Cinco anos atrás, no meu aniversário de 22 anos, meu "tio" Gabriel Mendes descobriu o segredo mais vergonhoso do meu diário: eu estava perdidamente apaixonada por ele.
Ele não me deu tempo para nada, apenas me humilhou, me chamou de doente e me exilou para fora do país, enquanto anunciava seu casamento às pressas com Beatriz Castro, seu amor de infância.
Fui jogada fora como lixo, minha vida se tornou uma prisão dourada controlada por ele, e meu coração foi destruído ao ver a notícia do "amor de infância" deles.
Mesmo assim, eu não entendia a profundidade da sua crueldade, nem por que ele faria o que fez, até que um mistério inato começou a me rodear.
Agora, estou de volta ao Brasil, não mais a garota frágil que ele dispensou, mas uma mulher forte e, o mais chocante para ele, mãe.
Cinco anos atrás, no dia do meu aniversário de 22 anos, meu tio, Gabriel Mendes, descobriu meu diário.
Ele descobriu o segredo mais profundo e vergonhoso do meu coração: eu estava apaixonada por ele.
Naquele dia, ele não me deu tempo para explicar, para chorar, para implorar.
Ele gastou milhões para me mandar para o exterior e, ao mesmo tempo, arranjou um casamento às pressas com sua namorada de infância, Beatriz Castro.
No aeroporto, o barulho dos aviões era ensurdecedor, mas a voz dele era ainda mais fria e cortante.
"Lívia, nunca mais tenha pensamentos que não deveria ter."
Aquela frase me assombrou por cinco anos.
Agora, eu estava de volta.
O avião pousou no Brasil e, ao ligar meu celular, uma mensagem dele chegou quase instantaneamente.
"Onde você está?"
A pergunta era direta, sem rodeios, como sempre.
Respondi com o número do meu voo.
A resposta dele veio rápida.
"Espere aí. Mandei um motorista te buscar. Tenho uma reunião, não posso ir pessoalmente."
Mesmo depois de cinco anos, ele ainda me tratava com essa distância calculada, como se estivesse organizando a vida de uma subordinada, não de sua sobrinha.
Uma hora depois, o avião finalmente parou e os passageiros começaram a desembarcar.
A umidade quente do Brasil me envolveu, um contraste gritante com o ar seco do país onde eu vivi por tanto tempo.
Enquanto eu caminhava pelo corredor de desembarque, meu celular tocou novamente. Era ele.
Atendi.
"Já desembarcou?"
A voz dele, grave e familiar, atravessou o telefone, fazendo meu coração dar um solavanco involuntário. Respirei fundo para me acalmar.
"Sim, acabei de sair."
"O motorista está no portão de desembarque. Ele está segurando uma placa com seu nome."
"Ok."
Eu estava prestes a desligar, mas ele continuou falando, a voz um pouco mais baixa, quase hesitante.
"Lívia..."
Esperei.
"Beatriz e eu estamos comemorando nosso aniversário de casamento amanhã. Comprei um presente para ela, está com o motorista. Não mexa."
Um sorriso amargo se formou em meus lábios. Ele não precisava se preocupar. Eu não tinha mais interesse nas coisas dele.
"Não vou mexer."
No meio da nossa conversa, um choro fino começou ao meu lado.
Era minha filha, Isabel, que acordou no meu colo. O som era baixo, mas claro o suficiente para ser ouvido através do telefone.
Houve um silêncio repentino do outro lado da linha.
Então, a voz de Gabriel soou novamente, chocada, incrédula.
"Que som é esse? É uma criança?"
Eu olhei para o rostinho amassado de Isabel, que procurava conforto em meu peito. Acariciei seus cabelos macios.
"Sim", respondi calmamente.
A voz dele ficou tensa, quase um sussurro.
"Você... você deu à luz?"
Um sorriso genuíno, o primeiro em muito tempo em uma conversa com ele, surgiu em meu rosto.
"Sim. Acabei de sair do resguardo."
Eu podia imaginar a expressão dele, o choque, a confusão. A imagem me deu uma satisfação sombria.
Desliguei o telefone sem esperar por uma resposta e continuei andando, empurrando o carrinho de bagagem com uma mão e segurando Isabel firmemente com a outra.
O motorista, um homem de meia-idade com um terno impecável, me encontrou facilmente. Ele olhou para mim, depois para a criança em meus braços, com uma surpresa mal disfarçada.
"Senhorita Silva?"
"Sou eu."
"O Dr. Mendes pediu para levá-la ao hotel."
Ele pegou minhas malas e nos guiou para um carro de luxo preto que esperava no meio-fio. O ar-condicionado dentro do veículo era um alívio bem-vindo.
Isabel, que tinha se acalmado, agora olhava pela janela com seus grandes olhos curiosos, observando a cidade que era completamente nova para ela.
O motorista me entregou uma caixa de veludo azul.
"Este é o presente da Sra. Mendes."
Eu apenas assenti, colocando a caixa no banco ao meu lado, o mais longe possível de mim.
O trajeto foi silencioso. Eu olhava para as ruas familiares de São Paulo, sentindo uma mistura de nostalgia e dor. Esta era a minha casa, o lugar de onde fui expulsa. E agora eu estava de volta, não como a garota frágil e apaixonada que ele mandou embora, mas como uma mãe.
Minha vida havia mudado de maneiras que ele nunca poderia imaginar. E a surpresa na voz dele era a prova de que, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha o controle.
A razão pela qual eu chamo Gabriel de "tio" é puramente por uma questão de formalidade familiar.
Meus pais morreram em um acidente de carro quando eu era muito jovem, e fui criada pelos meus avós. A família Mendes era amiga de longa data dos meus avós. Gabriel era o filho mais novo da família Mendes, alguns anos mais velho que eu.
Por causa da proximidade das famílias, meus avós me pediram para chamá-lo de "tio Gabriel" como sinal de respeito.
Ele sempre foi uma figura distante e impressionante. Mesmo quando eu era adolescente, ele já era um jovem empresário de sucesso no ramo da saúde, frio, calculista e incrivelmente bonito.
Eu o observava de longe, minha admiração juvenil se transformando secretamente em algo mais profundo, algo que eu mal ousava admitir para mim mesma.
Escrevi tudo no meu diário. Meus sentimentos, minhas esperanças, minhas fantasias sobre um futuro que nunca poderia acontecer.
Era meu único confidente.
Até o dia do meu aniversário de 22 anos.
Eu não sei como ele encontrou meu diário. Talvez uma empregada o tenha achado e entregado a ele. Talvez ele mesmo o tenha encontrado.
A lembrança daquele dia ainda era nítida.
Ele me confrontou em seu escritório, o diário aberto sobre a mesa de mogno. Seu rosto, normalmente impassível, estava contorcido em uma máscara de nojo e fúria.
"O que é isso, Lívia?"
Ele jogou o diário na minha direção. As páginas se espalharam pelo chão, expondo minhas palavras mais íntimas.
"Você tem noção da doença que é isso? Eu sou seu tio!"
"Você não é meu tio de verdade!", gritei de volta, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Não temos laços de sangue!"
"Isso não faz a menor diferença!", ele rugiu, sua voz ecoando pela sala. "É nojento. Inaceitável."
Ele pegou uma página do chão e a rasgou na minha frente. Depois outra. E mais outra.
Eu assisti, paralisada de horror e humilhação, enquanto ele destruía meu coração, pedaço por pedaço.
Naquela mesma semana, fui colocada em um avião. Ele cuidou de tudo. Passaporte, visto, uma matrícula em uma universidade qualquer no exterior. Meus avós, idosos e influenciados pelo poder dele, concordaram que era o melhor para mim, para "esquecer essas ideias absurdas".
Fui exilada. Minhas contas foram congeladas, exceto por uma mesada controlada por ele. Minhas ligações eram monitoradas. Eu estava em uma prisão dourada, a milhares de quilômetros de casa.
Um mês depois, vi a notícia em um site de fofocas brasileiro que um amigo me enviou.
"Dr. Gabriel Mendes, o magnata da saúde, anuncia casamento com a socialite Beatriz Castro."
A foto mostrava os dois sorrindo, ele com seu ar sério de sempre, ela se agarrando ao braço dele, radiante. A legenda falava de um amor de infância que finalmente se concretizava.
Naquele momento, eu entendi tudo.
O nojo, a fúria... não era apenas pela minha paixão "indevida". Era para me afastar, para limpar o caminho para o casamento dele com a mulher que ele realmente queria.
Eu era apenas um inconveniente, uma mancha em sua vida perfeita que precisava ser apagada.
A dor foi tão avassaladora que me partiu.
O carro parou em frente a um hotel luxuoso, um dos mais caros da cidade. O motorista abriu a porta para mim.
"Chegamos, Senhorita Silva. O Dr. Mendes reservou a suíte presidencial para a senhorita e... a criança."
Peguei Isabel no colo, que tinha adormecido novamente, e saí do carro.
No lobby, um grande banner chamava a atenção: "Feliz 5º Aniversário de Casamento, Gabriel & Beatriz".
Meu sangue gelou.
Ele não me trouxe aqui para me hospedar.
Ele me trouxe aqui para me forçar a testemunhar a felicidade dele. Para me lembrar, mais uma vez, do meu lugar.
Para me mostrar o que eu nunca poderia ter.
A crueldade dele não tinha limites. Respirei fundo, endireitei as costas e caminhei em direção ao balcão de check-in, meu rosto uma máscara de indiferença.
Ele queria um show?
Eu daria a ele um show. Mas não o que ele esperava.