POV Selene Castiel
Transei ontem com o filho de um senador.
Hoje, a noiva dele tá me xingando nos comentários da rede social.
Em francês. Acho sexy.
Acordo às dez e quarenta com a notificação estourando no celular como um tapa da realidade. Ressaca. Boca seca. O batom vermelho ainda intacto - o que, sinceramente, diz muito sobre mim.
A manchete do dia: "Selene Castiel é flagrada deixando hotel com acompanhante misterioso. Herdeira ou devoradora?"
Devem achar que me ofendem com isso.
Dou um gole no espumante esquecido na cabeceira e rio. A câmera pegou meu lado bom. De novo.
Mas não demora muito até o jogo virar.
Às 14h, a noiva aparece.
Sim, a legítima. De salto, óculos escuros e ódio espumando entre os dentes. Me encontra saindo de uma cafeteria no centro, onde fui apenas buscar um croissant e fingir que tenho rotina. O segurança tenta intervir, mas ela já tá na minha frente.
- Sua vadia! - ela grita. Em francês. Com sotaque de Paris Fashion Week e o drama de uma novela mexicana.
Sorrio.
- Bonjour, madame. Ele não me contou que estava ocupado.
Ela me empurra. Os flashes estouram. Três fotógrafos surgem do nada. Eu tropeço, mas não caio. Rodo sobre os saltos e sorrio pra câmera.
- Eu não brigo por homem. Principalmente um que goza em dois minutos.
#SeleneCastiel sobe nos trending topics.
"Vergonha da elite", "tempestade de batom", "desastre natural mais sensual da Europa".
Quando chego em casa, o escândalo já tem versão editada e legendada em três idiomas.
Bianca me liga:
- Você conseguiu ser capa e rodapé ao mesmo tempo. Na verdade, já estão chamando você de "tempestade de batom". Teve editorial sobre você numa coluna do El País. Falaram que você é "o desastre natural mais sensual da Europa". - ela sorri. - Achei poético.
- Eu tenho talento.
- E falta de juízo. O conselho vai surtar. - ela suspira. - Selene... Um dia, um desses homens vai tentar te domesticar.
- E vai levar uma mordida. - dou de ombros. - Eu não nasci pra coleira.
Ela ri, divertida, mas com aquele fundo de quem me conhece melhor do que eu mesma.
- Sabe o que é pior? Eu acho que você acredita nisso de verdade.
- Porque é verdade. - ando até a varanda, olho em volta. A cidade aos meus pés, o mundo ao alcance dos meus saltos. - Eu não preciso de amor. Eu preciso de liberdade. Amor demais sufoca. Contrato demais, prende.
- Mas você é dona de uma empresa inteira.
- Exato. Por isso mesmo não tenho tempo pra um homem chorando porque eu não respondi uma mensagem em dez minutos.
***
No dia seguinte, a empresa finge normalidade. Mas os olhares são flechas. Os corredores, campos minados. Na sala da diretoria, uma reunião com acionistas começa gelada.
- A imagem da presidente afeta o valor das ações - um deles diz, ajeitando a gravata com dedos tensos.
- O que afeta o valor das ações é a incompetência. E nesse ponto, eu garanto: estou bem distante disso. - meu tom é afiado como meu salto de 12cm. - O lucro do último trimestre cresceu 17%. E sabem por quê? Porque escândalos vendem. Porque o mundo inteiro fala de mim. E onde quer que eu vá, a minha marca vai junto.
Silêncio. A tensão mastigável. Um deles tenta retrucar, mas só consegue tossir.
Saio da sala com a cabeça erguida. A mídia me odeia. A internet me deseja. A empresa me teme.
***
A noite caiu, e com ela, a minha paciência.
Precisei respirar. O silêncio do apartamento estava me engolindo, e o espumante na taça já não fazia mais efeito. Então vesti um blazer por cima do vestido preto justo, amarrei o cabelo num coque displicente e desci. Sem seguranças, sem roteiro. Só eu e minha sede de qualquer coisa que não fosse controle.
O bar era pequeno, escondido entre ruas ricas e corações podres. Luz baixa, jazz de fundo, e garçons que sabiam calar com elegância.
Sentei no balcão. Pedi um martíni seco, dois goles de distância da sobriedade. Vesti um blazer por cima do vestido colado, como quem brinca de respeitável. Mas nada em mim era domesticável.
Foi aí que vi ele. Sentado no canto do bar, como quem não devia estar ali, e ainda assim, dominava o ambiente inteiro. Alto. Ombros largos. Camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e veias marcadas. A barba por fazer desenhava o maxilar afiado, e o cabelo escuro caía de leve sobre a testa, num desalinho cuidadosamente natural. Parecia o tipo de homem que não tenta chamar atenção, mas chama mesmo assim, com o corpo, com o olhar, com o silêncio.
Os olhos dele... castanhos, fundos, atentos. Como se pudessem desarmar alguém só com a presença. Ele tinha aquele tipo de beleza bruta, que não vem da vaidade, mas da intensidade.
E o jeito como ele segurava o copo? Quase sensual. Quase perigoso. Era o tipo de homem que fazia a gente esquecer o nome e lembrar do toque. Não me reconheceu. Não tentou impressionar. Não sorriu por obrigação. E isso... foi o que mais me prendeu.
Arrogância ou timidez? A curiosidade me puxou como um imã.
- Sozinho? - perguntei, virando levemente na direção dele.
Ele me olhou. Olhos castanhos, intensos. Não ficou impressionado. E isso, honestamente, foi o primeiro sinal de perigo.
- Não mais, pelo visto. - respondeu, com uma calma irritante.
- Costuma responder com charme ou é só hoje?
- Costumo observar antes de escolher.
Arqueei a sobrancelha, interessada.
- E o que está vendo agora?
Ele virou o copo devagar, antes de falar:
- Uma mulher tentando parecer entediada... quando, na verdade, está só cansada de prever o final de tudo.
Ri.
- Que romântico.
- Que realista.
Ficamos em silêncio por segundos longos o suficiente pra parecerem íntimos. A música no fundo parecia lenta demais, ou talvez fosse só o jeito como ele me olhava.
- Nome? - perguntei.
- Caius. E você?
- Ainda estou decidindo.
Ele sorriu.
- Tudo bem. Gosto de mistérios.
- E eu, de perigos.
- Perigosa ou viciada neles?
- Os dois.
Tomamos mais um gole, os olhos se cruzando entre sorrisos disfarçados. Era aquele tipo de química que não precisava de explosão - só de um toque, uma fala, um desafio.
- Você parece diferente. - disse, me inclinando um pouco. - Não me reconheceu?
- Não. Deveria?
- Não. - sorri. - Isso te faz mais interessante.
Ele riu, sem forçar.
- E o que você faz, além de provocar desconhecidos em bares?
- Eu herdei um império. E administro escândalos como quem administra planilhas.
- E faz isso parecer... elegante.
- Porque é. - incline-me mais. - E você?
- Eu? Só um cara tentando não cair em tentação hoje.
Inclinei a cabeça. O jogo já estava ganho, mas o gosto da vitória vinha melhor devagar.
- Vamos para um hotel?
Ele hesitou, mas não recuou. O olhar dele endureceu por um segundo. Parecia não ser o tipo de cara que fazia isso toda noite. E isso... me intrigou ainda mais.
- Direta assim?
- Tempo é dinheiro. E, no meu caso, muito.
- Você é sempre assim?
- Não. Só quando tenho vontade.
Silêncio. O jazz mudou de tom. Ele deslizou o copo pro lado, olhou em volta e respirou fundo.
- Está bem. Mas com uma condição.
- Qual?
- Sem promessas. E sem disfarces.
Sorri. O jogo tinha virado.
- Perfeito. Eu também não vim aqui pra mentir.
Ele se levantou. Eu o segui.
O elevador do hotel era um confessionário silencioso. Nossos reflexos no espelho diziam tudo que a boca ainda não tinha coragem. E quando a porta se fechou atrás de nós, eu senti:
A faísca virou fogo.
E o fogo... era só o começo.
O quarto era amplo, luxuoso, iluminado por uma luz âmbar discreta. Tirei o blazer, joguei sobre a poltrona, e fiquei de costas pra ele.
- Pode tirar a camisa. Ou só ficar olhando. Tanto faz.
Ouvi seus passos. Senti sua presença atrás de mim. Mas nada aconteceu.
Virei.
Caius estava parado, tenso, o olhar grave.
- Eu não posso. - disse.
- Não pode ou não quer?
- Eu quero. Mas... isso aqui não é quem eu sou. Eu não sou o cara que dorme com desconhecidas em hotéis só porque a noite está vazia.
Revirei os olhos, cruzei os braços.
- Eu não quero respeito, Caius. Quero prazer. E você parece saber como dar isso.
- E você parece desesperada para sentir qualquer coisa - ele rebateu, calmo.
Doeu.
Então, fiz o que sempre faço quando algo dói: ataquei.
- É medo? Ou disfunção? Talvez você não funcione sem amor, sem romance... - dei um passo à frente, os olhos cravados nos dele. - Tudo bem. Homens é o que não falta. Posso descer agora e escolher outro. Mais direto. Menos problemático.
Ele respirou fundo. Quase sorriu, mas não.
- E isso te deixa feliz?
A pergunta cortou mais do que qualquer grito. Fiquei muda. Pela primeira vez, sem resposta. Porque ele não me confrontava com raiva. Ele me via. Ele foi embora. Me deixou ali. Sozinha. Vazia. Pela primeira vez... fora do controle.
Fiquei ali por alguns segundos, sozinha no quarto de hotel, olhando para a porta que Caius acabara de fechar.
O silêncio me engoliu.
O som dos saltos dele sumiu no corredor, mas a pergunta ficou - queimando na minha pele como o toque que ele recusou.
"E isso te deixa feliz?"
Não.
Mas eu não ia admitir.
Eu precisava sentir alguma coisa. Qualquer coisa. Até mesmo o gosto amargo da minha própria fuga.
Peguei o celular. Meus dedos já sabiam pra onde ir. Pietro.
Toquei o nome dele. O telefone chamou três vezes antes de ele atender, com a voz carregada de sarcasmo e tédio.
- Selene Castiel... isso é um milagre ou uma recaída?
- Estou no Le Royale. Suíte 704. Traz whisky.
- Vai me usar como curativo?
- Você sempre foi bom nisso, Pietro. Não estraga agora.
Silêncio por dois segundos. Depois, a risada.
- Já tô no carro.
Desliguei.
Deixei o celular cair no chão, tirei os brincos, o vestido, e encarei o espelho. A mulher de lá ainda parecia invencível. Mas eu sabia. Ela só queria parar de doer.
POV Selene Castiel
O barulho da porta se abrindo cortou o silêncio do quarto.
Pietro entrou com a autoconfiança de sempre. Paletó escuro, sorriso sujo, uma garrafa de whisky numa mão, e o ego inflado na outra.
- Você parece pior do que costuma parecer - disse, enquanto largava a garrafa na mesinha e tirava o casaco. - E olha que o padrão já é alto.
- Cala a boca, Pietro. - revirei os olhos. - Só me distrai.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Do jeito que você gosta?
- Do jeito que me faça esquecer.
Os lábios dele vieram até os meus. Rápidos. Urgentes. Como sempre foi. Como sempre foi fácil. Minha pele já conhecia aquele caminho. E meu corpo, por instinto, reagiu.
Mas minha mente...
Minha mente fez uma curva proibida.
"Você costuma ocupar cadeiras ou corações?"
"E isso te deixa feliz?"
Maldição. A voz dele. Caius.
Aquele maldito estranho com olhos sinceros demais pra quem acabou de me conhecer.
Pietro me deitou na cama. A boca dele no meu pescoço. As mãos em tudo que podiam alcançar.
Mas a imagem que piscava atrás dos meus olhos não era a dele.
Era o olhar de Caius.
O jeito que ele me viu como ninguém nunca tentou.
E pior... o jeito que ele foi embora.
- Tá tudo bem? - Pietro perguntou, tirando a camisa, já impaciente.
Assenti. Menti. Mas quando ele voltou a me beijar, senti. Não era prazer. Era punição.De mim pra mim. E eu aceitei. Porque às vezes a gente prefere a dor conhecida do que o vazio deixado por algo que nem começou.
O beijo de Pietro ainda estava em meus lábios quando fechei os olhos e deixei a mente escapar.
Caius.
O nome queimou como um fósforo dentro de mim.
De repente, não era mais Pietro quem estava sobre meu corpo. Eram aquelas mãos grandes, a voz rouca, o olhar que me atravessava como se eu fosse mais do que apenas um buraco para ser preenchido.
E então, algo dentro de mim estalou.
Peguei Pietro pelos ombros e inverti nossas posições, empurrando-o contra os lençóis. Seus olhos se arregalaram, surpreso pela mudança. Normalmente, eu deixava ele conduzir, normalmente, eu não me importava.
Mas hoje, eu queria.
- Selene? - ele respirou, curioso.
Não respondi. Em vez disso, desci meus lábios pelo seu pescoço, mordendo a carne ali, sentindo o gosto salgado de sua pele. Minhas mãos rasgaram a camisa dele, botões voando, e ele riu, achando que era só mais uma noite de fúria entre nós.
Mal sabia ele.
Minhas unhas arranharam seu peito, e ele gemeu, os músculos contraindo sob meu toque. Desci mais, beijando seu torso, até chegar ao cós de seu jeans. Olhei para cima, imaginando olhos escuros e um rosto que não era o dele.
- Caralho - Pietro rosnou quando enfiei a mão dentro de sua calça, apertando.
Eu queria ouvir outra voz. Queria ouvir ele perdendo o fôlego por minha causa.
Puxei o jeans e a cueca para baixo, libertando o corpo dele, e não perdi tempo. Envolvi meus lábios em volta dele, sugando com uma pressão que fez Pietro gritar.
- Merda, Selene!
Eu nunca tinha feito isso com tanta... vontade. Nunca tinha me importado o suficiente para querer ver alguém despedaçado. Mas agora, eu queria. Queria ouvir gemidos, queria sentir o corpo dele tremendo, queria controlar.
Pietro tentou pegar meu cabelo, mas eu agarrei seu pulso e prendei contra a cama, mantendo o ritmo com minha boca até ele arquejar, os músculos tensos.
- Não aguento... - ele gemeu.
Eu soltei ele com um estalo, subindo em seu colo e alinhando meu corpo sobre o dele. Sem hesitar, sentei, prendendo os lábios entre os dentes quando ele entrou em mim.
E então, comecei a me mover.
Lenta no começo, depois mais forte, mais feroz. Cada movimento era uma tentativa de apagar aquele rosto da minha mente, mas quanto mais eu tentava, mais ele aparecia.
Caius.
Eu imaginava suas mãos em meu quadril, sua voz sussurrando coisas que ninguém mais tinha coragem de dizer.
Pietro arfou, as mãos agarrando meus quadris, tentando acompanhar meu ritmo.
- Assim... porra, assim!
Eu me inclinei para frente, prendendo seus pulsos novamente, cavalgando ele com uma intensidade que nunca tinha permitido antes. Meu corpo estava quente, meu sangue latejando, e pela primeira vez em muito tempo, eu não estava apenas aguentando, eu estava sentindo.
Quando o orgasmo chegou, foi como uma facada. Um tremor violento que me fez arquear as costas e prender os dentes para não gritar o nome errado.
Pietro não resistiu por muito mais tempo. Com um gemido rouco, ele acabou, as mãos apertando minha carne como se eu fosse fugir.
Eu desci, ofegante, o suor escorrendo pela minha coluna.
Ele riu, exausto e satisfeito.
- Caralho, Castiel... - ele respirou, os olhos meio fechados. - Foi a melhor foda que a gente já teve.
Sorri, mas não era para ele.
Era para a escuridão atrás dos meus olhos.
Mal sabe ele.
***
A luz invade o quarto como uma maldição dourada. Os lençóis ainda estão amassados, o cheiro de sexo barato e escolhas ruins grudado na pele. Pietro está jogado de lado, nu, ressonando com o braço sobre os olhos.
Levanto sem fazer barulho. Não porque me importo. Mas porque não quero ouvir mais uma palavra daquele homem. Entro no banho. A água quente bate nas costas como se pudesse me limpar. Mas tem coisa que nem o diabo lava.
Quando saio, não olho pra cama. Pego o vestido da noite anterior, amarro os cabelos molhados num coque improvisado, calço os saltos e saio do quarto como quem foge de um incêndio.
O celular vibra.
Mensagem:
Pai: "Almoço. Hoje. Meio-dia. Assunto importante."
Vicente Castiel não convida.
Ele decreta.
***
O restaurante é elegante, discreto e tem cheiro de madeira polida e poder antigo. Meu pai está lá, pontual como sempre, com um terno cinza escuro e expressão fechada. Como se fosse outro dia normal de negócios.
- Você está com cara de quem dormiu com o inimigo. - ele comenta, sem sequer levantar os olhos da taça de vinho.
Sento. Cruzo as pernas.
Não reajo.
- Acho que você vai gostar do tema de hoje. - ele diz, agora sim me encarando. - Casamento.
Arqueio uma sobrancelha.
- Vai casar de novo, papai? Alguém finalmente aguentou sua falta de charme?
- Você vai se casar, Selene.
Pausa.
Silêncio.
A taça quase escorrega da minha mão.
- Como é?
- Uma promessa antiga. Sua mãe e a mãe de Caius. Um acordo. Selado antes de você nascer. E agora é hora de cumprir.
- Caius... o quê? - esse nome só pode ser coincidência... não é o mesmo cara que beijei... claro, existem diversos Caius no mundo...
- Varella. Diretor de Arte, filho de Helena. Mulher que pintava o céu com palavras e ensinava que beleza é detalhe. Sua mãe a amava como se ama uma obra inacabada – sabendo que o melhor ainda estava por vir.
- Que belo critério pra me obrigar a casar: afinidade materna.
Ele não ri. Nem se mexe.
- Você vive como se o mundo te devesse algo. Tá na hora de pagar. A mídia te mastiga toda semana. Os investidores estão em alerta. E eu... estou cansado de consertar os estragos.
- Você quer me usar como escudo?
- Eu quero te salvar de você mesma.
Ele coloca um envelope sobre a mesa. Contrato. Fotos. Dados. E ali, entre páginas e tinta, está a sentença.
- Vocês se casam em três semanas.
Levanto.
Deixo a taça.
Deixo tudo.
- Pode ser que eu case, pai. Mas eu te prometo uma coisa: Ele pode até me ter no papel. Mas ninguém, nem você, nem ele, nem o mundo, vai me prender.
Saio do restaurante com o sangue fervendo e o coração num ritmo que eu não conhecia. Não é medo. Não é raiva. É algo que beira a vertigem. Porque pela primeira vez... o jogo não é mais meu.
POV Selene Castiel
A mansão Castiel parece mais fria hoje. E não é o clima. É a ideia de ter que fingir que estou no controle, quando, na real, a vida já escapou das minhas mãos faz tempo.
Sete dias se passaram desde aquele jantar estratégico com meu pai. Desde que ele me informou que, pra manter a empresa sólida, eu precisava ser... casada. E agora, a peça principal do jogo chega: Caius Varella, o homem que vai assinar meu sobrenome numa aliança que eu não pedi.
A campainha toca às 18h em ponto. Vicente se ajeita todo, como se fosse receber um chefe de Estado. Eu fico no topo da escada, de braços cruzados, esperando o coitado.
Mas quando vejo quem é...
Merda.
O mundo para por dois segundos. Porque o homem que entra não é qualquer desconhecido.
É ele.
Caius. O moreno do bar. O da risada fácil, da conversa afiada. O homem que me acompanhou até um quarto de hotel, me olhou nos olhos, e disse não.
O mesmo que virou as costas e me deixou... confusa. Com raiva. Com sede de controle.
E agora ele está na minha sala, sendo apresentado como o homem com quem vou casar.
Ele me vê. E reconhece. É nítido. A tensão se instala na mandíbula dele, mas ele tenta disfarçar. Eu, nem tento. O olhar que lanço corta mais que salto agulha.
E o desgraçado ainda sorri. Aquele sorrisinho cínico de quem sabe o que fez.
Atrás dele, vem a mãe, Helena, doce demais pra essa confusão toda, e a irmã, que parece tirada de um comercial de primavera. Família perfeita. O oposto da minha.
Desço os degraus com a elegância treinada de quem nasceu num pedestal. Cada passo é um soco no chão.
Ele não tira os olhos de mim.
- Caius, essa é minha filha, Selene. - Vicente anuncia, cheio de orgulho.
Aperto a mão dele. Forte. Seca. E o calor da pele dele me lembra do quarto. Do quase. Do que não aconteceu.
- Senhorita Castiel - ele diz, formal.
- Não precisa de tanto teatro. A gente vai casar, não processar um ao outro. - rebato, sorrindo, venenosa.
Ele retribui o sorriso. E me destrói com uma frase:
- Então prefiro te chamar de Selene.
A forma como ele diz meu nome é um pecado. E eu odeio isso.
- Desde que não espere que eu mude quem eu sou por causa disso, tudo bem.
Silêncio. Daqueles que queimam a espinha.
Helena quebra o clima com uma risada leve. Todos seguem pra sala. O jantar começa.
A conversa é educada, o vinho excelente, o teatro insuportável. Falam de empresas, da parceria estratégica. Helena comenta como as mães delas foram amigas de juventude. Vicente faz parecer que estamos celebrando um casamento por amor. A cereja do bolo da farsa.
- E você, Selene - pergunta Helena, gentil - como se sente com tudo isso?
Olho pro homem ao meu lado.
- Exatamente como pareço. - respondo. - Uma mulher vestida pra um teatro em que não sabe se quer ser a protagonista.
Caius ergue uma sobrancelha. Mantém a calma.
- Eu também não pedi pra ser elenco fixo.
- Ótimo. Já temos um começo honesto.
Silêncio de novo. Sorrisos falsos. Vicente pigarreia.
***
Depois do jantar, a casa se divide. Ele sobe com o pai. A mãe dele desaparece com a irmã. Eu fico na varanda, sozinha com uma taça de vinho e os saltos matando meus pés.
Caius surge, claro. Como sempre, quando menos quero.
- Fugindo da convivência? - ele pergunta, encostando ao meu lado.
- Só respirando. Aqui fora o ar é menos hipócrita.
- Engraçado... no bar, você parecia mais... livre.
Minha espinha gela. Só de lembrar.
- Engraçado é você achar que aquele quarto significou algo.
- Não significou? - ele pergunta com uma calma irritante.
- Significou que você não conseguiu sustentar o próprio desejo. - falo, ácida. - E que eu perdi meu tempo.
Ele vira o rosto pra mim, olhos semicerrados.
- Ou talvez tenha sido o primeiro "não" que você levou na vida. E isso te assustou mais do que gostaria de admitir.
Eu travo por dentro. Mas disfarço.
- Você se acha demais, sabia?
- Só sou sincero. E por algum motivo, isso te incomoda.
Silêncio. De novo.
- Se soubesse quem eu era... teria ido até o fim? - pergunto, amarga.
Ele pensa. Um segundo.
- Se soubesse quem você era... talvez tivesse te beijado no elevador.
A resposta pega de surpresa. É torta. Ambígua. Intensa.
Ele me olha.
- Boa noite, Selene.
Ele dá as costas e começa a caminhar de volta pra dentro. Mas eu não deixo.
- Caius.
Ele para. Devagar. Como quem já esperava.
- Você sempre foge quando as coisas saem do script?
Ele vira o rosto pra mim, com um sorriso de canto.
- Não fujo. Só respeito o limite dos outros.
- O problema é que você acha que conhece meus limites - dou dois passos na direção dele, a taça de vinho ainda na mão, a arrogância vestida no corpo como um perfume caro. - Mas você não me conhece, Caius. Você só viu a ponta do iceberg. E teve medo.
- Medo? - Ele se vira de vez agora, com aquela calma assassina. - Eu tive classe. E autocontrole. Coisas que você claramente não valoriza.
- Ou talvez você seja só mais um covarde com boa oratória. - Provoco. Me aproximo mais. Agora estamos a centímetros de distância.
Ele ri. Baixo. Quase inaudível.
- Isso te excita? Me provocar assim?
- Um pouco. - encosto a taça na mesa ao lado, livre das mãos. - Mas o que me excita mais... é ver você perder esse autocontrole que tanto defende.
Subo a mão pelo peito dele, deslizando devagar até a gola da camisa. Os olhos dele ardem. Mas ele não se mexe.
- Tá jogando um jogo perigoso, Selene.
- E você entrou nele no minuto que me seguiu até aquele hotel.
Silêncio.
Os olhos dele vão dos meus lábios pros meus olhos. A tensão pulsa no ar como eletricidade.
- Me diz, Caius - sussurro, meu rosto quase colado ao dele - foi difícil dormir naquela noite?
Ele solta o ar pelos lábios. Curto. Quente.
- Eu ainda não dormi direito desde então.
Então eu faço.
Me inclino.
E roubo o beijo.
Rápido. Selvagem. Um estalo de caos e desafio. Minha boca encontra a dele com pressa, com raiva, com um gosto de "toma essa". Ele retribui. Por um segundo. Um segundo longo demais.
Mas então... ele me segura pelos ombros. Se afasta.
- Não faz isso. - diz, a voz rouca.
- Por quê? Vai quebrar seu código de honra?
- Porque se eu continuar... não paro.
- E qual é o problema?
- Você quer controle. Eu não vou te dar isso.
Ficamos ali, os dois ofegantes. A guerra declarada nos olhares. Ele recua um passo. Dois.
- Boa noite, Selene.
E vai. Dessa vez, de verdade. E eu fico parada, com os lábios ainda ardendo e o coração batendo mais alto do que deveria.
Droga.
Caius Varella é diferente.
E isso me irrita mais do que qualquer escândalo.