João, meu marido, a estrela em ascensão do futebol brasileiro, um dia me trouxe um presente que prometia a cura para minha doença rara: uma pulseira de platina.
Ele disse que era o resultado de 99 penalidades suportadas, um sacrifício inacreditável para me salvar. Eu, Ana Paula, beijei as cicatrizes em suas costas e acreditei em cada palavra, em cada "meu amor".
Mas tudo era uma mentira.
Uma semana depois, fui brutalmente sequestrada e jogada em um galpão imundo, onde a violência começou. Em meio ao terror, a pulseira rachou, e uma voz mecânica, seguida pela de João, ecoou em minha mente, falando sobre 'transferência de infortúnios' e 'Patrícia'.
Patrícia não era eu. Era a socialite que ele deveria "proteger".
A pulseira não era minha. Na parte interna, um nome gravado: Patrícia.
O choque paralisou meu corpo, a traição me rasgou. Eu era a provação, o sacrifício para limpar o destino dela e abrir o caminho para a ascensão social dele.
A crueldade se aprofundou. As ordens de João para meus agressores foram de me humilhar e destruir minha dignidade. Então, tive uma náusea estranha, uma revelação esmagadora: eu estava grávida.
O filho de João. O monstro que me destruía.
Um chute em meu estômago. O sangue. Meu bebê. Perdido.
A dor física e emocional se misturaram, o vazio me consumiu. E então, ele "me resgatou", encenando o herói preocupado para a câmera, a nação e a mim.
"Vai ficar tudo bem, meu amor", ele sussurrava, enquanto eu desmaiava em seus braços, sentindo um desprezo que queimava mais que qualquer ferida.
Internada, mudei-me para uma "gaiola de luxo", afastada do mundo. Patrícia, a beneficiada de minha miséria, me visitou, revelando mais detalhes da trama e me envenenando.
Minha garganta ardia, incapaz de falar. João, indiferente, cuidava de Patrícia, que fingia estar doente, precisando de uma transfusão de sangue.
"O tipo sanguíneo dela é raro. O mesmo que o seu."
Fui forçada a doar. Minha vida, gota a gota, escorrendo para salvar minha algoz. Mas antes que a escuridão me levasse, entreguei a Lucas, o único gentil, um gravador com as confissões e o resultado de meu teste de gravidez.
Morri sabendo de tudo.
Missão principal concluída. O sofrimento de Ana Paula foi o prêmio de João.
Ana Paula olhou para o marido, João, com um amor que transbordava em seus olhos.
Ele era a estrela em ascensão do futebol brasileiro, um homem cujo nome começava a ecoar nos estádios e nas manchetes dos jornais, e para ela, ele era o mundo inteiro.
João sorriu de volta, um sorriso que sempre a fazia sentir segura, amada.
Ele a abraçou com força, o cheiro dele, uma mistura de suor do treino e colônia cara, a preencheu por completo.
"Eu faria qualquer coisa por você, meu amor", ele sussurrou em seu ouvido.
Ela acreditava nele, cada palavra era um bálsamo para sua alma cansada, uma alma que lutava diariamente contra uma doença rara que os médicos diziam não ter cura.
Mas João tinha encontrado uma cura. Pelo menos, era o que ele dizia.
Ele era um "conquistador", uma alma enviada por uma entidade que ele chamava de "o Sistema" para cumprir missões neste mundo. Sua missão principal, ele explicou vagamente, era garantir que o time adversário vencesse certos jogos cruciais, uma tarefa que o enchia de conflitos, mas que ele aceitava.
Ele nunca entrou em muitos detalhes, e ela nunca pressionou.
Para Ana Paula, o que importava era que ele a amava.
Naquela noite, ele chegou em casa com uma pequena caixa de veludo.
Dentro, havia uma pulseira de platina, delicada e fria ao toque, com um fecho quase invisível.
"O que é isso?", ela perguntou, maravilhada com a beleza da joia.
A expressão de João era séria, quase dolorosa.
"É a sua chance, Ana Paula. A nossa chance."
Ele contou a ela uma história de sacrifício inacreditável.
Disse que havia desafiado o Sistema, que implorou por uma maneira de salvá-la de sua doença. O Sistema, segundo ele, era implacável, mas ofereceu uma troca.
"Eu suportei noventa e nove penalidades", disse ele, a voz embargada. "Cada uma delas foi uma tortura que você não pode imaginar. Dor física, mental... tudo para conseguir isso."
Ele pegou a pulseira e a colocou no pulso dela.
"Isso vai mudar o seu destino. Vai reverter a doença. Você vai ficar bem."
As lágrimas escorriam pelo rosto de Ana Paula enquanto ela o abraçava.
Ela beijou as cicatrizes quase imperceptíveis em suas costas, cicatrizes que ele dizia serem das punições do Sistema.
Ela acreditou em cada palavra.
Como poderia não acreditar? O amor dele era a única coisa que a mantinha de pé.
Ela usava a pulseira todos os dias, um símbolo constante do sacrifício de seu marido. Sentia-se mais forte, mais viva. Acreditava que estava melhorando.
Tudo era uma mentira.
Uma mentira que ela descobriu da forma mais brutal possível.
Uma semana depois, ao sair de sua clínica de fisioterapia, onde trabalhava com a dedicação que lhe restava, uma van preta parou bruscamente ao seu lado.
Dois homens fortes saíram, a agarraram e a jogaram para dentro antes que ela pudesse gritar.
O pânico a dominou.
Ela se debateu, chutou, mas era inútil.
Eles a levaram para um galpão abandonado, o ar pesado com o cheiro de mofo e podridão.
Jogaram-na no chão de cimento sujo.
Um dos homens a segurou enquanto o outro a agredia.
Durante a luta desesperada, seu braço bateu com força contra uma viga de metal.
A pulseira de platina, o símbolo do amor de João, rachou.
Um corte se abriu em seu pulso, e o sangue dela escorreu, penetrando nas ranhuras finas da pulseira quebrada.
Foi então que ela ouviu.
Não com seus ouvidos, mas dentro de sua cabeça.
Uma voz fria, mecânica, sem emoção.
"Você sabia o quanto ela te amava, por que a expôs a isso?"
Ana Paula congelou. A voz não estava no galpão.
E então, outra voz respondeu, uma voz que ela conhecia melhor do que a sua própria.
A voz de João.
"O destino de Patrícia está cheio de infortúnios, só assim posso protegê-la. Não tenho outra opção."
Patrícia.
O nome ecoou em sua mente. Patrícia era uma socialite famosa, a "alvo de conquista" de João, a mulher que ele deveria proteger. Ele havia mencionado o nome dela algumas vezes, sempre de passagem.
O choque foi tão intenso que paralisou seu corpo.
"Depois que Ana Paula suportar as últimas três provações e o destino de Patrícia for alterado, eu a compensarei pelo resto da minha vida..."
A voz de João era calma, calculista. Sem amor, sem remorso.
Com as mãos trêmulas, Ana Paula olhou para a pulseira quebrada.
Na parte interna, agora visível pela rachadura, havia um nome gravado em letras minúsculas.
Patrícia.
O mundo de Ana Paula desmoronou.
A pulseira não era para ela. O sacrifício não era por ela. A cura era uma mentira.
Ela era a provação. Ela era o sacrifício.
O desespero a consumiu, uma onda negra que afogou toda a esperança.
Seus olhos varreram o chão imundo do galpão e encontraram um caco de vidro.
Era sua única saída.
Com um grito que rasgou sua garganta, ela se arrastou em direção ao vidro, sua única intenção era acabar com aquela dor insuportável.
Mas os agressores foram mais rápidos.
Eles a pegaram antes que pudesse se cortar.
Um deles riu.
"O chefe disse para não te deixar morrer. Pelo menos, não ainda."
Eles a prenderam no chão, e a violência recomeçou, mais brutal, mais impiedosa.
Enquanto a dor física a rasgava, a dor da traição a aniquilava por dentro.
Tudo tinha sido planejado.
O amor, o carinho, a promessa de um futuro.
Tudo era uma armadilha orquestrada pelo homem que ela amava mais do que a própria vida.
A dor era uma constante, um oceano no qual Ana Paula se afogava.
Os agressores não tinham pressa, seguiam um roteiro invisível de crueldade.
Enquanto seu corpo era violado, sua mente estava presa àquela conversa, a voz de João e a voz do Sistema ecoando em um loop infinito.
Ela ouviu de novo.
"O progresso da transferência de infortúnio está em 60%", disse a voz mecânica do Sistema. "A entidade Ana Paula está mostrando sinais de colapso mental e físico. Recomenda-se cautela."
A resposta de João veio em seguida, gelada e pragmática.
"Continue. Precisamos chegar a 100% para que o destino de Patrícia seja completamente limpo. Não podemos parar agora."
Ana Paula fechou os olhos, mas não havia como escapar das palavras dele.
Cada sílaba era um golpe, mais doloroso que os socos que recebia.
O Sistema pareceu hesitar, uma anomalia em sua programação.
"A dor dela excede os parâmetros calculados. A continuação pode resultar em danos permanentes ou morte prematura, o que anularia a transferência."
"Então encontre uma maneira de mantê-la viva, mas sofra", João ordenou, sua voz dura. "Aumente a intensidade das provações. Patrícia precisa estar segura. É a minha missão."
Ana Paula soluçou, um som baixo e quebrado que se perdeu no vasto galpão.
Lembrou-se da noite anterior ao sequestro.
Ela estava se sentindo fraca, os sintomas de sua doença pareciam piores.
Ela chorou nos braços de João, dizendo que estava com medo.
"Não se preocupe, meu amor", ele a consolou, beijando sua testa. "Eu estou aqui. Eu nunca vou deixar nada de ruim acontecer com você. Eu prometo."
A lembrança agora era veneno.
Cada promessa, cada carícia, cada olhar de amor era uma peça do quebra-cabeça de sua destruição.
Ele a estava confortando, sabendo que no dia seguinte a entregaria a torturadores.
A crueldade do plano era incompreensível.
"E depois?", perguntou o Sistema. "O que você fará com ela quando a transferência estiver completa?"
"Eu a resgatarei", disse João, como se falasse do tempo. "Serei o herói. Cuidarei dela, a cobrirei de amor e presentes. Ela nunca saberá a verdade. Pensará que foi apenas um sequestro aleatório e que eu a salvei. Ela vai me amar ainda mais por isso."
Um riso amargo e silencioso brotou no peito de Ana Paula.
A arrogância dele era tão vasta quanto sua crueldade.
Ele realmente acreditava que poderia apagar o que estava fazendo com ela? Que o "amor" dele poderia compensar o inferno?
O Sistema então fez uma sugestão que selou o destino de Ana Paula.
"A última provação necessária para completar a transferência requer a perda total da pureza e da dignidade social da entidade. Isso garantirá que o infortúnio mais profundo de Patrícia, uma mancha em sua reputação, seja transferido."
Houve uma pausa.
Até mesmo João pareceu hesitar por um momento.
Mas foi apenas um momento.
"Faça", ele disse, a voz baixa e firme. "Faça o que for preciso. A reputação de Patrícia precisa ser impecável para o casamento dela com o herdeiro dos Varga. É a minha porta de entrada para a alta sociedade, o meu prêmio final."
O coração de Ana Paula parou de bater por um segundo.
Não era apenas para proteger Patrícia. Era para o benefício dele. Para a ascensão social dele.
Ela não era apenas um sacrifício. Era um degrau.
Ela ouviu João dar a ordem final, detalhada e fria, aos homens através de um pequeno comunicador que um deles usava.
"Certifiquem-se de que ela seja humilhada da pior maneira possível. Quero que ela perca tudo. A pureza, a dignidade. Façam o que sabem fazer."
Os homens se entreolharam.
Um deles se aproximou de Ana Paula, um sorriso doentio no rosto.
"Você ouviu o chefe", ele disse, a voz áspera. "Temos novas instruções."
O terror que Ana Paula sentiu naquele momento foi absoluto.
Era um abismo sem fundo, e ela estava caindo, caindo, caindo, sem nada a que se agarrar, enquanto o homem que jurou amá-la a empurrava para a escuridão.