Meu noivo, Heitor, me garantiu que sua família me amaria. Ele disse que eu era perfeita. Mas no nosso jantar de noivado, ouvi o plano real deles: arrancar meu rim para sua irmã doente, Clarice, e depois me descartar como lixo.
Eles me incriminaram por empurrar Clarice, causando-lhe um "episódio induzido por estresse". Heitor, acreditando nas mentiras deles, me jogou em uma "clínica de correção comportamental" brutal.
Quando ele finalmente veio me buscar, não foi para me salvar. Foi para exibir sua nova mulher, minha antiga rival, Kátia. Ele me humilhou em uma festa, forçando-me a usar o mesmo vestido que ela, e depois me acusou de sabotar um lustre que quase os matou - um lustre do qual eu, na verdade, o empurrei para longe.
No hospital, quebrada e machucada por um acidente de carro que Kátia orquestrou, Heitor me mostrou provas forjadas dos meus "crimes". Ele me chamou de um vazio, um monstro, e disse que tinha terminado comigo.
Ele acreditava que eu era uma víbora ciumenta tentando destruir sua família. Ele nunca viu que foram eles que me destruíram sistematicamente.
Deitada naquela cama de hospital, sozinha e em agonia, eu finalmente entendi. O homem que eu amava era um estranho, e sua família, meus carrascos.
Enquanto ele saía da minha vida para sempre, uma paz fria se instalou sobre mim. Eu estava finalmente livre. E eu nunca mais olharia para trás.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Elna:
A limusine parou em frente à mansão dos Almeida, uma propriedade tão grandiosa que parecia ter saído de um cartão-postal de Petrópolis. Meu estômago se revirou, um nó familiar de nervosismo se apertando no meu peito. Era agora. O jantar de noivado. A mão de Heitor encontrou a minha, seu polegar acariciando meus dedos.
"Nervosa?", ele perguntou, sua voz um murmúrio grave.
Eu apenas assenti. Não conseguia nomear o sentimento. Não era medo, exatamente. Mais como uma dor surda, um peso esmagador. Heitor sempre dizia que eu tinha dificuldade com emoções, que elas eram uma língua estrangeira para mim. Ele se inclinou, seu hálito quente na minha orelha.
"Não se preocupe", ele sussurrou. "Minha família vai te amar. Você é perfeita."
Ele beijou minha têmpora, um toque fugaz que geralmente me acalmava. Hoje, não fez efeito algum. As portas pesadas se abriram, revelando um hall de entrada reluzente. Risadas e música vazaram para fora. Heitor me conduziu para dentro, seu aperto firme.
Então eu a vi. Uma jovem, delicada e etérea, com os cabelos escuros e os olhos azuis penetrantes de Heitor. Ela estava encostada em um pilar de mármore, um retrato de beleza frágil. O rosto de Heitor se iluminou, um sorriso mais brilhante e genuíno do que o que ele havia me dado. Ele puxou a mão da minha, quase instintivamente, e se moveu em direção a ela.
"Clarice!", ele exclamou, sua voz cheia de uma adoração que fez meu peito se contrair.
A garota, Clarice, virou a cabeça lentamente, um leve sorriso enfeitando seus lábios. Ela parecia cansada, pálida. Era a irmã mais nova de Heitor. Eu sabia que ela tinha uma doença crônica, algo sério, mas Heitor raramente falava sobre isso. Ele a envolveu em um abraço gentil, seu corpo grande cuidadoso ao redor dela. Ele sussurrou algo em seu ouvido, e o sorriso dela se alargou.
Então, ele se lembrou de mim. "Clarice, esta é Elna. Elna, minha irmã, Clarice."
Clarice ofereceu um pequeno aceno, seus movimentos quase imperceptíveis. "É um prazer finalmente conhecê-la, Elna. Heitor fala de você o tempo todo." Sua voz era suave, como o farfalhar de folhas.
Um calor estranho se espalhou por mim. Eles pareciam tão... normais. Tão acolhedores. Talvez minhas preocupações fossem apenas minha estranheza emocional de sempre, exagerando as coisas. Não seria tão ruim.
Então, a Sra. Almeida, mãe de Heitor, veio em nossa direção. Era uma mulher imponente, impecavelmente vestida. Seu olhar era afiado, avaliador. Ela abraçou Heitor, depois voltou sua atenção para mim. Ela sorriu, mas seus olhos tinham um brilho calculista.
"Elna, querida", ela começou, sua voz suave como seda. "Heitor nos contou tanto sobre você. Você parece... muito saudável."
O elogio soou estranho, fora de lugar. Não era sobre meu vestido, ou meu cabelo, mas sobre minha saúde. Murmurei um agradecimento, sentindo aquele nó familiar no estômago se apertar novamente.
"Uma pena o que acontece com a Clarice", continuou a Sra. Almeida, sua mão tocando gentilmente o braço da filha. "Tão frágil. Estamos esperando por um milagre em breve. Um procedimento rápido e bem-sucedido, talvez."
Procedimento? A palavra pairou no ar, pesada e ambígua. Olhei para Heitor, mas ele estava imerso em uma conversa com Clarice, de costas para mim. Os olhos da Sra. Almeida permaneceram em mim, inabaláveis.
"Será uma coisa maravilhosa", ela murmurou, quase para si mesma. "Para todos os envolvidos."
A conversa mudou então, transformando-se em uma cacofonia de sorrisos educados e conversas sem sentido. Mas as palavras da Sra. Almeida, seu escrutínio intenso da minha saúde, ecoavam em minha mente. Senti um arrepio que não tinha nada a ver com o ar fresco da noite.
Mais tarde, Heitor e Clarice se desculparam, subindo as escadas para o que Heitor chamou de "uma rápida conversa". Ele apertou minha mão antes de sair, mas seus olhos já estavam em sua irmã. Eu os observei ir, um sentimento de vazio se espalhando pelo meu peito.
A Sra. Almeida de repente se virou para mim, seu sorriso inabalável. "Elna, querida, você seria tão gentil a ponto de pegar meu... broche de família no sótão? Eu simplesmente preciso dele para esta noite." Ela gesticulou vagamente em direção a uma escada em espiral. "Está em uma pequena caixa de madeira entalhada. Você não tem como errar."
O sótão? Agora? Eu assenti, uma marionete muda. Qualquer coisa para escapar da polidez sufocante.
O sótão era vasto e mal iluminado, cheio de tesouros esquecidos e décadas de poeira. Procurei o interruptor de luz, e uma única lâmpada piscou, ganhando vida. Enquanto eu procurava o broche, uma voz subiu do andar de baixo, clara e distinta. A voz de Heitor. E a de Clarice. Eles não tinham ido longe. Estavam no quarto diretamente abaixo de mim, uma grande suíte de hóspedes não utilizada. O assoalho era fino.
"Ela é compatível, Heitor", sussurrou Clarice, sua voz surpreendentemente forte, desprovida de sua fragilidade habitual. "Os médicos confirmaram. Tipo sanguíneo raro, igual ao meu. É um milagre."
Minha respiração engatou. Compatível? Para quê?
"Eu sei, Clarice, eu sei", a voz de Heitor estava tensa, tingida com uma esperança desesperada que eu nunca tinha ouvido antes. "Mas... a Elna... eu não sei como contar a ela. Como pedir. Ela tem dificuldade com coisas assim. Ela... não é como nós."
"Ela não vai sentir da mesma forma, irmãozinho querido", respondeu Clarice, uma ponta de aço em seu tom. "Ela é sempre tão apática. Ela não vai entender a gravidade, a beleza deste sacrifício. Apenas diga a ela que é o melhor para nós. Para nossa família. Ela vai aceitar."
Minhas mãos começaram a tremer. Sacrifício? Do que eles estavam falando? Então Clarice disse as palavras que estilhaçaram meu mundo.
"Um rim, Heitor. É só um rim. E assim que terminarmos, ela estará fora de nossas vidas, e você poderá finalmente se casar com alguém que realmente te entende. Alguém que não seja... quebrada."
Meus joelhos cederam. Apoiei-me em um baú empoeirado, o ar arrancado dos meus pulmões. Um rim. O meu rim. Eles não estavam planejando um jantar de noivado. Isso era uma armadilha para me coagir a doar um órgão. O meu órgão. Para salvar Clarice. E depois, me descartar.
A Elna perfeita e saudável. Meu tipo sanguíneo raro. O "procedimento" da Sra. Almeida. Tudo se encaixou, um quebra-cabeça horripilante. A dor surda no meu peito se intensificou, torcendo-se em algo frio e cortante. Traição. Era traição pura e absoluta.
Uma voz cortou meus pensamentos aterrorizados. "Elna, querida? Você encontrou?" A voz da Sra. Almeida, do pé da escada do sótão.
O pânico me dominou. Eu tinha que sair. Tinha que fugir. Tropecei para longe da grade de ventilação, a caixa de madeira entalhada esquecida. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético desesperado para escapar de sua gaiola. Acho que eles não me viram. Espero que não.
Naveguei pelo resto da noite em transe, meu corpo se movendo no piloto automático. Os sorrisos, as risadas, o tilintar dos copos - tudo parecia distante, abafado. Minha mente corria, tentando processar a enormidade do que eu tinha ouvido. Eu me sentia oca, vazia.
Meu celular vibrou, uma mensagem de um número desconhecido. Uma única palavra: Fuja.
Meu sangue gelou. Alguém mais sabia. Alguém mais sabia do plano deles. O nó no meu estômago se apertou, desta vez com um medo novo e gélido. Eu precisava escapar. Agora.
"Eu... eu não estou me sentindo bem", murmurei, agarrando meu estômago. "Preciso usar o lavabo."
Heitor olhou para mim, um lampejo de preocupação em seus olhos. "Você está bem, meu amor?"
Eu assenti freneticamente, desesperada para fugir. "Só um pouco tonta."
Corri em direção ao lavabo, minhas pernas parecendo gelatina. Tranquei a porta atrás de mim, encostando-me nela, tremendo. A palavra Fuja brilhou em minha mente, nítida e aterrorizante.
Uma batida suave. Meu coração saltou para a garganta. "Elna? Você está aí?" Era Clarice. Sua voz não era mais frágil. Tinha um tom arrepiante.
"Eu ouvi você", disse ela, sua voz clara através da porta. "Lá no sótão. Você ouviu tudo, não foi?"
Meu sangue gelou. Ela sabia. Ela sabia o tempo todo. Fiquei paralisada, incapaz de me mover, incapaz de falar.
A porta se abriu com um clique. Clarice estava lá, seu rosto desprovido de sua doçura delicada habitual. Seus olhos, tão parecidos com os de Heitor, agora eram duros e frios. "Não se dê ao trabalho de negar, Elna. É inútil."
"Do... do que você está falando?", gaguejei, minha voz mal um sussurro.
"Do rim, é claro", disse ela, um sorriso cruel torcendo seus lábios. "Você nos ouviu. E sabe de uma coisa? É verdade. Você é perfeitamente compatível. E você vai me dar."
Minha mente girou. A audácia. O planejamento a sangue frio. "Você... você não pode me forçar."
Clarice riu, um som quebradiço e sem humor. "Ah, Elna, você ainda não entendeu, não é? Heitor se importa mais comigo do que com qualquer coisa. Mais do que com você. Ele fará qualquer coisa por mim. E se você não cooperar... bem, as coisas vão ficar muito desagradáveis para você." Seus olhos se estreitaram. "Você realmente acha que ele te ama? Você, com seu rosto inexpressivo e olhos vazios? Ele apenas te tolera. Por enquanto."
Suas palavras me cortaram, afiadas e precisas. Doeram mais do que eu pensei que qualquer coisa poderia. Senti uma estranha queimação atrás dos meus olhos, uma sensação que raramente experimentava. Era... raiva? Ou era apenas outra forma daquela dor surda?
De repente, Clarice ofegou, agarrando o peito. Seu rosto se contorceu de dor. Ela caiu no chão, ofegante. "Heitor!", ela engasgou. "Elna... ela... ela me empurrou!"
Minha cabeça girou. Não. Eu não a tinha tocado. Isso era outra mentira. Outra manipulação.
Passos pesados ecoaram pelo corredor. Heitor entrou correndo, seu rosto marcado pelo alarme. Ele viu Clarice no chão, ofegante, e eu de pé sobre ela, congelada em choque.
"Clarice! O que aconteceu?", ele gritou, correndo para o lado da irmã.
"Elna... ela... ela ficou com raiva... tentou... me machucar", Clarice gemeu, sua voz fraca e trêmula, uma imitação perfeita de fragilidade.
Heitor olhou para mim, seus olhos agora cheios de uma descrença pétrea. "Elna? Isso é verdade?"
Eu balancei a cabeça, incapaz de formar palavras. A traição foi um golpe físico. Ele acreditou nela. Ele sempre acreditava nela.
"Precisamos levá-la para um hospital!", a Sra. Almeida apareceu de repente, seu rosto uma máscara de preocupação.
Heitor pegou Clarice nos braços, a cabeça dela aninhada em seu ombro. Ele não me lançou outro olhar. Ele a carregou para fora, seus passos ecoando pela grande escadaria. A Sra. Almeida o seguiu, lançando-me um olhar venenoso antes de desaparecer.
Fui deixada sozinha no opulento lavabo, o silêncio ensurdecedor. Minha mente era um turbilhão de confusão e desespero. O que acabou de acontecer? Como ele pôde?
Encontrei o caminho para fora da casa sem ser notada, um fantasma em meio ao caos. Segui o carro deles até o hospital, uma estranha compulsão me guiando. De longe, observei enquanto levavam Clarice para a emergência.
Horas depois, um médico apareceu, seu rosto sério. "Clarice está estável", ele anunciou aos ansiosos Almeida. "Mas ela teve um episódio grave induzido por estresse. Sua função renal está diminuindo rapidamente. Ela precisa de um transplante, e logo. Caso contrário..." Ele parou, a ameaça não dita pairando pesadamente.
Meu coração afundou ainda mais. Este era o jogo deles. Seu jogo cruel e elaborado para conseguir o que queriam.
Clarice foi eventualmente transferida para um quarto particular, ainda parecendo pálida e fraca. Mas seus olhos, sempre que encontravam os meus, tinham um brilho malicioso. Heitor voltou para a mansão naquela noite, seu rosto contraído. Ele parecia exausto, mas sua raiva era palpável.
"Como você pôde, Elna?", ele exigiu, sua voz baixa e perigosa. "Depois de tudo que a Clarice está passando, você tentou machucá-la?"
"Eu não a empurrei, Heitor", eu disse, minha voz mal acima de um sussurro. "Ela está fingindo."
Ele riu, um som áspero e sem humor. "Fingindo? Os médicos confirmaram a condição dela! O rim dela está falhando, Elna! E você, você tentou atacá-la! Você é um monstro!"
"Ela precisa de um rim, Heitor", interveio a Sra. Almeida, sua voz pingando veneno. "E você, Elna, é perfeitamente compatível. Uma compatibilidade rara. É quase uma intervenção divina. E ainda assim você é tão egoísta."
"Egoísta?", repeti, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Vocês querem que eu passe por uma cirurgia de grande porte contra a minha vontade? Vocês querem tirar meu órgão?"
"Não é apenas um órgão, Elna", sibilou a Sra. Almeida. "É uma chance para a Clarice viver. Uma chance para nossa família ser inteira novamente. Você não tem ideia do que passamos. Todos esses anos, sofrendo em silêncio. E você, você traz mais caos. Você arruinou a última chance da Clarice."
Heitor olhou para mim, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos. Dúvida? Culpa? Desapareceu rapidamente, substituído por uma fria determinação.
"Você está certa, mãe", disse ele, sua voz monótona. "Elna precisa de ajuda. Ela não pode ficar aqui. Não assim."
Ele caminhou em minha direção, seu olhar distante. "Estou fazendo isso para o seu próprio bem, Elna", disse ele, suas palavras desprovidas de qualquer calor. "Você precisa aprender. Mudar. Até que você faça isso, não pode ficar perto de nós."
Na manhã seguinte, dois homens corpulentos chegaram à mansão. Eles me escoltaram para um carro preto. Eu não resisti. Estava entorpecida demais. Eles me levaram para um lugar que parecia uma prisão, uma "clínica de correção comportamental". Era brutal. Os dias se transformaram em semanas, cheios de disciplina severa, trabalho forçado e humilhação constante. Eles alegavam estar "corrigindo minhas deficiências emocionais". Disseram que eu precisava aprender empatia, altruísmo.
Muitas vezes eu ficava acordada à noite, olhando para o teto, tentando entender o ódio de Clarice. O que eu já tinha feito a ela? Por que ela queria me destruir? A confusão me corroía, uma dor constante e surda. Às vezes, o desespero era tão avassalador que eu pensava em acabar com tudo. Apenas um sono tranquilo. Sem mais dor. Sem mais confusão.
Então, depois do que pareceu uma eternidade, Heitor veio me buscar. Ele estava na entrada da clínica, impecável e poderoso, um contraste gritante com meu eu desgastado e esvaziado. Esperança, um sentimento frágil e desconhecido, cintilou dentro de mim. Ele finalmente tinha visto a verdade? Tinha vindo me resgatar?
Mas então eu a vi. Uma mulher ao lado dele, o braço dela casualmente entrelaçado no dele. Ela era linda, com um ar confiante, quase predatório. Meu sangue gelou. Era Kátia Sampaio. Uma garota do meu passado, uma rival de longa data. Aquela que sempre parecia querer o que eu tinha, que sempre tentava me diminuir.
Heitor sorriu, um sorriso tenso e forçado que não alcançou seus olhos. "Elna", disse ele, sua voz estranhamente monótona. "Você... bem, você está de volta." Ele gesticulou em direção a Kátia. "Esta é Kátia. Ela tem sido de grande ajuda para nossa família durante este momento difícil. Uma verdadeira benfeitora."
Benfeitora. A palavra ecoou em minha mente vazia. Kátia olhou para mim, seus olhos brilhando com triunfo. Uma vitória silenciosa e cruel. A mão de Heitor repousava nas costas dela, um gesto possessivo. A mensagem era clara. Eu tinha sido substituída.
Passei por eles, meu olhar fixo à frente. A esperança vacilante morreu, substituída por um vazio profundo e arrepiante. Ele não tinha vindo me salvar. Ele tinha vindo exibir sua nova vida, sua nova mulher.
Lembrei-me de suas palavras, sussurradas sob o céu estrelado durante um de nossos primeiros encontros. "Elna, você é a única para mim. Eu nunca vou te trair. Eu prometo."
A promessa parecia uma piada cruel agora. Tinha acabado. Tudo tinha acabado. Meu coração, que mal começara a se agitar com emoções desconhecidas, agora parecia um bloco de gelo.
Ponto de Vista de Elna:
A mansão parecia a mesma, mas tudo parecia diferente. Meu antigo quarto ainda era meu, mas a presença de Kátia estava em toda parte. Suas coisas novas já estavam na suíte de hóspedes, um toque de cores vibrantes contra os tons suaves que eu preferia. Seu perfume pairava no ar, uma doçura enjoativa que revirava meu estômago.
Heitor parecia mais leve, mais feliz. Seus negócios estavam florescendo, seus acordos fechando um após o outro. Seu rosto, antes tenso de preocupação com Clarice, agora exibia uma confiança relaxada. Ele frequentemente saía cedo e voltava tarde, seu celular zumbindo com chamadas e mensagens. Ele estava sempre sorrindo, sempre rindo, especialmente quando Kátia estava por perto.
Uma noite, ele anunciou uma grande celebração. "Uma festa da vitória", ele chamou, seus olhos brilhando. "Pelo progresso da Clarice, pelo meu último negócio, por... tudo de bom que está acontecendo." Ele não me mencionou. Ele não mencionou a "clínica de correção".
Alguns dias antes da festa, um pacote chegou ao meu quarto. Dentro havia um vestido. Um lindo vestido verde-esmeralda, de seda cintilante. Era deslumbrante. Heitor havia deixado um bilhete com ele. *Use isto. Venha sozinha. Chegue na hora.* Nenhum carinho. Nenhuma explicação. Apenas uma ordem.
Na noite da festa, vesti-me lentamente, meus dedos traçando o tecido delicado. Parecia pesado, como uma fantasia. Cheguei ao grande salão de festas sozinha, como instruído. O lugar já estava fervilhando de convidados, um mar de vestidos brilhantes e ternos elegantes. Eu me sentia como um fantasma, flutuando pela multidão opulenta, invisível.
Então, os murmúrios começaram. Um silêncio caiu sobre o salão quando as portas principais se abriram. Heitor estava lá, radiante em um terno sob medida, um sorriso deslumbrante no rosto. E ao seu lado, com o braço orgulhosamente entrelaçado no dele, estava Kátia.
Ela estava usando exatamente o mesmo vestido verde-esmeralda.
Minha respiração ficou presa na garganta. Minhas mãos se fecharam, amassando a seda do meu vestido. Não foi um erro. Foi uma humilhação deliberada e calculada. Seus olhos encontraram os meus através do salão lotado, um flash de triunfo malicioso em sua profundidade.
Os sussurros ficaram mais altos, subindo como uma maré. "Meu Deus, elas estão usando o mesmo vestido!" "Que vergonha para a Elna!" "Aquela é a nova namorada do Heitor? Ela é deslumbrante!"
Heitor e Kátia entraram no salão, um casal poderoso, banhados pelos holofotes. Eles nem sequer olharam na minha direção. Eu era uma mera sombra, uma cópia mal executada. A humilhação me inundou, quente e ardente.
Ouvi trechos de conversas enquanto as pessoas passavam. "Ela sempre foi meio... estranha", murmurou uma mulher. "Emocionalmente atrofiada, sabe." Outra riu. "Pobre Heitor, ele merece alguém vibrante, não uma lousa em branco."
Uma onda de náusea me atingiu. Senti meu rosto corar, um calor raro consumindo minhas bochechas. Uma emoção desconhecida, aguda e dolorosa, perfurou minha dormência habitual. Parecia... vergonha profunda e avassaladora. E uma fúria abrasadora. Pela primeira vez em muito tempo, senti algo parecido com raiva de verdade.
Eu precisava sair. Tinha que sair. Abri caminho pela multidão de convidados, meus olhos procurando uma saída. Mas as portas estavam bloqueadas, as pessoas se acotovelando para vislumbrar o casal celebrado. Eu não conseguia me mover. Estava presa.
O salão de festas estava muito quente, o ar denso com perfume e conversa. Avistei uma pequena e isolada porta de terraço e escapei para fora, precisando de um pouco de ar fresco. A noite estava fria, o vento cortando a seda fina do meu vestido. Tremi, mas o frio era uma distração bem-vinda da humilhação ardente lá dentro.
Depois de alguns minutos, o frio se tornou insuportável. Voltei para o salão, buscando refúgio em um canto tranquilo, tentando me misturar às sombras. Do meu ponto de vista, observei Heitor e Kátia na mesa principal, reinando. Eles pareciam em todos os aspectos o casal perfeito.
Um repórter se aproximou da mesa deles, microfone na mão. "Sr. Almeida, os rumores estão circulando. Quem é esta bela mulher ao seu lado esta noite?"
Heitor riu, um som suave e praticado. Ele olhou para Kátia, que sorriu recatadamente. "Kátia é... muito importante para mim. Para minha família. Ela tem sido uma rocha, uma fonte de força incrível." Ele evitou a pergunta direta, deixando o status dela ambiguamente elevado.
"Aquele vestido cai maravilhosamente bem nela", sussurrou outra convidada por perto, uma mulher que eu não reconheci. "Não como... a outra. Sempre tão rígida, tão fria."
As palavras foram como punhais. Senti-me pequena, insignificante. Meu passado, todo o meu ser, reduzido a um sussurro. Esta era a minha vida agora, não era? Uma coisa descartada, observando o homem que eu amava construir um mundo novo e mais brilhante com outra pessoa. Um mundo onde eu era o fantasma inconveniente e sem sentimentos.
A festa finalmente atingiu seu clímax. Heitor ergueu um brinde, reconhecendo sua família, seu sucesso e "o futuro brilhante à frente". Ele não olhou para mim. Ele não reconheceu minha existência nem uma vez.
De repente, um rangido alto ecoou pelo salão. Um enorme lustre de cristal, pendurado precariamente no teto alto, balançou. As pessoas olharam para cima, murmurando nervosamente. Alguns cristais se soltaram, tilintando no chão de mármore.
Então, com um gemido aterrorizante, toda a estrutura começou a cair.
Aconteceu tão rápido. Puro instinto, uma onda primal que eu não sabia que possuía, tomou conta. Heitor estava diretamente abaixo dele, de costas para o perigo que descia. Kátia estava ao lado dele, seus olhos arregalados de terror. Sem pensar, eu me lancei para frente, empurrando Heitor com toda a minha força.
Ele tropeçou, caindo para longe do caminho direto do lustre. Kátia gritou, puxando-o ainda mais para trás. Senti um impacto tremendo, um flash ofuscante de dor branca. O mundo ficou preto.
A última coisa que vi, antes que a escuridão me consumisse, foi o rosto de Heitor. Ele estava olhando para Kátia, seus olhos cheios de medo e preocupação, não por mim, mas por ela.
Acordei com o cheiro estéril de antisséptico. Minha cabeça latejava, meu corpo doía. Pisquei, desorientada. Hospital. Eu estava em um hospital. O quarto era branco e silencioso. Ninguém estava lá. Nenhum Heitor. Nenhuma família. Apenas eu. Sozinha.
Minha garganta estava seca. Minha língua parecia uma lixa. Tentei me sentar, mas uma dor aguda atravessou meu lado. Ofeguei, caindo de volta nos travesseiros. Finalmente, com um esforço monumental, consegui alcançar o copo de água na mesa de cabeceira. Minha mão tremia tanto que metade derramou antes que eu pudesse levá-lo aos lábios.
A porta rangeu ao se abrir. Heitor estava lá, seu rosto sombrio. Meu coração deu um salto estranho. Ele estava aqui. Ele se lembrou de mim.
Mas então, ele jogou algo na minha cama. Um pedaço de papel amassado, uma pequena mola intrincada e um fio minúsculo, quase invisível. Seus olhos estavam frios, duros como lascas de gelo.
"O que é isso, Elna?", ele exigiu, sua voz baixa e ameaçadora. "O que você estava tentando fazer?"
"Eu... eu não sei do que você está falando", sussurrei, confusa e fraca. Minha cabeça ainda estava nebulosa.
"Não se faça de inocente!", ele rosnou, dando um passo mais perto. "A filmagem da segurança. Mostra você, Elna. Logo antes do lustre cair. Mexendo na fiação. Tentando sabotá-lo."
Sabotar? Meu sangue gelou. "Não! Eu não fiz isso! Eu te empurrei para fora do caminho, Heitor! Eu te salvei!"
Ele riu, um som amargo e sem humor. "Me salvou? Você tentou matar a Kátia! Você estava com ciúmes, não estava? Você queria machucá-la, se livrar dela. Porque ela é importante. A família dela. As conexões dela. Tudo."
"Isso não é verdade!", gritei, lágrimas brotando em meus olhos. "Kátia... ela é quem me machucou! Ela usou o mesmo vestido, ela me humilhou!"
"E que trágica coincidência que tudo o que você alegou que ela fez não pode ser provado, enquanto suas ações são cristalinas", Heitor zombou. "Encontramos isso perto do lustre. A fiação foi adulterada, Elna. E suas impressões digitais estão por toda parte."
Ele ergueu um tablet. Um vídeo granulado passava. Mostrava uma figura, indistinta, mas claramente eu, em pé em uma cadeira perto do lustre, as mãos estendidas para cima. Era uma armação perfeita e condenatória.
"Isso é impossível", sussurrei, balançando a cabeça. "Eu não... eu não faria..."
"Você sempre foi um enigma, Elna", disse Heitor, sua voz tingida de nojo. "Sempre tão quieta, tão desprovida de emoção. Mas por baixo dessa calma exterior, você é uma víbora, não é? Uma víbora ciumenta e manipuladora."
"Eu não sou!", implorei, a injustiça de tudo aquilo uma dor lancinante no meu peito. "Kátia é a manipuladora! Ela mentiu para você! Ela é cruel!"
"Chega!", ele rugiu, batendo a mão na mesa de cabeceira. O copo de água saltou, chacoalhando. "Você não vai falar mal da Kátia! Ela é uma mulher gentil e altruísta que ajudou imensamente minha família. Ela é inocente! Você, Elna, é a consumida pela amargura e pela inveja."
Ele me encarou, seus olhos cheios de um ódio que revirou minhas entranhas. "Você vai pagar por isso, Elna. Você vai se desculpar com a Kátia, e vai entender o seu lugar. Você vai aprender a se controlar. Ou acredite em mim, as consequências serão muito piores do que algumas semanas em uma clínica."
Ele se virou para sair, mas parou na porta. "Sabe, Elna", disse ele, sua voz perigosamente suave, "eu costumava pensar que por baixo da sua... natureza incomum, havia um bom coração. Um coração puro. Mas eu estava errado. Você é apenas vazia. Um vácuo. E, francamente, estou cansado de tentar preenchê-lo."
Suas palavras me atingiram mais forte do que qualquer golpe físico. Vazia. Um vácuo. Ele me via como nada. As lágrimas que eu estava segurando finalmente se libertaram, escorrendo pelo meu rosto. Meu corpo tremia com soluços silenciosos. Parecia que meu peito estava sendo rasgado.
Eu o observei ir, a porta se fechando atrás dele. O som foi final. Irrevogável.
Vazia. Um vácuo.
Ele estava certo. Eu estava vazia. Vazia de esperança, vazia de amor, vazia de tudo que eu pensei que tínhamos. Mas também, vazia dele. E com essa percepção, uma determinação fria e dura se instalou profundamente dentro de mim.
Eu o deixaria. Eu deixaria esta vida. Eu deixaria tudo para trás.
Ponto de Vista de Elna:
As palavras de Heitor ecoavam no silêncio estéril do quarto de hospital: *Vazia. Um vácuo.* Eram um ferro em brasa, marcando-se em meu próprio ser. No entanto, uma calma estranha se instalou sobre mim. Ele me via como nada. Se eu era nada, então não tinha nada a perder.
Fechei os olhos e, contra minha vontade, as memórias surgiram. Não dos horrores recentes, mas de um tempo anterior. Um tempo mais suave.
"Elna", Heitor murmurou, seus dedos traçando a linha da minha mandíbula. Estávamos na varanda de sua cobertura, as luzes da cidade brilhando abaixo como diamantes espalhados. "Você é tão linda."
Eu apenas pisquei, confusa com a intensidade de seu olhar. Eu não entendia "linda" da maneira que ele queria dizer. Para mim, era apenas uma palavra. Mas seus olhos, tão quentes, tão cheios de... algo, fizeram meu peito se sentir um pouco menos apertado.
"Eu sempre vou te proteger", ele sussurrou, me puxando para mais perto. "Você é minha, e eu nunca vou deixar ninguém te machucar."
Ele me comprou um delicado medalhão de prata, gravado com minha inicial. "Isto", ele disse, pressionando-o na minha palma, "é um símbolo da minha promessa. Do meu amor. Mantenha-o perto."
Suas palavras, seus gestos, tinham sido tão convincentes. Ele me perseguiu implacavelmente, pacientemente quebrando minha concha protetora, tentando entender minha alexitimia. Ele leu livros, buscou conselhos, sempre dizendo: "Eu quero aprender sua língua, Elna."
Ele uma vez passou uma tarde inteira tentando explicar o sentimento de alegria, desenhando diagramas e fazendo analogias, apenas para ver um lampejo de compreensão em meus olhos. Ele chamava minha natureza quieta de "serena", não de "vazia". Minhas dificuldades emocionais, de "uma perspectiva única", não de "quebrada".
Para onde aquele homem tinha ido? Quando sua paciência se transformou em nojo, sua compreensão em julgamento? Foi Clarice? O rim? Ou sempre esteve lá, à espreita sob a superfície, esperando o momento certo para emergir?
As perguntas giravam na minha cabeça, um carrossel vertiginoso. Fiquei ali a noite toda, incapaz de dormir, juntando os cacos quebrados do nosso passado, tentando encontrar o momento preciso em que as rachaduras começaram a aparecer. Não encontrei nenhuma. Apenas um estilhaçamento súbito e brutal.
Na manhã seguinte, o hospital me deu alta. Voltei para a mansão, uma sensação de pavor se instalando em meus ossos. Eu sabia o que me esperava.
Quando entrei no hall, Heitor e Kátia estavam lá, abraçados. Os braços de Kátia estavam em volta do pescoço dele, a cabeça dela inclinada para trás, um sorriso triunfante no rosto. Heitor a segurava perto, os olhos fechados. Era um quadro íntimo e possessivo.
Então Kátia me viu. Seu sorriso não vacilou. Em vez disso, ela apertou seu abraço em Heitor, pressionando-se ainda mais contra ele. Ela esfregou a bochecha na dele, um gesto deliberado e provocador.
Um rubor estranho e quente se espalhou por mim. Não era a vergonha ardente da festa. Isso era diferente. Uma sensação primal e crua que fez minhas mãos se fecharem. Meu peito ficou apertado, minha respiração superficial. Era... ciúme? A palavra parecia estranha na minha língua, afiada e desconhecida.
"O que você está fazendo?", ouvi-me perguntar, as palavras cortando o ar, surpreendentemente firmes.
Os olhos de Heitor se abriram. Ele se desembaraçou de Kátia, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. Kátia, no entanto, permaneceu no lugar, um sorriso presunçoso brincando em seus lábios.
"Elna, querida", Kátia ronronou, sua voz doce como veneno. "Apenas confortando o Heitor. Ele ficou tão preocupado comigo, sabe, depois daquele terrível incidente com o lustre. E seu... envolvimento infeliz." Ela suspirou teatralmente. "Foi realmente uma experiência traumática, até para mim, apenas por estar ao lado."
Ela fez uma pausa e acrescentou: "Mas é tão bom ver que você está se recuperando. Estávamos todos tão preocupados." As palavras eram um ramo de oliveira coberto de espinhos.
"Elna", disse Heitor, sua voz afiada, cortando a simpatia fingida de Kátia. "Você precisa sempre causar uma cena? Kátia ainda está se recuperando. Ela não precisa do seu... drama."
Meu maxilar se contraiu. "Drama? Eu não estou causando nada. Acabei de entrar."
"E sua própria presença parece perturbá-la", ele retrucou, olhando para Kátia, que sutilmente se encolheu e agarrou o braço. "Estou avisando as duas. Não vou tolerar mais brigas. Esta é a minha casa. Vocês duas vão se comportar."
Ele se virou para mim, sua voz endurecendo. "Agora, peça desculpas a Kátia por seu comportamento na festa e por perturbá-la agora mesmo."
Minha respiração engatou. Pedir desculpas? Por ser incriminada? Por ser humilhada? A raiva explodiu, quente e afiada. "Eu não vou me desculpar. Não fiz nada de errado."
Os olhos de Heitor se estreitaram. Ele deu um passo em minha direção, depois parou. Seu olhar caiu sobre a pequena fotografia emoldurada na mesa lateral. Era uma foto minha, sorrindo levemente, segurando o medalhão de prata que ele me dera. O medalhão que ainda estava em volta do meu pescoço.
Ele estendeu a mão, o dedo traçando a prata. Uma ameaça sutil. Ele sabia o quanto aquele medalhão significava para mim. Era a única lembrança física de sua promessa, de um tempo em que ele afirmava me amar.
A raiva se esvaiu de mim, substituída por um medo frio e entorpecente. Ele o pegaria. Ele o destruiria. Ele apagaria todo e qualquer vestígio de nossa história compartilhada.
"Eu... sinto muito", engasguei, as palavras com gosto de cinzas. "Peço desculpas, Kátia."
O sorriso de Kátia se alargou, um flash triunfante de dentes brancos. "Oh, Elna, está tudo bem", disse ela, sua voz pingando falsa magnanimidade. "Eu entendo que você passou por muita coisa. Eu te perdoo. De verdade." Ela se virou para Heitor, piscando os cílios. "Viu, Heitor? Ela não é tão má. Apenas um pouco... equivocada."
"Agora que isso está resolvido", continuou Kátia, sua voz ganhando um tom mais firme, "Heitor, querido, estou me sentindo um pouco fraca. O choque, sabe. Você poderia talvez me levar às compras? Preciso de uma distração. Algo bonito para levantar meu ânimo." Ela se inclinou para ele, seu olhar deslizando para mim, um desafio silencioso.
Heitor hesitou por uma fração de segundo. "Claro, meu bem." Ele pegou a carteira. "Aqui, pegue este cartão. Compre o que precisar. Qualquer coisa para te fazer sentir melhor." Ele entregou a ela um cartão black. "Elna, você acompanhará Kátia. Ajude-a. Certifique-se de que ela tenha tudo o que deseja."
Meu sangue gelou. Acompanhá-la? Servi-la? A humilhação era infinita.
Lembrei-me de um tempo, não muito tempo atrás, em que Heitor pedia minha opinião, respeitava minhas escolhas. *"O que você quer, Elna? Sua felicidade é tudo o que importa."* Suas palavras, antes cheias de tanto calor, agora pareciam uma zombaria cruel. Ele estava me forçando. Reduzindo-me a um papel subserviente.
"Bem, Elna? Vai ficar aí parada o dia todo?", a voz de Heitor era afiada, impaciente. "Kátia está esperando."
Suspirei, um som profundo e cansado que parecia vir das profundezas da minha alma. "Sim, Heitor", murmurei, minha voz desprovida de emoção. "Claro."
Enquanto caminhávamos em direção ao carro, Kátia ainda agarrada possessivamente ao braço de Heitor, observei a interação deles. Kátia estava rindo, a cabeça jogada para trás, a mão apoiada no peito de Heitor. Ele olhou para ela, um sorriso suave no rosto. Meu peito se apertou novamente, aquela sensação desconhecida e ardente retornando.
"Sabe, Heitor", Kátia ronronou, alto o suficiente para eu ouvir. "Prefiro sentar ao seu lado no carro. Elna pode ir no banco de trás. Ela é tão quieta, não vai se importar."
Heitor riu, dando um aperto no ombro dela. "O que você quiser, minha querida." Ele olhou para mim, seu sorriso desaparecendo. "Elna, você entende, não é? Kátia ainda está frágil. Ela precisa de conforto."
*"Ela está sempre tão frágil, não é?"*, pensei, um gosto amargo na boca. Meus lábios, no entanto, permaneceram fechados.
"Além disso", continuou Heitor, seus olhos endurecendo, "você não costuma expressar muito, não é? Kátia, por outro lado, é tão cheia de vida, de emoção. É uma alegria estar perto dela." Ele fez uma pausa, um brilho cruel em seus olhos. "Você realmente deveria tentar ser mais como ela, Elna. Aprender a... sentir."
Kátia deu uma risadinha, um som triunfante e zombeteiro.
Senti uma onda de algo quente e afiado, uma dor tão intensa que fez minha visão embaçar. Sentir? Eu queria gritar. Queria dizer a ele que estava sentindo mais do que ele jamais poderia imaginar. Que suas palavras estavam me despedaçando, pedaço por pedaço agonizante. Mas as palavras não saíam. Elas nunca saíam. Minhas emoções eram uma bagunça emaranhada e silenciosa dentro de mim.
O Heitor que pacientemente tentou me ensinar a sentir, agora zombava da minha incapacidade de fazê-lo. A ironia era uma pílula amarga. Deslizei para o banco de trás, o medalhão em volta do meu pescoço parecendo mais pesado que uma pedra.