Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Horror > O Marido Que Envenenou Nosso Amor
O Marido Que Envenenou Nosso Amor

O Marido Que Envenenou Nosso Amor

Autor:: Layla
Gênero: Horror
Depois do meu décimo aborto espontâneo em cinco anos, eu acreditei que meu corpo estava quebrado. Meu marido, Bernardo, era meu salvador perfeito e dedicado, o homem que reconstruiu minha vida depois de destruir a empresa da minha família. Então, eu o ouvi no telefone. Ele confessou que envenenava meu chá todas as noites, assassinando metodicamente nossos dez filhos para pagar uma dívida com sua amante. Uma vida para cada ano que ela passou na prisão por ele. Meu mundo inteiro não era apenas uma mentira - era uma jaula de ouro construída pelo destruidor da minha família. Ele achou que me deixou para morrer num incêndio. Estava enganado. Agora, com um novo rosto, eu voltei para queimar seu império até as cinzas.

Capítulo 1

Depois do meu décimo aborto espontâneo em cinco anos, eu acreditei que meu corpo estava quebrado. Meu marido, Bernardo, era meu salvador perfeito e dedicado, o homem que reconstruiu minha vida depois de destruir a empresa da minha família.

Então, eu o ouvi no telefone.

Ele confessou que envenenava meu chá todas as noites, assassinando metodicamente nossos dez filhos para pagar uma dívida com sua amante. Uma vida para cada ano que ela passou na prisão por ele.

Meu mundo inteiro não era apenas uma mentira - era uma jaula de ouro construída pelo destruidor da minha família.

Ele achou que me deixou para morrer num incêndio. Estava enganado. Agora, com um novo rosto, eu voltei para queimar seu império até as cinzas.

Capítulo 1

Ponto de Vista: Elisa Monteiro

Na décima vez que você perde um filho, o luto é diferente. Não é uma dor aguda, um estilhaçar súbito. É uma erosão lenta e dolorosa da alma, uma agonia familiar que se instala no fundo dos seus ossos, sussurrando uma verdade que você tenta negar há cinco anos: você está quebrada.

Eu encarava o teto branco e imaculado do quarto do hospital, o bipe rítmico do monitor cardíaco era a trilha sonora monótona e vazia para o meu nada. O ar cheirava a antisséptico e lírios - os que meu marido, Bernardo, insistiu em trazer. Ele sempre trazia lírios.

Ele era um mestre nos detalhes, o meu Bernardo.

Quando ele apareceu na minha vida, foi como uma cena de filme. Meu mundo tinha implodido. A Farmacêutica Monteiro, o legado da minha família por três gerações, tinha sido aniquilada por uma aquisição hostil, um ataque corporativo brutal orquestrado com precisão cirúrgica. A vergonha e o desespero foram demais para os meus pais. Eles escolheram deixar o mundo juntos, num último e trágico ato de união, me deixando órfã, à deriva nos destroços do nosso nome.

E então, apareceu Bernardo Castilho. O arquiteto da ruína da minha família.

Ele não veio a mim como um conquistador, mas como um salvador. Confessou sua admiração pelo meu pai, inventou uma história de que queria preservar a integridade da empresa, de que foi um predador relutante, forçado pelo mercado. Seus olhos, da cor de um mar tempestuoso, continham uma profundidade de sinceridade que me desarmou. Ele me abraçou enquanto eu soluçava, absorveu minha fúria e, então, pedaço por pedaço, ele me reconstruiu.

Ele cuidou de tudo. Dos funerais, das questões legais, dos abutres da imprensa. Ele se tornou meu escudo. Mostrou-me um lado de si que ninguém no mundo dos negócios jamais viu - gentil, paciente, totalmente devotado. Ele aprendeu minha marca de chá favorita, a temperatura exata que eu gostava do meu banho, os obscuros filmes franceses que me faziam rir. Ele conhecia a história da família Monteiro melhor do que eu, reverenciando o retrato do meu avô como se fosse o seu próprio. Ele adquiriu os bens mais preciosos da minha família em casas de leilão - a pintura favorita da minha mãe, uma Tarsila do Amaral, a coleção de primeiras edições de Machado de Assis do meu pai - e os devolveu para mim, enquadrando tudo como um ato de penitência, de amor.

E eu, destroçada e sozinha, acreditei nele. Apaixonei-me pelo homem que destruiu meu mundo porque ele havia construído com maestria uma jaula de ouro ao meu redor e a chamou de lar.

Cinco anos de casamento. Cinco anos do que eu pensei ser um amor profundo e curador. E dez gestações. Dez pequenas faíscas de esperança que piscaram e morreram dentro de mim, sempre entre a oitava e a décima semana.

A cada vez, Bernardo era o marido perfeito e dedicado. Ele segurava minha mão em todas as consultas médicas, a testa franzida de preocupação. Ele pesquisou especialistas, trouxe os melhores do mundo. Ele me consolou em cada aborto, suas lágrimas se misturando com as minhas, sussurrando: "Nós vamos superar isso, meu amor. Teremos nossa família. Eu prometo."

Agora, deitada nesta cama fria e familiar, a décima promessa quebrada, uma onda de exaustão me dominou. O médico tinha acabado de sair, oferecendo condolências gentis e inúteis e sugerindo outra rodada de exames invasivos. Bernardo estava lá fora, falando ao telefone em um tom baixo e sério, provavelmente reorganizando sua agenda bilionária para cuidar de sua esposa frágil.

Uma enfermeira entrou e checou meu soro, adicionando um sedativo. "Ordens do Sr. Castilho", disse ela com um sorriso solidário. "Ele quer que você descanse um pouco. Ele se preocupa tanto com você."

Minhas pálpebras ficaram pesadas. As bordas do quarto se borraram. Enquanto eu mergulhava na névoa medicamentosa, ouvi o clique da porta que não se fechou completamente. Ficou aberta apenas uma fresta.

E através dessa fresta, ouvi a voz dele. Não o tom suave e carinhoso que ele usava comigo, mas um que era frio, seco e transacional.

"Está feito, Cíntia. A dívida está paga."

Uma pausa. Então a voz de uma mulher, afiada e tingida com algo que eu não consegui identificar - amargura, talvez triunfo. "Dez? Tem certeza que foi o décimo? Quero ter certeza, Bernardo. Uma vida por uma vida. Dez anos eu perdi naquele buraco infernal por causa do nosso pequeno negócio. Ela precisava sentir a perda. Dez vezes."

O mundo parou. O bipe do monitor pareceu desaparecer em um zumbido distante. Meu corpo estava pesado como chumbo, minha mente um vórtex de silêncio gritante.

"Eu fui... meticuloso", respondeu a voz de Bernardo, e a palavra, uma palavra que eu antes associava ao seu amor e cuidado, agora soava absolutamente monstruosa. "A mistura especial de ervas no chá de relaxamento dela funciona toda vez. Enfraquece sutilmente o revestimento uterino. Sem vestígios, sem suspeitas. Apenas mais um infeliz e trágico aborto espontâneo."

O ar me faltou nos pulmões. O sedativo mantinha meu corpo em um estado de imobilidade perfeita e horripilante, mas minha mente estava em chamas. Eu não conseguia me mover. Não conseguia gritar. Eu só podia ficar ali, prisioneira na minha própria carne, enquanto a fundação da minha vida virava pó.

O chá.

Todas as noites, por cinco anos, ele me trazia uma xícara de um chá especial de camomila com erva-cidreira. "Para te ajudar a relaxar, meu amor", ele dizia, acariciando meu cabelo enquanto eu bebia. "Para criar um ambiente de paz para o nosso bebê crescer."

A imagem brilhou em minha mente: Bernardo, meu marido amoroso, preparando cuidadosamente as folhas, seu rosto bonito uma máscara de devoção, enquanto ele estava metodicamente, pacientemente, envenenando meu útero. Matando nossos filhos. Um por um.

Dez deles.

Meus filhos.

Ele nunca tinha sido infiel. Essa era a única coisa da qual eu tinha certeza, mesmo nos meus momentos mais sombrios de luto. Lembro-me de uma vez, anos atrás, chorando em seus braços após a terceira perda, convencida de que estava sendo punida por algum pecado desconhecido. Ele me abraçou forte e disse: "Nunca duvide do meu amor, Elisa. Não há mais ninguém. Nunca haverá. Você é a única que eu sempre protegerei."

Ele não estava me protegendo. Estava protegendo ela. Cíntia Vasconcelos. Lembrei-me do nome das notícias de anos atrás, uma cúmplice brilhante, mas volátil, em um dos primeiros e impiedosos esquemas corporativos de Bernardo. Ela tinha assumido a culpa, ido para a prisão, enquanto Bernardo saiu limpo, seu império já começando a se erguer.

Esta era a penitência dele. Não para mim, por arruinar minha família, mas para ela. Ele não estava pagando uma dívida ao legado da minha família; estava pagando uma dívida à sua parceira de crime. E eu - meu corpo, minhas esperanças, meus filhos não nascidos - eu era a moeda de troca.

Toda a linda e trágica história de amor era uma mentira. Ele não me resgatou das cinzas da minha vida; ele estava lá o tempo todo com um galão de gasolina e um fósforo. O suicídio dos meus pais não foi apenas um dano colateral de um negócio; foi o primeiro passo calculado em seu plano para me adquirir, seu prêmio final. Ele me estilhaçou para que pudesse ser aquele a me juntar novamente à sua própria imagem.

A herdeira inteligente e confiante. Que tola eu fui. Que tola cega e patética, tão desesperada por amor que o aceitei do meu próprio destruidor.

A fúria que começou a arder no fundo do meu estômago era algo frio e puro. Era diferente do luto quente e confuso que eu conhecia. Esta era uma fúria dura como diamante, forjada na traição suprema. Ele havia tirado tudo de mim. Minha família. Minha empresa. Minha vida. E dez filhos que eu nunca conheceria.

O sedativo estava passando o suficiente para meus dedos se contraírem. Lentamente, com muito esforço, minha mão se moveu pelo lençol branco engomado em direção à mesa de cabeceira onde meu celular estava. Meus movimentos eram desajeitados, pesados pela medicação, mas minha mente estava focada como um laser.

Havia apenas uma pessoa no mundo que poderia me ajudar agora. Alguém de uma vida antes de Bernardo. Alguém que me avisou sobre ele, à sua maneira quieta, muito tempo atrás.

Meus dedos se fecharam ao redor do metal frio do celular. Consegui desbloqueá-lo, meu polegar tremendo. Abri meus contatos, minha visão embaçada, e encontrei o nome.

Caio Sullivan.

Meu amigo de infância. O garoto que meus pais praticamente criaram junto comigo. Agora um magnata da segurança poderoso e enigmático baseado em Zurique. Um fantasma do meu passado. Minha única esperança de um futuro.

Meu polegar pairou sobre o botão de chamada, mas em vez disso, digitei uma mensagem, as palavras duras contra a tela.

Preciso de você.

---

Capítulo 2

Ponto de Vista: Elisa Monteiro

Eu mesma me dei alta do hospital na manhã seguinte, contra o conselho médico. A resposta de Caio chegou em minutos, um simples e inequívoco: "A caminho. Não se mova." Mas eu não podia ficar lá, não naquele quarto estéril que testemunhou tanto do meu luto fabricado.

Quando Bernardo chegou de volta à nossa cobertura, ele me encontrou no quarto principal, de pé diante da lareira. Eu estava alimentando nosso álbum de casamento às chamas, página por página. As fotos brilhantes de nossos rostos sorridentes se enrolavam, enegreciam e viravam cinzas.

"Elisa! O que você está fazendo?" Ele correu para frente, tentando arrancar o livro das minhas mãos, mas eu o segurei firme. O calor lambeu meus dedos.

"Simbolismo", eu disse, minha voz tão vazia quanto eu me sentia. Joguei o álbum inteiro e arruinado no fogo. Ele subiu com um sopro.

Ele enfiou a mão nas chamas para recuperá-lo, um gesto desesperado e tolo. Ele gritou, puxando a mão de volta, a pele na ponta dos dedos vermelha e com bolhas. Ele me encarou, seus olhos de tempestade cheios de uma dor que, pela primeira vez, eu sabia que era mentira.

"Meu amor, o que há de errado? Fale comigo", ele implorou, embalando a mão queimada. "Seja o que for, podemos consertar. Eu vou consertar. Eu juro."

Eu olhei para ele, para o homem que havia orquestrado meticulosamente a destruição da minha vida enquanto sussurrava promessas de amor. O ódio era uma coisa física, um peso frio e pesado no meu peito. Ele estava certo. Não podíamos consertar isso. Mas eu ia fazê-lo pagar por isso.

"Não há nada para consertar", eu disse, virando-me do fogo, dele. Caminhei em direção ao banheiro, meus movimentos rígidos. "Estou apenas cansada, Bernardo."

Ao fechar a porta do banheiro, senti uma cãibra aguda e lancinante no meu abdômen, mais violenta do que qualquer uma que eu já havia sentido. Apoiei-me na bancada de mármore, a náusea subindo pela minha garganta. Meu celular vibrou no balcão. Uma mensagem de um número desconhecido.

Era um vídeo. Minha mão tremeu quando apertei o play.

A tela se encheu com o rosto de Cíntia Vasconcelos. Ela estava sorrindo de lado, seus olhos escuros brilhando com malícia. Ela estava se filmando e, atrás dela, eu podia ver o inconfundível cenário estéril de um quarto de hospital. Ela moveu a câmera para baixo, e minha respiração ficou presa na garganta.

Ela estava grávida. Muito grávida.

A câmera voltou para o rosto dela. "Soube do número dez", ela ronronou, sua voz pingando de falsa simpatia. "Que pena. Parece que você simplesmente não consegue segurar nada, não é, Elisa? Nem sua empresa, nem seus pais... nem mesmo um bebê. Mas não se preocupe. Bernardo e eu teremos família suficiente por todos nós."

Uma onda de escuridão me envolveu. A cãibra no meu estômago se intensificou em uma dor agonizante, dilacerante. Sangue. Havia tanto sangue. Encharcou minhas roupas, formando uma poça no chão de mármore frio. Eu desabei, meu corpo convulsionando, o celular caindo da minha mão. Meu último pensamento consciente foi um grito desesperado e primitivo enquanto eu tentava discar para a emergência.

Acordei com as vozes sussurradas das enfermeiras do lado de fora da porta do meu quarto de hospital. A dor havia sumido, substituída por uma dormência oca e medicada.

"...a hemorragia foi grave. Ela tem sorte de estar viva", dizia uma enfermeira. "Mas o Sr. Castilho... nunca vi um homem tão frenético."

"Eu sei", sussurrou a outra. "Ele praticamente carregou a Sra. Vasconcelos para a emergência. Ela só teve uma quedinha, mas ele exigiu que todos os melhores especialistas fossem designados para ela. Disse que o bem-estar dela era sua prioridade absoluta."

Uma risada amarga e histérica tentou borbulhar do meu peito, mas ficou presa na minha garganta como um caco de vidro. Claro. A pequena queda de Cíntia era sua prioridade máxima. Minha hemorragia com risco de vida era uma preocupação secundária. Ele provavelmente parou a caminho do quarto dela para encomendar os lírios para o meu. O pensamento era tão grotescamente irônico, tão perfeitamente Bernardo, que era quase engraçado.

Ele nunca demonstrou esse nível de pânico por mim. Preocupação, sim. Tristeza, sim. Mas nunca o medo cru e primitivo da perda. Porque ele nunca estava perdendo nada que realmente valorizasse. Minhas gestações eram apenas transações. A de Cíntia era o investimento real.

Eu me levantei da cama, meus músculos gritando em protesto. Arranquei o soro do meu braço, ignorando a picada. Eu tinha que ver por mim mesma.

Vestindo uma camisola de hospital, saí do meu quarto e desci o corredor silencioso e estéril da ala VIP. Segui o som de sua voz baixa e suave até um quarto no final do corredor. A porta estava entreaberta.

Eu espiei lá dentro.

Bernardo estava sentado na beira da cama, descascando uma maçã para Cíntia com uma pequena faca de prata, as fatias caindo perfeitamente em um prato. Ele estava dando a ela, pedaço por pedaço, como se ela fosse uma boneca delicada e preciosa. Ele afagou o cabelo dela para trás da testa, seu toque infinitamente terno.

"Você tem que ser mais cuidadosa", ele murmurou, sua voz a que ele costumava reservar para mim. "Nada pode acontecer com você. Ou com nosso bebê."

Cíntia fez beicinho, uma performance magistral de vulnerabilidade. "Foi tão estressante, Bernardo. Saber que ela estava em casa. Isso me deixa nervosa. Talvez... talvez pelo bem do bebê, ela não devesse estar lá quando eu sair. A cobertura é tão grande, ela poderia morar na ala de hóspedes. Fora de vista."

Meu sangue gelou. Ela queria me relegar aos aposentos de hóspedes da minha própria casa. Minha casa. A casa que ele comprou com o dinheiro que ganhou destruindo minha família.

Eu não conseguia respirar. Cambaleei para trás da porta, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. O movimento chamou a atenção dele.

Sua cabeça se virou bruscamente. "Elisa."

Ele se levantou em um instante, seu rosto uma máscara de choque e algo mais - culpa. Ele correu em minha direção, mas eu já estava me virando, fugindo pelo corredor o mais rápido que meu corpo maltratado permitia.

"Elisa, espere! Não é o que você pensa!", ele gritou atrás de mim.

Eu não parei. Corri, alimentada por cinco anos de mentiras e uma dor tão profunda que ameaçava me despedaçar. Entrei com tudo pela porta da escada, meu único pensamento era fugir, desaparecer.

Ele me alcançou no patamar, sua mão apertando meu braço. Seu aperto era como aço.

"Me solta", eu sibilei, minha voz rouca.

"Não até você ouvir", disse ele, sua respiração saindo em arquejos irregulares. "Cíntia é... ela concordou em ser uma barriga de aluguel para nós. Depois de todos os seus abortos, eu pensei... eu queria te fazer uma surpresa. Com nosso bebê."

A mentira era tão audaciosa, tão insultuosa, tão completamente desdenhosa da minha inteligência, que eu só pude encará-lo. Uma barriga de aluguel. Ele estava chamando sua amante, a mulher para quem ele pagou sua "dívida" com as vidas dos meus filhos, de barriga de aluguel.

"Uma surpresa?", eu sussurrei, as palavras pingando veneno. "Você queria me fazer uma surpresa."

"Sim", disse ele, seus olhos suplicantes, desesperados para que eu acreditasse na fantasia que ele estava tecendo. "Tudo o que eu faço, Elisa, é por você. Sempre."

Antes que eu pudesse responder, um grito ecoou do corredor acima de nós. A voz de Cíntia. "Bernardo! Socorro! Acho que estou sangrando!"

Sua cabeça se virou. Seu corpo inteiro ficou tenso. Por uma fração de segundo, ele ficou dividido, seu olhar vacilando entre mim e o som da voz dela.

Foi apenas um segundo. Mas naquele segundo, eu vi sua escolha. Eu vi tudo.

Então, de baixo, um grito de pânico. Um carrinho de hospital, carregado com pesados tanques de oxigênio, havia se soltado de um funcionário no andar de baixo. Estava descendo a rampa em direção à escadaria, diretamente em nossa direção.

Não havia tempo para pensar. Apenas para reagir.

Naquele momento final e esclarecedor, Bernardo Castilho fez sua escolha. Ele não me empurrou para a segurança. Ele não tentou nos proteger a ambos.

Ele soltou meu braço e se jogou na frente de Cíntia, que havia aparecido no topo da escada. Ele se tornou seu escudo humano.

E me deixou para enfrentar o impacto sozinha.

O mundo explodiu em uma cacofonia de metal rangendo e vidro se estilhaçando. A força da colisão me jogou contra a parede de concreto. Minha cabeça bateu contra o corrimão, e uma dor lancinante atravessou meu corpo.

Enquanto a escuridão me consumia, a última coisa que vi foi Bernardo, já de pé, me ignorando completamente, seus braços envolvendo uma Cíntia choramingando, sussurrando palavras de conforto em seu cabelo. Ele nem sequer olhou para trás.

---

Capítulo 3

Ponto de Vista: Bernardo Castilho

Um pesadelo.

Essa era a única palavra para aquilo. Eu estava preso em um sonho recorrente onde eu estava na beira de um penhasco, Elisa de um lado, Cíntia do outro. O chão desmoronava, e eu só podia salvar uma. Todas as vezes, eu estendia a mão para Elisa, meus dedos roçando os dela, apenas para ela escorregar do meu alcance enquanto eu era forçado a puxar Cíntia de volta da beira. Eu acordava suando frio, o nome de Elisa um grito rouco em meus lábios.

Quando finalmente saí da névoa da anestesia no hospital, o sonho se agarrou a mim como uma mortalha. A primeira coisa que vi foi Elisa. Ela estava sentada em uma cadeira ao lado da minha cama, o rosto pálido e abatido, uma bandagem enrolada na cabeça. Seus olhos, geralmente da cor de mel quente, estavam frios e vazios.

Alívio, tão agudo e potente que era doloroso, me invadiu. "Você está bem", eu sussurrei, minha voz rouca. "Graças a Deus."

Estendi a mão para a dela, mas ela se afastou como se meu toque a queimasse.

"O médico disse que você teve uma concussão", disse ela, seu tom plano, desprovido de qualquer emoção. "E várias costelas fraturadas. Cíntia está bem. Você a protegeu bem."

A culpa era um peso físico, pressionando meu peito, dificultando a respiração. "Elisa, eu... eu entrei em pânico. Eu nunca quis que você se machucasse. Você tem que acreditar em mim."

"Eu acredito que você entrou em pânico", disse ela, seu olhar inabalável. "E no seu pânico, você fez uma escolha. Você sempre faz." Ela se levantou. "Eu quero o divórcio, Bernardo."

As palavras me atingiram mais forte que os tanques de oxigênio. "Não. De jeito nenhum. Nós não vamos nos divorciar."

"Não é uma negociação."

"Qualquer coisa menos isso", eu implorei, tentando me sentar, mas a dor nas minhas costelas era cegante. "Eu faço qualquer coisa. Eu me livro dela. Eu mando a Cíntia embora, eu juro. Podemos voltar a ser como éramos."

Um lampejo de algo - desprezo, talvez - cruzou seu rosto. "Você quer que eu te perdoe? Tudo bem. Eu perdoo, com uma condição."

Esperança, desesperada e patética, surgiu em mim. "Qualquer coisa."

Seus olhos endureceram. "Eu quero que ela sofra um aborto. Igual aos meus. Faça acontecer, Bernardo. Faça ela perder o bebê que vocês dois criaram. Então podemos falar sobre perdão."

Eu a encarei, horrorizado. A crueldade da exigência era chocante, mas o que me chocou mais foi que veio dela. Minha gentil e compassiva Elisa. "Eu não posso fazer isso", sussurrei. "É uma criança inocente."

Sua risada foi um som frágil e feio. "Inocente? Meu primeiro filho era inocente? Meu quinto? Meu décimo? Eles não eram inocentes o suficiente para você poupar? Ou sua dívida com Cíntia superou a vida deles?"

O sangue sumiu do meu rosto. Ela sabia. Deus, ela sabia de tudo.

"Como..."

"As paredes deste hospital são mais finas que as suas mentiras", ela cuspiu. "Você a escolheu, Bernardo. Você a escolheu em vez de mim, repetidamente. Você escolheu protegê-la de uma queda pequena enquanto eu estava sangrando até a morte. Você escolheu protegê-la de um carrinho desgovernado enquanto eu recebia o impacto total. Você escolheu o bebê dela em vez dos dez que você assassinou dentro de mim. Então não ouse falar comigo sobre inocência."

Ela caminhou até a porta, suas costas retas e rígidas.

"Onde você vai?", gritei, minha voz falhando.

"Ver sua 'barriga de aluguel'", disse ela, sem se virar. "Quero dar meus parabéns."

A porta se fechou atrás dela, me deixando sozinho com os destroços das minhas escolhas.

Eu tinha que consertar isso. Tinha que fazê-la entender. A dívida com Cíntia era real, uma obrigação tóxica que apodreceu por uma década. Mas meu amor por Elisa... isso também era real. Era a única coisa pura e inegável na minha vida. Era uma obsessão, uma possessão, o próprio cerne do meu ser. Eu construí meu império para ela, destruí sua família para possuí-la, e eu queimaria o mundo até o chão antes de deixá-la ir.

Ignorando a dor lancinante, arranquei meu próprio soro e saí cambaleando do meu quarto, seguindo-a pelo corredor.

Quando cheguei ao quarto de Cíntia, a cena lá dentro me congelou no lugar. Elisa estava de pé ao lado da cama, um sorriso sereno, quase agradável, no rosto. Cíntia estava apoiada nos travesseiros, parecendo triunfante.

"Bernardo, querido", Cíntia arrulhou, me vendo na porta. "Elisa estava me dizendo como está feliz por nós. Ela entende que algumas mulheres são simplesmente... estéreis. Não é culpa dela ser defeituosa." Ela deu um tapinha na barriga. "Mas graças a Deus você me tem para te dar um herdeiro saudável."

O sorriso de Elisa não vacilou. "Sim", disse ela, sua voz suave como seda. "Estou tão emocionada. Na verdade, vim te dar um presente."

Antes que alguém pudesse reagir, ela se esticou e pegou a jarra de água da mesa de cabeceira de Cíntia. Com um movimento do pulso, ela esvaziou a jarra inteira de água gelada diretamente na barriga grávida de Cíntia.

Cíntia gritou, um som agudo de choque e indignação.

"Que porra você está fazendo?", eu rugi, correndo para frente.

Elisa apenas ficou lá, sua expressão beatífica. "Apenas ajudando-a a se refrescar. Os hormônios da gravidez podem ser tão... inflamatórios."

Eu empurrei Elisa para o lado, minhas mãos pegando uma toalha para secar uma Cíntia furiosa e engasgada. "Você está louca?", gritei por cima do ombro para minha esposa.

"Talvez", Elisa respondeu calmamente. "Você teve cinco anos para me levar até lá."

Cíntia, vendo sua oportunidade, caiu em soluços dramáticos. "Ela está tentando machucar o bebê, Bernardo! Ela está com ciúmes! Você tem que tirá-la de perto de mim!"

Virei-me para Elisa, meu rosto uma nuvem de fúria. "Saia. Agora."

Ela apenas olhou para mim, seus olhos cheios de uma decepção arrepiante e profunda. Era um olhar que dizia que eu havia falhado em um último e crucial teste. Sem outra palavra, ela se virou e saiu do quarto.

Eu sabia que deveria ter ido atrás dela. Sabia que estava cometendo outro erro catastrófico. Mas Cíntia estava chorando, agarrando o estômago, e o instinto primitivo e protetor - aquele que eu aprimorei por uma década para mantê-la segura, para pagar minha dívida - assumiu o controle.

Eu fiquei. Acalmei Cíntia. Prometi a ela que Elisa não chegaria perto dela novamente. E a cada palavra, eu podia sentir o fio invisível que me conectava à minha verdadeira esposa se esticando cada vez mais fino, até que finalmente se partiu.

---

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022