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O Magnata Que Perdeu Tudo Inclusive Ela

O Magnata Que Perdeu Tudo Inclusive Ela

Autor:: IG : camila_nuness2
Gênero: Romance
Tamara Silva amou Pedro Albuquerque por dez anos. Um amor silencioso, insistente e solitário. Durante todo esse tempo, ela acreditou que paciência, lealdade e entrega seriam suficientes para ser escolhida. Nunca foram. Para Pedro, Tamara sempre foi conveniente. Uma presença constante, fácil de controlar, alguém que ele movia conforme sua vontade. Até a noite em que a humilhação ultrapassa o limite e algo dentro dela simplesmente se apaga. Cansada de ser invisível, Tamara decide enterrar esse amor doentio e finalmente viver para si. O que ela não imaginava era que, justamente quando tudo parecia ruir, conheceria Malik Stavani. Um homem intenso, magnético e perigoso na medida certa. Diferente de tudo o que ela já viveu. Diferente de Pedro. Malik não joga. Ele escolhe. Envolvida por um sentimento novo e avassalador, Tamara se permite tentar outra vez. Mas Pedro Albuquerque não sabe lidar com perdas, muito menos com a ideia de vê-la nos braços de outro homem. Quando percebe que perdeu tudo, inclusive ela, Pedro decide correr atrás do que deixou escapar. Tarde demais. Porque agora Tamara não é mais a mulher que espera. E alguns homens só entendem o valor de um amor quando ele já não lhes pertence mais.

Capítulo 1 A última Aposta

༺ Tamara Silva ༻

A noite de sábado avançava lenta, e eu estava ali, afundada no sofá, deslizando o dedo pela tela como quem procura um motivo para continuar sonhando.

Bastou abrir os stories para encontrar Pedro em mais uma aventura barulhenta, cercado de risos, luzes e duas mulheres penduradas nele como enfeites de uma vitrine cara.

A risada dele atravessou a tela e, como sempre, acertou direto onde doía. Quando será que ele perceberia que eu o amor tanto?

Célia se jogou ao meu lado com um balde de pipoca, observou a cena e revirou os olhos.

- Você e essa obsessão por um homem que não a deseja... Eu realmente não entendo - murmurou, impaciente.

- Cuide da sua vida - retruquei, irritada com a verdade que ela insistia em esfregar na minha cara. - Um dia ele vai perceber o quanto gosto dele.

A expressão dela desabou numa mistura de cansaço e frustração.

- Dez anos, Tamara. Dez. Quantas vezes mais você pretende se machucar por alguém que nunca lhe ofereceu sequer consideração? Isso já lhe tirou tempo demais.

As palavras ecoaram como marteladas. No fundo, eu sabia que Célia estava certa. Pedro jamais foi gentil, nunca demonstrou apreço real, ou me tratou com o mínimo de respeito.

Havia dias em que a frieza dele parecia um castigo, e mesmo assim eu inventava desculpas para protegê-lo. Para mim, aquele sentimento era amor. Para o resto do mundo, um vício que me consumia.

- Você não percebe que isso a adoece você? - insistiu Célia, firme. - Ele se diverte com quem quiser, e você segue aqui, presa, esperando por migalhas.

- Eu gosto dele - respondi, num fio de voz que mais parecia súplica. - Apenas isso.

Ela soltou um suspiro pesado, pegou o controle e mudou de canal.

- Tentarei não repetir mais - declarou. - Só espero que desperte antes de desperdiçar ainda mais da própria vida.

Quando o silêncio ameaçava se instalar, a porta se abriu. Estela entrou apressada, chamando meu nome.

- Tamara, vamos. Quero você comigo hoje. Pedro está na nova boate de nova Lubosne, e seria bom aparecer por lá.

Levantei-me num salto, tomada por um entusiasmo que me denunciava. Estela sempre acreditou que bastava uma chance para o irmão enxergar o que ignorava há anos. Talvez por isso nunca desistisse de me arrastar para perto dele.

Célia resmungou antes mesmo de eu chegar à porta.

- Vá lá, então. Corra atrás de quem só lhe causa sofrimento.

- Deixe de implicância - respondi, já seguindo Estela. - Sei o que faço.

No quarto, ela separou um vestido roxo e começou a mexer na nécessaire com determinação.

- Vou preparar uma maquiagem impecável - afirmou, convicta. - Quero ver se Pedro continua fingindo que não nota você.

Vesti o tecido macio, ajeitei a barra e tentei controlar o nervosismo.

- Será que adianta? - perguntei, quase sem ar.

Estela se aproximou e segurou meu rosto com delicadeza.

- Ele não percebeu ainda porque enxerga o mundo pela metade. Mas há momentos em que até os distraídos despertam.

Assenti, embora o pensamento insista em lembrar que, até então, nada havia mudado. Mesmo assim, deixei que ela finalizasse a maquiagem como se cada pincelada fosse uma promessa.

Talvez fosse minha última tentativa e a chance que eu tanto esperava finalmente estivesse chegando.

Quando terminei de colocar o vestido e Estela finalizou a maquiagem, senti-me quase uma versão melhorada de mim mesma.

O espelho devolveu um reflexo que parecia confiante, embora eu soubesse que parte daquela coragem é pura maquiagem emocional. Estela sorriu, satisfeita, e anunciou que iria buscar a bolsa que havia deixado no seu quarto.

Assim que ela desapareceu pelo corredor, passos conhecidos se aproximaram. Célia surgiu devagar, como se estudasse cada detalhe meu.

Detestava quando vinha com aquele olhar capaz de atravessar qualquer defesa, o mesmo olhar que sempre me deixava inquieta, como se estivesse prestes a anunciar uma tragédia inevitável.

- Já sei - digo, cruzando os braços. - Você vai começar com aquele seu pressentimento estranho.

Ela respirou fundo, puxou uma almofada e se acomodou no sofá.

- Não gosta quando olho assim, eu sei. Mas a noite promete um choque de realidade - declarou com a calma de quem anuncia a mudança do clima.

Engoli em seco, sentindo um arrepio subir pela nuca.

- Quer dizer o quê com isso?

Ela passou a mão pelo próprio cabelo, pensativa. A expressão firme contrastava com o tom grave.

- Tenho um dom para perceber certas coisas. E, hoje, algo me diz que o véu finalmente vai cair dos seus olhos.

Um frio percorreu minhas costas, mesmo com o calor do quarto.

- Está me jogando praga? - perguntei, sem conseguir esconder o incômodo.

Ela revirou os olhos, impaciente.

- Claro que não. Estou dizendo que você vai cair do cavalo. Vai perceber o tempo precioso que deixou escorrer por alguém que nunca a colocou como prioridade.

A irritação subiu antes que eu conseguisse controlar.

- Já pedi para cuidar da sua vida. O Pedro é assunto meu.

A resposta fez o rosto dela perder a firmeza habitual; havia tristeza ali, coisa rara de ver. Célia respirou fundo antes de continuar.

- Quero seu bem, Tamara. Mesmo quando parece que estou puxando o seu tapete. Só tento livrá-la de mais dor.

A confissão me desarmou por dentro. Suspirei, desviando o olhar.

- Se quer o meu bem, me deseje sorte. Não venha com essas previsões sombrias. Só isso.

Ela balançou a cabeça devagar, como quem aceita sem acreditar muito.

- Tudo bem. Mas prepare o coração. Pode ser que, depois desta noite, nada permaneça igual. Às vezes, acordar para a realidade é doloroso... e necessário.

Estela retornou exatamente nesse momento, animada, segurando a bolsa.

- Pronta? - perguntou, sem perceber o clima tenso.

Assenti, tentando recuperar o fôlego que perdi durante a conversa.

Enquanto caminhávamos até a porta, senti o olhar da Célia nas minhas costas, pesado, quase protetor. Uma parte de mim queria ignorar todos os sinais. A outra, entretanto, já pressentia que essa noite marcaria um antes e um depois na minha vida.

E, sem saber, eu seguia rumo ao momento que mudaria tudo.

Capítulo 2 A ilusão acabou

༺ Tamara Silva ༻

A porta do carro se abriu, e o ar noturno tocou meu rosto com uma mistura de perfume caro, música distante e expectativa. Saltei para a calçada ao lado da Estela, que observava tudo com os olhos brilhando.

- A fachada é lindíssima - comentei, admirando as luzes que contornavam a entrada da boate.

- E por dentro é ainda melhor - respondeu, empolgada. - O dono caprichou. Vi as fotos e fiquei impressionada.

Ergui a sobrancelha, surpresa com a confiança dela.

- Fotos? Nem sabia que você acompanhava esse tipo de lugar.

Estela soltou uma risada leve.

- Sigo a página no Instagram. Fiquei curiosa. Eles postam cada ambiente... parece cenário de filme.

Entramos logo em seguida. O interior era ainda mais deslumbrante do que eu imaginava: lustres modernos refletiam cores suaves, o piso brilhava como se tivesse sido polido minutos antes, e a iluminação baixa deixava a atmosfera elegante.

A música tinha uma batida envolvente, forte o suficiente para embalar, mas não para ensurdecer. Pessoas circulavam de um lado para outro com taças e copos, como se cada um ali fizesse parte de um espetáculo ensaiado.

Seguimos para o balcão. O barman usava roupas escuras e sorria com profissionalismo. Estela pediu um drink de limão; escolhi o de morango, sempre meu preferido. Observei tudo ao redor enquanto ele preparava as bebidas.

- Onde está o seu irmão? - perguntei, tentando soar casual, embora meu estômago estivesse apertado.

Estela revirou os olhos, como se aquela pergunta fosse inevitável.

- Vamos nos divertir um pouco antes. Ele deve estar na área vip. - Pegou o copo e me puxou pela mão. - Venha, vamos para a pista dançar.

Respirei fundo e acompanhei o ritmo contagiante da música. A pista estava cheia, mas o ambiente era tão bem organizado que nada parecia sufocante. Estela já balançava o corpo, completamente entregue ao momento.

Tentei relaxar, permitir que a noite fluísse sem antecipar o que poderia acontecer. Alguns rapazes se aproximaram com tentativas de conversa, mas recusei qualquer investida. Não estava ali para construir novas histórias; ainda estava presa à antiga.

Após alguns minutos que pareceram eternos, Estela tocou meu ombro.

- Vamos subir. Acho que ele está lá em cima.

Minha ansiedade voltou como um soco no peito. Mesmo assim, concordei. Subimos a escada iluminada que levava à área vip. As batidas da música ecoavam nas paredes, e o ar ali parecia mais frio.

Quando chegamos ao andar superior, avistei um grupo reunido em um dos sofás amplos. No centro, como sempre, estava Pedro.

O impacto foi imediato.

Seu cabelo castanho impecável, penteado para trás, com aquele brilho que parecia natural demais para ser real. A barba bem aparada no formato exato que valorizava o rosto anguloso.

Os olhos azuis intensos, capazes de cortar qualquer resistência. A camisa social preta marcava o tórax definido, e as calças completavam o conjunto elegante. Parecia um personagem saído de uma campanha publicitária cara.

Ao lado dele, duas mulheres. Uma ruiva com vestido colado e sorriso calculado. A outra, loira, com olhar sedutor demais para ignorar. Estavam próximas, talvez até íntimas demais.

Suspirei e apertei os dedos contra a própria palma da mão, tentando não demonstrar o incômodo. Odiava quando outras mulheres estavam perto dele. O ciúme me dominava, porém, não podia fazer nada só olhar.

Assim que nos aproximamos, Pedro notou nossa presença. A reação veio rápida: revirou os olhos com impaciência evidente. O grupo de amigos dele trocou olhares maldosos, alguns até riram baixo, como se nossa chegada fosse motivo para algum tipo de piada interna.

Respirei fundo e fingi indiferença. Estava ali por um motivo, mesmo que esse motivo me levasse ao ridículo. O amor que sentia por Pedro me fazia suportar tudo só para estar ao lado dele.

Sentamos no sofá de frente a ele, Estela ao meu lado, me passando uma sensação tênue de segurança. Pedro pegou outra bebida e comentou:

- Não imaginei que vocês fossem aparecessem aqui. Essa festa não é para crianças.

- Ah, cale a boca - retrucou Estela, irritada. - Tenho vinte e quatro anos, e a Tamara vinte e cinco. Crescemos, sabia?

Ele riu, balançando a cabeça.

- Verdade. Já estão ficando velhas. Nem percebi.

Tentei ajeitar o cabelo num gesto automático, querendo parecer mais confiante do que realmente estava. Pedro me observou por um instante, algo raro vindo dele.

- Está diferente hoje, Tamara.

Meu coração bateu forte.

- Acha? - perguntei, sentindo minhas bochechas aquecerem.

- Sim! - respondeu, com um tom quase analítico. - Talvez seja a maquiagem. O cabelo também ajuda. Digamos que está... apresentável.

A palavra me atingiu como um tapa. "Apresentável". Como se fosse a nota mínima de um teste difícil. Mesmo assim, sorri de forma involuntária.

- Obrigada - murmurei.

Pedro pegou outra garrafa, serviu-se com naturalidade e ergueu o copo.

- Vamos beber. Hoje está animado.

Enquanto ele falava, uma pergunta latejava dentro de mim: por que aquele elogio agora? Nunca ouvira nada parecido. Sempre fui a sombra dele, a amiga da irmã, a garota que esperava. Talvez essa noite trouxesse algo novo e fosse o início de uma mudança.

O burburinho da área vip envolve tudo, mas nenhum som consegue abafar o incômodo que começa a crescer dentro de mim enquanto observo Pedro conversar.

A cada risada dele, e gesto casual jogado para uma das garotas ao lado, alguma coisa parece se partir mais um pouco.

Estela tenta puxar assunto com ele, empolgada com a decoração da boate.

- Ficou perfeita, né? - ela comenta, sorrindo.

Pedro nem olha direito, somente ergue a sobrancelha, como se estivesse acima de qualquer coisa que não fosse ele mesmo.

E então vem a bomba, como sempre.

- Tamara, pega mais gelo para mim. E traz outra garrafa de uísque lá ali do bar.

Engulo seco. O pedido já conhecido, essa velha ordem disfarçada de gentileza inexistente.

Estela imediatamente se vira para ele:

- Você é muito folgado, Pedro! Chama um garçom, você acha o quê? Que ela é sua empregada?

Ele revira os olhos com o mesmo desprezo de sempre.

- Cala a boca, Estela. Ela sempre faz o que eu peço. Não seria diferente hoje.

Meu orgulho tenta gritar, mas a voz fica presa na garganta. No fundo, sei que vou fazer. Irei levantar e buscar o que ele quer, como fiz centenas de vezes ao longo desses anos. Meu amor ou a doença que eu chamava assim, sempre falou mais alto que a minha dignidade.

Pedro ergue o olhar e me encara. Seu olhar e cheio de malícia, desses que fazem qualquer pessoa confundir crueldade com charme.

Sinto as bochechas queimarem.

- Então... pode fazer isso? - ele pergunta.

Antes que Estela volte a brigar, toco o braço dela.

- Deixa. Eu vou.

Pedro se joga no sofá com um sorriso satisfeito. A sensação é de que alguém está puxando meu estômago para dentro de um buraco.

No caminho até o bar, ouço algumas risadas do grupo. Respiro fundo e me esforço para não quebrar a garrafa antes de entregar.

Quando retorno, pego só uma parte da conversa, o suficiente para ferir mais do que qualquer outra coisa poderia.

- Você abusa da boa vontade dela, Pedro - Augusto diz, claramente cansado daquilo.

Pedro dá de ombros.

- E dai? Ela sempre faz o que eu quero.

A ruiva ao lado dele cruza as pernas, entediada.

- Não sei não... mas você exagera. E se ela se cansar?

Pedro solta um riso incrédulo.

- Cansar? Nunca. Se eu mandar ela ajoelhar aqui e me adorar, ela adora. Ela vive por mim.

Suas palavras me atravessam como uma facada. O balde de gelo quase escorrega da minha mão.

A loira estala a língua.

- Deus me livre ser uma idiota desse nível.

César ri alto.

- Lembra, Pedro? Quando você pediu para Tamara organizar o aniversário daquela garota que você queria? Ela fez tudo. E ainda arrumou a suíte onde você passou a noite inteira com a garota.

Meu pulso começa a latejar. Aperto o balde sem perceber.

Pedro continua, mais cruel do que nunca:

- Tô falando pô! Ela faz tudo. Beija meus pés se eu pedir. E ainda ficou toda feliz aquela vez, achando que tava ajudando. Enquanto isso eu...

Não deixo ele terminar. Algo dentro de mim quebra de vez.

Avanço furiosa, jogo o balde no chão, o gelo voa como pequenos estilhaços congelados entre todos eles.

Em seguida, levanto a garrafa de uísque e a arremesso com força. O vidro estoura no piso, espalhando estilhaços e um cheiro forte de álcool.

- Então é isso que você pensa de mim? - minha voz sai carregada, quase rouca de dor.

Pedro se levanta com aquela arrogância nojenta.

- Estou mentindo? Você sempre faz tudo que eu quero. E é melhor baixar essa bola. Porque se eu decidir te ignorar por um mês, vai ficar chorando atrás de mim. Como sempre.

Meu peito aperta. Baixo o olhar por alguns segundos para recuperar o ar. Quando volto a encarar Pedro, encontro o mesmo sorriso debochado, os mesmos olhos que me diminuem desde que descobri que era capaz de amar alguém de forma tão estúpida.

- Escuta bem, Pedro - digo, minha voz tremendo, mas firme. - Essa foi a última vez que tentei me aproximar de você. Acaba aqui. Até eu tenho limite.

Ele ri, como se eu fosse uma piada ambulante.

- Aí agora você está audaciosa, é? Tá me testando? Se eu perder a paciência...

Dou uma risada amarga.

- Meu Deus... como fui idiota. Dez anos, Pedro. Dez anos desperdiçados acreditando que você tinha alguma coisa a mais além dessa sua arrogância barata. Dez anos que você tirou de mim.

- Eu nunca prometi nada a você Tamara. - ele rebate. - Você ficou atrás de mim porque quis.

- É... - sussurro. - Quem criou essa ilusão fui eu. Mas quem alimentou você sabe muito bem quem foi. Só que acabou. Eu não quero ser sua amiga, muito menos ser algo seu.

Pedro ergue o queixo, convencido.

- Ah! Conta outra. Daqui meia hora você me liga se arrependendo. Sempre faz isso.

O calor sobe pelo meu corpo inteiro.

- Vai se foder, Pedro. Você acha mesmo que vai machucar as pessoas para sempre sem que ninguém acorde? Pois se prepara. Porque eu acordei. E nunca mais vou rastejar por você. Nunca mais...

Viro as costas antes que ele responda. Saio apressada, sentindo o coração bater doído, como se agulhas fossem cravadas em cada batida.

O amor... ah, o amor.

Pode ser lindo, mas também sabe destruir.

Perdi dez anos correndo atrás de alguém que nunca quis me enxergar. Dez anos que eu poderia ter vivido outra história, com outra pessoa, e outra versão de mim.

Mas acabou.

Aqui termina a garota que rastejava por Pedro Albuquerque. E começa alguém que finalmente abriu os olhos para vida.

Capítulo 3 O estranho do bar

༺ Tamara Silva ༻

Saio da área VIP com passos rápidos, quase tropeçando em mim mesma de tão atordoada. O som da boate continua vibrando atrás de mim, mas não faz diferença.

Minha cabeça está em outro lugar, pulsando com a lembrança de cada palavra que Pedro despejou como veneno. Que maldito desgraçado! Fiz tudo por ele e, no final, era como Célia disse: eu acabaria machucada.

Alcanço o corredor que leva à saída e, por um instante, fecho os olhos. Sinto o perfume de bebida, perfume barato, cigarro. Sinto a garganta arder. Só resta a vontade absurda de desaparecer.

Estou prestes a seguir quando ouço meu nome ecoando:

- Tamara! Tamara, espera!

Paro contra a minha vontade e me viro. Estela vem correndo, os cabelos longos balançando, a expressão aflita. Ela parece realmente preocupada e, de certa forma, também culpada.

- Me desculpa - ela diz assim que alcança meu lado, ainda um pouco ofegante. - Pelo Pedro. Ele pode ser um babaca às vezes... está, na maior parte do tempo. Só não vou xingar a minha mãe porque ela não tem culpa de ter colocado no mundo um cretino desses.

Dou uma risada curta, sem humor, mas a sinceridade dela me aquece um pouco.

- Tá tudo bem, Estela... Dessa vez não doeu tanto quanto antes. Acho que só cansei - murmuro, evitando encará-la por muito tempo. - Só preciso ficar sozinha. Aproveita a noite com seu irmão.

- Não, Tamara, eu vou com você. Não tem clima para ficar lá.

Fecho os olhos por um segundo. Parte de mim quer aceitar. A outra parte quer desmoronar sem testemunhas.

- Eu quero ficar um tempo sozinha - digo com calma, mesmo com a voz fraca. - Preciso pensar na minha vida. De verdade. Por favor, respeita isso.

Estela morde o lábio, contrariada.

- Tudo bem. Mas qualquer coisa me liga, tá? Qualquer coisa mesmo.

Faço um gesto afirmativo e esboço um sorriso quebrado.

Ela me abraça rápido, com força, e volta para dentro da boate.

Fico na calçada por alguns segundos até sentir o ar frio bater no meu rosto, como se dissesse: "Acorda, garota". E eu acordo. Pelo menos tento.

Caminho sem pressa, atravessando duas quadras iluminadas por postes altos e vitrines chiques. Minhas pernas seguem sozinhas, guiadas pelo impulso de fugir de tudo que ainda me dói.

Só paro quando vejo um bar luxuoso na esquina: fachada preta, luzes douradas, vidro limpo. Nem penso. Entro.

O ar fresco me envolve de imediato, abafando parte do sufoco que carrego. O lugar está cheio, mas não lotado. A música é baixa, elegante, contrastando com o caos que deixei para trás.

Sento no balcão e apoio os cotovelos na superfície brilhante.

O barman se aproxima com um sorriso profissional:

- O que vai beber?

- Algo forte - respondo. - Mas doce o suficiente pra não me derrubar de vez.

Ele sorri e começa a preparar. O cheiro do drink sobe enquanto observo o movimento ao redor, tentando encontrar alguma paz. Não acho.

Quando o copo chega, encaro o líquido rosado por alguns instantes.

Que ironia. Uma vida inteira dedicada a alguém que nunca me dedicou um minuto de respeito... e tudo acaba assim, numa noite qualquer, em um bar qualquer.

Dou o primeiro gole. A bebida desce quente e suave, como se prendesse a minha garganta e apertasse com carinho.

É impossível não pensar em tudo o que já fiz por Pedro.

Impossível não sentir vergonha de mim mesma.

O aniversário que organizei para aquela garota. Todos os presentes que comprei para ele em datas que ele sequer lembrava.

Às vezes em que levei comida, bebida, cigarro, remédio... qualquer coisa que ele pedia, eu levava.

Como uma idiota apaixonada. Alguém que achava que amor era provar valor, sacrificar-se, diminuir-se.

Levo a mão ao rosto, fecho os olhos e deixo o peso cair.

Virei capacho. E nem percebi quando aconteceu.

Lembro de quando conheci Pedro.

Do sorriso lindo que me fez acreditar que ele era diferente.

De como eu justificava cada grosseria, e sumiço, desprezo. Eu dava desculpas para proteger a imagem que criei dele.

E, no fim das contas, protegi ele... enquanto destruía a mim mesma.

Outro gole. Mais forte. Mais profundo.

- Dez anos - sussurro baixinho. - Dez anos de burrice...

O barulho ao redor some por alguns segundos. Fico só eu, meu drink e uma verdade que sempre esteve ali, mas eu fingia não ver.

Pedro nunca me quis.

E eu perdi tanto tempo insistindo em alguém que só queria ser servido, admirado, bajulado.

Encosto as costas no banco e solto um longo suspiro.

Não sei o que vai acontecer daqui pra frente.

Ou se amanhã vou acordar firme ou despedaçada.

Só sei que não volto atrás.

Não dessa vez.

Levanto o copo, observo o brilho das luzes refletindo no líquido e quase sorrio.

- Bem-vinda de volta para sua própria vida, Tamara.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu bebo por mim.

Levo outro gole, mais demorado, sentindo o álcool esquentar cada pedaço da minha alma, quando um perfume chega primeiro que a voz. Um aroma másculo, amadeirado, intenso. O cheiro de presença forte, de alguém que sabe exatamente para onde está indo.

Finjo que não percebo. A última coisa que preciso é de companhia. Só quero beber até minha mente desligar.

Mas a voz surge, rouca e baixa:

- Noite difícil?

Solto uma risada curta, sem humor, encarando o copo.

- Algo assim.

O desconhecido não se afasta. Ele permanece perto o suficiente para ser notado, longe o bastante para não invadir meu espaço. A segurança que transmite me obriga a, pelo menos, ouvir.

- Seja lá o que aconteceu... o homem que fez isso com você só pode ser um idiota - comenta com tranquilidade. - Um idiota completo por não enxergar a mulher linda que está aqui na minha frente.

A frase me faz virar o rosto, contrariada.

E aí eu o vejo.

O mundo parece dar uma travada.

Olhos azuis intensos, quase hipnotizantes. Cabelo loiro escuro penteado de forma despretensiosa. Tatuagens subindo pelo pescoço e desaparecendo sob a gola da camisa preta. Altura impressionante, ombros largos, braços fortes. Ele tem aquele ar perigoso que não precisa de esforço para chamar atenção.

Penso, quase em voz alta: "Meu Deus... que homem bonito".

E imediatamente me pergunto: o que ele quer comigo?

Ele percebe minha surpresa, sorri de lado e inclina o corpo com charme natural.

- Posso te pagar uma bebida? - pergunta com uma confiança que parece ter sido construída ao longo de muitas vidas.

Pisco, voltando aos meus sentidos.

- E por que você acha que eu aceitaria um drink de um completo estranho?

O sorriso dele cresce devagar, como se estivesse se divertindo com meu desafio.

- Porque talvez esse estranho seja... o amor da sua vida.

Dou uma risada tão inesperada que quase derramo o drink.

- Amor da minha vida? - Balanço a cabeça. - Essa palavra não existe mais no meu vocabulário. Acho que meu coração se aposentou.

Ele se aproxima um pouco mais, com postura tranquila, mas olhar firme.

- Nunca diga nunca - murmura. - Às vezes, quando tudo despenca, a vida decide surpreender. Coisas novas acontecem e podem ser intensas e mudar tudo de lugar.

O garçom passa por perto. O homem faz um gesto e pede outra rodada sem tirar os olhos de mim.

- Sou Malik Stavani - anuncia com voz segura, como se o nome carregasse peso. - E você?

Penso se devo responder. Ou me levantar e ir embora.

Mas há algo nele magnético... que não parece invasivo, mas inevitável.

- Tamara Silva - digo enfim, controlando o tremor da voz.

Malik repete meu nome com calma, como se testasse o som.

E, naquele instante, sinto algo que não sentia há muito tempo: curiosidade.

Ele permanece ali, perto, sem tocar ou apressar as coisas. Sem invadir. Apenas me observa com atenção sincera, como se enxergasse além da maquiagem borrada e da dor abafada de uma mulher que ainda tenta encontrar suas próprias peças.

Dou mais um gole e percebo que, pela primeira vez nessa noite, meu peito não dói tanto.

Malik inclina a cabeça, estudando meu rosto.

- Não preciso saber tudo o que aconteceu - diz. - Só quero que saiba que sua história não termina com aquela ferida que você trouxe de outro lugar. Às vezes, o recomeço começa exatamente onde a gente pensa que acabou.

Desvio o olhar, engolindo a pontada de emoção que ameaça subir.

Ele não insiste. Só espera.

- Então... - Malik quebra o silêncio com um sorriso suave - aceita aquele drink?

E quando seus olhos verdes encontram os meus, algo dentro de mim, quebrado há muito tempo, se move. Pouco. Quase nada.

Mas se move.

- Talvez eu aceite - murmuro.

Malik sorri como se tivesse acabado de ganhar uma partida que nem chegou a começar.

E, pela primeira vez em dez anos, sinto o ar entrar no meu peito sem dor.

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