Minha vida era um conto de fadas, ou assim eu pensava, planejando meu casamento com João, o homem que eu amava acima de tudo.
Então, o telefone tocou. Pedro, o melhor amigo de João, com a voz embargada, anunciou o impensável: "O João foi sequestrado! Eles querem um resgate enorme!"
Na minha vida passada, essa ligação me jogou num abismo. Eu vendi a casa que minha mãe me deixou, minhas economias, tudo. Salvei João, só para vê-lo chegar em casa de mãos dadas com Lúcia, me humilhando, me chutando para fora da minha própria vida.
Eles usaram meu dinheiro para prosperar, enquanto eu virava motivo de piada, a "louca que perdeu tudo por um cafajeste". Terminei aleijada, muda, morrendo sozinha, por ter salvado Lúcia de um caminhão desgovernado.
Eu odiava o João, a Lúcia, e a mim mesma por ter sido tão cega. Por que diabos eu tinha que passar por tudo aquilo? Por que tanto sofrimento por um amor que nunca existiu?
Mas agora, eu estava de volta. No meu quarto de estudante, com minhas pernas, minha voz, e a ligação de Pedro no celular. Desta vez, eu não vou salvá-lo.
Desta vez, eu não vou salvá-lo.
Essa promessa ecoava na minha cabeça, uma sentença final para uma vida de dor.
João e Lúcia, se preparem, porque a dívida de sangue da vida passada será paga nesta.
Eu sou Maria.
Ou talvez, eu devesse dizer, eu voltei a ser Maria.
Uma frase que ninguém entenderia, mas que para mim, era a mais pura verdade.
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O cheiro de mofo e poeira do meu antigo quarto de estudante invadiu minhas narinas, uma sensação tão real que me fez tremer. Eu olhei para as minhas mãos, jovens, sem cicatrizes, cheias de vida. Olhei para as minhas pernas, fortes e capazes, firmemente plantadas no chão de madeira gasto.
Eu estava viva. Eu estava inteira.
O calendário na parede marcava o dia 23 de outubro. O dia em que tudo começou. O dia em que, na minha vida passada, eu corri como uma louca para salvar o homem que eu amava, apenas para ser empurrada para um abismo de desespero por ele.
O telefone tocou, estridente, quebrando o silêncio do quarto. O nome na tela fez meu estômago revirar: "Pedro".
Amigo de João. E, na minha vida passada, um dos que me julgou com mais dureza.
Eu respirei fundo, sentindo o ar encher meus pulmões. Uma sensação que eu não tinha há anos. Na minha vida anterior, depois do incêndio, cada respiração era um esforço doloroso.
Eu atendi.
"Maria! Graças a Deus você atendeu!" A voz de Pedro era puro pânico, exatamente como eu me lembrava. "O João... ele foi sequestrado! Os sequestradores ligaram, eles querem um resgate enorme! Você precisa nos ajudar, Maria! Você é a única que pode..."
Na minha vida passada, essas palavras me jogaram em um desespero cego. Eu vendi a casa que minha mãe me deixou, juntei todas as minhas economias, pedi dinheiro emprestado a todos que conhecia. Tudo por ele.
Desta vez, um sorriso frio se formou nos meus lábios.
Eu deixei Pedro terminar sua súplica desesperada. O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de expectativa.
"Maria? Você está aí? Fale alguma coisa!"
Minha voz saiu calma, firme, sem um pingo da emoção que ele esperava.
"E daí?"
Pedro ficou mudo por um segundo. "O quê? Como assim 'e daí'? É o João! Seu noivo! Ele está em perigo de vida!"
"Ele não é meu noivo", eu disse, cada palavra cortando o último fio que me ligava àquela vida estúpida. "E o que acontece com ele não é problema meu."
"Você ficou louca?", ele gritou do outro lado da linha, sua voz cheia de incredulidade e raiva. "Como você pode ser tão fria? Nós não temos tempo para suas briguinhas de casal! A vida do João está em jogo!"
Eu me lembrava da cara dele no hospital, depois que eu perdi minhas pernas para salvá-lo. O desprezo em seus olhos quando ele me disse: "Maria, olhe para você. Você é um fardo. O João merece alguém melhor, alguém inteira".
Alguém como Lúcia.
A lembrança era como um fantasma gelado, mas não me causava mais dor. Apenas uma raiva fria e calculista.
"Pedro", eu disse, minha voz tão baixa que ele teve que se calar para ouvir. "Escute bem. Eu não vou dar um único centavo. Eu não vou mover um único dedo. Se o João vive ou morre, para mim, não faz a menor diferença."
E com isso, eu desliguei.
Eu olhei para o telefone na minha mão e, sem hesitar, bloqueei o número de Pedro. Depois, o de João. E o de Lúcia. Um por um, eu deletei todos os contatos que me traziam más lembranças.
Era um novo começo. E desta vez, eu viveria por mim mesma. O destino de João estava selado, e eu seria apenas uma espectadora.
A memória da minha vida passada não era um sonho, era uma ferida aberta.
Eu me lembrava de tudo com uma clareza aterrorizante.
Depois que eu paguei o resgate de João, ele foi libertado. Eu o esperei em casa, exausta, mas aliviada. Eu tinha perdido tudo, mas tinha ele de volta. Ou assim eu pensava.
Ele chegou em casa não com gratidão, mas com Lúcia a seu lado.
"Maria", ele disse, sem sequer olhar nos meus olhos. "Eu e Lúcia estamos juntos. Ela ficou do meu lado durante todo o sequestro, me deu apoio emocional. Você... você só sabe resolver as coisas com dinheiro. É tão vulgar."
Lúcia me olhou com um sorriso vitorioso. "Maria, eu sei que é difícil para você, mas o amor não pode ser forçado. O João precisa de alguém que o entenda de verdade."
Naquele dia, eles me expulsaram da casa que eu comprei com o dinheiro da herança da minha mãe. A casa que eu decorei pensando no nosso futuro.
Eu fiquei sem nada. Sem dinheiro, sem casa, sem noivo.
A humilhação foi só o começo. João e Lúcia usaram o resto do meu dinheiro para começar um negócio. Eles prosperaram. E eu? Eu virei motivo de piada. "A ex-noiva tola que deu tudo por um homem que a desprezava."
Eu tentei recomeçar. Consegui um emprego simples, aluguei um quarto minúsculo. Mas a sombra deles me seguia. Onde quer que eu fosse, as pessoas cochichavam. Pedro e os outros "amigos" de João espalharam a história de como eu era "pegajosa" e "materialista", e como João finalmente tinha se livrado de mim.
A dor e o estresse me consumiram. Minha saúde piorou. Mas eu continuei. Eu era uma lutadora. Eu tinha aprendido capoeira na adolescência, não por diversão, mas para me proteger, e essa disciplina me manteve de pé.
O ponto final da minha tragédia aconteceu três anos depois.
Eu estava trabalhando como entregadora para uma pequena lanchonete. Em uma noite chuvosa, eu vi o carro de João parado no acostamento. Lúcia estava do lado de fora, parecendo desesperada. Um caminhão desgovernado vinha na direção dela.
Meu primeiro instinto foi ignorar. Mas então, a parte estúpida e compassiva de mim, a Maria que ainda não tinha morrido completamente, assumiu o controle.
Eu joguei minha moto no chão e corri. Empurrei Lúcia para fora do caminho.
O caminhão me atingiu em cheio.
A última coisa que eu vi foi o rosto de João. Ele não estava olhando para mim, a mulher que o salvou duas vezes e que agora morria por causa da amante dele. Ele estava abraçando Lúcia, confortando-a, protegendo-a dos destroços.
Eu não senti a dor do impacto. Senti apenas o frio cortante da traição final.
Eu acordei no hospital. O cheiro de antisséptico era avassalador. Um médico com um rosto triste me deu a notícia.
"Sinto muito, senhorita. Tivemos que amputar suas duas pernas. E o incêndio causado pelo acidente... suas cordas vocais foram danificadas. Você talvez nunca mais fale."
Muda e aleijada.
João e Lúcia me visitaram uma vez. Eles não entraram no quarto. Ficaram do lado de fora, olhando através do vidro. Eu podia ler seus lábios.
"Ela está horrível", disse Lúcia, com uma careta. "Dá pena."
João suspirou. "É o destino dela. Pelo menos agora ela não vai mais nos incomodar. Vamos, querida. A visão dela está me dando náuseas."
Eles foram embora. E nunca mais voltaram.
Eu passei os dois anos seguintes em uma cama de hospital, um fardo para a minha tia Sofia, a única pessoa que ficou ao meu lado. Ela era policial, uma mulher forte, mas eu via o cansaço em seus olhos. Eu era um poço sem fundo de despesas e tristeza.
Eu morri em uma noite fria e solitária, olhando para o teto manchado do hospital, com o coração cheio de um ódio tão profundo que era a única coisa que eu ainda sentia. Eu jurei que, se houvesse outra vida, eu nunca mais seria a tola. Eu faria cada um deles pagar.
E então, eu abri os olhos.
E eu estava de volta. No meu quarto de estudante. Com minhas pernas, minha voz e uma segunda chance.
O telefone tocando, Pedro gritando, o sequestro de João.
Não era um sonho. Era uma oportunidade.
A oportunidade de assistir ao show. Desta vez, da primeira fila, com um sorriso no rosto. Desta vez, a tragédia não seria minha.