Fui diagnosticada com uma doença terminal, com apenas três meses de vida. No mesmo dia, descobri que meu marido, Fabrício, estava me traindo com seu primeiro amor, Pâmela.
Ela me enviou uma foto dos dois juntos, com a legenda: "Para algumas, o passado volta para ficar. Para outras, o futuro nunca chega."
Eu o salvei de um sequestro, lutei por ele e, para protegê-lo, recebi o golpe que me deixou com uma doença cardíaca incurável. Ele me prometeu amor eterno, mas pelas costas, ria de mim com seus sócios, me chamando de "um peso" e "frágil demais".
Pâmela ficou grávida. Para "salvar" o filho deles, Fabrício me implorou para que eu entregasse a ela a "Coração do Oceano", a pulseira mágica que me mantinha viva.
Eu entreguei.
Ele me observou morrer, e depois, em sua loucura, sacrificou a própria alma e poder em um ritual proibido para me ressuscitar.
Mas, ao abrir os olhos novamente, a mulher que ele amava havia desaparecido para sempre. Em seu lugar, renasceu uma rainha, com todo o poder que ele perdeu. E minha vingança estava apenas começando.
Capítulo 1
Íris Lisboa POV:
Minha morte foi anunciada como uma sentença, não como um diagnóstico. Três meses.
As palavras do Dr. Almeida ecoaram na sala fria, cada sílaba martelando a última esperança que eu secretamente guardava. "Íris, sinto muito. A condição do seu coração... é terminal."
Minha garganta apertou, mas nenhuma lágrima caiu. Eu já tinha derramado todas elas ao longo do último ano, quando cada tratamento falhava, quando cada promessa de melhora se desfazia no ar.
Cinco anos atrás, em um borrão de metal retorcido e dor lancinante, eu o salvei. Fabrício.
Joguei meu corpo na frente do dele, absorvendo o impacto que deveria ter sido o fim. Aquele acidente de carro não foi apenas um evento; foi a forja onde nosso destino se encontrou, e o meu, selado.
A lesão cardíaca, inicialmente um murmúrio distante, tornou-se um grito ensurdecedor. Nos últimos doze meses, ela havia me consumido, a cada batida errática do meu coração roubando um pedaço da minha vida.
Levantei-me da cadeira, o chão parecendo girar levemente sob meus pés frágeis.
"Íris, você precisa descansar," o Dr. Almeida disse, a voz embargada.
Eu apenas balancei a cabeça, pegando minha bolsa. Ao sair do consultório, meu polegar automaticamente deslizou sobre a tela do meu celular. A foto de Fabrício e eu, sorrindo em um dia ensolarado, preencheu a tela. Seu braço forte em volta da minha cintura, nossos olhos brilhando. Uma memória que agora parecia pertencer a outra vida.
O cheiro reconfortante de baunilha e chocolate me abraçou quando entrei na minha cozinha. A bancada de mármore brilhava sob a luz suave. Era o nosso quinto aniversário do acidente, o dia que Fabrício sempre disse que nos uniu de verdade.
Decidi fazer o jantar mais especial de todos os tempos.
Cada prato era um fragmento da nossa história. O risoto de cogumelos, o primeiro que ele me ensinou a fazer. O salmão assado com aspargos, o que comemos no nosso primeiro Natal juntos. E, claro, a torta de limão, a sobremesa que o fez se apaixonar pelo meu talento de confeiteira.
Enquanto arrumava os talheres na mesa de jantar, minhas mãos tremeram. A faca de manteiga quase caiu. Olhei para a caixa de veludo na gaveta - o Coração do Oceano, a pulseira de Fabrício que me mantinha viva, uma joia com tecnologia médica que pulsava um brilho azul suave.
Será que eu deveria contar a ele? Um nó se formou na minha garganta.
Meu celular vibrou, tirando-me dos meus pensamentos. Era uma mensagem. Não de Fabrício, mas de Pâmela Nóbrega. Uma foto de Pâmela, radiante, ao lado de Fabrício em um evento. A legenda: "Para algumas, o passado volta para ficar. Para outras, o futuro nunca chega."
Pâmela. O primeiro amor de Fabrício, a "princesa" de uma família rival no mundo da tecnologia. Ela havia desprezado Fabrício quando ele era um mero "lobo faminto", sem nada além de ambição e um plano. Ela o abandonou quando a vida dele era mais difícil.
Mas eu não.
Eu o encontrei preso, acorrentado, a mercê de seus inimigos. Sozinha, sem pensar nas consequências, eu me infiltrei, lutei e o libertei. Naquela noite, sob a chuva e a escuridão, eu o protegi com meu próprio corpo de um golpe fatal, o mesmo golpe que me deixou com uma cicatriz no coração.
Ele se tornou um líder, o Fabrício Gonçalves que todos conheciam agora. E eu, sua companheira, sua rainha. Ele me prometeu amor eterno, lealdade inabalável. "Você é minha única, Íris," ele sussurrou uma vez, as mãos em meu rosto. "Minha vida, minha alma."
A raiva borbulhou dentro de mim, uma onda quente que me tirou o fôlego. Apertei meu punho com tanta força que senti minhas unhas perfurarem a palma da minha mão. Gotas de sangue escorreram entre meus dedos.
Peguei o celular e liguei para Fabrício.
"Íris? Aconteceu alguma coisa?", a voz dele soou distante, apressada. Eu podia ouvir um burburinho ao fundo, e o riso de uma mulher, cristalino e familiar. Pâmela.
"Fabrício, é o nosso aniversário", minha voz saiu mais fria do que eu esperava.
"Ah, Íris... sim, eu sei! Mas estou em uma reunião importante. Coisas de negócios, você sabe." Ele parecia distraído. "Não vou conseguir chegar em casa a tempo. Me desculpe. Mas eu compensarei, prometo."
A linha ficou muda. Eu desliguei.
A mesa de jantar, meticulosamente arrumada, parecia zombar da minha solidão. O risoto esfriou, o salmão endureceu, a torta de limão permaneceu intocada. O sonho de um jantar íntimo se desfez como castelo de areia.
Na tela da televisão, que eu havia ligado distraidamente, passava uma retrospectiva. Era a cena do nosso noivado de cinco anos atrás, ele se ajoelhando sob um céu estrelado. "Íris, você me salvou," ele disse na tela. "Seja minha para sempre."
Meus olhos caíram sobre a pulseira Coração do Oceano em meu pulso. Uma joia com um núcleo mágico que me mantinha viva. Ela podia curar meu corpo, mas não podia consertar meu coração partido.
A televisão então mostrou Leila, minha melhor amiga e sócia, elogiando nosso amor em uma entrevista antiga. "Eles são a prova de que o amor verdadeiro supera tudo," ela disse, sorrindo. A ironia era um soco no estômago.
Eu, a garota sem nada, que arriscou tudo para salvar o homem que amava. Eu o salvei do calabouço, do cativeiro, de uma morte certa. Eu, que recebi a maldição, a doença que agora me consumia, em seu lugar.
Essa maldição... ela estava finalmente me cobrando. Três meses. Só isso que me restava.
A dor não era apenas física; era uma dor que rasgava a alma, alimentada por uma fúria crescente. Ele e Pâmela. Eles seriam felizes depois que eu me fosse? Viveriam suas vidas como se eu nunca tivesse existido?
Um sorriso amargo contorceu meus lábios. Não. Ele não teria essa paz. Ele não teria esse final feliz.
Não vou contar a ele sobre a doença. Em vez disso, Fabrício, você vai pagar. E Pâmela, você também.
Íris Lisboa POV:
Era madrugada. O cheiro de Fabrício misturava-se ao perfume doce de Pâmela quando ele deslizou para a cama, esperando que eu estivesse dormindo. Seus passos eram silenciosos, mas meu coração, acelerado e fraco, sentia a cada movimento.
Ele se deitou, depois de um longo banho, e virou-se para mim. "Íris?", ele murmurou, a voz carregada de uma culpa forçada. "Está acordada?"
Abri os olhos, virando a cabeça para encará-lo. "Sempre à espera, Fabrício," eu disse, minha voz um sussurro frio. O quarto estava escuro, mas a luz da lua entrava pela janela, revelando o contorno de seu rosto.
Ele suspirou. "Eu sinto muito por ontem. A reunião se estendeu mais do que o previsto." Ele estendeu a mão, hesitante, para tocar meu rosto.
Eu desviei. "O jantar esfriou. E os sonhos também," minha voz era suave, quase imperceptível, mas as palavras eram lâminas.
Fabrício hesitou. "Eu... eu sei que falhei. Mas eu vou compensar. Prometo." Ele parecia aliviado, como se minhas palavras não tivessem perfurado sua armadura.
"Descanse, Fabrício," eu disse, virando-me de costas para ele. "Você deve estar exausto."
Ele não percebeu a ironia, a frieza cortante por trás da minha 'gentileza'. Ele apenas suspirou de novo, e logo ouvi o ritmo de sua respiração se acalmando. Ele dormiu.
Enquanto a respiração dele se tornava mais profunda, eu me levantei. Peguei uma caneta e um papel da minha escrivaninha. Minhas mãos tremiam, e as primeiras palavras escorreram para a folha, manchadas por uma lágrima solitária. A primeira carta.
"Querido Fabrício, este é o primeiro de muitos sussurros do túmulo..."
Na manhã seguinte, levantei antes do sol. O cheiro de café fresco preencheu a cozinha enquanto eu passava as roupas dele. A camisa que ele usaria para o escritório, as calças que se ajustavam perfeitamente ao seu corpo. Cada movimento era um ato de amor e, agora, de vingança.
Fabrício desceu as escadas, surpreso ao me ver já em pé. "Íris? Você está acordada tão cedo?"
"Eu sempre fui a primeira a levantar para você, Fabrício," respondi, dobrando a camisa. "A primeira a cuidar de você. A primeira a estar ao seu lado."
Ele me abraçou por trás, seu queixo apoiado no meu ombro. "Eu sei, meu amor. Você é a mulher mais dedicada que eu já conheci." Meu coração, fraco, acelerou com o toque, uma traição do meu próprio corpo.
Empurrei-o suavemente. "Vá tomar seu café. Preparei o seu favorito." Eu precisava de espaço. Precisava que ele não sentisse meu corpo tremer.
Ele sorriu, o sorriso de um homem que tinha tudo. "Você é perfeita, Íris."
Perfeita? Que piada amarga.
Servi o café e o pão com queijo que ele tanto gostava. Ele comeu apressadamente, elogiando cada mordida. "Lembro-me da primeira vez que você fez isso para mim, Íris. Naquela cabana na floresta, quando tínhamos apenas um ao outro."
Eu sorri, um sorriso que não alcançava meus olhos. Minha mente já estava longe, traçando os próximos passos. A máscara era pesada, mas eu a usaria até o fim.
Quando ele estava pronto para sair, eu o acompanhei até a porta. Dei-lhe um beijo casto na bochecha. "Tenha um bom dia, meu amor."
Ele se virou, já descendo os degraus, quando eu vi. Uma pasta fina, escorregando do bolso de seu paletó, pousando no chão. "Fabrício, você esqueceu seus documentos!"
Minha primeira intenção foi chamar o mordomo para entregar a pasta. Mas então, uma ideia se acendeu na minha mente. Era uma oportunidade. "Não, eu mesma levo. Preciso esticar as pernas."
O mordomo parecia surpreso, mas eu já estava no carro, dirigindo em direção ao escritório de Fabrício. No caminho, ouvi conversas sussurradas. "Pobre Íris. Ela parece tão frágil. Como Fabrício aguenta?" "Dizem que a outra, Pâmela, é muito mais vibrante, mais adequada para ele agora."
Ignorei os olhares e os sussurros, minha expressão impassível. Cheguei ao prédio colossal que Fabrício havia construído. Subi no elevador particular até o último andar.
Quando as portas se abriram, ouvi. A voz de Pâmela. Melodiosa, risonha, vindo da sala de Fabrício.
"Fabrício, querido, os relatórios da Íris são sempre tão... precisos. Ela realmente tem um talento para organizar as coisas, não é?"
A voz de Fabrício soou complacente. "Sim, Pâmela. Íris é incrivelmente eficiente. É uma pena que ela... uh... não esteja mais tão ativa na empresa."
Então ouvi a voz de Maurício. "A senhora Lisboa sempre foi um pouco frágil. Pâmela, com todo o seu vigor e mente estratégica, seria uma parceira de negócios muito mais formidável."
Denis, o outro sócio, concordou. "Exatamente. As doces habilidades da Íris são encantadoras, mas o mundo dos negócios é para tubarões, não para peixinhos indefesos."
Eu esperei. Esperei que Fabrício os repreendesse, que defendesse a mim, sua companheira. Mas o silêncio dele foi a resposta mais cruel de todas.
Ele não disse uma palavra.
Minhas mãos tremeram. A pasta escorregou dos meus dedos, caindo no chão com um baque surdo.
A risada coletiva preencheu a sala. Eles estavam rindo de mim. Fabrício estava rindo comigo.
Naquele instante, meu celular vibrou. Uma mensagem de Fabrício: "Não vou para casa esta noite, meu amor. Tenho muito trabalho."
A escuridão me engoliu. O chão desapareceu sob meus pés. Minha visão escureceu. O último que ouvi foi o som do meu próprio corpo caindo.
Íris Lisboa POV:
"Íris! Íris, você está bem?"
A voz de Fabrício me trouxe de volta. Abri os olhos, a luz do teto do que parecia ser uma enfermaria corporativa piscando. Ele estava curvado sobre mim, os olhos cheios de uma preocupação que parecia... ensaiada. Seus braços me ergueram gentilmente, e o perfume de Pâmela, ainda impregnado em sua roupa, me atingiu como um soco no estômago.
"Fabrício," eu murmurei, minha voz fraca.
"O que você estava fazendo aqui?", ele perguntou, me aninhando em seus braços. "Você me assustou, meu amor."
"Vim trazer seus documentos," eu disse, a mentira escorregando fácil da minha língua. "Você os esqueceu em casa."
Ele assentiu, beijando minha testa. "Minha Íris, sempre tão atenciosa. Você precisa descansar. Não se esforce tanto."
Eu me afastei delicadamente. "Vi Pâmela aqui hoje. Ela... ela estava aqui?"
Ele enrijeceu. Aconteceu tão rápido que, se eu não estivesse prestando atenção, teria perdido. "Pâmela? Não, claro que não. Ela estava apenas... deixando alguns documentos para Maurício." A mentira escorreu de sua boca com uma facilidade alarmante.
Olhei para ele, meus olhos fixos nos seus. "Oh. Entendi." Eu o fiz acreditar que eu acreditei.
"Você é a única para mim, Íris. Sempre. Pâmela é passado." Ele tentou me beijar, mas eu virei o rosto, fingindo estar exausta demais.
Meu celular vibrou. A mesma melodia de antes. Fabrício me olhou, seu rosto contorcido em uma leve carranca. "Preciso ir, meu amor. Assuntos urgentes."
"Fique," eu pedi, minha voz pequena. "Por favor."
Ele hesitou por um momento. "Eu... eu não posso, Íris. É importante para o negócio. Eu volto logo." E com isso, ele se foi, deixando-me sozinha com o cheiro persistente de seu perfume misturado ao dela.
Assim que a porta se fechou, eu pulei da cama, arrancando o soro do meu braço. A agulha rasgou minha pele, mas a dor física era insignificante comparada à dor que sentia em minha alma.
Meu corpo estava fraco, meus pulmões ardiam, mas uma determinação gelada me impulsionava. Eu tinha que ver. Tinha que confirmar.
Segui Fabrício.
Ele dirigiu até uma área isolada da floresta, um lugar que costumávamos ir quando éramos apenas um lobo e uma garota. O carro parou. E lá estava ela. Pâmela.
Ela estava abraçada a Fabrício, seus lábios nos dele. "Meu Fabrício," ela sussurrou, a voz carregada de falso afeto. "Você não sabe o quanto eu ansiava por seus braços."
Fabrício a apertou. "Você é a única, Pâmela. Íris é... uma conveniência. Uma relíquia do passado."
Meu mundo desabou. Eu ouvi isso. Com meus próprios ouvidos. 'Uma conveniência'.
Meu corpo congelou. Eu me lembrava de Fabrício me defendendo, furioso, quando outros o chamavam de 'lobo selvagem' e me desprezavam por ser apenas uma humana comum. Ele sempre disse que eu era sua força, seu coração.
Mas agora, eu era apenas uma conveniência.
A raiva me deu um pico de energia. Eu cambaleei de volta para o carro, o coração batendo dolorosamente contra minhas costelas. A humilhação, a traição me consumiam.
Voltei para casa e entrei na minha sala de confeitaria, o único lugar onde eu me sentia segura. Minhas mãos, há apenas algumas horas tremendo de dor, agora estavam firmes, cheias de um propósito cruel.
Peguei uma nova folha de papel. A segunda carta.
"Fabrício, você se lembra daquele dia na floresta? Eu me lembro..."
No dia seguinte, fui ao joalheiro. Lá estava a pulseira Coração do Oceano, a joia que Fabrício me deu. "Quero vendê-la," eu disse, a voz firme.
O joalheiro, um homem idoso e respeitoso, olhou para mim, chocado. "Senhora Lisboa, essa pulseira... é única. Seu valor é inestimável, não apenas pelo ouro e as pedras, mas pela tecnologia nela."
"Eu sei," eu disse, meus olhos fixos nos dele. "Preciso do dinheiro. E preciso que seja hoje. Agora."
Ele hesitou, mas a determinação em meus olhos o fez ceder. Ele me fez uma oferta que era mais do que generosa. Eu assinei os papéis sem olhar para trás.
Quando voltei para casa, ele estava lá. Sentado na sala de estar, me esperando. "Íris! Onde você estava? Por que saiu do hospital sem me avisar?" Seus olhos varreram meu pulso, e eu vi o choque em seu rosto quando ele notou a ausência da pulseira.
"Eu precisava de ar," eu disse, minha voz calma. Observei-o, esperando sua reação.
"E a pulseira? Onde está o Coração do Oceano?", ele perguntou, a voz subindo uma oitava.