Eu, uma órfã adotada pela rica família Arruda, passei a vida a sacrificar-me, tentando agradar o meu noivo, Leonardo.
Em vez de ser a noiva amada, o meu trabalho árduo, a minha bolsa de investigação na Europa, o meu futuro, foram entregues a Beatriz, a suposta "filha biológica perdida" da família.
Com a cumplicidade de Leonardo, fui humilhada publicamente, acusada de plágio e expulsa da universidade.
A minha vida desmoronou à medida que eles me derrubaram, até ao ponto de ser espancada e quase desistir.
Quase desisti, deitada num chão frio após a última agressão, sentindo que tinha perdido absolutamente tudo.
Mas porquê? O que tinha eu feito para merecer tanto desprezo e crueldade de quem jurei amar?
Essa era a questão que me assombrava.
Foi então que uma chamada arruinou os meus planos de auto-destruição.
Um investigador, que eu tinha contratado em segredo, mudou a minha vida para sempre.
Ele revelou uma verdade chocante: eu sou Sofia Ferreira, filha biológica de um império petrolífero angolano.
A órfã humilhada erguer-se-á.
A família Arruda pensou que me tinha destruído?
Eles apenas me deram a chama para a minha vingança.
Eles vão pagar por cada lágrima.
Sofia estava na sala de estudos da mansão Arruda, a chuva batia forte na janela.
Ela segurava a carta de aceitação da bolsa de investigação na Europa, o papel tremia em suas mãos.
Leonardo Arruda, seu noivo, entrou na sala, o cheiro de café forte vindo com ele.
"Sofia, precisamos conversar."
A voz dele era fria, como sempre.
Sofia levantou os olhos, o coração já afundando. Ela conhecia aquele tom.
"Sobre a bolsa?" ela perguntou, a voz um fio.
Leonardo não a olhou diretamente, seus olhos percorreram os livros nas prateleiras.
"Sim. Beatriz demonstrou interesse em energias renováveis. Ela quer a bolsa."
Beatriz. A suposta filha biológica dos Arruda, aparecida há poucos meses, virando a vida de Sofia de cabeça para baixo.
Sofia sentiu o ar faltar. "Mas... esta bolsa é minha. Eu trabalhei anos por ela."
"Beatriz é uma Arruda de sangue. Ela tem prioridade. Você entende, não é?"
A Sra. Arruda, mãe de Leonardo, entrou na sala, seu rosto uma máscara de falsa simpatia.
"Sofia, querida, pense nisso como um sacrifício pela família. Beatriz precisa desta oportunidade para se integrar, para mostrar seu valor."
Sacrifício. A palavra ecoou na mente de Sofia. Sua vida inteira parecia um sacrifício para os Arruda.
"Mas e meus estudos? Meu futuro?"
Leonardo finalmente a olhou, um brilho de impaciência nos olhos.
"Você pode continuar pesquisando aqui. Temos recursos. Não seja egoísta, Sofia."
Egoísta. Ela, que dedicara cada minuto de sua existência a agradá-los, a amar Leonardo em silêncio por mais de uma década.
Sofia engoliu em seco, as lágrimas ameaçando transbordar.
"Tudo bem," ela sussurrou. "Se é o que vocês querem."
Leonardo sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos.
"Ótimo. Sabia que você entenderia. Agora, preciso ir. Beatriz quer ajuda para escolher um vestido para o evento da universidade."
Ele se virou para sair, mas parou na porta.
"Ah, Sofia, preparei algo para você. Para compensar."
Ele tirou do bolso uma pequena caixa de veludo. Dentro, um delicado colar de pérolas.
"São lindas, não são? Beatriz adorou quando as viu na joalheria. Achei que você também gostaria."
O colar era idêntico ao que Beatriz usava no dia anterior.
O coração de Sofia se partiu em mais um pedaço. Ele nem sequer se lembrava dos gostos dela.
A chuva lá fora pareceu aumentar, espelhando a tempestade em seu peito.
Ela olhou para o colar, depois para as costas de Leonardo enquanto ele se afastava.
O frio que sentia não vinha da chuva, mas da constatação gelada de que, para Leonardo, ela nunca seria mais do que uma peça conveniente, facilmente substituível.
Sofia era órfã. Os Arruda a adotaram ainda criança, um gesto de aparente caridade que escondia um antigo acordo familiar. Ela estava prometida a Leonardo, o herdeiro, para cumprir um pacto que originalmente envolvia a filha biológica desaparecida deles.
Leonardo fora sua única luz naquela casa fria e opressora, o objeto de um amor infantil que se transformara em uma devoção adulta, profunda e não correspondida.
Por anos, ela suportou a negligência e os abusos emocionais velados, a crueldade disfarçada de disciplina, tudo em nome desse amor.
Então, Beatriz apareceu. Alegando ser a filha perdida, ela rapidamente conquistou o coração dos Arruda e, mais dolorosamente, o de Leonardo.
A vida de Sofia, que já era difícil, tornou-se um inferno.
Naquela noite, Sofia trabalhou até tarde no laboratório da universidade, tentando esquecer a dor da bolsa perdida.
Voltou para casa exausta, o corpo começando a dar sinais de febre.
Leonardo não estava. Um bilhete na geladeira dizia: "Beatriz precisou de mim. Não me espere."
A febre aumentou durante a noite. Sofia tremia, sozinha em seu quarto, o vazio ao seu lado na cama maior do que nunca.
Ela ligou para Leonardo várias vezes. Caixa postal.
O descaso dele era um golpe físico.
Com as últimas forças, Sofia pegou o celular novamente.
Não ligou para Leonardo.
Discou o número de um investigador particular que havia contratado meses antes, em um raro momento de rebeldia silenciosa.
Ele havia encontrado seus pais biológicos. Em Angola. Donos de um império empresarial.
"Alo?" A voz sonolenta do investigador atendeu.
"Sou eu, Sofia. Preciso dos detalhes. Agora."
Ela desligou, o corpo ardendo em febre, mas uma nova e frágil chama de determinação acendendo em sua alma.
Angola. Um novo começo. Longe dos Arruda. Longe de Leonardo.
No dia seguinte, a febre de Sofia piorou.
Ela se arrastou até o hospital universitário, buscando tratamento para a infecção que se instalava.
Enquanto esperava, viu uma cena que a fez congelar.
Leonardo estava ali, ao lado de um leito.
Em cima dele, Beatriz, com um ar falsamente frágil.
Ele ajeitava seus travesseiros com um cuidado exagerado, oferecia-lhe água, afagava seus cabelos.
"Você está bem, meu amor? Precisa de mais alguma coisa?" a voz dele era pura devoção.
Beatriz sorriu docemente. "Só um pouco de dor de cabeça, Leo. Mas você aqui já me faz sentir melhor."
Sofia sentiu uma pontada aguda no peito. Aquele carinho, aquela preocupação, ela nunca os recebera.
Leonardo a viu. Seu rosto se fechou.
Ele se aproximou dela, a voz baixa e ríspida.
"O que você está fazendo aqui?"
"Estou doente, Leonardo. Com febre alta."
Ele a olhou de cima a baixo, com desdém.
"Não exagere, Sofia. Beatriz está realmente mal. Você não tem o direito de se importar com minhas ações agora."
Sofia recuou, as palavras dele como bofetadas.
Naquele momento, Filipe, o irmão mais velho de Leonardo, chegou.
Ele viu a cena, o rosto se contorcendo em desprezo ao ver Sofia.
"O que essa aí está fazendo perto da Beatriz? Veio atormentá-la de novo?"
Sofia tentou se defender. "Eu só vim ao médico, Filipe."
"Médico? Ou veio espionar e causar mais problemas? Não basta ter tentado roubar a bolsa da Beatriz?"
A acusação era infundada, mas Filipe não se importava com a verdade.
Para os Arruda, Sofia era sempre a culpada.
Filipe agarrou o braço de Sofia com força.
"Você tem inveja da Beatriz, não é? Inveja porque ela é a verdadeira filha, porque o Leonardo a ama!"
As palavras dele eram cruéis, a humilhação pública.
Sofia tentou se soltar. "Isso não é verdade! Eu sou noiva do Leonardo, eu..."
Filipe riu, um som áspero e desdenhoso.
"Noiva? Você acha mesmo que esse noivado significa alguma coisa agora que a Beatriz voltou? Você é só uma peça de reposição, Sofia. Sempre foi."
A revelação, dita com tanta brutalidade, atingiu Sofia em cheio.
Manter as aparências. A reputação da família. Era só para isso que ela servia.
O aperto de Filipe se intensificou, e ele a empurrou.
Sofia cambaleou, a cabeça latejando, a febre consumindo suas forças.
Ela caiu, o mundo girando, a escuridão a engolindo.
O último som que ouviu foi a risada de Filipe e a voz preocupada de Leonardo, mas não para ela.
"Beatriz, você está bem? Não se preocupe com ela."