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O Pacto de Casamento Falso da Herdeira Muda

O Pacto de Casamento Falso da Herdeira Muda

Autor:: Meng Fan Hua
Gênero: Moderno
Minha família biológica me resgatou do abrigo estatal não por amor, mas para me usar como moeda de troca. Para eles, sou apenas a "filha muda e atrasada", uma peça de reposição descartável vestida com trapos. O plano era cruel e simples: me vender em casamento para Abrolho, um herdeiro bilionário, recluso e supostamente paralítico, conhecido por seus surtos violentos. Eles precisavam garantir um acordo comercial, e eu era o sacrifício perfeito que não poderia reclamar. No baile de gala, a humilhação foi pública. Minha irmã e suas amigas ricas jogaram vinho no meu vestido, me tratando como lixo. Quando um primo bêbado tentou me assediar à força e eu reagi quebrando o pulso dele com uma técnica de defesa pessoal, minha própria família se voltou contra mim. Minha avó levantou a bengala para me agredir no meio do salão, e meu pai gritou que eu era um animal selvagem, ameaçando me jogar de volta na sarjeta sem nada. Eles riam, achando que estavam enviando um cordeiro indefeso para o matadouro. O que eles não sabiam é que o meu silêncio não é estupidez, é uma arma afiada nos anos de abuso do sistema. Eles não imaginavam que eu já havia hackeado os servidores privados da família e tinha provas de que a biologia deles era uma mentira. Mas o trunfo real estava na minha frente. Levei meu "noivo monstro" para a varanda, longe dos olhares, e encarei o homem na cadeira de rodas. "Seu pé esquerdo faz pressão no apoio. Seus músculos da coxa reagiram quando a cadeira balançou. Você não é paralítico." O olhar de tédio dele desapareceu, substituído por um instinto assassino. Antes que ele pudesse agir, fiz minha oferta. "Case comigo. Eu guardo seu segredo, finjo ser a esposa submissa, e em troca... nós destruímos todos eles juntos."

Capítulo 1 1

O Lincoln preto deslizava pelo bairro nobre como um cortejo fúnebre de uma pessoa só.

Brisa encostou a testa no vidro frio e escurecido. Lá fora, a cidade era um borrão de aço e ambição. Aqui dentro, o ar era reciclado, viciado.

Ela olhou para os próprios pés.

Seus tênis de lona estavam desfiados nas bordas, a borracha branca amarelada pelo tempo e pelo chão encardido do abrigo estatal.

Ela havia escavado o salto direito semanas atrás para esconder seu bem mais valioso: um microgravador comprado com criptomoeda minerada no computador da biblioteca.

Aqueles sapatos pareciam uma infecção contra os tapetes de couro imaculados do veículo de luxo.

A janela divisória zumbiu. Não baixou completamente, apenas uma fresta, o suficiente para os olhos do motorista aparecerem no retrovisor.

Ele a olhou como se olha para uma mancha em uma camisa de seda.

Apertou um botão e o vidro subiu novamente, selando-a. Aumentou o volume do rádio, afogando a existência dela.

O carro diminuiu a velocidade. Estavam se aproximando dos portões de ferro da propriedade dos Vance.

O segurança na guarita hesitou. Verificou a prancheta, olhou para o carro, depois olhou para a prancheta novamente.

Três segundos.

Levou três segundos inteiros para decidir que ela tinha permissão para entrar no lugar que legalmente era sua casa.

O carro parou ao pé da escadaria de calcário. O motorista não saiu. Ele acionou a abertura do porta-malas e esperou.

Brisa abriu a porta. A umidade do verão atingiu seu rosto, espessa e sufocante. Ela caminhou até a traseira, puxou sua única e surrada bolsa de lona e a jogou sobre o ombro.

Prumo, o mordomo que servia a família Vance desde antes de Brisa nascer - e ser subsequentemente descartada - estava no topo da escada.

Ele não se curvou.

Ele não sorriu.

Estendeu um braço, o dedo indicador apontando rigidamente para a lateral da casa.

A entrada de serviço. A porta para os empregados.

Brisa ajustou a alça no ombro. A fivela de metal cravou em sua clavícula.

Ela olhou para Prumo.

Não o encarou com raiva, nem implorou. Simplesmente olhou através dele. Seus olhos eram escuros, sem piscar, desprovidos da deferência que ele esperava.

Ela pisou no primeiro degrau. Depois no segundo.

Passou pelo braço estendido dele como se fosse um galho de árvore obstruindo o caminho.

Prumo puxou o ar para falar, para repreender, talvez para bloqueá-la fisicamente.

Brisa virou a cabeça ligeiramente. Travou os olhos nos dele.

Era um olhar que ela havia aperfeiçoado nos chuveiros comunitários do sistema de adoção, um olhar que dizia que a violência era uma língua que ela falava fluentemente.

Prumo congelou. Sua mão caiu.

Ela empurrou as pesadas portas duplas de carvalho.

O saguão era um ataque de luz. Um lustre de cristal, grande o suficiente para esmagar um carro pequeno, pendia do teto de três andares, refratando a luz em mil adagas perfurantes.

Risadas vinham da sala de estar à esquerda. Era o som de um comercial de uma vida perfeita.

Ela caminhou em direção ao som. Seus tênis não faziam barulho no mármore, mas sua presença parecia sugar o ar do ambiente.

A risada morreu instantaneamente.

Era um quadro vivo de riqueza.

Aurora, sua mãe biológica, estava sentada em um sofá de veludo, com uma xícara de chá a meio caminho dos lábios. A xícara tilintou contra o pires, derramando algumas gotas de Earl Grey.

Por uma fração de segundo, os olhos de Aurora se arregalaram - um lampejo de reconhecimento, talvez até culpa - antes que a máscara da esposa obediente voltasse ao lugar.

Ela não se levantou. Não abriu os braços. Olhou para Brisa com uma mistura de horror e piedade, como se assistisse a um noticiário sobre uma tragédia em um país estrangeiro.

Cerne, seu pai, verificou seu relógio Patek Philippe. Franziu a testa, uma linha vertical profunda surgindo entre as sobrancelhas, como se a chegada de Brisa tivesse atrapalhado seu cronograma trimestral.

E então havia Gema.

Gema estava sentada no chão, cercada por papel de presente rasgado e caixas abertas. Usava um terno Chanel de tweed que custava mais do que o orçamento operacional do último abrigo de Brisa.

Ela se agarrou ao braço de Aurora, a cabeça descansando no ombro da mãe. Seus olhos, grandes e azuis, dispararam para Brisa. Houve um clarão de algo afiado - agressão territorial - antes de ser mascarado por uma performance de inocência.

Na cabeceira da sala, em uma poltrona de espaldar alto, estava Ápice. A matriarca.

Ela segurava uma bengala com topo de prata. Levantou-a uma polegada e deixou cair.

Thud.

- Você está aqui - disse Ápice. Sua voz era como pergaminho seco sendo amassado. Ela escaneou Brisa do coque bagunçado aos sapatos baratos. - Vá se lavar. Você cheira a metrô.

Brisa permaneceu imóvel. Era uma estátua esculpida em silêncio. Deixou o insulto passar por ela, notando como Aurora estremeceu, mas permaneceu calada, e como Cerne olhou pela janela.

- Ai meu Deus - Gema engasgou, a mão voando para a boca em uma exibição teatral. - É verdade? Ela é... ela não fala? Li no arquivo que ela tem... atrasos cognitivos.

- Gema, quieta - murmurou Aurora, embora sua mão acariciasse o cabelo de Gema de forma tranquilizadora. - Brisa, esta é sua irmã.

Gema se levantou. Caminhou em direção a Brisa, os saltos estalando na madeira de lei. Parou a trinta centímetros, invadindo o espaço pessoal de Brisa. Cheirava a baunilha e dinheiro velho.

Ela se inclinou como se fosse abraçar, mas seus braços permaneceram rígidos. Aproximou os lábios do ouvido de Brisa.

- Volte para a sarjeta - sussurrou Gema. O veneno em sua voz era tão puro que chegava a ser impressionante.

Brisa não recuou. Virou a cabeça, apenas uma polegada, e encarou diretamente as pupilas de Gema.

Não piscou. Não respirou. Apenas observou, dissecando o medo que jazia sob a agressão.

O sorriso de Gema vacilou. Ela deu meio passo para trás, sua confiança rachando sob o peso daquele olhar morto e pesado.

- Leve-a para o quarto - latiu Cerne, quebrando a tensão. - Ala Norte. Terceiro andar.

Prumo apareceu ao lado de Brisa.

- Por aqui.

Passaram pelo segundo andar. A porta do quarto de Gema estava entreaberta. Era uma caverna de sedas cor-de-rosa e móveis brancos, inundada pelo sol da tarde.

Subiram mais alto. O ar ficou mais quente, mais abafado. O carpete acabou, substituído por tábuas de assoalho nuas.

Prumo parou em uma porta estreita no final do corredor. Destrancou-a e empurrou-a.

Era um depósito convertido. A janela era pequena, voltada para a parede de tijolos do prédio vizinho e o beco abaixo.

- O jantar é às sete - disse Prumo. - Atraso significa ficar sem comer.

Ele saiu. A fechadura clicou.

Brisa largou a bolsa. O silêncio do quarto correu para encontrá-la. Caminhou até a janela e olhou para baixo. Um jardineiro aparava as cercas vivas, sem saber que um fantasma o observava do sótão.

Ela sentou na beira da cama estreita. O colchão era duro.

Tirou o sapato, forçou o compartimento oculto no salto e puxou o pequeno gravador digital prateado. Seu polegar roçou o botão "parar". A luz vermelha de gravação piscou e apagou.

Ela tinha cada palavra. Cada insulto. Cada hesitação. Havia colocado no bolso antes de entrar na sala de estar, um reflexo aprimorado por anos precisando de provas para sobreviver.

Enfiou a mão no bolso e tirou uma bala de limão, a embalagem estalando alto no quarto vazio. Desembrulhou e jogou na boca.

O gosto azedo e químico atingiu sua língua, agudo e real.

Era a única coisa naquela casa que não era uma mentira.

Capítulo 2 2

O jantar foi um estudo sobre exclusão.

A mesa de jantar era longa o suficiente para pousar um avião, posta com porcelana fina e talheres pesados o bastante para serem armas.

Brisa sentou-se na extremidade oposta, de frente para Ápice. Havia trocado de roupa por uma camiseta branca lisa, o tecido fino e lavado tantas vezes que era quase transparente.

Diante de todos os outros, pratos de pato assado com cobertura de cereja.

Diante de Brisa, uma tigela de salada verde. Sem molho.

Gema cutucou seu pato.

- O baile de gala é amanhã - disse ela, a voz leve e borbulhante. - Vou usar o Dior personalizado. As provas foram um pesadelo, mas finalmente está perfeito.

Ela olhou para Brisa, esperando uma reação. Brisa cortou uma folha de alface com precisão cirúrgica.

Ápice bateu na taça com uma colher.

- Brisa também comparecerá. Existem... obrigações.

Brisa mastigou. Encarou o centro de mesa, um arranjo maciço de lírios brancos. Não assentiu.

- Ela entende português? - perguntou Gema, olhando para Cerne. - Talvez precisemos de linguagem de sinais.

- Ela entende - disse Cerne, sem levantar os olhos do celular. - Ela só é difícil.

Após o jantar, Brisa retirou-se para o terceiro andar. Mal havia fechado a porta quando ela foi empurrada com força.

Gema estava lá, a máscara de irmã doce havia desaparecido. Seu rosto estava retorcido em um sorriso de escárnio.

- Não pense - sibilou Gema, entrando no quarto e chutando a porta para fechar -, que só porque você tem o sobrenome, você ganha a vida. Você é uma peça de reposição. Um estepe.

Brisa ficou parada perto da escrivaninha. Observou Gema avançar.

- Estes são meus pais - disse Gema, cutucando Brisa com força no ombro. - Minha avó. Meu dinheiro. Você é lixo.

Ela empurrou Brisa.

Brisa cambaleou para trás, a omoplata batendo na parede com um baque surdo. A dor irradiou pelo braço.

Ela não emitiu nenhum som. Seu rosto permaneceu uma tela em branco.

Essa falta de reação enfureceu Gema. Ela agarrou um copo de água da mesa de cabeceira e jogou o conteúdo no rosto de Brisa.

- Diga alguma coisa! - gritou Gema. - Sua aberração! Sua idiota muda!

A água pingava dos cílios de Brisa. Ela não limpou. Simplesmente piscou, os olhos acompanhando uma gota enquanto ela caía de seu queixo para o chão.

Gema soltou um grito frustrado e saiu tempestuosamente, batendo a porta com tanta força que o vidro da janela estremeceu.

Brisa ficou ali por um minuto inteiro. Então, lentamente, limpou o rosto com a bainha da camiseta. Caminhou até a porta e acionou a tranca.

Foi até a cama e levantou o colchão. Por baixo dele, enfiado em uma fenda no estrado, estava um tablet preto. Era um protótipo, criptografia de nível militar que ela mesma havia resgatado e consertado.

Sentou-se no chão, cruzou as pernas e digitou uma senha de vinte caracteres.

A tela ganhou vida. Ela conectou um pequeno dongle USB caseiro - um "Abacaxi Wi-Fi" que construíra com peças sobressalentes - para contornar o firewall comercial da família. Levou menos de trinta segundos para encontrar a porta legada que Cerne não se dera ao trabalho de atualizar.

Abriu um aplicativo de desenho. Seus dedos, geralmente fechados em punhos ou pendurados frouxamente, tornaram-se fluidos. Dançavam pelo vidro.

Linhas se formaram. Formas coalesceram.

Em dez minutos, estava pronto. Uma caricatura no estilo de horror gótico grotesco. Retratava uma garota em um terno Chanel, mas sua pele descascava como papel de parede podre. Por baixo, ela não era humana. Era uma massa de vermes se contorcendo e moedas de ouro. Sua boca estava costurada com fio de diamante.

Brisa assinou no canto: E-11.

Logou em um servidor seguro, roteado por três países diferentes, e postou a imagem no fórum de arte underground.

Legenda: Bem-vinda ao Lar. ValoresFamiliares

Ela atualizou a página.

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Comentários inundaram.

User_X: "E-11 está de volta! A rainha retornou."

Art_Snob: "A textura na pele... visceral. Isso é um comentário sobre a burguesia?"

Dark_Soul: "Sinto essa imagem nos meus dentes."

Brisa observou os números subirem. Uma notificação surgiu de um escritório de advocacia representando um grande estúdio de jogos. "E-11, em relação à aquisição de direitos para seu recente portfólio de personagens..."

Ela deslizou para dispensar.

Colocou seus fones de ouvido com cancelamento de ruído. Rolou para uma playlist rotulada "RUÍDO". Metal industrial pesado e caótico explodiu em seus ouvidos, uma parede de som para manter as memórias afastadas.

Flashback. Um porão. Cheiro de mofo. Crianças rindo. Um pé conectando com suas costelas. "Diga alguma coisa, aberração!"

Brisa apertou os olhos com força. Sua mão tremia violentamente. Não procurou pílulas; não tinha acesso a elas ali. Em vez disso, pegou um lápis de carvão e um pedaço de papel.

Começou a sombrear, contando de trás para frente a partir de mil, de sete em sete.

993. 986. 979.

A música martelava. O grafite quebrou. O tremor parou.

- Começou o jogo, Gema - sussurrou ela para o quarto vazio.

Capítulo 3 3

Na manhã seguinte, o alfaiate chegou. Era um homem pequeno e nervoso que cheirava a amido e medo. Foi conduzido à sala matinal onde Gema já reinava, cercada por três assistentes que afofavam a cauda de um vestido carmesim.

- É magnífico - arrulhou Aurora, batendo palmas.

Brisa estava no canto, misturando-se ao papel de parede bege. O alfaiate olhou para ela, depois para Ápice.

- E para... a outra? - perguntou o alfaiate.

Ápice acenou com a mão desdenhosa.

- Algo de arara. Da estação passada. Modesto. Ela não precisa brilhar; só precisa estar apresentável para a família Abrolho inspecionar.

Abrolho.

As orelhas de Brisa não se moveram, mas sua atenção se aguçou como o fio de uma navalha. Inspecionar. Como gado.

- Claro - disse o alfaiate. Puxou uma capa de vestuário do fundo de sua pilha. Entregou a Brisa um vestido cinza. Era sem forma, de gola alta, algo que uma governanta usaria em um funeral.

- Vista - ordenou Ápice.

Brisa foi para trás do biombo. O tecido pinicava. Pendia de sua estrutura, engolindo sua figura. Ela saiu.

Gema riu.

- Ai meu Deus, ela parece que roubou o uniforme de uma empregada.

Brisa curvou os ombros, fazendo-se parecer menor, mais patética. Olhou para o chão, escondendo o cálculo em seus olhos.

Mais tarde naquela tarde, Brisa esgueirou-se para a biblioteca. Era uma sala de dois andares cheia de livros que ninguém naquela família lia. Encontrou um nicho atrás de uma fileira de enciclopédias e sentou-se no chão.

Vozes se aproximaram. As pesadas portas de mogno não fecharam completamente.

- O Abrolho é um desastre - a voz de Cerne flutuou para dentro. - Desde o acidente. Ele está paralisado da cintura para baixo. É amargo, bebe, é um recluso.

- O que o torna perfeito - respondeu Ápice. Sua voz era aço frio. - A família Abrolho precisa de uma esposa para ele para garantir a liberação do fundo fiduciário. Eles não se importam com quem seja. Gema é valiosa demais para desperdiçar com um aleijado. Brisa servirá.

- Você acha que ela consegue lidar com ele? - perguntou Cerne. - Ouvi dizer que ele tem temperamento difícil.

- Ela é muda - zombou Ápice. - Não pode reclamar. Não pode ir à imprensa. Só tem que sobreviver um ano até a fusão estar completa. Então nos divorciamos dela, pegamos o acordo e a cortamos.

Brisa pressionou a testa contra a estante. Suas unhas cravaram nas palmas das mãos até a pele romper.

Vendida. Ela estava sendo vendida para cobrir um acordo comercial.

Esperou até que saíssem. Então se moveu.

Não apenas saiu da sala. Foi até a mesa de Cerne. O computador estava bloqueado, mas Cerne era uma criatura de hábitos. Havia escrito suas senhas em um post-it enfiado sob o mata-borrão - uma falha de segurança que ela notara no escritório de seu pai adotivo anos atrás.

Logou. Não procurou dinheiro. Procurou registros médicos. O servidor privado da família Vance.

Encontrou os arquivos. Cerne Vance. Aurora Vance. Gema Vance.

Puxou o celular e tirou fotos dos relatórios de tipo sanguíneo. A, A e B.

Biologia impossível.

Ela não sabia a história completa ainda, mas tinha a munição. Fez logout, limpou o registro de atividades recentes e desapareceu.

De volta ao quarto, pegou o tablet. Contornou os controles parentais da família novamente e mergulhou na deep web.

Assunto: Abrolho (Julian Thorne).

Resultados da pesquisa:

Ex-tubarão de Wall Street.

Acidente de carro há dois anos.

Lesão na coluna. Cadeirante.

Noiva o deixou um mês depois.

Rumores de surtos violentos na propriedade Abrolho.

Ela puxou imagens. A maioria eram fotos granuladas de paparazzi. Abrolho em uma cadeira de rodas, cabeça baixa, parecendo frágil.

Mas Brisa não olhava para a cadeira de rodas. Deu zoom em uma foto tirada há três meses. Abrolho agarrava o apoio de braço de sua cadeira.

Aplicou um filtro para melhorar a resolução.

As mãos dele. Os nós dos dedos estavam brancos. Os tendões, definidos.

Mudou para uma foto dele entrando em um carro. Ele estava se levantando. A definição do tríceps era extrema. Mas foram as pernas que chamaram sua atenção. Na sombra da porta do carro, o músculo da panturrilha estava engajado.

Paralisia causa atrofia. A perda muscular acontece em meses. Abrolho estava naquela cadeira há dois anos. Suas pernas deveriam ser gravetos. Não eram.

Ela deu zoom nos olhos dele em outra foto. Não havia o brilho vidrado do alcoolismo. Nem a opacidade da depressão.

Eram afiados. Predatórios.

Ele estava fingindo.

Naquela noite, Gema bateu em sua porta. Estendeu um colar de pérolas.

- Aqui - disse ela, a voz pingando doçura falsa. - Vovó disse que você devia usar isso. Para parecer menos... pobre.

Brisa pegou. Plástico. Podia dizer pelo peso.

- Você vai conhecer o Abrolho amanhã - sorriu Gema com escárnio. - Boa sorte. Ouvi dizer que ele joga coisas.

Brisa colocou as pérolas. Olhou no espelho e deu um sorriso aterrorizado e trêmulo.

Gema radiou, satisfeita por sua campanha de terror estar funcionando, e saiu.

Assim que a porta clicou, Brisa arrancou as pérolas e as jogou na lata de lixo. Foi até o armário e olhou para o vestido cinza.

Ela não precisava ser bonita. Não precisava ser encantadora. Precisava ser a única coisa que Abrolho não esperaria.

Precisava ser cúmplice dele.

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