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O Preço da Verdade

O Preço da Verdade

Autor: Day Oliver
Gênero: Romance
🥀 Sete anos atrás, Helena amava Arthur com cada fibra de seu ser, mas um complô cruel a rotulou como traidora e a destruiu. Grávida e humilhada, ela fugiu e se ergueu do pó, tornando-se uma empresária feroz e independente no ramo de cosméticos de alta tecnologia. Quando seu filho Léo de seis anos é diagnosticado com leucemia agressiva e precisa desesperadamente de um transplante de medula óssea compatível, Helena é empurrada de volta para o ninho de cobras que jurou esquecer. O único doador é Arthur, agora um titã imobiliário implacável dominado pela amargura, noivo de sua pior inimiga. À medida que segredos soterrados emergem, eles descobrem que o ódio apaixonado que os une é apenas a máscara de um amor que nunca morreu, ameaçado por conspirações sinistras e revelações arrebatadoras.
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Capítulo 1 🧸 Cap. 1: Desmaio na Festa de Gala

O aplauso da multidão era um estrondo ensurdecedor, mas, para Helena, parecia vir debaixo d'água.

As luzes da grande sala de gala do Hotel Fasano reluziam contra o metal dourado do troféu DermoScience em suas mãos.

Era o ápice de sua carreira, a validação de sete anos de exílio, suor e lágrimas em laboratórios estrangeiros.

Ela deveria estar sorrindo.

Deveria estar saboreando o gosto doce da vitória sobre aqueles que, no passado, tentaram reduzir seu nome a cinzas.

No entanto, sua alma estava em outro lugar.

Mais especificamente, na primeira fileira do mezanino VIP, onde uma pequena silhueta vestindo um miniterno preto acenava para ela com entusiasmo.

Era Leonardo. Seu Léo.

O menino de seis anos exibia um sorriso que fazia os olhos cinzentos dele tão dolorosamente idênticos aos d'ele brilharem sob a iluminação indireta do salão.

Helena sentiu o aperto familiar no peito.

Léo era sua âncora, a única razão pela qual ela não havia desmoronado quando o mundo ruiu sob seus pés sete anos atrás.

Ela apertou a estatueta contra o corpo, o tecido de seda verde-esmeralda de seu vestido de grife moldando-se à sua postura rígida e elegante.

- Obrigada - Helena murmurou ao microfone, sua voz firme, embora seu coração estivesse acelerado. - Este prêmio não é meu. É daqueles que acreditam que a ciência e o amor podem curar o que a ganância destrói.

Ela não olhou para a mesa da diretoria da Construtora Valente, onde sabia que os fantasmas de seu passado assistiam à cerimônia.

Ela apenas desceu os degraus do palco com a graça de uma rainha que acabara de recuperar sua coroa, recusando os microfones dos repórteres que se amontoavam na lateral.

Seu único objetivo era chegar até seu filho.

- Mamãe! Você parecia uma fada lá em cima! - Léo correu ao encontro dela assim que ela cruzou o portal do mezanino.

Helena se ajoelhou no carpete felpudo, sem se importar em amassar o vestido de milhares de dólares.

Ela o abraçou apertado, inalando o cheiro doce de xampu infantil que sempre a acalmava.

Contudo, ao afastar o corpo do menino para encará-lo, uma onda fria de apreensão congelou sua espinha.

Léo estava pálido. Não era apenas a fadiga de uma noite que já se estendia além do seu horário de dormir.

Havia uma tonalidade quase translúcida em sua pele, e pequenas gotículas de suor frio brilhavam em sua testa.

- Meu amor, você está bem? Está sentindo alguma dor? - Helena perguntou, a voz caindo para um sussurro tenso, os dedos tateando o pescoço do filho, medindo a pulsação que parecia rápida demais, fraca demais.

- Só estou um pouco cansado, mamãe... E com calor - Léo sussurrou, a voz fraca, as pálpebras pesadas.

Ele tentou sorrir para tranquilizá-la, mas o sorriso morreu antes de alcançar seus lábios.

O que aconteceu a seguir se desdobrou em câmera lenta na mente de Helena.

Uma única gota de um vermelho vivo e denso escapou da narina esquerda de Léo.

Antes que Helena pudesse estender a mão, um fluxo contínuo e assustador de sangue jorrou, manchando instantaneamente o colarinho branco de sua camisa social e respingando no vestido esmeralda de Helena.

- Léo! - o grito dela foi abafado pela música ambiente da festa.

O menino levou a mãozinha ao nariz, os olhos cinzentos arregalados em pura confusão e medo.

- Mamãe... eu... - as palavras dele falharam.

Os olhos de Léo reviraram, as pupilas subindo enquanto suas pernas perdiam as forças.

Ele desabou para a frente, um peso morto nos braços de Helena.

- Léo! Acorda! Meu Deus, alguém me ajuda! - o pânico, cru e visceral, rasgou a garganta de Helena.

Ela o segurou contra o peito, sujando as próprias mãos e o rosto com o sangue quente que não parava de fluir do nariz do filho.

A opulência do salão de gala, os vestidos de grife, as joias milionárias e os olhares curiosos dos convidados tornaram-se um borrão insignificante.

Para Helena, o universo havia se reduzido ao corpo frágil e inerte de Léo em seus braços.

•••

O barulho dos pneus cantando no asfalto ainda ecoava nos ouvidos de Helena, quando ela empurrou as portas duplas de vidro da emergência do Hospital Aliança, um dos mais renomados e caros da capital.

Ela não esperou pela ambulância; havia colocado o filho no banco de trás do carro de um colega e dirigido como uma louca pelas ruas chuvosas.

- Por favor! Alguém me ajude! Meu filho desmaiou, ele não para de sangrar! - Helena clamou, a voz embargada pelo choro, os cabelos castanhos outrora impecáveis agora grudados ao rosto pelo suor e pela chuva.

Uma enfermeira da triagem aproximou-se rapidamente com uma maca, mas o médico de plantão, um homem de meia-idade com o crachá onde se lia Dr. Renato, aproximou-se com passos lentos, os olhos avaliando Helena de cima a baixo.

Ele viu o vestido de festa manchado de sangue, a maquiagem borrada e a histeria em sua voz.

Para ele, parecia apenas mais uma mãe rica e superprotetora tendo um ataque de nervos por causa de um incidente menor.

- Calma, senhora. Desmaios e sangramentos nasais são comuns em crianças nessa faixa etária, especialmente com a mudança de temperatura de ambientes com ar-condicionado forte - disse o Dr. Renato, o tom impregnado de uma condescendência irritante. Ele sequer havia tocado em Léo ainda. - Coloque o menino na maca. Vamos preencher a ficha de internação primeiro. Preciso do documento de identidade e do cartão do plano de saúde.

- Ele está inconsciente! - Helena rugiu, a voz tremendo de indignação e puro terror. Ela deu um passo à frente, os olhos verdes faiscando com uma fúria selvagem. - Ele não está apenas com calor! Ele desmaiou do nada, a frequência cardíaca dele está oscilando e o sangramento não cede mesmo com compressão! Você vai ficar aí teorizando ou vai salvar o meu filho?

- Senhora, existem protocolos. Nós temos uma fila de atendimento e...

- Eu sou doutora em biotecnologia! - Helena o interrompeu, a voz cortante como uma lâmina de bisturi, projetando uma autoridade que fez o médico recuar um passo. - Eu sei exatamente o que é uma síncope e sei que este sangramento não é capilar periférico. Se você não colocar meu filho em um monitor agora e iniciar o protocolo de choque hipovolêmico, eu juro pela minha vida que destruo a sua carreira antes do amanhecer!

O Dr. Renato engoliu em seco.

A mistura de desespero materno e conhecimento técnico impecável na voz daquela mulher eliminou qualquer vestígio de sua negligência inicial.

- Levem o menino para a sala de trauma dois! Agora! - ordenou o médico à equipe de enfermagem, que imediatamente começou a empurrar a maca.

Helena correu ao lado deles, segurando a mão pequena e fria de Léo.

O menino parecia tão menor naquela maca de hospital, sob a luz fluorescente e implacável do corredor.

O contraste entre a pele alva de Léo e o sangue que ainda manchava seus lábios era uma visão que dilacerava a alma de Helena.

- Eu estou aqui, meu amor. A mamãe está aqui. Você vai ficar bem, eu prometo... eu prometo... - ela sussurrava repetidamente, uma prece desesperada que ela mesma não sabia se Deus seria capaz de ouvir.

Na sala de trauma, os bipes rápidos e agudos do monitor cardíaco preencheram o silêncio tenso.

Enfermeiros cortaram a camisa do miniterno de Léo, colando eletrodos em seu peito miúdo.

Helena foi empurrada para o canto da sala, forçada a assistir à distância enquanto agulhas eram inseridas nos braços finos do filho para coletar tubos de sangue.

Cada segundo parecia uma eternidade de tortura.

Helena apertava as próprias mãos com tanta força que suas unhas cortavam a palma de sua pele.

O vestido verde-esmeralda, agora uma relíquia grotesca de um triunfo que parecia ter acontecido em outra encarnação, estava pesado e frio contra seu corpo.

Os minutos se arrastaram.

O sangramento de Léo finalmente diminuiu após a aplicação de medicamentos e tamponamento, mas ele não recuperou a consciência plenamente; apenas murmurava palavras desconexas, perdido em um estado de letargia profunda.

O Dr. Renato entrou e saiu da sala duas vezes, sua expressão tornando-se progressivamente mais séria e menos arrogante à medida que os primeiros resultados preliminares do laboratório começavam a aparecer na tela do computador da ala de emergência.

Ele já não olhava nos olhos de Helena.

E esse silêncio, essa falta de contato visual, era o diagnóstico mais aterrorizante que ela poderia receber.

De repente, o som das portas automáticas da unidade de tratamento intensivo pediátrico ecoou pelo corredor externo.

Passos firmes e rápidos aproximaram-se da sala de trauma.

A cortina que isolava o leito de Léo foi puxada para o lado com um estalo seco.

Uma mulher de meia-idade, vestindo um jaleco branco impecável sobre uma roupa cirúrgica verde, entrou no recinto.

Seu crachá exibia o cargo em letras garrafais: Dra. Viviane Ramos – Chefe de Oncologia Pediátrica.

Ela não trazia pranchetas, apenas um tablet nas mãos.

Ao cruzar o olhar com Helena, a médica parou por uma fração de segundo.

Sua expressão facial não continha a pressa habitual dos médicos de emergência, nem a frieza burocrática do plantonista.

Era um semblante carregado de uma gravidade absoluta, uma compaixão sombria que fez o ar desaparecer dos pulmões de Helena.

A médica olhou para o monitor, depois para o rosto pálido de Léo, e finalmente fixou seus olhos nos de Helena.

O silêncio que se instalou na sala foi tão denso que o próprio bater do coração de Helena parecia ter parado.

- Você é a mãe do Leonardo? - a voz da oncologista era suave, mas carregava o peso de uma sentença de morte não pronunciada.

Capítulo 2 🧸 Cap. 2: O Único doador Compatível

O bipe rítmico e insistente do monitor cardíaco era o único som que preenchia o quarto de hospital, ecoando como uma contagem regressiva cruel na mente de Helena.

O cheiro de antisséptico e a luz fria e fluorescente pareciam sufocá-la.

Sentada em uma poltrona desconfortável ao lado da cama, ela segurava a mão pequena e desprovida de forças de Léo.

O menino, sempre tão cheio de energia e de riso fácil, parecia menor sob os lençóis brancos e impessoais.

As bochechas, antes coradas, agora ostentavam uma palidez de porcelana trincada.

Sob as pálpebras fechadas de Léo, Helena sabia que se escondiam os olhos cinzentos que tanto a atormentavam a herança genética viva do homem que ela jurou esquecer.

A porta do quarto deslizou suavemente.

Mariana entrou.

A médica, que também era a melhor amiga de Helena desde os tempos mais sombrios do exílio, não usava seu habitual sorriso encorajador.

Ela segurava uma pasta de prontuário contra o peito, como se o papel fosse um escudo contra a dor que estava prestes a desferir.

Helena ergueu os olhos verdes, tempestuosos de angústia.

Ela não precisou de palavras para perguntar.

O silêncio entre as duas era tenso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Helena se arrepiarem.

- Diga-me que há um engano, Mari - sussurrou Helena, a voz falhando, áspera pela noite em claro. - Diga que foi apenas uma virose forte, uma reação ao cansaço... Qualquer coisa.

Mariana suspirou, aproximando-se lentamente.

Ela colocou a mão livre sobre o ombro de Helena, um gesto de conforto que, em vez de acalmar, fez o estômago de Helena despencar no vazio.

- Eu gostaria de ter outra resposta, Lena. Mais do que tudo no mundo - Mariana começou, a voz baixa e profissional, embora seus olhos estivessem úmidos. - Os exames de sangue e a biópsia de medula que corremos para fazer ontem à noite confirmaram. Léo tem Leucemia Mieloide Aguda. É uma forma agressiva, de evolução rápida.

O mundo ao redor de Helena pareceu desacelerar.

O som do monitor cardíaco distorceu-se em seus ouvidos.

Uma onda de frio cortante subiu por sua espinha, paralisando seus pulmões.

- Leucemia... - Helena repetiu a palavra, que soou estrangeira e maldita em sua boca. - Mas ele é só um bebê. Ele tem seis anos, Mari! Ele corre, ele desenha... Ele não pode estar tão doente.

- Nós já iniciamos o protocolo de suporte e vamos começar a quimioterapia de indução imediatamente para conter o avanço das células doentes - explicou Mariana, apertando o ombro da amiga. - Mas, no caso específico do Léo, devido a uma mutação genética que identificamos nos exames, a quimioterapia sozinha não vai garantir a cura. Ela serve apenas para ganhar tempo.

Helena levantou-se abruptamente, soltando a mão de Léo com cuidado para não acordá-lo.

Ela deu dois passos para trás, sentindo-se encurralada pelas paredes brancas do quarto.

- Tempo? Quanto tempo?

- Pouco. Sem um tratamento definitivo, estamos falando de meses - Mariana soltou a verdade de uma vez, sabendo que meias-palavras seriam um desserviço. - Léo precisa de um transplante de medula óssea. Com urgência.

Helena passou as mãos pelos cabelos castanhos ondulados, puxando-os levemente para se ancorar na realidade.

O pânico ameaçava devorá-la por inteiro, mas a determinação de mãe começou a erguer suas barreiras defensivas.

- Então faça o teste em mim. Tire o que precisar. Minha medula, meu sangue, minha vida se for necessário. Eu sou a mãe dele. Sou compatível.

Mariana fechou a pasta e deu um passo à frente, segurando Helena pelos braços, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos.

- Nós já fizemos a sua triagem de compatibilidade, Lena. Assim que os primeiros resultados saíram. Você é apenas uma meia-compatibilidade. Cinquenta por cento. Para a mutação do Léo, um transplante haploidentitário como o seu tem um risco de rejeição altíssimo, quase fatal. Nós precisamos de um doador cem por cento compatível.

- O banco mundial de doadores - Helena sugeriu, a voz trêmula, mas buscando uma saída lógica. - O REDOME, os registros internacionais... Deve haver alguém. O mundo é gigante!

- Helena, escute-me com atenção - Mariana falou, a voz grave e sem espaço para ilusões. - As chances de encontrar um doador compatível não aparentado no registro nacional ou internacional para o perfil genético raro do Léo são de uma em cem mil. E o processo de busca, testes, burocracia e importação de material leva de quatro a seis meses. Léo não tem seis meses. Se esperarmos todo esse tempo, podemos perdê-lo antes mesmo de o doador ser encontrado.

O silêncio que se seguiu foi devastador.

Helena sentiu o chão sumir sob seus pés.

Ela olhou para o filho adormecido.

Léo respirava de forma suave, alheio à sentença de morte que pairava sobre sua cabeça de traços tão familiares.

Aqueles traços. A curva do maxilar que começava a se definir. O formato das mãos. Os cabelos que, embora castanhos como os dela, tinham a mesma textura rebelde de...

Não. Helena fechou os olhos, recusando-se a seguir aquele pensamento. Era um abismo que ela havia jurado nunca mais reabrir.

- Não há outra opção? - Helena sussurrou, a voz quase inaudível, implorando por um milagre médico, por uma mentira piedosa.

Mariana soltou um suspiro pesado, seus olhos cheios de uma compaixão dolorosa.

Ela conhecia a história de Helena.

Sabia o que havia acontecido sete anos atrás na capital.

Sabia da humilhação, da dor, da acusação injusta de traição e roubo que havia esmagado a alma de Helena e a forçado a fugir grávida, sem olhar para trás.

- Você sabe que há uma opção, Helena. A única opção real, segura e imediata - disse Mariana, suavemente, tocando no ponto mais inflamado da alma da amiga. - O pai biológico.

A menção implícita ao nome dele agiu como um chicote na pele de Helena.

Ela recuou, os olhos verdes faiscando de uma mistura de terror e ódio reprimido.

- Não - Helena sibilou, a voz trêmula de indignação. - Ele não. Ele nunca.

- Helena, por favor, seja racional - implorou Mariana. - A compatibilidade entre pais e filhos biológicos é a nossa maior chance. No caso dele, a probabilidade de ser o doador perfeito que o Léo precisa para sobreviver é imensa. É uma questão de genética pura. De sangue. O sangue do pai pode salvar a vida do seu filho.

- Aquele homem não tem o direito de ser chamado de pai! - A voz de Helena subiu um tom, mas ela imediatamente olhou para a cama, controlando-se para não acordar o pequeno. Ela se aproximou de Mariana, o rosto a centímetros do dela, falando em um sussurro carregado de veneno e dor antiga. - Ele me expulsou da vida dele como se eu fosse um lixo, Mariana. Ele acreditou nas mentiras do irmão, me acusou de vender segredos da empresa dele, me humilhou diante de todos e me jogou na rua sem um centavo no bolso! Ele não quis ouvir minhas explicações. Se eu não tivesse fugido, aquela família teria destruído a mim e ao bebê que eu carregava.

- Eu sei de tudo o que ele fez, ou do que você acha que ele fez - Mariana ponderou, tentando manter a mente médica fria. - Mas sete anos se passaram. Léo está morrendo, Helena. O seu orgulho ferido é mais importante do que a vida do seu filho?

A pergunta bateu no peito de Helena como um punhal de gelo.

Orgulho?

Não era apenas orgulho.

Era o pavor de voltar para o covil dos lobos.

Era o medo de que Arthur Valente, com todo o seu poder, sua frieza implacável e sua fúria devastadora, descobrisse a existência de Léo e o arrancasse de seus braços.

Arthur era um homem poderoso, herdeiro de um império, acostumado a obter tudo o que queria.

Se ele soubesse que tinha um herdeiro...

um filho homem com os seus próprios olhos cinzentos...

Helena abraçou o próprio corpo, sentindo um calafrio terrível.

Ela conseguia ver perfeitamente, em sua mente, a imagem de Arthur.

O porte imponente, o maxilar esculpido em linhas duras, o olhar de tempestade que antes a aquecia e que, no último dia em que se viram, a congelou com desprezo absoluto.

Ele estava noivo agora.

Lavínia Albuquerque, a mulher loira e gélida que sempre rondou a vida dele como uma serpente, finalmente havia conseguido o que queria.

Arthur ia se casar.

Ele tinha uma nova vida.

Por que ele se importaria com o filho de uma mulher que ele acreditava ser uma golpista?

- Ele vai odiar saber que eu menti - Helena murmurou, as lágrimas finalmente transbordando e rolando quentes por suas bochechas pálidas. - Ele vai achar que é um golpe. Vai achar que estou usando o Léo para conseguir o dinheiro dele. Ele me odeia, Mari. Você não entende a escuridão que há naqueles olhos cinzentos quando ele está com raiva.

- Então deixe que ele odeie você! - Mariana segurou os ombros de Helena, sacudindo-a de leve para despertá-la do transe do passado. - Deixe que ele pense o que quiser! Deixe que ele a insulte, que grite, que jogue o dinheiro dele na sua cara. Nada disso importa, Helena. O que importa é que ele assine o termo de doação. O que importa é que ele deite em uma maca e deixe que retirem a medula que vai fazer o coração do Léo continuar batendo. Você suportou sete anos de exílio e solidão por esse menino. Você não pode suportar alguns dias de humilhação para salvá-lo?

As palavras de Mariana ecoaram no quarto de hospital, desintegrando a última barreira de negação de Helena.

Ela olhou novamente para o filho.

Léo se mexeu ligeiramente na cama.

Um pequeno gemido de desconforto escapou de seus lábios secos, e sua mãozinha buscou o travesseiro de forma inconsciente.

Helena sabia o que estava escondido ali embaixo: o desenho amassado que Léo fizera de um "gigante cinzento", a figura mítica que ele criara em sua mente infantil para representar o pai que nunca conheceu.

O amor de mãe, visceral, violento e indomável, engoliu qualquer resquício de medo, orgulho ou ressentimento.

Se ela precisasse rastejar diante de Arthur Valente, se precisasse implorar de joelhos no chão frio do escritório dele, ela o faria.

Ela entregaria sua dignidade em uma bandeja de prata se isso garantisse que Léo teria um amanhã.

Helena limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão, um gesto rápido e definitivo.

O choro cessou.

Em seu lugar, uma rigidez fria e calculista tomou conta de suas feições.

Seus olhos verdes, antes marejados, brilharam com a luz perigosa de uma leoa pronta para lutar pela cria.

Ela caminhou até a cabeceira da cama, curvou-se e depositou um beijo suave na testa febril de Léo.

- Eu vou salvar você, meu amor - sussurrou, a promessa selada em sua alma. - Custe o que custar.

Ela se virou para Mariana.

Suas mãos, que antes tremiam, agora estavam firmes.

O ar de vulnerabilidade havia desaparecido, substituído pela postura de rainha exilada que se preparava para retomar o que era seu por direito: a vida de seu filho.

Helena apertou o punho com tanta força que suas unhas curtas se enterraram na carne da palma da mão, quase extraindo sangue, buscando na dor física o foco necessário para não vacilar.

- Prepare os papéis de transferência do Léo para um hospital de referência na capital - ordenou Helena, a voz fria como o aço. - Nós não temos tempo a perder.

- Helena... você tem certeza? - Mariana perguntou, embora já soubesse a resposta ao ver a chama nos olhos da amiga.

Helena caminhou até a janela do quarto, olhando para a noite escura lá fora, onde as luzes da cidade pareciam fumaça.

O passado estava chamando, e ela não podia mais fugir.

- Eu vou voltar para aquela maldita cidade hoje à noite.

Capítulo 3 🧸Cap. 3: De Volta ao Ninho de Cobras

O ar de São Paulo sempre teve um sabor diferente.

Para Helena, no entanto, aquela névoa cinzenta e úmida que pairava sobre a pista de pouso do Aeroporto de Congonhas, tinha o gosto amargo de cinzas e de promessas quebradas.

Ao dar o primeiro passo fora da aeronave, a brisa fria chocou-se contra seu rosto, desordenando os fios castanhos de seu cabelo e fazendo-a encolher-se instintivamente dentro de seu sobretudo bege.

Não era apenas o clima.

Era o peso invisível de uma cidade que, sete anos atrás, havia mastigado sua alma e a cuspido sem qualquer vestígio de piedade.

- Mamãe... está frio - uma voz pequena, rouca e terrivelmente frágil murmurou ao seu lado.

Helena olhou para baixo imediatamente, seu coração apertando-se em um espasmo de dor física pura.

Leonardo estava de pé, segurando sua mão com força desproporcional para o seu corpinho debilitado.

A máscara de proteção cirúrgica cobria metade de seu rosto miúdo, mas não conseguia esconder a palidez assustadora de suas bochechas, nem as olheiras profundas que emolduravam seus olhos.

Olhos que eram uma cópia exata, de um cinza-tempestade magnético, do homem que Helena jurara nunca mais ver na vida.

- Eu sei, meu anjo. - Helena ajoelhou-se na altura dele, ignorando o fluxo de passageiros apressados que desviavam deles com impaciência. Com dedos trêmulos, ela ajeitou a gola do casaco de lã de Léo e acariciou sua testa. Estava fria, úmida de suor. - Nós já vamos entrar no carro. A mamãe está aqui. Eu sempre vou estar aqui.

Léo assentiu, os cílios longos pesando sobre os olhos cansados.

Ele não reclamava.

Nunca reclamava.

E era essa resiliência silenciosa de uma criança de apenas seis anos que dilacerava Helena por dentro, transformando sua angústia em uma determinação feroz, quase assassina.

Ela faria qualquer coisa.

Entregaria sua dignidade, rastejaria no vidro e sangraria se isso significasse salvar a vida de seu filho.

Caminhando pelo saguão barulhento do aeroporto, o eco dos saltos de Helena no chão de granito polido parecia bater em sincronia com as batidas descompassadas de seu peito.

Cada canto daquele lugar parecia sussurrar fantasmas do passado.

Foi exatamente ali, naquele mesmo aeroporto, que ela chorou até perder as forças sete anos atrás, grávida, desamparada e com uma mala barata cheia de roupas e ilusões despedaçadas.

A lembrança a atingiu como um soco no estômago, tão vívida que Helena quase cambaleou.

- Você achou mesmo que uma órfã insignificante como você faria parte da nossa família? - A voz de Geraldo Valente, o patriarca implacável da Construtora Valente, ecoava em sua mente com a força de um trovão de ferro. - Olhe para você, Helena. Você cheira a poeira e mediocridade. E agora tenta nos extorquir com essa mentira de gravidez?

Naquele dia, na biblioteca imensa e sufocante da mansão dos Valente, Helena tremia dos pés à cabeça.

Ela havia estendido o teste de gravidez positivo com as mãos trêmulas, esperando acolhimento, esperando o amor que acreditava partilhar com Arthur.

Em vez disso, encontrou um tribunal de carrascos.

- Eu amo o Arthur... e esse filho é dele! - ela soluçara, a voz embargada pelo pânico.

- O Arthur sabe exatamente quem você é. Uma golpista barata - Geraldo dissera, arremessando sobre a mesa de mogno um envelope pardo com fotos forjadas dela recebendo dinheiro de um concorrente, além de um falso extrato bancário. - Ele mesmo assinou a sua ordem de despejo da vida dele. Se você não sumir de São Paulo hoje, eu garanto que o seu bebê nunca verá a luz do dia. Eu destruo você, Helena. Eu posso fazer você desaparecer e ninguém nunca vai procurar pelo seu corpo.

A frieza nos olhos do velho Geraldo a aterrorizara até a medula.

Mas o que realmente quebrou a espinha dorsal de Helena, o que arrancou o ar de seus pulmões e a fez querer morrer ali mesmo, foi o silêncio de Arthur.

Ele não estava na sala.

Ele não atendeu suas dezenas de ligações.

Ele a abandonara à própria sorte, permitindo que seu pai a expulsasse como um animal doente.

- Com licença, senhora? - A voz do motorista de aplicativo a trouxe abruptamente de volta ao presente.

Helena piscou, percebendo que já estava do lado de fora do terminal de desembarque.

O motorista segurava a porta do sedã preto, olhando-a com uma mistura de pressa e curiosidade.

- Ah, sim. Desculpe - Helena respondeu, a voz saindo mais firme do que se sentia.

Ela ajudou Léo a subir no banco traseiro, acomodando-o com cuidado extremo, antes de deslizar para o lado dele.

Quando a porta se fechou, isolando-os do barulho ensurdecedor do aeroporto, Helena soltou um suspiro trêmulo.

Seu corpo inteiro doía pela tensão acumulada.

"Eu mudei", ela repetiu para si mesma, como um mantra de sobrevivência, enquanto o carro começava a se mover em direção ao centro de São Paulo.

"Eu não sou mais aquela garota ingênua que aceitava os golpes sem revidar. Sou uma cientista premiada. Sou mãe. E vou salvar o meu filho, mesmo que precise arrancar a medula daquele monstro com minhas próprias mãos."

O medo de ser descoberta, no entanto, corria por suas veias como veneno gelado.

Se os Valente descobrissem que Léo existia...

se Arthur soubesse que tinha um herdeiro, o que eles fariam?

Thiago, o irmão calculista de Arthur, e Lavínia, a mulher que sempre rondara a família como um abutre aristocrático, não hesitariam em destruir Léo para proteger seus próprios interesses financeiros.

Helena precisava agir nas sombras.

Ela precisava encontrar Arthur, conseguir o teste de compatibilidade sob total sigilo e desaparecer antes que o império Valente percebesse sua presença.

O carro avançou pela Rodovia Ayrton Senna, entrando no fluxo caótico de veículos que se espremiam nas artérias da maior metrópole do país.

Léo encostou a cabecinha no ombro de Helena, os olhos semicerrados enquanto observava a paisagem cinzenta passar pela janela.

- Mamãe... a cidade do meu pai é muito grande - o menino comentou baixinho, a voz abafada pela máscara.

Helena sentiu um nó apertar sua garganta.

Ela nunca revelara o nome de Arthur para Léo, mas sempre dissera que o pai morava em São Paulo, uma meia-verdade necessária para aplacar as perguntas dolorosas da infância.

- É sim, meu amor. É muito grande - ela murmurou, beijando o topo dos cabelos castanhos e sedosos do filho. - Mas nós só viemos fazer um tratamento rápido. Logo, logo vamos voltar para casa.

"Por favor, que isso seja verdade", ela implorou mentalmente a qualquer divindade que estivesse ouvindo. "Que eu consiga sair daqui sem que ele me veja. Sem que ele quebre o que restou de mim."

O trânsito diminuiu o ritmo à medida que se aproximavam da região central.

O veículo subiu o viaduto e, finalmente, dobrou em direção à icônica Avenida Paulista, o coração financeiro e pulsante de São Paulo.

Os arranha-céus de vidro espelhado erguiam-se como gigantes de concreto, refletindo a luz pálida do final de tarde.

Foi então que o trânsito parou completamente.

Helena olhou pela janela lateral, tentando acalmar a ansiedade que fazia suas mãos suarem dentro das luvas de couro.

A avenida estava congestionada, cercada por pedestres apressados de terno e telas digitais monumentais que cobriam as fachadas dos edifícios mais luxuosos.

De repente, a iluminação de um dos maiores outdoors luminosos da avenida mudou, banhando o interior do táxi com uma luz branca e intensa.

O coração de Helena não apenas falhou uma batida; ele pareceu congelar em seu peito, parando o fluxo de sangue em suas veias.

Na imensa tela de LED de alta definição, que se estendia por vários andares de um edifício comercial de prestígio, a imagem de um homem surgiu.

As feições eram esculpidas, o maxilar marcado exibia uma rigidez quase aristocrática, e os olhos cinzentos, os mesmos olhos que Helena via todas as manhãs no rosto de seu filho, fitavam a câmera com uma frieza magnética, desprovida de qualquer calor humano.

Era Arthur Valente.

Ele usava um terno de corte impecável feito sob medida, exalando um poder bruto e intimidador.

Ao seu lado, com a mão possessivamente apoiada em seu braço, estava Lavínia Albuquerque.

Ela exibia um sorriso gélido e triunfante, seus cabelos loiros platinados perfeitamente alinhados, brilhando sob os flashes dos fotógrafos fictícios da campanha publicitária.

Acima deles, letras douradas gigantescas e brilhantes começaram a piscar contra o fundo preto, anunciando para toda a cidade:

"O Casamento do Século: Arthur Valente e Lavínia Albuquerque confirmam a união das maiores dinastias do país neste sábado. O amor que reconstrói o império."

Helena sentiu o ar desaparecer de seus pulmões.

Suas unhas cravaram-se na palma das mãos com tanta força que ela quase rasgou o couro das luvas.

Sete anos.

Sete anos de dor, exílio e luta pela sobrevivência, enquanto ele simplesmente continuara sua vida de luxo, prestes a se casar com a mulher que arquitetara sua ruína.

Ao seu lado, alheio ao colapso interno da mãe, Léo apontou com o dedinho pálido para a imensa tela luminosa.

- Olha, mamãe... aquele homem ali na foto. Os olhos dele são parecidos com os meus, não são?

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