No nosso décimo aniversário de casamento, preparei o jantar preferido do meu marido, Pedro. Bife mal passado, exatamente como ele gostava. Mas ele não apareceu.
O telefone tocou incessantemente. Quando ele finalmente atendeu, não foi a voz dele que ouvi. "Olá? Quem fala?", uma voz sonolenta e familiar perguntou. Era Sofia, a sua assistente. E então, ela chamou-o de "querido".
Ele esqueceu-se. Não só do nosso aniversário, mas de mim. Ligou-me na cara, chamando-me de dramática, enquanto a sua amante estava no mesmo quarto, talvez na mesma cama. No dia seguinte, na empresa, vi a cena com os meus próprios olhos: o olhar dele para ela, o pânico quando nos viu, e a forma como a Sofia, com um sorriso cínico, insistiu que almoçassem todos juntos.
Ouvir a Sofia em sussurro, perguntar: "Ela sabe?", e a resposta dele, ainda mais baixa, "Acho que sim," partiu-me o coração. Mas foi a pior parte. Chegou a casa e admitiu tudo, pedindo mais uma chance, dizendo que me amava. Mas quando pedi o divórcio, ele, o homem que jurei amar, recusou-se a assinar os papéis.
Ele estava a contestar a divisão dos bens, a alegar que eu não merecia quase nada. Ele, que disse amar-me, queria ver-me sem um tostão, inclusive ameaçando a herança do meu pai. O vazio deu lugar à raiva fria. Ele quer uma luta? Ele vai ter uma.
O telefone tocou incessantemente, o seu zumbido agudo perfurava o silêncio da noite.
Era o meu décimo aniversário de casamento.
Eu tinha preparado o jantar, um bife mal passado, exatamente como o meu marido, Pedro, gostava.
Mas ele não estava em casa.
Olhei para o relógio na parede, os ponteiros já passavam da meia-noite.
A comida na mesa estava fria.
O seu telefone foi finalmente atendido, mas não foi a voz dele que ouvi.
"Olá? Quem fala?"
Era a voz de uma mulher, soava sonolenta e um pouco irritada.
Reconheci-a imediatamente, era a voz de Sofia, a sua assistente.
O meu coração afundou-se.
"Sou a esposa do Pedro," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente. "Ele está aí?"
Houve um silêncio do outro lado, depois um farfalhar de lençóis.
"Ele está a dormir," disse Sofia, a sua voz agora mais clara. "Está exausto. Tivemos um projeto muito importante hoje."
Um projeto. Claro.
"Podes acordá-lo por mim? É importante."
"Olha, ele trabalhou muito," respondeu ela, a sua impaciência evidente. "O que quer que seja, não pode esperar até amanhã? Ele precisa de descansar."
A sua voz era possessiva, como se ela tivesse o direito de decidir quem podia ou não falar com o meu marido.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
"É o nosso aniversário de casamento," disse eu, as palavras a saírem com dificuldade. "Eu só queria falar com ele."
Sofia riu-se, um som baixo e desdenhoso.
"Aniversário? Ele não mencionou nada. Deve ter-se esquecido. Ele tem estado muito focado no trabalho ultimamente."
"Por favor, passa-lhe o telefone," insisti eu.
Ouvi-a suspirar. "Está bem, espera."
O telefone foi pousado, e eu ouvi a voz dela ao longe, a chamar o nome dele suavemente. "Pedro... querido... o teu telefone."
Querido.
A palavra atingiu-me com força.
Finalmente, ouvi a voz sonolenta e irritada do Pedro.
"O que foi? Quem é a esta hora?"
"Pedro, sou eu, a Lara."
"Lara? O que se passa? Aconteceu alguma coisa com a mãe?"
A sua primeira preocupação era sempre com a mãe dele, que vivia connosco.
"Não, ela está bem," respondi. "Sabes que dia é hoje?"
Ele fez uma pausa. "É quinta-feira. Porquê?"
Ele tinha-se esquecido.
"É o nosso décimo aniversário," disse eu, a minha voz vazia. "Eu fiz o jantar. Esperei por ti."
"Ah," disse ele, o seu tom desinteressado. "Desculpa, esqueci-me completamente. O trabalho foi uma loucura. Tivemos de ficar até tarde para fechar um negócio."
"Com a Sofia?" perguntei diretamente.
"Sim, ela foi uma grande ajuda. Sem ela, não teríamos conseguido," disse ele, sem qualquer hesitação.
"Ela está aí contigo agora?"
"Sim, adormecemos no sofá do escritório. Estávamos ambos exaustos."
Uma mentira tão óbvia. Eu ouvi os lençóis. Eu ouvi-a chamá-lo de "querido".
"Pedro, quero o divórcio."
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las. O silêncio que se seguiu foi pesado.
"Divórcio? Estás a brincar?" ele finalmente disse, a sua voz a subir de tom. "Por causa de um aniversário esquecido? Não sejas ridícula, Lara. Estás a exagerar."
"Não é só pelo aniversário, Pedro. É por tudo."
"Olha, estou cansado. Não quero discutir isto agora. Falamos amanhã quando eu chegar a casa."
"Não haverá amanhã para nós, Pedro."
"Lara, para com o drama! Tens noção do quão importante este negócio era? Estás a ser egoísta! A Sofia sacrificou a sua noite por isto, e tu estás a queixar-te de um jantar?"
"Ela sacrificou a noite dela, ou passou-a na tua cama?"
Ele ficou furioso. "Não sejas desrespeitosa! A Sofia é minha colega! Estás a imaginar coisas! Já chega! Vou desligar. Pensa no que fizeste!"
Ele desligou o telefone na minha cara.
Fiquei a olhar para o telefone na minha mão. O ecrã escuro refletia o meu rosto pálido.
Senti-me vazia. Dez anos. Dez anos reduzidos a uma chamada telefónica e a uma mentira mal contada.
Na manhã seguinte, a mãe do Pedro, a Dona Helena, bateu à porta do meu quarto.
Eu não tinha dormido nada.
"Lara, o Pedro não veio a casa ontem à noite?" perguntou ela, a sua voz cheia de preocupação.
"Não, ele teve de trabalhar até tarde," respondi eu, a minha voz rouca.
Ela franziu a testa. "Trabalhar até tarde? Mas ele prometeu levar-me ao médico hoje para a minha consulta de rotina."
Claro que prometeu. Ele prometia sempre muitas coisas.
"Ele deve ter-se esquecido," disse eu, levantando-me da cama. "Eu levo-a, Dona Helena. Deixe-me só vestir-me."
Ela olhou para mim, os seus olhos a examinarem o meu rosto.
"Estás bem, minha querida? Pareces pálida."
"Estou só cansada," menti.
No hospital, enquanto esperávamos pelo médico, o meu telefone vibrou. Era uma mensagem do Pedro.
"Desculpa por ontem à noite. Fui insensível. Podemos falar quando eu chegar a casa? Amo-te."
Amo-te. A palavra parecia oca, sem significado.
Ignorei a mensagem.
A consulta da Dona Helena correu bem. O médico disse que a sua pressão arterial estava um pouco alta, mas nada com que se preocupar.
Quando saímos, ela insistiu em passar no escritório do Pedro para o surpreender.
"Assim podemos almoçar todos juntos," disse ela, sorrindo.
O meu coração apertou-se. "Não sei se é uma boa ideia, ele pode estar ocupado."
"Oh, não sejas boba. Ele ficará feliz por nos ver."
Não consegui dissuadi-la. Quinze minutos depois, estávamos na receção da empresa do Pedro.
A rececionista reconheceu-me e sorriu. "Olá, Dona Lara. O Sr. Pedro está numa reunião, mas deve terminar em breve."
"Nós esperamos," disse a Dona Helena, sentando-se num dos sofás.
Enquanto esperávamos, a porta de uma sala de reuniões abriu-se e a Sofia saiu, a rir de algo que alguém disse lá dentro.
Ela usava um vestido justo que eu nunca tinha visto. O seu cabelo estava perfeitamente penteado. Ela parecia radiante.
Os nossos olhos encontraram-se. O sorriso dela vacilou por um segundo, mas depois recuperou-se, transformando-se num sorriso polido e profissional.
"Dona Lara, que surpresa," disse ela, aproximando-se. "E esta deve ser a Dona Helena. O Pedro fala muito de si."
A Dona Helena sorriu, encantada. "É um prazer conhecê-la, minha querida. O Pedro diz que você é uma grande ajuda para ele."
"Eu tento o meu melhor," disse Sofia, modestamente.
Nesse momento, o Pedro saiu da sala. O seu sorriso desapareceu quando nos viu.
"Mãe? Lara? O que estão a fazer aqui?"
"Viemos fazer-te uma surpresa!" disse a Dona Helena, levantando-se para o abraçar. "Pensei que podíamos almoçar juntos."
O Pedro olhou para mim por cima do ombro da mãe, o seu olhar era uma mistura de irritação e pânico. Depois olhou para a Sofia.
"Na verdade, mãe, eu e a Sofia já tínhamos planos para almoçar. Temos de discutir os próximos passos do projeto."
A desilusão no rosto da Dona Helena era evidente.
"Oh," disse ela. "Está bem, então. Nós vamos indo."
"Não!" A voz da Sofia era excessivamente doce. "Porque não vêm connosco? Há um ótimo restaurante italiano aqui perto. Eu insisto."
Ela olhou para o Pedro, que assentiu rigidamente.
Senti-me como se estivesse a assistir a uma peça de teatro. Eles eram os atores principais, e eu e a Dona Helena éramos a audiência indesejada.
"Não, obrigada," disse eu, a minha voz firme. "Eu e a Dona Helena temos outros planos. Vamos indo."
Agarrei no braço da minha sogra gentilmente. "Vamos, Dona Helena."
Ela parecia confusa, mas seguiu-me.
Quando estávamos a sair, ouvi a Sofia dizer ao Pedro em voz baixa: "Ela sabe?"
E a resposta dele, ainda mais baixa: "Acho que sim."