A música eletrônica latejava, mas o barulho na minha cabeça era ensurdecedor.
Sofia, minha namorada, o centro do meu universo e razão do meu sacrifício, ria abertamente nos braços do ex-namorado, Marcelo, um empresário famoso.
A mão dele na cintura dela parecia um soco no meu estômago.
Eu, Tiago, estava ali, sozinho, vendo os olhares maliciosos e os sussurros. A humilhação aquecia meu pescoço, mas Sofia apenas se inclinava mais em Marcelo, um desafio silencioso em seus olhos.
"Relaxa, Tiago. Ela só está fazendo networking," disse um colega, mas minha calma era uma mentira que eu contava há anos, exausto de trabalhar como louco para sustentar o sonho dela e, principalmente, os tratamentos caríssimos de Lucas, meu irmão com uma condição rara.
Ela sabia que cada luxo dela era dinheiro que podia ir para a saúde do meu irmão, e mesmo assim, não parava de pedir.
Eu era o pilar. O provedor. O idiota.
Sofia se aproximou, o rosto irritado. "O que foi essa sua cara? Tá todo mundo olhando pra gente."
"Para você, Sofia. Estão olhando para você," eu disse, com uma calma assustadora.
"Você está com ciúmes? De novo? Você não me apoia, Tiago. Nunca apoiou de verdade." Era a mesma chantagem, a culpa sempre minha.
Minha paciência se esgotou.
Naquele momento, algo dentro de mim, pela primeira vez, começou a mudar.
A música eletrônica pulsava, vibrando no meu peito, mas o barulho dentro da minha cabeça era muito maior. Estávamos em um dos eventos de lançamento mais badalados de São Paulo, o tipo de lugar que Sofia, minha namorada, sempre sonhou em frequentar. E ela estava lá, no centro de tudo, como sempre.
Só que não estava comigo.
Estava ao lado de Marcelo, um empresário famoso do setor de tecnologia, o tipo de cara que exala poder e dinheiro. Ele também era ex-namorado dela. A mão dele estava na cintura de Sofia, um pouco baixa demais, e os dois riam de algo que ele sussurrava no ouvido dela. As luzes coloridas do evento batiam no rosto dela, fazendo-a parecer uma estrela.
Um pequeno grupo de pessoas já tinha notado. Eu via os olhares, os sorrisos maliciosos, os sussurros. Eles olhavam para o casal brilhante e depois para mim, parado sozinho perto do bar com um copo de água na mão. A humilhação era uma sensação física, um calor que subia pelo meu pescoço.
Sofia me viu olhando. Em vez de se afastar, ela se inclinou ainda mais em Marcelo, um desafio silencioso nos olhos.
Um colega de agência deu um tapinha no meu ombro.
"Relaxa, Tiago. Ela só está fazendo networking."
Eu forcei um sorriso.
"Claro. Networking é fundamental."
Minha voz saiu estranhamente calma, quase divertida. O colega ficou sem saber o que dizer e se afastou. A minha calma era uma mentira, mas uma mentira que eu contava para mim mesmo há anos. A verdade era que eu estava exausto.
Eu trabalhava como um louco na agência de marketing digital, não por ambição própria, mas para sustentar o sonho dela de ser uma influenciadora digital famosa e, mais importante, para pagar os tratamentos caríssimos de Lucas, meu irmão mais novo. Ele tinha uma condição de saúde rara, e cada centavo contava.
Sofia sabia disso. Ela sabia que cada vestido novo, cada jantar em restaurante caro, cada equipamento que eu comprava para ela gravar seus vídeos era um dinheiro que podia ir para o bem-estar do meu irmão. E mesmo assim, ela nunca parava de pedir.
Eu era o pilar. O provedor. O idiota.
Ela finalmente se afastou de Marcelo e veio na minha direção, o rosto perfeito contorcido em uma expressão de irritação.
"O que foi essa sua cara? Tá todo mundo olhando pra gente."
"Para você, Sofia. Estão olhando para você," eu disse, ainda com aquela calma assustadora.
"Você está com ciúmes? De novo? Eu não posso nem conversar com uma pessoa importante para a minha carreira que você já faz esse show? Você não me apoia, Tiago. Nunca apoiou de verdade."
Era a mesma conversa de sempre. A mesma chantagem emocional. A culpa era sempre minha. Meu ciúme, minha falta de apoio, minha negatividade.
"Eu vou embora," eu disse, simplesmente querendo fugir daquela situação.
"Ah, claro! Vai embora e me deixa aqui sozinha! Estraga a minha noite, estraga a minha oportunidade! Você é um estraga-prazeres, Tiago! Sempre foi!"
A voz dela era alta o suficiente para que as pessoas mais próximas ouvissem. Mais olhares na minha direção. Eu me senti encurralado. Ir embora seria uma cena. Ficar seria uma tortura.
Naquele momento, eu escolhi a tortura. Mas algo dentro de mim, pela primeira vez, começou a mudar.
Eu não fui embora. Em vez disso, dei as costas para Sofia e caminhei para o outro lado do salão. Peguei meu celular e comecei a responder e-mails de trabalho, a entrar em contato com clientes em potencial que estavam no evento. Se eu estava preso ali, pelo menos faria ser produtivo para a agência e, consequentemente, para o tratamento de Lucas.
Eu agia como se Sofia não existisse. Mantive meu foco, cumprimentei pessoas, troquei cartões. Eu me forcei a entrar no meu modo profissional, uma armadura contra o caos emocional que ela criava.
A distância, eu a vi notar minha indiferença. A testa dela se franziu. Não era essa a reação que ela esperava. Ela prosperava com o meu ciúme, com a minha angústia. Minha calma a desestabilizava.
Então, ela dobrou a aposta.
Sofia e Marcelo desapareceram em uma área VIP, separada do resto do salão por cortinas de veludo. A cortina não se fechou completamente, uma fresta deliberada para que todos vissem. Os sussurros aumentaram. Agora, as pessoas não disfarçavam mais. Riam abertamente, apontando com a cabeça na minha direção.
Um grupo de influencers, amigos de Sofia, passou por mim. Um deles, um cara com cabelo descolorido e roupas de grife, disse em voz alta:
"Tem gente que gosta de ser trouxa, né?"
Antes, eu teria baixado a cabeça. Teria fingido não ouvir. Mas não hoje.
Eu me virei para ele, meus olhos fixos nos dele.
"O que você disse?"
Minha voz era baixa, mas cortou o barulho da festa. O grupo parou. O cara ficou pálido.
"Eu... não disse nada."
"Foi o que eu pensei," eu respondi, e voltei a olhar para o meu celular.
Aquele pequeno ato de resistência me deu uma onda de força que eu não sentia há muito tempo.
Pouco depois, Marcelo saiu da área VIP, sozinho, com um sorriso presunçoso no rosto. Ele veio direto até mim.
"Sua namorada é... impressionante," ele disse, o tom cheio de provocação.
Eu levantei os olhos do celular, dei um gole na minha água e o encarei.
"Ela é, não é? Espero que vocês se divirtam."
A expressão dele vacilou. Ele esperava raiva, um confronto. Não essa tranquilidade quase entediada. Ele ficou sem palavras por um segundo.
"Você não se importa?" ele perguntou, genuinamente confuso.
"Marcelo, eu tenho uma campanha para entregar na segunda-feira e um irmão que depende de mim. Acredite, o que você e a Sofia fazem ou deixam de fazer não está nem no meu top 5 de preocupações agora," eu disse, e voltei minha atenção para o celular, dispensando-o completamente.
Ele ficou parado ali por um momento, derrotado, e depois se afastou. Naquele instante, eu percebi uma verdade libertadora: o meu trabalho, a minha responsabilidade com Lucas, isso era real. Isso tinha valor. O drama de Sofia era apenas ruído.
Claro que o ruído não demorou a voltar. Sofia saiu da área VIP, furiosa, marchando na minha direção.
"O que você pensa que está fazendo? Ignorando-me a noite toda! Eu te vi conversando com a Camila! Está flertando com sua colega de trabalho na minha frente?"
A acusação era tão absurda que eu quase ri. Camila, minha colega, tinha vindo me oferecer apoio, preocupada com a situação. Mas na mente de Sofia, tudo girava em torno dela. Se eu não estava sofrendo por ela, só podia estar a traindo. O controle dela sobre mim estava escorregando, e o pânico estava começando a aparecer.