Acho que a primeira vez que o vi foi justamente quando entrei naquela fase confusa em que o corpo começa a mudar, os hormônios antes adormecidos despertam, e a nossa percepção do sexo oposto se transforma de maneira irreversível. Arthur foi, para mim, a descoberta da minha sexualidade, a prova viva de que a simples presença de alguém pode nos roubar o fôlego. Ele se tornou meu padrão de beleza masculina.
Quanto mais penso sobre o poder que ele exerce sobre mim, mais percebo o quanto fui, e talvez ainda seja, uma idiota. Mas arrebatamento não é algo que se escolhe. Ele simplesmente acontece.
No dia em que o conheci, o céu estava cinzento, como se quisesse anunciar a tormenta emocional que viria depois. Ainda assim, a sensação ao vê-lo pela primeira vez foi tudo, menos ruim.
Eu estava saindo do quarto para buscar alguns petiscos na cozinha quando o encontrei no corredor. Ele era alto, com músculos definidos, porém nada exagerados. Tinha os cabelos mais negros que eu já tinha visto e olhos escuros, intensos, capazes de me fazer esquecer meu próprio nome por alguns segundos.
Ele me viu, parou por um instante e levantou uma sobrancelha. Em seguida, olhou para trás e fez um gesto sutil com a cabeça, como se estivesse perguntando algo. Mesmo com o rosto queimando, olhos arregalados e a boca entreaberta, consegui acompanhar o gesto e virei na direção para onde ele apontava. Foi quando vi meu irmão, Ian, vindo logo atrás.
- Pode continuar andando, Arthur. É só a minha irmãzinha pentelha.
Essa frase me arrancou bruscamente do torpor. Fiquei ainda mais vermelha, agora de vergonha. Eu sabia que, com meus onze anos, não passava de uma criança aos olhos de alguém de dezoito. Mesmo que meus olhos verdes e cabelo escuro me dessem certa beleza, confirmada pelas declarações bobas dos meninos da minha sala, para Arthur, eu era só "a irmãzinha do amigo". Ele apenas me lançou outro olhar, deu um sorriso debochado e disse:
- Oi, menininha.
E continuou andando, assumindo a dianteira do caminho como se estivesse em casa, o que depois eu entenderia como uma de suas marcas mais fortes que era a dominância. Liderar o caminho em uma casa que não era sua, com a segurança e naturalidade que ele tinha, dizia muito sobre a sua personalidade.
Quando eles entraram no quarto, eu fiquei parada por alguns segundos, suspirei e percebi que aquela era a minha primeira paixão. E, sinceramente, até hoje ainda é a única. Mas aquele primeiro encontro também selou algo cruel, afinal aos olhos dele, eu estava destinada a ser apenas uma menininha.
- Lara, o que você tanto faz? Vamos nos atrasar! - gritou meu pai, cheio de impaciência.
Iríamos a uma festa beneficente, mas que, na prática, só servia para os executivos exibirem suas famílias e fecharem parcerias. Porém, eu não poderia ir menos que impecável, afinal Arthur estaria lá, o crush da minha vida inteira, que nunca me deu mais do que olhares fraternais. Agora, acreditava que, se ele me visse arrumada, perceberia que cresci e poderia olhar para mim de outra forma. Talvez, finalmente, me enxergasse como mulher e não como a garotinha mimada ou irmã do seu melhor amigo.
Dei uma última olhada no espelho para conferir se realmente estava bem vestida, e gostei do que vi. Usava um vestido preto, longo, com uma fenda lateral generosa. Era de alças finas e com um pequeno decote. O caimento valorizava meu corpo, destacando minha cintura e quadris. A cor do vestido deixava meus olhos verdes ainda mais marcantes, e a maquiagem que fiz ressaltava isso ainda mais. No restante, usei acessórios simples para não parecer exagerada, afinal já estava com batom vermelho e olhos em destaque. Terminei de colocar as joias e sorri para o espelho. Estava pronta para mudar, de uma vez por todas, a imagem que Arthur tinha de mim.
Enquanto descia as escadas, vi os olhares dos meus pais e do meu irmão se encherem de choque. Era a primeira vez que eu usava algo ousado, e resolvi iniciar minha transição de forma um tanto abrupta, e talvez exagerada. Ian foi o primeiro a recuperar a voz:
- De jeito nenhum você vai sair vestida desse jeito! - disse de forma tão autoritária que só pude revirar os olhos diante da audácia dele de achar que tem algum poder sobre mim e sobre como me visto.
Meus pais continuavam me olhando, em dúvida. Eles sempre foram muito permissivos, mas me ver usando algo tão fora do meu estilo habitual provavelmente causou preocupação quanto à motivação, e se estava tudo bem comigo. Então, sorri com carinho e, me dirigindo ao meu irmão, falei:
- Pare de ser ridículo, Ian. Você não tem nenhum direito de opinar sobre como eu me visto. - E depois, apelei: - Pai! Mãe! Gostaram? Queria tanto experimentar algo diferente, e realmente gostei do que vi no espelho. Vocês gostam, não é?
Minha mãe limpou a garganta, provavelmente sem saber ainda como se posicionar, mas suspirou e disse:
- Tem certeza de que quer ir vestida assim? Você fez dezoito anos, há apenas algumas semanas, e seu estilo é completamente diferente... Pode ser meio chocante para as pessoas. Vai se sentir confortável com os olhares?
Eu já tinha refletido sobre isso, é claro. Não queria atrair os olhares de todos, e muito menos os de velhos pervertidos. Mas, para atrair o olhar de uma única pessoa, estava disposta a enfrentar todos os outros. Por mais desconfortável que fosse.
Sorri com carinho. Eu tinha os melhores pais do mundo. Mesmo que não concordassem comigo, nunca foram autoritários a ponto de me forçar a fazer algo que me ferisse emocionalmente.
- Eu não me importo. Me sinto bem e quero ir assim. Me sinto bonita.
Meus pais se entreolharam e suspiraram juntos, como quem se rende. Quase dei um pulinho de felicidade. Mas, claro, que o chato do meu irmão decidiu dar mais uma opinião desnecessária:
- Vocês não podem estar falando sério! Ela é só uma criança! Não pode ir vestida assim.
Meus pais pareceram refletir por um momento, mas meu pai então disse:
- Tudo bem, Ian. A festa não é tão grande. Vamos fazer o gosto da sua irmã. Agora, precisamos ir, estamos atrasados!
E, com meu irmão contrariado e com cara de quem engoliu algo muito amargo, seguimos para a festa.
Ao chegarmos, discordei veementemente do meu pai. Como assim a festa não era tão grande? Havia muitos carros e o lugar era bem maior do que os que costumávamos frequentar. Claro que uma festa organizada pelos Albuquerque não seria trivial e muito menos pequena.
De repente, minha pequena aventura, e toda a coragem que reuni para impressionar Arthur, começou a ruir. Comecei a suar frio. Minhas mãos estavam molhadas. Mas minha consciência me alertou, que não poderia demonstrar nada. Eu havia insistido em vir assim, e meus pais estavam animados com esse evento havia semanas, especialmente com a possibilidade de fechar mais uma parceria com os Albuquerque, agora no ramo imobiliário, além do farmacêutico. Respirei fundo. Não podia ser egoísta. Iria sustentar minhas escolhas e atrair o olhar que tanto queria, mesmo que atraísse outros no processo.
Então, abri a porta do carro e saí, fingindo confiança. Era hora de fazer valer o dinheiro gasto nas aulas de teatro. Surpreendentemente, lá fora estava vazio. Provavelmente éramos um dos últimos convidados a chegar. Meus pais e meu irmão estavam no hall de entrada, apenas esperando por mim para que pudessem anunciar nossa chegada.
Caminhei até eles, e logo as portas se abriram, revelando um ambiente vibrante e extremamente bonito e luxuoso. Havia música ambiente e muitas pessoas se movimentando, umas conversando, outras servindo e outras apenas sentadas observando o salão.
Antes que eu pudesse absorver tudo, vi Esther, mãe de Arthur, vir nos receber com um imenso sorriso.
- Ah, queridos! Que bom que estão aqui! Já estava preocupada que não viessem.
Minha mãe logo a cumprimentou com um abraço, eram amigas de longa data.
- Esther, você está absolutamente deslumbrante! Acabamos nos atrasando porque a Lara quis se arrumar mais do que o comum. - Essa observação me fez corar um pouco.
- Catarina, você que está maravilhosa! Mas agora preciso dar uma boa olhada na minha adorável Lara. - Seu olhar se voltou para mim, e seus olhos se arregalaram. Acho que ela nunca imaginou que eu pudesse me vestir de forma tão ousada. Logo em seguida, riu, como se tivesse entendido o que eu estava tentando fazer. Me olhando com diversão, falou:
- Você está simplesmente arrasadora, minha querida. Estou com pena de quem passar perto de você esta noite - com certeza terão a sanidade abalada. Lara, você sabe como animar uma festa! Pensava que só te veria assim daqui a uns dois anos... Mas por que adiar a diversão, não é?
A forma como ela falou realmente parecia indicar que sabia minhas intenções ao me vestir assim, e aprovava.
- Agora, vou parar de privar os outros da presença de vocês. Por favor, fiquem à vontade.
Ela então abriu espaço para que fôssemos ao salão. E talvez minha mãe estivesse certa. Talvez eu realmente não estivesse preparada para todos os olhares. Pelo menos, não estava preparada para ver praticamente todos pararem para me encarar enquanto eu descia as escadas.