Capítulo 01
O Príncipe Adormecido
-_-_-_- Prolongo -_-_-_-
Rafique, ainda estava no quarto de Isadora. Mas assim, que ouviu a batida na porta e a voz da própria mãe, ele optou por se esconder atrás das cortinas de seda clara, mas com proteção de sol, o local era um ótimo esconderijo. Ele não queria que a mãe o visse ali, para evitar um confronto desnecessário, afinal ele sabia bem que Annia jamais aprovaria ele estando ali com Isadora a sós, mesmo ela já estando grávida dele, ainda que por inseminação.
O carinho entre eles ainda era algo puro, mas muito real. Por isso ele esteve até o momento ouvindo ela lendo para ele.
- Abra, Isadora. Sou eu, a princesa Annia.
Isadora, surpresa, respondeu:
- Ah, sim, princesa... só um momento.
Rafique se inclinou para ela, a voz baixa e urgente:
- Não diga que estou aqui.
Ela piscou, confusa. - Tá... não entendi por que você quer se esconder, mas...
- Psiu, é sério. Melhor ela não saber.
Isadora abriu a porta, tentando disfarçar a estranheza.
- Já vou, princesa Annia.
A mãe de Rafique entrou, olhando o quarto como se buscasse algo. Convidou a Isadora a sentar. Seus gestos eram calculados, e o olhar carregava aquela autoridade de antes que fazia a moça sentir-se uma intrusa.
- Isadora, você terá de ir embora. Mesmo agora que Rafique acordou.
Isadora sentiu o coração bater mais rápido.
- Mas... por quê, senhora? Perdão, Alteza.
- Eu poderia não lhe dizer nada. - Annia prosseguiu. - Afinal, você sabe que Rafique não está incluído no contrato que sua tia assinou. Mas, pela gratidão que tenho por tudo, vou explicar.
Isadora respirou fundo.
- Sim alteza..Estou ouvindo.
- Rafique está bem, graças a Alá. Agora deve seguir cumprindo suas obrigações como futuro sheik, como já iria acontecer antes do acidente.
A mulher fez uma pausa, estudando os olhos doces de Isadora antes de prosseguir...
- Meu filho deve casar com uma nobre, uma filha de um sheik. Uma princesa que fortalecerá seu poder. Talvez essa princesa até aceite seus gêmeos como herdeiros diretos deles. Mas não posso obrigá-la. Porém seus filhos terão apoio e uma vida próspera, mas você deve ir embora após o nascimento dos bebês, como está no contrato recebendo seu dinheiro. Por enquanto eu e Hassan decidimos que você ficará em um local seguro até o nascimento das crianças, longe daqui e de Rafique. Ele não pode se confundir por você.
As lágrimas derramaram pelo rosto de Isadora, quentes e silenciosas. Não havia orgulho suficiente para contê-las.
Atrás da cortina, Rafique ouvia tudo. Seu instinto era atravessar a sala e interromper as falas cheia de lâmina da mãe dele contra Isadora, mas ele sabia que um ataque histérico só pioraria as coisas.
Isadora, com voz trêmula, perguntou:
- E minha tia Simone?
- Será enviada logo para perto de você, assim que estiver estável. Você não ficará longe dela.
Annia se levantou.
- Bem, isso é tudo, você parte em seis horas. As criadas arrumaram suas coisas. Agora apenas descanse.
Assim que a princesa saiu, Rafique deixou o esconderijo. Num impulso, envolveu Isadora nos braços, segurando-a como quem quer proteger de todo o mundo.
Sussurrou ao ouvido dela:
- Você é a única que aceitarei como esposa. Já é minha mulher, mãe dos meus filhos. Não se preocupe. Vou resolver isso. Agora, não chore. Olhe para mim.
Ela ergueu o rosto, obediente, o olhar ainda úmido.
- Confie em mim. - ele continuou. - Não será fácil, mas vou lutar por você.
- Mas seu destino já está traçado, Rafique. Por favor... eu não sou adequada. Não sou uma princesa.
- Você é mais do que qualquer princesa, Isadora. Você é...
Ele não terminou. Os lábios dele se encontraram com os dela. O beijo começou suave, como um sopro, mas logo ganhou a intensidade de uma tempestade no deserto, carregado de urgência e sede reprimida.
O corpo de Rafique colou-se ao dela, e Isadora sentiu a pressão inconfundível de seu desejo. O abraço se apertou, as mãos dele explorando-lhe as costas como se quisesse memorizar cada curva. Ela mesmo inocente não recuou ao contrário, se entregou ao momento, os dedos subindo pelo pescoço dele, afundando nos cabelos espessos.
Ele a queria...
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Rafique Al-Nahyan não era apenas um nome que ecoava pelos salões de mármore do palácio real em Dubai; ele era a tempestade encantadora que incendiava as noites douradas da cidade. Aos 25 anos, o jovem príncipe era o reflexo mais puro da primeira união do grande sheik Al-Hassan com a princesa Annia Al Salim, herdeira direta de uma linhagem nobre e extremamente devota. Isso tornava Rafique o mais respeitado dos filhos do sheik, o único de sangue totalmente puro e, por isso mesmo, herdeiro natural dos títulos e do poder do pai nos Reinos Unidos de Dubai.
Era difícil saber se ele era mais conhecido pelos discursos brilhantes nas conferências econômicas ou pelas madrugadas em iates privados no Golfo Pérsico, regadas a Dom Pérignon, neon e música eletrônica importada de Ibiza. Rafique era tudo o que um herdeiro do trono moderno deveria ser: culto, bilíngue, estrategista, mas também imprevisível, indomável e perigosamente sedutor.
Durante o dia, era comum vê-lo nas pistas de tênis do clube privado de Palm Jumeirah, onde ele derrotava os executivos ocidentais com uma facilidade irritante. À tarde, cavalgava em silêncio no deserto com seu puro-sangue árabe, Azure, um animal tão indomável quanto seu dono. À noite? Ah, à noite, ele se tornava lenda.
Enquanto o sol ainda dourava as areias do deserto, Rafique se preparava para mais uma noite entre os salões iluminados de ouro e cristais, onde apenas os filhos dos mais ricos, líderes políticos e jovens príncipes tinham acesso. A festa era exclusiva, organizada por um magnata do petróleo aliado da família.
Vestia um traje preto de corte impecável; seu relógio Rolex cintilava como os olhos das mulheres que sempre o esperavam com desejos não ditos.
O salão reluzia. Lá estava Rafique, rindo alto, brindando com champanhe francês, mesmo sem beber muito. Seu estilo era aproveitar o momento, mas sempre com os olhos atentos um negociador em potencial, um líder que, mesmo nas festas, era cortejado por empresários. Um jovem que, mesmo nobre, já pensava em novas rotas comerciais, formas de digitalizar os negócios da família e impulsionar a expansão do império Al-Nahyan Salim.
- É assim que se conquista um império moderno - dizia ele.
A um amigo de infância, sobrinho de um embaixador, enquanto indicava no celular um projeto para transformar parte do deserto em campos de energia solar.
No entanto, a verdadeira essência de Rafique se revelava nos momentos mais íntimos, como aquele jantar tradicional, onde os homens da família comiam separados das mulheres, num grande salão circular coberto de tapeçarias vermelhas e talheres de ouro.
O sheik Al-Hassan, homem imponente de olhos escuros e olhar firme, estava à cabeceira. Ao seu lado, Rafique, com seu semblante de quem sempre tinha algo a dizer.
- Rafique. - o sheik começou, rompendo o burburinho de conversas entre primos e irmãos, fazendo-se ouvir.
- Sim, pai.
- Escute, filho, está na hora de pensarmos em seu futuro. A cidade te ama, o povo te admira, e os conselheiros não escondem que esperam sua liderança. Então, está na hora: você precisa de uma esposa. Uma mulher digna de sua linhagem. Para dar início à sua descendência e seguir com sangue forte e puro que você carrega.
Rafique sorriu com leveza, pousando os dedos sobre a taça de prata.
- Com todo respeito, grande Sheik e meu pai... - fez uma pausa. - Eu ainda tenho 25 anos. Pela tradição, sou livre até os 30. A não ser que o senhor queira me transformar em um velho como Tariq, que já quer casar antes de aprender a seduzir uma mulher.
Os homens ao redor riram contidos. O próprio Tariq, o segundo filho, fez uma careta. Mas dentro dele, sendo filho da segunda esposa do Sheik Hassan, odiava o irmão por ele sempre demonstrar que era herdeiro principal e por isso podia decidir seu destino.
- Pelo menos eu tenho estabilidade, Rafique. Diferente de você, que vive como Salomão entre os corpos das filhas do deserto. - rebateu o irmão, sarcástico.
- Salomão teve mil mulheres e ainda foi considerado sábio. - retrucou Rafique, arrancando gargalhadas. - Eu ainda estou longe disso, mas me envaidece ser um homem como ele.
O sheik Al-Hassan apertou os lábios, mas, no fundo, havia orgulho. A arrogância do filho mais velho era diferente: ela vinha do saber, do charme inato que herdara de Annia, sua primeira esposa. Aquela mulher foi uma promessa feita entre duas famílias nobres e, ela, foi o resgate do poder total para Hassan, porém ao cumprir seu dever ao dar-lhe um herdeiro, Annia pediu algo incomum: liberdade. Desde então, vivia em um palácio moderno e reservado, mergulhada na fé, distante das intrigas e dos luxos supérfluos do poder.
Mais tarde, naquela mesma semana, Rafique dirigiu ele mesmo até a mansão da mãe, localizada nos arredores do deserto, uma construção clara com jardins interiores e fontes límpidas.
Annia, com seu véu dourado e olhar sereno, recebia o filho como sempre fazia: com um beijo na testa e um abraço demorado.
- Vim ver minha rainha. Ouvi boatos de que está tramando minha prisão...?
Annia olhou séria para o filho e mudou de assunto.
- Já não estás cansado de encantar as filhas das cortes estrangeiras, meu filho? - brincou ela, servindo chá de jasmim em porcelana fina.
- O que posso fazer, se todas querem um beijo meu? - respondeu ele, sentando-se aos pés dela como quando era menino.
Ela riu com delicadeza, acariciando-lhe o rosto com os dedos finos.
- Seu pai está certo. - ela disse com doçura. - Você deve escolher uma mulher adequada, que lhe dê um herdeiro e caminhe ao seu lado. Depois disso, poderás voar como quiser. A liberdade verdadeira vem após o dever cumprido.
Ele suspirou, levantou e sentando-se no divã ao lado dela.
- Mãe, a liberdade eu já tenho. Eu a construí. Mesmo no palácio, mesmo entre os muros da tradição.
- Liberdade verdadeira, meu filho, é saber o tempo de agir... e o tempo de esperar. - respondeu ela, com serenidade.
Rafique a olhou com carinho.
- Mas eu já sou livre, mãe. Sou filho da princesa de Al Salim, lembra? A senhora mesma me ensinou a não aceitar prisões que não escolhi.
Annia sorriu, tocando-lhe o rosto.
- Ainda assim, honra a sua linhagem primeiro, rapaz. E serás mais livre que qualquer um.
Sorrindo com charme para não desagradar a mãe, ele se foi, como gostava veloz pela estrada do deserto.
No dia seguinte, Rafique estava de volta ao centro comercial do império Al-Nahyan Salim. Participava de uma reunião com os diretores das holdings da família. Apresentava ideias ousadas: investir em tecnologia blockchain para rastrear exportações de diamantes; implementar inteligência artificial nos campos de extração de gás natural; e criar um fundo de investimento para jovens empreendedores dos Emirados Árabes Unidos.
- Vamos deixar de ser apenas herdeiros. - disse ele, convicto. - Vamos ser os criadores e donos do nosso próprio destino com prosperidade.
O sheik Al-Hassan assistia de longe, fingindo indiferença, mas com o coração pleno. Seu filho, apesar da rebeldia, era uma força natural. Um homem que não apenas estava pronto para o poder, o poder nascera nele.
E enquanto os olhos de todos ainda o viam como o príncipe festeiro, Rafique já era, aos poucos, o arquiteto de um novo reino, o seu próprio.
À noite, em meio às luzes douradas de um salão majestoso, decorado com tapeçarias ancestrais e colunas em mármore branco, Rafique surgia vestindo túnica de seda marfim com detalhes em dourado. Ao redor, uma seleta elite da região brindava sua chegada com sorrisos discretos e referências respeitosas. Naquela noite, ele era o convidado principal de um encontro entre os grandes magnatas do petróleo e os novos investidores tecnológicos do Emirado. Era ali que ele brilhava. Inteligente, articulado e irreverente, conquistava com sua oratória firme e sua ousadia jovial.
- Dubai é o centro do mundo, todos estão de acordo! - disse cheio de arrogância.
Finalizando um discurso, risadas foram ouvidas, seguidas de aplausos em concordância do salão repleto de poderosos de todo o mundo.
Era impossível ignorá-lo: o brilho nos olhos, a segurança nos passos, o charme inato. Mas nenhum escândalo o acompanhava. Era livre, mas não leviano. Era intenso, mas não vulgar. Seu nome era temido entre os rivais e desejado pelas mulheres. Mas o trono exigia mais. E ele naquela noite só queria se divertir.
O local da festa era requintado, candelabros de cristal marroquino pendiam sobre tapetes persas originais, e garçons vestindo branco distribuía taças de champanhe artesanal.
Foi lá que ele a viu.
Calista era uma exímia dançarina de origem desconhecida que roubava olhares com sua beleza hipnotizante. Era uma espécie de bruxa dos tempos modernos, com seus jogos de cartas, adivinhações e algum feitiço escondido no decote do sutiã. Ela definitivamente não era como as outras.
Havia mistério em seu sorriso. Ele a tirou para dançar uma dança lenta, quente, quase proibida para a cultura local. Ela sussurrava em francês no ouvido dele, e ele sorria com aquela calma arrogante de quem sabe que pode ter qualquer mulher que quiser. Mas, após vê-la de tão de perto, perdeu o interesse.
- Você dança como se fosse o rei do mundo... e talvez seja. Você não é o príncipe de ouro de Dubai? - ela disse, convicta.
Cheia de interesse, mas como ele já não a queria mais, por algum motivo que o alertou no próprio íntimo devido a proteção das orações fervorosas de sua mãe, ele a despistou, saindo sem se importar.
Calista ficou furiosa e lançou seu maior feitiço para derrubar aquele arrogante que a ignorou. Ela havia planejado dormir com ele entre lençóis de seda negra como parte de um plano diabólico de um inimigo secreto dele. Ainda não acreditava que havia perdido o príncipe de ouro, mas a verdade é que ele não a quis. Então, rubra de ódio pela riqueza que perderia do seu serviço não concluído, ela ainda o amaldiçoou.
Autora: Graciliane Guimarães
Capítulo 02
O Príncipe Adormecido
Rafique saiu da primeira festa e, em busca de mais emoção, chegando em grande estilo no seu carro conversível negro, foi dançar as músicas da boate La Mirage, uma das mais exclusivas de Dubai.
As luzes neon refletiam nos lustres de cristal, lançando cores intensas sobre os rostos dos herdeiros milionários que dançavam e brindavam com bebidas que, a cada dose, valiam o preço de um carro. Todos se divertiam como se o mundo fosse um campo de jogo sem consequências. E, para Rafique que era o maior ali, o príncipe de ouro do petróleo dos emirados árabes unidos, tudo era mesmo um jogo.
- Aposto que você não consegue me alcançar no deserto hoje à noite, Rafique. - provocou Karim.
Seu eterno rival, desde os tempos do colegial, ele todo convencido segurava uma taça de um champanhe de duzentos anos.
Rafique sorriu com a autoconfiança de quem nunca perdeu. Os olhos negros brilharam sob a luz azulada, e ele ergueu seu copo em um brinde silencioso. Em seguida beijou uma jovem estrangeira ruiva americana filha de algum rico em ascensão. A moça muito rápida o convidou para ele ir até seu hotel, mas ele disse para ela ir até sala vip da boate, porquê lá faria o que ela queria, a mulher obedeceu, enquanto ele firmava dali a pouco seu outro divertimento.
- Está lançado, Karim. Prepare-se para comer poeira, às 23:45 no quilómetros 123.
Em seguida foi aproveitar o corpo da mulher tão disponível, e foi na sala vip.
Ela era atrevida, e já estava nua da cintura para baixo, ele só colocou o preservativo e transou muito rápido, empurrando nela na parede com pernas dela em volta da sua cintura, mas mulher era só mais uma, um alívio rápido.
E ele estava mesmo louco de vontade de seguir para o próximo evento, a corrida com os amigos, então encerrou ato, a mulher muito satisfeita com o sexo, implorou para manterem contato. Porém ele não queria vínculo. Mas aceitou o cartão dela. E saiu sem olhar para trás.
Logo depois de volta a pista de dança entre risos, apostas e aplausos, os seis jovens herdeiros deixaram a boate e seguiram, cada um, para a sua garagem subterrânea de seus palácios, em busca de suas motos.
A noite estava quente, o céu sem nuvens, e as estrelas do deserto pareciam antecipar o drama que viria. Rafique escolheu sua moto mais veloz: uma Ducati preta com detalhes dourados. Colocou a jaqueta de couro personalizada, capacete dourado espelhado e partiu.
O encontro foi marcado às 23:45, no quilômetro 123, logo depois todos seguiram rumo a uma rodovia ao lado do deserto.
O asfalto liso, recém-reformado, era o ideal e por isso foi proposto por Karim, era muito próximo à areia. A velocidade era insana, os motores rugindo como leões soltos. Rafique estava na frente, livre ao vento, coração acelerado. Sentia-se livre e invencível.
Mas então, em uma curva mal iluminada, tudo mudou. Um buraco oculto pela areia solta fez a moto derrapar. O tempo pareceu desacelerar enquanto Rafique era lançado no ar. O impacto contra o solo de areia foi brutal. Um silêncio mortal caiu sobre o deserto.
Karim freou bruscamente, correu até o corpo caído.
- Rafique! Alguém chame ajuda, rápido!
Ambulâncias privadas chegaram em minutos, guiadas por GPS de emergência. Médicos iniciaram a reanimação ali mesmo. O estado era grave: sem fraturas, mas com hemorragia interna e um possível trauma no crânio.
No palácio, o sheik Al-Hassan foi acordado com a notícia.
- Emir... é sobre o príncipe Rafique. Sofreu um acidente. Está sendo levado ao Hospital Real Al Saif.
O sheik empalideceu. A mãe dele, princesa Annia, avisada em sua própria casa longe do marido, desabou no chão, gritando pelo filho. Em minutos, o helicóptero do palácio sobrevoava o deserto com o casal nobre a bordo, rumo ao hospital.
Na emergência, a equipe médica preparava Rafique para uma cirurgia urgente. A hemorragia abdominal colocava sua vida em risco.
- Façam tudo! Salvem meu filho! - ordenava Al-Hassan. - Dinheiro não é obstáculo! Tragam os melhores do mundo!
A cirurgia durou oito horas. Foram momentos de terror e oração. Quando o cirurgião saiu da sala, o silêncio era palpável.
- O príncipe Rafique está vivo. Controlamos a hemorragia, estabilizamos os sinais. Mas ele está em coma. O cérebro ainda está funcionando, pelo que parece não houve grandes danos cerebrais, porém não sabemos quando ou se ele vai acordar.
Houve alívio, seguido de uma tristeza profunda. Annia abraçou o marido. Choraram juntos. O filho estava vivo, mas ausente. E então o príncipe adormecido havia nascido ali.
Um verdadeiro aparato tecnológico foi construído ao redor de sua cama, com inteligência artificial controlando temperatura, sons, aromas e estimulação cerebral. O sheik contratou estudiosos do mundo inteiro.
Porque Rafique era a esperança do futuro de uma dinastia de sangue puro. E também porque um príncipe tão dinâmico como ele não podia simplesmente apagar. Não sem lutar.
Três meses depois, o palácio do pai de Rafique foi transformado. Com enorme espaço compatível com seis quartos inteiros, o local se tornou uma ala hospitalar de última geração. Câmaras hiperbáricas, monitores modernos, robôs cirúrgicos assistentes, perfumadores automáticos com essência de rosas e jasmim, além de telas de projeção com paisagens do mundo, luz solar artificial e música terapêutica.
Mandou-se ainda construir um jardim secreto ao lado do quarto, para que o príncipe, ao acordar, visse apenas beleza. Mesmo inconsciente, Rafique era tratado como um rei. Como se a qualquer momento fosse abrir os olhos.
E assim, passou um ano.
Foi quando chegou Rodrigo Otomano, renomado neurocirurgião de Los Angeles. O maior médico americano na especialidade, ele é especialista em casos raríssimos de coma profundo.
Rodrigo entrou no quarto de Rafique com olhar clínico e respeitoso.
- Deixem-me examinar pessoalmente. Preciso ver os exames mais recentes, tomografias, ressonâncias e estudar suas reações neurológicas.
Durante dias, Rodrigo analisou o caso. Por fim, em uma reunião com os pais do príncipe, declarou:
- Eu posso tentar uma nova intervenção, mas não prometo nada. É um caso extremamente raro. A atividade cerebral está perfeita, mas há uma desconexão entre estímulo e resposta consciente. Talvez possamos restabelecer essa ponte.
Uma nova cirurgia foi realizada, focada em estimular áreas específicas do cérebro, colocando um sensor em chip menor que um grão de arroz. Os primeiros dias trouxeram esperanças: pequenas contrações nos dedos do pé, oscilações nos batimentos quando ouvia certas músicas. Mas Rafique não acordou.
Rodrigo prometeu continuar estudando o caso com uma equipe internacional.
- Precisamos de tempo. Mas há esperança.
O sheik Hassan agradeceu. Mas naquele mesmo mês, recebeu um diagnóstico pessoal: um câncer avançado nos rins. Não havia cura. E, de repente, tudo ganhou outra urgência.
- Preciso de um novo herdeiro legítimo. - confidenciou à sua primeira esposa.
A princesa Annia, que há meses não saía do lado do filho, ouviu o marido com pesar. Ela já não podia gerar filhos. Uma histerectomia causada por endometriose há anos havia lhe tirado essa chance.
- Entendo sua dor, Hassan... - disse ela, tocando o rosto do marido. - Mas talvez possamos usar Rafique. Ainda há esperança... de descendência.
No quarto transformado em suíte hospitalar, onde tudo parecia um hotel de luxo, Annia e Hassan conversavam baixinho. A ideia nasceu ali, num sussurro: coletar esperma do filho príncipe e gerar um filho através de uma barriga de aluguel.
- Uma estrangeira. Jovem. Saudável. Ninguém pode saber. - concluiu Hassan.
- Sim, compramos um ventre e teremos um novo herdeiro de sangue puro.
Enquanto isso, do lado de fora, na sala dos médicos, uma enfermeira brasileira, Simone Oliveira, ouviu a conversa. Ela não era curiosa por natureza, mas era sagaz, e só estava naquele posto de trabalho tão alto por ser extremamente inteligente. E teve a sorte de estar no hospital de plantão no dia que príncipe deu entrada quase morto. Simone foi muito importante no centro cirúrgico, e nos dias seguintes no CTI.
Simone saiu da sala do médicos, antes que fosse vista, após ouvir o que iriam fazer com o príncipe mesmo ele estando em coma. Era uma loucura usar o jovem, no estado em que se encontrava, para gerar um novo herdeiro. Mas aquelas palavras se cravaram como uma ideia urgente, e pelo tempo que Simone estava em Dubai, entendia a ousadia dos pais do príncipe.
Na mesma hora, veio-lhe à mente a imagem da sobrinha: Isadora. Uma beleza serena, natural, com uma doçura rara e, sobretudo, um coração genuíno. Era a chance perfeita, tanto para a menina quanto para a princesa.
No dia seguinte, Simone chamou Isadora em videochamada e pediu:
- Me manda umas fotos suas, Isa, mas bem naturais. Nada de maquiagem exagerada. Quero mostrar quem você realmente é, para uma amiga especial. Eu falo sempre de você, e ela está curiosa, porque diz que não acredita que você seja loira de olhos azuis, isso porque eu e sua mãe somos morenas. - mentiu, respirando rápido.
- Ah, claro, madrinha! Já vou te enviar, só um instante. Vou me arrumar. Beijos!
- Obrigada, amor da Dinda. Mostre como você é linda.
A jovem, sem entender muito, atendeu sua madrinha querida. No dia seguinte, com as fotos impressas e cuidadosamente colocadas em um envelope discreto, Simone caminhou até os aposentos do príncipe para mais um plantão.
Autora: Graciliane Guimarães
Capítulo 3
O Príncipe Adormecido
O quarto do príncipe de ouro era silencioso, iluminado apenas pela luz suave que filtrava pelas cortinas de linho. No leito, o príncipe Rafique permanecia imóvel, o corpo coberto por lençóis de algodão egípcio. As máquinas monitoravam seus sinais vitais com precisão, enquanto o aroma de óleos calmantes pairava no ar.
Simone ajeitava os frascos de medicação na bancada quando a porta se abriu. A princesa Annia entrou com passos firmes. A presença dela, sempre cheia de tensão com sua preocupação de mãe, chegava a gelar o ambiente.
Annia era só uma mãe como qualquer outra, ali fazendo o seu ritual de agradecimento por seu querido filho estar, mesmo que em coma, ainda vivo, assim quem sabe poderia um dia reagir.
Ela o tocava com suavidade enquanto declarava seu amor incondicional ao ouvido do filho, como uma oração de súplica, como fazia todos os dias. Mas logo ela terminou.
A enfermeira Simone respirou fundo. Vendo que a princesa havia encerrado seu gesto de rotina, sabia que estava cruzando uma linha perigosa. Com as mãos trêmulas, retirou um envelope do bolso do jaleco e se aproximou.
- Alteza... eu preciso mostrar algo pessoal. Tem a ver com a conversa de vossa alteza com o seu marido ontem, sobre o príncipe.
Annia girou lentamente o rosto para ela, o olhar glacial.
- O que você ouviu, Simone?
- Desculpe-me, alteza, mas eu ouvi tudo sobre a necessidade de um ventre sagrado para gerar um novo herdeiro. E que será coletado o sêmen do príncipe Rafique mesmo ele estando em coma.
A princesa se aproximou, tensa.
- Por Alá, você não tinha que ter ouvido nada disso. Agora saiba que, por isso, poderá ser morta.
- Não, alteza, espere! Me perdoe, por favor! Mas eu posso ajudar. Olhe... - disse, entregando o envelope.
Annia o arrancou das mãos dela com brutalidade. Dentro, três fotos de uma jovem de olhos claros, sorriso doce, traços suaves e elegância natural. A princesa ficou em silêncio, observando cada imagem como se procurasse algo além do físico, alguma impureza oculta nos olhos da moça.
- Quem é essa garota? - perguntou por fim, com voz fria.
- Minha sobrinha. Jovem, saudável. Pura. Eu... eu pensei que talvez...
A princesa a interrompeu, enojada.
- Você ousa me vender sua própria sobrinha como se ela fosse uma égua de linhagem? Acha que está lidando com o quê?
- Eu só quero ajudar... - murmurou Simone, desesperada pela pressão de saber que corria risco de ser morta. - Eu estava no centro cirúrgico. Ajudei muito salvando o príncipe. Fui indicada pelo dono do hospital. Vi o sofrimento, vi o príncipe quase morrer. Foram oito horas de cirurgia. Eu vi tudo, estou aqui com ele desde então. Juro que minha intenção é boa. Eu não quero o mal dele...
Annia ficou em silêncio, fitando Simone, pensativa, com o envelope ainda em mãos. A tensão entre as duas cortava o ar. Em seguida, ela abriu novamente o envelope com ainda mais atenção.
A princesa manteve o olhar fixo nas fotos por longos segundos. Depois, cruzou os braços, pensativa. Ela conhecia bem Simone. Sabia de sua competência irrepreensível, da dedicação incansável no hospital durante os momentos críticos, e agora, do quanto cuidava do jovem príncipe como se fosse seu.
- Você terá uma chance, Simone, de não ser morta. - disse por fim, com a voz baixa, mas firme. - Traga-a para mim.
Simone abaixou a cabeça, aliviada.
- Obrigada, alteza. A senhora não vai se arrepender.
Annia imediatamente saiu, sem dizer mais uma palavra.
O príncipe adormecido, imóvel, parecia ouvir tudo. Porém, o lugar onde ele estava era muito longe.
E foi assim que tudo começou...
Simone respirou fundo, agora morta de medo. O plano antes ingênuo dela, agora se não fosse aceito por sua afilhada, seria sua sentença de morte.
Com muito talento como enfermeira, Simone havia se mudado para Dubai há oito anos, convidada por um famoso cirurgião plástico brasileiro. Viveu antes no interior de São Paulo, em Santo André, e cuidava dos pais idosos e da irmã com a filha que era sua afilhada. A família só tinha boa estabilidade no Brasil graças a Simone, que sempre lutou por oportunidade e estudou muito. Isadora era sua afilhada, filha da sua irmã e melhor amiga, quase como filha de sangue para ela, porque Simone fazia tudo pela sobrinha, até as mínimas vontades.
Loira natural, olhos azuis e bonita de corpo, Isadora era típica descendente do sul do Brasil, pelos genes do pai. E mais uma moça inteligente, doce e poliglota. Estudava línguas desde cedo, inclusive árabe, por incentivo de Simone.
Desde os dez anos, Isadora sonhava em conhecer Dubai. Quando Simone prometeu que se ela estudasse, um dia ela viria morar com ela.
Naquela noite, em seu quarto, após episódio dela ter oferecido Isadora, e ameaças da princesa. Simone mandou uma mensagem para a irmã, e depois para a sobrinha, Isadora precisava vir agora, se não ela estaria morta.
Simone:
- Isa, se prepare. Porquê eu vou realizar seu maior sonho. Você vai passar seu aniversário de 18 anos em Dubai. Com tudo pago. Já falei com sua mãe. Malas prontas!
Isadora (em choque):
- Meu Deus, é sério, Dinda? Eu nem acredito! Vou mesmo para Dubai?!
Simone:
- Sim, meu amor. Você merece. Sempre estudou, sempre foi correta. E mais: lembra quando eu disse que aprender árabe abriria portas? Você vai ver.
Em outro momento, Simone, com jeito casual, perguntou:
- Isa... você ainda é virgem?
Isadora respondeu com naturalidade:
- Sou sim, Dinda. Felipe me respeita muito. A gente finge namorar por causa da família dele, mas só somos amigos mesmo.
Simone:
- Perfeito, meu amor. Então vai dar tudo certo. A madrinha vai organizar tudo, só aguarde. Beijos.
Dias depois...
No Aeroporto Internacional de São Paulo, Isadora partiu. Os pais, mesmo separados, apareceram juntos. Levaram uma cesta de chocolates e um balão com os dizeres: "Feliz 18 anos, Isa em Dubai!"
- Cuidado com o sol, filha. - disse o pai.
- E liga sempre pra mim, promete? - pediu a mãe, com lágrimas nos olhos.
- Prometo. Amo vocês!
O avião decolou. Isadora olhava pela janela, coração explodindo. Era seu sonho realizando.
Ao chegar em Dubai, foi recebida por seguranças da família real. Simone estava lá, elegante, radiante.
- Bem-vinda, afilhada, você está ainda mais linda.
- Ah, madrinha, mas é claro, né? No meu aniversário de quinze anos eu estava cheia de espinhas na cara, e agora tô com pele de pêssego. Mas graças à senhora e seus envios de sabonetes e cremes importados daqui, ah, minha nossa, eu nem acredito! Madrinha, eu tô em Dubai! Ahhh! - deu gritinho de alegria.
- Sim, amor, é incrível aqui, e eu vou te mostrar tudo.
- Sério mesmo? Nossa, meu coraçãozinho... será que aguenta, tia? - sorria, quase histérica.
- Aguenta sim.
Isadora não sabia, mas aquele aniversário marcaria para sempre sua vida.
- Então, querida afilhada, como prometi: eu vou te levar pra passear. Mas... primeiro, preciso te apresentar à princesa.
Isadora parou no meio da calçada. O calor abrasador de Dubai tocou sua pele recém-saída do inverno brasileiro. Ela ajeitou a alça da bolsa no ombro, confusa.
- Tia, isso é sério? Uma princesa?
- Sim - Simone respondeu com um sorriso tenso, desviando o olhar. - Foi através dela que eu pude te trazer até aqui, Isadora. Ela quem pagou tudo. Sem a ajuda da alteza, isso aqui não seria possível. Você sabe que tenho muitos compromissos no Brasil: com seus avós, pagando a casa; com sua mãe, que é uma mulher sem emprego por causa das doenças autoimunes e da depressão; e com você, que é como minha filha.
- Sim, eu sei, Dinda. Obrigada. A senhora é uma mulher maravilhosa por ser tão boa e cuidar de todos nós.
- Obrigada. Mas não sou tão boa assim, querida... não depois da loucura que fiz! Mas vamos. - Simone continuou, tentando manter o tom leve. - A gente vai até lá primeiro. Depois eu te mostro o resto da cidade.
- Está bem, madrinha.
Isadora sentiu um arrepio subir pela espinha. Não era apenas um passeio de férias? Não era só uma aventura cultural para comemorar seus 18 anos? Uma dúvida começou a crescer em seu coração.
O carro preto, elegante e com vidros fumê, saiu em direção ao coração luxuoso da cidade. Isadora não dizia nada. Olhava pelas janelas o mundo surreal dos Emirados: arranha-céus espelhados, carros exóticos, mulheres cobertas por véus de seda cruzando calçadas de mármore. Tudo tão distante da sua realidade de bairro simples no interior de São Paulo, em Santo André.
Ao chegarem aos portões do palácio, o silêncio entre elas se tornou mais pesado. Os guardas, vestidos de branco impecável, com armas discretas nas costas, fizeram uma breve verificação e autorizaram a entrada.
O portão dourado se abriu com lentidão quase cerimonial, revelando jardins perfeitos, fontes borbulhantes e uma arquitetura milenar mesclada com o modernismo típico da região.
Simone pegou a mão da sobrinha.
- Seja respeitosa. Fale o mínimo. A princesa fala inglês. Então, agradeça, se curve, mostre gratidão.
Autora: Graciliane Guimarães