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O Marquês de Sangue - Livro Um

O Marquês de Sangue - Livro Um

Autor:: Rachel Raya
Gênero: Romance
Ana Blackwood é a filha mais velha do Barão de Ackley. Tudo começava a se encaixar na vida da dama, um amor correspondido, uma proposta de casamento planejada, tudo o que uma jovem poderia desejar. Porém, ao contrair uma doença, a jovem dama se vê entre a vida e a morte.Deixando a movimentada Londres da era regencial para cuidar da saúde, ela conhece Nathaniel Schumer, seu novo médico que se apaixona por ela enquanto a dama estava sob seus cuidados, e reencontra Leticia Castellon, que trabalha na fazenda do Barão como criada.O que Ana não espera, é que a amizade que surge entre ela e Nathaniel, abrirá as portas para um mundo completamente diferente do que ela conhece.A chegada do meio-irmão de Nathaniel, Vladimir Strauss, o Marquês de Lancaster, vira todo o mundo de Ana de cabeça para baixo, a fazendo duvidar de seus princípios e dos sentimentos que nutre pelo Visconde de Redfield.Ana descobre a existência de vampiros e lobisomens vivendo entre humanos desde eras passadas. Com a ajuda de seu novo mentor, terá de se adaptar a sua nova vida e aprender a conviver nessa nova realidade, o que se mostrará um desafio e tanto para a dama, já que Lorde Strauss é tudo, menos um cavalheiro respeitável.

Capítulo 1 Prólogo

Copyright © 2021 Rachel Raya

Registro: Fundação Biblioteca Nacional

Capa: Cris Matthiesen

Diagramação: Ana Zarpelon

Revisão: Jhonã Magnane

Rachel Raya. ― 2ªed ― Publicação independente

2021.

1. Literatura brasileira 2. Fantasia 3. Romance de época

A autora desta obra detém todos os direitos autorais

registrados perante a lei. Em caso de cópia, plágio e/ou

reprodução completa e/ou parcial indevida sem a

autorização, os direitos do mesmo serão reavidos

perante à justiça.

"Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998."

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

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Para meu melhor amigo, que me incentiva a escrever mesmo demorando uma semana para ler uma página.

Para meus pais que me aturam quando eu surto por causa dos meus próprios personagens.

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PRÓLOGO

Ele precisava correr se quisesse alcançá-los. As ruas estavam desertas, não teria problema em montar, no entanto, seu braço machucado o impediria de controlar o animal e ele acabaria morrendo ao ser arremessado. Era arriscado demais. Se seguisse pela Grosvenor conseguiria chegar até o local em um terço do tempo estimado. Sentindo os músculos das pernas arderem pelo exercício, afinal, correra por quase toda Mayfair atrás daqueles dois, tomou fôlego e seguiu a rota traçada. Sabia que aquilo era um mau presságio. Quando vira os corpos semanas antes, percebera que aquilo significava algo ruim para eles. Gostaria de voltar no tempo e ter fugido de Londres, pelo menos até que os quatro estivessem em condições mais vantajosas.

Um centenário... aquilo era um problema pelo qual não esperava passar nem tão cedo.

Chegando ao lugar marcado no mapa, puxou sua pistola, respirou fundo e abriu a porta. Fazendo parte de um mundo como aquele, manter a guarda levantada era o requisito número um.

A imagem que se seguiu após atravessar o imenso hall mal iluminado o fez arfar, ódio e pavor o dominaram em instantes; seu precioso irmão estava jogado sobre uma pilha de madeiras em um salão vazio. O braço direito jazia longe do corpo, jogado em uma poça de sangue, arrancado por uma fera. A perna esquerda estava retorcida de uma forma nem um pouco natural e os ossos perfuravam a carne, mostrando todos os pontos fraturados.

Aproximando-se daquele que um dia fora seu irmão, as lágrimas começaram a embaçar sua visão, mas ainda assim ele conseguia ver. As madeiras perfuravam todo o corpo inerte, era como se o tivessem jogado em uma cama de estacas. Ele mataria quem fizera aquilo, não permitiria que a criatura que praticara tamanho ato hediondo contra sua família sobrevivesse por mais um dia sequer.

Uma brisa suave roçou sua nuca e ele virou-se com a pistola em punho e, antes que pudesse dispará-la, a criatura quebrou seu braço e o atirou contra uma grande coluna de mármore. Uma bota o acertou com força várias vezes, aquela força era sobre-humana. Ouvia o som de seu corpo se partindo de dentro para fora enquanto urrava de dor e cuspia o próprio sangue.

Ele era um estorvo, um peso morto. Não conseguia nem salvar o próprio irmão. Ainda bem que não podia ver a vergonha que causava a eles, já que estava morto. Logo também estaria, e ambos arderiam no inferno pelo que fizeram a ela. Ela... A imagem da jovem de olhos púrpura veio a sua mente, aquilo amenizou sua dor. Ou era a inconsciência o chamando? Sentia sua visão falhar, a imagem daquela criatura se fartando em seu braço o fazia desejar ainda mais a morte.

Ossos quebrados, sim, ele sentia os ossos quebrados. Não apenas em seus braços como em suas pernas. Respirar era difícil, seus pulmões perfurados por uma, duas, três, inúmeras costelas quebradas. Afogava-se em seu próprio sangue. O ar rodeava tudo ao seu redor, mas ele não conseguia sugá-lo. Aquele seria seu fim, pelo menos sabia que morreria pelos motivos certos, tentando salvá-los.

Sua visão escurecia ainda mais. Tudo o que ele queria era poder dizer adeus antes de partir, pedir perdão pelo tempo perdido, quem sabe até tocar seu rosto uma última vez. Não, ele não merecia tamanha dádiva.

Seus olhos se fecharam pelo que ele pensou ser a última vez, estava preparado para deixar aquele mundo.

"O que está acontecendo aqui? ", ouviu. Foi a última coisa que escutou antes de se entregar aos braços da morte.

Capítulo 2 O fim

Ana seguia pelas ruas de Mayfair com seu chapéu mal amarrado apertando suas têmporas, com grampos nos cabelos quase perfurando seu crânio, fazendo sua cabeça latejar. Estava de péssimo humor, sentia uma fadiga injustificável e um peso em suas pernas que só lhe eram característicos quando estava em seus dias. Isso sem falar do suor que atrapalhava suas noites de sono. Lutava para manter a imagem serena de uma dama recatada quando tudo o que queria era deitar-se em sua cama e dormir pelo resto da semana.

Sua mãe seguia na frente de braços dados com seu pai, Charles, enquanto Jonathan a guiava e sussurrava sobre as apostas que fizera e o lucro que obtivera. Se os pais de Ana o ouvissem falando sobre apostas, o repreenderiam seriamente pela falta de decoro. Ana não se importava, não gostava de apostas e jogos de azar, no entanto, sabia como o amigo adorava falar sobre esse assunto e, para agradá-lo, fingia interesse.

O caminho até a casa de Lorde Redfield era curto, o visconde morava próximo à família de Ana, e como Charles Blackwood, Barão de Ackley, queria mostrar à sociedade que sua filha era próxima do Visconde de Bristol, Lorde Ackley fazia o esforço de mover sua pança pelas ruas de Londres.

A cabeça cheia de cachos loiros emoldurados por um chapéu lilás virou-se suavemente e Theodora deu uma rápida olhada para a filha. Ana parecia não ouvir uma palavra do que Jonathan dizia, o que não era comum, já que a filha sempre participava ativamente dos assuntos, mesmo quando simulava atenção. Talvez estivesse indisposta pela chuva forte que pegara dias antes enquanto caminhava pelo parque, logo após uma visita a um hospital para praticar caridade. Ana visitava o lugar fazia meses sem que os pais soubessem. Theodora descobriu depois de enviar um lacaio para segui-la. Desde então, a filha a avisava antes de sair e a mãe acobertava suas escapulidas. Temia por Ana, mas sabia que o desejo da filha de ajudar era um dom herdado do pai, e Theodora jamais se colocaria entre Ana e a missão divina que a filha recebera. Agora, se Charles soubesse que a filha visitara um lugar como aquele, as consequências para ela seriam desastrosas.

Ana tentava acompanhar o assunto da vez, contudo, mal conseguia distinguir as palavras que saiam da boca de Jonathan, aquela situação era um desastre. Estava na companhia do homem que amava e, assim que começasse a temporada, esperava ter coragem para se confessar; por isso não conseguia aproveitar o momento. Jonathan parecia não notar a diferença no comportamento dela, continuava falando sobre suas conquistas dentro da câmara dos lordes e sobre como naquele ano sua viscondessa traria para Londres um brilho sem igual.

- Viscondessa? - Ana conseguiu dizer. - Já decidiu com quem se casará?

- Sim, é claro que decidi. Dentro de semanas pedirei a mão dela a seu pai e anunciarei o noivado.

- Já conversou com a dama sobre o assunto, para saber se ela está de acordo com o enlace?

- Ainda não, mas não vejo por que negaria. Ela não é uma beldade aos olhos da sociedade, e as chances de conseguir mais propostas são pequenas. Não que me gabe disso, mas não gosto de concorrência - Jonathan riu.

- E para você? Ela também não é uma beldade? Está pensando em desposá-la por pena? - Ana temia a resposta, foram muitos anos nutrindo sentimentos por Jonathan para então descobrir que, caso ela fosse a escolhida, a desposaria por pena. Seu pai possuía melhores condições financeiras, mesmo estando abaixo na linha da nobreza, mas Lorde Redfield não precisava de dinheiro, não pelo que contava a ela. Ana não era uma beldade, era muito mais alta que as demais damas, e seus olhos de cor diferente fazia-a sentir-se como uma atração bizarra ao invés de sedutora. Seus pais possuíam olhos azuis da cor do céu, bem como sua irmã caçula, mas ela nascera com aqueles esquisitos olhos lilases.

- Jamais a enxerguei com pena, pelo contrário. Você me conhece, Ana. Jamais me casaria com uma dama que não fosse, no mínimo, minha melhor amiga e que eu considere bonita.

- Posso saber que dama é esta que o arrebatou a ponto de se tornar sua melhor amiga?

- Ora, você, como minha melhor amiga, deveria saber a resposta. - Jonathan abriu um sorriso e Ana o encarou levantando as sobrancelhas. O jovem ruivo e da mesma estatura que ela piscou um olho e sorriu descontraído. Ana adorava o tom castanho dos olhos dele. Seus lábios se curvaram em um sorriso tímido e ela voltou a fitar o caminho.

Tudo corria bem, Jonathan acabara de confessar seus sentimentos e indiretamente a pedira em casamento. Ainda demorariam semanas até que o pedido fosse feito, mas saber que era correspondida já a deixava extasiada. Ana sentia que o cansaço aumentava conforme seguiam pela rua que os levaria até Redfield Manor. Suas pernas pareciam não querer obedecê-la, em um segundo estava caminhando, no outro sentia sua visão escurecer e ouvia a voz desesperada de Jonathan.

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- É apenas uma gripe, Milady, senhorita Ana precisa descansar e tomar bastante chá. Deixarei láudano e um preparado de ervas para o banho. Não esqueçam de deixá-la em repouso total. Em alguns dias creio que sua filha estará recuperada.

- Tem certeza, doutor? Ana tem tido algumas tosses incomuns há algumas semanas, não é a primeira vez que fica de cama com cansaço.

- É perfeitamente normal, Milady. É possível que a dama esteja descansando pouco e se alimentando mal. Precisará vigiar as refeições e certificar-se de que não pule nem o chá da tarde.

Após deixar todas as recomendações necessárias, o médico partiu, deixando Theodora sozinha com a filha no quarto da jovem. A baronesa segurava a mão da filha quando essa despertou. Ana ainda estava desnorteada pelo láudano e tossia mais do que o comum. A jovem sempre tivera uma saúde um tanto frágil. Na infância era dada a ter febres e resfriados fortes, fora um milagre ter sobrevivido. Mas ao chegar à fase adulta, Ana se tornara um pouco mais forte, no entanto, ainda caía de cama mais vezes do que uma pessoa normal.

- Logo tudo ficará bem, minha querida. O médico disse que é apenas uma gripe - Theodora falou com mansidão para acalmar a filha.

Na tarde seguinte, Ana emitiu alguns sussurros entre os intervalos da tosse quando sua mãe voltou ao quarto. A jovem perguntou sobre Jonathan.

- Ficou apavorado com seu desmaio. Foi difícil tirá-lo da sala de visitas. Perguntava incessantemente o que acontecera com você e quando eu disse que talvez fosse indisposição após uma chuva, o visconde não se contentou e interrogou o médico para saber se o que tinha era contagioso. Ele pareceu mais aliviado quando o doutor revelou que era uma simples gripe.

Ana balançou a cabeça em concordância e voltou a fechar os olhos. A criada da jovem secava sua testa quando ela voltou a tossir, dessa vez de forma agressiva. Janette se assustou ao ver sangue saindo da boca da jovem, sujando a manga da camisola conforme colocava a mão na boca. Theodora arregalou os olhos ao ver a mancha vermelha e saiu imediatamente do quarto da filha.

Horas mais tarde ela retornou com o médico e o implorou que assegurasse de que era apenas um resfriado. Depois de analisar a piora no estado da paciente, Henry Phillip chamou a baronesa à parte e lhe deu a pior notícia que uma mãe poderia receber.

- Milady, sinto muito. A piora no estado da sua filha e a aparição de sangue são péssimas notícias. A senhora disse que ela tosse há alguns meses e têm resfriados mais vezes do que o comum, certo? - O médico limpava as mãos em uma vasilha com água. - Sabe por onde sua filha tem andado e se teve contato com outros doentes?

- Ana costuma visitar um hospital escondido do pai para praticar caridade. Ela ajuda a organizar papéis com informações sobre os doentes. Nunca mencionou contato direto com nenhum enfermo.

O doutor voltou ao quarto da jovem e a questionou sobre suas idas ao hospital, sobre o estado dos pacientes e se houve algum contato. Ana, com dificuldade, lhe explicou sobre o único contato que teve, uma jovem que caiu no corredor próxima a ela. Ana disse que ajudou a garota, a qual tossia incessantemente, e depois voltou a fazer seus trabalhos com os arquivos. Henry a questionou sobre o estado da paciente doente, e Ana o revelou que a garota morrera semanas depois.

A jovem não entendia de doenças, ia ao hospital ajudar em memória de seu falecido tio, que era médico. Winston falava para a sobrinha sobre a importância de salvar vidas e dedicar-se ao bem da humanidade. Winston havia morrido há um ano, vítima de uma doença desconhecida.

Tendo recolhido todas as informações necessárias, o médico deixou o quarto e suspirou pesadamente ao fechar a porta. A menina era tão jovem, acabara de completar vinte anos. Aquela seria uma perda muito pesarosa para a família. Chamando os pais de Ana, o médico lhes deu a triste notícia:

- Meus senhores, sinto lhes informar, mas o pior aconteceu. Sua filha contraiu tuberculose de alguém infectado pela doença.

- Tuberculose? O que é isso? Do que está falando, homem? Ontem mesmo disse a minha esposa que era apenas gripe! - O barão, visivelmente exaltado, tentava entender o que acontecia em sua casa.

- Talvez a conheçam pelo nome "Peste Branca". Sua filha provavelmente a contraiu no hospital que tem frequentado.

Charles olha para a esposa com ira nos olhos, ele sequer sabia que aquela garota rebelde andava se esgueirando para lugares imundos e inadequados para uma dama.

- O que podemos fazer por ela? - Charles quase rosna as palavras.

- Levem-na para um lugar onde possa passar o tempo que lhe resta em paz. Eu sugiro Bath. Caso não consigam, apenas a tirem de Londres. Este lugar não faz bem aos doentes.

- Doutor! Está nos dizendo que nossa filha morrerá? Deve haver alguma maneira de curá-la! - Theodora o encarou desesperada.

- Sinto muito. A esta altura não há nada que eu ou qualquer médico possa fazer. Aproveitem o tempo que lhes resta com a jovem dama. Agora, se me dão licença, ficar aqui é um risco para a minha saúde também.

Henry Phillip deixou a casa sob os protestos de Lorde e Lady Blackwood. Charles deu uma bofetada na face da esposa assim que ficaram sozinhos, e Theodora sentiu lágrimas caírem pelo rosto.

- Como pôde ser tão inconsequente? Ainda por cima escondeu as burradas que sua filha fazia pelas minhas costas.

- Eu não sabia que ela ficaria doente! Ela disse que não corria risco ficando na sala de documentos. Disse que ninguém além do médico encarregado do hospital sabia da presença dela e que ele era amigo de Winston.

Ao ouvir o nome do irmão, Charles quebrou um vaso ao jogá-lo na parede. Sempre soube da preferência de Ana por Winston Blackwood. O que Ana não sabia era que Winston era seu verdadeiro pai. Charles nunca perdoara a esposa pela traição, mas sabia que a culpa era sua por tê-la desposado sabendo que estava apaixonada por seu irmão mais novo. Cego pela beleza da mulher, não pensou duas vezes em aceitar o acordo entre as famílias. Contudo, não a tocou nos primeiros meses de casamento depois de vê-la saindo furtivamente de uma cabana com seu irmão um dia antes do casório. Meses depois veio a confirmação. Theodora estava grávida, e Charles sabia que a criança não era sua. Aquela fora uma noite de horror. Quase matara o irmão a pauladas e jurara destruir Theodora. Entretanto, sua ira foi apaziguada com o nascimento da menina. Theodora jurou nunca mais se aproximar de Winston, e o irmão nunca mais pôs os pés em qualquer propriedade da família. Muitos anos depois, Charles ficou severamente machucado após uma caçada e Winston o salvou da morte. Aquilo selou uma trégua entre ambos, já que o irmão casara e tinha sua própria família. Ele mesmo vivia bem com Theodora, então abriu novamente as portas da casa para que o irmão pudesse achegar-se a eles. Ana se apegara tanto ao tio que tornaram-se confidentes, mas no ano seguinte Winston morreu repentinamente de uma doença desconhecida.

Theodora, jogada ao chão, implorava para que o marido a perdoasse. Charles desviou-se das súplicas da mulher e ordenou aos criados que fizessem uma lista de médicos para contatar e trazer até a residência a fim de examinar a filha.

Semanas se passaram e o estado da jovem piorava. Decidido a esconder da sociedade o que acontecia em sua casa, Charles tomou a decisão de partir para Manor Grace, sua propriedade na Escócia. Um senhor entre dezenas de médicos que visitaram sua casa lhe contou sobre um homem que já havia curado alguns pacientes com os mesmos sintomas da jovem dama. Decidido a agarrar-se a essa oportunidade, o barão partiu com a esposa e as duas filhas para a Escócia. Não deixaria a filha de Winston morrer, não permitiria que o irmão tivesse o deleite de aproveitar a companhia da garota no além.

Capítulo 3 Um novo caminho

Viajar para a Escócia era cansativo, ainda mais quando precisava ir em uma carruagem sozinha. Seu pai fizera questão que fosse separada para que não pusesse a vida dos outros em risco. Ana ainda não sabia o que tinha, mas sabia que era grave o suficiente para fazer seu pai sair da cidade em plena alta temporada. Tudo aquilo era estranho e suspeito, não recebera quaisquer notícias sobre Lorde Redfield desde o dia que desmaiara, seus pais a mantinham isolada de todos e Charles a olhava com repreensão toda vez que ela tentava perguntar algo sobre sua saúde.

Ana não era ingênua, não sabia qual era a doença que a mantinha presa à cama, mas fazia ideia de que não possuía muito tempo de vida. Estava tão magra que mais parecia um saco de ossos e seus olhos haviam perdido o brilho, dando lugar a esferas quase sem vida. Aquela viagem em si era arriscada demais, precisara do dobro de esforço para chegar até o destino.

Já em Manor Grace, uma enorme fazenda cercada por pasto para o rebanho de ovelhas, na região de Dumfries, Ana sentiu-se aliviada. Precisava de um banho quente e de descanso. Às portas da residência, um jovem de cabelos castanhos e olhos cor de avelã aguardava a família junto de Leticia, sobrinha de Judith, a governanta da casa. A jovem de pele de ébano e grandes cachos parecia encantada pelo rapaz alguns passos à frente. O jovem era alto e esguio, mas seus ombros largos lhe davam certa presença, chamando atenção para a sua beleza. Ana não sabia quem era aquele rapaz, nem se importava em descobrir o que ele falava tão avidamente com seu pai, tudo o que queria era descansar.

Já em seu quarto, a jovem tentava cochilar após um banho quente e um prato de sopa trazidos por Leticia, sua nova criada, no entanto, seu sono fora interrompido pela batida na porta seguida da voz de um criado anunciando a entrada do médico Nathaniel Schumer.

- Boa tarde, senhorita Blackwood. Eu serei seu novo médico a partir de agora. - Nathaniel abriu um sorriso e colocou um jarro de camélias brancas sobre a mesa de cabeceira da dama. Ana franziu o cenho para o gesto e o olhou com desconfiança. - Não se preocupe, são apenas flores. Costumo dizer para meus pacientes que a natureza possui muitos benefícios para a nossa saúde, manter-se próximo a ela é uma questão de sabedoria.

- O que deseja, doutor? - Ana sentia o peito arder pela força que fazia para tentar não tossir.

- Serei sincero com a senhorita, sua situação não é boa e farei o melhor que posso para curá-la - Nathaniel disse, agora em um tom sério.

- Doutor, acha que não percebi que minha situação é grave? Todos tentam esconder a verdade de mim, mas sei que tenho pouco tempo de vida.

- Você contraiu tuberculose. Sim, está morrendo, contudo, ainda há esperança. Por isso peço que confie plenamente em mim e acate todas as minhas ordens. Jamais farei algo para prejudicá-la, então, mesmo que pareça loucura, faça tudo o que eu mandar.

Ana acenou em concordância e Nathaniel esperou a dama conseguir controlar a tosse para voltar a falar.

- Começaremos o tratamento hoje, na verdade, neste exato momento. A jovem Castellon se ofereceu para me auxiliar em todo o processo. Admiro a coragem dela, em muitos casos vi empregados abandonarem seus cargos por conta da doença de seus patrões. - O médico limpou o pigarro da garganta. - Enfim, trouxe alguns preparos feitos com água do mar para que a senhorita beba todos os dias. Eu a levarei para tomar banho de sol todas as manhãs e passarei a cuidar pessoalmente das suas refeições. De agora em diante, só comerá o que eu autorizar e não fará nenhum exercício além do que eu mandar.

Nathaniel se aproximou e entregou à jovem um frasco de vidro. Ao pegá-lo, Ana o levou à boca sem ao menos perguntar o que era. A cara feia que veio em seguida mostrou o arrependimento de não ter questionado sobre o líquido.

- Isso é horrível!

- Bem, eu não disse que seria saboroso... - O médico riu desajeitado. - Que bom que virou de uma vez, água do mar com mel realmente não tem um gosto muito agradável. Eu a deixarei descansar por hora e mais tarde voltarei para ver como está, e a senhorita Castellon a ajudará com as outras necessidades.

Dito isso, o médico deixou o quarto de Ana e seguiu para o quarto que lhe fora designado pela governanta. A jovem chamada Leticia o guiara por um tour por toda a casa mostrando todos os cômodos em uso e que poderiam ser adaptados para a paciente. Nathaniel tinha esperança de que a jovem fosse se recuperar, pelo menos era o que ele desejava. Ana Blackwood possuía algo que o deixava fascinado, mesmo doente, achava a jovem encantadora, e era notável a força que possuía, em outros casos os pacientes não teriam suportado sequer a viagem de carruagem.

Ana acordou na manhã seguinte com cortinas se abrindo e a luz do sol iluminando sua face. O médico a encarava com um sorriso nos lábios parado próximo à pequena mesa redonda, que servia para que Ana fizesse suas refeições. Leticia aguardava de cabeça baixa as ordens do dia enquanto Nathaniel segurava um vidrinho com um de seus preparos medicinais e um caderno de anotações. Ana se vestiu após a saída do médico e tomou o desjejum. Após isso, fora notificada que um lacaio a carregaria até os jardins da casa para encontrar novamente seu médico.

- Senhor Schumer, não acha que me forçar a fazer tantas atividades fará mal a minha saúde? - Ana já sentia o cansaço tomar conta de si outra vez.

- Senhorita, precisamos aproveitar que sua febre está sob controle para que tome um banho de sol. É importante que faça isso todos os dias. - Nathaniel posicionou a espreguiçadeira para que a jovem se deitasse e sentou em uma cadeira próxima. Soltou um suspiro ao pensar na situação atual. - O ideal era que estivéssemos próximos à praia.

- Se fosse da nobreza entenderia as razões de meu pai. Estou com uma doença contagiosa, segundo suas explicações. Sou uma mancha para minha família. É claro que meu pai tentaria me esconder dos olhos da sociedade. - Ana olhava cabisbaixa para a grama. Sabia que o pai fazia o certo, mas aquilo a magoava ainda assim. Charles não a visitava para ter notícias, não chegava nem próximo ao quarto da filha, e impedia Theodora e Katherine de fazê-lo. Ana estava isolada de sua família mesmo morando sob o mesmo teto, tinha notícias de sua mãe apenas por bilhetes entregues por Nathaniel. Também não recebia notícias de Jonathan desde Londres. Aquilo era ainda mais assustador, pois enviara notícias suas a ele mais de uma vez e tudo o que obtivera fora silêncio.

A incerteza de tudo o que acontecia ao seu redor a mantinha em um eterno estado de angústia. Era como viver trancada em um armário enquanto ouvia todos vivendo suas vidas fora daquela prisão. Ana olhou para o homem que aproveitava o sol de olhos fechados enquanto cantarolava uma música. Ele seria sua única companhia até que estivesse recuperada ou morta. A segunda opção era a mais provável.

- Sabe, não faço parte da nobreza, como bem disse, mas possuo um irmão que faz. Posso garantir a senhorita que tento escondê-lo o máximo que posso, e olha que ele nem está doente.

- Não sabia que tinha nobres na família, pelo seu sobrenome não pensei que fosse sequer inglês. Sua família é da Prússia?

- Ah... minha família é um verdadeiro quebra-cabeça. - Nathaniel riu. - Minha mãe é inglesa, nasceu em Bristol, casou-se com o Marquês de Lancaster e gerou Vladimir. Porém, Ensel Lenert Von Strauss, pai de Vlad, não é totalmente inglês, o pai dele fazia parte da nobreza prussiana. Herdou o título de marquês com a morte do primo Albert Downbury, e assim resolveu fixar residência na Inglaterra. Infelizmente o marquês faleceu anos depois, meu irmão ainda era criança. Quando Vlad completou 14 anos, minha mãe casou-se com meu pai, Abraham Schumer, um simpático professor, e um ano depois eu nasci. Meu pai faleceu quando completei 18 anos e minha mãe partiu no ano seguinte.

- Sinto muito. Imagino como foi difícil para você perder os dois em tão pouco tempo. Pelo menos tinha seu irmão por perto para lhe fazer companhia. - Ana sentiu-se mal por ter perguntado sobre a família dele. Não devia ser fácil falar sobre entes queridos que partiram. Ela mesma ainda chorava ao lembrar do tio.

- Bem, meu irmão é um marquês. Quando completou seus vinte anos, saiu em busca de aventuras e passou anos pelo mundo. Vlad nem sabia da morte de nossa mãe. Meu irmão passou vinte anos longe de casa e só nos reencontramos há alguns anos. - Nathaniel tentava esconder a tristeza ao falar sobre o sumiço de Vladimir, mas Ana sentiu o pesar na voz do homem.

- Que bom que seu irmão retornou. Espero conhecê-lo algum dia.

- Acredite em mim, a última coisa que gostará é de conhecer meu irmão. Não é sem motivos que tento escondê-lo da sociedade. Vladimir é o escândalo em pessoa e às vezes é difícil controlá-lo.

Ana achou aquilo intrigante. Aproveitou a manhã inteira conversando com seu médico sobre a nobreza de outros reinos e a vida em Londres. Ficou surpresa pelo quão prazerosa fora a manhã ao lado do senhor Schumer. Decidiu, por fim, que aproveitaria os seus dias na companhia dele, e tentaria não pensar no que a magoava. Havia muito o que organizar antes de partir.

Na semana seguinte, conversou com Nathaniel sobre seu desejo de correr pela grama, como fazia na infância. Sentia saudade de ser uma pessoa saudável outra vez, contudo, não sentia faltada vida agitada da cidade. Gostava de ler e descobrir as novidades que surgiam advindas das descobertas científicas. Ana sempre se perguntava até onde a raça humana chegaria, até que ponto o homem poderia inventar coisas novas.

- Não se preocupe, eu lhe garanto que poderá correr novamente. Já teve o prazer de sentir a água do mar batendo em seus pés? - Nathaniel a perguntou enquanto os dois deitavam em espreguiçadeiras para passar a tarde.

- Nunca. Já vi o mar, entretanto, nunca tive a oportunidade de me aproximar dessa forma. Por mais que hajam cabines de banho para damas, meu pai sempre as considerou aquém do decoro.

- Gostaria de libertá-la dessas amarras, senhorita Blackwood. - Nathaniel sorriu para ela. - Acredito que nasceu para muito mais do que lhe foi permitido. Seus olhos mostram isso. Me desculpe pela escolha de palavras, mas seus olhos contêm uma tempestade disfarçada de brisa suave.

- Descobriu tudo isso em uma semana? - Ana zombou. - Devo estar lidando com um gênio e não fui informada. - Ela brincou, abrindo um pequeno sorriso.

- Não se preocupe em esconder nada de mim, até que se recupere, serei seu principal ouvinte e confidente. - Nathaniel lhe estendeu a mão e assim que Ana correspondeu o gesto, o médico abre um sorriso largo.

- Obrigada, senhor Schumer. Estou necessitada de um amigo de verdade.

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Meses se passaram e Ana criou uma amizade sólida com Nathaniel. A convivência diária entre os dois abriu os olhos do homem para a pérola escondida dos Blackwoods, da mesma forma que Ana descobriu o excelente companheiro e incentivador que existia em Nathaniel.

Ambos conversavam e debatiam sobre diversos temas sempre que Ana estava disposta, Nathaniel continuava ao lado da jovem mesmo sob o risco de contrair a doença. Ele preferia daquela forma, não se importava consigo contanto que fizesse Ana sorrir mais um dia. Sentia desesperadamente em seu coração a vontade de facilitar a vida para ela, portanto, arriscar a sua era só um detalhe. Nathaniel a ajudava em quase tudo e, nas tarefas que não podia, Leticia a auxiliava. A garota permanecia ao lado de Nathaniel e Ana ainda que recebesse ordens da tia para se afastar, haja vista o quadro de Ana, que só piorava; o restante dos criados tinham receio de se aproximar.

Lorde Blackwood levara a esposa e a filha para Londres para que não assistissem a piora da jovem e não presenciassem Ana partir.

Em um domigo chuvoso, Nathaniel a levou para observar a chuva de uma das salas de convivência. Com duas lareiras acesas, o lugar estava confortável o suficiente para que Ana pudesse passar algumas horas.

- Já se apaixonou alguma vez? - Ana perguntou enquanto levava uma xícara de chá aos lábios.

- Sim.

- E? Prossiga. Quando alguém faz uma pergunta assim, é óbvio que espera pelo relato completo.

Nathaniel revirou os olhos sem perceber que Leticia aguardava atenta por sua resposta; ela fingia ler um livro no canto da sala.

- Me apaixonei algumas vezes, já era de se esperar, já que tenho trinta anos. Antes que me pergunte, não direi por quem! - Sorriu, e Ana bufou em desdém. Leticia abaixou a cabeça, voltando-se para o livro, frustrada.

- Eu não ia perguntar. - Ana olhou para a chuva que caía fina e tranquila. Sentia falta de Jonathan... Ou sentia apenas da lembrança que tinha dele? - Me apaixonei uma única vez. Me arrependo de ter escondido meus sentimentos por tanto tempo. Talvez tudo fosse diferente se eu tivesse sido sincera com ele.

- As coisas acontecem como devem ser, Ana. - O médico serviu mais chá para a jovem. - Se não confessou quando teve a oportunidade, então não era para ser. Quando se trata de sentimentos, acredito que sempre somos guiados a fazer o certo. Se nossos corações não sentem a segurança para confessar o que guardam, é porque não é a hora de falar sobre tais sentimentos. - Nathaniel tomou um gole do próprio chá e depois voltou a falar. - Ainda o ama?

- Acredito que sim, mas não sei dizer se o amo ou se amo a imagem que criei dele. - Ana interrompeu seu raciocínio com uma crise de tosse; Nathaniel a ajudou sob os protestos da jovem, e ela se acalmou outra vez. - Obrigada. - Ela conseguiu dizer depois de tranquilizar sua respiração.

- Não precisa agradecer, sabe disso. Estou aqui justamente para cuidar de você.

- Como eu dizia, acredito que talvez eu ame as lembranças que tenho dele, aquelas que floreei em minha mente. Talvez eu realmente o ame mas tento me convencer do contrário para que doa menos.

- Por que sente que doerá menos pensando dessa forma? - Nathaniel gostava desses momentos quando Ana se sentia disposta a falar, mesmo quando era sobre seus sentimentos por outro homem. Aquilo o deixava com ciúmes, entretanto, pensar que ele poderia significar algo para ela a ponto de Ana sentir-se confortável para desabafar o acalmava. Ele apenas queria que ela falasse com alguém.

- Sinto que doerá mais aceitar que morrerei sem saber como é ser amada por ele. Não saber como é estar em seus braços, ser correspondida e sentir o amor dele por mim. Talvez eu seja egoísta, mas meu coração se parte por saber que ele se casará com outra e que eu serei nada além de uma memória do passado. Não gostaria de ser apenas uma memória, queria ser a vida dele inteira, assim como ele será a minha.

Ana suspirou e colocou sua xícara de volta ao aparador. Começava a sentir muito frio outra vez, já conhecia as respostas de seu corpo e sabia o que era aquilo. Ela olhou para Nathaniel, que a observava tristonho.

- Nate... febre.

Nathaniel levantou-se em um pulo e levou Ana de volta ao quarto para que pudesse preparar o chá de casca de salgueiro branco para controlar a febre, que aumentava a ponto de causá-la alucinações.

Ele sentia, no fundo sabia que ela perderia a batalha e que já não tinha mais força de vontade para lutar. Era Nathaniel quem a mantinha ali, Ana ainda tentava por ele, para não decepcioná-lo. Mas até mesmo ela já enxergava o fim se aproximando.

- Qual é a sua coisa favorita no mundo, Leticia? - Ana perguntou enquanto a garota a ajudava a trocar de camisola.

- Não sei dizer, senhorita. Tenho muitas coisas favoritas. - Ela sorriu desviando da pergunta.

- Gostaria que ficasse com minhas joias como pagamento por tudo o que tem feito por mim.

- Não diga uma coisa dessas, senhorita! Meu pagamento será a sua recuperação. - Ela começou a escovar os cabelos de Ana.

- Leticia, se importa em conversar comigo toda noite? Confesso que ultimamente ando sentindo medo de ficar sozinha. - Ana segurou a mão da jovem em seu ombro.

- Pode contar comigo para o que precisar.

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SEMANAS DEPOIS

- Nate, o que acha de escrever cartas? - Ana, já bastante debilitada, segurava uma flor trazida pelo amigo enquanto observava os jardins sentada em uma cadeira próxima à janela de seu quarto. Fazia semanas que não conseguia deixar a cama por muito tempo.

- Gosto de cartas, de escrevê-las e recebê-las. - Aquilo não era totalmente verdade, Nathaniel detestava ler cartas, mas sabia que Ana gostava de escrever, então se prontificava a ler qualquer mísera frase que ela escrevesse.

Ana sorriu e olhou para ele. Os olhos lilases eram tão encantadores, mesmo em seus momentos de grande tribulação. Nathaniel sabia que aquela garota era uma grande observadora. Sabia que o analisava naquele momento. Ana falava pouco sobre si e menos ainda sobre seus sentimentos, no entanto haviam momentos que até mesmo ela precisava desabafar, e era isso que fazia em suas cartas. Ela as escrevia, Nathaniel lia cada uma e depois, a pedido dela, as queimava.

- Sei que não gosta de ler...

- Como poderia não gostar? Sou médico! Preciso ler montes de livros o tempo todo. - Ele sorriu para a jovem e lhe entregou um lenço ao ver que Ana começou a tossir sangue. Nathaniel passou a usar um lenço em seu rosto a pedido da moça, aquilo o deixava angustiado, mas sabia que Ana se sentiria mais confortável com sua presença se pensasse que não oferecia risco a ele.

- Agradeço por ler minhas cartas, Nate. E por cumprir sua palavra em queimá-las. Você tem sido o único amigo que me restou. Nem mesmo minha mãe me responde. Acho que meu pai a impede. - Ana queria segurar a mão do amigo e apertá-la, ter contato humano outra vez, mas temia que o médico morresse por sua culpa. Se nem os criados queriam tocá-la, sua aparência devia ser a mesma de um cão sarnento. A pedido de Nathaniel, todos os espelhos da casa foram guardados para que Ana não precisasse encarar a si mesma em um deles. Não conseguia entender como Nathaniel ainda a olhava com aqueles olhos amáveis, provavelmente por piedade, pensava ela.

- Não sei o que está acontecendo em Londres. Sinto muito por não conseguir notícias sobre Lady Theodora e a senhorita Katherine. Sobre seu amigo... Lorde Redfield, tentei entrar em contato com amigos na cidade para saber o paradeiro dele, mas tudo o que consegui descobrir é que está vivo e saudável. - Aquilo era mentira, Nathaniel se sentia péssimo em mentir para ela, todavia, não tinha coragem de contar que o futuro noivo vivia uma vida normal como se nunca a tivesse conhecido. Seria duro demais para Ana descobrir que seu único amor a superara no momento em que a dama deixara a cidade.

- Estas cartas - disse apontando para um bolinho de cartas amarradas em cima da mesa de cabeceira. - são para cada uma das pessoas importantes para mim. Não quero que as queime. Entregue a cada pessoa quando chegar a hora.

- Não perca as esperanças. Já está se preparando para me deixar? - Nathaniel tentava esconder seus sentimentos de Ana. Nos meses que passara ao lado dela, desenvolvera muito mais do que apenas amizade por ela. Estava completamente apaixonado. Pensar em um mundo sem a jovem o enlouquecia.

- Nunca disse que guardava esperanças, Nate. - Ana tentava parecer forte. No fundo, sabia que nutria esperanças de melhorar, mas sua saúde piorava a cada semana, por isso acabou deixando de acreditar em um milagre. Suas orações não eram mais para que fosse curada, e sim para que partisse em paz. Sentiria falta do amigo, das conversas e da companhia. Mas sabia que ele superaria.

- Não consigo imaginar um mundo no qual você não esteja. É estranho pensar que posso acordar e você pode não estar aqui para rir da minha barba falhada, da minha comida com gosto horrível e da minha falta de aptidão para recitar poemas para que você possa cochilar. - Cada frase abriu um buraco em seu coração. Ana era importante para ele, mais do que qualquer outro além de Vladimir.

Pensar no irmão lhe acendeu uma chama de esperança. Mas será que fazer aquilo era certo? Ele confiaria na medicina, não tomaria decisão alguma sem ter certeza de que era a última alternativa.

- Você ficará bem. - Ana deu um sorriso triste como complemento. - A vida é assim. É melhor se acostumar, meu amigo.

- E se eu não quiser me acostumar, Ana? E se eu não quiser deixá-la partir? - Nathaniel sentia que suas palavras revelavam mais do que sua amizade, e o olhar triste de Ana confirmava seus pensamentos. Ela sabia, tanto sabia que sentia pena dele por amar uma doente em estágio terminal.

Nathaniel deixou a amiga na companhia de Leticia e levou as cartas para guardá-las. Ele esperava não precisar enviá-las de forma alguma. Sentindo seu coração doer e as lágrimas rolarem sem impedimento por seu rosto, ele retirou a carta destinada a ele e respirou fundo antes de abri-la. As palavras de Ana eram como flechas certeiras em seu coração.

"Querido amigo, se está lendo esta carta é porque minha hora chegou. Sinto muito por não ter sido forte o suficiente, nem mesmo por você. Creio que já estava fadada a deixar este mundo antes mesmo de começar a viver de verdade. Sei que com você posso ser sincera e falar do que me assombra. Sinto que parti antes de descobrir o que era a felicidade, antes de experimentar o que o amor poderia me proporcionar. Jamais saberei o que é ser livre e poder caminhar com minhas próprias pernas. Espero que agora, já tendo deixado este mundo eu descubra para o quê minha vida existiu. "

Nathaniel respirava fundo tentando controlar as lágrimas. Era muito difícil lidar com uma despedida escrita por alguém a quem se ama. Saber que perderia aquela pessoa pela eternidade o fazia desejar trocar de lugar com ela. Fazia um ano que cuidava de Ana, doze meses juntos, dividindo todos os dias de todas as semanas. Não sabia se Ana o amava como ele a amava, mas aquilo não importava. Tudo o que queria era que ela tivesse mais tempo, tempo para realizar seus sonhos e aproveitar a vida. Queria que a amiga tivesse a oportunidade de experimentar cada aventura que sonhara, como mergulhar no mar e correr pela grama descalça. Coisas simples que para Ana eram como preciosidades.

Nathaniel voltou seus olhos para a carta a fim de continuar a leitura.

"Não pense que acredito que minha existência foi totalmente em vão. Eu me sinto agradecida por tê-lo conhecido. Agradeço pela amizade que de bom grado me ofereceu, e pelo carinho com o qual cuidou de mim durante este ano que passei em sua companhia. Ao contrário do que pode pensar, Nate, este foi um dos melhores anos da minha vida. Pude ser eu mesma e conversar sobre o que quisesse, não precisei fingir modéstia, suportar o desgosto de meu pai ou lidar sozinha com a saudade de tio Winston. Pensava que Jonathan era meu melhor amigo e que era compreendida por ele, mas descobri que nunca tive outros amigos além de você, Winston e Leticia.

Sinto muito que tenha criado sentimentos por mim durante este período. Você é mais importante para mim do que pode imaginar, meu coração sangra por saber que o faço sofrer desta forma. Ao mesmo tempo que fico feliz por tê-lo conhecido, me sinto triste por ter conquistado um lugar tão importante dentro do seu coração.

Muito obrigada por me ajudar a sonhar e imaginar uma vida diferente enquanto meu corpo não me permitia sentir nada. A vida de aventuras que imaginamos trouxe grande alento ao meu espírito. Sinto muito por não poder vivê-las de verdade. Mas quero que saiba que a vida não acabou para você. Erga-se outra vez e acredite no amanhã. Você ainda fará a diferença na vida de muitas pessoas, assim como fez na minha.

Viva suas aventuras. Viva-as por nossa amizade, Nate. Eu olharei por você por onde quer que vá.

Com amor, Ana Blackwood. "

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