo com um medo constante: se a "outra Sofia" eliminou todas as fontes de dor externa, o que acontecerá quando minha própria angústia interna se tornar insuportável e ela precisar me silenciar também?
O cheiro de café requentado e perfume barato pairava no ar do apartamento, uma mistura que definia as manhãs na república. Mas naquela manhã, algo estava diferente. Um silêncio pesado, denso, que nenhuma das minhas quatro colegas de quarto jamais seria capaz de produzir. Elas eram estudantes de moda, viviam num turbilhão de tecidos, festas e risadas altas, risadas que quase sempre eram sobre mim. Eu, Sofia, a estudante de artes, a garota "simples" com paixões "fora de moda".
Levantei da cama, meu corpo ainda pesado da noite anterior. A formatura delas. Fui obrigada a ir a um jantar de comemoração. Lembro de pratos caros, conversas sobre marcas que eu não conhecia e o olhar de desprezo de Ana, a líder do grupo, sempre que eu tentava dizer algo.
Caminhei para a sala. A cena que encontrei paralisou meus pulmões.
Ana estava caída no sofá, o rosto pálido, os lábios com uma coloração azulada estranha. Ao lado dela, Bruna, com a cabeça pendida para trás, os olhos abertos e fixos no teto. No tapete, Carla e Diana estavam deitadas em posições estranhas, como bonecas de pano jogadas. Quatro corpos. Imóveis.
Um grito ficou preso na minha garganta. Meu primeiro instinto foi correr, fugir daquele pesadelo. Mas minhas pernas não obedeciam. O pânico tomou conta de mim, um frio que subia pela espinha e gelava cada parte do meu corpo. Peguei meu celular, os dedos tremendo tanto que mal consegui discar o número da emergência.
"Polícia", a voz do outro lado da linha disse, calma e profissional.
"Minhas colegas... elas... elas não estão respirando", gaguejei, a voz um fiapo. "Nosso apartamento... Rua Augusta... por favor, rápido."
Desliguei e o silêncio voltou, mais aterrorizante do que antes. Olhei para elas de novo. Ontem à noite, elas estavam rindo. Rindo de mim. Diana tinha derramado vinho "acidentalmente" no meu vestido, o único vestido decente que eu tinha. Todas riram. Ana disse que era uma melhora.
Agora, o silêncio delas era uma acusação.
Não demorou muito para o som das sirenes cortar o ar da manhã paulistana. Logo, dois policiais uniformizados estavam na minha porta. Eles entraram com cautela, as mãos perto das armas, os rostos sérios.
"Senhorita? Foi você quem ligou?"
Apenas assenti, incapaz de formar palavras.
Um deles se aproximou dos corpos, checando os pulsos com uma expressão que não revelava nada. O outro, mais velho, veio até mim. Seu nome era Inspetor Ricardo. Ele tinha um olhar cansado, mas atento.
"Fique calma. Apenas nos diga o que aconteceu."
O que aconteceu? Eu não sabia. Lembro do jantar. Lembro de voltar para o apartamento. Lembro da cabeça doendo, da humilhação queimando no meu peito. Eu tomei um remédio para dor de cabeça e fui para o meu quarto. Apaguei.
"Nós jantamos... para comemorar a formatura delas", comecei, a voz trêmula. "Voltamos, estava tudo normal. Eu... eu fui dormir."
O olhar dele era cético. Eu entendia. Quatro garotas mortas, e uma de pé, sem um arranhão. Era impossível.
"Normal?", ele repetiu a palavra, como se ela tivesse um gosto ruim. "Elas pareciam bem?"
Pensei no jantar. Ana fazendo piadas sobre meus desenhos, chamando-os de "rabiscos de criança deprimida". Bruna concordando, rindo alto. Diana me ignorando completamente quando tentei falar com ela. E Carla... Carla estava quieta, como sempre, mas seus olhos mostravam uma cumplicidade silenciosa. Elas estavam bem. Felizes, até. Felizes em me fazer sentir pequena.
"Sim", menti. "Estava tudo normal."
Por que eu estava viva? Essa pergunta ecoava na minha cabeça, mais alta que as sirenes. Eu comi com elas? Eu bebi com elas? As memórias da noite eram fragmentadas, confusas. Eu me sentia culpada por estar de pé, por respirar o mesmo ar que agora faltava a elas. Era um sentimento doentio, uma culpa que se misturava com uma estranha sensação de alívio.
De repente, uma imagem invadiu minha mente. Um sonho. Ou talvez não fosse um sonho. Eu estava no meu quarto, no escuro, e ouvia vozes. Sussurros. E depois um grito abafado, chamando meu nome.
"Sofia... ajuda..."
Sacudi a cabeça, tentando afastar a imagem. Era só um pesadelo, o estresse da noite. Tinha que ser.
"Senhorita, a que horas você foi dormir?", o Inspetor Ricardo perguntou, sua voz me puxando de volta para a realidade aterrorizante da sala.
"Eu... eu não sei exatamente", respondi, a confusão crescendo. "Acho que era por volta da meia-noite. Eu estava com dor de cabeça."
Mas quanto mais eu tentava lembrar, mais a memória se tornava um borrão. Havia um buraco. Um espaço em branco entre tomar o comprimido e acordar com o silêncio mortal. O que aconteceu naquele intervalo? O que eu fiz? A dúvida começou a se instalar, uma semente de horror crescendo dentro de mim. Eu não tinha respostas. E a única pessoa que poderia tê-las era eu mesma.
A equipe da perícia chegou, transformando nosso apartamento num palco de investigação. Homens e mulheres de macacão branco se moviam com uma eficiência fria, fotografando, coletando amostras, medindo. Eu fui levada para a cozinha, sentada numa cadeira dura, com um policial de guarda na porta. O Inspetor Ricardo ficou comigo.
"A médica legista deu uma olhada preliminar", ele disse, a voz baixa e sem emoção. "Envenenamento. Todas as quatro. Um veneno rápido, pelo que parece."
Envenenamento. A palavra soou estranha, vinda de um filme, não da minha vida.
"Mas... como? O que comemos?", perguntei, a mente girando.
Ricardo me olhou fixamente.
"É isso que estamos tentando descobrir. O estranho, Sofia, é que você não tem nada. Nenhuma delas teve tempo de pedir ajuda, exceto talvez por um grito abafado. Mas você dormiu a noite inteira. Não ouviu nada, não sentiu nada. Como isso é possível?"
A pergunta dele não era uma pergunta. Era uma acusação.
"Eu já disse, eu tomei um remédio e apaguei", insisti, sentindo o desespero crescer.
Um dos peritos apareceu na porta da cozinha.
"Inspetor, a porta principal estava trancada por dentro. Duas chaves. As janelas também, todas fechadas. Ninguém entrou ou saiu."
O apartamento se tornou uma armadilha, uma caixa fechada. Ricardo agradeceu ao perito e se virou para mim novamente. O ar ficou mais pesado. Se ninguém entrou, a resposta estava ali dentro. E só havia eu.
"Uma das teorias", ele continuou, como se estivesse pensando alto, "é um pacto de suicídio. Às vezes acontece. Mas não bate. Não há cartas de despedida, nada. E pelo tipo de veneno, não parece algo que se escolhe para uma morte tranquila."
Suicídio. A ideia era absurda. Ana, Bruna, Carla e Diana amavam a vida, ou pelo menos, amavam a imagem que projetavam. Elas tinham planos, futuros brilhantes no mundo da moda. Elas não desistiriam de tudo.
"Elas não fariam isso", eu disse, com mais certeza do que sentia sobre qualquer outra coisa.
"Você tinha algum problema com elas, Sofia?", Ricardo perguntou, mudando de tática. "Qualquer briga, qualquer discussão recente?"
Minha mente voltou para as pequenas crueldades diárias. O jeito como elas "esqueciam" de me chamar para jantar fora. As piadas sobre minhas roupas, compradas em brechós. A forma como elas paravam de conversar e olhavam para mim quando eu entrava num cômodo. Não era uma briga. Era uma guerra fria, silenciosa, que eu sempre perdia.
"Não", respondi, a palavra seca na minha boca. "Nós nos dávamos bem."
Por dentro, a raiva que eu sempre engoli borbulhava. Raiva por ter que mentir, por ter que proteger a imagem delas mesmo depois de mortas. Raiva por elas terem me transformado em alguém que se desculpava por existir.
Nesse momento, outro policial entrou.
"Inspetor, checamos as câmeras do prédio. Ninguém entrou ou saiu do apartamento desde que elas chegaram com a senhorita Sofia ontem à noite. A câmera cobre o corredor inteiro. Impossível alguém passar sem ser visto."
Cada nova informação era um prego no meu caixão. O círculo estava se fechando, e eu estava no centro. O apartamento estava trancado. Ninguém entrou. O veneno estava na comida ou na bebida que elas consumiram depois de chegar. Eu era a única que não tinha sido envenenada.
O Inspetor Ricardo se inclinou para frente, seus olhos fixos nos meus, a falsa gentileza desaparecendo.
"Então, vamos voltar à minha primeira pergunta, Sofia. Mas desta vez, eu quero a verdade."
Ele fez uma pausa, deixando o peso das palavras assentar.
"Por que você é a única viva?"
A pergunta pairou no ar, carregada de suspeita. Eu não tinha uma resposta. O medo que eu sentia antes se transformou em terror puro. O terror de não saber. O terror de que, talvez, de alguma forma que eu não conseguia entender, eu fosse a resposta. Minhas mãos começaram a suar. O rosto do inspetor parecia se distorcer, sua voz ecoando na minha cabeça. Eu era a única sobrevivente. E isso, para ele, me tornava a única suspeita.