Era uma tarde comum, Luana estava ansiosa para chegada de Pedro seu namorado, ela tinha uma grande surpresa para ele.
Estavam juntos faziam 8 meses, os 8 meses mais intensos de sua vida. Quando conheceu Pedro, Luana tinha certeza que havia encontrado o amor. Ele era carinhoso, lhe dava flores, e sempre estava disposto a estar com ela. Mas com o passar dos meses as coisas foram mudando. Pedro começou a tratá-la mal e ela não sabia o que havia acontecido. Certa noite decidiu enfrentá-lo, essa noite foi a primeira vez que ele lhe deu um tapa no rosto.
A chamando de imbecil e dizendo que tudo que ele queria já havia conseguido, que era que ela se entregasse a ele. Ela não podia acreditar no que ouvia, o seu grande amor na verdade era um pervertido, que só queria sua virgindade. Naquela noite ela chorou muito, pensou que iria morrer.
Mas no dia seguinte Pedro estava na sua porta pedindo perdão. Como ainda o amava, aceitou suas desculpas e ficaram bem, até a próxima crise de violência dele.
Ela estava cansada disso já, planejava terminar com ele. Mas essa tarde, depois de algumas semanas com a menstruação atrasada, resolveu fazer um teste de gravidez, e para sua tristeza e alegria, deu positivo.
Quem sabe esse seja um bom motivo para Pedro mudar de vez, valorizá-la e amar seu filho. - Pensou ela.
Pedro chegou irritado, o que Luana tinha de tão importante que não podia falar por telefone?
Ao ver Pedro chegando Luana teve uma leve tontura, estava com medo de sua reação.
- O que você tem de tão importante pra me falar que não podia ser por telefone, Luana ?
- Bem ... eu...
- Vamos Luana, desembucha!
- Estou grávida! - Falou tudo de uma vez, antes que mudasse de ideia e fugisse para outra cidade.
- Não pode estar falando sério - Falou Pedro estreitando os olhos. Agarrou Luana pelo braço na mesma hora e disse: - Vamos agora mesmo a uma clinica tirar isso!
- O que? - Luana estava atordoada, não acreditando no que ouvia.
Puxou o braço e gritou: - NÃO!!! Não vou tirar meu bebê!
Pedro estava furioso. - Acha que quero um bebê seu? Eu sou muito novo, tenho apenas 26 anos, tenho minha vida pela frente. Ou você tira essa criança....
Luana interrompeu: - Não se atreva! Aceitei você por amor, mas vejo que estava enganada, você não vale nada! Pode ir, eu vou ter o meu bebê sozinha.
Assim que ouviu, Pedro bufou e saiu pisando firme, inconformado.
Nesse mesmo momento, um caminhão vinha vindo a toda velocidade, com raiva Pedro nem olhou para os lados e atravessou a rua.
Foi tudo muito rápido. O acidente foi terrível, Pedro voou e caiu na calçada, próximo a Luana, que em choque só gritava por socorro.
A ambulância chegou rápido, mediu a frequência de Pedro que estava fraca, Luana só pedia a Deus que ele não morresse. Era tudo culpa dela, como pode dizer aquilo? Devia o ter acalmado antes de deixa-lo ir, devia ter mandado ele entrar, ter oferecido um chá. O que seria dela? Estava sozinha no mundo. Os poucos amigos que tinha, haviam se afastado devido ao seu relacionamento com Pedro.
Agora estava se sentindo desesperada, preocupada, segurava as lágrimas que insistiam em rolar.
A enfermeira vendo o desespero de Luana perguntou - Qual o seu nome?
- Luana
- Ele vai ficar bem, está bastante machucado, mas estamos indo para o melhor hospital da cidade, lá farão o possível por ele.
- Obrigada! De verdade, espero que esteja certa.
Chegaram ao hospital com as sirenes ligadas. Nesse momento Luana sentia sua cabeça latejar de dor, suas têmporas pareciam pulsar a cada soar da sirene.
Desceu as pressas, andando atrás dos médicos que recebiam Pedro no hospital, em certo momento a pararam - Não pode entrar aqui moça, espere na sala de espera, logo traremos notícias.
Com passos arrastados, sem saber o que fazer Luana foi para a sala de espera, sentia seu coração bater tão forte que parecia que ia sair do peito.
Andava de um lado pro outro, pensando em como tudo isso foi acontecer. Devia ter se cuidado mais, devia ter terminado com Pedro antes de tudo isso acontecer, como foi burra, pensar que um rapaz lindo daquele se interessaria por ela. Sempre se achou bonita, mas não do tipo que viraria a cabeça de um homem. Pedro a fez acreditar que era amor, e ela tola acreditou.
Agora estava ali desesperada pela vida de um homem que não valia suas lágrimas, mas era uma vida, e ela se sentia culpada de seu acidente. Pois foi por sua discussão que ele saiu transtornado e nem olhou a rua antes de atravessar.
Já se passaram duas horas desde o acidente, e quase duas que tinham entrado naquelas portas, e nada de notícias de Pedro. O medo a corroía, como viveria sem Pedro? E seu bebê ? Nasceria sem pai?
- Não, não - sacudiu a cabeça afastando essas ideias. - Pedro sairá dessa. Vamos rir disso tudo daqui uns anos, mesmo que não estejamos juntos, poderemos ser amigos e criar nosso filho ou filha com amor.
Nesse momento uma enfermeira se aproxima: - Tudo bem moça?
- Sim , sim... desculpe estou falando sozinha... sabe noticias de Pedro Rodrigues? Entrou faz duas horas por aquelas portas e ninguém me diz nada.
A enfermeira mexeu no computador de serviço e respondeu: - Ele está em cirurgia. Logo devem vir lhe dar notícias.
- Ok, muito obrigada.
Luana se sentou em uma cadeira próxima ao balcão da enfermeira que havia lhe dado a informação. Respirou fundo e desejou acordar desse pesadelo. Nesse momento, das portas por onde Pedro havia entrado, saiu um médico. Luana pulou na frente dele
- Pedro, tem notícias de Pedro? Sofreu um acidente, foi atropelado - Luana falava rápido e com voz embargada.
O médico se aproximou, só nesse momento Luana viu seus olhos azuis. O azul mais profundo que já viu na vida, também viu cansaço neles, e teve medo.
- Olá, sou o Dr. Fábio Favaretto, fiz a cirurgia de Pedro. Como se chama ? Você é o que dele?
- Me chamo Luana, sou namorada dele. - Falou e na mesma hora pensou, que talvez fosse ex namorada dele. Bom, isso não importava agora - Como ele está Dr. ficará bem?
O médico fez uma cara de decepção: - Sinto muito Srta. Luana. Pedro não resistiu aos ferimentos e a cirurgia. Fizemos tudo que podíamos para salvá-lo.
Luana, sentiu suas pernas amolecerem, sua respiração falhou. Quando deu por si estava de joelhos chorando compulsivamente.
Fábio olhou para ela e não pode evitar sentir pena. Quando viu o homem chegar soube que não seria fácil salvá-lo mas não pensou ser impossível. Fez realmente tudo que pode, mas agora vendo aquela bela moça ajoelhada no chão, não pode deixar de se sentir mal. Não costumava agir assim, mas não pode evitar, se abaixou ao lado dela e disse: - Sinto muito mesmo. Venha sente numa cadeira.
Nesse momento, Luana olhou para aqueles azuis profundos e se sentiu segura, então sem que percebesse falava para aquele até então estranho - O que farei agora? O que faremos agora? - E levou a mão a barriga.
Naquele momento, Fábio percebeu o pequeno gesto que ela fez, e se preocupou um pouco mais. Ajudou-a a se levantar e a levou até uma cadeira um pouco mais afastada. Sentou com ela e a abraçou. Não sabia porque estava fazendo aquilo, mas sentia-se atraído por ela e ao mesmo tempo compadecido.
- Luana né? Por favor se acalme.
- Ele queria tirar meu bebê! Eu sabia que ele não aceitaria bem, mas estava tão nervosa que não pensei direito, devia ter esperado, devia tê-lo acalmado. Contei tudo de uma vez Doutor, ele ficou louco... - Lágrimas escorriam por seu rosto, seus soluços estavam sem controle. - Ele queria que eu abortasse... eu não podia deixar, ele ficou zangado e saiu sem olhar para os lados, foi minha culpa, ele foi atropelado por minha culpa...
Naquele momento o semblante de Fábio se escureceu. Como aquele canalha queria tirar o próprio filho do ventre dela e ela ainda chorava por ele?
- Eu queria deixar dele, mas não queria que ele morresse, eu só queria que meu filho pudesse também viver.
Fábio controlou a raiva que sentiu daquele por quem fez tudo para salvar ainda há pouco, pensou que até foi bom ele morrer, assim Luana teria paz e não sofreria mais. Não sabe porque se sentiu assim, mas tinha vontade de protegê-la e não deixar mais que sofresse tanto.
- Luana, sinto muito por tudo que passou, realmente ele estava errado. Não se culpe, ele quem teve responsabilidade pelo o que aconteceu. Ele tinha um temperamento ruim e isso causou seu descuido e seu acidente. Não foi sua culpa. - Falou com carinho para que ela não o entendesse errado.
- Estou completamente sozinha de agora em diante. Sozinha não, tenho o meu pequeno bebê comigo - Falou abraçando o próprio corpo.
- Não estão sozinhos Luana. estou aqui. - As palavras escaparam da boca de Fábio, que se surpreendeu com o que tinha dito. Onde já se viu, conhecia a moça a menos de meia hora e já estava prometendo que estaria com ela. Só podia ter perdido o juízo.
Era o que seu pai diria caso visse essa cena. Seu filho mais velho, bem sucedido, com 30 anos se engraçando para uma moça grávida de outro. Mas seu pai não poderia dizer mais nada, havia falecido há 1 ano de ataque do coração. Sua mãe não aguentou viver sem ele e morreu 3 meses depois. Os médicos disseram que ela desistiu de viver. Como podia? Morrer de amor? Ora bolas! Saiu de seu devaneio quando ouviu a voz de Luana.
- Muito obrigada Doutor. Aqui está o telefone dos pais de Pedro não quero vê-los, não diga que estive aqui com ele, não quero que tirem meu filho de mim. Não são boas pessoas. Já vou ir embora, mais uma vez muito obrigada - Disse com um sorriso triste.
- Ok Luana, farei sua vontade, mas peço que me espere por 15 minutos, estou terminando meu plantão. Trocarei de roupa e a levarei para casa. E por favor me chame de Fábio - Fábio estava apavorado com suas próprias palavras e comportamento.
- Oh! Obrigada Dou, digo, Fábio. Mas não é necessário, chamarei um taxi.
- De maneira nenhuma Luana, aceite minha gentileza, você ainda não está em condições psicológicas de sair por aí sozinha, levo você para sua casa. - Antes que ela pudesse recusar ele acrescentou - Precisa cuidar de seu bebê. - Sabia que havia jogado baixo, mas precisava cuidar dela, estar com ela... O que estava acontecendo com ele?
Luana por fim concordou, pensando que talvez fosse perigoso andar sozinha depois de tanto choro, estava se sentindo meio tonta também.
- Ok, muito obrigada.
- Me espere aqui logo volto. 15 minutos e estarei de volta.
Fábio saiu a passos largos, pensando em como pôde se esforçar tanto para convencer uma estranha a receber sua ajuda.
Ela era um pouco mais baixa que ele, mas ainda era alta, visto que ele tinha 1,90 de altura, batia em seus ombros, cabelos castanho escuro e olhos amendoados. Apesar das pálpebras estarem inchadas, podia-se notar os olhos grandes com longos cílios. Uma franja de lado caía sobre seu rosto, lhe trazendo mais charme.
Chegou a sala dos médicos, entrou no banheiro, tomou um banho rápido de 5 minutos, trocou de roupa e saiu apressado, sob os olhares curiosos de seus colegas, que sempre o viam tão contido e sério, pela primeira vez o viram com um semblante tão preocupado e distraído.
Fábio corria pelos corredores, pedindo licença, ansioso e temeroso de que Luana não estivesse o esperando.
Quando chegou na sala de espera e olhou para as cadeiras Fábio não viu Luana. Seu coração deu uma leve doída, queria saber mais sobre ela.
Então olhou para o balcão da enfermeira e viu-a. Era linda, apesar da roupa mais larga, podia-se notar as nádegas fartas e as pernas bem torneadas, sua blusa cor-de-rosa ajustava-se perfeitamente a cintura. Não pode deixar de invejar Pedro por ter tido ela nos braços. Caminhou devagar até ela, ao se aproximar, pode ouvi-la perguntando a enfermeira se tinha uma ginecologista para indicar. A enfermeira indicou Margarete, era a melhor que tinham.
- Luana? Podemos ir?
Luana se assustou com a voz próxima, e se virou num salto. Fábio sorriu de sua reação, mas não disse nada.
Luana, parou, olhou bem para aquele homem que estava sendo tão prestativo com ela, e reparou que Fábio era um pouco mais alto que ela, tinha a pele levemente bronzeada, cabelos loiros curtos, e aqueles olhos, eram um azul, não muito claro, mas que ia escurecendo como o fundo do oceano. Se pegou olhando a boca perfeita que ele tinha, que estava marcando um leve sorriso. Pode notar que havia trocado de roupa, trocou o jaleco e a caça branca, por uma camiseta polo cinza escuro, calça jeans preta e tênis esportivo. Seus braços era fortes e seu peito largo, bem diferente de Pedro que era todo magro, mais atlético. Pensando nisso voltou-se para seu rosto, agora sério e imaginou como seria tocar sua pele.
Nesse instante, Fábio acordou-a: - Luana, tá tudo bem? Quer que eu te examine pra ver se está tudo bem?
Luana ficou vermelha por pensar por onde seus pensamentos a estavam levando, pigarreou - Não, estou bem, só um pouco chocada ainda. Podemos ir sim, e mais uma vez muito obrigada.
Virou-se para a enfermeira agradeceu e se despediu.
Ao sair pela porta que entrou seu coração se apertou, Luana não sabia mais o que faria. Fábio estava sendo muito legal, mas não abusaria de sua boa vontade.
Pararam de frente a um lindo carro Civic prateado, Fábio abriu a porta para que Luana entrasse.
De repente ela parou, olhou pra ele e sorriu sem graça.
- Me desculpe, mas eu mal o conheço, como vou entrar no carro de um estranho?
Fábio não sabia de onde aquela mulher havia vindo, mas estava perplexo, nunca em sua vida uma mulher recusou entrar em seu carro. Respirou fundo, e disse: - Luana, sou médico desse hospital, estou apenas querendo levá-la para casa. Me preocupo com você. Apesar de nos conhecermos a pouco tempo, posso dizer que somos amigos.
Luana pareceu ponderar o que ele dissera. Sorriu e concordou.
- Somos amigos. - Entrou no carro, e colocou o cinto.
Fábio, agradeceu a Deus por ter usado as palavras certas, não queria perder a oportunidade de conhecer aquela mulher que tanto o fascinou.
Ao andarem pelas ruas, percebeu lágrimas nos olhos de Luana. Então resolveu conversar um pouco.
- Você disse que está sozinha, mas e seus pais? amigos?
Luana virou-se para ele e respondeu, agora com as lágrimas escorrendo:
- Eu fui deixada em um orfanato há 24 anos atrás. Não sei nada de meus pais. Tinha alguns amigos, mas eram poucos, pois quando saí do orfanato com 18 anos, só conhecia o pessoal de lá, e resolvi mudar de cidade e começar uma nova vida. Aqui fiz poucos amigos, e os poucos que tinha, Pedro afastou com seu ciúme. Mas tudo bem. Ficarei bem.
Fábio pensou um pouco, como podia ser a vida. Ele teve pais amorosos, que o amaram de todo coração. Ele e seu irmão mais novo Fernando, tiveram uma infância muito feliz. Apesar de seus pais terem falecido, ele tinha boas lembranças. Ele e seu irmão, decidiram que seriam solteiros para sempre. Na época era só brincadeira de adolescente, mas agora com 30 anos, já não sabia mais.
- Então Luana... pra onde vamos? Onde você mora?
Luana o guiou até seu apartamento. Era um bairro novo, ainda se formando na cidade, onde ela conseguiu um apartamento por um bom preço, e ele ainda tinha uma sacada, era no 5º andar, dava pra ver longe de sua sacada. Ela amava aquele lugar, que conseguir comprar com seu trabalho e esforço.
- Chegamos! - Ela disse por fim.
Fábio estava ansioso por ter de deixá-la
- Bom ... poderia me dar seu telefone? - Perguntou e trancou a respiração. Poxa vida, ela acabara de perder o namorado, ela não o entenderia mal? Mas ela disse que estava sozinha, não queria que se sentisse assim. Fábio tinha muitos amigos, além de sempre poder contar com seu irmão. Não podia imaginar o que era ser totalmente sozinho na vida.
Luana nem pensou: - Claro, somos amigos agora certo? - Deu seu número de celular a ele.
Fábio gravou seu número na agenda do celular, quando olhou para Luana ela ainda o olhava, mas seu olhar era triste e vazio, então nem pensou direito - Luana, sei que não está bem. Que tal jantarmos essa noite? Você pode entrar se trocar e vou te levar a um lugar muito bom que conheço, assim não ficará só pensando no que aconteceu hoje. Além do mais, acredito que você não tenha comido nada desde que tudo aconteceu.
Luana pensou um pouco, não queria abusar de Fábio, afinal ele já tinha feito muito por ela. Mas sabia que se ficasse em casa iria enlouquecer, talvez pudesse ligar para Carla, sua colega de trabalho. Com certeza ela lhe daria uma força. Era a única que insistia nela ainda.
- Muito obrigada Fábio, sei que você quer me ajudar, mas estou muito cansada, além do mais não quero lhe causar problemas, não quero interromper sua vida. Muito obrigada de coração. Você me tirou do fundo do poço hoje. Vi alguma esperança na vida que terei com o meu bebê.
Aquelas palavras fizeram o estômago de Fábio se contorcer. Ela achava que o incomodaria, e a vida com o seu bebê seria sem ele. Mas o que ele estava pensando? Ela estava grávida de outro homem.
A medida que pensava Fábio ficava mais confuso, não podia abandoná-la, ela tinha poucas pessoas para ajudá-la, pode perceber que era tímida. E não tentou agradar ele como todas faziam quando sabiam que ele era médico cirurgião. Ela morava em um bairro novo, onde tinham boas pessoas, mas era um bairro modesto. Resolveu que insistiria e cuidaria mais um pouco dela.
- Então entrarei com você e pedirei algo para comermos aqui, assim podemos conversar mais um pouco e nos conhecermos. O que acha?
Luana não pode recusar, não depois de tudo que ele estava fazendo para ajudá-la.
Subiram em silêncio, até o 5º andar. O prédio não possuía elevador, apenas escadas. Enquanto subiam, Fábio pensava como ela subiria depois que a gravidez estivesse mais avançada. Enrugou a testa, pensando como convenceria Luana a trocar de casa.
Luana nem percebia seus pensamentos, o guiou até seu apartamento, apesar de serem 5 andares de subida, ela já havia se acostumado, que nem percebeu a mudança de semblante de Fábio.
Ela entrou e o convidou, ele entrou tentando não ser indiscreto, mas observou tudo ao seu redor, era um apartamento pequeno, mas bem cuidado, aconchegante e modesto, diferente do seu que era uma cobertura, que cabiam pelo menos 8 daqueles apartamentos.
- Aceita uma água, um chá, um suco ?
- Um chá. - Disse Fábio sorrindo para Luana, que se encontrava em sua pequena cozinha. Olhando pra ela, Fábio só conseguia pensar em como era linda, em como tinha um brilho. Como aquele idiota pensava em querer abortar um filho com ela? Qualquer homem daria tudo por um filho com ela.
Luana entregou uma xícara para ele com chá de cidreira, ela amava chá de cidreira, sentou-se no sofá e convidou-o a sentar-se também.
Fábio sentou e perguntou: - Então, me conte sobre sua vida ...
- Bom, me Chamo Luana da Silva. Não tenho pais que eu conheça, trabalho como bibliotecária na biblioteca municipal. Amo os livros, o cheiro que eles tem, se tem uma coisa que eu amo é o meu trabalho. - Luana falava com entusiasmo, até esquecia de seus problemas quando pensava em sua paixão, que eram os livros. Assim trabalhar em uma biblioteca era perfeito. Conseguira passar em um concurso logo que veio para a cidade, e desde então trabalhava na biblioteca, com horas extras conseguiu juntar dinheiro e dar uma boa entrada e comprar seu apartamento. Ganhava bem, e tinha um bom convênio médico. Não podia reclamar quanto a isso, a vida tinha sido generosa com ela.
Fábio ouvia tudo atento, interrompendo vez por outra para perguntar algo. Assim soube que ela tinha 24 anos, veio para cidade aos 18 anos e desde então morou sozinha, primeiro pagando aluguel de um kitnet, e por fim comprando seu apê. Pedro havia sido seu primeiro namorado a sério, soube que ele foi um tremendo canalha com ela, e isso o tirava do sério de uma forma que ele não conseguia nem explicar.
- Agora sua vez, me conte sua história. - Disse Luana
Fábio resumiu sua vida, que não era trágica, foi feliz, mas comum. Falou de seu irmão e seus pais. Nunca tinha se aberto com ninguém antes e falado de sua família. Já tivera várias namoradas mas nenhuma chegava ao seu coração. E seus amigos eram amigos de infância, ou de trabalho. Mas Luana era diferente ela passava sinceridade e vulnerabilidade para ele. Ele sentia a necessidade de fazê-la se sentir bem, e protegida.
De repente o celular de Fábio vibra, ele olha e fala: - Nossa janta chegou.
Luana se surpreendeu pois nem viu quando ele havia pedido o jantar.
Ele desceu sozinho e pegou a janta, chegou com quatro sacolas cheias. Nesse momento Luana pediu licença e foi para o quarto, tomou um banho rápido e se trocou, enquanto Fábio arrumava as coisas na mesa.
Quando ela saiu do quarto, viu a mesa cheia e o cheiro estava ótimo, pensou que estava sem fome, mas ao sentir o aroma, sentiu sua barriga roncar.
Foi para mesa e se sentou ao lado de Fábio, que estava hipnotizado, olhando a bela mulher que saiu do quarto. Depois da conversa que tiveram, ela relaxou um pouco. Voltou do banho com os cabelos molhados e uma roupa mais leve, uma calça azul e outra blusa cor-de-rosa. Ela ficava linda de rosa, pensou ele.
Quando viu que ela o encarava, tossiu e disse: - Vamos comer?
Ela sorriu e começou a se servir, conversaram mais durante o jantar sobre assuntos amenos, coisas que gostam, músicas que costumam ouvir, tipos de filmes. Foi um jantar tranquilo e prazeroso.
Quando pararam de comer satisfeitos, Luana o olhou se levantou puxou-o pelas mãos e o abraçou.
Sentir o toque dela quase o enlouqueceu, sentir seu membro enrijecer na hora, deu uma leve afastada para que ela não sentisse. Ela afundou em seu peito e agradeceu, agradeceu de novo e de novo. Fábio não aguentava mais, sentir aquele perfume suave que vinha de seus cabelos e de sua pele. Então se afastou, olhou-a nos olhos e sorriu, ela sorriu de volta.
Sem esperar pelo que viria a seguir, Luana sorriu para Fábio que se abaixou suavemente e lhe tocou os lábios. Ela deu um pulo para trás o encarando incrédula.
Fábio praguejou baixinho. Não acreditava que não tinha resistido aqueles lábios. Estavam tão perto, tão convidativos, e aquele sorriso, foi o que acabou com o juízo e controle dele.
Ele passou as mãos nos cabelos: - Me desculpa Luana, por favor, eu, eu... não sei o que aconteceu comigo. Por favor me perdoa. - Fábio a encarava desesperado e esperançoso.
- Tudo bem Fábio, foi um dia longo. Eu preciso descansar. Obrigada por tudo mas é melhor você ir embora.
- Ok, mais uma vez me desculpe Luana.
Fábio saiu sem olhar pra trás precisava pensar. O que ele estava fazendo?
Já fazia uma semana desde o dia em que Fábio tinha beijado Luana. Ele não conseguia tirá-la da cabeça, mas decidiu dar um espaço a ela, afinal ela recém tinha perdido o namorado, e apesar de ele ser um canalha, ela esperava um filho dele.
Mas hoje ele estava decidido, iria ligar para ela, e marcar um jantar. Quem sabe ela o havia perdoado daquele beijo inesperado. Estava começando seu plantão e a emergência já estava lotada. Era verão, mas também época de tempestades. Logo cedo podia-se notar as nuvens escuras no céu, com certeza viria uma forte tempestade.
Era cirurgião, o melhor que tinha no hospital, se orgulhava disso, mas em dias como hoje, todos eram iguais e iam para a emergência ajudar. A forte tempestade começara fazia menos de meia hora, e já estavam lotados, um engavetamento de carros ocorreu devido a queda de uma árvore em uma avenida, e havia deixado muitos feridos.
Luana estava ansiosa em seu apartamento, já fazia uma semana desde que Fábio havia saído pela sua porta. Ela precisava pensar, mas já estava nervosa. Ele havia sido tão legal com ela, mas será que era apenas interesse? Será que só queria se aproveitar dela naquele momento difícil? Estava remoendo isso na mente, quando lembrou dos olhos dele, aqueles doces e penetrantes olhos azuis. Não, ele não faria isso, ela também sentiu atração por ele, mesmo estando em um momento como aquele. Foram as emoções que os descontrolaram.
Soube quando ligou para o hospital no dia seguinte ao acidente que os pais de Pedro haviam ido lá e organizado tudo para o funeral. Não haviam ido atrás dela depois de uma semana, isso queria dizer que não sabiam dela, e isso era o melhor. Resolveu sair de casa, para aliviar a tensão. Havia pedido licença no trabalho para se recuperar uns dias, tinha umas férias vencidas e aproveitou para tirar 15 dias de folga.
Sorriu para si mesma, alisando a barriga, ainda reta, daqui há 10 dias teria sua primeira consulta com a ginecologista, estava animada, por fim teria uma família de verdade, um pedacinho seu.
Se arrumou cuidadosamente, colocou um par de sandálias baixas, um vestido floral que ia até os joelhos, prendeu seu cabelo longo em um rabo de cavalo e passou uma leve maquiagem.
Depois de tantos dias em casa, precisava se reerguer e encarar a vida de frente. Durante o tempo que esteve com Pedro não havia comprado nada pra ela, então hoje, decidiu que iria comprar roupas novas. Isso mesmo, para uma nova fase na vida, ela precisava de novas roupas. Sorriu satisfeita com o que viu no reflexo do espelho. Pegou sua bolsa, e um guarda chuva, já que as previsões climáticas diziam que iria chover.
Saiu de seu prédio, olhou o céu nublado e quase voltou pra casa, mas não, ela tinha que aliviar a cabeça, e nada melhor que um passeio. Tentou chamar um taxi, mas pelo visto estavam todos atendendo pessoas com medo da tempestade que vinha se aproximando. Respirou fundo e resolveu andar um pouco. O shopping era um pouco longe de seu bairro, mas uma caminhada lhe faria bem. Afinal, se começasse a chover no caminho, pararia e tentaria chamar um taxi novamente.
Já no meio do trajeto, Luana se sentia cansada, devia ser pelo calor excessivo ou pelo início da gravidez. Andou mais um pouco e a chuva começou forte, com rajadas intensas de ventos, ela corria com seu guarda chuva, pensando em como fora tola em sair a pé com um tempo daqueles. Correu por duas quadras sem encontrar nenhum local aberto para se proteger. De repente sem se dar conta, uma árvore estava caindo, correu para o lado para se desviar, mas foi atingida por um carro que também se desviava da árvore.
Luana não sabia direito o que estava acontecendo, só lembrava de estar correndo da chuva, e agora ouvia gritos, barulho de sirenes, mas não conseguia se mexer nem abrir os olhos.
Fábio estava atendendo um senhor que acabara de chegar, o senhor chorava desesperado, contando que atropelou uma moça. Perguntava como ela estava, se estava bem. Fábio tentava acalmá-lo:
- Calma senhor, ela deve estar bem, se não está vai ficar, ela veio para o melhor hospital da cidade, além do que não soube de mortes ou casos graves do acidente.
ATENÇÃO DR. FÁBIO FAVARETTO COMPARECER A SALA DE EMERGENCIA TRAUMA 2
ATENÇÃO DR. FÁBIO FAVARETTO COMPARECER A SALA DE EMERGENCIA TRAUMA 2
O autofalante chamava Fábio insistentemente, Fábio se desculpou com o senhor e foi a sala que o chamavam.
Ao entrar na sala, paralisou. Era ela, era Luana. Estava com um vestido florido rasgado, faziam compressões violentas nela pois estava com parada cardíaca. Ele não conseguia entender o que estava acontecendo, como Luana foi parar lá naquele estado? Ouvia os médicos o chamando mas não conseguia se mover. Um desespero tomou conta de seu coração. Poderia perdê-la sem ao menos tê-la?
Os médicos o encaravam preocupados e perguntavam se estava tudo bem. Ele ficou parado, sem conseguir responder. Outro médico mais experiente chegou e começou a dar ordens e comandos, encaminhando Luana para a sala de cirurgias.
Dr. Arthur Gonçalves o olhou nos olhos e falou de modo sério e rápido: - Está tudo bem? pode realizar a cirurgia? Ela foi atropelada no acidente que aconteceu pela queda da árvore, esta com hemorragia interna, precisamos parar o sangramento.
Fábio ouvia desesperado, até que respondeu: - Ela está grávida. Não consigo... precisam salvá-la, e seu bebê... - Estava ficando pálido.
Arthur chamou uma enfermeira para ajudar Fábio. Olhou nos olhos do amigo que conhecia a tanto tempo, viu insegurança e medo. Nunca havia presenciado o amigo nesse estado, nem mesmo quando descobrira da morte de seu pai. Ele sempre era contido, alegre e profissional. Sentiu pena do amigo e garantiu: - Vamos salvá-la!
Uma enfermeira, acompanhou Fábio até a sala dos médicos, ofereceu um copo de água, que ele pegou em modo automático. Nunca pensou que pudesse se apaixonar tão rápido, por uma desconhecida, vivendo uma bagunça. Nunca quis sofrer como sua mãe e perigar morrer de amor. Ele sempre saia com mulheres legais, mas dessa vez era diferente. Ele sentia que precisava estar com ela. Era mais forte que ele, mais forte que sua própria vontade. Não podia perdê-la... não podia.
Se levantou e correu para sala de cirurgias. Entrou e foi parado por um enfermeiro que o alertou que não podia entrar, podia ver pelo vidro da sala de residência cirúrgica, sem pensar duas vezes Fábio correu para a sala ao lado, precisava acompanhar a cirurgia de Luana, quem sabe suas orações surtiriam efeito.
Ao entrar lá, se arrependeu na mesma hora. Ela estava coberta com dois lençóis que lhe cobriam os peitos e a baixo da cintura. Os cirurgiões estavam a operando, não conseguia ver mais, as lágrimas escorriam por seus olhos. Ele havia prometido a si mesmo que a protegeria, que a faria feliz, e a deixou sozinha. Não ligou nem mandou mensagem, como pôde deixá-la sozinha... sentou em uma cadeira com as mãos no rosto. Quem o via nesse estado não acreditaria que ele era o mais forte médico daquele hospital, não acreditaria que a poucas horas atrás estava gargalhando com um paciente antigo. Ele se importava com as pessoas, mas nunca ultrapassava o nível profissional, não podiam se envolver assim. O que acontecera com ele?
Luana acordou com dor de cabeça, abriu os olhos e viu uma luz branca, estava em um hospital. Como fora parar ali. Sua cabeça latejava, levou a mão na cabeça com dificuldade. Uma enfermeira entrou na sala sorrindo:
- Tudo bem Srta. Luana. Me chamo Melissa, como está se sentindo?
- Com dor de cabeça. O que aconteceu? Porque estou neste hospital?
- Bem a senhora sofreu um acidente, foi atropela no meio de uma tempestade.
Enquanto a enfermeira falava Luana via as lembranças voltando, as sirenes, os médicos gritando e correndo, não lembrava direito, mas sabia que foi grave.
- Enfermeira... - Tinha medo de perguntar, mas precisava saber. Respirou fundo e tomou coragem. - Meu bebê, está bem? Eu estou grávida, de poucas semanas. - Luana já começava a chorar, antecipando o que vinha a seguir.
Melissa ficou séria, lembrou que haviam feito de tudo, mas quando terminaram a cirurgia viram que a gravidez de Luana era ectópica, não havia o que fazer, o feto estava fora do útero, não tinha como sobreviver ali, além do mais poderia matá-la caso rompesse.
- Luana, vou verificar com o Dr. Gonçalves, só um momento. - E saiu do quarto.
Assim que a enfermeira saiu, Luana caiu no choro.
- Como isso foi acontecer? Porque eu decidi sair com aquele tempo. Oh como fui burra. Perdi meu bebêzinho sem nem ao menos ter a chance de saber se era menino ou menina.
- Luana...
Luana ergueu a cabeça e viu Fábio, olhar fundo, olheiras enormes, despenteado e barba por fazer. Com roupas normais, e um buquê de flores rosas na mão. Seu rosto denunciava sua preocupação. Seria com ela? Como? Mal se conheciam.
Ele se aproximou lentamente, segurou sua mão: - Que bom que você acordou. - Ele disse com um leve sorriso, mas seu olhar continuava triste.
- Fábio... obrigada por estar aqui, mas não precisa... - Fábio a interrompeu
- Precisa sim Luana. Você está aqui deitada nessa cama há 15 dias. Luana, 15 dias!!! - Ela pode ver as lágrimas em seus olhos e se surpreendeu, ele estava realmente preocupado com ela.
- Eu não durmo direito, não como, não vou pra casa. Eu não acredito que você acordou e está bem... - Ele se ajoelhou na beirada da cama, beijava a mão de Luana e chorava.
Luana nunca imaginou aquela cena em sua vida. Como ele podia estar tão preocupado com ela? Tá certo que se sentiram atraídos um pelo outro, e que ele tentara beijá-la. Mas a ponto de se ajoelhar em sua cama...
Ela passou as mão naqueles cabelos lisos, pode sentir o aroma de pêra suave. Devia ser de seu shampoo, na outra vez que o vira, ela não conseguira nem prestar a atenção em seu cheiro...
- Fábio... - Uma voz interrompeu.
Luana ergueu a cabeça e encontrou um homem moreno, com uma barba bem feita e olhos pretos. Ele sorriu pra ela e disse.
- Luana, eu sou o Dr. Arthur Gonçalves. Cuidei de você esse período que esteve aqui.
Pigarreou e olhou para Fábio. Sabia que o amigo estava feliz por vê-la bem e acordada. Já o havia agradecido centenas de vezes por salvar a vida dela. Mas como ela ainda não acordava ele não parava de sofrer. Não sabia como tinham se conhecido, nem se o filho que ela ia ter era dele, ficou com receio de perguntar.
Olhando para Fábio pode ver que o amigo estava com os olhos vermelhos, mas havia algo mais que ele não soube identificar na hora.
- Fábio, preciso conversar com Luana, poderia nos dar licença? - Sabia que estava correndo risco de magoar o amigo, mas não sabia a relação deles e se podia falar na frente dele. Esses últimos dias Fábio mal saía daquele quarto, e ele teve que cobrir seus plantões, então não tiveram tempo de conversar.
- Não vou sair Arthur!
- Tudo bem pra você Luana? - Arthur se direcionou a ela .
- Sim Dr. Gonçalves, pode falar! Fábio e eu somos amigos.
Fábio sentiu uma vertigem. Ele precisava esclarecer isso. Ele não a queria como amiga apenas, ele queria protegê-la, estar com ela, amá-la, fazê-la feliz para sempre. Teria de convencê-la! Pensando nisso Fábio olhou para o amigo que o encarava incrédulo.
Como podia Fábio estar a beira da loucura por uma amiga? Arthur estava confuso, mas decidiu não questionar nada e falar as notícias que tinha.
- Luana, você correu grande risco de vida. - Respirou fundo. - Fizemos de tudo para salvar você e seu bebê.