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O Preço Que Paguei Por Você

O Preço Que Paguei Por Você

Autor:: Batistad
Gênero: Romance
Ele construiu um império acreditando em uma única regra: todo mundo tem um preço e nunca esteve errado. Até Carolina. Yan não acredita em amor, acredita em controle, em contratos, em pessoas que sempre acabam cedendo. Para ele, desejo é só mais uma variável que pode ser organizada. Então, quando ela surge com um olhar que não baixa e uma presença que não pede permissão, ele faz o que sempre fez: transforma tudo em um acordo. Sem sentimentos. Sem promessas. Sem espaço para erro. E ela aceita. Mas não pelo motivo que ele imagina. Carolina sabe exatamente o que o dinheiro pode destruir, porque já perdeu tudo por causa dele. Ela não quer o poder de Yan, nem o controle, nem o conforto. Ela quer ele. E isso muda completamente o jogo. Porque enquanto ele acredita que está comprando mais uma mulher, ela entra na vida dele com a única coisa que ele não sabe controlar: intenção. Entre provocações afiadas, silêncios que queimam e uma atração que cresce onde nenhum dos dois admite, eles começam um jogo onde ninguém está dizendo a verdade completa. Ele a mantém perto... mas nunca o suficiente. Ela fica... mas nunca da forma que ele espera. Até que o contrato deixa de ser um acordo e vira uma ameaça. Porque quando o sentimento atravessa o controle de Yan, não existe negociação, só ruptura. E amar um homem que não acredita no amor pode custar mais do que qualquer preço. Ele sempre acreditou que podia comprar qualquer pessoa... mas Carolina não está à venda. E quando ele perceber isso, talvez já seja tarde demais para sair.

Capítulo 1 O olhar que não esquece

Carolina

Eu reconheci antes de ver.

Não o rosto.

Não o corpo.

O efeito.

Como se alguém tivesse puxado algo dentro de mim; rápido, bruto e sem aviso.

E de repente...

eu não estava mais no controle.

Droga.

Eu não devia sentir isso.

A música pulsa baixa, grave, preenchendo o espaço com um ritmo que parece bater direto no peito. Luz âmbar escorre pelas mesas, refletindo em copos caros, em olhares que fingem não ver, em intenções que ninguém admite.

O cheiro é de madeira polida, perfume caro... e desejo mal escondido.

Eu conheço esse ambiente.

Eu domino esse tipo de lugar.

Ou pelo menos... sempre dominei.

Eu observo.

Não por curiosidade.

Por estratégia.

O homem no centro ri alto demais. Precisa ser visto. Precisa ser validado. À esquerda, um casal que já desistiu um do outro, mas ainda não teve coragem de admitir. À direita, investidores tentando parecer maiores do que realmente são.

Eu poderia escolher qualquer um.

Mas não escolho.

Porque já senti.

Antes mesmo de ver.

Um silêncio diferente dentro do barulho.

Um tipo de presença que não disputa espaço... ocupa.

E quando eu levanto os olhos.

O mundo inteiro erra o ritmo.

Ele.

Encostado perto da parede de vidro, onde a cidade se derrama em luzes líquidas. Escuro. Imóvel. Alinhado demais para ser casual.

Não segura um copo.

Não fala.

Não ri.

Ele observa.

E o pior?

Por um segundo - só um - eu tenho certeza de que ele já estava me olhando antes mesmo de eu chegar.

Meu estômago contrai.

- Não pode ser...

Eu não devia sentir isso.

Não de novo.

Não depois de tudo.

Sustento o olhar.

Não desvio.

Nunca desvio.

Mas algo ali muda.

O tempo desacelera, como se o ar entre nós tivesse ficado mais denso. A música perde definição. As vozes viram ruído distante.

Fica só o olhar.

Direto.

Fixo.

Sem pressa.

Perigoso.

E familiar demais.

Meu corpo reage antes da minha cabeça.

Calor.

Tensão.

Memória.

- Ele ainda me afeta.

Não.

Não pode ser ele.

Mas o jeito que ele olha-

Como se já me conhecesse.

Como se já tivesse me visto quebrar.

Como se soubesse exatamente onde tocar... mesmo sem tocar.

Eu deveria ignorar.

Virar.

Escolher alguém fácil.

Cumprir o papel.

Mas eu não me mexo.

Porque tem algo ali...

Algo errado.

Algo que não pede.

Não chama.

Mas prende.

Inclino o queixo, leve.

Um convite.

Um teste.

Venha.

Ele não vem.

Claro que não.

Homens como ele não atravessam espaços.

Eles fazem o espaço vir até eles.

Um sorriso toca o canto da minha boca.

- Arrogante...

Ou talvez...

Seguro demais.

Eu desvio primeiro.

Não como rendição.

Como estratégia.

Pego uma taça, giro o líquido devagar. Não bebo. Só sinto o frio do vidro contra os dedos, tentando ancorar o que começou a escapar dentro de mim.

Respiro.

Um.

Dois segundos.

Mas não adianta.

Porque eu sinto.

A atenção dele não vacila.

Não acompanha o resto.

Fica em mim.

Como se estivesse medindo cada gesto. Cada pausa. Cada erro.

Avaliação silenciosa.

Perigo real.

Eu caminho.

Não direto até ele.

Nunca direto.

Passo por mesas, sorrio no momento certo, deixo o corpo falar onde palavras seriam demais.

Mas nada disso é para eles.

É para ele.

E ele sabe.

Droga... ele sabe.

Quando paro no bar, sinto antes de olhar.

Ele ainda está lá.

Imóvel.

Mas não é ausência.

É controle.

Homens ausentes se escondem.

Homens como ele... esperam.

Inclino a cabeça de novo.

Mais claro.

Venha.

Ele não vem.

O ar muda.

Não é rejeição.

É escolha.

E isso-

isso mexe comigo de um jeito que eu não gosto.

Um calor sobe pela minha pele.

Lento.

Inconveniente.

Perigoso.

- Curiosidade...

Eu odeio curiosidade.

Curiosidade tira o controle.

Viro o corpo inteiro na direção dele.

Sem jogo lateral.

Sem distração.

Se ele quer assim...

Então tudo bem.

Dou um passo.

Outro.

O som do salto marca o chão.

Firme.

Ritmo constante.

Controle.

Quando estou perto-

perto demais-

eu percebo.

Os olhos dele não percorrem meu corpo.

Eles ficam.

No meu rosto.

Como se o resto não importasse.

Como se ele estivesse procurando...

alguma coisa.

E meu peito aperta.

Porque eu sinto-

ele já encontrou.

Paro.

Sem tocar.

Ainda não.

O silêncio entre nós pesa.

Cheio demais.

Vivo demais.

Inclino o rosto.

- Você costuma ignorar convites... ou só os que te interessam?

Minha voz sai estável.

Mas por dentro-

não está.

Ele não responde de imediato.

Claro que não.

Os olhos descem um segundo.

Voltam.

Precisos.

- Eu não ignoro.

Pausa.

- Eu decido quando responder.

A resposta entra devagar.

Mas o impacto-

não.

Meu coração muda o ritmo.

Droga.

Isso não estava no plano.

- E já decidiu?

Agora eu espero.

Ele inclina a cabeça.

Quase nada.

Mas cheio de intenção.

- Ainda estou avaliando.

Eu solto uma pequena risada.

Baixa.

- Então avalie rápido. Eu não costumo repetir convites.

O canto da boca dele se move.

Quase.

Não é sorriso.

Mas também não é indiferença.

- Eu percebi.

Silêncio.

Mais um.

Mais longo.

E então-

- Carolina?

A voz vem de trás.

Carina.

Claro.

Sempre no pior momento.

Sempre onde não deve.

Eu fecho os olhos por um segundo.

- Não agora...

Mas já é tarde.

Ela se aproxima, a presença carregada de perfume doce demais e intenção mal disfarçada.

O olhar dela vai direto para ele.

E muda.

Ciúme.

Reconhecimento.

- Você não faz ideia... - ela murmura, quase para mim - de com quem está falando.

Meu corpo enrijece.

- Carina, não-

Mas ela já está dentro.

- Yan não é alguém que você simplesmente... escolhe.

O nome bate.

Forte.

Yan.

Droga.

Meu peito aperta.

Porque agora faz sentido.

Agora tudo faz sentido.

E pior-

eu lembro.

Fragmentos.

Um passado que eu não queria tocar.

Um nome ligado a outro.

Ernesto.

Perigo.

Real.

Meu estômago vira.

Ele percebe.

Claro que percebe.

- Por que você voltou? - a pergunta escapa antes que eu consiga segurar.

Silêncio.

Yan não responde.

Mas o olhar-

o olhar dele muda.

Mais fundo.

Mais pesado.

Mais... consciente.

- Se você soubesse...

Ele não termina.

Mas não precisa.

Porque eu sinto.

Tudo o que ficou enterrado-

não está mais.

E o pior?

Eu ainda quero.

Droga... eu ainda quero.

Carina segura meu braço.

Forte.

- Fica longe dele.

Eu puxo.

Solto.

- Não me diz o que fazer.

Mas minha voz não sai tão firme quanto deveria.

Yan dá um passo.

Só um.

Mas o ar muda completamente.

- Tarde demais.

Ele diz baixo.

E aquilo-

aquilo não é só resposta.

É aviso.

Meu coração dispara.

Minha cabeça grita.

- Não posso me aproximar...

Mas meu corpo-

não escuta.

Porque algo já começou.

Algo que eu não controlo.

Algo que eu não deveria querer.

Mas eu quero.

E isso-

isso vai dar errado.

Muito errado.

E mesmo assim...

Eu não recuo.

Não agora.

Capítulo 2 O homem que calcula tudo

Yan

O vidro reflete a cidade como um mapa de luz; preciso, organizado e previsível.

Eu gosto de coisas previsíveis.

Pessoas não são.

Por isso, eu as observo antes de qualquer movimento.

Sempre.

A música vibra no fundo, irrelevante. Conversas cruzam o ambiente em fragmentos vazios. Risos altos demais, intenções rasas demais. Nada ali exige atenção real.

Até ela.

Carolina.

O nome ainda ecoa com uma estranha persistência; não pelo som, mas pelo que ficou depois dele.

Presença.

Não é comum.

A maioria entra em um ambiente tentando ser notada. Ajusta postura, voz, riso. Se oferece antes mesmo de ser escolhida.

Ela não.

Ela entra... e o ambiente se reorganiza ao redor.

Sem esforço.

Sem anúncio.

E isso muda a equação.

Apoio os dedos no bolso do paletó, imóvel. Não por hesitação por escolha. Movimento cedo demais revela interesse. Interesse mal posicionado cria vantagem do outro lado.

Eu não concedo vantagem.

Mas também não ignoro variáveis incomuns.

E Carolina é uma variável.

Ela se move pelo salão como se soubesse exatamente o que está fazendo - e talvez saiba. O problema não é a segurança. Eu já vi segurança antes.

O problema é o que existe por baixo dela.

Algo que não combina com o ambiente.

Algo que não tenta convencer.

Isso... prende.

Quando nossos olhares se cruzaram, não houve surpresa no dela.

Não houve ajuste.

Não houve aquela fração de segundo em que alguém decide qual versão de si vai mostrar.

Ela já estava pronta.

Ou pior:

Ela não estava tentando ser nada.

Sustentou.

Sem pressa.

Sem desvio.

Como se não houvesse risco.

Como se não houvesse nada a perder.

Isso não é comum.

E o incomum exige análise.

Quando ela veio até mim, não foi impulso. Foi decisão. Cada passo medido, cada pausa calculada. Ela sabe exatamente o efeito que causa.

Mas não usa isso como moeda fácil.

Ela usa como... linguagem.

Interessante.

Muito.

Inclino levemente a cabeça, observando o ponto onde ela desaparece entre as pessoas. Não sigo com os olhos de forma óbvia. Não é necessário.

Eu sei onde ela está.

Sinto.

O que é... inconveniente.

Exalo devagar, controlando o ritmo.

A última vez que ignorei esse tipo de sensação, custou caro.

Aprendi.

Sentimentos são ruído.

Ruído compromete decisões.

E decisões são o que constrói - ou destrói - tudo.

Um garçom passa. Recuso o copo com um gesto mínimo. Preciso da mente limpa. Sempre.

Especialmente agora.

- Você vai deixar ela ir embora?

A voz vem à direita. Eu não olho imediatamente.

Reconheço antes.

Daniel.

Sócio, amigo, ruído constante.

- Não estou impedindo - respondo, sem tirar os olhos da cidade.

Ele ri baixo.

- Não parece o seu estilo. Quando algo te interessa, você... resolve.

A palavra paira no ar.

Resolvo.

Sim.

É o que eu faço.

Transformo incerteza em estrutura.

Desejo em estratégia.

Pessoas em decisões.

Viro o rosto finalmente, encarando-o por um segundo.

- E quando algo não se encaixa?

Daniel arqueia a sobrancelha.

- Você força até encaixar.

Quase sorrio.

Quase.

- Nem tudo foi feito para ser forçado.

Ele observa meu silêncio por um segundo a mais do que deveria.

Percebe.

Claro que percebe.

- Então ela é isso? - ele pergunta, baixo - Algo que não encaixa?

Não respondo.

Porque a resposta já está em movimento dentro de mim - e eu não gosto disso.

Volto o olhar para o salão.

Encontro.

Ela.

No bar novamente. Desta vez de costas, conversando com outra mulher. O cabelo cai sobre o ombro, revelando a curva do pescoço. A luz toca a pele dela de um jeito que não deveria ser notado - mas é.

Eu registro.

Cada detalhe.

Sem intenção.

E é exatamente isso que me incomoda.

- Eu não compro isso - Daniel continua, cruzando os braços. - Você não fica parado assistindo.

Fico em silêncio.

Porque ele está certo.

Eu não assisto.

Eu conduzo.

Sempre.

Mas há algo ali que exige um movimento diferente.

Cautela não é fraqueza.

É precisão.

- Você quer ela - ele conclui, direto.

Agora eu olho para ele.

Sem pressa.

- Eu quero entender.

Ele solta um riso curto.

- Você sempre "quer entender" antes de colocar alguém sob contrato.

A palavra se encaixa com naturalidade.

Contrato.

Estrutura.

Limite.

Controle.

Sim.

É assim que funciona.

Desejo sem controle é risco.

Risco é perda.

E eu não opero com perda.

Olho novamente para Carolina.

Ela ri de algo que a amiga diz, mas o riso não dura inteiro. Há uma quebra mínima no final - uma falha quase invisível.

Ninguém ali percebe.

Eu percebo.

E isso muda tudo.

Porque significa que existe mais.

E tudo o que existe além da superfície... pode ser usado.

Ou destruir.

- Eu não compro pessoas - digo, finalmente.

Daniel solta o ar, divertido.

- Não?

Inclino levemente o queixo.

- Eu ofereço termos.

Ele ri.

- E elas aceitam.

Volto o olhar para ela.

Carolina não olha para mim agora.

Mas não se afasta completamente.

Permanece no alcance.

Como se soubesse.

Como se estivesse... esperando.

A tensão retorna, mais densa.

Mais definida.

- Essa aí não parece do tipo que aceita fácil - Daniel comenta.

Um segundo de silêncio.

Um único segundo.

- Todo mundo aceita - respondo, baixo.

Não é arrogância.

É experiência.

Pessoas têm necessidades.

Medos.

Desejos.

Basta encontrar o ponto certo.

Sempre existe um ponto.

Mas enquanto digo isso...

Algo não fecha.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, existe uma variável que não responde imediatamente ao padrão.

E isso não me irrita.

Não exatamente.

Me atrai.

O tipo de atração que não pede pressa.

Pede estratégia.

Pede aproximação calculada.

Pede... tempo.

E tempo, para mim, é investimento.

Endireito o corpo.

A decisão se forma não como impulso - mas como conclusão.

Clara.

Limpa.

Inevitável.

- Prepare o carro - digo, já ajustando o punho da camisa.

Daniel me encara.

- Indo embora?

- Não.

Lanço um último olhar para Carolina.

Ela vira levemente o rosto no mesmo instante.

Como se sentisse.

Nossos olhares se cruzam outra vez.

Mais rápido.

Mais direto.

Sem apresentação agora.

Sem teste.

Só reconhecimento.

E algo novo.

Mais denso.

Mais perigoso.

- Vou resolver - completo.

E dessa vez...

Eu me movo.

Ele não atravessa o salão de imediato.

Yan não é o tipo de homem que cruza distâncias sem transformar o caminho em decisão.

Ele para primeiro.

Observa o reflexo no vidro - não o próprio, mas o dela, recortado entre luz e movimento. Carolina inclina a cabeça enquanto escuta a amiga, mas o corpo não está ali por inteiro. Há uma tensão mínima nos ombros, um deslocamento sutil do peso de um pé para o outro.

Ela está consciente.

Do ambiente.

De si.

Dele.

Isso muda o jogo.

Yan ajusta o relógio no pulso com um gesto discreto. O metal frio contra a pele o ancora. Controle não é algo que ele perde - é algo que ele recalibra.

Sempre.

Quando dá o primeiro passo, ninguém nota.

Quando dá o segundo, alguém abre espaço sem perceber.

Quando chega perto o suficiente, o som ao redor parece ceder um pouco, como se o ambiente entendesse, instintivamente, que algo está prestes a acontecer.

Carolina sente antes de ver.

O ar muda.

É quase imperceptível - mas o suficiente.

Ela interrompe a frase no meio. A amiga ainda fala, mas Carolina já não escuta. O corpo dela responde primeiro: a respiração ajusta, o queixo sobe um milímetro, os dedos relaxam sobre o copo.

Então ela vira.

Sem surpresa.

Como se já soubesse.

Yan para a poucos passos de distância. Não invade o espaço - mas também não pede permissão.

O olhar dele encontra o dela com a mesma precisão de antes.

Mais próximo agora.

Mais nítido.

Mais... inevitável.

- Você demorou - ela diz, leve, mas não casual.

Ele inclina minimamente a cabeça.

- Eu não trabalho com pressa.

Os olhos dela percorrem o rosto dele por um segundo. Desta vez, sem pressa também. Como se estivesse ajustando uma leitura anterior.

- Não parece o tipo que perde tempo.

- Eu invisto tempo onde faz sentido.

A resposta vem fácil demais.

Isso incomoda.

Não nela.

Nele.

Carolina gira o corpo por completo na direção dele agora. A amiga ao lado percebe o deslocamento e se afasta com um comentário qualquer - quase uma retirada estratégica.

Eles ficam.

Finalmente.

Sem interferência.

O espaço entre os dois é pequeno o suficiente para ser sentido.

Grande o suficiente para não ser ultrapassado.

Ainda.

- E eu faço sentido? - ela pergunta.

Não é flerte simples.

É teste.

Yan sustenta o olhar. Não responde de imediato. Deixa o silêncio crescer o suficiente para se tornar parte da resposta.

- Você é... inconsistente.

Um leve arquear de sobrancelha.

- Isso é um problema?

- É um risco.

Ela sorri.

Mas não é leve.

- E você evita riscos?

- Eu controlo riscos.

Carolina dá um passo mais perto.

Agora, o espaço muda de natureza.

Não é mais distância.

É tensão.

- E quando não dá pra controlar?

A pergunta fica entre eles.

Viva.

Yan observa o movimento dela. A coragem disfarçada de leveza. O desafio escondido na pergunta.

E pela primeira vez naquela noite, ele considera uma resposta que não é estratégica.

Considera... honestidade.

Por um segundo.

Só um.

- Eu crio uma estrutura.

Ela inclina levemente a cabeça.

- Uma estrutura?

- Termos claros. Expectativas definidas. Sem margem para erro.

Carolina solta um pequeno riso.

Baixo.

Quase um sopro.

- Você transforma tudo em negociação.

- Eu elimino ambiguidade.

Ela o encara mais fundo agora.

Como se estivesse procurando algo além das palavras.

- E se eu disser que não gosto de regras?

Yan não recua.

Mas algo nele se ajusta.

- Todo mundo gosta... quando as regras são favoráveis.

Silêncio.

Um segundo mais longo.

A música volta a existir ao redor, mas distante. Irrelevante.

Carolina passa o polegar pela borda do copo, distraída - ou fingindo distração.

- E quais seriam essas regras... pra mim?

Ali está.

O ponto.

Yan reconhece no instante em que surge.

Não é aceitação.

É curiosidade.

E curiosidade... abre portas.

Ele dá meio passo à frente.

Não suficiente para tocar.

Mas suficiente para mudar a temperatura entre eles.

- Ainda estou definindo.

Os olhos dela descem por um segundo - rápido - até a boca dele. Sobem de volta.

Erro.

Ou escolha.

Difícil dizer.

- Então defina rápido - ela murmura.

A voz mais baixa agora.

Mais próxima.

Mais perigosa.

Yan sustenta.

E decide.

- Jantar comigo amanhã.

Não é convite.

É início.

Carolina não responde de imediato.

Claro que não.

Ela sustenta o olhar, como fez desde o início.

Mas há algo novo ali.

Algo mais profundo.

Mais arriscado.

- Isso faz parte da sua... estrutura?

- Isso é a avaliação.

Um silêncio.

Mais um.

E então-

- Tudo bem.

Simples.

Direto.

Mas o efeito...

Não é simples.

Yan observa o microsegundo depois da resposta.

O ponto exato onde ela poderia recuar.

Mas não recua.

Permanece.

E isso confirma.

Não é sobre o jogo.

Nunca foi.

Ele inclina levemente a cabeça.

- Eu te busco.

Ela sorri de canto.

- Eu não costumo ser buscada.

- Eu não costumo repetir convites.

Um eco.

Uma devolução.

Um reconhecimento.

Carolina sustenta mais um segundo.

E então vira novamente.

Mas desta vez...

Não é estratégia.

É escolha.

Yan permanece onde está.

Observando.

Registrando.

Mas algo já saiu do lugar.

Não é mais apenas análise.

Não é apenas controle.

É interesse.

Real.

E isso...

É sempre o início do problema.

Capítulo 3 Proposta indecente

Yan

A cidade pulsa abaixo de mim como algo vivo.

Luzes acesas em milhares de janelas que escondem versões editadas da verdade. Pessoas fingindo controle, fingindo estabilidade, fingindo que não estão a um erro de distância de perder tudo.

Eu não finjo.

Eu construo.

E controlo.

Ou pelo menos... sempre controlei.

A taça de uísque permanece intacta na minha mão. Não bebo. Não hoje. Preciso da mente limpa, porque há algo acontecendo que não encaixa no padrão - e tudo o que não encaixa exige precisão.

Ela.

Carolina.

O nome ecoa de novo, irritantemente presente.

Não pelo som.

Pelo efeito.

Encosto o copo no aparador de vidro sem fazer barulho. O escritório inteiro está mergulhado em uma luz baixa, elegante, calculada para não distrair. Tudo ali foi pensado para eficiência. Nada é excessivo.

Diferente dela.

Ela é excesso disfarçado de controle.

E isso... me interessa mais do que deveria.

Olho o relógio.

Pontualidade sempre foi um filtro eficiente.

Quem chega antes, quer demais.

Quem chega atrasado, testa limites.

Ela chega no segundo exato.

Nem um antes.

Nem um depois.

Claro.

Solto um ar lento pelo nariz quando a porta se abre sem hesitação. Não há anúncio, não há recepção, não há necessidade.

Ela entra como se já conhecesse o espaço.

Como se já tivesse estado ali antes.

Como se não estivesse pisando em território meu.

Isso é novo.

E eu não gosto de novidade quando ela vem carregada de imprevisibilidade.

Mas não tiro os olhos dela.

Nem por um segundo.

O salto dela não faz barulho no chão - ou talvez eu esteja atento demais ao resto. O vestido é simples, o suficiente para não competir com a presença. E ainda assim... tudo nela chama atenção.

Não pelo óbvio.

Pelo controle.

Ela para a alguns passos da mesa.

Não senta.

Não pergunta.

Só me olha.

Direto.

Sem filtro.

- Você sempre recebe assim... - ela diz, a voz baixa, arrastando leve ironia - ou eu ganhei tratamento especial?

Cruzo os braços lentamente.

- Eu adapto o ambiente à pessoa.

Ela inclina a cabeça.

Analisa.

Como se estivesse desmontando cada camada do que eu disse.

- E eu... exijo adaptação?

Dou um passo à frente.

Não para diminuir a distância.

Para medir a reação.

Ela não recua.

Claro que não.

- Você exige... definição.

Os olhos dela brilham por um segundo.

Rápido.

Perigoso.

- Então define.

Direta.

Sem rodeios.

Eu gosto disso.

Mas também sei o que isso significa.

Ela não está aqui por curiosidade.

Está aqui por escolha.

E escolha... tem consequência.

Passo pela lateral da mesa e paro mais próximo agora. O espaço entre nós é calculado. Próximo o suficiente para ser sentido.

Distante o suficiente para ainda ser controlado.

- Eu não trabalho com ambiguidades, Carolina.

Digo o nome dela devagar.

Testando.

Observando.

A respiração dela muda.

Quase nada.

Mas eu vejo.

- Eu percebi - ela responde, seca. - Você prefere transformar tudo em algo... mensurável.

- Mensurável é previsível.

- E previsível é seguro?

Inclino levemente o rosto.

- Seguro é eficiente.

Ela solta um riso baixo.

Sem humor.

- Parece entediante.

Dou mais meio passo.

Agora estamos próximos o suficiente para sentir o calor da pele.

- Entediante é não saber o que esperar.

O olhar dela desce por um segundo.

Minha boca.

Volta.

Erro.

Ou escolha.

Ainda não sei.

- E você acha que pode prever tudo?

- Eu reduzo margem de erro.

Silêncio.

O tipo de silêncio que não é ausência de som.

É excesso de intenção.

Ela cruza os braços lentamente.

Mas não como defesa.

Como desafio.

- Então reduz.

A provocação vem limpa.

Sem disfarce.

Ela está pedindo.

Mas não do jeito que parece.

Eu reconheço isso.

E é exatamente por isso que a resposta precisa ser precisa.

- Eu quero um acordo.

Os olhos dela não piscam.

Não há surpresa.

Só... foco.

- Que tipo de acordo?

- Direto.

Claro.

- Você e eu. Por tempo determinado.

A pausa que vem depois não é dúvida.

É processamento.

Ela não reage como a maioria reagiria.

Não há choque.

Não há recuo imediato.

Há... silêncio.

E isso me diz mais do que qualquer palavra.

- Continue - ela diz.

A voz mais baixa agora.

Mais densa.

Eu sustento o olhar.

- Exclusividade.

- Controle de agenda.

- Presença quando eu determinar.

Cada palavra cai no espaço entre nós como algo físico.

Pesado.

Real.

Ela não desvia.

Mas a respiração muda.

Mais profunda.

Mais lenta.

- E em troca?

Claro.

Sempre existe essa pergunta.

Eu me aproximo mais um passo.

Agora não há espaço neutro.

Só tensão.

- Você recebe tudo o que precisar.

Ela arqueia a sobrancelha.

- Dinheiro?

- Não só.

Inclino levemente a cabeça.

- Conforto. Segurança. Acesso.

O olhar dela endurece por um segundo.

Ali.

Um ponto.

Interessante.

- Você acha que isso compra alguém?

A pergunta não vem indignada.

Vem... afiada.

Como uma lâmina.

Eu não recuo.

- Compra disponibilidade.

Ela solta o ar devagar.

Um sorriso sem humor toca o canto da boca.

- E você acha que eu estou disponível?

- Você está aqui.

Direto.

Sem suavizar.

O silêncio que se segue... muda.

Agora não é só tensão.

É confronto.

Ela dá um passo à frente.

Invade o espaço.

O corpo dela próximo o suficiente para que eu sinta o perfume - leve, quente, perigoso.

- E se eu disser que não estou à venda?

A voz baixa.

Próxima.

Quase um desafio contra a pele.

Meu maxilar tensiona.

Levemente.

Mas eu não desvio.

- Todo mundo tem um preço.

Erro.

Eu vejo no instante em que digo.

Porque algo no olhar dela... muda.

Não quebra.

Mas endurece.

Como se eu tivesse tocado em algo que não deveria.

E ainda assim-

Ela não se afasta.

Pelo contrário.

Fica mais perto.

- Você não sabe nada sobre mim.

As palavras são calmas.

Mas carregadas.

- Eu sei o suficiente.

- Não sabe.

Um segundo.

Mais um.

O ar entre nós pesa.

Mas não afasta.

Atrai.

Ela inclina o rosto levemente.

Mais perto.

Mais perigoso.

- E se eu aceitar...

A pausa é mínima.

Mas intencional.

- Não vai ser pelo seu dinheiro.

O impacto da frase é silencioso.

Mas real.

Algo desloca.

Dentro de mim.

Pequeno.

Mas suficiente.

- Então por quê?

A pergunta sai mais baixa do que eu esperava.

Ela sustenta o olhar.

E dessa vez...

Não há ironia.

Não há jogo.

Só verdade.

- Porque eu quero você.

Simples.

Direto.

Perigoso.

E completamente errado dentro da lógica que eu conheço.

Meu corpo reage antes da minha mente.

Calor.

Tensão.

Algo mais bruto.

Eu dou meio passo à frente.

Fechando o espaço.

Agora não há distância.

Só um limite invisível que ainda não foi cruzado.

- Desejo não sustenta acordo.

- Sustenta mais do que interesse.

A resposta vem imediata.

Sem hesitação.

Ela está dentro disso.

E isso...

Complica.

Muito.

Inclino o rosto, próximo o suficiente para que nossas respirações se misturem.

- Desejo passa.

Ela não recua.

Não um milímetro.

- Então aproveita enquanto não passa.

Silêncio.

Denso.

Perigoso.

Errado.

Eu deveria encerrar aqui.

Redefinir.

Reestruturar.

Mas não faço.

Porque pela primeira vez em muito tempo...

Eu não quero eficiência.

Eu quero...

Ela.

Seguro o queixo dela com dois dedos.

Leve.

Sem força.

Mas firme o suficiente para impedir fuga.

Ela não tenta sair.

Claro que não.

Os olhos dela descem para minha boca.

Voltam.

- Você não faz ideia do que está aceitando - eu digo, baixo.

- E você não faz ideia do que está oferecendo.

O ar entre nós vibra.

Carregado.

Instável.

Eu solto o queixo dela devagar.

Não por controle.

Mas porque se eu não fizer...

Eu cruzo um limite que ainda não deveria existir.

Ainda não.

Dou um passo para trás.

Recomponho.

- Eu envio os termos.

Frio.

Estruturado.

Seguro.

Mas por dentro-

Nada está no lugar.

Ela me observa.

Longo.

Profundo.

Como se estivesse vendo além da superfície que eu reconstruí em segundos.

- Eu aceito.

A resposta vem antes mesmo de eu terminar de me afastar.

Rápida demais.

Certa demais.

Errada demais.

- Sem ler?

Ela dá um pequeno sorriso.

Dessa vez... verdadeiro.

Mas perigoso.

- Eu já sei qual é o risco.

Inclino a cabeça.

- E aceita mesmo assim?

Ela sustenta.

Até o fim.

- Eu não tenho medo de você.

Mentira.

Eu vejo.

Mas não corrijo.

Porque, pela primeira vez...

Eu também não tenho certeza se deveria.

Ela vira.

Sem pressa.

Sem hesitação.

E caminha até a porta como se não tivesse acabado de atravessar uma linha que não tem volta.

Quando a porta se fecha-

O silêncio no escritório muda.

Não é mais controle.

É tensão acumulada.

Viva.

Ativa.

Perigosa.

Olho para o lugar onde ela estava segundos atrás.

E a verdade se instala, clara e incômoda:

Isso não é um acordo.

É um erro.

E eu acabei de escolher cometer.

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