Por Milena
Nossa, estou voltando bem tarde para casa. Levei mais tempo do que queria na biblioteca. Infeliz ideia de vir caminhando, agora o campus está deserto. Apenas os poucos seguranças e nada mais.
A luz dos postes de iluminação se apagam bem na hora que estou passando.
– Mais essa agora! – murmuro para mim mesma, tentando ignorar a sensação de inquietação que cresce dentro de mim.
Mas continuo mesmo assim, pois preciso chegar em casa logo.
Estou tão cansada!
E de repente um carro surge do nada... E freia em cima de mim!
Acabo com o susto caindo no chão.
Que droga!
Meu Deus... Estou parecendo um purê mole esparramado pelo prato, sentada neste chão.
O coração bate descontrolado no peito enquanto tento recuperar o fôlego.
O motorista desce do carro às pressas, seus passos rápidos na direção onde estou caída.
Mas espera!
Eu não acredito!
Ele abaixa e olha a lataria do carro.
Não é possível uma coisa dessa!
Estou estabacada no chão, e o homem está olhando seu carro!
Eu não estou vendo isso!
Ele parece preocupado, mas não comigo!
A rua está muito escura e o farol alto do seu carro aceso não me deixa ver seu rosto.
– Caramba menina, você deveria ter mais cuidado, ainda mais com as ruas nesse breu – esbraveja ele, com uma voz de trovão em dias de tempestade.
Me levanto, sentindo uma mistura de raiva e medo.
Me sinto pequena diante desse homem alto e imponente.
Me mexo, limpando a poeira que veio sobre minha roupa e vendo se não me machuquei.
– Desculpe, eu... eu não vi o seu carro. Você freou de repente! – respondo, tentando manter a calma.
Ele balança a cabeça, claramente irritado.
– Isso não importa. Você poderia ter causado um acidente! Preste mais atenção da próxima vez!
Sua voz é dura e impaciente, como se estivesse me repreendendo por algo grave.
Me sinto desconfortável, desejando estar em qualquer outro lugar além dessa rua deserta.
– Eu entendo, desculpe mesmo. Eu só... só quero ir para casa – murmuro, olhando ao redor em busca de uma rota de fuga.
Ele parece notar minha hesitação e dá um passo para mais perto de mim.
Que droga!
Esse breu não me deixa ver seu rosto, apenas algumas nuances que não me ajudam muito.
– Vou te levar para sua casa então. Entre no carro.
Êxito, afinal não faço ideia de quem ele seja.
Ele percebe minha hesitação e sai falando:
– Faço parte do corpo docente da faculdade, não se preocupe, só irei te deixar em casa, para evitar que provoque algum acidente mais grave com essa sua falta de atenção.
Nossa, minha falta de atenção.
Por esse comentário eu não esperava, mas opto pelo silêncio, ele não parece ser uma pessoa muito... sociável.
E com isso, me lembro do spray de pimenta que tenho na bolsa. Trago ela ainda mais perto de mim, deixando seu zíper aberto, pois qualquer situação diferente, eu disparo nele o spray.
– Vamos, entre, não tenho tempo a perder e você já está ocupando muito mais do que poderia lhe dar. - me diz, sem nenhuma paciência.
E com isso, não vejo muita escolha além de obedecer, então entro no carro sem dizer mais nada.
O interior é escuro e a música alta ecoa no espaço confinado.
Por um momento ele abaixa o som do carro e me pergunta onde moro. Dou meu endereço, ele digita rapidamente no GPS do carro.
Graças ao céu, eu estou perto de casa.
E depois de confirmar o endereço, volta a aumentar o volume da música que está tocando; um rock melodioso e ao mesmo tempo interessante.
No espaço confinado em que nos encontramos, o cheiro inconfundível de sua colônia preenche cada canto, amadeirada e única. Como uma suave carícia olfativa que se espalha ao meu redor, despertando memórias e criando um vínculo invisível entre nós. Mas automaticamente reprimo qualquer coisa, pois ele é apenas um estranho que se compadeceu de mim e está me levando em segurança para casa.
Ao menos é o que digo para mim mesma em meu silêncio.
Ele dirige rápido, muito rápido para as ruas do campos, e eu me seguro no banco, rezando para que cheguemos logo. Durante o trajeto, ele não diz uma única palavra.
A noite está tão escura lá fora e mesmo dentro do carro a iluminação é quase nenhuma.
Não consigo ver seu semblante e mesmo que eu quisesse, com ele dirigindo desse jeito, tento ao máximo me segurar no banco e mantenho meus olhos lá fora no breu.
A tensão no ar é palpável, e eu me sinto aliviada quando finalmente chegamos em frente à minha casa.
A penumbra ainda está presente, parece que tivemos um blecaute geral.
– Chegamos – diz ele, sem emoção na voz.
Agradeço sem olhar para ele, desejando sair o mais rápido possível daquele carro.
Quando fecho a porta, ele simplesmente acelera e vai embora, deixando uma nuvem de poeira para trás.
Fico ali parada por alguns segundos, tentando inutilmente entender o que foi isso, afinal?
Entro em casa tremendo, a experiência com aquele homem desagradável ainda ecoando em minha mente.
Me jogo na cama, tentando afastar os pensamentos ruins. A noite parece mais escura do que nunca lá fora, e eu me pergunto se vou conseguir dormir depois de tudo isso.
O encontro com o homem do carro me deixou com uma sensação de vulnerabilidade que eu nunca tinha experimentado antes.
A escuridão revelou não só o perigo das ruas desertas, mas também a amargura e falta de empatia de algumas pessoas.
Com pode um carro ser mais importante que uma pessoa?!
Amanhã, com a luz do dia, talvez consiga entender melhor o que aconteceu. Mas por enquanto, só quero esquecer essa noite e dormir em paz.
Por Milena
Alguns dias depois
– Letícia, olha só onde você nos meteu.
– Relaxa, Milena, sair um pouco da rotina faz bem. Além disso, logo estaremos ocupadas com as aulas que começam na próxima semana.
– Nem me lembre. Não sei por que inventei de fazer essa especialização.
– Porque você não quer ser apenas mais uma entre tantas outras.
E com isso, deixei Letícia me convencer a vir para uma festa de uns amigos dos pais dela. Algo bem formal, mas com pessoas de todas as idades.
Letícia e eu nos conhecemos desde o ensino fundamental. Nos tornamos amigas desde o nosso primeiro "oi" e aqui estamos nós.
Procuramos estar o mais próximas possível. Letícia é filha única e eu, bem, passei minha vida em um orfanato.
Quando a família da Letícia descobriu que eu morava em um abrigo, eles fizeram questão de me deixar o mais à vontade possível. Com isso, eu passava mais tempo com eles do que no orfanato. Eles até consideraram me adotar, mas parece que havia um documento que não permitia ou algo do tipo. Na verdade, nunca mexi com esses papeis e a diretora do orfanato sabia quem eram os Sugg, pois, aqui entre nós, estávamos falando de uma das maiores fortunas do nosso condado.
Se tive sorte, não sei, mas a família da Letícia me proporcionou muitas oportunidades.
Mesmo agora, com meus vinte e dois anos, eles ainda me incluem em suas festas e passeios.
Com o curso que estou fazendo, ainda estou morando nas dependências da faculdade, mas meus planos são ter meu próprio consultório.
Ainda estou trabalhando no armarinho, mas só até concluir essa especialização. Já estou preparando meu curriculum e com fé em Deus, irei conseguir uma boa oportunidade de trabalho.
Financeiramente, consigo me manter com o básico, nunca fui esbanjadora e me viro bem com o que tenho.
Me formei em psicologia e agora estarei começando uma especialização em neuropsicologia na próxima semana.
Quero lecionar nessa área e dividir conhecimento, acho fantástica a mente humana.
Finalmente chegamos ao hotel onde está acontecendo a festa.
Antes de entrar, viro para Letícia:
– Presta atenção no que vou te dizer. Se você for ficar com alguém, me avisa, pois não quero ficar esperando como da última vez. Quase criei raízes te esperando.
– Nossa, você ainda está amargando isso, Mi?
– Amargando não! Você ainda me deve. Se não fosse o segurança me avisar que a festa já havia acabado, possivelmente estaria lá até agora.
– Credo! Eu não teria te deixado lá, mulher!
– Ah, tá. Você parece uma daquelas gatas no cio, basta saber miar que te leva.
– Não é bem assim!
Olho para ela com incredulidade.
– Tá bom, tá bom, é quase isso!
E caímos na risada.
– Amiga, você precisa deixar de levar tudo tão a sério. A vida passa depressa e se não aproveitarmos, quando nos dermos conta, já foi.
– Se com isso você está falando sobre eu ainda ser virgem, não vejo problema. Só não quis perder minha virgindade com nenhum palhaço.
– Você é cheia de regras, isso sim!
– Sou! E a regra de hoje é não me deixar sozinha.
– Já entendi, minha matrona!
– Que seja! Amo ser uma senhora respeitável... Só que não!
E com isso, a risada nos pega enquanto entramos no salão onde está acontecendo a festa.
O lugar é enorme!
Letícia já sai me arrastando, cumprimentando quase todo mundo.
Os pais dela estão oferecendo um jantar em homenagem a um casal de amigos.
Acho que não foi má ideia ter vindo, ao menos a comida está deliciosa.
Letícia já está disparando seu olhar de lince na direção de alguns homens, mas nada que possa atrapalhar nossa noite.
Finalmente a pista de dança é liberada e lá vamos nós!
Já dançamos não sei quantas músicas.
Os pais da Letícia até chegaram a nos fazer companhia, mas logo pediram licença pois alguns amigos estavam esperando por eles.
A festa segue, até que divertida.
Estou muito cansada, a semana de trabalho está cobrando uma pausa e Letícia parece estar entretida com um moreno alto, bem afeiçoado que ganhou a atenção da minha amiga.
Vou até ela e falo que vou dar uma pausa, pois meus pés estão pedindo descanso.
E com isso, saio da pista de dança.
A festa está até que divertida, mas quero um lugar mais tranquilo e decido ir até o bar, onde há algumas banquetas para sentar.
Escolho uma banqueta mais discreta, onde consigo ver as pessoas dançando.
– O que posso te servir? - me pergunta o barman.
– O que você escolher para mim está bom, desde que não seja forte e nem muito adocicado.
– Já tenho algo em mente.
E com isso, ele pisca para mim e sai preparando seja lá o que a mente dele sugeriu.
Enquanto espero minha bebida, fico observando as pessoas.
Por mais que eu não tenha uma família para chamar de minha, fui muito abençoada quando a família da Letícia me acolheu em seus corações.
Minha vida poderia ser muito mais difícil, mas eles sempre estiveram ao meu lado.
Além de bancarem todos os meus estudos, ainda cuidam de mim como pais.
Mas eu sempre soube meu lugar e nunca invadi demais o espaço deles.
O barman traz minha bebida e incrível, ele acertou em cheio!
– Está perfeito!
– Sabia que você iria gostar.
E assim, ele sai para atender os demais convidados e eu sigo bebericando minha bebida.
Estou distraída olhando a pista de dança e sorrindo, vendo um casal se divertindo, mesmo tendo os dois pés esquerdos. Eles não estão nem aí, só querem aproveitar a noite.
De repente ouço:
– É incrível quando as pessoas se permitem ser elas mesmas!
Me viro na direção de onde aquela voz acabara de vir e me deparo com um homem... lindo!
Por todas as calcinhas indefesas!!!
De onde apareceu esse ser?!?
Por Milena
Fico espantada e percebo que ele já viu meu olhar, porque sorri, enquanto sacode a cabeça.
– Desculpe... seu comentário me pegou... me pegou de surpresa!
Além de ser pega babando por ele, agora tropeço nas palavras.
Nossa, estou parecendo uma estúpida.
Mas ele percebe minha falta de jeito e sai falando:
– Eu que devo me desculpar, você estava distraída.
– Não por isso, as pessoas me fascinam. É sempre bem-vindo quando algo tão inocente surge e ao mesmo tempo tão rico em seus detalhes.
– Interessante, pois compartilho do seu pensamento, em um mundo onde tudo acontece rápido demais, os pequenos detalhes ainda me chamam mais atenção... a propósito, você não me disse seu nome.
E me olha de forma curiosa.
Mas o estranho é que está voz... este tom de voz, me é familiar, mas esquisito, olho para ele e não me lembro de ter visto ele.
Será que ele esteve no armarinho?!?
Acho improvável, um rosto desse, eu não iria me esquecer fácil.
E por fim, não irei me prender a querer lembrar de alguém só pela voz.
Melhor deixar isso para lá.
– Nem você o seu - acabo dizendo e deixando meus pensamentos de lado.
Ele abre um sorriso incrível, nitidamente entendendo a brincadeira.
– Sem nomes? - me pergunta.
Acho que hoje não serei quem eu costumo ser, posso me permitir ser alguém diferente do que de fato sou.
– Nomes são apenas rótulos e hoje acho que posso me permitir em não usá-lo. Algum problema?
– Não! Nenhum, também não gosto de certas formalidades que nos são impostas.
– Esse é o ponto.
– Posso lhe oferecer uma bebida?
– Puxa, ainda estou aproveitando a que o barman fez para mim.
– O que ele lhe trouxe?
– Não sei o nome, mas está uma delícia!
E ele vê minha satisfação com a bebida.
– Certo, vou pedir apenas um Scott, para lhe fazer companhia, se não se importar.
Olho para ele descrente. Quem em seu juízo perfeito deixaria passar um homem lindo como ele? Já faz tempo que não me dou a esse desfrute, e não vejo porque não aproveitar a companhia dessa espécie interessante.
– Seus pais estão na festa? - ele pergunta de forma despretensiosa.
– Não, vim com uma amiga e seus pais.
– Ah, então está sem toque de recolher?
Olho para ele na tentativa de entender onde essa conversa irá nos levar, mas como o rosto e tudo mais estão agradando meus olhos, acho que posso seguir falando.
Pois o bofe, não é de se desperdiçar, se é que me entende!
– Mesmo que eles estivessem aqui, a filhinha deles sabe se comportar muito bem!
Ele sorri com minhas palavras.
– Isso é bom, porque caso fosse necessário, eu mesmo pediria permissão para levá-la um pouco mais tarde.
Uauuu, ele quer me levar mais tarde, como assim produção?
– E qual seria o motivo de me levar "um pouco mais tarde"?
Seu olhar ganha uma intensidade que eu não esperava, ele sai literalmente me olhando como se eu fosse algo deliciosamente bom de se saborear.
Abençoada foi a minha escolha para essa noite. Letícia tinha me dado esse vestido frente única bordô que usara apenas uma vez. Aproveitei uma sandália salto agulha com strass, cabelo em ondas grandes caindo sobre meus ombros e maquiagem um pouco mais forte do que costumo usar. Com meus um metro e sessenta e cinco, até que ganhei alguns olhares na festa e claro, não imaginava que iria conseguir um homem lindo flertando comigo de forma tão descarada.
– Como sabemos, a noite é uma criança e para isso, basta saber brincar.
– Humm, interessante... e se eu não quisesse brincar, como ficaríamos? - comento.
– Eu faria de tudo e mais um pouco, pois desde que meus olhos caíram em você, eu comecei a desenhar uma noite incrível para nós dois. E não costumo brincar sozinho.
Nossa, ele foi direto!
Por essa eu não esperava.
Ele me olha profundamente, deixando claro que suas palavras são reais e o convite permanece no ar.
Sei muito bem o que as palavras dele trazem em suas profundezas.
Letícia sempre me lembra da seriedade com que levo tudo em minha vida. Preciso mudar as coisas de lugar e por que não me deixar levar por uma noite com um homem lindo assim?
E estendi minha mão para ele, que definitivamente compreendeu que poderíamos brincar, a dois!
Saímos da festa e caminhamos até a recepção do hotel.
– Sente-se aqui por favor, vou ali na recepção pegar as chaves do quarto.
E assim, aquele homem lindo sai caminhando.
Ele parece não se importar, mas é nítido, como as mulheres o devoram com os olhos.
Até mesmo a simples recepcionista se pudesse, se penduraria em seu pescoço, disso não tenho dúvidas!
Mas hoje, a felizarda parece que serei euzinha.
Dei uma olhadinha em seus dedos enquanto conversávamos, sem marcas de aliança.
Ao menos tudo indica que seja solteiro.
Logo ele volta.
– Vamos!
Balanço minha cabeça concordando, enquanto me coloco em pé.
Ele me põe para caminhar a sua frente, enquanto me apoia com seus braços.
Seguimos para o elevador e adentramos.
Mas quando as portas se fecham, ao som do plim, ele me empurra contra a parede do elevador e abocanha meus lábios.
Eu fui pega de surpresa por seu beijo.
Ele literalmente devora minha boca, algo que eu não estava esperando.
Seu perfume me alcança e esse cheiro me traz a sensação de já ter sentindo em algum lugar. Mas, não me recordo onde.
No entanto, não deixo que me beije sozinho e me permito ser levada por seus lábios.
Nossas bocas se duelam, entre línguas e mordidas.
Ele me toma em seus braços enormes e me aperta contra seu corpo, enquanto segue me beijando.
Definitivamente ele não quis perder tempo!
Logo o elevador dispara o sinal de que chegamos.
Ele se afasta, mas a intensidade que há em seus olhos é algo que eu nunca vi.
Ele me estende a mão e eu seguro nela, seguimos até o quarto que ele reservou.
Entramos e sei muito bem que ele reservou uma das suítes presidenciais.
Interessante!
Acho justo que queria me oferecer o melhor.
– Fique à vontade, vou até meu quarto e já volto.
Meu quarto!
Nossa, não imaginei que ele estivesse hospedado aqui.
Mas que seja, já estou aqui mesmo e se algo estranho acontecer, basta eu sair.
A suíte é muito ampla, há uma boa sala de estar, com uma mini cozinha acoplada. Tem uma porta no canto direito, possivelmente um lavabo.
E um pequeno home office em um canto, onde vejo muitos livros bem organizados.
Oras, ele gosta de ler!
Que grata novidade!
– Agora sim, estou à vontade.
Quando me viro para olhá-lo, ele está descalço. Vestindo uma camisa preta com os botões abertos e usando uma calça de flanela bem soltinha.
Sabe aquele sorvete que enche primeiro os olhos para depois você querer sair lambendo ele todinho.
Isso!
É isso que estou olhando, nesse exato momento!