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O Padrasto (Deane Ramos)

O Padrasto (Deane Ramos)

Autor:: deaneramos
Gênero: Romance
Você sabe o poder que tem uma mentira? Ela pode mudar o curso de uma vida. Julha Thompson se apaixona perdidamente pelo homem que ela acredita ser o seu grande inimigo, o namorado da sua mãe. Por mais que tente negar, Julha já está marcada por ele, para ele, mas nada é tão simples como parece. Viver o romance proibido com o seu padrasto está fora de cogitação. Mantê-lo distante é um dos seus maiores desafios, mas a vida prega muitas peças e irá mostrar a Julha que o maior desafio ainda está por vir. Um romance regado a desejos, luxúria, mentiras e traições.

Capítulo 1 Prólogo

"Viva cada dia de sua vida como se fosse o último. Você não sabe quanto tempo lhe resta e tudo pode mudar em frações de segundos."

- Deane Ramos.

Dezembro, 2014

Eu realmente sou uma garota abençoada por Deus. Sim, eu sou!

Não que eu seja uma garota religiosa, mas como poderia ser?

Cresci ouvindo mamãe me dizer, dia após dia, que Deus nada mais é do que uma pessoa inventada pelos homens para fazer com que as pessoas fracassadas tenham onde depositar toda a confiança de que suas frustrantes vidas irão prosperar. E enquanto isso, a vovó Iolanda sempre fora uma mulher de muita fé, e me dizia que Deus é um ser supremo e que Ele é quem sopra sobre nós o fôlego de vida todos os dias, e que nada em nossas vidas acontece se não for com a sua permissão.

É muito lindo quando ouço vovó falar emocionada sobre Deus. É como se ela o conhecesse tão bem, que quem a ouve falar se emociona. Contanto que a mamãe não descubra a minha admiração por Ele, ou eu teria que ouvi-la dizer que sou tão tola ou mais que a minha vó, prefiro mantê-la longe dos meus assuntos com a dona Iolanda, afinal, a convivência entre as duas não é das melhores. Amo tanto a mamãe quanto a vovó, e mesmo que a convivência das duas seja insuportável, ainda assim prefiro não tomar partido e fico em cima do muro como forma de protesto dessa briga declarada entre elas.

Tenho uma família normal, como qualquer outra. Meus pais são maravilhosos e tenho muito orgulho deles e os amo muito, sem me esquecer de dona Iolanda, minha avó paterna, que é a minha maior inspiração como pessoa. Mas para evitar longas horas de discussão com a mamãe, eu não a visito com a frequência que gostaria. Já o meu avô paterno, Gary Thompson, era falecido quando eu nasci, mas as coisas que vovó e papai sempre me contam sobre ele faz com que eu tenha muito orgulho dele, mesmo não o tendo conhecido. Às vezes eu me pego pensando como teria sido a minha vida ao lado dele se eu o tivesse conhecido.

Meus tios, Joseph, irmão de papai, e Margareth, não sei por qual razão, preferem manter distância da nossa família e por esse motivo, não tenho muito contato com os meus primos, Lucca e Mia.

Tenho boas lembranças de quando éramos crianças e todos nós íamos passar as férias na casa de vovó, era muito divertido. Não sei como as nossas vidas tomaram rumos tão diferentes, mas segui o conselho de papai, que me disse para não me envolver nos assuntos dos adultos.

Claro que, como uma filha obediente que sou, não houve problema algum para atender ao seu pedido.

Amo muito meus pais, daria minha vida por eles, e não tenho dúvidas de que eles me amam com a mesma intensidade.

Papai é sempre tão carinhoso e tem sido muito atencioso comigo nos últimos dias, me colocando em primeiro lugar em tudo na sua vida, e mesmo que muitas vezes eu me sinta sozinha, é como mamãe sempre diz: "Nem sempre podemos ter tudo o que queremos."

Mesmo tendo papai sempre por perto, sinto falta da companhia de mamãe, que passa boa parte do tempo em longas viagens a trabalho e nunca está presente nos momentos em que eu mais preciso dela. Mas ainda assim, sou muito feliz. Não que eu esteja reclamando, seria injusto da minha parte se o fizesse porque eu sei o quanto ela e papai amam o trabalho e tenho consciência de que se sacrificam para dar todo o conforto do qual eu desfruto.

Será que é pedir muito que ela diminua sua carga de trabalho, como papai fizera, e assim possa passar mais tempo conosco?

Sim.

Para Katherine Thompson, a sua maior paixão é o trabalho.

Muitas vezes penso que o amor que ela sente por seu trabalho é muito maior do que ela diz sentir por nós.

Estou sendo injusta? Talvez.

Mamãe é uma mulher determinada e sempre vai em busca de seus sonhos. Segundo suas palavras, seu nome é Katherine, sobrenome, trabalho.

Reviro os olhos mentalmente e um sorriso divertido rola por sobre meus lábios, quando me vem à mente a sua resposta de todos os questionamentos por ela estar ausente na maior parte do tempo.

Em nossa última discussão na mesa do café da manhã, ela declarou o seu amor por mim e por papai, porém, eu tinha que aprender desde cedo que ninguém vive só de amor e que ela precisa trabalhar para sustentar todos os meus caprichos.

Eu entendo que ela se preocupe com o meu futuro, mas gostaria que ela também pensasse em como eu me sinto com a sua ausência. Sinto falta de uma conversa apenas de meninas, como a Sra. Jesse Clark, mãe de uma das pessoas mais importantes da minha vida, e Ane Clark, minha melhor amiga.

O carro percorre tranquilamente pela avenida, agora pouco movimentada, de Manhattan.

Estamos voltando para Manhattan Resort, onde estamos hospedados, depois de um delicioso e divertido jantar no K'Midtown, um dos mais sofisticados restaurantes de Manhattan, na adorável companhia dos meus pais.

Se eles se dessem conta de o quanto momentos como este faz toda a diferença no convívio de uma família, positivamente falando, desfrutaríamos mais da companhia do outro.

Papai e mamãe estão felizes, o escritório de advocacia Thompson, o que papai e mamãe são sócios, recentemente assinou um contrato de prestação de serviços milionário com a The New York Times, e para comemorarmos, viemos passar um fim de semana em um resort maravilhoso em Manhattan.

Em meio a dezenas de opções de lugares que papai me apresentou me dando a honra de escolher onde iríamos passar o nosso fim de semana comemorativo, escolhi Manhattan, porque além de ser o distrito mais povoado de Nova Iorque, o que nos dá a chance de conhecermos pessoas de culturas diferentes, aqui você encontra restaurantes refinados e butiques elegantes. Mamãe, claro, ficou enlouquecida com a possibilidade de adquirir mais algumas peças para a sua coleção de centenas de roupas não usadas, e foi às compras. Enquanto eu me divertia na piscina na companhia de papai, que estava tão relaxado que não brigou com a mamãe, como das outras vezes, por ela gastar dinheiro sem necessidade quando ela tem um closet repleto de lindas peças de roupas que nunca foram usadas.

Conheço Katherine Thompson e se tem algo que a deixa feliz, é sair e voltar com as mãos repletas de sacolas.

O clima em Manhattan está perfeito!

A brisa refrescante que adentra, através das janelas do carro aberta, desliza sobre o meu rosto, fazendo com que eu sinta um leve arrepio percorrer o meu corpo.

Desvio os olhos da janela, onde estive imersa por alguns minutos contemplando a imagem das belíssimas mansões que passam rapidamente acompanhando o movimento do carro, quando a ouço gargalhar, divertida.

Intencionalmente, sorrio quando volto a minha atenção para mamãe, que sorri lindamente para o papai, que desvia por alguns segundos a sua atenção da estrada e acaricia o maxilar dela suavemente com o polegar direito.

Eles formam um lindo casal.

- Tudo bem, querida? - pergunta papai, que me olha através do retrovisor da nossa Mercedes.

Papai é um grande amante de carros. Ele tem uma pequena coleção composta por uma Mercedes, BMW, SUV e entre outros que não me recordo o nome, além de ser um ótimo motorista. Não me lembro de ter ouvido papai mencionar alguma multa que tenha levado por excesso de velocidade, estacionar em local proibido ou até mesmo dirigir embriagado. Papai é realmente um homem exemplar.

Volto a minha atenção para o papai, que continua a me fitar enquanto estamos parados no farol. Sorrio e em seguida assinto com a cabeça.

- Este vestido caiu tão bem em você. - diz mamãe, que agora se vira e me lança o seu mais lindo sorriso.

- Créditos à Sra. Thompson. - pisco e retribuo o sorriso, vendo um largo sorriso de satisfação se formar em seus lábios.

- Eu sei que tenho bom gosto, mas convenhamos, se a modelo não possuísse uma beleza estonteante, sem dúvida o vestido não faria milagres. - pisca de volta, e retorna a sua atenção para a estrada quando papai coloca o carro em movimento.

- Concordo com a sua mãe, querida. - afirma papai.

Dou de ombros. Eles podem até ter razão, mas que a mamãe tem um bom gosto, não podemos negar. Ela sempre faz questão de escolher as roupas que eu devo usar em cada evento e não me incomodo nem um pouco com isso, quando sei que ela adora me produzir e o faz com maestria.

Mamãe sabe como ninguém combinar roupas com sapatos e acessórios, não esquecendo de mencionar os penteados que ela mesma faz questão de escolher. Mesmo que ela esteja do outro lado do país, mamãe faz questão de me passar todas as coordenadas de qual roupa eu devo usar no jantar, que no caso é um vestido azul de renda tomara que caia curto e soltinho com um lindo detalhe no cinto em cetim que acentua a minha cintura, destacando as minhas curvas.

Simplesmente lindo!

Volto a fitar papai e mamãe que conversam descontraídos, e sem que eu perceba, um sorriso se forma em meus lábios.

Volto a minha atenção para a paisagem que passa diante dos meus olhos e sou surpreendida pela brisa gostosa, que entra através da janela do carro, mandando para longe todo o calor insuportável que assola a cidade.

Observo atentamente o movimento das pessoas que andam tranquilamente nas calçadas olhando as vitrines das grandes grifes, alguns casais visivelmente apaixonados saindo dos restaurantes depois de um jantar romântico.

- Queridas, chegamos! - sou desperta do meu devaneio quando ouço a voz suave de papai, que se prepara para descer do carro depois de ter estacionado em frente ao resort.

Vejo um manobrista se aproximar.

- Em que estava pensando, querida? - pergunta mamãe, envolvendo um dos seus braços na minha cintura, enquanto papai faz o mesmo do outro lado.

Sinto-me protegida.

- Nada de mais. Só que estou muito feliz por estarmos todos juntos. - eu digo, emocionada.

- Nós também estamos felizes, meu bem. - diz mamãe antes de depositar um beijo em minha cabeça. Logo, papai repete o gesto.

Caminhamos dessa maneira, abraçados e felizes, assim que papai entrega a chave para o manobrista.

Despeço-me de papai e mamãe na recepção e sigo para o meu quarto, pois estou exausta, enquanto eles vão até o bar do restaurante tomar alguns drinques para encerrar a noite. E depois, prefiro não pensar no que eles irão fazer.

Definitivamente, não quero pensar.

Uma semana depois...

- Quer me deixar dormir, por favor? - digo, irritada, imaginando ser mamãe em seu modo "carinhoso" de me acordar. Ainda com os olhos fechados, pego o travesseiro e cubro a cabeça, ignorando a sua presença.

- Bom dia! - ouço a voz meiga e animada de minha amiga, Ane, acompanhada dos seus passos, e se eu a conheço muito bem, sei que ela está indo para as grandes janelas.

Bingo!

Como eu pensara, Ane abre as cortinas do quarto.

- Ane Clark, me deixe dormir! - digo entre dentes. Sou surpreendida ao sentir o seu corpo magro, com a sua maneira delicada, saltar sobre o meu, fazendo com que eu solte um gemido alto de dor quando nossos corpos se chocam. - Está louca? - acabo soltando um gemido.

Ela gargalha, rolando para a cama e se deitando ao meu lado.

- Não, mas ficarei se você não levantar. - pegando-me de surpresa, ela tira o travesseiro da minha cabeça.

- Já te disseram que você é muito chata? - viro de barriga para cima.

- Você acabou de dizer. - ela sorri, divertida, me fazendo revirar os olhos.

- Vamos, Julha, ou iremos nos atrasar para a aula. Você sabe que o Sr. Johnson não tolera atrasos. - diz, autoritária, tirando o meu cobertor.

Se fosse alguns dias atrás, eu já estaria de pé e me vestiria em tempo recorde. O Sr. Johnson, meu professor de Educação Física, um homem de meia-idade, corpo malhado e cabelo grisalho, pega no meu pé em relação aos atrasos. Consigo ouvi-lo dizer: "Srta. Thompson, você seria o exemplo de aluna na minha matéria se não fosse os seus constantes atrasos." O que ele não entende é que eu não gosto da matéria dele e não faço questão de estar em primeiro lugar na sua lista de alunas exemplares. - Julha Thompson, vamos logo. Levante dessa cama agora mesmo. - diz, autoritária.

- Você pode ir. Eu não vou à aula hoje.

- Como é? Você quer ser reprovada esse ano?

- Não me importo. - dou de ombros.

- Claro, você quer entrar atrasada para a faculdade. - sorri, irônica.

- Pouco me importa. Nada mais faz sentido na minha vida.

- Ju, não fale assim. - ela me repreende.

- Ane, você não entende. - um nó se forma em minha garganta e eu engulo em seco, tentando impedir que as lágrimas que se formam em meus olhos caiam.

Ela respira profundamente demonstrando cansaço e se deita novamente ao meu lado.

- São seus pais novamente? - Ane vira o corpo de lado e descansa a cabeça em sua mão esquerda, enquanto me fita.

Viro lentamente minha cabeça para o lado e volto a atenção para Ane, que me encara, esperando uma resposta.

Não quero tocar no assunto que muito me tem machucado esses dias, mas eu nunca escondi nada da minha amiga e não será agora que irei fazer isso. Assinto com a cabeça e volto a minha atenção para o porta-retratos que está sobre o criado-mudo com uma das minhas fotos preferidas da nossa última viagem para o resort. Não consigo controlar as lágrimas que começam a escorrer em meu rosto. Sinto saudade da paz que tínhamos em nossa casa, de todos os momentos felizes em que vivemos.

- Nos últimos dias, eles vêm brigando muito. - digo com a voz embargada.

- Amiga, não fique assim. - Ane me toma em seus braços e acaricia o meu cabelo. - É apenas uma fase. Meus pais também são assim, alguns dias eles estão se matando e no outro se amando feitos dois adolescentes, chega a dar nojo. - bufa e mesmo que eu não a esteja vendo, imagino que faz uma careta divertida.

- Mas mamãe e papai não são assim, eles sempre se deram bem. - eu fito Ane. - Quero a minha vida normal de volta. - ela me abraça.

- Você terá, minha amiga.

- Eu não sei, amiga, há uma semana que voltamos de viagem e tudo tem se tornado um inferno. É como se uma bruxa de conto de fadas jogasse um feitiço sobre a minha família, que há uma semana vivia um sonho lindo, e tudo acabou em um curto espaço de tempo. - suspiro.

- Desde quando você acredita em contos de fadas? - ela me fita, confusa.

- Não é que eu acredite, mas foi a única maneira que encontrei de dar um exemplo.

- Tudo bem. - ri, divertida. - Eu vou dispensar meu motorista e vou te fazer companhia. - diz, se colocando de pé.

- Não precisa, amiga. Não quero te arrumar problemas.

- Não se preocupe. Tome um banho, vista um biquíni e vamos tomar café. Passaremos o dia na piscina, você precisa se distrair. Eu já volto. Ah, e escolha um biquíni para que eu possa vestir. - sorrio, assinto com a cabeça, e então Ane sai.

Ane e eu passamos um dia tranquilo. Por algumas horas, eu consigo esquecer os meus problemas. Mamãe e papai ainda não haviam chegado. Depois de Ane ter ido embora, subo para o meu quarto, tomo um banho rápido, visto o meu roupão e deito em minha cama, onde adormeço.

Algumas horas depois...

- Eu odeio você! - mamãe?

- Suma da minha casa, da minha vida e da vida da minha filha, sua vadia. - papai?

- Nossa filha! E quer saber? Ela vai ficar comigo!

- Ela não é...

- Não se atreva, Gary Thompson Junior.

Sou desperta com o quarto escuro. A noite havia caído e vozes alteradas vêm do quarto ao lado. Ouço o barulho de algo se estilhaçando e minha pulsação bate acelerada.

Todos os dias têm sido assim. Mamãe e papai discutem, arremessam objetos contra a parede depois de muito se ofenderem com palavras grosseiras e vem o estrondo da porta se fechando. Não tenho forças para levantar, as lágrimas não cessam, meu coração bate descompassado e tudo o que se ouve são os meus soluços. Com as costas de minhas mãos, seco as lágrimas do meu rosto, olho o relógio sobre o criado-mudo e noto que já passa das 21horas. Tudo está em um grande silêncio, não sei por quanto tempo fico deitada em minha cama, imersa em minha dor, e acabo adormecendo novamente.

[...]

- Julha, Julha, levante. - sou desperta por Ada, que chora descontrolada.

Meu pai.

Sinto uma forte dor em meu peito e naquele exato momento eu sei que o pior aconteceu.

Eu perdi o meu pai brutalmente em um acidente de carro. Não tenho tempo de me despedir, não tenho tempo de dizer que eu o amo e que ele é o melhor pai do mundo. Dizer adeus dói.

[...]

A despedida me fez sofrer, e hoje, um ano depois, estou aqui, diante do seu túmulo e como um filme, relembro tudo o que vivemos naqueles dias.

Um ano se passou e muitas coisas em minha vida mudaram, não tenho mais um diálogo saudável com a mamãe. Um ano que você partiu, pai. Por que você se foi tão cedo? Tudo por causa de uma maldita briga de casal. Você bebeu e foi imprudente, saiu de carro e eu te perdi. Estou sofrendo, papai. Ontem, a mamãe trouxe o namorado para dentro da nossa casa. Ela está seguindo em frente, é como se tudo o que vivemos em tantos anos não fizesse sentido. Eu sei que, mesmo ela estando o tempo todo distante, nossa família era perfeita, da nossa maneira, mas ainda assim éramos felizes. Minha vida não tem sido fácil, sinto sua falta, saudade dos seus carinhos, de jogarmos videogame. Sinto saudade dos nossos momentos. Ela não se importa mais comigo, apenas com esse cara que ela colocou dentro da nossa casa. Eu não ficarei muito tempo morando com eles, irei para a casa da vovó assim que me formar. Quero viver longe desse circo que ela transformou a nossa casa.

- Podemos ir? - fito Ane, que aparece com um sorvete nas mãos. Assinto com a cabeça.

Preciso ir, pai, prometo não demorar a voltar. Ah, não esquece, eu te amo.

Levanto-me e caminho até Ane.

- Onde você comprou esse sorvete? - pergunto enquanto caminhamos para fora do cemitério.

- Na sorveteria que fica ali na frente. Você quer? - nego com a cabeça, enquanto caminhamos para o estacionamento onde João, o motorista, nos aguarda.

- Amiga, tente não brigar tanto com a sua mãe e com o seu pãodrasto, quero dizer, padrasto. - reviro os olhos pela maneira que Ane utiliza para se referir a Christopher.

- Desde que ele não se meta em minha vida... - dou de ombros. - A existência dele pouco me importa.

- Julha, é que...

- Não quero brigar com você por causa daquele idiota, então, por favor, vamos mudar de assunto. - ela assente com a cabeça em concordância.

Assim que entramos no carro, o motorista fecha a porta, toma o seu lugar na direção e dá partida no carro. Seguimos todo o trajeto até a minha casa em silêncio. Não vou discutir com Ane por causa desse relacionamento ridículo da minha mãe.

Se eles pensam que irei facilitar a vida deles, estão completamente enganados. Farei de suas vidas um inferno.

Capítulo 2 Primeiro Capítulo

"Todos voltam ao seu estado natural. "

- Tim Maia.

Junho, 2016

Rapidamente, eu me levanto e esfrego os olhos, que estão com a visão embaçada.

Em passos largos, sigo para o banheiro, me equilibrando enquanto retiro a calça e a blusa do meu pijama cor-de-rosa, o meu preferido, que ganhei de papai dias antes da sua morte. Entro no banheiro apenas de calcinha, jogo as roupas no chão e meu corpo se arrepia com a leve brisa da manhã que adentra pela janela e sopra em minha pele.

Rapidamente, tiro a pequena calcinha e sigo para o box, ligo o chuveiro e deixo a água quente cair sobre o meu corpo, e como um relaxante natural, sinto toda a tensão do dia anterior, em que eu emocionalmente fiquei abalada ao visitar o túmulo do meu pai, se dissipar junto com as partículas de água que deslizam por todo o meu corpo, morrendo no ralo do box.

Eu não sei exatamente por quanto tempo fico imersa em pensamentos, só que é o suficiente para que os dedos das minhas mãos enruguem.

Hesitante, termino o banho, desligo o chuveiro e saio do box, vestindo o roupão felpudo antes de fazer a minha higiene. Saindo do banheiro, eu sigo para o closet, visto o meu uniforme, que não há nada especial: calça vermelha e camisa branca com alguns detalhes em vermelho na gola e por fim, calço o meu All Star preto com desenhos de pequenas caveiras em branco. Reviro meu longo cabelo em um perfeito rabo de cavalo, fito a minha imagem abatida através do espelho do closet e engulo em seco ao mesmo tempo em que uma saudosa lágrima solitária escorre pelo meu rosto. Por mais que eu me esforce para não chorar, todas as vezes que penso no Sr. Thompson, falho miseravelmente.

A saudade dói muito mais do que eu poderia imaginar. Seco a lágrima solitária e antes de sair para me juntar com a mamãe à mesa do café, pego a mochila preta, uma das minhas preferidas, no closet e sigo para o meu quarto, onde pego o celular que está sobre a escrivaninha e desço as escadas correndo para enfrentar um dos momentos mais irritantes do meu dia. Compartilhar o café da manhã. A primeira refeição do dia seria feita em paz, se não fosse o ser mais repugnante que eu já conhecera em toda a minha vida, o meu padrasto.

- Bom dia. - digo, sem ânimo, ao entrar na sala de jantar, onde a mesa, que Ada lindamente arruma todas as manhãs, está posta, e me deparo com mamãe e o idiota do seu marido sentados à mesa do café, onde eles conversam animados.

Seus olhares se voltam para mim.

Ignoro meu padrasto completamente, enquanto caminho em direção à mamãe, que me recebe com um largo sorriso amistoso nos lábios.

- Bom dia, querida. Como passou a noite? - pergunta mamãe antes de dar uma garfada em sua salada de frutas.

Carinhosamente, eu dou um beijo em sua cabeça, tomo meu lugar ao seu lado na mesa enquanto acomodo a mochila em outra cadeira.

- Bem! - eu me limito a dizer enquanto guardo o celular na mochila e coloco o guardanapo sobre o colo, depois me sirvo com um copo de suco de laranja e uma torrada.

Um insuportável silêncio se forma no ambiente, não que isso me incomode, pelo contrário, eu me encaixo perfeitamente no grupo de pessoas que são desprovidas de assunto pela manhã, e a presença do meu padrasto colabora ainda mais para isso.

Depois da partida do meu pai, tudo mudou, inclusive os horários das nossas refeições, que sempre foram regadas com conversas animadas. Hoje, trocamos poucas palavras, na verdade, conversamos o essencial. É estranho dizer, mas me sinto como se não fizesse mais parte dessa família.

Tudo está completamente diferente, a cadeira que antes papai ocupava, hoje é ocupada por um estranho. O que me deixa furiosa, pois não me restam dúvidas que ele quer ocupar o lugar do meu pai. Mas o que ele não sabe é que jamais, em hipótese alguma, tomara o seu lugar. Ele foi único e não há ninguém, doce, gentil e carinhoso como ele.

- Claro, meu amor. Se é importante para você, com certeza é importante para mim. - sou desperta do meu devaneio quando ouço Christopher dizer.

Em silêncio, termino o café, coloco o guardanapo sobre a mesa e me levanto vagarosamente para não chamar a atenção da mamãe e do meu padrasto, que conversam compenetrados. Rapidamente, corro meus olhos entre mamãe e Christopher, que ainda não notaram meus movimentos.

Pego a mochila e sigo para a sala, onde a deixo sobre o sofá e volto para o meu quarto. Vou ao banheiro, escovo os dentes, depois passo um brilho labial, que naturalmente avermelha.

Os garotos da minha escola disputam para ver qual deles consegue me levar para a cama primeiro. Até que acho divertido esse assédio, eleva o meu ego, afinal, qual garota não gosta de ser desejada por muitos garotos?

Mas nenhum deles me fez perder a cabeça ou me convenceu a entregar aquilo que uma garota, como no meu caso, tem de mais precioso, a virgindade.

Fui uma garota mimada pelo pai, e antes também por minha mãe.

Se não fosse pelo traste que ela escolhera como esposo, tudo seria completamente diferente. Eu afirmo em dizer que tudo seria perfeito.

Mas nem tudo na vida é como desejamos.

Não posso reclamar, tenho tudo que muitas garotas da minha idade gostariam: um quarto de princesa, estudo em uma das melhores escolas de Nova Iorque, tenho um motorista que está a minha disposição para me levar em todos os lugares que eu solicitar e Ane, que é muito mais que uma simples amiga. Eu a tenho como uma irmã e sei que o sentimento é recíproco.

Mesmo com tudo isso, nada substitui a falta que meu pai me faz.

Trocaria todo o dinheiro que tenho, deixado por ele, claro, que sempre pensara em meu futuro, para tê-lo aqui comigo.

Sou muito parecida fisicamente com papai e me sinto lisonjeada por isso.

Preciso dizer que sou uma garota bem popular na escola, mas não tenho muitos amigos. Colegas, sim, amigos, apenas uma, Ane. Ela sempre foi a minha fiel amiga, mas o seu grande erro foi se apaixonar por Caleb, o garoto mais idiota da escola, que sabendo do amor platônico que ela nutria por ele se aproveitou da situação, fingindo corresponder aos seus sentimentos para conseguir com êxito o que almejava: levá-la para a cama.

Lembro-me de como ela ficou feliz por ter se entregado àquele quem ela acreditara ser o grande amor da sua vida.

Naquele dia, seguimos para a escola como todas as manhãs, mas para a Ane, o dia estava ainda mais bonito, as flores mais belas, e o sol, com toda a sua grandeza, brilhava ainda mais.

Seria tudo perfeito, se não fosse o idiota do Caleb, aquele quem foi o motivo de fazer o dia de Ane ainda mais bonito, acabar com tudo no exato momento em que colocamos os pés na escola.

Sou totalmente contra a violência, mas foi ele quem pediu quando espalhou para todos na escola o que havia acontecido entre ele e Ane.

Canalha.

Fico furiosa cada vez que eu me lembro daquele dia.

Não entendo o porquê de muitos garotos se comportarem como idiotas, tendo atitudes como essa. Será que eles não entendem que sair falando para os imbecis dos seus amigos coisas íntimas, que teriam que ficar entre ele e a garota envolvida, não os farão mais homens? Pelo contrário, só os tornarão ainda mais idiotas.

Sentindo a obrigação de defender a minha amiga, parti para cima do idiota e com todas as minhas forças, desferi um soco em seu nariz, pegando-o de surpresa. Não imaginei que eu possuía tanta força, o sangue jorrava de seu nariz sem parar. Parece que ainda sinto meus dedos doerem.

Essa atitude me rendeu uma suspensão de uma semana e meses de dona Katherine reclamando.

Não me arrependo, faria tudo de novo, quem sabe assim ele aprende a maneira correta de tratar uma garota.

Babaca.

É por esse motivo que não me entrego para qualquer um. Se um tipinho como Caleb cruza o meu caminho, eu passo por cima.

Eu sei que idade não define maturidade, mas se for para entregar o coração para alguém, que seja uma pessoa que valerá a pena, que saberá valorizar cada momento ao seu lado.

Christopher é vinte e dois anos mais novo que mamãe. No início, pensei que ele quisesse dar o golpe do baú, mas com o tempo, eu notei que ele tem muito mais dinheiro do que papai havia nos deixado.

É duro admitir, mas o cretino faz a minha mãe feliz, e é só por esse motivo que eu finjo aceitar este relacionamento ridículo.

Sei que ele é empresário, mas não me pergunte em que ramo atua, nada que diz respeito a ele me interessa

Mamãe é linda, realmente não entendo o que ela viu neste homem. Com a sua beleza, ela poderia conseguir um ator de Hollywood, se assim desejasse.

Eu tenho que admitir que ele é muito bonito. Seu cabelo escuro e liso combina perfeitamente com seus lindos olhos azuis e com os lábios bem contornados levemente avermelhados e convidativos. Christopher é dono de uma sensualidade natural. Ele é o tipo de homem que faz com que qualquer mulher se perca em seus braços.

Ane diz que implico com ele, está bem, concordo que na maioria das vezes eu sou estúpida, até porque ele não tem culpa do meu pai ter partido tão cedo, mas foi sacanagem da minha mãe colocar alguém em seu lugar em tão pouco tempo.

Poxa, faz só um ano que meu querido pai se foi e ela me aparece com esse babaca, que se acha no direito de se meter na minha vida, se portando como se fosse meu pai.

Coitado, ele está longe de chegar perto do que meu pai foi.

Volto para a sala, pego a mochila e vou até a sala de jantar para me despedir da mamãe.

- Tchau, mãe! - eu me aproximo da mamãe e dou um beijo em seu rosto, que é retribuído com o um lindo sorriso.

Ela fica ainda mais linda quando sorri.

Despeço-me de Ada, que adentra a sala de jantar trazendo algumas panquecas, jogando um beijo no ar para ela, que retribui o gesto, e saio.

- Tchau, filha, boa aula. Não volte tarde e não se esqueça que temos um jantar muito importante para mim essa noite. - reviro os olhos enquanto saio e ela descarrega todas as nossas atividades do dia.

Mamãe sendo mamãe.

Detesto acompanhar a minha mãe e o imbecil do seu marido nesses jantares de negócios. Não sei o porquê de me obrigarem a participar de assuntos que não me dizem respeito.

Bufo, frustrada.

- Tudo bem. - concordo, fingindo ter ouvido o que ela disse.

De nada adiantaria me negar a ir, já posso até ouvi-la dizer:

"Quem manda aqui sou eu. Você vai e ponto final."

Estou passando pela sala de estar, quando eu a ouço dizer:

- Julha, não está se esquecendo de nada? - pergunta e eu já sei do que se trata.

Mesmo contrariada, volto a me juntar a eles na sala de jantar. Não suporto quando ela me obriga a me despedir do seu marido.

- Morra! - digo, me dirigindo a ele com cara de poucos amigos.

- Bom dia para você também, querida. - diz ele com um sorriso irônico nos lábios.

Ele está me provocando.

Idiota!

Ao sair, eu lhe mostro o dedo do meio e o ouço reclamar de algo para a minha mãe. Não tenho dúvida que se refere ao meu mau comportamento. Quem se importa, ele é um idiota mesmo.

- Bom dia!

- Bom dia!

Logo me junto com a minha amiga em sua limusine e seguimos para a escola.

Ane tagarela como sempre, sem parar, não sei de onde surge tanto assunto a essa hora da manhã.

Dou um sorriso amarelo, fingindo ouvir o que ela diz, ou ela me dará um longo sermão de que sou mal-humorada, insensível e por fim, que meu padrasto tem razão quando diz que sou chata, nos levando a uma briga desnecessária.

Uso apenas o mesmo método que ela utiliza quando não quer conversar: faço cara de paisagem enquanto ela fala sem parar e por fim, tudo termina bem.

Eu respeito a sua opinião e ela respeita a minha também.

Capítulo 3 Segundo Capítulo

"Por trás de uma lágrima, acredite, você sempre irá encontrar um motivo para sorrir".

- Deane Ramos.

Por um milagre, as aulas passam mais depressa do que o normal, para delírio de todos os presentes.

Ane e eu saímos da escola e solicitamos a Dylan, seu motorista, para que nos leve até a academia, que fica a quatro quarteirões da escola. Com toda essa turbulência que se instalou em minha vida, a única maneira que encontrei para extravasar o estresse acumulado é malhando.

Exercitamo-nos durante uma hora. Suei a camisa, então vamos para o vestiário, tomo um banho rápido e seguimos para a casa de Ane, onde um chato trabalho de matemática nos aguarda.

- Como está a convivência com o seu padrasto? - pergunta Ane enquanto beberica o suco que dividimos dentro da limusine no caminho para a sua casa.

Reviro os olhos. Horrível. Não que seja alguma novidade a nossa péssima convivência. Às vezes, eu me pergunto se algum dia iremos viver civilizadamente, e não que eu faça questão, mas mamãe, sem dúvida, agradeceria a paz que reinaria em nosso lar.

- A mesma porcaria de sempre. - bufo e dou de ombros.

Apanho a garrafa de suco das mãos de Ane e tomo um gole generoso.

- Você sabe que eu não gosto de dar palpites sobre o assunto, mas se falo, é pensando em você e na sua mãe. Vocês se davam tão bem, eu sei que gostaria que ela fosse mais presente, que você se sente traída por ela ter refeito a vida, mas você sabe que não foi. Eu não sei o porquê de tanto ódio. Dê uma trégua ao seu padrasto. Se você der uma chance a ele, vai descobrir que ele é um cara legal, sua mãe ficará feliz e você voltará a se relacionar perfeitamente bem com ela. Pense nisso. - diz, dando de ombros.

- Ah, deixe-me ver. Será que é pelo simples fato de ele tentar tomar o lugar do meu pai? E não satisfeito, tirar a minha mãe de mim? - digo, furiosa, fitando-a com os olhos cerrados.

- Amiga, pare já com isso! Você está agindo como uma criança mimada. - ela me repreende e continua a defesa de Christopher.

Se fosse outra pessoa em meu lugar, mudaria rapidamente de opinião a respeito do meu padrasto. Reviro os olhos com a comparação.

- Quando sua mãe o conheceu, já havia passado um ano desde que o tio se foi e eu entendo que você sinta a falta dele, que passe o tempo que passar, você sempre estará de luto, mesmo sabendo que todos voltam ao seu estado natural. Mas você não pode impedir que a tia Katherine refaça a vida. Não seja injusta com...

- Ah, okay. Vamos mudar de assunto! - eu a interrompo. - Essa discussão não irá nos levar a lugar algum. Não quero brigar com você, eu tenho uma opinião e você tem outra, então o melhor a fazer é encerrarmos esse assunto. - digo e minha voz soa mais ríspida do que pretendia.

- Tudo bem, não precisa ficar irritada. Não está mais aqui quem falou. - diz com as sobrancelhas arqueadas em surpresa com a minha reação.

- Ótimo! - digo por fim.

Seguimos o restante do percurso em total silêncio. Enquanto estiver na casa de Ane, terei algumas horas de tranquilidade. Fico imersa em pensamentos enquanto o carro percorre o trânsito congestionado da cidade.

Em poucos minutos, chegamos à casa de Ane. Saímos do carro e rapidamente seguimos para a área interna. Ao passarmos pela sala, tudo está em silêncio, então rapidamente subimos para o seu quarto.

Almoçamos um delicioso bolo de carne ao molho madeira acompanhado de arroz branco, salada de alface e um maravilhoso suco de tomate com hortelã, que é deliciosamente preparado por Joana, empregada de Ane.

- Meninas, se alimentaram bem? - a Sra. Clark adentra a sala vestida com um sobretudo escuro, meias finas pretas e saltos altos. Poe a bolsa na cadeira ao lado e toma seu lugar à mesa, se juntando a nós.

- Sim, mamãe!

- Estava tudo uma delícia, Sra. Clark. - digo, após dar um generoso gole em meu suco e depositar o copo sobre a mesa.

- Ah, ótimo, e a escola? Logo vocês terminam os estudos.

Depois que fazermos companhia para a Sra. Clark em seu almoço, eu e Ane voltamos para o quarto, onde passamos a tarde fazendo o trabalho de matemática. Quando dou por mim, o sol já está se pondo, então arrumo o material na mochila e descemos para a sala de televisão para esperar a minha mãe.

Sou desperta do meu devaneio quando ouço o meu aparelho celular tocar. Procuro por ele, perdido em meio a bagunça dentro da mochila.

- Filha? - diz mamãe quando atendo a ligação.

- Oi, mãe! - ainda que esteja chateada com a mamãe por seu casamento descabido, eu a atendo com carinho.

- Já terminaram o trabalho?

- Há muito tempo. - ironizo.

- Ótimo. Esteja pronta, Christopher está passando aí para te buscar.

Ah, não, alguém me diz que é mentira.

Que saco!

Será que é tão difícil ela entender que não suporto o seu marido?

- Mãe, sabe que odeio o seu marido. Mande o motorista. - peço, irritada.

- Não posso. Irei precisar dos serviços dele e não seja malcriada, ele está sendo gentil em ir buscá-la.

- Dispenso gentilezas dele. - digo, frustrada por saber que será em vão todas as minhas lamentações.

- Quero saber até quando você irá se comportar como uma menininha mimada e sem educação. Seu pai não iria gostar nada de ver o seu mau comportamento, Julha. Agora estou sem tempo, mas não pense que vai se livrar de uma boa conversa, mocinha.

Ah, que ótimo!

Não gosto quando ela faz esse jogo sujo, usando exemplos do que meu pai aprovaria ou não em mim. Se ela não fizesse isso, não seria Katherine Cloney.

- Será que só as minhas atitudes que o deixaria decepcionado, mamãe? - rebato.

Não gosto de brigar com a minha mãe, mas só quero que ela entenda que não sou obrigada a aceitar esse casamento ridículo. Respeito, mas não aceito, bem diferente.

- Não vou discutir com você por telefone, Julha Thompson. Diferente de você, tenho muito trabalho para fazer. Falaremos depois. - ela grita e eu afasto o telefone do ouvido para não ter problemas de audição no futuro.

Encerro a ligação com a minha mãe chateada por nossa breve discussão. Arrumo as minhas coisas e vou, acompanhada de Ane, para a sala de estar aguardar o chato do meu padrasto. Ficamos conversando sobre o encontro que Ane terá dentro de alguns dias com um garoto da escola. Ela está empolgada, e eu preocupada que o garoto não seja mais um babaca como Caleb.

Preocupo-me com a minha amiga, sei que Ane é do tipo de garota sonhadora e romântica. Sonha em se casar e ter filhos. Ela não tem muita sorte no amor, segundo suas palavras, mas não desiste de tentar.

Ane é diferente de mim. Eu ainda não havia me apaixonado por um garoto, nem penso nisso. Até imaginei a hipótese de perder a virgindade com um cara qualquer só para irritar a minha mãe, mas desisti assim que o babaca do Caleb aprontou com a Ane.

É, pensando bem, essa não é uma forma correta de fazer algo que teria que acontecer com uma pessoa especial. Alguém por quem eu me apaixonasse perdidamente e que fizesse valer a pena.

Ouço a buzina do carro de Christopher, pego a mochila, me despeço de Ane e vou a caminho do carro do meu padrasto.

Tomo meu lugar no banco do passageiro, coloco o cinto de segurança e em poucos minutos o carro percorre as ruas. Coloco meus fones de ouvido, me aconchego sobre o banco, ignorando a presença dele.

Ele também me detesta e faz questão de demonstrar isso. Ótimo! Assim nos damos muito bem, ele não gosta de mim e eu muito menos dele. Sendo assim, é desnecessário trocar falsas gentilezas.

O trânsito fluí bem, não demoramos muito para chegar em casa. Desço do carro antes mesmo de ele estacionar, bato a porta com tudo porque sei que ele detesta.

- Quebra! Garota insuportável... - grita, saindo do carro.

Claro que não fico por baixo e grito de volta ainda mais alto.

- Eu também gosto de você. - adentro a casa, passo pela sala, tomo o caminho da escada e sigo para o meu quarto.

Exausta e tomada pela irritação que meu padrasto me causa, entro em meu quarto, tiro o uniforme, ficando apenas vestida em minha lingerie, que é completamente transparente.

Já estou me preparando para tomar um delicioso banho, quando ouço a porta do quarto sendo aberta bruscamente.

- Olhe aqui, garota, eu...

Fico estática ao ver Christopher invadir o meu quarto como um furacão. Ficamos nos encarando por alguns minutos, então me dou conta que estou vestindo apenas a minha pequena lingerie quando encontro os seus olhos desejosos queimando sobre o meu corpo. Estremeço, e em seguida corro em busca de algo que possa me salvar do momento constrangedor.

Minhas mãos alcançam a primeira coisa que vejo: o cobertor que está sobre a cama. Rapidamente, eu o pego e envolvo em meu corpo, que há minutos estava apenas coberto por minha pequena lingerie, impedindo a visão completa do meu padrasto, que me fita com os olhos famintos.

Merda!

Coro, e acredito que neste momento estou muito mais vermelha do que um tomate maduro, enquanto ele parece hipnotizado com a imagem que vê à sua frente.

- Com ordem de quem você invade o meu quarto? - pergunto e minha voz soa ríspida.

Ele abre e fecha os lábios, abre mais uma vez e sei que está procurando as palavras corretas para a sua defesa, mas não diz nada, continua estático, encarando o meu corpo como quem contempla uma obra de arte.

Estou constrangida!

Que droga!

Por que ele simplesmente não bateu à porta antes?

Engulo em seco quando vejo que ele passa a língua sobre os lábios, em um movimento sexy, umedecendo-os.

Pela primeira vez desde que casara com a mamãe, Christopher faz com que eu sinta uma estúpida vergonha. Nunca havia ficado de lingerie na frente de um homem. Não que eu não pense nisso, mas estar praticamente nua na frente do meu padrasto é algo que, sem dúvidas, nunca havia passado pela minha cabeça.

Por que ele está me olhando com a mesma cara de um caçador que encontrou a presa?

Ele continua a me encarar, e ver a forma como ele me devora com os olhos faz com que eu sinta a minha intimidade umedecer.

Uma corrente elétrica percorre o meu corpo, minhas pernas parecem gelatinas, não consigo esboçar nenhuma reação e fico como ele, estática, fitando-o enquanto seus olhos devoram meu corpo, agora coberto pelo tecido macio do cobertor. Seus olhos fitam meu rosto e noto a sua expressão de caçador dar lugar a uma enfurecida.

Ogro estúpido!

Ele pensa que pode me intimidar.

Reviro os olhos e solto uma bufada antes de dizer:

- O que você quer? Não possui mãos? Vai entrando no quarto das pessoas sem bater. Além de insuportável é também estúpido? - cuspo a palavras.

Ele me fita com as sobrancelhas arqueadas, surpreso com o meu comportamento, mas não demora muito para a sua expressão dar lugar a um sorriso irônico, que o deixa ainda mais bonito.

Como eu não havia notado o seu lindo sorriso antes?

- Vim aqui lhe dizer algumas verdades, coisa que alguém já deveria ter feito. - rebate, me despertando do meu devaneio. Sua voz soa ríspida, então me fita com os olhos cerrados.

Arqueio as sobrancelhas, surpresa com a sua audácia.

Como ele pode ser tão idiota?

Com quem ele pensa que está falando para gritar assim?

Gargalho, o que o deixa ainda mais furioso.

Babaca!

Entra no meu quarto sem ser convidado e vem querer me dar lição de moral?

É só o que me faltava.

Se ele pensa que vai me falar um monte de desaforos e eu vou ficar calada ouvindo cada um deles, está muito enganado.

Caminho em direção à porta, ignorando completamente a sua presença. Passo por meu padrasto e bato meu ombro com o dele, de propósito, é claro. Ele me segue, eu me viro e o vejo próximo a mim, muito mais próximo do que deveria estar.

Eu sei que ele está querendo me intimidar!

- Com certeza eu devo ouvir! - paro e fico na ponta dos pés para ficar na mesma altura que ele. Meus olhos encontram os dele e por um momento eu me perco em suas íris azuis.

Foco, Julha Thompson.

Ele me encara, irritado, e seus olhos me fitam profundamente. Desconfortável, desvio os olhos dos dele e por fim, digo:

- Posso até concordar com você, mas pode ter certeza que não será de você que irei ouvir as tais verdades. Agora, saia do meu quarto, Christopher. - grito, furiosa.

Ele fica ainda mais irritado. Mesmo nos odiando, nos alfinetando o tempo todo, ele nunca havia feito tamanha grosseria. ele agarra o meu antebraço, segurando-o com força, em seguida bate a porta, fazendo as janelas do quarto tremerem.

Esse idiota está indo longe demais.

Eu o encaro com os dentes cerrados.

Se ele pensa que tenho medo dele, está muito enganado.

Ele vai ver do que sou capaz de fazer.

- Me solta! - grito, enfurecida. - Você não é meu pai para falar assim comigo. - continuo gritando e me debatendo na tentativa frustrada de que ele me solte. Ele aperta ainda mais e sinto o local onde está a sua mão arder. - Solte-me, seu idiota. Você pensa que é meu pai para falar assim comigo? - continuo com os insultos, mas ele está decidido a me aplicar uma lição.

Ele me puxa mais para perto, colando seu corpo ao meu, e aproxima seus lábios dos meus, dizendo:

- Graças a Deus que não sou o seu pai, porque se fosse, já teria dado um jeito em você, menina mimada, chata, arrogante! - grita e em seus olhos eu vejo o ódio.

Dane-se!

Pouco me importa se ele não morre de amores por mim, ele só tem que entender que não tem o direito de me agredir.

- Christopher, é melhor me soltar. Minha mãe vai ficar sabendo disso, e pode ter certeza que não vai gostar nadinha. - eu o ameaço, mas ele parece nem ouvir as palavras que acabo de pronunciar.

Seus olhos estão grudados nos meus, sua respiração ofegante se mistura com a minha, seu hálito de menta invade as minhas narinas e por alguns minutos, sinto o meu coração parar.

Mas que porra está acontecendo aqui?

Christopher chacoalha a cabeça como se quisesse afastar para longe pensamentos que o perturbam, e volta a me encarar com cara de poucos amigos.

- Não me provoque, Julha. Você não sabe do que sou capaz. - rebate com os dentes cerrados.

Oi?

É isso mesmo?

Ele está me ameaçando?

Cuidado, Christopher Cloney, vou fazer da sua vida um inferno.

Não me importo se ele quer me ver pelas costas, porque da minha parte é recíproco. O que é dele está guardado. Se ele pensa que pode sair me ameaçando e eu vou ficar sem fazer nada, pobre homem, ele realmente não conhece quem é Julha Thompson.

- O que vai fazer? Bater-me? - pergunto, desafiadora. - Vá em frente, me bata e eu acabo com a sua vida, gigolô maldito. Eu te odeio, Christopher Cloney. Eu te odeio! - grito como uma louca e minha voz soa pelo quarto.

Com o rosto vermelho tomado pelo sentimento de raiva que o consome, ele ergue uma de suas mãos, preparando para me esbofetear. Instantaneamente, abaixo a cabeça e com os olhos fechados, espero sua mão vir de encontro ao meu rosto, já imaginando que me deixará marcada.

Com movimentos bruscos, Christopher solta o meu braço e passa as mãos sobre o cabelo, visivelmente irritado, e caminha de um lado para o outro, acredito eu, pensando na loucura que iria cometer.

Eu massageio o local atingido por ele e tenho a consciência que na maioria das vezes eu o provoco, que não lhe dou uma trégua e o ataco um dia sim e outro também. Mas isso não lhe dá o direito de levantar a mão para me agredir.

Um nó se forma em minha garganta.

Não posso chorar, não na sua frente, não posso me comportar como uma garotinha fraca.

Raiva eu sinto quando falho na tentativa de segurar uma lágrima, que agora rola pelo meu rosto. Ódio é o sentimento que agora aperta o meu peito. Ódio é o que irei sentir, dia após dia, do meu padrasto. Se em algum momento ele pensou que nos daríamos bem, o que eu acho pouco provável, mandou para bem longe esse pensamento no exato momento em que meus olhos o fitam, odiosos.

Meu desprezo por ele será eterno.

Noto o quanto ele está nervoso, transpirando. Mais uma vez passa as mãos sobre o cabelo e esse pequeno gesto o deixa tão... Tão... Sexy.

Mas por que você está pensando nisso, Julha?

Seu padrasto?

Sexy?

Reviro os olhos e afasto os malditos pensamentos que agora martelam em minha cabeça. Volto a atenção para Christopher, que me fita com ódio.

Qual é o problema dele?

Eu que sou agredida e ele quem fica com raiva?

Meu coração bate acelerado e eu tenho a impressão de que a qualquer momento vai sair pela boca.

Sou despertada do meu devaneio quando a sua voz, rouca e autoritária, o jeito Christopher de ser, se dirige a mim.

- Você é uma garota que me causa nojo. - diz e eu arqueio as sobrancelhas, surpresa com a sua declaração escancarada. Não que isso seja novidade, digo, em relação a ele dizer não gostar de mim, mas sim por dizer com todas as letras o quanto eu o enojo. - Não adianta ter o rostinho e corpinho bonito e ser tão desprezível como é. Se eu fosse o seu pai, teria vergonha de tê-la como filha.

Tenho consciência que a nossa discussão não irá nos levar a lugar algum, mas a raiva de ouvir seus insultos me deixa possessa e não consigo deixar a minha língua quieta dentro da boca.

- Quantas vezes vou ter que repetir que você não é meu pai, que não chega nem aos pés dele, não, melhor, você não chega aos pés de homem nenhum. Para mim, você é só um merda, um capacho da minha mãe. Babaca. - grito.

Não consigo controlar as malditas lágrimas que caem constantemente e me odeio por isso.

Ele bufa, revira os olhos e um sorriso irônico se forma em seus lábios.

- Você é só uma patricinha mimada, uma garota idiota que não consegue ficar feliz nem mesmo com a felicidade da própria mãe. Você vai morrer sozinha, porque, qual seria o ser humano que, em sã consciência, se envolveria com você? O cara deve sofrer de algum distúrbio, assim como você. - gargalha e joga a cabeça para trás.

Se tem algo que Christopher e eu fazemos com excelência é discutir. Ele tenta me controlar e eu quero obrigá-lo a me engolir, e entre nós dois fica a minha mãe, que briga comigo por eu ser tão mimada e muitas vezes ter um comportamento infantil, e briga com o imbecil do seu marido por discutir com uma adolescente revoltada, segundo suas palavras.

Não tenho certeza e nunca terei, mas acredito que ela viaje muito por não conseguir conviver conosco dentro da mesma casa. Culpa dela. Quem mandou se casar com esse idiota?

Ela tem o péssimo hábito de dizer que sou revoltada. Eu não sei de onde ela tirou essa ideia. Será que ela não vê que o meu comportamento mudou depois que trouxe esse imbecil para morar conosco. Claro que não. Hoje a minha mãe não se importa tanto comigo como antes. É como se vivesse em um mundo onde existe apenas ela e Christopher. Ela é jovem e tem todo o direito de refazer a vida, eu nunca disse que não aprovaria um suposto relacionamento que ela viesse a ter, mas penso que ela deveria ter esperado mais um pouco e não se casar com o primeiro idiota que aparecesse.

Christopher me encara com uma expressão que não consigo decifrar ao me ver chorando. Também não me importo com o que ele pensa de mim, eu o quero fora do meu quarto.

- Odeio você, odeio você, quero que você morra. - grito, descontrolada, dando socos em seu peito para que ele saia.

Ele segura firme os meus pulsos, me fazendo parar. A minha respiração se torna ofegante, meu cabelo desgrenhado cai em mechas sobre o meu rosto, me dando a certeza de que a minha imagem não está nada apresentável.

Com movimentos bruscos, eu puxo os meus pulsos, desequilibro-me e caio e uma fisgada na bunda me alerta o quão grande foi a queda. Ele ignora a imagem patética diante dos seus olhos e sai, me deixando caída acompanhada das minhas lágrimas.

Meu sentimento de ódio por ele aumenta a cada dia. Eu sei que não é certo desejar a morte de alguém, mas em meu momento de fúria, desejo que Christopher Cloney morra e suma para sempre das nossas vidas.

Eu fico não sei por quanto tempo sentada no chão, enrolada no cobertor, com a companhia das minhas lágrimas. Por um momento, eu quero que tudo aquilo não passe de um pesadelo, mas não, é a mais pura realidade. Uma realidade cruel que a cada dia me faz sofrer mais e mais.

Agarro-me ao resto de dignidade que me sobra e me levanto com dificuldade, ainda sentindo as nádegas doloridas, e caminho lentamente para o banheiro. Coloco em prática o meu plano de tomar banho antes de ser distraída pelo meu padrasto.

Adentro a minha banheira imersa em pensamentos, quando ouço passos no banheiro. Olho na direção de onde vem o som e vejo Ada entrando no banheiro acompanhada do aparelho telefônico sem fio.

- Julha, está tudo bem? - pergunta Ada ao ver meus olhos vermelhos de tanto chorar.

Não gosto de preocupar Ada com os meus problemas, eu sei o quanto ela teme que eu siga por caminhos errados. As pessoas me veem como uma adolescente revoltada e inconsequente, já têm essa opinião sobre mim. Mas eu não sou assim. Apenas digo o que penso e isso, às vezes, não é visto com bons olhos por alguns. Dizer o que se pensa pode parecer rebeldia ou seja lá o que as pessoas gostam de rotular, mas eu sei que há uma grande diferença entre dizer e se comportar como uma adolescente inconsequente. Assinto com a cabeça, o que eu menos preciso agora é de pessoas me enchendo de perguntas.

Ada não é apenas uma pessoa que nos presta serviço e no fim do dia vai embora viver sua vida, mamãe a tem como uma amiga confidente. Eu não sei exatamente há quanto tempo Ada está conosco, somente que ela já trabalhava para o papai e mamãe quando eu nasci. E por esse motivo, ela tem a total confiança da mamãe, que na falta dela, tem toda a liberdade de me dar broncas e puxar as minhas orelhas se preciso for. Não me incomoda nem um pouco a sua autoridade sobre mim. Ela cuida de mim porque sei que me ama e me quer bem, e eu a amo também.

- Sua mãe quer falar com você. - ela estende o telefone em minha direção.

Neste exato momento, tudo que eu não preciso é de uma conversa com a minha mãe, que é a única culpada por ter se casado com esse homem insuportável que ela colocou dentro da nossa casa.

Ada me observa atentamente com os olhos cerrados quando nota que me oponho em pegar o aparelho de suas mãos. Ela insiste, direcionando o aparelho a mim. Reviro os olhos, frustrada, e se a conheço bem, ela não desistirá enquanto eu não atender à ligação. Rapidamente me passa a péssima ideia de contar tudo o que houve para ela, mas o melhor a fazer é me manter calada. Ela se comportaria como sempre, ficando ao lado de Christopher ou dizendo que é apenas a minha imaginação fértil. Respiro fundo para não deixar que ela note que eu havia chorado, coloco um falso sorriso nos lábios e pego o aparelho das mãos de Ada, que me fita com uma expressão serena.

- Mãe. - atendo sem emoção.

- Oi, filha. Quanta demora para atender a um telefone. - bufa. - Está tudo bem? - pergunta.

Fico intrigada com a possibilidade que ela já tenha conversado com o Christopher e ele tenha lhe contado tudo.

Não, não havia dado tempo de ele ter dado com a língua nos dentes. Reviro os olhos e encosto a cabeça na borda da banheira. Se ele não disse nada, não será eu quem irá dizer.

- Sim, está. - minto.

- Que bom. Acredito que não tenha se esquecido do nosso jantar. Liguei para dizer que não irá dar tempo de ir para casa, então encontrarei você e o Christopher no restaurante. - diz, autoritária.

- Eu tenho outra escolha? - pergunto, mesmo sabendo qual será a sua resposta.

- Não. - diz, ríspida.

- Não sei por que ainda pergunto. - digo, frustrada.

- Também amo você, querida. - diz sem me dar tempo de recusar.

- Também amo você, mamãe.

Encerro a ligação e entrego o aparelho para Ada, que me fita com um largo sorriso nos lábios. Eu sorrio sem ânimo com o canto da boca e ela gargalha, divertida, e sai.

Termino o meu banho e saio vestindo o roupão. Começo a me produzir escovando o cabelo, em seguida, alguns cachos nas pontas.

Faço uma maquiagem leve e passo um batom rosa matte. Sigo até o closet e escolho um vestido modelo tubinho azul um pouco acima dos joelhos. Calço um par de sandálias preta altíssima, passo o meu perfume preferido, alguns acessórios, pego a bolsa de mão, também preta, e estou pronta.

Sigo até a sala de estar, onde Christopher deveria me aguardar. Vou em direção ao bar e lá está ele, sentado de costas para mim tomando alguma bebida, que parece ser uísque. Christopher se vira para mim assim que percebe minha presença.

Nossa, nossa, nossa!

Fico boquiaberta ao ver como ele está lindo vestindo um terno de risca de giz e cabelo molhado indicando que acabara de sair do banho. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ele me encara de uma forma que não sei bem dizer se está me achando bonita ou feia, ou se me odeia tanto ao ponto de não suportar me ver à sua frente. Até que meus pensamentos me fazem recordar de suas palavras de ainda hoje.

"Tenho nojo de você!"

Chacoalho a cabeça, afastando para longe os pensamentos perturbadores da minha discussão com Christopher e engulo em seco diante do mesmo olhar de caçador que me fitara antes da nossa discussão constrangedora.

- Estou pronta! - digo, me virando para sair.

- Julha! - paro antes de atravessar a porta ao ouvi-lo pronunciar o meu nome e me viro em sua direção.

Ele engole em seco e passa uma de suas mãos em seu cabelo, um simples gesto que ele faz com maestria enquanto fita meus olhos, e diz:

- Quero lhe pedir desculpas. - ele suspira e eu o fito com uma das minhas sobrancelhas arqueada. - Eu me excedi e... - antes mesmo que ele continue, ignoro o seu pedido de desculpas.

Pensa que é simples assim, Christopher Cloney?

Fala a merda toda e depois se desculpa? Não!

- Bem, eu já estou acostumada. - digo, ríspida.

Viro-me e sigo para a sala, mas consigo ouvi-lo suspirar antes que seus passos largos me acompanhem.

- Julha, olha para mim. - pede e sua mão alcança o meu pulso, me fazendo parar.

Estremeço.

Com movimentos bruscos, Christopher me vira, fazendo com que eu fique de frente para ele. Encaro onde a sua mão toca o meu braço, e ele, por fim, a tira rapidamente e me olha nos olhos. Digo friamente:

- Vamos nos atrasar. - eu me viro para sair, mas ele me impede mais uma vez e volta a tocar o meu braço.

- Julha, eu...

- Christopher. - eu o interrompo antes mesmo que ele continue. Puxo meu braço de volta, fitando meu relógio de pulso e puxo o ar para os pulmões, repetindo:

- Eu já disse que vamos nos atrasar. - saio e caminho para a garagem, mas ainda o ouço bufar.

Idiota!

Dirigimo-nos para o carro, e antes mesmo que eu faça o gesto de abrir a porta do carro, Christopher se coloca ao meu lado, passa a mão em volta da minha cintura e me puxa para o lado, colando o seu corpo ao meu. Nossos olhos se cruzam por alguns instantes e em um gesto de cavalheirismo, abre a porta para que eu me acomode no banco de couro da sua Ferrari.

Assinto com a cabeça em agradecimento e ele retribui com o seu mais lindo sorriso.

Tão lindo e tão idiota.

Ele tem problemas mentais, com certeza. Há algumas horas, por pouco não me agrediu, e agora se mostra gentil e educado. Se ele pensa que agindo assim vai mudar a repulsa que tenho por ele, está muito enganado.

Minutos depois, o carro percorre a avenida. Seguimos em silêncio por todo o caminho. Algumas vezes, eu vejo Christopher abrir os lábios a procura de algum assunto, mas desiste assim que me ouve bufar.

Não tenho nada para conversar com esse homem, e antes mesmo que ele puxe assunto e eu não tenha como me esquivar, disco o número de Ane, que atende no terceiro toque.

- Oi, amiga! Imaginei que já estivesse no jantar com a sua mãe. - diz ao atender.

- Em alguns minutos. O que está fazendo? - pergunto e olho pela janela quando noto os olhos de Christopher sobre mim.

- Vendo TV e falando com o Bruno.

Sorrio. Ane é realmente decidida quando quer algo, somos muito parecidas em alguns aspectos. Ela tem um gosto eclético, eu também, eu amo moda e ela também, só não somos parecidas quando o assunto são coisas do coração.

- Vai rolar quando? - ela já sabe do que se trata a minha pergunta e não precisa que eu entre em detalhes.

Christopher está ao meu lado e se ele conta para a minha mãe sobre a suposta transa de Ane, ela vai dar com a língua nos dentes para a Sra. Clark.

Ane está saindo com Bruno e marcaram para transar. Depois que ela perdeu a virgindade com Caleb e o idiota saiu contando para todos da escola, ela ficou traumatizada e não saiu com mais ninguém. Agora está dando mais uma chance depois que conheceu Bruno e se apaixonou por ele.

- No fim de semana! - diz e posso imaginar o sorriso de satisfação em seus lábios.

- Ótimo, vou querer saber de tudo. - noto que já estamos quase chegando, então decido me despedir de Ane e encerro a ligação.

Estou distraída guardando o celular na bolsa, quando ouço a sua voz rouca com uma pitada de ironia.

- Não precisava usar a desculpa de falar com a sua amiga para evitar a minha companhia. - ele diz e me lança um fodido e sexy sorriso irônico.

Insuportável!

- Saiba que gosto disso em você. - ele me fita com as sobrancelhas arqueadas sem nada entender. Eu também ficaria ao ouvir de alguém tal afirmação que só pronuncia palavras de ódio. É realmente surpreendente. - Sua capacidade de percepção. - digo e saio do carro assim que paramos em frente ao restaurante.

- Idiota! - eu o ouço gritar.

Gargalho e jogo a cabeça para trás.

Rapidamente, a minha mãe vem ao nosso encontro, me dá um beijo estalado no rosto seguido de um beijo quente em Christopher, que eu não sei em qual momento apareceu ao meu lado.

Nós nos juntamos aos convidados de minha mãe, que é um casal acompanhado de um belo jovem de olhos e cabelo escuros, que não tira os olhos de mim desde o momento em que me vê.

Tenho certeza que a minha mãe havia planejado aquilo tudo de propósito, ela sempre diz que eu preciso arrumar um namoradinho, me apaixonar e blá blá blá.

Olhando por outro lado, até que o cara é legal, mas isso não quer dizer que estou à procura de um namorado, e às vezes tenho a impressão de que a minha mãe nunca entenderá isso. Minha mãe faz as apresentações entre nós e eu descubro que o belo jovem atende pelo nome de Giovanni.

Logo a minha mãe e Christopher engatam em uma conversa animada com o casal, e eu com Giovanni, que me parece ser um bom garoto. Ele tem um papo legal e me faz rir de algumas piadas que conta. Sempre admirei isso nas pessoas, a capacidade de nos fazerem rir, porque em minha opinião, rir é o melhor remédio para qualquer situação.

Giovanni, além de ser muito gato, é educado, o conjunto perfeito.

Okay, tenho que admitir que o jantar não está tão entediante.

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