Minha cara Constância,
Sei que parece antiquado escrever uma carta nos dias de hoje, mas como estamos à quilômetros de distância e em países diferentes, pensei que seria a maneira mais real de chegar até você.
Peço que me perdoe por tudo que aconteceu em nosso primeiro compromisso e que possa repensar sobre nosso futuro. Eu preciso de você e sei que sua família também precisará de mim. Me sinto envergonhado e sei que palavras não serão suficientes para te provar que me arrependi, apenas peço clemência e que seja compreensiva em nome de nossos pais.
Cometi muitos erros e rogo a você uma segunda chance. Estou disposto a aceitar seus termos e tudo o que for necessário. Realmente me renderei a você e serei o marido que você me pedir para ser. Em troca, peço apenas sua fidelidade e respeito. Sei que faltei com os mesmos no passado, mas estou disposto a entregar o meu melhor agora e fazer dar certo aquilo que deveria ter sido desde a nossa infância.
Aceita reatar nosso noivado, em nome de nossas famílias?
Com carinho e em busca do seu perdão,
Tiago Guimarães Sampaio.
Heloísa Constância tomou a carta em mãos, indignada após lê-la e com as mãos trêmulas por finalmente saber algo sobre Tiago Sampaio, o homem que era para ser seu marido, mas a abandonou no altar.
Pensou que jamais voltaria a saber sobre ele, mas sabia que cedo ou tarde Tiago retornaria e caberia a ela dizer sim ou não aquele contrato de casamento que significava tanto em suas vidas.
Queria dizer não e mandá-lo para o inferno com um grande ênfase na palavra, mas não podia, pois sabia que as condições de saúde de seu pai não permitiriam a ele mais tempo. Aquele casamento precisava acontecer e cabia a Heloísa fazer essa escolha terrível em nome do amor que sentia por seu amado pai, mãe e irmã.
Seria obrigada por sua própria consciência a se casar com um homem que ela odiava, mas não deixaria barato. Estava disposta a cobrar a dor que Tiago casou ao abandoná-la.
Tiago,
Realmente uma carta é algo inusitado e talvez por ela você tenha levado algum crédito.
Confessor que não te odeio por ter sumido quando éramos prometidos, mas sim por ter reaparecido de suas sombras. Apesar de tudo, sua volta significa a salvação de minha família e a reestruturação da sua. Somente por esse motivo suportarei reatar o noivado que você destruiu, mas espero que esteja ciente que tenho minhas condições e nada será um conto de fadas.
Não sou e nunca fui uma mulher sonhadora. Talvez tenha sido um dia, mas seu abandono acabou com tudo ou qualquer esperança de um futuro para nós dois como um casal.
Em nome dos negócios, exijo fidelidade e respeito, assim como propôs, mas alerto que no primeiro sinal da falta deles, estará tudo acabado entre nós.
Minha resposta é sim, mas não pense que com ela você ganhará uma esposa. Minha única condição para me tornar sua esposa é jamais ser sua mulher. Você jamais me tocará e essa é a maior condição entre todas para que esse casamento possa acontecer.
A contragosto e obrigada pelos fatos,
Eu aceito.
H. Constância Chastel.
Pela primeira vez em quase toda uma vida, Heloísa Chastel se sentia livre.
As luzes do baile brilhavam a seus olhos mais do que o belo show da torre de Paris um dia proporcionou.
Sequer as mais refinadas recepções da alta sociedade ou as festas de aniversário milionárias pareciam mais atrativas que aquela animada e barulhenta festa. As músicas indecentes e as pessoas se divertindo ao redor era o verdadeiro significado de proibido para ela. Talvez por isso tenha sido a vida toda criada como uma boneca de porcelana. Para jamais poder ser.
- Constância, você está ficando louca de vez, é isso? - A voz de Adele, sua melhor amiga desde a época do colegial, ecoava em seus ouvidos em meio à música alta do lugar. Ambas se esgueiravam entre as pessoas e Heloísa cumprimentava todas elas - Se quiser mesmo ficar e curtir o baile é melhor parar de dar pinta de patricinha. O pessoal daqui não curte esse tipo de coisa não!
- Adele, para de me chamar assim! - Sussurrou quando pararam em frente ao bar. Sentaram-se na alta banqueta uma de frente para a outra e Heloísa encarou os olhos azuis e límpidos da amiga com certa cautela - Meu nome é Heloísa, eu já disse!
- Na sua casa todos te chamam de Constância e eu acabo esquecendo... Fiquei lá por apenas três dias e já me acostumei, desculpa! - A garota de cabelos azuis sorriu diante da expressão de tédio da amiga - Constância é um belo nome, não acha? É diferente...
- Era o nome da minha avó, por isso meu pai colocou como nome do meio e todos me chamam assim, mas prefiro mil vezes Heloísa. É mais atual. - O barman se aproximou e perguntou-lhes o pedido - Oh... Desejo uma água com gás e talvez... Um champanhe? - Adele corou e encarou o garçom.
- Duas cervejas, por favor - O rapaz sorriu e assentiu de maneira engraçada após notar como Heloísa parecia deslocada naquele lugar - Heloísa, pelo amor. Você não está em uma festinha da "gran fina" com seus pais, garota! Se liga!
- Nunca bebi cerveja na vida. Você que ficou louca! - As duas riram.
- Que vida é essa que você leva, hein, gata? E ainda reclama de seus pais quererem te arruar um noivo para te fazer ainda mais rica. - O barman depositou as cervejas no balcão e as duas pegaram em seguida. Heloísa encarava a garrafa com estranhamento, mas bebeu um gole após Adele fazer o mesmo.
- Por favor, não me lembre desse detalhe agora! A última coisa que quero é lembrar que estou noiva de um cara que detesto e ferrou com a minha vida toda! - Suspirou desanimada e ainda estranhando o gosto amargo da cerveja.
- Te ferrou por quê? - Adele questionou um pouco mais alto, uma vez que a música era realmente o que tomava o ambiente - Sua mãe disse que vocês são prometidos há muito tempo...
- Exatamente. Mas aí ele decidiu quebrar o compromisso quando fugiu para a Europa com uma fulana que se apaixonou. Fiquei feliz, confesso. Estava prestes a noivar quando saísse do colégio, mas pude ir para o Canadá estudar ao invés de me casar - Heloísa sorriu ao se lembrar da experiência de poder se dedicar ao que amava. Estudou moda e empreendedorismo por quatro anos, até ser intimada a voltar pela família.
- Como assim? Ele te largou sem mais nem menos? - Adele parecia estarrecida e Heloísa negou.
- Nós não convivíamos. Apenas nos vimos algumas vezes durante a infância... - Explicou sem deixar de notar a surpresa no olhar da amiga - O fato é que por uns dois anos pensei estar livre dele e de toda essa história de casamento. Meu pai e o dele são primos de algum grau distante, tinham planos... Ele decepcionou toda a família e foi praticamente deserdado, mas agora, ao que parece, voltou arrependido e a família dele e meus pais me propuseram novamente essa história.
Heloísa abaixou o olhar. Sua empolgação diminuiu grandemente e Adele tocou sua mão com carinho. Arrependeu-se de ter tocado em um assunto tão delicado e que parecia mexer tanto com as emoções da amiga.
- Você não precisa se casar, Helô. Seus pais não colocaram uma arma na sua cabeça, pelo contrário! Tio Heitor e tia Flora são muito legais e eles te amam... - Heloísa a interrompeu.
- Tenho meus motivos, amiga. Ainda não posso te contar quais, mas os tenho. Um dia você vai entender. - Garantiu com lágrimas nos olhos - Mas não viemos para cá para falar disso, certo? Te pedi para me trazer no baile para me divertir, não para chorar...
- Claro, amiga. Estou com você para o que der e vier! - Heloísa secou algumas lágrimas abaixo de seus olhos escuros e perfeitamente maquiados - Qual vai ser?
Ajeitando o cabelo longo e escuro que descia até a cintura, Heloísa sorriu por trás da tristeza e suspirou aliviada. Ao menos momentaneamente.
- Eu quero um homem, Adele. Um homem para me fazer esquecer de vez todos os problemas - Adele teve de rir diante das palavras da amiga, que parecia decidida enquanto falava e muito voraz enquanto analizava bem o ambiente ao redor.
- Você está falando sério? - Franziu o cenho e Heloísa riu baixinho - Não era você que queria se guardar para o casamento e aquele papo todo?
- Quando pensei que poderia me casar com alguém que escolhesse, sim. Mas agora que terei de encarar Tiago Sampaio me recuso a casar virgem e intocada. Não vou dar esse gostinho a ele, depois de ter me feito acreditar que eu poderia ser livre e voltar atrás. - Adele não podia crer no que ouvia.
Heloísa Chastel, sempre recatada e invejavelmente inteligente, a única virgem de vinte e dois anos que conhecia, em nada se assemelhava com a garota machucada e tristonha que via a sua frente.
Adele não podia imaginar o que havia no coração de Heloísa, sua melhor amiga.
Não podia imaginar como a doença de Heitor Chastel, pai dela, tomou conta de toda sua vida como uma avalanche. Heitor, o chefe da família e pai orgulhoso de Constância - como costumava chamá-la – tinha pouco tempo de vida. Acometido por um agressivo câncer, sem ele, nada funcionaria nos negócios da família.
Flora, sua mãe, não sabia nada da vida que não fosse administrar um lar. Hannah, sua irmã mais velha, desde a infância era cadeirante e tratada pelos pais como uma inválida. Mesmo que Heloísa a encorajasse, Hannah acreditava que jamais poderia ser normal devido a sua deficiência. Sem tios ou alguém para confiar, cabia somente a Heloísa salvar a família da total ruína antes que o pai partisse e deixasse as três mulheres da casa sem um norte para os negócios.
Heloísa precisava muito se casar com Tiago Guimarães Sampaio.
A família Sampaio era a única na qual seu pai confiava. Ernesto Sampaio – pai de Tiago – era primo de seu pai e um homem honesto para ajudá-la com os negócios da família. Os Sampaio, por sua vez, também precisavam da parcela de benefícios. Precisavam se reerguer dos rombos nas contas causado por um golpe e do escândalo com o filho. Casar o herdeiro com uma Chastel era a única opção.
Casar-se com o filho de Ernesto e ter aliados confiáveis para administrar a fortuna de sua família era sua única saída!
Não podia fraquejar agora. Não podia deixar todos na mão! Amava seus pais e sua irmã mais do que tudo em sua vida e teria de, por eles, sacrificar sua liberdade. Sua esperança se baseava em apenas uma coisa... Tiago ser compreensivo o suficiente para dar o divórcio, assim que os problemas entre eles estivessem resolvidos. Assim que as dívidas dos Sampaio sumirem e Heloísa se tornar uma boa administradora, ambos poderiam ser livres um do outro e entrarem em um bom acordo.
Apesar de tudo, nutria em seu peito uma única certeza... Não se entregaria ao casamento com a ideia românica de amor que nutriu após descobrir que Tiago havia fugido com outra. Após descobrir que não precisava casar por arranjo decidiu se guardar para o homem certo e seguir os princípios cristãos que sua família seguia. Queria encontrar um amor. O homem certo. Sonhou com isso por muito tempo, teve alguns namorados, mas nunca foi capaz de se entregar por completo.
Agora, diante do casamento que aconteceria em poucos meses, se entregaria ao primeiro que a agradasse e pedia silenciosamente para que acontecesse. Não tinha coragem de se entregar a um estranho, sabia disso, mas tinha um desejo. De Tiago ela jamais seria...
- Ele ao menos é gato? - Adele questionou após tomar algumas cervejas e já estar um pouco alta. Algumas amigas se reuniram a elas na noite animada e todas dançavam juntas em meio à pista.
- Quem? - Feliz com o momento descontraído, Heloísa dançava em frente à amiga sem sequer notar a quantidade de homens que reparavam nela.
- Tiago Guimarães Sampaio - Adele disse o nome dele como se anunciasse uma celebridade - Ele é gato?
- Ah, como vou saber? A última vez que o vi éramos crianças. Sequer me lembro do rosto dele. Estava sumido até pouco tempo com a mulher que fugiu, nem sei se já voltou ao Brasil - Comentou um tanto ofegante por estar dançando há muito tempo - Vamos beber algo?
- Melhor. Tem uma rodinha ali que não para de encarar - Adele sussurrou enquanto caminhavam para o bar - Acho que seu top cor de rosa fez sucesso, amiga. Tem um novinho ali babando em você.
Heloísa olhou por cima do ombro um pouco tímida e após sentar-se no banco alto do bar analisou seu vestuário. Usava calça jeans cintura alta, um cropped rosa claro e sapatos combinando. Não era uma megaprodução e talvez esse fosse o objetivo. Não chamar atenção em meio aos demais.
- Não tem nenhum novinho ali, Adele - Comentou inocentemente enquanto pegava sua água. Prendeu o cabelo longo por conta do calor em um coque alto.
- Aí amiga... Novinho é jeito de falar! - A garota de cabelo azul gargalhou - Estou falando daquele gato ali no piso de cima, na grade. Ele não para de te olhar faz um tempão.
As duas olharam rapidamente para o rapaz, que disfarçou um pouco a atenção em Heloísa.
- Será que ele me reconheceu? - Assustada, Heloísa encarou a amiga.
- Quem vai te reconhecer aqui, menina? Estamos no meio do povo. Até parece que você é uma celebridade, não é? - As duas riram - Se bem que está escrito "patricinha" na sua testa.
- Meus pais são conhecidos. Talvez já me viu em alguma revista, não sei... - Deu de ombros, despreocupada. Adele tinha razão. Não tinha chances de alguém que conhecesse seus pais frequentar em um baile como aquele.
- Ele está te achando gata, isso sim! Não percebeu que ele não tira o olho de você, sua tonta? - Heloísa corou um pouco. Viu o tal rapaz de relance e ele parecia interessante, algo que a fez estremecer. A ideia parecia absurda, mas também era tentadora - Porque não vai lá?
- Eu? - Quase engasgou com a água e Adele assentiu - E falo o que para ele?
- Fale a verdade, ora! Basta chegar perto dele e dizer que você está querendo perder a virgindade hoje e ele foi o sorteado! - Heloísa gargalhou das palavras da amiga e desconsiderou.
- Melhor voltarmos a dançar. Acho que a cerveja já subiu demais aí. - Voltaram para a pista de dança e Heloísa não pôde evitar lançar um olhar para o estranho admirador de olhar enigmático.
Encontrou, além dele, vários olhares de atenção e percebeu que realmente era uma estranha no ninho.
Será que corria algum perigo, afinal?